31 agosto 2023

KWANGMYŎNGSŎNG-1

(Republicação dos tempos em que Donald Trump tornava a Coreia do Norte um país importante)
31 de Agosto de 1998. A Coreia do Norte anuncia a colocação em órbita do seu primeiro satélite artificial. O lançamento foi tomado inicialmente pelas agências encarregues de monitorizar tais eventos como um ensaio de um míssil intercontinental. Depois aperceberam-se que o míssil possuía um terceiro estágio destinado à aquisição da velocidade adicional necessária para colocar um objecto em órbita. Quanto ao objecto, também pouco se sabia (e sabe): há fotografias dele, mas uma grande dúvida quanto à sua massa que oscilaria entre os 6 e - 30 vezes mais! - os 170 kg. Quando do acompanhamento da fase final, as mesmas agências ter-se-ão apercebido que algo errado acontecera e que o satélite acabara por não entrar em órbita como previsto. Isso não terá constituído um problema para a Coreia do Norte, que anunciou o sucesso da empresa e que continuou a reportá-lo do mesmo modo nos dias seguintes. Só quinze dias depois, após confirmações sucessivas, é que uma cautelosa imprensa norte-americana anunciava o insucesso, deixando apenas subentendido a nota irónica do fazer-de-conta dos norte coreanos. Se acontecesse entre 2017 e 2020, atendendo à personalidade do ocupante de então da Casa Branca e do que foram as suas relações com a inventiva Coreia do Norte, talvez a notícia tivesse que ser reescrita, expurgando-a da ironia, já que ele se havia mostrado tão inventivo quanto o regime norte-coreano. (a imagem é um selo comemorativo norte-coreano do que era para acontecer e não chegou a ter acontecido...)

«A MEDIDA PEDAGÓGICA EXEMPLAR» QUE NÃO RENDEU VOTOS

31 de Agosto de 2018. Quase no fim do vazio noticioso de Agosto o país político é surpreendido com a decisão do PSD de Rui Rio de dar visibilidade ao sancionamento dos seus candidatos autárquicos que se haviam excedido nos custos das suas campanhas eleitorais. Era um contraste com a cultura cultivada por Pedro Santana Lopes que, aliás, abandonara com estrondo o PSD para fundar um outro partido no princípio daquele mês. Se lido dessa maneira integrada (coisa que não me lembro que os analistas políticos tenham feito), este gesto podia ser interpretado como um mostrar a porta da rua aos quadros mais santanistas do PSD. Mas o futuro virá a demonstrar que demonstrar rigor na prestação de contas não é grande argumento na política portuguesa.

30 agosto 2023

ALEMANHA: ZERO MEDALHAS

Na primeira edição dos campeonatos mundiais de atletismo que se disputaram em Helsínquia, em Agosto de 1983, a Alemanha Oriental terminou-os como o país que mais medalhas conquistara. Não apenas isso, a sua rival Alemanha Ocidental também obtivera um bom pecúlio de medalhas (8). Em conjunto, o resultado de uma Alemanha dividida, apareceria ainda mais destacado. Na fotografia acima, as duas equipas alemãs disputam sobre a meta o título numa corrida de estafetas de 4 x 100 metros. Esses tempos, em que a Alemanha de Leste investia tudo o que podia na promoção internacional da sua imagem desportiva, o que obrigava a Alemanha Ocidental a ripostar, desapareceram paulatinamente depois da reunificação alemã e são hoje uma recordação longínqua da exibição da pujança alemã naquele campo. Na décima nona edição dos mesmos campeonatos mundiais de atletismo, que se acabaram de disputar em Budapeste, os atletas da Alemanha cometeram a proeza de conquistarem... zero medalhas. (...este ampelmännchen é um dos poucos símbolos da antiga Alemanha Oriental que se projectou para representar a Alemanha unificada)

