Um pormenor que cada vez se torna mais perceptível, mesmo à medida que as histórias de Astérix se tornam mais sofisticadas, é que Goscinny continuará a nem sempre planificar de antemão a evolução dos seus argumentos para que coubessem nas 44 pranchas canónicas para os álbuns de BD deste género. Já o havíamos assinalado com A Volta à Gália e também neste caso d'Os Louros de César é evidente a compressão do ritmo dos acontecimentos no final das histórias para que tudo possa acabar com o tradicional banquete na página 44. Resta o indispensável para que o argumento flua e alguns gags, a ironia do gajeiro negro e o instinto quase sobrenatural de Júlio César. Por falar nesse aspecto, a associação do seu pensamento dever-se-á ao facto dos franceses utilizarem frequentemente o funcho para condimentar o peixe grelhado.
15 outubro 2017
14 outubro 2017
O MEU AMIGO PODE FAZER AS PERGUNTAS QUE QUISER...
Embora possa ser uma opinião minoritária, até há que admitir razões para que José Sócrates se tenha sentido incomodado com a pergunta que Vítor Gonçalves lhe endereça - Hoje, como é que o senhor vive, como é que o senhor paga as suas despesas? Descontada a exaltação, compreendo a resposta de José Sócrates (aos 0:12): - O que é que o senhor tem a ver com isso? O que eu já não compreendo é como toda aquela exaltação se esvai num minuto e de enfiada está a tratar o entrevistador por meu caro amigo (aos 1:22). Teria sido a ocasião mais propícia para que Vítor Gonçalves esclarecesse o seu entrevistado que era apenas um jornalista encarregue de o entrevistar. Responder-lhe qualquer coisa como: - Mas eu não sou seu amigo, estou aqui apenas para lhe fazer perguntas, algumas das quais já se percebeu que não gosta. É uma pena, mas compreende-se que tenha faltado a Vítor Gonçalves o espírito repentista para devolver a José Sócrates o distanciamento que ele impusera apenas um minuto antes. Afinal, Portugal é um país pequeno, não pode competir com outros países maiores que exibem entrevistadores com uma outra categoria. Mesmo assim, e observando o erro cometido com a referência à pensão (acima, aos 0:40, Gonçalves antecipou-se a Sócrates e deu a este último mais um bónus), creio que em Portugal há capacidade para encontrar entrevistadores mais qualificados do que Vítor Gonçalves...
QUANDO OS ADVOGADOS PRETOS DE WASHINGTON PASSARAM A SER IGUAIS AOS BRANCOS
14 de Outubro de 1958. Aquilo que equivalerá à Ordem dos Advogados do Distrito de Colúmbia (onde se situa a capital norte-americana de Washington) pronuncia-se favoravelmente quanto à aceitação de futuros membros de ascendência africana. O facto é tanto mais notável quanto mais de metade da população da cidade (à época, rondando as 750.000 pessoas) era de ascendência africana. E tanto mais notável também, porque o processo histórico de constituição dessa comunidade afro-americana de Washington a tornava distinta dos estados (esclavagistas) circundantes: o comércio de escravos fora proibido no Distrito desde 1850, e em 1861, quando da tomada de posse de Abraham Lincoln, entre 75 a 80% da população de ascendência africana da capital era composta por cidadãos livres. Nem mesmo essa génese distinta servira para atenuar as consequências da discriminação racial. Esta discriminação concreta para com os advogados negros na própria capital do país, que ainda se mantinha em vigor quase 100 anos depois da emancipação dos escravos promulgada por Lincoln, mostra à evidência o quanto a discriminação racial se perpetuava diante dos sucessivos presidentes que, depois dele, ocuparam a Casa Branca.
...A 9,98 O PAR
Agora que se aproxima o Outono será sempre boa ideia resguardá-los, necessariamente aos dois, que esta inventividade do marketing de adulterar os preços para os tornar mais atractivos tem vezes que resulta absurda. Qual o sentido de alguém se passear com um resguardado e outro desprotegido?...
