Quando numa de festivais, já aqui há uns bons anos (2007), alonguei-me um pouco sobre o XII Festival RTP da canção, que teve lugar em Fevereiro de 1975, acontecimento memorável pela ruptura com o passado e pelo leque único de canções concorrentes, de que nesse poste resolvi destacar o inesquecível Alerta! (de e cantado por José Mário Branco) mais os cinquenta pontos de exclamação (rigorosamente verdadeiro!) que fazem parte da letra. Era uma pena que pelos quarenta anos do PREC ali não voltasse, a um acontecimento tão rico, tão injustamente esquecido e de que sobram tão poucas imagens. Mas, em vez de realçar os aspectos musicais do evento, resolvi concentrar-me num aspecto que naquele caso foi revolucionariamente descurado porque burguês, o do guarda-roupa, e assim dar destaque à presença em palco da dupla Jorge Palma/Fernando Girão, não pelo que cantaram (uma canção intitulada Pecado (do) Capital, que se pode ouvir mais abaixo), mas pelo figurino proletário da camisola envergada por Jorge Palma. Parecia que, tal como as privações do povo, também ali não houvera lã suficiente para tricotar uma camisola que lhe servisse...
18 abril 2015
O PESCOÇO ESCULTURAL DE ISADORA DUNCAN
Esta fotografia da bailarina Isadora Duncan (1877-1927), que a capta em formato de busto, realçando-lhe o bonito – e comprido – pescoço, haveria de se tornar numa ironia, quando a artista veio a morrer num acidente bizarro, em que a echarpe que levava ao pescoço se enrolou numa das rodas traseiras do automóvel desportivo descapotável onde viajava. Há quem diga que ela morreu apenas estrangulada, há quem diga que a tensão da echarpe lhe terá chegado a partir o belo pescoço que acima podemos admirar.
17 abril 2015
ONDE É QUE TU ESTAVAS NO 25 DE NOVEMBRO?
Ainda na continuação do poste de ontem sobre os veteranos da UDP/PCP(R) e a propósito de uma certa amnésia social colectiva que incide sobre os percursos travessos e sinuosos de uma apreciável fracção das elites portuguesas de uma certa idade, exiba-se exemplificativamente esta fotografia captada desde a plateia da cerimónia de homenagem a Ramalho Eanes que teve lugar a 25 de Novembro de 2013. No palco e televisionado para a assistência, Fátima Campos Ferreira desempenha o papel de anfitriã numa roda de vedetas da informação encarregadas daquelas tiradas elogiosas que se dizem nestas ocasiões sobre o homenageado, numa estética o mais parecida possível ao que as pessoas estão habituadas a ver nas suas televisões em casa. O orador no momento em que a fotografia é captada é Henrique Monteiro que ali estava em representação do Expresso, um veterano – como se viu ontem – dos bons velhos anos da UDP/PCP(R). Eu bem sei que a carreira do homenageado é substancialmente mais vasta do que a data cujo aniversário ali (também) se comemorava (o 25 de Novembro de 1975), mas surgiu-me interiormente na altura a pergunta se no Expresso ninguém se havia tocado com o simbolismo das militâncias passadas do embaixador que haviam escolhido; e ocorreu-me quão pertinente seria se, da plateia, alguém confrontasse o orador, perguntando-lhe, à laia de um Baptista-Bastos da Democracia: Eh pá, de que lado é que tu estavas no 25 de Novembro? Quem se lembra, sabe que foram tempos em que Henrique Monteiro, como militante disciplinado, consideraria certamente Ramalho Eanes um fascista... Não era grave, mas pareceu-me ridículo.
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OS JORNALISTAS TERÃO OUVIDO BEM?
Fossem outras as circunstâncias, e esta demarcação que António Costa fez dos expedientes dos vencedores das eleições legislativas anteriores teria sido aproveitada pela condenação implícita (mas óbvia) que ali fez ao estilo que também foi adoptado por José Sócrates. Mas não. Não é do interesse dos adversários políticos de Costa ao nível governamental realçar os contrastes críticos que ele possa manifestar com o anterior primeiro-ministro socialista, bem antes pelo contrário. Sem esse interesse, e se do lado dos amigos de Costa há por sua vez uma certa vergonha em realçar essas passagens, os jornalistas ficam entregues a si mesmos, sem que ninguém lhes explique o que pode ser notícia e o que o não é... Mas depois (os socialistas) não se queixem...
PLETÓRICO*
Procurei deixar que a poeira assentasse no caso dos (não) pagamentos das contribuições para a segurança social por parte de Pedro Passos Coelho para tentar demonstrar quanto o fervor e a informação em excesso acabam por se tornar nocivas para a compreensão do que é essencial. Por encomenda do Expresso/SIC/Visão, a Eurosondagem colocou uma data de perguntas (5) a propósito do tema (acima). Mas, no meio daquela aparência de eficiência, há apenas duas respostas com interesse político: uma expressiva maioria (5 para 2) não acreditou nas explicações do primeiro-ministro; uma maioria menos clara, mas ainda assim significativa (3 para 2) é de opinião que a aldrabice não é razão suficiente para que ele se demita. Ou seja, para ⅓ dos portugueses, mentir-lhes descaradamente não é causa suficiente para a demissão de um primeiro-ministro ou, sendo-o para aqueles eticamente mais exigentes, estes últimos não terão grande confiança que o problema se pudesse resolver com a substituição do titular do cargo. A esta distância temporal percebe-se que o resto das respostas perderam o interesse.
