A cerimónia teve por nome Gala Quinas de Ouro e a organização esteve a cargo desse coio de intelectuais que dá pelo nome de Federação Portuguesa de Futebol, que aproveitou a ocasião para apresentar ao público uma nova classe de palavras quanto às regras de acentuação: são as palavas ante-esdrúxulas. Têm esse nome porque são acentuadas na ante-antepenúltima sílaba, como é o caso de Républica, com a acentuação da foto acima. O famoso AO90 não tem culpa nenhuma desta vez. É pura ignorância e incompetência.
11 maio 2018
A COROAÇÃO DE CARLOS XIV DA SUÉCIA
11 de Maio de 1818. Há precisamente duzentos anos, na Catedral luterana de São Nicolau em Estocolmo, tinha lugar a cerimónia da coroação do rei Carlos XIV da Suécia. Numa Europa que só muito recentemente saíra das vicissitudes das Guerra Napoleónicas, este evento caracterizado pelo seu tradicionalismo distinguia-se de outros equivalentes por vários factores. O primeiro desses factores é que o novo monarca sueco (e norueguês) não tinha qualquer parentesco com o seu antecessor: fora adoptado. O segundo factor anómalo, é que o adoptado só o fora quando já contava 47 anos. Um terceiro factor bizarro, numa época em que isso ainda era considerado muito importante, é que o novo rei era de ascendência plebeia: nascera em Pau a 26 de Janeiro de 1763 com o nome de Jean Baptiste Bernadotte, o filho de um pequeno funcionário judicial. Um quarto factor, como se deduzirá pelo seu nome e pelo local de nascimento, é que o novo rei nascera francês. Um quinto factor, é que o rei começara a sua carreira no exército (francês) com a patente de soldado. Mas foi só a Revolução Francesa que lhe permitiu uma ascensão que culminou no posto de Marechal de França aos 41 anos. O novo rei da Suécia era um arrivista, um assumido "parvenu". E como sexto e último factor exótico naquela coroação, provavelmente em agradecimento pelas oportunidades que lhe haviam sido propiciadas por esses tempos revolucionários, corria o rumor que o novo rei mandara tatuar em si, nessa outra época em que fora jovem, uma tatuagem com os dizeres «Morte aos Reis!». Não deve ter havido muitos monarcas que carregaram consigo um apelo à sua própria extinção como classe... A dinastia Bernadotte ainda hoje reina na Suécia na pessoa de Carlos XVI. O sucesso desta incorporação de um plebeu francês, porém competente e ambicioso, e transformá-lo em monarca bem sucedido de um país estranho, é um desmentido completo daqueles princípios arcaicos das monarquias de direito divino.
10 maio 2018
A IDADE D(O FIM D)A INOCÊNCIA
10 de Maio de 1981 foi um Domingo. Nesses dias, ao fim da tarde, pelas 19H00, a RTP1 transmitia tradicionalmente um programa desportivo denominado Grande Encontro, cobrindo os acontecimentos da jornada futebolística. Apresentava-o, com a sua aparente bonomia, Mário Zambujal (acima). Os acontecimentos mais importantes do dia haviam sido as duas meias finais da Taça de Portugal, onde o Futebol Clube do Porto vencera nas Antas o Vitória de Setúbal por 2-1 e o Benfica vencera no Restelo o Belenenses por 1-0. Todo o programa girava à volta desse universo muito específico da bola jogada e, sobretudo, dos erros da arbitragem, quando súbita e surpreendentemente, um Mário Zambujal que desconhecíamos, vibrante em assuntos distintos que não o futebol, anuncia a vitória do socialista François Mitterrand nas eleições presidenciais francesas que se disputavam nesse mesmo dia. Os tempos eram outros e os protocolos televisivos também (nada de directos ou de interrupções abruptas da emissão), o que tornava a atitude de Zambujal completamente inusitada, já que o assunto iria decerto ser a notícia de abertura do telejornal que se iria seguir pelas 20H00. E uma pergunta surgia, pertinente, já que a eleição