10 setembro 2014

«MASSACRE PARA UM MOTOR»

As fotografias de estradas de montanha construídas nas circunstâncias mais extraordinárias remetem-me nostalgicamente para um conjunto de pranchas…
…de Massacre para um Motor, uma aventura de BD de Michel Vaillant (desenhada por Jean Graton), em que o riquíssimo arqui-rival do nosso herói, o Leader,…
…mandou construir não somente uma estrada mas mesmo um circuito de competição nas faldas de um vulcão extinto algures num local recôndito do México.

COMO A COMUNICAÇÃO SOCIAL PORTUGUESA SE DEIXA MANIPULAR QUE NEM UM TOURO DE LIDE

Tem havido um encadeamento de notícias de incidentes nos voos da TAP tão consecutivo que a sua profusão acabou por levantar suspeitas em quem estava de fora de haver uma intenção deliberada (e suspeita) por detrás. Chocou ver a generalidade da nossa comunicação social a deixar-se arrastar acefalamente para todo um ror de pequenos episódios acontecidos nos voos da TAP, sempre e só nos da TAP, a ponto de haver que concluir que aquilo só podia ser uma manobra, de que só os próprios profissionais produtores da informação é que pareceram não se aperceber. Se os incidentes em voos são frequentíssimos, noticiá-los só mesmo quando os aviões se despenham ou quando sucedem episódios excepcionais, como será o caso acima. Só que infelizmente para os promotores da campanha, esta aterragem de emergência não aconteceu num avião da TAP... Aliás, comprovando o desinteresse generalizado da informação nacional no que concerne estes assuntos, quando o referenciei para o colocar aqui, nenhum jornal português ainda o havia noticiado: esta notícia foi retirada de um jornal brasileiro. Este zelo de final de Verão em relação às operações da TAP não foi apenas suspeito sobre quem o promoveu, tornou-se sobretudo ridículo para os veículos que serviram para o promover.

09 setembro 2014

A GUERRA DAS TRINCHEIRAS ANTES DAS TRINCHEIRAS

Há precisamente 100 anos a batalha do Marne, travada entre 5 e 12 de Setembro, estava no seu apogeu, a invasão da Bélgica e da França pelos alemães estava a ser detida mas os soldados que nela participavam ainda não sabiam isso, nem o desfecho da batalha, nem que aquela Guerra viria a ser conhecida pela guerra das trincheiras. Este pequeno trecho de duas pranchas de BD desenhado por Jacques Tardi (retiradas de C’Était la Guerre des Tranchées) mostra-nos como se travava a guerra nesses primeiros meses do Verão de 1914. (A tradução foi minha)

O MÁRINHO

Numa instituição intemporal como o Colégio Militar as venerandas figuras têm de perder as peneiras porque todas elas têm os pés de barro conferidos por alguém que as conheceu antes, ainda nos tempos de iniciação. É evidente que essas historietas dos seus tempos de maçarico, como a que é descrita acima, não prejudicarão o estatuto dos visados, antes o reforçam porque os humanizam. O Marinho do ano lectivo de 1973/74 acima descrito pelo António Miguel Miranda, é um moço acabado de chegar lá de Nisa e, se o veterano chefe de turma do 3ºE (que, na hipótese mais convencional, teria uma antiguidade de 4 anos de Colégio Militar) o manda tirar a peida da frente (numa época triásica em que as turmas seguiam sempre formadas entre o corpo de alunos e os claustros), é porque o Marinho se comporta como aqueles labregos recém chegados à cidade que, à custa de os admirar, não sabem ainda onde se colocar para evitarem serem atropelados pelos automóveis que circulam. Este Marinho vai progredir rapidamente em vivacidade nos anos que se seguem (década de 70), cumprindo o seu serviço militar no Colégio Militar com a patente/especialidade de soldado-maqueiro (famosos os seus tratamentos de sais de frutos: foi uma perda para a Medicina não ter prosseguido…), ascendendo em prestígio na equipa de futebol dos outros (a que tradicionalmente defrontava a dos alunos) muito por causa da sua actividade de semi-amador no Nisa e Benfica ou assumindo as suas simpatias políticas (muito comum naquela época de PREC) por uma formação da esquerda radical, no caso os hoje esquecidíssimos GDUPs.

