10 maio 2015

SÍNTESE DE UMA BIOGRAFIA QUE POUCOS AINDA PUDERAM LER, QUE NÃO MUITOS MAIS LERÃO, MAS DE QUE MUITOS MAIS EXEMPLARES SERÃO VENDIDOS (SEM QUE, NESTE CASO, NINGUÉM SE INCOMODE EM SABER EM QUEM OS COMPROU...)

Antes de ter sido colocada à venda (houve quem a quisesse comprar a meio da semana que passou e ainda não estava a ser distribuída), antes portanto de poder ser lida pela opinião pública, já esta outra biografia de Pedro Passos Coelho (por cognome o rebiografado) se consagrara junto da opinião publicada, dominada pelas críticas mas também por duas ideias fortes, por coincidência assimiláveis aos títulos de duas canções de sucesso de outrora de Annie Lennox e dos Eurythmics:

«There Must Be an Angel» (Deve Ser Um Anjo) e...

«No More I Love Yous» (Não Há Mais Adoro-tes), esta última a pensar de uma forma muito amiga e muito especial em Paulo Portas...
Para quem estranhe a extensão (inusitada) do título deste poste, esclareço quanto me interessaria que o número de exemplares a vender e a tipologia dos clientes que o comprarão por atacado fosse objecto do mesmo escrutínio que teve o livro de José Sócrates. É só cá uma ideia... (adenda) que começo por ver respondida a partir de 2 de Junho, por exemplo aqui: https://twitter.com/tbribeiro/status/605414927000576002

Adenda (15 de Maio): Acabei por conseguir o livro para o ler... e não o acabar. Desisti na página 169 quando a descrição das negociações do PSD com a tróica destaca os papéis de Catroga e Gaspar (Para tal missão, Catroga contou com o contributo de Vítor Gaspar...) enquanto se esquece de Abel Mateus, apesar de ser este que aparece nas fotografias oficiais de então ao lado de Catroga e Passos Coelho (abaixo). Para trás, asneiras e/ou omissões de igual quilate sucedem-se de tal forma que foi a saturação a causa da minha desistência. Exemplo: de 1985 a 1995, Cavaco Silva esteve no poder por doze anos? Asneira que aparece repetida na p.105 e na p.125! Numa das várias entrevistas que deu em promoção ao livro, li a autora Sofia Aureliano confessando que gosta muito de biografias. Então porque é que escreveu esta?...
Adenda (17 de Maio): Houve quem pegasse na biografia, adulterasse o título para Somos o que os alemães deixarem e a qualificasse de notícia do Correio da Manhã com muitas páginas. Discordo. A esmagadora maioria das notícias daquele jornal costumam estar mais bem redigidas.

QUESTÃO METAFÍSICA

Oitenta por cento do sucesso consiste em aparecer – é uma celebrada frase de Woody Allen. Terá ele (cada vez mais) razão sobre a(s) chave(s) para o sucesso? Será que será por causa disso que, por exemplo,o género de expressão artística acima não consegue deixar de se promover exclusivamente nas ruas para se passar a corporizar (por assim dizer...) nas galerias de arte?...

09 maio 2015

AS «BONNES PORTUGAISES» ORIGINAIS

Sejam fotografadas em 1965 por Gérald Bloncourt numa bidonville dos arredores de Paris ou caricaturadas em 1972 por Albert Uderzo nas páginas de Asterix na sua função tradicional de criadas domésticas, a verdade é que a imagem das imigrantes portuguesas originais, tal qual era cultivada pelos franceses, quer pelo seu penteado rústico de carrapito, quer pela sua exuberância pilosa, em nada se assemelhava à personagem de Rita Blanco de décadas depois em A Gaiola Dourada (abaixo), quando aí já aparece promovida por anos de sofisticação – além de regulares visitas ao cabeleireiro e à depiladora... – a um outro estatuto, o de concierge.

«BERLIN BLEIBT DEUTSCH»

Para um assinalar (ainda que ligeiramente atrasado) do 70º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa que se assinalou ontem, dia 8 de Maio, esta fotografia dos últimos combates por Berlim, onde se destacam os dizeres pintados à mão numa qualquer parede da cidade, Berlin bleibt deutsch (Berlim permanecerá alemã), as últimas proclamações políticas de um arrebatamento tornado ridículo pela realidade dos factos: essa realidade era dominada por engenhos como a peça de artilharia autopropulsionada (ISU-122) do Exército Vermelho que se vê a atravessar a rua.

08 maio 2015

AINDA AS BOLSAS... E OS SAPATOS

Se já se percebeu que (as) Bolsas (...e os Sapatos) aplaudem (a) vitória dos conservadores no Reino Unido, seria de esperar que se assinalasse – havendo coerência – que a intensidade desses aplausos deverá ter sido muito moderada pelos resultados eleitorais da Escócia, onde os independentistas do SNP ganharam 56 dos 59 lugares em disputa e 50% dos votos.
É um resultado que parece recolocar o problema do separatismo escocês em agenda, algo que parecia ultrapassado depois da realização do referendo sobre a independência da Escócia há apenas oito meses, quando, recorde-se abaixo um dos cabeçalhos da altura, os Mercados (teriam) respirado de alívio com o «não» escocês.
Houvesse laivos de seriedade em todo este género deplorável de jornalismo feito de superficialidades e de um engajamento ideológico indisfarçado, e impor-se-ia explicar-se porque é que, com os resultados eleitorais de ontem, com a independência da Escócia a voltar à ordem do dia e com um referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (re)prometido pelo partido vencedoros mercados e as bolsas não haviam tido um ataque de asma...

LÁ COMO CÁ?


