O que distingue esta notícia de todas as outras que destacaram o apelo lançado por Duarte Marques a que o seu companheiro José Pacheco Pereira abandonasse o partido em que ambos militam é a fotografia. Nenhuma outra notícia aparece ilustrada de forma tão expressiva, com Duarte Marques exibindo uns livros (e logo em inglês!) que se presumem leituras suas de cabeceira: identificam-se The World is Flat de Thomas Friedman (está traduzido, mas ele pode fazer como eu: há certos assuntos em que gosta de ler no original...) e Eyewitness to Power de David Gergen. Não há nada como a reposição de uma photo-op para conferir ao fotografado a possibilidade de recuperar a densidade intelectual outrora aviltada pela incapacidade manifesta em saber onde colocar as vírgulas num banal artigo de opinião. Outrora, a anedota rezava que as patrulhas policiais eram compostas por três membros porque um deles sabia ler, o outro sabia escrever e o terceiro gostava de conviver com intelectuais. Adaptado aos partidos políticos, parece-me que Duarte Marques está convencido que, sofisticando-se, o princípio permanece em vigor...
10 dezembro 2015
...POR UM CINTO
Alegadamente, segundo a famosa peça de William Shakespeare, foi por um cavalo que Ricardo III terá perdido o seu reino. Mas foi por uma cabeça (de um outro cavalo) que Carlos Gardel perdeu a aposta na corrida de cavalos que ele canta naquele que se tornou possivelmente no seu mais famoso tango. Finalmente, foi por um cinto (e já não envolvendo quaisquer cavalos...) que Ivan Čičak (pronuncia-se Ivã Jijaque), um político croata de 68 anos, perdeu a decência numa cerimónia solene em que era o homenageado na presença da própria presidente do país, Kolinda Kitarović.
Houvesse cinto (ou suspensórios, que nestas coisas há que mostrar ser eclético...) a segurar aquelas calças e a cerimónia de Zagreb teria sido mais uma das milhares de cerimónias protocolares de ontem sem direito a que a notícia sequer franqueasse as fronteiras croatas, tal o seu evidente desinteresse. Mas tal como aconteceu, as cuecas azul-celeste do homenageado tiveram direito, pelo ridículo, à sua volta ao Mundo, numa prova provada que não é preciso ser-se Donald Trump e norte-americano para suscitar a atenção mediática.
09 dezembro 2015
«STAYIN' ALIVE»
Duas formas distintas de se manter vivo ao som da mesma música. Pessoalmente acho muito mais piada à de baixo por ser uma paródia da anterior. Mal acomparado e de forma talvez um pouco rebuscada isto é como Pacheco Pereira militar no Partido Social Democrata e pedirem-lhe para abandonar o partido e Duarte Marques, que o pede, militar num partido com a designação e estatutos de partido social democrata quando tem tido nos últimos quatro anos uma conduta política governamental de um partido inequivocamente liberal. Das duas perspectivas qual é para levar a sério?...
08 dezembro 2015
DA TELEVISÃO PARA A PRESIDÊNCIA
Apreciemos o momento em que o candidato presidencial Donald Trump propõe que os muçulmanos sejam total e completamente impedidos de entrar nos Estados Unidos até que os representantes do seu país se consigam aperceber do que é que raio se está a passar - o que é um objectivo preciso e tangível que justificará a entusiástica salva de palmas que se seguiu. Não temos alternativa- conclui enfática e repetidamente o candidato Trump. Como cenário, isto assemelha-se ao equivalente de um daqueles taxistas portugueses - estou-me a referir à mentalidade, não propriamente à profissão - que aparecesse bem posicionado nas sondagens da corrida à presidência da República, em disputa directa com Marcelo Rebelo de Sousa. À consideração daqueles que nunca pensaram que, com comparações destas, até podemos passar por ter em Portugal uma opinião pública muito mais esclarecida, porque as nossas figuras mediático-presidenciáveis são muito melhores.