Mas é o Marinho de antes disso tudo, o tal moço inseguro de Nisa que (ainda) não sabia tirar a peida da frente, que interessa para a nossa história. A quem um certo dia, vicissitudes que desconheço entregaram a responsabilidade de um geral – abrir e fechar as salas de aula, levar e trazer os livros de ponto, o abastecimento do giz, etc. Entre as salas desse geral (parcialmente desactivado) havia uma que o professor Matos Guita – e aqui entra o segundo protagonista da nossa história – havia conseguido dedicar exclusivamente ao ensino de História. Entrado para o Colégio em 1968, Matos Guita pertencia a uma nova geração de professores que davam importância aos meios complementares de exposição e isso implicava retroprojectores e, por causa da tecnologia da época, salas escurecidas. Nada que não se conseguisse naturalmente durante o primeiro tempo da manhã, o das 08H00 durante aqueles dias amenos de Inverno, mas difícil de repetir noutras circunstâncias. Adiante. Tanta inovação gerava um efeito colateral nos alunos mas, porque irrelevante para a nossa história, deixo a sua explicação para o Pedro Freitas num outro blogue. O que importa é que à hora aprazada lá se apresentava a turma formada à porta da sala com o chefe de turma a mandar sentido e a pedir licença ao Matos Guita para poder mandar entrar: frente marche! Uma secção de cada vez: outra cena de tempos em que os dinossauros dominavam a Terra. Mas antes o Marinho tinha que cumprir a sua parte: abrir a porta…

Tão compenetrado quanto nervoso a coisa começou por correr mal para o Marinho: enganou-se na chave. Depois piorou: uma das outras chaves, também enganada, não só não rodava na fechadura como também já não saía... Não é preciso qualquer esforço para imaginar os sorrisos sardónicos que se começaram a desenhar nas caras da malta: queres ver que não vamos ter aula? Em contrapartida, para o rigor no acompanhar da história ajuda ter conhecido pessoalmente Matos Guita: à medida que a atrapalhação do Marinho se aprofundava, o professor não era pessoa que achasse que valia a pena camuflar a sua irritação. As angústias do Marinho que se debatia com a chave, com a fechadura, com a porta, estavam divididas entre incorrer na fúria (mais do que visível) do professor e as suas preocupações com os danos no material que lhe fora confiado. Os minutos escoaram-se diante de uma formatura disciplinadamente zombeteira até Matos Guita (que era corpulento) não se conter e em algumas passadas aproximar-se da porta, mandar o Marinho afastar-se, para, ao melhor jeito de um policial norte-americano (mas recordo que sem grande balanço…), rebentar não com uma mas logo com as duas portas da sala. Cada uma batendo estrondosamente na parede adjacente. Pouco magnânimo, ainda o Marinho olhava com ar triste para as lascas espalhadas pelo chão numa lamúria muda, quando Matos Guita rematou com aquela sua modulação arrastada típica que a irritação tornava quase ininteligível: o shour agoraaaa veja lá se arranja isto, não ééé?…