se mostrara de desfecho muito imprevisível: será que a atitude do apresentador e de quem conduzia o programa teria sido precisamente a mesma se o resultado tivesse sido a recondução do rival Valéry Giscard d'Estaing? É que esta suspeita de parcialidade em prol da esquerda surgia numa RTP que a mesma esquerda acusava repetidamente de parcialidade em prol da direita, manipulada pelas mãos habilidosas de Proença de Carvalho, por essa época popularizado pelo epíteto irónico de «Maquiavel à moda do Minho». Pois nesse dia 10 de Maio de 1981 apercebi-me que quando o Maquiavel minhoto estava em casa, de fim de semana, podia ocorrer um regabofe lá para as bandas da RTP, porque as simpatias das tropas eram outras e o comissário político não poder ir a todas. Uma lição de 37 anos que recordo e recupero ainda hoje quando penso, por exemplo, em David Dinis a disciplinar os jornalistas do Público. Em jeito de remate, refira-se que, se a esquerda, a democrática e a outra, se regozijavam colectivamente com a vitória de Mitterrand em França, coisa distinta eram os ajustes de contas domésticos, aprecie-se o contraste da página do dia seguinte do comunista Diário de Lisboa: Mário Soares vencera nitidamente (com cerca de ⅔ dos votos) o IV Congresso do PS que se desenrolara também nesse fim de semana, mas "não convencera". Como se houvesse alguém naquele jornal com abertura para se deixar convencer...
O ENSINO FUNDAMENTAL E OS FUNDAMENTOS DO ENSINO
Retirado de uma caixa de comentários de um jornal, o comentário do sr. Mário Bragança destaca-se, como infelizmente tantos outros que aparecem nesses locais, mais pela forma do que pelo conteúdo. Não apenas pela forma como se estruturam as orações (que sujeito prenderia os corruptos?), onde se devem colocar as vírgulas, como se escreve o verbo haver ou as formas temporais do verbo ficar. Sobretudo pela ingenuidade petulante de se considerar fundamentalmente ensinado quando a evidência do seu comentário é que não passará de um analfabeto funcional, embora, como tantos outros, descomplexado de exibir a sua ignorância. E a ignorância sempre foi atrevida.
09 maio 2018
AINDA INSPIRADO PELA SESSÃO DO FESTIVAL DA EUROVISÃO DE ONTEM...
...temos este aspirador que, só pelo aspecto de clave de sol como está arrumado, apetece pôr logo a trabalhar, só para o ouvir (por exemplo) em representação do Liechtenstein.
A INAUGURAÇÃO DO CAMINHO DE FERRO DE DJIBUTI A ADIS ABEBA
9 de Maio de 1917. Há 101 anos inaugurava-se o caminho de ferro que ligava Adis Abeba, a capital da Etiópia (ou Abissínia, como era então conhecida), ao porto de Djibuti, na embocadura do Mar Vermelho. A Etiópia era um dos dois únicos países que sobrara independente da repartição de África feita pelas potências europeias (o outro, a Libéria, só o era formalmente e porque os Estados Unidos tinham pudor em assumir que possuíam uma colónia africana). A Etiópia não possuía saída para o mar (veja-se o mapa inserto de África na última figura). Para o alcançar e para se inserir no comércio internacional de uma forma consistente e moderna, o país teria que constituir uma parceria com uma das potências administrantes de uma das colónias vizinhas: ou os italianos, que controlavam a Eritreia e até tinham tentado conquistar a própria Etiópia (tentativa que lhes correra mal), ou os britânicos, que controlavam a Somália britânica, por onde passava muito do comércio externo abexim, mas que ocorria em volumes e valores reduzidíssimos, porque feito às costas das tradicionais caravanas de camelos e muares, ou ainda os franceses, que se haviam instalado na Somália francesa e aí fundado o porto de Djibuti em 1888, o rival estratégico de Adem, para as ligações marítimas entre a Europa e o Oriente, através do Canal do Suez.