O TELEFONE VERMELHO: UMA HISTÓRIA QUE HOJE COMPLETA 60 ANOS

(Republicação de 2018, quando a Casa Branca era ocupada por Donald Trump...)
30 de Agosto de 1963. O mundo era informado que, a partir de então, havia um telefone ligando a Casa Branca em Washington e o Kremlin em Moscovo para que os respectivos ocupantes pudessem falar directamente um com o outro em caso de emergência. A emergência era a possibilidade séria de um conflito nuclear, como aquela que assustara todo o Mundo dez meses antes, em Outubro de 1962, aquela que ficou conhecida como a Crise dos Mísseis de Cuba. A história do telefone vermelho teve muito mais a ver com uma mensagem como se procurava tranquilizar as opiniões públicas do que com a realidade. A imagem acima, de uma capa de uma revista italiana da época, em que se vê os dois líderes (Kennedy e Khrushchev) no que seria uma teleconferência, tem muito mais a ver com a imaginação do desenhador do que com a realidade. O telefone vermelho da direita, em exposição num museu actualmente, é um apetrecho muito menos glamoroso, mas é dado como o verdadeiro telefone vermelho durante a presidência de Jimmy Carter, que só veio a ter lugar quinze anos depois do momento de ficção científica do jornal italiano.
Na verdade, ao princípio o tão famoso telefone... era um telex. E os terminais do telex - uma linha dedicada de 15.000 km que atravessava o Atlântico até Moscovo - nem estavam instalados na Casa Branca, mas no Pentágono. Aquilo que se pode apodar de conversa processava-se assim a um ritmo mais lento do que uma conversa (66 palavras por minuto). Aliás, simbólico da precariedade da conexão, se a mensagem inaugural de teste que Washington enviou há precisamente 55 anos para Moscovo chegou compreensível ao destino, a que foi enviada de Moscovo com essa mesma finalidade chegou ininteligível. Mas esta questão do telefone era uma daquelas em que a opinião pública e publicada não estava interessado na realidade. Um filme como Dr. Strangelove, estreado em 1964, mostra uma cena em que o presidente americano conversa directamente ao telefone com o secretário-geral soviético através do famoso telefone vermelho (embora o filme seja a preto e branco... - a cena aparece no último vídeo deste poste), sem as minudências de a complicar com a presença de um indispensável tradutor (a alternativa seria que o homem do Kremlin tivesse uma tal fluência em inglês que o dispensasse...).

Na realidade, os russos escreviam em russo, os americanos em inglês, e o processo de tradução contribuía para a morosidade da conversa. Mesmo assim, foi um enorme avanço em relação à situação que existia durante a Crise dos Mísseis, quando as mensagens de Kennedy para Khrushchev e vice-versa demoravam até doze horas a chegar ao destinatário e sem que este possuísse um processo de se certificar da identidade do autor da mensagem. O primeiro presidente a utilizar o telefone vermelho foi Lyndon Johnson em Junho de 1967, por ocasião da Guerra dos Seis Dias, prevenindo os soviéticos das suas intenções de deslocar unidades aéreas e navais para o Mediterrâneo oriental. Para contraste e significativo de como os soviéticos avaliavam a Invasão da Checoslováquia que ocorreu em Agosto de 1968, Brejnev preferiu encarregar o embaixador soviético, Anatoly Dobrynin, de transmitir pessoalmente a Johnson as explicações sobre as intenções soviéticas, em vez de o fazer pelo telefone. A partir de Setembro de 1971 as comunicações passaram-se a fazer oralmente e via satélite e só aí é que a expressão telefone vermelho passou a ter verdadeiro sentido.
Em 1983 o sistema foi novamente melhorado, passando a possibilitar o envio de faxes. Por essa altura, a ideia do telefone vermelho como elemento de dissuasão consolidara-se no imaginário norte-americano. Numa mensagem eleitoral de 1984, o candidato democrata Walter Mondale (que virá a ser arrasado por Ronald Reagan nessas eleições) chama a atenção para o facto de que a SDI, que a administração Reagan então se propunha promover, iria tornar o famoso telefone num adereço inútil. A Guerra das Estrelas acabou por não se concretizar e a Guerra Fria acabou por chegar ao fim. Mas não foi isso, nem os desenvolvimentos tecnológicos da internet da década de 90 que puseram fim à conexão, agora dos Estados Unidos com a Rússia. Já no século XXI, em 2008, tornou-se operacional um novo sistema de fibra óptica hiperseguro que contempla mensagens de voz e e-mails. O telefone vermelho permanece mais do que um utilitário, uma referência simbólica. A propósito da campanha eleitoral presidencial que teve lugar nesse ano, a propaganda para denegrir a candidata republicana à vice-presidência (Sarah Palin) passa por a exibir na sala oval da Casa Branca acompanhada do famoso telefone, numa sugestão subtil da sua incapacidade para lidar com situações delicadas.
Nos dias que correm, com a difusão de Twitter e sobretudo com um presidente norte-americano que recorre abundantemente a ele para tornar conhecidas as suas opiniões, o sistema parece fatalmente condenado a desaparecer. Mas essa é a parte da evolução do hardware. Porque quanto à evolução do software e quanto à delicadeza das situações internacionais e como já aqui mencionei no blogue, nada do que foi configurado de início, há 60 anos, nem mesmo a imaginação mais delirante dos argumentistas de Dr. Strangelove (os mesmos que criaram a cena delirante abaixo), conseguiu antecipar o cenário em que a pessoa mais chanfrada da equipa que lida com as situações delicadas é o seu próprio chefe, o presidente dos Estados Unidos... É que, a ser assim, o telefone vermelho torna-se um dispositivo que, em vez de os refrear, pode vir a acelerar conflitos! 