OS REFERENDOS SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO QUÉBEC

A realização do próximo referendo sobre a independência da Escócia é um bom pretexto para recordar o caso do Québec, única província canadiana onde existe uma maioria francófona, e onde já se realizaram dois referendos (em 1980 e 1995) questionando a sua independência do Canadá. O impacto de uma eventual secessão quebequense no Canadá seria muito superior ao caso da secessão escocesa no Reino Unido. Começando pela geografia e olhando para o mapa acima, percebe-se como, ao contrário do que sucede com a Escócia que ocupa o Norte da ilha, uma eventual independência quebequense deixaria o Canadá dividido, com quatro das dez províncias (e 7% da população) a ficarem isoladas na fachada Atlântica, a Oeste, do resto do país onde residem os restantes 70% dos canadianos. A população do Québec – os 23% em falta nas contas acima – quase atinge actualmente os oito milhões (para comparação, refira-se que os escoceses são um pouco mais de cinco milhões e menos de 9% da população total do Reino Unido).
Adiante-se, para preâmbulo das condições que presidiram ao primeiro referendo, que a questão da francofonia e dos direitos dos francófonos no Canadá se mantivera uma questão pesada ao longo de todo o Século XX. Já aqui contei no blogue um episódio mais vivido dessa questão de Julho de 1967, quando de Gaulle foi expulso do Canadá por comportamento indecente (ao gritar Vive le Québec Libre!), por muito presidente de França que ele fosse. No ano seguinte formava-se o Parti Québécois independentista, em 1976 o PQ ganhava as eleições provinciais e formava o primeiro governo pró-independência e foi sob a égide desse governo que o referendo foi convocado para Maio de 1980. Prolongando a dinâmica de uma época em que houvera uma avalancha de independências por todo o Mundo (64 entre 1957 e 1975), a ponto de o discurso político confundir regularmente a autodeterminação com a independência, a do Québec parecia um caso consumado. Mas não foi. O Não venceu com 59,5% dos votos e uma maioria robusta de mais de 700 mil votos sobre o Sim.
O mito simplista (muito propagandeado na Europa a partir de Paris) que o Québec francófono só permanecia agarrado ao Canadá anglófono porque nunca fora consultado desmoronou-se com fragor nessa Primavera de 1980. Depois disso, o PQ abandonou o poder em 1985 para só regressar em 1994. A proposta que foi apresentada a referendo em Outubro do ano seguinte era muito mais moderada do que a anterior, capaz de captar os moderados que, pugnando por maior autonomia, se mostravam cautelosos com as consequências de uma independência. E, considerando a robustez da maioria alcançada quinze anos antes, quem se terá apresentado com confiança excessiva ao acto eleitoral foram os partidários do Não. Dessa vez o Não venceu mas por uma unha negra: 50,6% da votação, a maioria reduzida a 54 mil votos. Embora o PQ já tenha regressado ao poder por uma terceira vez entre 2012 e 2014, fê-lo com um governo minoritário e, por isso, sem condições políticas para organizar mais um referendo para alcançar aquele que é o seu objectivo último confesso: a independência do Québec.

08 setembro 2014

TRINTA É O DOBRO DE QUINZE, CARALHO!


Nunca percebi as razões para o sucesso deste vídeo, com o protagonista (que ficamos a saber chamar-se Samuel Massas) a celebrar efusivamente os trinta centímetros de perímetro do seu braço. Mas tenho que reconhecer que o vídeo regista mais de um milhão e meio de visualizações, mesmo que não me consigam explicar satisfatoriamente a causa para tanta efusão. Há que reconhecer, contudo e em complemento a esta constatação de sucesso, como a comunicação moderna se aprimora e nem tudo continuará a precisar de ser explicado como dantes: por exemplo, também não se percebe a razão para o Observador conferir destaque a Pires de Lima numa notícia da subida de quinze posições (- Quinze! Caralho! Quinze!) num ranking de competitividade da economia portuguesa. Quer-nos-ão sugerir (sem muita insistência, claro...) que foi ele o responsável pelo feito? É que, pelos valores faciais destas duas mensagens semi-explicadas, o destaque conferido a Samuel Massas revelar-se-á mais pertinente do que o sugerido ao ministro da Economia: em primeiro lugar porque o braço é mesmo dele, Samuel, e depois porque trinta é o dobro de quinze.