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COMO CLASSIFICAR OS DESCENDENTES DE UNIÕES ENTRE ARIANOS E ISRAELITAS
Sem parecer precisar de qualquer comentário adicional esta notícia aparecia publicada na página das notícias do Estrangeiro da edição de 8 de Dezembro de 1935 do Diário de Lisboa, jornal insuspeito de quaisquer simpatias pelo nacional-socialismo, apesar do que a nossa visão actual dos valores possa sugerir. Estudar o passado com base nos valores predominantes na actualidade costuma ser um daqueles exercícios que possibilita a manifestação de grandes ultrajes quanto ao comportamento dos nossos antepassados, mas que se torna perfeitamente gratuito se a nossa intenção for a de compreender o que aconteceu e porque aconteceu. Trinta anos passados, a 8 de Dezembro de 1965 e no mesmo jornal e ainda a propósito da assunção dos racismos, um incidente de carácter criminal é narrado com o meliante (muito gostava eu de ler esta palavra nos jornais...) a ser identificado como cigano.
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07 dezembro 2015
O ENGENHO DOS ENGENHEIROS ALEMÃES
Na Alemanha dos anos que se seguiram imediatamente à Segunda Guerra Mundial, as empresas que haviam prosperado durante a mesma alimentando a máquina de guerra da Wehrmacht tiveram que puxar da imaginação para adaptar as máquinas ferramentas das suas linhas de produção a produtos para fins mais pacíficos. É assim que um construtor aeronáutico famoso como a Messerschmitt (que se notabilizara com o caça Bf-109 para a Luftwaffe e outras forças aéreas do Eixo) lançou no mercado em 1953 este Kabinenroller onde é evidente o aproveitamento da secção do cockpit desses aparelhos para nela montar um triciclo para dois lugares propulsionado por um pequeno motor (abaixo dos 200 cm³). Uma mota mas com carroçaria. Venderam-se várias dezenas de milhares deste modelo (o acima foi fotografado em 1955 em Augsburgo), e outro tanto de outros concorrentes concebidos em condições idênticas, como foi o caso do Heinkel Kabine (a Heinkel era outro construtor aeronáutico). Hoje, os que sobrevivem são peças de colecção.
A DIFERENÇA ENTRE A LEITURA E O COLECCIONISMO DE LIVROS
Ler dá-nos uma melhor visão do Mundo. Mas empilhar os livros, seja na vertical como na imagem acima, seja na horizontal como eles costumam ser dispostos nas estantes, isso tende a ser apenas um simulacro desse benefício para impressionar terceiros. Este pode ser o meu contributo para fixar o prestígio das frases profundas que cada vez mais pululam pelas redes sociais.
06 dezembro 2015
MANUEL FERNANDES... CABELO EMPASTADO; MARCO ANTÓNIO COSTA COM «DRY LOOK»
Pertenço a uma geração que ficou indelevelmente marcada há quase quarenta anos por um anúncio de televisão da gillette que correspondia à versão portuguesa deste que acima insiro. O anúncio tornou-se inesquecível pela forma como nele se dava destaque e contraste a cada um dos problemas capilares dos figurantes: Manuel Fernandes... cabelo empastado (à esquerda); Manuel Fernandes com «dry look» (à direita). A expressão caiu no goto pelo seu primarismo, como paródia às panaceias que tudo prometem solucionar apenas com uma simples mudança de aparência. Precisamente da mesma forma como Marco António Costa o fez recentemente - veja-se a metamorfose abaixo, aqueles que andam mais distraídos.
Assim, a um Marco António Costa de aspecto mais azougado, homem de acção, que conhecíamos do executivo (acima à direita, o de cabelo empastado) sucedeu um outro, mais institucional e reflexivo (o que usa «dry look»), consequência de o partido se ter mudado para a oposição, o que se pressupõe daqui para o futuro um trabalho intelectual mais apurado, razão pela qual certamente mudou o formato dos óculos. Mesmo que o PàF se tivesse notabilizado na campanha eleitoral por estar recheado de vultos que usam óculos (abaixo, realce-se a imerecida ausência de Paulo Rangel naquele elenco) parecem aproximar-se tempos em que a questão do formato dos óculos vai assumir alguma importância estética no contexto interno do PSD e da oposição.