* Pletórico: figurativamente diz-se daquilo que, pelo excesso, acaba por se tornar nocivo.
16 abril 2015
OS RECONSTRUTORES DO PARTIDO COMUNISTA
Poucas pessoas, mesmo as que evocam com frequência nostálgica os tempos do PREC (de que se assinalam agora os 40 anos das eleições para a Constituinte), costumam ir à profundidade daqueles detalhes realmente enternecedores para os recuperar para o presente. Tomemos o exemplo da UDP (União Democrática Popular), organização nascida em Dezembro de 1974 e que o tempo fez esquecer que fora constituída para constituir a frente de massas de um Partido Comunista a reconstruir – o Partido Comunista Português (Reconstruído) – na sequência da grande tragédia ideológica no movimento comunista internacional da década anterior que fora a cisão sino-soviética. Os maoistas em Portugal haviam-se pulverizado numa miríade de pequenos clubes a fazer lembrar o Clube dos Sete das aventuras infantis de Enid Blyton.
Em cada um deles o parco número de associados era bem capaz de se assemelhar aos Sete e as reuniões, no seu secretismo e no seu carácter iniciático, também. Nesses clubes maoistas, os comités deviam ser todos centrais porque nem sobraria gente para formar comités... laterais. Havia porém diferenças para o Clube do Pedro e da Joaninha: a) A sua missão não era solucionar mistérios e ajudar a polícia, mas fazer a Revolução proletária; b) ao contrário de um simples CS (Clube dos Sete, veja-se acima afixado na porta), a malta adorava baptizar os seus clubes com nomes compridos, o que propiciava designações com muitas siglas.
A UDP e o propósito de reconstruir um outro Partido Comunista Português resultou assim da junção das vontades dos CMLP (havia vários comités, pelos vistos), da OCMLP e da ORPC(M-L). Como se constata acima, as vontades eram de aço e era tudo muito M-L (Marxista-Leninista), o que na gramática da época e apesar do anacronismo de se invocar Marx e Lenine (em vão...), qualificava as organizações que assim se designavam como maoistas. Melhor que isso e neste caso particular, de um maoismo ainda mais destilado para gostos europeus e que se ia inspirar no exemplo de Enver Hoxha e da sociedade socialista avançada que estava a ser edificada na Albânia. Houve vários vultos da actualidade que se associaram a essa vontade de copiarmos as referências albanesas para este nosso jardim à beira mar plantado. Foram os casos de (por ordem de idade, que a antiguidade também pode ser um critério revolucionário):
Esther Mucznik (1947-....) e António Perez Metelo (1948-....)
José Mariano Gago (1948-....) e Nuno Crato (1952-....)
Jorge Coelho (1954-....) e João Carlos Espada (1955-....)
Henrique Monteiro (1956-....) e José Manuel Fernandes (1957-....)
Mas a preciosidade que guardei para o fim foi a reprodução de um Hino da Reconstrução do Partido, uma daquelas raridades com uma letra que vale a pena acompanhar. Imaginar qualquer das oito personalidades acima a cantá-lo actualmente é, em si, uma delícia nostálgica...
Em frente pela reconstrução do Partido da classe operária
Punhos erguidos numa muralha, vamos travar mais uma batalha
Contra a fome e a miséria, explorados e oprimidos
Como um sonho, mais para a frente, conduzidos pelo Partido
Forte e organizada, numa irresistível maré
A classe operária triunfará, a classe operária está de pé!
Em frente pela reconstrução do Partido da classe operária
Punhos erguidos numa muralha, vamos travar mais uma batalha
Fora com os revisionistas, de Cunhal e sua companhia
Que se mascaram de comunistas para melhor servir a burguesia
A traição será vingada, numa irresistível maré
Pelo partido, que derrubaram, a classe operária está de pé!
Em frente pela reconstrução do Partido da classe operária
Punhos erguidos numa muralha, vamos travar mais uma batalha
Não haverá oportunistas que nos afastem desta conduta
O Partido não se decreta, há-de ser forjado na luta
A vanguarda proletária, numa irresistível maré
Já se organiza para o partido, a classe operária está de pé!
Em frente pela reconstrução do Partido da classe operária
Punhos erguidos numa muralha, vamos travar mais uma batalha
Com o Partido Comunista dirigente da Revolução
Aplicando o marxismo-leninismo, operários, camponeses, vencerão
Contra o capitalismo, numa irresistível maré
O Comunismo triunfará, a classe operária está de pé!
Em frente pela reconstrução do Partido da classe operária
Punhos erguidos numa muralha, vamos travar mais uma batalha
Em frente pela reconstrução do Partido da classe operária
Punhos erguidos numa muralha, vamos travar mais uma batalha
15 abril 2015
AS CRIAÇÕES SOBRE CRIADORES DE CRIATURAS
Na crónica que assina semanalmente no Público, deu-lhe hoje a Paulo Rangel para burilar (mais) mais uma das teorias da conspiração de que aquele distinto europeísta tanto gosta e a atribuir (ainda) a Mário Soares a habilidade de promover as candidaturas presidenciais que deseja, sendo o exemplo mais recente a de Sampaio da Nóvoa. Como diriam os espanhóis: não tenho nem ideia e a tê-la sou mais um dos muitos que não querem ver. Permitam-me contudo a liberdade de contribuir para o debate da sua plausibilidade com uma fotografia (daquelas equivalentes a mil palavras) do mesmo Mário Soares imerso nos seus maquiavelismos. Para podermos ver... Que, se Sampaio de Nóvoa é uma criatura de Soares, é bom que o candidato se faça à estrada porque não irá longe com o impulso daquele seu criador...