As cerimónias da inauguração de há 101 anos representavam um sucesso da diplomacia francesa. A pequena história assegura-nos que uma boa parte desse sucesso se deverá ao facto de que o médico pessoal do imperador Menelik II, o doutor Vitalien, era originário de Guadalupe e negro - verdade é que a concessão para a construção e exploração da ferrovia, que fora atribuída em 1908, havia sido feita em nome do esculápio... À superação das rivalidades diplomáticas houve que adicionar os problemas técnicos da construção da ferrovia. Ao longo dos seus 784 km, a linha férrea tinha que ascender desde o nível do mar até aos 2.440 metros de altitude(!) a que se situa Adis Abeba. Em média e por cada quilómetro de via, existe um desnível de 3 metros, o que obrigou a que os engenheiros que a conceberam recorressem, em certos troços, a soluções de aparência periclitante, como a ponte que a imagem abaixo documenta. Outra solução para ultrapassar as dificuldades foi a escolha da bitola métrica (1.000 mm), mais estreita do que a bitola internacional (1.435 mm), o que deu mais liberdade à definição dos traçados escolhidos (possibilita curvas mais apertadas) e com menor custo na construção das obras de engenharia, embora essa escolha viesse a afectar futuramente a velocidade e a capacidade do tráfego da linha.
Todas essas vicissitudes tiveram finalmente o seu desfecho neste dia 9 de Maio de 1917. Apesar da duração das viagens superar o dia e meio, a uma média horária rondando os 20 km/hora(!), os grandes dias da exploração desta linha de caminho de ferro iriam ser as duas décadas que se seguiriam, até à invasão da Etiópia pela Itália em 1936. Depois disso, durante e mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, a anexação da Eritreia pela Etiópia tornou supletivo o recurso a um porto estrangeiro para que a Etiópia realizasse o seu comércio externo. Foi só com a independência da Eritreia, quando a Etiópia perdeu de novo a sua fachada marítima e quando as suas relações com a sua antiga dependência se complicaram, que se tornou a pôr a questão da reactivação da ligação ferroviária entre Adis Abeba e Djibuti. Actualmente e depois de 2016, existe uma nova ligação ferroviária entre as duas cidades, construída usando a bitola padrão e cujo traçado segue de muito próximo aquele que fora o da ligação original inaugurada há 101 anos (veja-se o último mapa, em vermelho grosso a moderna, em verde fino a antiga). Mas com outra diferença significativa: os capitais para a sua construção foram, desta vez, chineses.
08 maio 2018
O ABALO DE UM REGIME E O FIM DE OUTRO
A edição de há 60 anos do Diário de Lisboa anunciava, sem o saber, o que se viria a revelar um sério abalo de um regime - o português - e os preâmbulos do que viria a ser o fim de outro - em França. A campanha eleitoral para as eleições presidenciais, que arrancava naquele dia, iria evidenciar uma dinâmica campanha de rua por parte da candidatura de Humberto Delgado, que chegou a ser capaz de transmitir a percepção que as eleições poderiam ser ganhas por quem não era suposto. Mas as crises políticas não afectam só as ditaduras: em Paris, a França, a braços com a Guerra na Argélia, tentava resolver a enésima crise governamental num regime que, concebido para se sustentar em maiorias parlamentares fluídas, o tempo, as circunstâncias e a prática transformara em maiorias parlamentares voláteis - a média da duração dos governos franceses depois de 1945 situava-se abaixo dos seis meses. No fim desse mês de Maio de 1958, de Gaulle assumiu o poder em França e o regime da IV República veio a ser substituída pela V República. Em 8 de Junho de 1958 realizaram-se as eleições presidenciais em Portugal e, mercê de uma colossal fraude eleitoral, ganhou quem era suposto, tudo continuou na mesma.
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07 maio 2018
O MARCELO E O BRAZ
Havia uma anedota antiga, daquelas com elefantes, que rezava assim:
- Como é que um elefante passa desapercebido no meio de uma multidão?
- ...?
- De gabardine e óculos escuros.
- ...!
- Já viste algum no meio da multidão?
- Não.
- Estás a ver como eles passam desapercebidos?...