AS ELEIÇÕES QUE TÊM RESULTADOS MORALMENTE BONS... E AS OUTRAS
O destaque noticioso dado por certos órgãos de informação às eleições legislativas de hoje na Venezuela permitem pelo menos obscurecer a atenção que possa ser dedicada às eleições regionais francesas que irão ocorrer no mesmo dia. A causa para tal não deverá ser por causa da importância e interesse relativos que os dois países nos merecem: estamos indiscutivelmente muito mais interessados no que acontecerá em França do que com aquilo que se passará na Venezuela. Uma explicação mais plausível para essa hierarquização mediática poderá radicar nas consequências do acto eleitoral: as primeiras eleições são legislativas enquanto as outras são apenas regionais. Mas eu arrisco-me a uma terceira explicação para o fenómeno: nas eleições venezuelanas antecipa-se um resultado simpático (a derrota do regime populista de esquerda de Nicolás Maduro) para os órgãos de informação que assim hierarquizaram as notícias; mas nas eleições francesas (com o previsível reforço da votação da Frente Nacional de Marine Le Pen) os resultados prevêm-se bem menos simpáticos. A Frente Nacional é uma outra direita, dura, nacionalista e tudo aquilo que pareça mostrar o reforço do nacionalismo das nações sufragado pelo voto popular não parece ser encorajado noticiar pelos poderes europeus that be. Tanto assim que o referendo que a Dinamarca realizou esta semana, em que os eleitores daquele país se pronunciaram contra a adesão às políticas comunitárias em matéria de justiça e polícia, passou praticamente desapercebido. Esta será apenas a expressão mediática deste novo conceito democrático de qualificar as eleições por aquelas de que resultam bons resultados, separando-as das outras que, no limite e quando as consequências são mais gravosas, até há que repetir...
05 dezembro 2015
«IL DISCORSO DEL BIVACCO»
A 16 de Novembro de 1922 Benito Mussolini pronunciou o seu primeiro discurso diante da Câmara de Deputados italiana na qualidade de presidente do Conselho, um discurso que ficou memorável pelo seu estilo altivo e truculento, emblemático do autoritarismo despótico que o fascismo representava e que ainda hoje é recordado em Itália pelo designação de il discorso del bivacco - o discurso do acampamento.
Foi o teor geral de certas intervenções desta semana de alguns deputados dos partidos da direita, CDS e PSD, que me fizeram lembrar a célebre acutilância desdenhosa pela instituição parlamentar que Mussolini expressou de forma tão clara. Bem sei que há a substancial diferença de que Mussolini se queria mostrar arrogantemente magnânimo na vitória, enquanto Passos Coelho e Portas nada mais podem fazer do que mostrarem-se despeitados na derrota mas, nos 70 anos que a Europa regista depois do fim da Segunda Guerra Mundial, com muito episódicas excepções, as formações políticas da direita sempre constituíram tradicionalmente o paradigma da civilidade na condução dos trabalhos parlamentares. Até mesmo no Portugal do Estado Novo, onde essa actividade (parlamentar) era muito mortiça (perdoe-se a ironia...), Salazar adoptou um estilo de falar à Câmara completamente diverso do de Mussolini. Para analogia, foi preciso recuar muitos anos (93, para ser preciso) e vasculhar muitas sessões de vários parlamentos europeus para encontrar um desdém (implícito) pela Democracia representativa que se assemelhasse inspirador àquilo que vimos demonstrado em rigorosa estreia nacional nestas últimas semanas na nossa Assembleia da República.
04 dezembro 2015
UMA OUTRA ABORDAGEM DO QUE TAMBÉM PODE SER QUALIFICADO POR «REGULAR FUNCIONAMENTO DAS INSTITUIÇÕES»
Ao contrário do que acontecera com a moção de rejeição ao governo que havia sido votada em 10 de Novembro passado na Assembleia da República, a de ontem, 3 de Dezembro, endereçada ao governo seguinte (XXI) foi rejeitada. Os nossos deputados andam a adquirir rotina em votações importantes, das que confirmam ou infirmam governos. Mesmo assim, os vinte e três dias que mediaram entre os dois actos não foram suficientes para que se corrigisse aquilo que correra mais evidentemente mal da primeira vez: o fiasco do sistema electrónico de votação. Ainda não foi desta que tivemos oportunidade de o ver em acção: a presidência do hemiciclo, de uma prudência pragmática, recorreu logo desde o princípio ao caduco mas testado princípio do voto-alça-o-rabo-da-cadeira. Só em teste o sistema electrónico foi empregue e, mais uma vez, terá voltado a falhar: o voto de um dos deputados não chegou a ficar registado, e logo o de Jerónimo de Sousa do PCP. E mais uma vez tudo isto parece ser registado com a mesma ligeireza galhofeira de há um mês... Recordo que continuo à espera que alguma das seis mensagens que mandei a esse propósito para os serviços e grupos parlamentares da Assembleia da República tenha resposta. Ah, é verdade: e gostei do discurso de encerramento de Augusto Santos Silva, apesar de, nitidamente, não ter caído em graça junto dos comentadores, os prós e os contras. Reconheça-se que, por não precisar deles para formar opiniões, me estou a cagar para a grande maioria dos comentadores.