13 outubro 2017
CENTENÁRIO DA SEXTA E ÚLTIMA APARIÇÃO DE FÁTIMA
Sábado, 13 de Outubro de 1917. Por uma última vez e dessa vez perante uma multidão que foi contabilizada em dezenas de milhares de pessoas, ter-se-á registado um fenómeno sobrenatural com o Sol. O que terá tornado o episódio ainda mais notório foi a presença entre a multidão de jornalistas propositadamente ali destacados para a cobertura do acontecimento - acima, a primeira página da edição de Segunda-Feira seguinte do matutino lisboeta O Século. Há tantas opiniões sobre Fátima que eu não sinto necessidade de ter alguma, presumo-me eclético a respeito do que aconteceu e aceito como plausível muito do que se diz sobre o assunto, tanto o que foi escrito pelo historiador passista Rui Ramos, como comentado pelo economista comunista Sérgio Ribeiro. Aqui, limito-me a assinalar o centenário do último acto dos eventos que têm hoje uma relevância social indiscutível.
Etiquetas:
100º Aniversário,
Filmes,
Filosofia e Religião,
Sociedade
OS LOUROS DE CÉSAR (42)
Confesso que, desde que li esta história pela primeira vez, me intrigou a questão da permuta da coroa de louros pela coroa de funcho. Se haveria algum significado mais profundo na escolha do funcho como substituto do louro, para além das disponibilidades momentâneas da despensa do taberneiro. Segundo vim a descobrir muitos anos depois, já nesta era da internet, a coroa de funcho seria, para os romanos, um sucedâneo muito inferior à de louros, era atribuída aos melhores gladiadores.
12 outubro 2017
«MENINO DE OURO» MAS TAMBÉM DE OUTRAS DIVISAS...
Segundo o despacho de acusação do ministério público, que apareceu finalmente concluído depois de rebentar todos os prazos a que se comprometera (abaixo), o menino não era apenas de ouro mas seria também de euros, de dólares, não surpreenderia que fosse até de bitcoins, conhecida a predilecção de José Sócrates pela novas tecnologias - eu ainda não me esqueci do seu boneco do contrainformação a repetir incessantemente «Eu adoro tecnologia aos saltos!». Mas o que se tornará interessante nos dias que correm será ouvir a autora d'O Menino, a jornalista Eduarda Maio, para contraponto entre o que consta daquela sua biografia tão elogiosa de 2008 e esta outra biografia mais recente de 2017, que foi coordenada por Rosário Teixeira. A não ser que a Eduarda Maio se ande a fazer propositadamente pequenina, como tantos outros amigos do antigo primeiro-ministro, do tamanho da letra em que acima aparece redigido o panegírico que acompanhava a sua obra magna.
O CONSPIRADOR QUE TINHA UMA FORMA DEMASIADO INTELECTUAL DE SE EXPRIMIR
A aventura denomina-se O Daily Star e o protagonista é Lucky Luke. Mas a personagem mais interessante da história é John Fenweek, o merceeiro de Dead End City, um dos vilões pertencentes às forças vivas da sociedade civil que as denúncias do primeiro jornal da localidade vão incomodar. Ao contrário dos seus colegas de conspiração (o dono do saloon e o cangalheiro), Fenweek vem a revelar-se um verdadeiro intelectual - até usa óculos! - na forma como expõe as suas ideias, embora nem sempre da forma mais conseguida tendo em atenção a obtusidade do auditório. E tudo isto aconteceu antes (1984) do aparecimento das redes sociais... Nestas é que é pertinente, mas dá muito trabalho escrever o comentário: não percebi nada do que você escreveu, explique-se de forma a que nós entendamos.
11 outubro 2017
A EVOLUÇÃO DA CIVILIDADE DA RELAÇÃO ENTRE OS ESPECTADORES E AS EMISSORAS DE TELEVISÃO
Nestes tempos mais próximos em que, celebrando-se os 25 anos de emissões da SIC, se assinala também a inauguração das emissões de televisão privada em Portugal, permitam-me esta evocação acima da televisão a preto e branco de antanho, em que havia a cortesia de pedir desculpa ao espectadores pelas vicissitudes da programação.
Com as emissoras actuais, os incidentes são tão quotidianos como seriam as interrupções de outrora, seja agora pelo conteúdo comprovadamente imbecil das mensagens (acima), seja pela enormidade embaraçosa dos erros de ortografia praticados (abaixo), só que agora não parece valer a pena que alguém peça desculpa pelo sucedido.
As faltas que antigamente era atribuíveis à técnica, hoje deixaram de o poder ser. São pessoais e têm responsáveis, mas não é só isso: há também a arrogância implícita na atitude. E o preço paga-se. Nos raros casos em que as televisões se vêm obrigadas a prestar contas, como aconteceu no caso abaixo, em que o convidado Pedro Santana Lopes...