UM «AMPELMÄNNCHEN» DE PRESENTE PARA JERÓNIMO DE SOUSA
Apesar dos méritos que a ideia possa ter, comece-se por confessar que já vai atrasada: o aniversariante já fez anos anteontem, a 13 de Abril, 68 anos para ser preciso. Mas a prenda parece-me tão especificamente dedicada a um comunista nostálgico que certamente anulará esse atraso. Conte-se um pouco da história deste pequeno boneco para perceber porquê.
Ampelmännchen são uns bonequinhos de desenho castiço que são usados nos semáforos para as passadeiras, no caso originalmente nas de Berlim-Leste, e que posteriormente se espalharam por toda a Alemanha Oriental. A data da sua adopção acrescenta algo ao seu simbolismo: a 13 de Outubro de 1961 haviam-se passado apenas dois meses sobre a construção do Muro e...
...Berlim tornara-se numa cidade absolutamente dividida. E a especificidade dos bonecos evidenciava-o quando em contraste com o design dos seus homólogos de Berlim Ocidental. Assim permaneceram os dois modelos durante os 28 anos que se seguiram, até 1989, e mais para além disso, porque a sua insignificância não fez deles uma prioridade no grande esforço de estandartização simbólica (e outra)...
...que a República Federal fez nos anos que se seguiram à reunificação. Em 1995, quando chegou a vez da normalização desses pequenos adereços, já haviam surgido as primeiras expressões daquilo que ficaria a ser conhecido por Ostalgie (nostalgia pelos símbolos do passado comunista) e objectos daquele género haviam passado a possuir um valor simbólico: apareceram campanhas de opinião para a preservação dos bonecos com aquele estilo kitsch de chapéu na cabeça.
Vingaram e mais do que isso: vinte anos passados, o ampelmännchen tornou-se a mascote do comunismo nostálgico ao mesmo tempo que se tornou – sem aparentes contradições dialécticas – num negócio de vários milhões, para além de se ter tornado uma prenda que cai sempre bem quando oferecida a um comunista que não renega as suas convicções, pretexto para o ter invocado aqui.
14 abril 2015
PELOS 150 ANOS DO ASSASSINATO DE ABRAHAM LINCOLN
Hoje completam-se 150 anos sobre o assassinato do Presidente norte-americano Abraham Lincoln. São poucos o que, sabendo do episódio, se apercebem que, e ao contrário das inúmeras especulações que acompanham o de Kennedy cem anos depois, neste caso, mais do que um assassinato, se tratou de uma (verdadeira) conspiração: o assassino, John Wilkes Booth coordenara-se com cúmplices que se haviam comprometido a assassinar simultaneamente o Vice-Presidente Andrew Johnson e o Secretário de Estado William Seward com o propósito de decapitar a Administração. Em contraste, a fragilidade (mas também o empenho) da combinação pode ser deduzida pelo aspecto primitivo da arma (de um só tiro!) que foi usada para o assassinar (acima).
Por curiosidade e tendo o assassinato tido lugar numa época em que então se assinalava o início do uso da fotografia (embora, como se compreende, não haja fotografias do assassinato, há algumas do funeral), pode ver-se qual foi o impacto do acontecimento na sociedade norte-americana, nomeadamente mais de 90 anos depois (1956) a sua menção nos primórdios de outro grande meio de informação/entretenimento: a televisão. O convidado do concurso que abaixo aparece era, aos 96 anos, a última testemunha viva do assassinato. Porque a verdade histórica costuma ser feita de absurdos prosaicos, confessou que a sua primeira preocupação, antes de saber que o presidente fora atingido, teria sido com o assassino, quando este saltou do balcão para a plateia e caiu desamparado...
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UMA CERTA DESTEMPERANÇA RUSSA NA ESTRADA
Quem olha para estes posters da era soviética alertando para os perigos da condução, não...
...consegue deixar de os associar aos vídeos que proliferam pela internet exibindo os desastres...
...rodoviários pela Rússia fora, espalhando pelo Mundo a reputação – porventura falsa – que, atrasada pelos...
...70 anos a caminho do socialismo, na Rússia só recentemente se popularizou a prática da condução...
13 abril 2015
UMA BIOGRAFIA COMO NÃO SE PODE LER NA WIKIPEDIA
Havia uma anedota antiga que falava de um infeliz que nascera com o nome de José Merda. Até que conseguiu obter autorização oficial para mudar de nome: e passou a chamar-se João Merda. Ao biografado, um futuro Vice-Rei da Índia, também aconteceu algo de semelhante. Aos 26 anos obteve autorização régia para mudar de nome e registou uma mudança também assim bizarra: deixou de se chamar Freeman Thomas para se passar a chamar Freeman Freeman-Thomas (1866-1941) - como se fosse gago. No círculo aristocrático onde nascera, Freeman Freeman-Thomas notabilizara-se pelo seu desembaraço físico – foi um grande jogador de cricket – e pelas amizades – era um dos parceiros de ténis do neto mais velho da rainha Victória, o futuro Jorge V (1865-1936). Casou bem, com uma das filhas do Conde Brassey (1836-1918), um político liberal, que chegou a ser Governador na Austrália e que lhe deu o seu primeiro cargo político como seu ajudante-de-campo em 1897.