...NA ESCÓCIA

A experiência faz-me olhar com cepticismo para o aparecimento de sondagens de última hora que trazem a indecisão (com a correspondente animação mediática) a actos eleitorais cujo desfecho parecia selado desde há muito. É sob essa reserva que avalio a vantagem registada pelos independentistas na Escócia numa sondagem mais recente, que veio mesmo a calhar para aduzir interesse a um assunto que permanecia muito mortiço. Antes, havia seguido um…

…dos debates sobre o tema desse próximo referendo na Escócia num dos canais informativos britânicos, num exercício complicado pela dificuldade em compreender algumas das perguntas que eram colocadas pela assistência, que aquele sotaque não é mesmo nada fácil. Mas tenho um amigo escotófilo para quem tais dificuldades são detalhes de somenos e que tem estado a seguir a (aparente) evolução da opinião pública escocesa com o seu maior entusiasmo, só lhe faltará…
…mesmo passar a usar um kilt, que o tartã do seu clã (adoptivo) já há muito terá sido escolhido. E é em sua homenagem que deixo esta última imagem do capacete de Jackie Stewart, associando duas paixões suas: a Escócia e a Fórmula 1. Num remate menos lírico, convém chamar a atenção que, no caso improvável do Sim independentista vencer, será uma trabalheira para outros países europeus – a começar por Espanha – deflectir as ondas de choque que irão agitar os seus separatismos.

07 setembro 2014

O «PAI» DAS QUINZE POSIÇÕES

A notícia é desta semana e o seu valor poderá ser discutível. Não é por não aparecer expressa que não deixa de haver controvérsia quanto ao que valem estes relatórios – este, por exemplo, não o consegui encontrar disponível na net para o ler antes de publicar este poste¹. Sobre os rankings é rotina a comunicação social nunca explicar como são elaborados, muito menos identificar as intenções (e a ideologia) das organizações que os promovem. Também é raro relembrarem-se os relatórios e os resultados dos rankings mais antigos, assinalando eventuais sucessos e insucessos do sistema de classificação utilizado. As notícias costumam reduzir-se, como aqui, às evoluções imediatas da classificação em relação ao ano transacto, em que as subidas devem-se (obviamente!) ao mérito da acção governativa, como muito bem explicou Carlos Abreu Amorim ao i. Veja-se que no Brasil, onde houve pelo contrário uma descida no ranking, diz-se que a culpa é toda da Dilma. Mas a novidade em toda esta palhaçada é mesmo o Observador quando sugere que a tal subida de 15 posições de Portugal até parece ter um rosto e um responsável…
¹ Finalmente encontrei-o. Eis os comentários respeitantes a Portugal, no original: After falling in the rankings for several years, Portugal decisively inverts this trend and climbs 15 positions to reach 36th place. The ambitious reform program the country has adopted seems to have started paying off as gains appear across the board, most notably in areas related to the functioning of the goods market: Portugal now has less red tape to start a business (5th), and its labor market shows increased flexibility, although more remains to be done (119th). In addition to these improvements, the country can continue to leverage its world-class transport infrastructure (18th) and highly educated labor force (29th). At the same time, Portugal should not be complacent and should continue with a full implementation of its reform program in order to keep addressing some of its persistent macroeconomic concerns (128th) caused by high levels of deficit (107th) and public debt (138th); strengthening its financial sector (104th) so that credit can start flowing (108th); further increasing the flexibility of its labor market; and raising the quality of education (40th) and innovation capacity (37th) to support the economic transformation of the country. É curioso registar como os dois indicadores por onde começavam os comentários críticos do relatório do ano passado, o do ambiente macroeconómico instável (124º lugar) e de uma certa perda de confiança nos políticos (77º), não aparecem mencionados nos comentários favoráveis deste ano. O ambiente macroeconómico estabilizou e recuperámos confiança nos politicos sem que nós déssemos por nada? Compreende-se com este exemplo porque se torna pertinente dificultar o acesso a estas redacções de tipo escolar mas apresentadas por avaliações objectivas, que servem de pretenso suporte técnico para decisões políticas.