DE QUE RIRÁ PASSOS COELHO?
Quando li a notícia no Expresso de anteontem de que Passos Coelho chorara a rir com a estreia de Centeno não me pude impedir de ser eu a rir na minha vez, ao recordar como as relações do ex-primeiro ministro com economistas académicos teóricos e com pouco sentido prático e político terão o dom de espevitar o seu bom humor, como se pode apreciar nesta foto acima, já com um par de anos. Ou tratar-se-á de uma forma assaz subtil de ele aconselhar o seu sucessor António Costa? Não faça isso, não ponha gajos desses na pasta das Finanças, que comigo correu muito mal, o gajo que eu escolhi para fazer o papel do Centeno não acertou nem numa previsão!...
03 dezembro 2015
PARADOXOS DA MODERNIDADE
A publicidade televisiva às próprias televisões contém um daqueles paradoxos engraçados de que os consumidores raramente se aperceberão: é que os elogios que normalmente se fazem à qualidade e nitidez das imagens do equipamento publicitado estão condicionados pela qualidade e nitidez do equipamento receptor que o próprio consumidor tem em casa... Se as imagens do televisor novo lhe parecem muito mais nítidas isso só pode acontecer por artifício, porque elas lhe chegam através do televisor a que o espectador está acostumado... Algo de estruturalmente semelhante acontecerá quando leio no facebook quem publica reflexões de pensadores que são fortemente críticas quanto à forma como a internet, as redes sociais e, no caso concreto abaixo, o próprio facebook são indutores de formas viciadas e limitadas de pensar. Apresentadas no suporte em que o são, precisamente o que é criticado, não se tornarão essas críticas por sua vez, deficientes por causa das mesmas explicações que elas próprias prestam?
Não fosse assim, e como é que se aceitaria este mimo de indigência mental que lá se pode ler, que é o apelo para tweetar a frase? (A frase, note-se. Não o pensamento nela contido...)
Adenda: Nem de propósito, no dia seguinte ao da publicação deste poste, apareceu uma notícia que houvera um estudo que tentara encontrar uma ligação entre as pessoas que avaliam como profundas as típicas frases inspiradoras que invadem as redes sociais e os respectivos níveis de inteligência. A conclusão não é benévola para os visados, mas não deixa de ser sintomática da modernidade dos tempos que haja que recorrer ao argumento dos estudos ditos científicos para persuadir os mais estúpidos daquilo que os que o não são dão facilmente por adquirido.
FRUTOS... MAS DE MATURAÇÃO MUITO LENTA
O mínimo que se poderá concluir do título deste Relatório da OCDE apresentado em Outubro do ano passado é que, se as reformas estão a dar frutos, esses frutos são de uma maturação muuuuito lenta... Falando mais a sério, expurgada a merecida ironia àquele optimismo descabido, percebe-se como estes relatórios, original e supostamente técnicos, quando evocados e apreciados a uma distância temporal para a qual já não haviam sido concebidos, não passam de meras peças de propaganda (sustentados nuns números para salvaguardar reputações).
02 dezembro 2015
A NOTÍCIA DA NOTÍCIA
A notícia mais importante desta notícia não é o facto de ela ter aparecido publicada no Público de hoje. Já se sabe quem é José António Cerejo e as áreas políticas por onde o Público tem navegado nestes últimos tempos. O interessante foi a celeridade como o Observador se apropriou da notícia apenas uma hora depois de ela ter aparecido on-line, dando-lhe o seu próprio realce e divulgação entre as hostes dos seus leitores. Assim como estes últimos costumam dizer que, em economia, não há almoços grátis, também se deveria complementar essa máxima com a constatação que, em política, não há destaques gratuitos a temas destes. O que é que isto quererá dizer? Isso só posso especular...
«GOVERNO ALEMÃO APROVA REFORÇO DA MISSÃO MILITAR NA SÍRIA»
Acompanhando a actualidade das notícias e considerada a reputação da paisagem da região em causa (mais a profusão de palmeiras...), não será despropositado recuperar um respeitado e provecto símbolo militar alemão a estes tempos modernos.