Freeman-Thomas terá sido aquilo que se qualifica como uma daquelas pessoas simples, bem-nascidas e bem relacionadas, que por causa disso (mas só por causa disso) foram ascendendo na vida. Mas as fotografias não enganam: dão-lhe a cara de estúpido que ele deve ter sido toda a vida. Membro liberal do Parlamento em 1900, membro do governo (num cargo muito discreto) em 1905, quando o seu amigo Jorge V se tornou rei em 1910 nobilitou-o: tornou-se Lord Willingdon. Começou por ser barão, depois foi promovido a visconde (1924), conde (1931) e acabou a vida sendo marquês (1936). Pelo meio realizou uma preenchida e destacada carreira como administrador colonial coincidindo – não por acaso – com o reinado do seu amigo Jorge. Governador de Bombaim (1913), Governador de Madrasta (1919), Governador-Geral do Canadá (1926) e finalmente foi Vice-Rei da Índia de 1931 a 1936.
Na sua passagem prévia pela Índia destacou-se... por não se destacar, a não ser por questões triviais, à conta de um conservadorismo em que ele, teoricamente um liberal, passava por reaccionário quando em comparação com políticos conservadores, como foi o caso do seu antecessor no cargo de Vice-Rei, Lord Irwin. Num desses gestos com uma ampla repercussão posterior, provocou a perpétua inimizade de Mohammed Ali Jinnah (que viria a ser o líder da Liga Muçulmana e considerado o fundador do Paquistão), no dia em que, num jantar de cerimónia em Bombaim, mandou trazer algo que cobrisse o decote do vestido de noite parisiense da belíssima Ruttie Jinnah, atitude que provocou o abandono imediato e ultrajado do casal. (Não se deixe escapar o detalhe desses anos outros em que um marido muçulmano (embora pouco) se ofende com o gesto de um cristão que manda cobrir a sua esposa...)
A verdade é que, por muito que Jinnah nunca mais se dispusesse a perdoar-lhe, Lord Willingdon não era má pessoa: era apenas desesperadamente estúpido. Edwin Montagu, que por esses anos era seu superior hierárquico como Secretário de Estado para a Índia descrevia-o: é um gajo tão porreiro e um gajo tão estúpido¹. No geral, não impunha nem respeito nem receio: certo dia o Vice-Rei foi barrado à entrada não de um, mas de três clubes de Bombaim porque ia acompanhado de um Marajá indiano e os clubes eram exclusivos europeus. E ninguém pareceu temer as suas retaliações... Quando Lord Linlithgow – de que já aqui se falou – lhe sucedeu no cargo de Vice-Rei em 1936, encontrou enormes resmas de documentação oficial a aguardar assinatura. Apercebeu-se que Willingdon nem lhes pusera os olhos em cima.
Em contraste com esta personalidade displicente, a de Lady Willingdon era um pouco excessiva demais: as críticas a Maria Adelaide Freeman-Thomas (1875-1960) incidiam sobre a combinação poderosa entre a sua vulgaridade e uma vitalidade que parecia infindável. Um dos seus hobbies era a decoração e os alvos foram muitos dos inúmeros quartos do Palácio dos Vice-Reis em Nova Deli que acabaram pintados da sua cor favorita: malva. Quando Edwin Luytens, que fora o arquitecto do edifício e de muitos outros na cidade, tentou criticá-la ironicamente pelo mau gosto, o resultado não foi o esperado: «Disse-lhe que, se ela fosse dona do Partenon, ainda lhe iria acrescentar janelas panorâmicas, ao que ela me respondeu, muito séria, que não gostava do Partenon»... Apreciemo-la nesta fotografia final em que, para ficar da mesma altura do marido, se colocou no degrau seguinte. Não vem a propósito, mas faz-nos lembrar Maria Cavaco Silva.
¹ such a good fellow and such a stupid fellow.
...de uma certa forma, O ARMAMENTO AO LONGO DOS TEMPOS
Aquilo que aparecia originalmente em caricatura em 1961 numa BD concebida por europeus (Lucky Luke de Morris & Goscinny) destinada a europeus, veio a tornar-se com o correr dos anos numa realidade assumida orgulhosamente pelos próprios norte-americanos,...
...a ponto de já serem os próprios norte-americanos a incorporarem ironicamente aquele fenómeno da alegre convivência das crianças com armas nesta outra paródia a um famoso quadro de Norman Rockwell.
12 abril 2015
UMA HISTÓRIA SOBRE MOMENTOS HISTÓRICOS
Noticiosamente, há um momento que está a ser considerado histórico porque Barack Obama cumprimentou Raúl Castro numa Cimeira no Panamá. Em Dezembro de 2013, por ocasião do funeral de Nelson Mandela, outro momento já fora considerado histórico porque o mesmo Barack Obama cumprimentara o mesmo Raúl Castro.