06 setembro 2014

«PHUBBING»

Ainda há bem pouco e não muito longe desta estátua de Fernando Pessoa na baixa lisboeta um casal bastante jovem de estrangeiros malbaratava o privilégio da mesa da esplanada que haviam conseguido arranjar, ensimesmando-se e alheando-se tanto da multidão que passava como também reciprocamente, numa consulta atenta dos respectivos gadgets pessoais (smartphones?).
É turismo e sabe-se como nessa actividade o turista tem sempre razão – mesmo quando demonstra preferência pelas batatas fritas para acompanhar as sardinhas assadas… – mas nunca havia visto assim uma evasão ao contacto com o meio ambiente circundante e vim para casa descobrir que, para descrever aquela atitude, em inglês já se cunhou a palavra phubbing, o resultado da contracção de phone (telefone) + snubbing (desdenhar).
Normalmente parece ser uma atitude que se detecta com os acompanhantes nas ocasiões sociais mas pareceu-me haver naquele caso mais qualquer coisa: uma contradição entre a disposição formal em visitar pessoalmente os locais e/para conhecer as pessoas que lá vivem e, por outro lado, uma verdadeira relutância intrínseca em quererem realmente apreender como são os anfitriões. Tive pena do casal, estavam ali perdidos, teria sido melhor e mais barato terem feito uma visita virtual...

O TACHO VIRADO E O CALDO ENTORNADO

Ignoro a razão que levou a dar a designação de tacho aos tachos. Deduzo que não deve ter mais de duzentos anos pois no Brasil tacho é apenas apetrecho de cozinha. Mas o que se constata é que desde sempre estes últimos servem de ilustração aos outros. A propósito dos figurados, anotei numa entrevista de impacto dada por um ex-administrador (não executivo) do BES ao i não apenas a incompetência confessa de quem ocupava o cargo, mas sobretudo a irresponsabilidade de quem apenas nas circunstâncias favoráveis se considerava parte da elite do país: o único lamento que o entrevistado profere na ressaca do colapso do banco vai para o facto de agora ter as suas contas congeladas. Para alguém que ia lá sacar 42 mil euros ao ano – e não os 10 a 12 mil que reporta na entrevista – para confessadamente não fazer nada, apetece dizer: temos pena! Não por não ter feito nada, ao contrário da visão populista, não é apenas o trabalho realizado que se paga, a responsabilidade também. Mas dando um exemplo concreto e agora que tanto se tem estado a falar da TAP, constate-se como o comandante é o mais bem pago da tripulação de um voo comercial mas que ordinariamente ele faz pouco, o seu ordenado só se começa a justificar quando as coisas correm mal. Ora, no caso do BES, é evidente que as coisas correram mal. Os tachos viraram-se, o caldo entornou-se, pedem-se responsabilidades e não percebo o desplante de Nuno Godinho de Matos em lamuriar-se. Como aconteceu de resto com Armando Vara também ontem, o quanto ele ficou surpreendido com a possibilidade das coisas darem a volta mesmo para tachistas encartados como ele…

05 setembro 2014

CONSTANTES DA POLÍTICA EXTERNA RUSSA

Como aconteceu com as divergências entre Aliados quanto ao destino a dar à Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial (de 1945 e 1949), uma lição da História a extrair dali é que quando a Rússia se apercebe que não consegue neutralizar o país que disputa e em tendo o poder para o fazer, não se ensaia nada em dividi-lo, por muito absurdas que sejam as fronteiras que daí resultem: será desnecessário recordar o caso de Berlim. Claro que as fronteiras da nova Ucrânia sob tutela russa podem não corresponder às que foram desenhadas especulativamente no mapa abaixo, onde se aproveita a ocasião para resolver também o problema dos secessionistas pró-russos da Transnístria. Mas parece consensual reconhecer ao menos que, quanto à autodeterminação dos povos (algo que só se evoca quando dá jeito à própria causa), os russos coleccionarão actualmente muitas mais simpatias entre os ucranianos de Leste da Novorrússia do que as simpatias comunistas que recolheram entre os alemães de Leste naqueles outros tempos da criação da Alemanha Democrática.