É quase impossível olhar para estas imagens de resignação e da resignação de Nick Clegg à frente dos Liberais Democratas, após cinco anos como parceiro júnior de uma coligação culminado com o pior resultado eleitoral do partido dos últimos 45 anos, e não estabelecer uma associação imediata com o profundo dilema de Paulo Portas. Reconfortado por este exemplo, já não me surpreenderia em vir a ver um dia destes Passos Coelho a humilhá-lo ostensivamente em público.

...E OS SAPATOS TAMBÉM!

Há uma cena que eu considero inesquecível no filme A Canção de Lisboa, quando o discurso oco e redondo de António Silva na cerimónia da Academia é interrompido por um comentário inconveniente de alguém da audiência, de imediato repreendido pelo entusiasta de serviço aos dichotes na e da assistência: - Oh senhor, haja respeito pela mesa! Mas a punchline da cena está guardada para uma das tias que, impermeável ao sentido metafórico da mesa, acrescenta de imediato: - ...e pelas cadeiras também! (veja-se o filme, lá por volta da1:04:00 de rodagem)
Porque me lembrei disto? Porque ontem se realizaram eleições no Reino Unido e os conservadores venceram-nas clara e surpreendentemente. E porque, de há cerca de decénio e meio para cá, tornou-se uma tradição que a imprensa pró-liberal, no dia seguinte aos actos eleitorais de que resultam vitórias à direita, avalie e publicite sempre positivamente as sessões de bolsa que se seguem, como se se tratasse de uma espécie de caução da (boa) escolha dos eleitores . É que ninguém está a ver – mesmo na improbabilidade de isso acontecer – publicitarem esse mesmo fenómeno quando de uma vitória à esquerda; pode ser dificílimo de acontecer mas será impossível aparecer noticiado. Abaixo fui buscar o cabeçalho à página da TVI24 de hoje, que não é particularmente mais tonta que outras que pululam por aí.
Já sou suficientemente veterano para ter visto isto a ser feito do outro lado do espectro político: ainda há uns dias recordei o cabeçalho do Diário de Notícias após as eleições de 25 de Abril de 1975 anunciando a vitória de uma Aliança Povo-MFA que não fora a votos. A distorção aqui é que as bolsas não aplaudem coisa nenhuma porque não pensam: vota tanto o presidente da Bolsa como votará a empregada de limpeza que limpa as instalações ao fim do dia (se o decidirem fazer), mas votam individualmente e o peso do seu voto é equivalente. Mas, diz-me a experiência, tanto a uns (comunistas) como a outros (liberais) é preferível ridicularizá-los do que levá-los a sério, socorrendo-nos para isso da mesma lógica tacanha que outrora foi a de uma das tias do Vasquinho: (As) Bolsas aplaudem (a) vitória dos conservadores no Reino Unido? ...e os Sapatos também!