E se recuarmos bastante mais, até Setembro de 2000, um terceiro momento já havia sido considerado também histórico quando Bill Clinton, antecessor de Obama, cumprimentara Fidel Castro, irmão e antecessor de Raúl, por ocasião da Cimeira do Milénio em Nova Iorque. Qualquer cumprimento que aconteça entre dirigentes americanos e cubanos mete sempre história...
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QUATRO ANOS AVALIADOS EM SETE PARÁGRAFOS
Há já bastantes anos que considero que o Expresso não vale o preço pelo qual se pretende cobrar mas considero que o artigo de hoje de Nicolau Santos naquele mesmo jornal valerá, só por si, o preço de vários Expressos:
Fez no dia 6 de Abril quatro anos que Portugal pediu ajuda internacional. É mais do que tempo de fazer o balanço dos erros, mentiras e traições deste período e desconstruir o discurso que os vencedores têm produzido sobre o que se passou.
A 4 de Abril, Angela Merkel elogia os esforços do Governo português para combater a crise, através de um novo plano de austeridade, o PEC 4. Com o apoio da chanceler alemã e do presidente da Comissão Europeia havia a real possibilidade de Portugal conseguir um resgate mais suave, idêntico ao que Espanha depois veio a ter. O primeiro-ministro, José Sócrates, dá conta ao líder da oposição, Pedro Passos Coelho, do que se passa. Este, pressionado pelo seu mentor e principal apoio partidário, Miguel Relvas, recusa-se a deixar passar o PEC 4, dizendo que não sabia de nada e que não apoiava novos sacrifícios. O seu objectivo é a queda do Governo e eleições antecipadas (ver o livro “Resgatados”, dos insuspeitos jornalistas David Dinis e Hugo Filipe Coelho). O Presidente da República, Cavaco Silva, faz um violento ataque ao Governo no seu discurso de posse, a 4 de Abril, afirmando não haver espaço para mais austeridade. Os banqueiros em concertação pressionavam o ministro das Finanças. Teixeira dos Santos cede e coloca o primeiro-ministro perante o facto consumado, ao anunciar ao “Jornal de Negócios” que Portugal precisa de recorrer aos mecanismos de ajuda disponíveis. Sócrates é forçado a pedir a intervenção da troika. Merkel recebe a notícia com estupefacção e irritação.
O Memorando de Entendimento (MdE) é saudado por políticos alinhados com a futura maioria, por economistas de águas doces, por banqueiros cúpidos e por comentadores fundamentalistas e bastas vezes ignorantes, pois, segundo eles, por cá nunca ninguém conseguiria elaborar tal maravilha. Hoje, pegando nas projecções para a economia portuguesa contidas no MdE, é espantoso constatar a disparidade com o que aconteceu. Em vez de um ano de austeridade tivemos três. Em vez de uma recessão não superior a 4%, tivemos quase 8%. Em vez de um ajustamento em 2/3 pelo lado da despesa e 1/3 pelo lado da receita, tivemos exactamente o contrário: uma austeridade de 23 mil milhões reduziu o défice orçamental em apenas 9 mil milhões. Em vez de um desemprego na casa dos 13%, ultrapassámos os 17%. Em vez de uma emigração que não estava prevista, vimos sair do país mais de 300 mil pessoas. E em vez de a recuperação ser forte e assente nas exportações e no investimento, ela está a ser lenta e anémica, assentando nas exportações e no consumo interno. A única coisa que não falhou foi o regresso da República aos mercados. Mas tal seria possível sem as palavras do governador do BCE, Mario Draghi, no verão de 2013, ou sem o programa de compra de dívida pública dos países da zona euro? Alguém acredita que teríamos as atuais taxas de juro se não fosse isso, quando as agências de rating mantêm em lixo a nossa dívida pública? Só mesmo quem crê em contos de crianças.
Durante o período de ajustamento, Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, sublinhou sempre que o nosso sistema financeiro estava sólido. Afinal, não só não estava sólido como tinha mais buracos do que um queijo gruyère. BCP, BPI e Banif tiveram de recorrer à linha pública de capitalização incluída no memorando da tróica, o BES implodiu, a CGD foi obrigada a fazer dois aumentos de capital subscritos pelo Estado, o Montepio está em sérias dificuldades — e só o Santander escapou.
O ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e o primeiro responsável da tróica, Poul Thomsen, negaram durante dois anos que houvesse um problema de esmagamento de crédito às empresas. Pelos vistos desconheciam que a esmagadora maioria das PME sempre teve falta de capital, funcionando com base no crédito bancário. Como os bancos foram obrigados a cortar drástica e rapidamente os seus rácios de crédito, milhares de empresas colapsaram, fazendo disparar o desemprego. Gaspar e a tróica diriam depois terem sido surpreendidos com esta evolução. A sobranceria dos que se baseiam na infalibilidade do Excel, aliada à ignorância dos que pensam que a mesma receita funciona em qualquer lugar, tem estes resultados.
Passos Coelho disse e redisse que as privatizações tornariam a economia portuguesa muito mais competitiva, levando os preços praticados a descer. Pois bem, a EDP foi vendida a muito bom preço porque as autoridades garantiram aos chineses da Três Gargantas que os consumidores portugueses continuariam a pagar uma elevada factura energética. E assim tem sido. Os franceses da Vinci pagaram muito pela concessão da ANA porque lhes foi garantido que poderiam subir as taxas sempre que o movimento aeroportuário aumentasse. Já o fizeram por cinco vezes. O Governo acabou com a golden share na PT e não obstou à saída da CGD do capital da telefónica. Depois assistiu, impávido e sereno, ao desmoronamento da operadora. A CGD foi obrigada pelo Governo a vender por um mau preço a sua participação na Cimpor. Hoje, a cimenteira é uma sombra do que foi: deixou de ser um centro de decisão, de competência e de emprego da engenharia nacional. Os CTT foram privatizados e aumentaram exponencialmente os resultados, à custa da redução do número de balcões e da frequência na entrega do correio.