«MONTENEGRO CONVIDADO PARA INTEGRAR A NATO»

Andamos tão centrados na conflitualidade política interna que a minha reacção imediata à notícia que Montenegro fora convidado para integrar a NATO foi especular que conexões maçónicas teria o líder do grupo parlamentar do PSD accionado desta vez para conseguir arranjar um lugar na estrutura daquela organização internacional, agora que o seu partido abandonou por cá a área do poder... Afinal, não: o Montenegro em questão é o país balcânico.
AS LEGÍTIMAS EXPRESSÕES DO GOSTO MUSICAL POPULAR
O Verão de 2004 notabilizou-se pelo sucesso europeu desta notável canção oriunda da Roménia com o hermético título de Dragostea din tei. O desconhecimento generalizado do romeno fez com a que a canção se popularizasse sob outras designações mais onomatopaicas tais como Numa Numa ou Mai Ya Hee e o respectivo videoclip destacava-se pelos planos aeronáuticos (acima). Conquistadora dos tops de países respeitáveis como a Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Holanda, Itália, Noruega, Portugal, Suécia ou Suíça, a canção representou, 15 anos depois da deposição e execução de Ceausescu, uma espécie de carta de alforria da produção musical da Europa de Leste. A influência da estética do passado socialista nesses países parecia, com aquele exemplo, completamente erradicada.
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01 dezembro 2015
A TECLA COM A LETRA W E O VERDADEIRO ORÇAMENTO DE BASE ZERO
Entre os incidentes de transição mais bizarros de que me recordo está aquele que foi imaginado pelo staff da administração Clinton quando, em Janeiro de 2001, resolveu retirar a tecla W de dúzias de teclados dos computadores da Casa Branca, imediatamente antes da posse daquele que seria o sucessor de Bill Clinton, George W. Bush. As transições estão cheias de golpes baixos e esta, a ser excepcional, é porque seria pior que outras. Compete a quem herda o poder fazer o papel de ofendido. Mas o que considero renovador no tom, mais do que no teor, da notícia de que este governo vai ter que elaborar um orçamento literalmente de base zero, é a mudança de atitude, deferente, que a comunicação social dita de referência sabe sempre adoptar em tempo para com quem se torna poder em contraste com quem o já não é. Se os socialistas se tivessem queixado preventivamente há quinze dias de que isto iria acontecer, tenho a certeza que a notícia do Expresso (e é apenas um exemplo...) seria completamente diferente daquela que hoje é publicada.
O DIREITO À DISCORDÂNCIA
Estou a acabar de ler este Thunder on the Dnepr. É um livro já antigo (originalmente publicado em 1997) que comprei naquela espécie de salvados e restos de colecção que aparecem na FNAC. A tese do livro é, no mínimo, arrojada: toda a primeira fase da gigantesca Operação Barbarrossa, entre Junho e Dezembro de 1941, havia afinal sido antecipada pelos soviéticos e tudo não terá passado de uma ardilosa manobra preparada de antemão por Jukov e Timoshenko que conduziu à derrota da Wehrmacht às portas de Moscovo em Dezembro de 1941. Em suporte da tese, o livro (que tem 350 páginas) beneficiou da abertura dos antigos arquivos soviéticos que existiu durante a década de 1990 (e que entretanto, com Putin, foram reencerrados) e inclui quase 50 páginas com notas adicionais e apêndices, alguns deles que são apresentados como inéditos. Tudo isso não impede que uma apreciável percentagem das apreciações mais fundamentadas que li a seu respeito, arrase o livro. E, na minha modesta opinião, com alguma razão, pois no seu esforço para desfazer o mito da impreparação dos soviéticos os autores acabam por acentuar em excesso quanto tudo não terá passado de uma espécie de derrapagem controlada em que Estaline e a Stavka permaneceram sempre no controle dos acontecimentos. Como assinalam as críticas (entre outros argumentos), o controle não devia ser assim tanto, quando os soviéticos perderam nos primeiros seis meses mais de 3 milhões de homens aprisionados... Mas, mesmo na discordância, é sem esforço que estou a ler o livro até ao fim porque considero que há que preservar o respeito pela opinião diversa, nestes casos em que ela é devida e validamente fundamentada.
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