Na fotografia acima não é a gabardine e os óculos escuros que fazem o tenente-coronel C. Braz (A+) passar desapercebido, é mesmo a maquilhagem esverdeada na cara, um certo jogo de sombras e, sobretudo, a presença ofuscante do comandante supremo Marcelo a seu lado, embora, confesso, bem gostaria de o ver desta vez, a Marcelo, com a cara também mascarrada, embora compreenda que a discrição não é coisa que combine propriamente consigo...
(Obs. - quem se quiser certificar que o tipo sanguíneo do TC Braz é mesmo A+ tem que clicar na fotografia para a ampliar).
O TRATADO QUE NÃO VALEU
7 de Maio de 1918. Em Bucareste, no palácio real de Cotroceni, pelas 11H00 da manhã e com toda a formalidade, uma Roménia humilhadamente vencida assinava um Tratado que era uma rendição aos interesses dos Impérios Centrais. Na fotografia acima, vê-se o primeiro-ministro romeno de então, Alexandru Maghiloman, a assinar o documento de capitulação e no mapa abaixo, vêem-se as cedências territoriais a que a Roménia se comprometia. Valha a verdade que a maior parte do país já há meses que estava militarmente ocupado por alemães, austro-húngaros e búlgaros. Outra cláusula humilhante é que a Roménia se comprometia a ceder à Alemanha a exploração dos seus campos petrolíferos por 90 anos (até 2008!). Considerada a sua impotência, o instrumento diplomático de que a Roménia se serviu foi o de deixar a formalização do assunto arrastar-se o mais possível. A obrigatória ratificação do Tratado pelo parlamento romeno tomou-lhes quase dois meses, até Julho de 1918, quando o curso da guerra já se tornara claramente desvantajoso para os alemães e seus aliados. E depois foi ao rei Fernando I da Roménia (por sinal, alemão de origem, e, por curiosidade, neto da rainha Maria II de Portugal) que incumbiu a tarefa de se esquecer de lhe apor a assinatura final. Foi graças a estes expedientes que dali por seis meses, em Novembro de 1918, por ocasião do Armistício, a Roménia conseguiu argumentar que a sua rendição ainda não fora burocraticamente validada, e transferir-se, com um golpe de rins, para o lado dos vencedores. Também em política externa não há moral.
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06 maio 2018
A MINHA FAVORITA
À medida que se aproxima a data da realização do Festival da Eurovisão e se multiplicam as listas com as canções favoritas (como esta acima), devo confessar que mesmo depois do exercício de as ouvir, às favoritas, ainda não me fez eleger nenhuma canção favorita. Contudo, já tenho uma fotografia alusiva favorita...
PROFISSÃO DE DESGASTE RÁPIDO
6 de Maio de 2007. Nicolas Sarkozy vence as eleições presidenciais francesas derrotando Ségolène Royal. 6 de Maio de 2012. François Hollande vence as eleições presidenciais francesas derrotando... Nicolas Sarkozy. E já não a 6, mas a 7 de Maio de 2017, Emmanuel Macron vence as presidenciais francesas derrotando Marine Le Pen, mas isso porque o titular Hollande nem sequer se reapresentou às eleições... Depois de estarmos a assistir ao prolongamento daquelas que eram tradicionalmente consideradas as profissões de desgaste rápido, de que era caso notório o dos futebolistas, a quem se antevia uns dez a doze anos de carreira, aparecem-nos outras profissões que a modernidade tornou subtilmente muito mais desgastantes e sem puxar pelo físico. Assim, se agora já não é surpreendente que as grandes vedetas do futebol anunciem a sua retirada só por volta dos 36 anos, e, ainda assim, para ir fazer uma perninha a campeonatos menos exigentes, ser-se presidente de França, que outrora foi profissão quase garantida para dois mandatos e catorze anos de poder, é algo para o qual actualmente se afigura muito difícil superar os cinco anos de um primeiro mandato.