07 maio 2015

PELO CENTENÁRIO DE UM DIÁRIO DE UM AUSTRALIANO EM GALÍPOLI

Às primeiras horas da madrugada de Domingo, 25 de Abril de 1915, uma força expedicionária de 70 mil homens constituída por britânicos, franceses, australianos e neozelandeses preparava-se para fazer três desembarques simultâneos e de surpresa nas costas do Estreito dos Dardanelos. As praias de Galípoli, no lado europeu, haviam sido escolhidas para objectivo dos 17 mil australianos e neozelandeses. Entre estes, viajando num dos barcos a remos que silenciosamente procuravam chegar a terra, encontrava-se o cabo George Deane Mitchell (acima), então com 20 anos, de que iremos ler algumas entradas dos próximos três meses no diário que então escreveu.
25 de Abril de 1915
Oh meu Deus, que dia.
Por volta das duas da manhã fomos todos acordados e num silêncio nervoso reunidos no tombadilho. Uma lua esplendorosa iluminava a cena enquanto o nosso navio se deixava estar, motores desligados, num mar chão. Viam-se muitos pares de olhos apontados para os contornos da costa, à distância, elevando-se do horizonte como uma esfinge detentora dos mistérios da vida e da morte. A quebrar o silêncio apenas um imperceptível arrastar de pés, interrompido de quando em vez pelas pragas abafadas de quem tropeçava. Era uma atmosfera estranha.
Comecei a respirar fundo. Tentei analisar o que se estaria a sentir, mas não o consegui. Julgo que era uma complexa mistura de sentimentos de onde se destacava um certo orgulho. Tínhamos vindo do Novo Mundo para a conquista do Velho. Esperávamos que fosse difícil, mas nunca esperávamos que viesse a ser tão difícil quanto o foi. Sabíamos que o preço do fracasso seria a aniquilação e que a vitória seria a sobrevivência. Lembro-me de me ter voltado para o desgraçado do Peter e de lhe perguntar como é que se sentia.
Bem. Foi a última vez que falei com ele.
Hora após hora a nossa procissão prosseguiu metodicamente. O vento frio parecia entranhar-se até aos ossos. E depois começaram a acontecer coisas. Uma luz azulada começou a materializar-se sobre aquelas colinas até aí indistintas. Fomos vistos – ouviu-se num silvo. E então tudo começou.
Knock, knock! A tensão disparou. Enfim - lembro-me de ter pensado - ao menos já não há dúvidas. Klock-klock-klock. Wee-wee-wee. Os sons dos pequenos mensageiros da morte. Então tudo se tornou num coro gigantesco e descobrimos que eles se haviam concentrado à nossa espera.
A chave passara a ser a do cadeado que selava as portas do Inferno. Alguns agacharam-se o mais que puderam no barco já sobrelotado. Outros mantiveram-se sentados afectando despreocupação. Outros faziam o mesmo, mas ostensivamente. A outros ainda, dava-lhes para rir e dizer piadas, enquanto havia aqueles a quem lhes dava para praguejar. Os últimos cem metros até à praia durava uma vida. O barco carregado avançava devagar, se assim se podia dizer. Houve uma altura em que já não dava mais: Saltem pelos lados, pessoal! – gritei enquanto o fazia também.
Quando cheguei a terra chamei a minha secção para que se me reunisse. Durante aqueles preciosos minutos em que em que permanecemos protegidos atrás de um barranco, à espera que todos chegassem saraivadas de balas aterravam na areia à nossa volta. Tive um arrepio quando finalmente me apercebi do significado dos gritos intermitentes que se ouviam à nossa volta.
A origem do fogo parecia predominar do lado esquerdo, onde o declive era mais elevado. Um homem aterrou a meu lado muito bem-disposto, a rir. Dei-lhe a novidade, com a maior gentileza que me foi possível:
Estás metido na maior enrascada da tua vida. Mostrei-lhe a localização do inimigo, disparámos alguns tiros. E uma vez mais ouvi o barulho característico do impacto de uma bala. Olhei para ele horrorizado. A bala tinha-lhe acertado na cara, destruindo-a e deslizando garganta abaixo, devido à sua posição, emudecendo-o. Mas o que os seus olhos transmitiam era assustador de contemplar enquanto agonizava. Não havia nada que lhe pudesse fazer, a não ser rezar que morresse o mais depressa possível. Passaram-se vinte minutos até que isso acontecesse, quando cruzou as pernas numa agonia hirta.
Subitamente, a ritmo compassado sobrepondo-se aos ruídos da batalha, ouvia-se um terrível
Woom-Pah que parecia fazer com que terra, mar e ar se levantassem em uníssono para assentar de novo. Era o Big-Lizzie¹ participando com os seus brinquedos de 15 polegadas. (foto abaixo) Chegou uma ordem para calar baionetas e preparar para atacar. Os sobreviventes do desembarque fixaram as baionetas às espingardas e prepararam-se para saltar simultaneamente à ordem. E que tempestade de chumbo nos acolheu quando os reflexos metálicos do aço se tornaram visíveis por cima dos arbustos que até ali nos haviam protegido! Uns quatro homens caíram instantaneamente. Creio que só um homem em seis daquela linha estava capaz de progredir, os outros estavam mortos ou feridos.
Depois de ter esperado até que o fogo diminuísse de intensidade, preparei-me para saltar dali para fora e correr para uma posição mais adiantada mas mais segura do que aquela linha que agora parecia definida por corpos estendidos. Não sei por quantos passei no meu sprint, mas sei que o ar estava cheio de balas e que eu lhes perdera o medo. Alcançada a posição a quatro metros dali, atirei-me para o chão e rolei até me ver ao lado do Jock:
Atingido? – perguntou-me. Não sei – respondi - Vou ver. Mas não encontrei nenhum buraco de bala. E por ali nos deixámos estar até à noite chegar e pudemos sair dali para fora, cavando um buraco para nos protegermos.
O desembarque fora um fracasso estratégico e tornara-se um embaraço táctico. As tropas nem sequer haviam desembarcado no local originalmente previsto, mas noutro local, onde as condições para a progressão seriam ainda piores que o antecipado, com um inimigo agora atento. Atribui-se a Napoleão a máxima que Nunca se deve reforçar um fracasso, o que aconselharia a retirada, como foi sugerido pelos comandantes das duas divisões envolvidas. O que Napoleão não pode fazer é ensinar os comandantes do topo (neste caso Hamilton e Birdwood) a reconhecer um fracasso quando estão diante de um. Na primeira semana de combates, as baixas sofridas pelos atacantes de Galípoli atingiram 8.100, ou seja quase 50% dos 17.000 efectivos inicialmente engajados, entre os quais se contavam 2.300 mortos. A sua situação era, para dizer o mínimo, precária. A fotografia abaixo é de trincheiras guarnecidas pelo próprio batalhão de Mitchell (o 10º).
4 de Maio de 1915
O nosso batalhão foi finalmente transferido para a reserva. Tive que ficar a comandar o pelotão² já que todos os mais graduados que eu morreram. Mas a contagem dos efectivos acabou por mostrar que a percentagem de baixas foi apenas de 50% em vez dos 80% com que eu contava inicialmente. Tem feito bom tempo, solarengo, sem nuvens, acolhedoramente quente, a contento com a ausência de mais mortes. As trincheiras têm estado razoavelmente calmas, o inimigo está perfeitamente controlado.

6 de Maio de 1915
Está a correr por aí uma piada que os turcos nos deram 24 horas para nos irmos embora – com armas e bagagens. Senão, seremos todos mortos. Pobres de nós. Mas está criada uma grande animosidade contra os franco-atiradores, a quem destinamos os nossos melhores tiros. Não há qualquer emoção em esperar por um inimigo que não se dispõe a aparecer.