29 agosto 2023

NÃO TARDA MUITO, ESTE AQUI ABAIXO TAMBÉM COMEÇA A DIZER QUE ESTÁ A PENSAR CANDIDATAR-SE A PRESIDENTE DA REPÚBLICA...

O mais triste é que o problema nem é deles, de Marques Mendes, de Santana Lopes, eventualmente deste Júdice, é das organizações (televisões, mas não só) que, por os albergarem, promovem aqueles seus desejos como se fosse para se levar a sério. Tudo por passarem na televisão a dizerem umas coisas. Na concorrência, ao menos o almirante das vacinas tem a seu favor a história das vacinas... E tudo isto para disputar uma função política que a realidade dos factos tem mostrado cada vez mais ser secundária.

Recuperando a frase acima de José Miguel Júdice, também eu acho que eles são atrasados mentais nessas (e noutras) matérias: dão por adquirido, a partir do exemplo de Marcelo, que o comentário político regular numa televisão e sem contraditório é um trampolim imbatível para a presidência; é esquecerem-se que Marcelo esteve até à ultima da hora à espera de saber o que é que Guterres ia fazer; se Guterres tivesse decidido regressar e concorrer em vez de ir para a ONU, nem teríamos dado por Marcelo nas presidenciais de 2016.

O DIA DA OPERAÇÃO «SAFARI» NA DINAMARCA

(Republicação)
29 de Agosto de 1943. A Dinamarca entrara na Segunda Guerra Mundial quando da invasão alemã a 9 de abril de 1940. A resistência dinamarquesa foi breve (6 horas). Desde aí, a Dinamarca tornara-se num protectorado alemão, embora os Aliados (britânicos e americanos) tivessem ocupado todas as suas outras possessões, e o modus vivendi dos dinamarqueses sob ocupação alemã era razoável, dadas as circunstâncias, superando todos os outros países ocupados da Europa. Em Março de 1943 até se haviam realizado eleições legislativas que haviam reconduzido por uma esmagadora maioria a ampla coligação nacional. Mas, para a Alemanha, nesse Verão de 1943 e depois da ofensiva diplomática que desencadeara na Primavera anterior, a decepção era grande, ao constatar a ausência de resultados concretos entre a constelação de países que a rodeava, ou mesmo pior, já que, entretanto, o próprio Mussolini fora deposto em finais de Julho. Tudo isto para explicar o ambiente que está por detrás das exigências alemãs apresentadas ao governo dinamarquês a 28 de Agosto de 1943. Em detalhe, os alemães exigiam que as reuniões públicas fossem proibidas, as greves ilegalizadas, houvesse recolher obrigatório, que a censura fosse acompanhada por alemães e que houvesse tribunais militares especiais que poderiam sancionar com a pena de morte em casos de sabotagem.
A ideia dos alemães teria sido apenas atarrachar, só que... a coisa partiu. Como noticiava o Diário de Lisboa desse dia, o governo dinamarquês demitiu-se e as autoridades alemãs, proclamando o estado de sítio, tiveram que assumir elas próprias as responsabilidades da governação. Para que se concretizasse os alemães executaram um plano de desarmamento das fracas forças armadas dinamarquesas que ficou conhecido pelo nome de Operação Safari. Momento mais simbólico da ocasião foi a corrida contra o tempo para afundar os poucos navios da marinha de guerra antes que os alemães se apossassem deles (um episódio semelhante em atitude - que não em escala - com o que tivera lugar dez meses antes em Toulon, na França). Mesmo para quem acompanhava a guerra pelos jornais, o comportamento dos alemães começava a assumir um padrão antipático, à medida que a confiança deles nos seus aliados e dependentes se esvanecia. Na última página do Diário de Lisboa desse mesmo dia e ao lado do resto da notícia sobre o que acontecera na Dinamarca, lia-se a notícia da morte do rei Boris III da Bulgária (outro aliado de Hitler), falecido no dia anterior inesperadamente aos 49 anos, oficialmente de ataque cardíaco, mas uma morte que ainda hoje permanece misteriosa.