05 maio 2018
OS POMBOS DO SÉCULO XXI
Foi hoje ao almoço, num instante desastrado, que o cogumelo panado acabou no chão da esplanada, destacando-se dos seus irmãos que (ainda) jaziam obedientes no prato. O comensal rodou um rápido olhar atento e temeroso pelas redondezas, para se certificar que mais ninguém se apercebera do incidente. E não. Os humanos não. Mas não terá sido de imediato, mas foi certamente mais célere do que o serviço deles, humanos, algo demorado em hora de ponta, que três pombos, de ar anafado e aspecto de que estariam entre si («chez eux»), se aproximaram decididos do embaraçoso boleto para o debicarem animadamente à vez, num exercício que, não fora serem pombos, pelo ritmo diligente, bem poderia ser descrito como uma alegre patuscada. Num minuto, ou pouco mais, fora feito mais um serviço à causa do ambiente. Ou não, já que não se pode excluir que o cogumelo panado se arrisque a reaparecer, transmutado, em cima de algum pára-brisas de automóvel. E eu dei por mim a pensar o que fora feito dos pombos clássicos, aqueles que eram alimentados pelas carcaças das avozinhas. Quem vigia o colesterol e os triglicéridos desta evolução genética?
O MINI TET E O MASSACRE DOS JORNALISTAS
5 de Maio de 1968. Às 04H00 da madrugada locais começava em Saigão, capital do Vietname do Sul, a segunda fase da Ofensiva do Tet. Menos recordada que a Ofensiva original do mesmo nome que havia tido lugar nos finais de Janeiro, que já aqui foi evocada, este Mini-Tet (como ficou conhecido entre outras designações) constituiu um desgaste suplementar ao já desgastado ânimo norte-americano em prosseguir a sua intervenção no Vietname em defesa do regime sul vietnamita. Mas, mais do que perceber o quadro táctico das ofensivas norte-vietnamitas e do vietcong, que terminaram todas com o mesmo desfecho previsível (a derrota), o que é importante a esta distância de 50 anos é perceber como a estratégia de comunicação do lado dos norte-americanos estava errada. Um dos episódios do começo da ofensiva fora um erro descomunal do vietcong, que emboscara, capturara e executara quatro jornalistas ocidentais (três australianos e um inglês) nos arredores de Saigão. Pior do que isso (na perspectiva dos comunistas), um quinto jornalista (também australiano), sobrevivera ao massacre fazendo-se de morto e tornara-se uma testemunha irrefutável dos factos. Contudo, na notícia abaixo nem sequer se tenta aproveitar o capital de queixa que o incidente potenciava em termos propagandísticos. Dali por 7 anos e para contraste, a execução de outros cinco jornalistas australianos, mas em Timor e dessa vez por tropas indonésias, teve uma cobertura - que não uma ressonância... - radicalmente diferente.
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O GESTO É TUDO
Ainda agora houve quem me sugerisse um próximo evento cultural. Quem mo sugeriu não pode ir, mas a sugestão é meio caminho andado. Resulta que o evento não vai ser exactamente o que foi sugerido mas, como diria a Teresa Guilherme, isso agora não interessa nada. Nestas coisas de cultura o que mais interessa é a atitude, a pose, o gesto. O gesto é tudo.
04 maio 2018
SE NIXON TIVESSE TIDO O TWITTER...
Muito engraçada esta alusão, que combina as sucessivas vicissitudes por que passou Richard Nixon durante o Caso Watergate com o estilo comunicacional do seu sucessor Donald Trump, embora, para se perceber o conteúdo do que aparece escrito, seja preciso conhecer os detalhes do escândalo, quem foi John Dean, Bob Woodward ou Carl Bernstein, por exemplo, ou qual a importância das tapes que Nixon se recusa a entregar, apesar das intimações. Retirado do Político.
03 maio 2018
«LE 3 MAI À PARIS»
Precisamente 160 anos depois do 3 de Maio de Madrid (poste abaixo) começava um outro 3 de Maio histórico, este em Paris. A polícia francesa procedia à evacuação da Sorbonne (a universidade) quando os estudantes, por essa vez, ripostaram, enfrentando-a. A revolta era de um cariz diferente da de Madrid e na época, felizmente, já não se usavam paredóns, porque se se usassem os paredóns (e os estudantes no seu entusiasmo até comparavam a polícia às SS!) decerto não se seguiria um mês completo de distúrbios em crescendo por toda a França, que uma certa franja de septuagenários com pretensões intelectuais vai evocar cheia de saudades ao longo deste mês de Maio, a pretexto do cinquentenário que agora se inicia. Os acontecimentos de Maio de 1968 em França são o género de acontecimentos em que tenho dificuldades em encontrar qualquer outro da História recente em que tenha havido maior desproporção entre o enfâse nostálgico que (continua a) lhes (ser) é dado e a insignificância das suas consequências depois de ele se ter esgotado.