04 setembro 2014

ENTRE DUAS DEMAGOGIAS


Podemo-nos sentir acossados, mas suspeito que o espaço que existe entre estas duas demagogias, a de cima (vídeo 0:50) e a de baixo (vídeo 2:04), é amplo e permitirá que exista nesse espaço uma vasta pluralidade de propostas de solução para tentar encontrar caminhos que façam sair Portugal da crise que o domina. O que é fundamental é que, na qualificação da situação presente, não comecemos por nos martirizar, como se pretende acima, ou por nos desresponsabilizar, como se pretende abaixo. É um completo disparate atribuir a nossa salvação às intenções beneméritas de estrangeiros que, ao contrário de nós, perdulários, sempre se mostraram probos, assim como é um outro disparate andarmo-nos a lastimar por não termos feito aquilo que foi feito por aqueles que elegemos (e reelegemos) livre e consecutivamente para nos governar. Em política internacional nunca existiu essa coisa do altruísmo (muito menos dos pobrezinhos!) e é uma vergonha ouvirmos um primeiro-ministro exprimir-se assim. E numa Democracia a soberania é do povo e é uma estultícia vir agora alguém versejar pretendendo que colectivamente nada tivemos a dizer na forma como o país evoluiu. Quem olhar de fora para estas dois formatos demagógicos de descrever a crise pode sentir-se, como acima referi, acossado, mas apenas se não se aperceber do quanto a agenda política e a mediática conjugadas parecem hegemonizar a forma de descrever a situação nestes termos absurdos.

CAVACO E O BES (3): EM JEITO DE ESCUSA…

Aquilo que o sentido do dever da função presidencial deveria mas não conseguiu fazer, conseguiu-o um advogado manhoso: despertar Cavaco Silva da letargia como se tentou distanciar do caso BES após este se ter revelado um desvio colossal em relação àquilo que inicialmente se antecipava. Após mais de um mês de um silêncio desprezível sobre tudo aquilo que se ia sabendo do BES, uma tentativa com cobertura mediática de atirar com merda para a ventoinha (para ver em quem acerta), parece obrigar a presidência a republicar umas declarações do presidente ainda antes do escândalo se ter desencadeado em todo o seu esplendor. Cavaco parece ter toda a razão, mas não deixa de ser incómodo ver um presidente da República equiparado em manha a um qualquer advogado da nossa praça. Depois do barulho dos grilos no silêncio do estio, agora temos uma reentrada com música de cavaquinho…

03 setembro 2014

QUARENTA E UM ANOS (E MEIO) QUE PARECEM NÃO FAZER ASSIM TANTA DIFERENÇA

Não sei quantos leitores do Expresso do Sábado que passou (30 de Agosto de 2014) se terão apercebido do quanto a primeira página do jornal se parecia inspirar na da sua primeira edição de 6 de Janeiro de 1973, um processo a que o jornal recorre, aliás, episodicamente. Para além da semelhança da redacção do título, há, em qualquer das notícias, uma intenção de denúncia, a do afastamento de uma grande maioria da população portuguesa do processo de decisão política em 1973, a da manipulação administrativa dos indicadores que assinalam a recuperação do emprego em 2014. Recorde-se que em 1973, a ANP governamental viria a vencer as eleições legislativas em Outubro daquele ano com 1,4 milhões de votos – e sem oposição... Extrapolando, também em 2014 a recuperação económica e a continuada descida da taxa de desemprego ainda vão provocar o começo do regresso dos emigrantes a Portugal, conforme o desejo expresso no princípio do ano pelo ministro da Economia Pires de Lima...

NOVOS PROCESSOS DE TRATAMENTO DA OBESIDADE: GUERRAS CIVIS EM PAÍSES DE GORDUCHOS

Podemos apreciar acima um mapa do Mundo mostrando a prevalência da obesidade por país. Não será surpreendente encontrar os Estados Unidos na categoria dos países mais gordos, com uma prevalência de obesos superior a 30% da população. Surpresa será a ausência nesse grupo de países europeus e a presença de outros como o México, a Venezuela, a África do Sul e um punhado de países árabes do Médio Oriente. Sobretudo, no último grupo, países que estão a ser devastados por guerras civis como a Líbia e a Síria, onde os combates e a insegurança poderão estar a provocar nas populações locais tratamentos de emagrecimento tão eficazes e radicais como aqueles que outrora fizeram a fama e a fortuna do doutor Tallon