A famosa reforma do Estado resumiu-se na prática a aumentar impostos, cortar salários, pensões e apoios sociais, bem como a fragilizar as relações laborais, flexibilizando o despedimento individual, diminuindo o valor das indemnizações, reduzindo o valor do subsídio de desemprego e o seu tempo de duração. O modelo económico passou a assentar numa mão de obra qualificada mas mal paga, em empregos precários e não inovadores, em trabalhadores temerosos e nada motivados.
O programa de ajustamento fez Portugal recuar quase 15 anos. Perdemos centro de decisão e de competência e não apareceram outros. A classe média proletariza-se sob o peso dos impostos. Nos hospitais reaparecem doenças e epidemias há muito erradicadas. O investimento estrangeiro estruturante não veio, o perfil da economia e das exportações não se alterou, a aposta na investigação eclipsou-se. E tudo para se chegar a um ponto em que a tróica nos continua a dizer que já fizemos muito mas que é preciso fazer mais — e os credores internacionais nos vão manter sob vigilância até 2035. Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade mostra que este ajustamento não teve apenas algumas coisas que correram mal — foi um colossal falhanço. E, desgraçadamente, os próximos anos vão confirmá-lo.
Parece-me cristalinamente óbvio – e agora sou novamente eu e não Nicolau Santos a opinar – que o Projecto Europeu não se pode resumir para Portugal a uma história de quinze anos de uma chuva de dinheiro (1986-2000), seguida de uma década de estagnação (2000-2010), a que se seguem agora outros quinze anos de penitência. Isto não é uma história bíblica como as pragas do Egipto. A César o que é de César.
11 abril 2015
VIAGEM AO PASSADO E AO VERDADEIRO ESPÍRITO REVOLUCIONÁRIO DE HÁ QUARENTA ANOS (com alguns apontamentos de modernidade)
O M.E.S. É COMUNISTA
Alguns milhares de pessoas compareceram no comício promovido pelo Movimento de Esquerda Socialista ontem, à noite, no Pavilhão dos Desportos. Cantado (sic) em coro a Internacional, iniciou-se a reunião, preenchida por cinco intervenções sobre pontos fulcrais da política nacional e pela leitura de moções por trabalhadores das empresas Eurofil, Covina e Automática Electric Portuguesa.
Augusto Mateus (acima, fotografia actual) da Comissão Política Nacional do M.E.S. abriu o comício com uma intervenção subordinada ao tema «A Crise do capitalismo e a organização do movimento anticapitalista». Começou por afirmar que «a reconstrução nacional, na actual conjuntura política, é uma forma de explorar os trabalhadores». Entretanto, a reacção vai-se reorganizando e adaptando, afirmou. Em face de tal situação, será necessária uma ofensiva dos trabalhadores para derrotar o capitalismo, desbravando assim o caminho da revolução socialista: «o capital não pode ser derrotado com hesitações e compromissos».
Referindo-se ao Plano Económico elaborado pelo Governo Provisório, Augusto Mateus acentuou: «O capital não se controla, ataca-se. Há que exigir a nacionalização da banca provada e a nacionalização dos sectores básicos da indústria. Porém o processo de nacionalização por si só não chega. A nacionalização sim, mas sob o controlo dos trabalhadores». Mais adiante sublinhou que no Governo Provisório há algumas individualidades comprometidas com os grupos financeiros instalados no Ministério da Economia. «Temos que enfrentar a expressão capitalista em todos os seus aspectos». O orador é interrompido pelo público que grita: «Lutar. Criar. Poder Popular», uma das palavras de ordem do M.E.S.
O que é o Poder Popular? Como se cria? Augusto Mateus responde às suas próprias perguntas dizendo que o Poder Popular será a organização dos trabalhadores sob a forma de comissões nas empresas, nas fábricas, nos campos, nos bairros, nos quartéis. Ao desenvolver-se esta ideia o dirigente do M.E.S. sublinhou que não se deve confundir as comissões de trabalhadores com as comissões sindicais. «Nas fábricas, nos campos, os trabalhadores vencerão» foi o estribilho que acompanhou o final da exposição de Augusto Mateus.
Referindo-se ao Plano Económico elaborado pelo Governo Provisório, Augusto Mateus acentuou: «O capital não se controla, ataca-se. Há que exigir a nacionalização da banca provada e a nacionalização dos sectores básicos da indústria. Porém o processo de nacionalização por si só não chega. A nacionalização sim, mas sob o controlo dos trabalhadores». Mais adiante sublinhou que no Governo Provisório há algumas individualidades comprometidas com os grupos financeiros instalados no Ministério da Economia. «Temos que enfrentar a expressão capitalista em todos os seus aspectos». O orador é interrompido pelo público que grita: «Lutar. Criar. Poder Popular», uma das palavras de ordem do M.E.S.