«EL 3 DE MAYO EN MADRID»
3 de Maio de 1808. Há duzentos e dez anos os madrilenos haviam-se revoltado contra os soldados franceses - e não só, contra os mercenários egípcios a soldo dos franceses também - e, na sequência, os insurrectos pagavam o preço do seu insucesso, encostados ao paredón, num episódio que foi imortalizado pelo quadro acima de Goya, quadro que já foi aqui referenciado neste blogue numa série de cinco quadros de fuzilamentos.
02 maio 2018
O PASSEIO CLANDESTINO PELO JARDIM DE RECREIO
Cubitus, por Dupa. Para além da comicidade, há o sentido pedagógico do gag: aquele que vai à procura de corroborar suspeitas prévias, acaba regularmente satisfeito a encontrar provas, sejam quais forem as circunstâncias.
A EXECUÇÃO DE OSAMA bin LADEN
2 de Maio de 2011. A imagem que passou a simbolizar a execução de Osama bin Laden é... a da assistência (selecta) à sua execução... e que assiste a ela a 11.300 quilómetros do local onde a mesma teve lugar, em Abbottabad no Paquistão. Sete anos passados, nunca é demais continuar a frisar aquilo que de importante se deve concluir da cena e que raramente é comentado, porque está para lá destas imagens e a cultura da reflexão não costuma ser para aqui chamada. A execução teve que ser extra-judicial porque não existe essa coisa denominada Direito Internacional ou, pelo menos, nem sempre ele se pode exercer, e até mesmo a força da maior superpotência do planeta, os Estados Unidos, que às vezes emprega o Direito da Força crismando-o do tal de Direito Internacional, tem os seus limites.
01 maio 2018
O SUÍCIDIO DE PIERRE BÉRÉGOVOY
1 de Maio de 1993. Há vinte e cinco anos, Pierre Bérégovoy, que fora o primeiro-ministro francês até cinco semanas antes, suicida-se com um tiro. A morte de um político com esta projecção é sempre objecto de inúmeras especulações, tanto mais que o suicida não deixou qualquer documento explicando o seu gesto. Contudo, aquelas que actualmente se considera terem sido as causas mais plausíveis para o gesto serão o escândalo que estaria em vias de eclodir, depois da denúncia, pelo semanário «Le Canard Enchainé» dois meses e meio antes, de uma lista de favores recebidos ao longo dos anos por Pierre Bérégovoy de um seu correligionário e amigo chamado Roger Patrice Pelat, amigo esse que, por sua vez, acabara condenado num escândalo politico-financeiro. Entre os favores de Pelat a Bérégovoy, contava-se o empréstimo de um milhão de francos sem juros, para que o segundo comprasse um apartamento no 16º bairro de Paris. Ele há cada coincidência! O empréstimo tivera lugar em 1986 mas, quando a história veio a público, sete anos depois, ele só fora parcialmente reembolsado e, ainda assim, parte desse reembolso fora em espécie - obras de arte e mobiliário. Outros aspectos então revelados da relação entre Bérégovoy e o seu amigo Pelat têm, para nós portugueses, ressonâncias estranhamente familiares: por exemplo, teria sido Roger Pelat quem suportara as despesas de férias do casal Bérégovoy entre 1982 e 1989. A morte do ex-primeiro ministro francês acabou pondo fim ao inquérito então em curso, que se prefigurava arrasador. Uma lição que nos faz descobrir que, já há 25 anos, havia quem chegasse a tornar-se primeiro-ministro com amigos absurdamente generosos. Lição adicional é a de que, quando essas amizades aparecem denunciadas, há quem sinta vergonha e queira preservar qualquer coisa num último gesto. E há quem não faça nada disso.
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