7 de Maio de 1915
Não estamos a conceder grandes mercês ao Turco. Como podia ser de outra forma? São muito liberais no emprego de balas explosivas e, tivessem tido oportunidade, teriam cometido as suas habituais atrocidades. Os franco-atiradores têm tido resposta apropriada do nosso lado. Logo que um é apanhado à mão é imediatamente passado à baioneta.
Os turcos apanham que se fartam quando dos seus pouco empenhados ataques nocturnos à baioneta. Aproximam-se invocando Alá. Nós contemo-nos de fazer fogo até eles estarem a uns vinte passos. É aí que eles apanham umas descargas, nós saltamos das nossas posições e espetamos os que não forem suficientemente rápidos a fugir. Ainda não tive a sorte de apanhar nenhum
.
12 de Maio de 1915

Quando fui acordado para o meu quarto de sentinela, pus-me a reflectir sobre as glórias da guerra. Chegou a alvorada e começou a chover ainda mais. Às 9 da manhã fomos transferidos para as trincheiras de reserva por 24 horas. Arrastei-me preguiçosamente por todo o resto da manhã e dormi toda a tarde.
17 de Maio de 1915
Estávamos a começar a organizar o dia quando uma granada de artilharia veio aterrar na nossa trincheira. Por um par de segundos o ar encheu-se de metal e destroços. Quando o fumo e a poeira assentaram, lá estava a vítima – Alec Richmond com um buraco na cabeça – nos seus últimos estertores. Os seus amigos mais chegados com uma expressão acinzentada pelo pesar lá o carregaram.
Mas pelo meio-dia, com o trabalho do dia concluído, Cheney e eu fizemos um belo guisado, com carne, cebolas, batatas. Isso animou toda a gente para o resto do dia. Esquece-se a tragédia mal ela desaparece da nossa vista, às vezes ainda antes.

19 de Maio de 1915 (Ataque Turco)
Todos os arbustos pareciam esconder o seu turco. De repente de uma trincheira a 150 metros de distância ouviu-se um claro e distinto grito de Alá! E no mesmo instante vi o brilhar do aço de uma baioneta num recanto não muito longe.
Foi um massacre. Acabou em meia hora. A luz do dia mostrou o terreno diante de nós repleto de mortos nas mais variadas posições. Do lado direito havia um turco ajoelhado no campo de trigo, a uns meros 4 metros da trincheira. Morto. A granada que seria para arremessar para os nossos
confortáveis cantonamentos rebentou prematuramente completando o trabalho de duas balas bem assestadas. Trouxe-se umas dúzias de espingardas com baionetas e respectivas munições. Andei a divertir-me a atirar com uma. A coronha estava cheia de sangue seco mas de resto disparava bem.
Um turco ferido disse-nos que eles consideram os australianos a encarnação do mal. Os alemães haviam-lhes dito que nós éramos bandos indisciplinados, armados com paus, machados, etc. Mas reconheceu que éramos terríveis quanto ao uso das baionetas. 

24 de Maio de 1915 (Tréguas para recolha dos cadáveres)
Subimos o parapeito e entrámos no terreno contestado. Acostumei-me a ver coisas bizarras mas a novidade do episódio impressionou-me mais do que qualquer outra coisa nesta guerra. E houve quem compartilhasse a mesma opinião. Por aqui, as trincheiras estão separadas por sete a trinta metros – um labirinto confuso. Grupos de turcos, australianos e neozelandeses vagueavam pela zona da morte. Grupos mistos confraternizavam trocando cigarros, etc. Os turcos e os seus oficiais eram abertamente amigáveis enquanto os alemães se marginalizavam inexpressivos. Havia entre eles quem envergasse uniformes esplêndidos e o pretensiosismo dos hunos que os exibiam era intolerável.
De repente, uma ordem surgiu: Toda a gente para as respectivas trincheiras. Não se perdeu tempo em desaparecer da vista daquele número incontável de Maxims e Mausers.
Todo esse dia só encontrei um homem que correspondesse aquele concepção tradicional do turco de outrora. Era um individuo de aspecto satânico com um uniforme azul claro. No geral, pareciam bem alimentados e bem armados.

13 de Julho de 1915
Dia treze azarado. De manhãzinha fui dar um mergulho. E um franco-atirador turco resolveu chatear-me. Tentou-me atingir pelo menos por quatro vezes. Quando as coisas começaram a aquecer passei a ter que mergulhar e a nadar debaixo de água. Voltei para a praia. Pus as minhas coisas nas trincheiras do 11º (batalhão). Fiquei a fazer a sentinela do QG. Uma hora de serviço, duas de descanso. Estava-me a sentir adoentado. Artilharia pesada a rebentar todo o dia. De noite poderia dormir no posto mas acordava todas as vezes que alguém se aproximava. Não será que possa dormir numa cama? Estou estoirado. Quem me dera que os turcos atacassem para ao menos animar as coisas.

23 de Julho de 1915
Festival maometano do Ramadão e estamos com esperança que os turcos não deixem passar esta oportunidade gloriosa para nos atacarem.
Muito adoentado.
Passei pela enfermaria e deram-me um comprimido.
Não comi nada todo o dia.

25 de Julho de 1915
Doente.
Tomei um comprimido e fiquei isento de serviço.
Não comi nada.
Compare-se a página do diário no dia do desembarque, com a letra desta última entrada apenas três meses depois e compreenda-se como a força anímica de um homem podia desaparecer por completo em 90 dias naquelas condições. Afectado provavelmente pela disenteria, o cabo Mitchell foi evacuado em 4 de Agosto para um hospital em Alexandria, no Egipto. George Mitchell só voltaria ao serviço activo um ano depois, em Setembro de 1916, mas agora na Bélgica para onde o seu batalhão (o 10º) fora entretanto transferido. Acabou a guerra como oficial, condecorado com a Military Cross e a Distinguished Conduct Medal.

¹ Alcunha do novíssimo couraçado HMS Queen Elizabeth cujo armamento principal eram 8 canhões com um calibre de 15 polegadas (381 mm).
² Recorde-se que Mitchell era apenas cabo e que um pelotão costuma ser comandado em condições normais por um oficial subalterno, auxiliado por três ou mais sargentos que o substituem.