O que é o Poder Popular? Como se cria? Augusto Mateus responde às suas próprias perguntas dizendo que o Poder Popular será a organização dos trabalhadores sob a forma de comissões nas empresas, nas fábricas, nos campos, nos bairros, nos quartéis. Ao desenvolver-se esta ideia o dirigente do M.E.S. sublinhou que não se deve confundir as comissões de trabalhadores com as comissões sindicais. «Nas fábricas, nos campos, os trabalhadores vencerão» foi o estribilho que acompanhou o final da exposição de Augusto Mateus.
A segunda intervenção esteve a cargo de Ferreira Guedes. Fundamentou-se sobretudo na «Questão Sindical». Foi focado o problema da unicidade sindical que tanta polémica originou entre partidos e agrupamentos políticos. «Não é por acaso que o P.S. e o P.P.D. se encontram no mesmo lado da barricada na questão sindical,» afirmou Ferreira Guedes ao criticar a atitude e a intenção de certos partidos quando defendem o pluralismo sindical. E salientou o papel dos grupúsculos ditos de extrema-esquerda que na sua oposição cega ao Partido Comunista acabam por cair no caminho da direita. «Se o P.C. controla a maioria dos sindicatos não será por isso que vamos atacar a existência de uma central única dos trabalhadores».
Ferreira Guedes deixou bem definido que o M.E.S. está empenhado numa democracia sindical e que lutará por uma autonomia dos sindicatos perante o Estado, uma vez que defende um «sindicalismo de classe». Em seguida criticou a actuação do P.C., dizendo que aquele partido tem torpedeado e atacado algumas lutas dos trabalhadores, nomeadamente na T.A.P., C.T.T., Jornal do Comércio e, mais recentemente, a manifestação de 7 de Fevereiro. Porém, também afirmou que sempre que o P.C. traçar uma linha coerente anticapitalista, o M.E.S lhe dará o seu total apoio.
Ferreira Guedes deixou bem definido que o M.E.S. está empenhado numa democracia sindical e que lutará por uma autonomia dos sindicatos perante o Estado, uma vez que defende um «sindicalismo de classe». Em seguida criticou a actuação do P.C., dizendo que aquele partido tem torpedeado e atacado algumas lutas dos trabalhadores, nomeadamente na T.A.P., C.T.T., Jornal do Comércio e, mais recentemente, a manifestação de 7 de Fevereiro. Porém, também afirmou que sempre que o P.C. traçar uma linha coerente anticapitalista, o M.E.S lhe dará o seu total apoio.
Rogério de Jesus falou sobre os vários partidos reaccionários que por aí» andam a tentar enganar as pessoas». Citou a crise Palma Carlos, «na qual estiveram envolvidos Sá Carneiro, Spínola e a burguesia». Referiu-se também a Sanches Osório, que agora aparece num partido que, apelando para os sentimentos religiosos, «não é mais que a expressão hierárquica reaccionária da Igreja». O papel do C.D.S. antes do 25 de Abril: “Onde esteve? No parlamento fascista. Pois não nos venha enganar com pezinhos de lã.» Quanto ao P.P.D. «Esse partido usa e abusa das palavras como democracia e popular, esquecendo que Pinto Balsemão escreveu um livro que defendia abertamente Marcelo Caetano». Rogério de Jesus incluiu igualmente o P.S., «o tal do socialismo em liberdade», no seu leque de críticas. Dissertando sobre este conceito afirmou que «o socialismo consistia na liberdade para os trabalhadores e na opressão para a burguesia».
Colocou o P.P.D. e o P.S. no mesmo saco, ao dizer que “quando eles falam de socialismo, esganam-se e arrepelam-se a ver quem é mais social-democrata». Numa outra passagem analisou «a violência revolucionária que tanto preocupa a burguesia e os hesitantes» para dizer: «Esses esquecem a violência que os trabalhadores sofreram durante o fascismo». Rogério de Jesus terminou apelando para a união dos trabalhadores na base em acções concretas e planeadas.
Colocou o P.P.D. e o P.S. no mesmo saco, ao dizer que “quando eles falam de socialismo, esganam-se e arrepelam-se a ver quem é mais social-democrata». Numa outra passagem analisou «a violência revolucionária que tanto preocupa a burguesia e os hesitantes» para dizer: «Esses esquecem a violência que os trabalhadores sofreram durante o fascismo». Rogério de Jesus terminou apelando para a união dos trabalhadores na base em acções concretas e planeadas.
Depois de lidas moções referentes à luta dos trabalhadores das empresas Covina e Eurofil, Afonso de Barros (fotografia da época), da Comissão Política, lembrou que o M.E.S. considera as eleições inoportunas e contra os interesses dos trabalhadores. No entanto, o M.E.S. já reuniu as assinaturas necessárias para a sua legalização. E intervirá no acto eleitoral como meio de divulgar as suas posições e também de lutar por uma Assembleia Popular a partir das comissões de trabalhadores (nas fábricas e nos campos), dos conselhos de aldeias, das comissões de moradores, dando origem aos Conselhos dos Trabalhadores de Zona. A estas estruturas devia competir o exercício do Poder e a eleição de uma Assembleia. Todavia, Afonso de Barros considera que o avanço da luta dos trabalhadores ainda não é bastante para se chegar a concretizar tal assembleia. Mas o M.E.S. lutará por ela. Não só neste momento como depois das eleições burguesas. Mais adiante criticou o P.C. e o M.D.P por encararem com «um certo silêncio e timidez» a questão das eleições, não denunciando firmemente o carácter desmobilizador que elas encerram.
