25 maio 2018

O DESASTRE DO DIRIGÍVEL «ITÁLIA»

25 de Maio de 1928. Existe uma história hoje completamente esquecida da corrida para a conquista dos pólos. A que se travou pela supremacia de quem seriam os primeiros a sobrevoar o Pólo Norte envolveu uma personalidade tão improvável quanto Umberto Nobile (1885-1978), um engenheiro aeronáutico italiano que se notabilizara na construção de dirigíveis e como explorador do Ártico, já que em 12 de Maio de 1926, no comando do dirigível Norge (que ele próprio concebera, mas que recebera esse nome porque o financiamento da expedição viera dos noruegueses), se contara entre os três primeiros homens a sobrevoar o Pólo Norte. A expedição foi cheia de incidentes, de picardias entre o autor do software da expedição, o explorador norueguês Roald Amundsen (1872-1928), e Nobile, que fora o indiscutível autor do hardware, sem o qual ela não teria sido possível.
Em disputa estivera também o prestígio pátrio, assunto em que a Itália, então governada por Mussolini, não brincava: assim, quando o Norge sobrevoou o Pólo, lançaram-se três bandeiras, correspondentes às nacionalidades dos exploradores, mas deu-se o acaso da italiana ser maior que as outras... para grande irritação de Amundsen e dos noruegueses que haviam financiado a expedição. Amundsen, que já fora o primeiro explorador a alcançar o Pólo Sul em 1911, era um ego difícil de aturar, mas aquilo que se percebe de Nobile, nomeadamente a sua promoção de imagem - como é o caso do cãozinho de mascote que o acompanhava para todo o lado... - torna difícil escolher a quem dar razão. Para aquilo que nos interessa, dois anos depois, na Primavera de 1928 e agora com o patrocínio italiano, Nobile encabeçava, agora sem rival, uma outra expedição mais ambiciosa, composta por mais elementos (16) e a bordo de uma nova aeronave devidamente baptizada Itália (fotografia inicial).
E é aqui que apanhamos os acontecimentos de 25 de Maio de 1928, de há precisamente 90 anos. Na viagem de regresso do primeiro dos sobrevoos programados sobre o Pólo, e quando a aeronave regressava à base por causa da meteorologia desfavorável, o dirigível acabou por perder demasiado hidrogénio, afundando-se subitamente e embatendo no solo. A maior parte da cabine partiu-se, deixando no solo dez dos dezasseis tripulantes, com parte dos meios que transportavam. Entretanto, aliviada de peso, a aeronave readquiriu rapidamente altitude e prosseguiu uma viagem a partir de então desgovernada, transportando aprisionados nos destroços que haviam subsistido os outros seis membros da tripulação, dos quais nunca mais se soube nada. Entre os dez homens que haviam ficado no solo, um morrera e quatro (entre os quais Nobile) haviam ficado feridos.
Tudo isto aconteceu em poucos minutos, mas a saga do desastre do dirigível Itália, só agora começara, uma saga dos sobreviventes, mas que será também uma saga dos seus salvadores, já que o resgate dos primeiros, que só se concretizaria dali por sete semanas, a 14 de Julho de 1928, virá a custar aos segundos dez vidas, a acrescer às nove mortes entre a tripulação do Itália. Mas algo que impressiona quando se segue esta história é o ritmo plácido a que os acontecimentos são noticiados, conforme os breves despachos diários que se podiam ler no Diário de Lisboa daquela época (mais acima). Como se percebe pela sua leitura, até ao fim do mês de Maio não se dá conta de qualquer verdadeiro sinal de alarme pela ausência de comunicações do dirigível.
Só no dia 1 de Junho é que se fala em accionar os primeiros meios de salvamento, que irão provir de uma enorme diversidade de países e que vai ser um outro acontecimento internacional. Quarenta anos depois dos acontecimentos, no Verão de 1968, a revista Tintin publicava uma história de BD a respeito do desastre e dos acontecimentos subsequentes. Lendo-a, fica-se a saber que Amundsen veio a morrer aquando das operações de busca e salvamento do seu antigo rival, embora não se perceba como se forjara essa rivalidade. Para desfecho da história, recuperava-se a imagem positiva da solidariedade internacional, mas não sem antes referir que Umberto Nobile fora considerado pelas autoridades italianas como o bode expiatório pelo que acontecera. De que hoje quase ninguém se lembra.

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