AMIGOS DO Ó

Fiquei a saber da morte do jornalista Oscar Mascarenhas, lendo o blogue de Francisco Seixas da Costa. Mas soube mais que isso: lendo um comentário lá deixado por um anónimo, fiquei a saber que o falecido prezava, fazia gosto mesmo, em ser tratado por Oscar, sem acento, ao arrepio das regras gramaticais, mesmo as de ante AO90. Precavido e considerada a redacção sobranceira e algo irritada do comentário, fui fazer uma verificação de segurança e constatei que, de facto, na página de facebook, o ora defunto se identifica por Oscar Mascarenhas, o que confere plausibilidade à reclamação do anónimo quando intimou o nosso embaixador em Paris a remover os acentos (e este, muito bem, o fez). Tendo descoberto isto, e encadeando-se no mais que natural endereço dos meus votos de pesar à família do jornalista, que deve preceder quaisquer outras considerações, permitam-me manifestar a estranheza perante arrebatados testemunhos de amizade e proximidade que se lêem a propósito nas redes sociais (abaixo, o afixado por João Soares), em que se parece desconhecer a peculiaridade íntima da forma de tratamento do amigo, acentuando-se canonicamente o Ó de Óscar. Repegando a expressão inicial do comentário de João Soares: Porra, ele há ignorâncias (logo na forma de tratamento?) que dão mesmo o aspecto daquilo que são...
Adenda: Mais outro Amigo do Ó

06 maio 2015

«TIME» de Maio de 2015

Excelente de eloquente a capa desta semana da revista TIME. Entre o que mudou, a banalização da posse de câmaras de fotográficas e de filmar por parte dos transeuntes. Entre o que não mudou, a composição étnica predominante daqueles que se confrontam com a polícia norte-americana.

UM «CRÂNIO» ÚNICO

Quando Frank Horvat fotografou este instantâneo em 1958, já a imagem do general de Gaulle se havia tornado mundialmente reconhecível. As suas conferências de imprensa televisivas é que ainda não adquirido a fama que posteriormente vieram a desenvolver. Mas, mesmo sem se ouvir o que diz, Horvat consegue dar dele nesta foto uma pose, uma expressividade e uma silhueta únicas, mesmo sem que ele envergasse o tradicional quépi, que sempre se julgara indispensável associar à personagem (abaixo). De Gaulle era uma figura tão alta, tão feia, tão específica, que o quépi podia tornar-se o menor dos atributos identificativos da pessoa.

05 maio 2015

«NOTÍCIAS À POTENKINE»

Acompanhando sucessivos cabeçalhos do Jornal de Negócios do mês passado com notícias a respeito evolução das yields dos títulos da dívida pública portuguesa percebe-se o que é uma notícia à potenkine. Recorde-se quem foi Grigori Potenkin (1739-1791): favorito da czarina Catarina a Grande, ficou célebre pela forma como organizava as viagens oficiais da soberana, encenando para ela uma realidade inexistente. No caso das notícias acima, a realidade é, no mínimo, mais complexa do que a descrevem, existem títulos da dívida a prazos distintos (dois, cinco, dez anos) e a evolução natural das cotações é errática, tanto sobe quanto desce, embora haja períodos onde pode predominar uma tendência. Mas os títulos que foram escolhidos pelo jornal ao longo do mês (7, 9, 15, 20 de Abril), mesmo qualquer leigo se aperceberá, como são consistentes em pretender transmitir aos leitores uma tendência favorável – e só essa. Mas depois há os dias que são tão maus que se torna impossível manter o estratagema - como hoje aconteceu. Pela manhã, ainda se tentou desviar as atenções para o efeito em Atenas (primeira notícia do quadro abaixo), mas, pela hora de almoço o quadro da situação era tão mau (como se pode ver pelo gráfico da Blomberg que se lhe segue), com a yield da dívida portuguesa a subir 14% numa só sessão (assinalado a amarelo), que pela tarde lá teve que se publicar uma outra notícia dando a volta ao texto: os juros haviam disparado em toda a Europa. Que não restem dúvidas para onde pendem as simpatias do Jornal de Negócios, comparando estes dois blocos de notícias: quando as yields da dívida pública baixam, baixam em Portugal; e quando disparam, disparam em toda a Europa... Será que o jornalismo político merecerá o equívoco de ser designado por económico por aparecer num jornal que tem o título de negócios? Por outro lado, pergunto-me que destaque merecerá esta noticia nos telejornais de hoje?

04 maio 2015

COMO SUCESSIVAS CAMADAS DE UMA CEBOLA...

Como já se tornou quase tradicional nos dias que correm, as razões para os protestos terão começado por um vídeo de um dos seus sendo vítima de violência policial. A novidade da notícia é que os protestos se desenrolaram no centro de Telavive (abaixo) e foram protagonizados pela relativamente desconhecida – porque comparativamente pacífica (para o padrão regional...) – comunidade de falachas, os judeus de origem etíope. Tendo sido aceites como uma das tribos de Israel apenas a partir de 1977 (i.e., só 30 depois da fundação de Israel), a comunidade constitui hoje, com cerca de uns 135 mil habitantes¹, uns meros 1,5% da população com a cidadania israelita mas, por sinal, uma das comunidades que, apesar de uma substancial parcela dela já ser composta por nascidos em Israel, mais tem continuado a ser socialmente discriminada, só se situando acima da dos palestinianos tradicionais e da dos árabes de nacionalidade israelita. Apesar das manobras político-mediáticas óbvias que se lêem para obstar a acontecimentos que deram a Israel uma péssima publicidade (e, com um inimigo quanto a Palestina, Israel não se pode dar ao luxo de sustentar réplicas de um Ferguson ou de um Baltimore ou de uns arredores de Paris), o Estado de Israel parece suscitar, como numa cebola, a animosidade de camadas cada vez mais interiores da sua própria sociedade.