Finalmente, Ribeiro Mendes (acima, fotografia actual) explicou «porque somos comunistas». Já que a burguesia e os seus lacaios tentam de todas as formas «anestesiar a luta dos trabalhadores», o M.E.S. acha-se no direito de confessar a sua condição de movimento comunista. Depois de declarar «os trabalhadores têm o direito de saber que espécie de comunistas somos nós» Ribeiro dos Santos (sic¹) denunciou os socialistas de fachada, salientou que «ser comunista é estar em cada momento à altura das circunstâncias» e defender «a instauração da ditadura do proletariado» que é uma ditadura que se define pela «máxima democracia para os trabalhadores e pela máxima ditadura para os capitalistas exploradores», Ribeiro Mendes acentuando que o M.E.S. não se considera o partido da classe operária antes lhe competindo «a tarefa imediata da luta pela unificação das forças de vanguarda capazes de fazer a coordenação das lutas parcelares e a sua síntese política concretizada num projecto socialista alternativo ao domínio da burguesia e às tintas (sic) do compromisso reformista».
O comício terminou com a leitura e aprovação de uma moção anticolonialista, de apoio ao M.P.L.A. e de uma moção exigindo a saída de Portugal da N.A.T.O.
O comício terminou com a leitura e aprovação de uma moção anticolonialista, de apoio ao M.P.L.A. e de uma moção exigindo a saída de Portugal da N.A.T.O.
Notícia publicada no Diário de Lisboa de 20 de Fevereiro de 1975.
¹ Ribeiro Santos tornara-se um nome muito citado na imprensa daqueles tempos, mesmo um ícone, mas de uma formação rival do M.E.S., o M.R.P.P. Isso explicará o deslize do jornalista.
10 abril 2015
COISAS E LOISAS
Sempre que aparece uma qualquer insinuação manhosa (como esta acima feita pelo Correio da Manhã) ao ordenado seja de quem for, convoca-se o desgraçado do Jorge Jesus - que mal sabe falar - mais os seus 4 milhões anuais e a conversa esmorece como que que por encanto. Diz-se então no Correio da Manhã que Fernando Pinto ganha 376.000 € por ano, o que é dez vezes menos do que o que ganha Jorge Jesus. Qual era mesmo o problema?...
«THE WINDMILLS OF OUR MIND»
Windmills of you mind é uma canção de um tempo (1968) em que os moinhos de vento eram uma actividade decadente, mas por uma razão económica transparente (o que já não se pode dizer da actualidade).
AS FILHAS DO VICE-REI
Victor Alexander John Hope (1887-1952), 2º Marquês de Linlithgow e sobretudo – à época da foto – 23º Vice-Rei da Índia, acompanhado da sua esposa Doreen Maud (1886-1965), no dia do casamento da sua filha mais velha, Lady Anne Adeline (1914-????). O carácter privado da cerimónia ajudará a explicar a sobriedade da indumentária, anormal num titular de um cargo que era reputado pela ostentação – admire-se o estilo do mesmo Lorde Linlithgow na fotografia oficial que havia sido transposta para a capa de uma edição da revista Time em Outubro de 1936. Porém, estava-se a 6 de Novembro de 1939 e,...
...por outras razões que não as protocolares, os tempos estavam a mudar. Dois meses antes, começara a Segunda Guerra Mundial. Como acontecera com outros (mas não todos...) os Domínios britânicos, o Vice-Rei declarara guerra à Alemanha no mesmo dia que a metrópole, a 3 de Setembro de 1939, e anunciara-o na rádio. Esquecera-se fora de consultar os dirigentes indianos antes de o fazer e isso iria constituir mais um pretexto para eles dificultarem (ainda mais) a tarefa de Linlithgow e da administração britânica durante os seis anos de guerra que aí viriam. A capa da mesma revista Time, mas agora de Março de 1942 exibe-nos um outro Vice-Rei,...
...preocupado, muito mais humano, quase capaz de passar por um político ocidental à procura de votos. Mas o imbróglio indiano ir-se-ia revelar demasiado complexo para Linlithgow, que viria a ser substituído por um militar, o Marechal Wavell em Setembro de 1943. Este são alguns detalhes da Grande História. A pequena que se pode escrever a pretexto da fotografia inicial também não é desinteressante. As cerimónias do casamento da filha dos Vice-Reis foram muito criticadas pelos membros do Congresso, um luxo que eles classificaram de despropositado para um país que o próprio Vice-Rei colocara em guerra.
Entre a high society os comentários eram outros, mais apolíticos, mas igualmente interessantes. A noiva Lady Anne Adeline ia a caminho dos 26 anos. O felizardo, Patrick Henry James Southby (1913-????) era um oficial da Royal Navy com a coincidência adicional de ser o ADC (Ajudante de Campo) do futuro sogro. À boca pequena e num daqueles trocadilhos típicos, houvera alguém que se inspirara no nome de família do Vice-Rei (Hope = Esperança) e atribuíra as suas três filhas em idade casadoira, Anne (25), Joan (24) e Doreen (19), as alcunhas de Faint Hope, Little Hope e No Hope (vaga, pouca e nenhuma esperança).
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