...se queixou em directo do tratamento displicente que lhe fora dispensado durante a entrevista que lhe estavam a fazer (acima), as explicações do director da estação Ricardo Costa (abaixo), para além da sua completa falta de substância (está a responder a alhos com bugalhos*), dirigiam-se a um ambiente de espectadores que lhe era hostil.
* O fulcro da questão é que a «reportagem» que interrompeu a entrevista de Santana Lopes foi uma reportagem totalmente falhada. Invocando a chegada de José Mourinho ao aeroporto para a interrupção, desta só se vê por alguns minutos imagens atabalhoadas do famoso treinador a entrar para uma viatura... Dispensando-se a SIC de pedir desculpa aos espectadores pelo fiasco, seria de bom tom pedi-las ao menos ao seu convidado a quem interrompera a entrevista por causa desse mesmo fiasco...
PAIRANDO SOBRE PREVISÕES PROFÉTICAS ou NEM SÓ O AMOR É FODIDO
Parafraseando Miguel Esteves Cardoso, não é apenas o amor que é fodido, uma boa memória em política também...
10 outubro 2017
«NÃO SERVIMOS PRETOS, MESMO QUE ESTEJAM BEM VESTIDOS E MESMO ATÉ QUE SEJAM MINISTROS...»
10 de Outubro de 1957. Três dias antes, dois clientes negros, apesar de impecavelmente vestidos, não foram devidamente atendidos num restaurante de Dover, a capital do pequeno estado norte-americano do Delaware. Nada haveria de notável em tal incidente se aquele cliente, a quem serviram o sumo de laranja só na condição de o levar, porque não o deixavam consumi-lo no local, restrito à frequência só de brancos, não fosse o ministro das Finanças do Gana. Esclareça-se que o Gana era então um país africano recente (tornara-se independente há apenas sete meses), mas não se pode deixar de compreender a reacção ofendida ao insulto de Komla Agbeli Gbedemah (assim se chamava o ministro), quando deixou no balcão o sumo, o troco, um comentário altaneiro sobre o estatuto social da clientela que ele via a ser atendida quando em comparação consigo, e finalmente a promessa de criar uma verdadeira tempestade diplomática por causa daquilo que acabara de acontecer. Cumpriu a promessa e beneficiou do momento, acertando em cheio nas virilhas da diplomacia americana que vivia então um momento intensamente pan-africano, pressionando todos os países com colónias africanas em conceder-lhes a independência o mais brevemente possível. Mas, se isso era a fachada da política externa dos Estados Unidos, em contraste e dentro de portas, o americano médio, neste caso o do Delaware (que fora um estado esclavagista até 1865), continuava com a sua prática de discriminação racial de sempre. O episódio tornou-se um escândalo muito inoportuno porque expunha toda a hipocrisia da atitude norte-americano em relação aos africanos e foi preciso mobilizar os bons ofícios do próprio presidente Eisenhower que convidou, há precisamente 60 anos, o ministro ofendido para um pequeno-almoço de desagravo na Casa Branca, consigo e com o vice-presidente Richard Nixon: sumo de laranja e também ovos com bacon. Isto era no tempo em que o presidente dos Estados Unidos, apesar de também passar muito do seu tempo a jogar golfe, ainda era útil nestas ocasiões porque tinha maneiras e sabia ser simpático...
Quanto ao ministro Gbedemah, que acima vemos ao lado esquerdo do líder ganês Kwame Nkrumah durante o discurso que este último profere por ocasião das cerimónias da independência a 6 de Março de 1957, esclareça-se que a sua carreira política vai ser encurtada - terminou em 1961 - por um conflito de personalidade com Nkrumah, nomeadamente por causa do despesismo faraónico pelo qual este último ficou conhecido. Acho esta última nota estranhamente oportuna no dia em que Pedro Santana Lopes se apresta a concorrer à liderança do PSD... Isto é coisa para os militantes do partido reflectirem, mas preparemo-nos para assistir a algumas cambalhotas argumentativas muito divertidas a propósito das virtudes políticas da austeridade que a geringonça não podia deixar de cumprir...