¹ E quase nenhuns na Etiópia de origem.

...ACENANDO A UM M-113 QUE PASSA

É apenas da natureza humana que crianças e jovens se entusiasmem, sem outras intenções ocultas, à passagem de carros blindados. Foi assim mesmo que Bill Perlmutter fotografou algumas na antiga Berlim Ocidental, acenando a um M-113 norte-americano da guarnição de ocupação. Mas terá sido sabendo precisamente isso que os israelitas ornaram um outro M-113 seu com uma bandeira libanesa durante a sua invasão àquele país em 1982. Mesmo que não tenha sido encenada, a reacção dos jovens cristãos maronitas à beira da estrada estaria mais do que prevista pelo fotógrafo.

INCONSISTÊNCIAS DAS INCONFIDÊNCIAS

É um homem espantoso. Não lê. Isto que é normal em qualquer pessoa, ler um livro, não é com ele... Não lê!
Descobri esta inconfidência atribuída a Oliveira Salazar numa revista publicada em 1977, sendo o visado João Goulart (o presidente do Brasil de 1961 e 1964), naquilo que só poderá ser um daqueles duvidosos julgamentos retrospectivos de carácter feitos pelo ditador português: é que não haverá registo de Salazar se ter encontrado pessoalmente com Goulart (acima vemos Goulart quando de uma visita aos Estados Unidos em Abril de 1962, ele que nunca visitou oficialmente Portugal), por isso, a ter existido, a opinião que Salazar poderá ter formado sobre o brasileiro ter-lhe-ia sido forçosamente inculcada por um terceiro. Em contraste e numa primeira mão genuína, Salazar poderia ter emitido precisamente a opinião que lemos acima (mas aí com propriedade já que o encontrara por várias vezes) sobre Francisco Franco, o caudilho de Espanha. Nesta fotografia abaixo vemo-lo, ao generalíssimo, ao telefone na sua residência pessoal: todos os livros que se vêem por detrás de si, comprara-os Franco aos anteriores proprietários conjuntamente com o palacete...

03 maio 2015

OVOS DE COLOMBO

É no mínimo estranho como podemos ler e/ou ouvir as pessoas a apresentar certas ideias simples sem que no processo se questionem porque é que até ali, ninguém a propusera ou, tendo-o alguém feito, ainda não fora implementada. Nem se aperceberão de que haverá outras dificuldades que o próprio ignora. Nunca sei o que pensar do fenómeno, para além de me maravilhar com o desassombro do proponente: tratar-se-á de pura arrogância intelectual ou será a mediocridade de nem sequer ser capaz de analisar o problema com a profundidade indispensável? Seja qual for o caso, não é muito abonatório para os autores e uma coisa é certa: se Colombo descobriu com simplicidade o famoso processo de equilibrar o ovo em cima da mesa uma vez na vida, há visionários deste jaez que costumam ter várias ideias daquela mesma categoria a cada mês que passa.

02 maio 2015

COM PINÇAS

Do meio do restolho de que é feito o nosso quotidiano informativo, vale a pena ir buscar uma pinça para pegar neste momento de um improviso do nosso primeiro-ministro e nos perguntarmos, de uma forma muito amiga e especial: Será que Pedro Passos Coelho tem alguma ideia do que é ética? É que tudo no episódio nos sugere que, tendo o antecessor dele sido preso preventivamente, lá no fundo ele ainda nem deve ter percebido porque o foi...

MAGISTRATURAS DA REPÚBLICA ROMANA... COMO INSPIRAÇÃO DE UMA IDEIA SOBRE AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

Ontem, a pretexto de querer questionar que papel se pretende atribuir a um presidente da república, em contraponto ao desempenho do actual titular, apercebi-me quanto é difícil recorrer a exemplos em que, quem gosta de discutir estes assuntos, os possa analisar de uma forma mais distanciada do que a simples personalização em função do protagonista actual e dos que o antecederam num passado recente. Invocar a complexidade dos equilíbrios das magistraturas de um sistema como o da República Romana, não costuma ser muito popular (é o mínimo que se pode dizer...) quando o âmbito da conversa incide sobre as características do poder que é actualmente conferido ao presidente da República em Portugal. Mas, embora não tenha grande acolhimento popular, pode muito bem dizer-se que, tomando a Roma republicana por referência, se exige para o cargo um prestígio de Censor (vejam-se as descrições de três das magistraturas romanas mais abaixo) embora não lhe atribuam qualquer imperium (mais abaixo também está explicado o que isso possa ser) e as suas capacidades de actuação se definem sobretudo pela negativa, como se ele fosse um Tribuno da Plebe. O que teria gostado de dizer (haja quem possa acompanhar a comparação – e por isso fiz a resenha que apresento mais abaixo) é que, porque a síntese daqueles dois cargos não é muito compatível (não nos esqueçamos que o exemplo romano tem a prova de séculos de aplicação concreta...), talvez o leque de candidatos não seja o mais apetecível... Concorde (e discorde) quem quiser. As descrições orientadoras que se podem ler abaixo são adaptações do que se pode ler mais desenvolvido em A História do Governo Vol. 1, pp. 430-435, um auxiliar para uma discussão política mais erudita...
OS CÔNSULES