02 setembro 2014

O QUE EXISTIA PARA LÁ DA PRAÇA TIANANMEN

Mais de vinte e cinco anos depois, descubro que pode existir uma controvérsia quanto à autoria da mais emblemática fotografia referente aos acontecimentos da praça Tiananmen de Pequim. A famosa fotografia do anónimo postado diante do T-54 bloqueando a coluna de blindados foi afinal captada por vários fotógrafos, entre os quais Jeff Widener, trabalhando para a Associated Press, cuja versão se tornou a mais difundida mundialmente (excepto, naturalmente, na China) e Charlie Cole, ao serviço da revista Newsweek, que veio a vencer o concurso da World Press Photo of the Year de 1989 com a sua. Que foi a que eu escolhi para o blogue. E escolhi-a porque foi o mesmo Charlie Cole que tirou naquela mesma ocasião um jogo de fotografias que nos pode dar uma panorâmica muito diferente daquilo que existia para lá da praça Tiananmen.
Com a visão dessas outras fotografias perde-se o lirismo que a comunicação social buscava e perceber-se-ia nitidamente como o Homem do Tanque não passaria de um epifenómeno no quadro da grande disputa política que então se travava em Pequim. Nunca a China se tornaria naquela Democracia com o formato que a opinião pública ocidental (a quem a fotografia se destinava) conceberia. Embora pragmática quanto à Economia, da China de Deng Xiaoping não se podia esperar que já tivesse adquirido a elasticidade mental para instalar um daqueles regimes autocráticos com eleições livres do Século XXI (como acontece no Irão ou na Rússia), em que o controle político se exerce já não através do escrutínio fraudulento dos votos, mas na triagem de quem pode concorrer. Mas, vinte e cinco anos depois, nota-se que a China evoluiu.
É o acumular destas discrepâncias entre o que nos disseram e mostraram que acontecia e aquilo que verdadeiramente acontecia que me torna cada vez mais céptico e mais cínico quanto à informação disponível nos dias que correm. Quem ousará pronunciar-se com conhecimento sobre aquilo que se estará a passar na Ucrânia?

ASSIMETRIAS NAS «GORDURAS» DO ESTADO

Se num Sábado é o Expresso que publica na sua primeira página uma notícia com uma daquelas iniciativas atribuídas ao primeiro-ministro para dar mostras de contenção nas despesas governamentais (acima), no Domingo é o Público que publica por sua vez na sua (abaixo) uma daquelas em que se demonstra a ganância dos privados que não estão mesmo nada interessados nessa contenção. E a vítima nem sequer foi uma das figuras mais proeminentes da hierarquia do Estado. Percebe-se pelos envolvidos e pelos montantes que se trata de uma batalha demasiado assimétrica: numa viagem poupam-se uma ou duas centenas de euros, num almoço - para o qual o representante do Estado fora convidado! - pode malbaratar-se um milhar.
Retrospectiva e complementarmente, torna-se muito pertinente perguntarmo-nos se não haverá uma parcela dos 483.000 euros que já foram gastos este ano pelo ministério da Defesa em assessorias externas dedicada também a estes sobrecarregados carnets gastronómicos?

01 setembro 2014

«UNS» (Nós)

Uns corresponde à primeira pessoa do plural em alemão, o equivalente a nós em português. Trata-se de uma palavra, porém, que os alemães tendem a tratar de modo elástico. Atente-se à fotografia acima, datada da Primavera de 1945 e do colapso do III Reich, quando a propaganda nazi já se via obrigada a exprimir nas suas formas mais elementares como esta pichagem de um slogan numa parede semi-destruída: Nichts für uns, alles für Deutschland (Nada para nós, tudo para a Alemanha). Repare-se o conceito transviado daquele nós, como se, para quem a escreveu, a Alemanha fosse uma coisa distinta dos alemães a quem a mensagem procurava arregimentar. E é engraçado recordar estes entorses à semântica quando se anotam as opiniões de Wolfgang Schäuble em artigo hoje publicado no Financial Times, onde propõe uma ainda maior integração dos países pertencentes à zona Euro, com a criação de um parlamento conjunto e um cargo de comissário europeu para o Orçamento, com poderes para rejeitar os orçamentos nacionais, caso eles não correspondam às regras que nós acordámos em conjunto. Aparece-nos aqui um outros nós (o tal uns) de entendimento germânico/transviado. Wolfgang Schaüble poderá acordar as regras que lhe convier, mormente com os seus homólogos Vítor Gaspar ou Maria Luís Albuquerque, mas conviria ele perceber que, em Democracia, é num outro nós (o tal a que os nazis mais acima não concediam nada) que reside a Soberania. Um parlamento nacional democraticamente eleito a aprovar um orçamento é uma das suas expressões. Acho fundamental que os vários nós dos países da União (e da zona Euro) possam salvaguardar a sua vontade de mudar livremente de opinião quanto ao que previamente acordaram e quando o entenderem.