Etiquetas:
60º Aniversário,
Estados Unidos,
Gana
FÚRIA AZUL
O fenómeno, afinal, parece que não se cinge aos comunistas. Se estes últimos, mesmo depois de sair do partido, não conseguem que (a rigidez d)o partido saia de dentro deles, para aqueles que iniciaram a sua vida pública integrando e depois dirigindo claques de futebol, mesmo depois de abandonar as lides futebolísticas continuam a comportar-se como se por lá permanecessem. Esta ideia do porta-voz do CDS e antigo dirigente da claque Fúria Azul (e de Os Belenenses) de «subir a fasquia» e colocar o seu partido a «assumir-se como alternativa ao governo» não passaria pela "cabeça de um careca". (Comprovadamente, passa pela cabeça de quem foi dotado de uma generosa trunfa...) Parece um daqueles comentários que, dito convictamente, poderá entusiasmar a claque - o Belenenses vai ganhar por 5-0! - mas que, naturalmente, provoca o gozo de todos os outros assistentes que percebam um mínimo de futebol. Pobre João Almeida! A abstracção do que possa ser um discurso político inteligente estará muito para além dos limites da sua compreensão...
OS LOUROS DE CÉSAR (41)
Notável a cena abaixo, cinematográfica e do âmbito do género do terror humorístico, quase podemos imaginar a câmara a aproximar-se subtilmente dos "actores". Muito bem a tradução portuguesa a adicionar aquele retoque tipicamente nosso do emprego da expressão "olhinhos".
09 outubro 2017
UMA MARCA COM PASSADO E «PROMETIDA» PARA O FUTURO
No filme Blade Runner 2049 torna-se perceptível, numa determinada cena, que a viatura do detective protagonista é um Peugeot. Há uma maldição que está associada às marcas que foram promovidas na versão original do filme de 1982, muitas delas acabaram por falir nos anos subsequentes, mas nem foi propriamente nisso em que pensei quando reparei no nome da construtora francesa. A associação que fiz foi, confesso, um pouco mais rebuscada, ao lembrar-me que o último (e único) detective policial californiano que eu conheci que mostrava apreciar aquela mesma marca de automóveis fora o tenente Columbo, que conduzia um Peugeot 403 cabriolet em estado calamitoso.
08 outubro 2017
...QUANTOS MARCHARAM?...
Uma destas notícias tem de ser falsa. Senão mesmo as duas. Não há subjectividade que justifique apresentar a existência de três manifestantes num mesmo local onde outros viram apenas um. E a discrepância dos números de cada título já não tem nada a ver com a verdade e o rigor. Só nos serve para aferir onde se situarão as simpatias do órgão de comunicação social na causa em causa. Isto não tem nada a ver com informação, apenas com propaganda. Comunistas e fascistas designavam os seus órgãos de contacto com a comunicação social de Informação e Propaganda: para os totalitarismos tudo não passa de uma e apenas a mesma coisa. Os dois totalitarismos do século XX parecem irrecuperavelmente ultrapassados mas, neste caso específico, tinham razão e guardaram-se para esta cruel resposta... Agora, não nos chateiem que a comunicação social está em crise.
UM EPISÓDIO «À GOVERNO SOMBRA» DURANTE O PRÓPRIO GOVERNO SOMBRA
Os mais populares programas de televisão acabam por cunhar uma assinatura própria. No Governo Sombra de ontem, e no meio das paródias aos episódios caricatos da noite das eleições autárquicas, os autores teriam deixado uma larga franja dos seus espectadores habituais desapontados (incluindo o que se subscreve...) se não tivessem feito uma referência ao assistente que, pela exuberância das suas expressões fisionómicas, conseguiu roubar para si a cena do discurso da vitória de Isaltino Morais. O irónico da situação é que, enquanto por ali se mofava de Isaltino, o mesmo estava a acontecer com João Miguel Tavares, que, não parecendo mais inspirado ou desinspirado do que aquilo que lhe é costume, estava a conseguir arrebatar expressivas e impressivas manifestações de divertimento de uma bonita assistente do programa que parecia sentada imediatamente atrás de si, ofuscando-lhe a argumentação.