O Consulado, o mais elevado dos cargos com imperium, era a mais importante das magistraturas da Roma republicana: os anos eram datados pelos nomes dos cônsules em funções e isso era identificativo porque o mandato de um cônsul durava precisamente um ano. Se nos abstrairmos de que, em geral, os poderes de todas as magistraturas romanas podiam ser bloqueados por magistrados de nível equivalente ou superior, os cônsules podem ser levados à conta dos principais membros executivos de toda a estrutura de poder, uma espécie de monarcas. Na verdade, fora inicialmente como substitutos deles, a dinastia dos Tarquínios deposta em 509 a.C., que a função fora criada. Mas, por causa da embriaguez de uma tão alta função, havia uma dupla de magistrados, para se poderem vigiar reciprocamente. Eram os cônsules quem convocava o Senado, quem o consultava, quem lhe promulgava os decretos sob a forma de éditos e quem convocava as assembleias populares legitimadoras, como os comitia centuriata ou os comitia tributa. Eram também os representantes da República perante chefes de estado estrangeiros. Embora houvessem perdido progressivamente as competências sobre assuntos fiscais ou criminais, delegados em organismos especialmente para eles vocacionados, em tempo de guerra – e isso era bastante mais do que comum durante a vigência da República Romana – os cônsules eram também os comandantes-em-chefe. Quando em operações, fora dos limites da cidade e do alcance das restrições das magistraturas concorrentes, o imperium era por eles aplicado em toda a sua plenitude.
Mais em concreto, explique-se que o par de cônsules se podia encontrar em operações simultaneamente. Se no mesmo Teatro de Operações, o exercício do comando era alternado cada dia; noutras situações, cada vez mais frequentes à medida que o Império Romano se expandia territorialmente, um dos cônsules comandava as legiões estacionadas numa das províncias enquanto o seu colega comandava outras em província distinta, em operações contra o mesmo, ou até inimigos distintos. Em geral, ao longo dos Séculos III e II a.C., houve tradicionalmente um comando mais defensivo, centrado na península italiana, e outro mais expedicionário, na Sicília, na Grécia, mesmo na Hispânia ou em África. É importante frisar que competia ao Senado decidir quais as províncias em que as legiões iriam operar no ano seguinte e que a atribuição dos comandos para cada cônsul era feita por sorteio. Além disso, o consulado podia ser controlado para além das formas preconizadas ao período anual do seu exercício. Depois do mandato expirado, os ex-cônsules podiam ter de enfrentar acusações perante as assembleias populares, e era necessário decorrerem dez anos antes que um antigo cônsul pudesse recandidatar-se ao cargo, o que, consideradas as taxas de mortalidade da Antiguidade, se tornava um acontecimento raro. Contudo, desempenhar o cargo, ainda que só por uma vez, representava logo por si a consagração máxima de uma carreira política, e a família e os descendentes de um cônsul tornavam-se, só por isso, nobiles, i.e. nobres.

OS TRIBUNOS DA PLEBE

Os Tribunos adquiriram poderes negativos e poderes positivos. Os primeiros davam-lhes o direito e mesmo a obrigação de oferecer auxilium – i.e., assistência – a todo e qualquer plebeu que se sentisse agravado pelos actos de um magistrado, bem como de suspender esse acto através do seu veto – a sua intercessio. A palavra intercedo anulava a acção de um magistrado. Mas esse poder só podia ser exercido dentro do perímetro urbano embora os tribunos estivessem proibidos de passar a noite fora de muralhas e obrigados a manter as portas de casa abertas noite e dia. Para apoiar a sua capacidade de intervenção o tribuno tinha ainda o poder de reforço, designado por coercitio, que podia impor aos próprios cônsules. Estes não podiam retaliar já que a pessoa do tribuno era sacrossanta. Assim, os tribunos dispunham dos poderes bastantes que lhes permitiam prender, aprisionar, multar, chicotear e até mesmo executar. Com esta amplitude, o Tribunato desenvolveu uma jurisdição, o direito de entregar ao concilium plebis as infracções dos magistrados. Este direito designava-se ius agendi cum plebe – o direito de lidar com a plebe. O seu efeito prático era que o direito do tribuno para convocar o concilium era absoluto. Quando convocado, ninguém o podia interromper e com isso os tribunos podiam multar o infractor ou pedir que lhe fossem aplicadas sanções. Com o evoluir dos tempos, esse direito de veto dos tribunos alargou-se dos actos da magistratura (com excepção dos censores, de que falaremos a seguir) para as resoluções apresentadas perante o Senado ou perante uma das assembleias populares.
Este poder de veto de largo espectro só era controlado de uma forma: pelo contraditório (uma espécie de contra-veto) de um outro tribuno. A princípio, os tribunos da plebe eram apenas dois. A melhor fórmula de atrapalhar a sua (contra-)actividade foi multiplicá-los: chegaram a ser dez! Assim cresceram as hipóteses de que um magistrado ou os senadores encontrassem um homólogo que contrariasse o veto original!
Por outro lado, o tribuno tinha o direito de apresentar resoluções ao concilium plebis. Em 287 a.C., as resoluções ali aprovadas – os plebis scita – receberam plena força de lei, com a mesma força de outras que fossem aprovadas nas outras assembleias populares existentes (comitia centuriata ou tributa). Mas, a sua aprovação sofria das mesmas carências: só se podia debater as que fossem apresentadas pelos tribunos, não se podia debatê-las nem emendá-las, apenas aceitá-las ou rejeitá-las, como nos plebiscito modernos, que ali foram buscar o seu nome.
Embora possuidores de um estatuto que seria formalmente inferior ao dos magistrados – careciam do imperium, do direito de tomar auspícios ou de usar a faixa de púrpura de um autêntico magistrado – o poder dos tribunos da plebe continuou a alargar-se cada vez mais. Porque, embora impossibilitados de tomar assento como senadores, conquistaram o direito de colocar resoluções ao Senado e ainda, a partir de 216 a.C., o direito de o convocar e mesmo de o presidir. Mas, nesses anos finais da República, o Tribunato acabara por se tornar parte da ordem senatorial governante e não, como originalmente fora, um cargo encarregue de a vigiar.