FOI HÁ PRECISAMENTE 75 ANOS…

A 1 de Setembro de 1939, perto de Sopot, cidade polaca da Pomerânia junto ao Mar Báltico, soldados de um destacamento motorizado alemão removem a cancela de um posto fronteiriço polaco. Repare-se o ar de satisfação galhofeira do soldado (quarto a contar da esquerda) que se apropriou do escudo nacional polaco com a águia branca. Numa ironia prospectiva pode-se acrescentar que o gesto pode ser descrito como uma tentativa pioneira (e que veio a tornar-se mal sucedida…) de derrubar as barreiras alfandegárias na Europa.

JERUSALÉM


Jerusalém é um dos hinos mais emblemáticos do imperialismo britânico, composto quando este ainda batalhava pela supremacia mundial (1916), numa luta (a Primeira Guerra Mundial) que o iria ironicamente deitar a perder. É recordado anualmente na tradicional última noite dos concertos Promenade conjuntamente com peças irmanadas na intenção, como Rule, Britania! ou Land of Hope and Glory. O compositor deste hino chama-se Hubert Parry embora a letra tivesse sido escrita mais de cem anos antes, em 1804, por um poeta chamado William Blake¹. Quase ninguém os conhecerá fora de Inglaterra mas isso nunca pareceu incomodar os ingleses.

Tal será a importância que é atribuída ao hino – proposto para se tornar o hino da Inglaterra propriamente dita – que esta outra versão acima, modernizada e incluída pelos Emerson, Lake & Palmer no seu álbum de rock progressivo Brain Salad Surgery de 1973 veio a ser proibido de passar na rádio britânica. Contudo, há que confessar a ironia que, uns poucos anos antes (1969), e praticamente ao mesmo tempo quando considerado o tempo de chegada destes fenómenos a Portugal, vi o hino ser completamente destroçado naquela sua solenidade pretensiosa num sketch dos Monty Phyton que se exibe abaixo (com legendas em italiano).

Resumindo-o: um casal recém-casado vai a uma loja comprar uma cama. Um dos empregados multiplica sistematicamente os números por dez. O outro divide-os sistematicamente por três. Pior que isso, este último ao ouvir a palavra colchão enfia um saco de papel na cabeça e só o retira após porfiados esforços dos colegas cantando o tal hino Jerusalém dentro de um caixote de chá. O noivo repete o erro, porque o empregado pode pronunciar a palavra fatídica, não a pode é ouvir. À terceira vez, a cena acaba com a noiva lamentando-se que é a sua única fala. Reconheça-se que parte da piada do sketch perder-se-ia se o hino não fosse tão pomposo.

¹ And did those feet in ancient time
Walk upon England's mountains green:
And was the holy Lamb of God,
On England's pleasant pastures seen!

And did the Countenance Divine,
Shine forth upon our clouded hills?
And was Jerusalem builded here,
Among these dark Satanic Mills?

Bring me my Bow of burning gold;
Bring me my Arrows of desire:
Bring me my Spear: O clouds unfold!
Bring me my Chariot of fire!

I will not cease from Mental Fight,
Nor shall my Sword sleep in my hand:
Till we have built Jerusalem,
In England's green & pleasant Land.