O PREÇO DE UM ENORME «BLUFF» DE CAMPANHA
8 de Outubro de 1970. Quando quase se completavam dois anos após as eleições que o haviam eleito (em 5 de Novembro de 1968) com a promessa de que trazia consigo um "plano secreto" para acabar com o envolvimento norte-americano na guerra do Vietname, o presidente Richard Nixon comparecia diante dos seus concidadãos através de um discurso televisionado para todo o país apresentando um plano de "cinco pontos" para acabar com a guerra. Finalmente!, que os bluffs de campanha também têm de ser pagos. Mas a efeméride aqui não é para assinalar esse discurso dessa estranha diplomacia triangular - Estados Unidos, opinião pública americana, Vietname do Norte - que teve lugar a 7 de Outubro (acima). A efeméride deste dia de há 47 anos destina-se a assinalar foi a surpresa pela celeridade e agressividade como a proposta norte-americana foi ostensivamente rejeitada do lado dos norte-vietnamitas. A superpotência do Ocidente, que entretanto instara a sua homóloga do outro lado (União Soviética) a usar os seus bons ofícios durante esta tão bem preparada e encenada manobra diplomática, não contaria (porque não estava habituada) de forma alguma a ser tratada diante de todo o Mundo daquela forma tão humilhante.
OS LOUROS DE CÉSAR (40)
Para quem já se tenha esquecido, a receita completa do prato que cura das ressacas é: um frango por depenar, sabão de Massília, rins, compota, pimenta, sal, figos, mel, chouriço, pepinos de Granada, ovos e pimentos. O frango nem se depena e é tudo cozido ao mesmo tempo num panelão - nada daquelas reduções e/ou emulsões amaricadas da actualidade...
07 outubro 2017
SÓ PODE SER A GOZAR CONNOSCO...
A minha primeira dúvida - e que não aparece esclarecida em lado algum - foi o que esteve por detrás desta rajada de entrevistas dadas por Jean-Claude Trichet a órgãos de comunicação portugueses. Os títulos escolhidos por estes últimos para as encimar, esses são mais do que previsíveis: "Portugal tem de avançar nas reformas estruturais", “Não é hora de complacência, ainda há muito trabalho a ser feito”, “Estou confiante, sem ser ingénuo” ou então este acima: "Se Portugal tivesse cumprido as regras europeias não tinha havido crise". Como o vinil voltou e é agora trendy, creio que também se pode recuperar a metáfora do disco riscado, que é o que o discurso de Trichet parece, mais a sua conversa das reformas estruturais para as quais já não há pachorra depois de seis anos e meio à espera de um programa concretizando em que é que elas consistem (quatro e meio de Passos Coelho e dois anos de Costa). Sobretudo custa ouvir a um francês atribuir as culpas da crise ao incumprimento das regras europeias por Portugal, quando há nove anos que o seu próprio país não as cumpre! (O gráfico acima assinala os défices orçamentais da França desde 2007. O risco a vermelho assinala a fronteira de 3% do incumprimento que se prolonga desde 2008 - e a França tem escapado às sanções porque, como disse Jean-Claude Juncker: a França é a França. Dita por Trichet ou por outro palerma qualquer, dispensa-se a hipocrisia...)
06 outubro 2017
DESVIO COLOSSAL
Sou surpreendido com o anúncio do falecimento do autor do blogue Desvio Colossal. Sou apenas um leitor e apreciador daquilo que ele escrevia porque também interessado pelos temas sobre os quais escrevia: Macroeconomia, Finanças Públicas e Economia Portuguesa. Fiquei a saber também pela nota necrológica que, para além de jornalista do Diário Económico e do Jornal de Negócios, fora assessor do grupo parlamentar do CDS e da fundação Francisco Manuel dos Santos. E, no entanto, a esmagadora maioria das suas análises continham o distanciamento necessário para que as simpatias ideológicas não afectassem o conteúdo a ponto de o tornar imprestável para consumo. Se calhar, seria por isso mesmo, porque aquilo sobre o qual escrevia não ter utilidade prática imediata, que não seria trendy citá-lo, assim como às suas análises. Mas eu, que já despendi se calhar tempo em excesso a denunciar aqui falso «jornalismo económico», confesso ficar muito contristado com esta grande perda para o verdadeiro jornalismo económico. Àqueles jornalistas que, imodestamente, se consideram tão grandes que estão habilitados a falar de tudo, eu recomendaria que, quando (e se) forem mesmo grandes, aprendam a sê-lo como Pedro Romano o foi, no estudo, no conhecimento, na contenção e na modéstia...
Subscrever:
Mensagens (Atom)


