OS CENSORES

Os Censores, que foram sempre dois ao longo dos séculos da Roma republicana, distinguiam-se das outras magistraturas por: a) serem eleitos por períodos de cinco anos – e não anualmente como acontecia com as restantes magistraturas; b) apesar de não serem detentores de imperium eram honorificamente a magistratura mais prestigiada. Só aqueles que eram ex-cônsules eram elegíveis e ser-se censor constituía o apogeu de uma carreira política (o cursus honorum). De todos os magistrados que podiam tomar os augúrios (os auspices), o Censor assumia a primazia; a sua toga exibia o laticlavum, uma faixa cor de púrpura, e ao morrer viria a ser sepultado envolvido nessa mesma cor, que outrora estivera associada exclusivamente aos reis, e que viria a ser, no futuro, associada aos Imperadores.
Cada um dos membros da dupla de Censores não possuía explicitamente o direito de vetar o colega. Contudo, esse direito acabava por existir na prática, considerando que o Censorado era compreendido como uma jurisdição singular e indivisível, detida em bloco por um determinado número de titulares, em que cada um dos quais o podia exercer em nome de todos os restantes, salvaguardando que nenhum deles se opusesse frontalmente. E numa magistratura como o Censorado, ambos eram obrigados a agir em conjunto.
A função primária dos censores era proceder ao recenseamento dos cidadãos, uma tarefa que era muito mais complexa do que o nome pode sugerir: havia que decidir quem era livre e quem era escravo; entre os livres, quem era cidadão romano e quem o não era; e sobretudo, sendo cidadão, a que classe censitária se pertencia (definida pela riqueza), sendo certo que, conforme a classificação, haveria diferentes direitos de voto na assembleia (comitia centuriata) e mesmo em pormenores de direitos de cidadania. Uma reclassificação discreta e preventiva podia assim condicionar uma carreira política de um cidadão ambicioso. Depois de 312 a.C. ficou estabelecido que apenas eles tinham o poder de elaborar a lista daqueles que seriam elegíveis para futuros senadores, e também as exclusões, que podiam assumir um carácter retroactivo. A fundamentação para a decisão associava-se normalmente ao incumprimento das obrigações públicas, à exibição de uma moral privada duvidosa ou aos abusos de poderes magisteriais. Em suma, tratava-se de uma capacidade de triagem e requalificação de todos os actores políticos, até ao cidadão individual e que podia ser prosseguida de uma forma consistente, dada a duração do mandato.
Ao contrário de outras magistraturas, os Censores não podiam ser detidos para prestarem contas pela forma como haviam exercido as suas funções. O único controlo sobre as decisões arbitrárias assentava no facto de que tudo o que fora decidido havia-o sido com a anuência dos dois Censores. Assim, e para dar um exemplo extremo, se um dos Censores se decidisse a riscar todas as propostas de novos senadores da lista (a lectio) que houvessem sido apresentadas pelo seu colega, este podia retaliar de forma simétrica – e assim nenhum individuo poderia tomar assento no Senado, bloqueando a sua renovação. A dinâmica do jogo incentivava-os naturalmente a elaborar aquela lista – como as outras decisões, de resto – por consenso.

01 maio 2015

TRÊS CITAÇÕES À PRETEXTO DA CANDIDATURA DE SAMPAIO DA NÓVOA

– Aconteceu um incidente curioso com o ladrar do cão – comentou Sherlock Holmes.
Mas o cão não ladrou!
exclamou o Dr. Watson.
– Esse é o incidente curioso!

Arthur Conan Doyle (O Cão dos Baskervilles)
Torna-se para mim indiciador que não haverá assim tantos que estejam a levar a sério as possibilidades presidenciais de Sampaio da Nóvoa, quando, numa ocasião tão recente (e soberana) quanto a da morte de Mariano Gago, ninguém se dispôs a relembrar a entrevista acima, dada há já quatro anos e em que o candidato se pronunciava (acima) a respeito do defunto de uma forma que não o favorecia aos olhos da opinião pública. Fosse Sampaio da Nóvoa considerado um caso sério e tê-la-íamos visto, à entrevista, relembrada de forma anónima, quase que por coincidência com a notícia do óbito. Mas não sei se, pior do que a humilhação de não ser submetido à hostilidade sórdida que caracteriza a gramática política da actualidade, será este outro costume do candidato receber tantos elogios vindos do outro lado das trincheiras políticas, de quem se sabe - e não há apenas Marcelo Rebelo de Sousa... - que nunca dá ponto sem nó... Considerada a categoria intelectual e académica de Sampaio da Nóvoa e de quem o rodeia, creio que, para além do próprio, na sua entourage próxima haverá decerto conselheiros que estejam familiarizados com a famosa expressão de Virgílio, Timeo danaos et dona ferentes...

A UMA DISTÂNCIA ASTRONÓMICA... MAS AINDA PERSONALIZADA

Observados a uma distância de 183 milhões de km (o que corresponde a um pouco mais de 120% da distância média que nos separa do Sol), a Terra e o seu eterno satélite lunar ainda são reconhecíveis associados, antes que um progressivo afastamento da nave que (n)os fotografa os faça fundirem-se e depois diluírem-se como um ponto de luz anónimo contra a escuridão do Espaço.