28 agosto 2023

DEPOIS DE «A PEQUENA SEREIA»

A Disney merece ser parodiada depois da sua ideia de escolher para protagonista de «A Pequena Sereia» uma actriz afro-americana. Uma ideia que dificilmente se explica (o autor da obra é um dinamarquês!), a não ser pela tentativa deliberada de criar uma polémica promocional à volta de um filme cujo enredo já havia sido objecto de incontáveis adaptações. A acusação previsível a quem não goste desta última adaptação, não é porque ela não traga nada de novo, é porque se está a ser racista!... E nessa lógica e nesta paródia, a criatividade artística de uma história de um grande jogador de futebol só faz sentido se o Messi for em preto, em vez de ser o Pelé a aparecer em branco.
E se a Disney quiser fazer um filme sobre António Costa, também se arranja um protagonista parecido, mas em mais escuro...

ALGUMA IRRELEVÂNCIA DAQUILO QUE O GOVERNO LÍBIO POSSA OU NÃO FAZER

Colocando as aparências diplomáticas de parte, a questão prática desta notícia do Público não é a de saber se a Líbia passaria a reconhecer (ou não) a existência do Estado de Israel, a questão é saber se o próprio governo líbio, de que a ministra dos Negócios Estrangeiros faz - ou deixou de fazer - parte, tem a autoridade e, com isso, a representatividade para negociar em nome da Líbia. Abaixo mostram-se as áreas de influência em que está dividida a Líbia depois da queda de Gaddafi. Até pode ser do interesse publicitário de Israel fazer com que mais um estado árabe reconheça a sua existência. Como pode ser do interesse publicitário dos adversários de Israel que isso não aconteça. Só que há países árabes que se encontram completamente divididos por prolongadas guerras civis: Síria, Líbano, Líbia, Iémen, Iraque, Sudão. Em qualquer destes casos, a representatividade dos governos que actuam nos palcos internacionais é sempre para ser acolhida com as naturais reservas de um país que está politicamente dividido, à mercê de um qualquer golpe militar que possa reverter alguns dos compromissos assumidos, e as notícias não se podem esquecer de o salientar em episódios como o descrito acima.

«I HAVE A DREAM»

(Republicação adaptada)

28 de Agosto de 1963. Há 60 anos o pastor Martin Luther King proferia em Washington, diante de outra grande manifestação, aquele que viria a ser o seu mais famoso discurso: «I have a dream». Sobre a concretização desse sonho de King (que viria a morrer assassinado quatro anos e meio depois), uma sondagem realizada pela Gallup há doze anos mostrou os norte-americanos muito divididos: 51% diziam que o sonho dele se concretizara, enquanto 49% achavam que não. Mas, quanto às opiniões a respeito do orador, elas passaram de uns controversos 41% a favor - 37% contra numa sondagem realizada três meses antes, em Maio de 1963, para uns hagiográficos 94% - 4% quando da sondagem mencionada acima, realizada em Agosto de 2011. Este assunto das relações raciais parecia ter adquirido uma moral relativamente consensual entre os americanos, até aos incidentes e às declarações de Donald Trump a respeito do que acontecera em Charlottesville.

27 agosto 2023

QUANDO O ESTADO NOVO ENCHEU O TERREIRO DO PAÇO EM APOIO DA POLÍTICA ULTRAMARINA

No seguimento do extenso discurso sobre política ultramarina que António Salazar havia pronunciado duas semanas antes pela rádio e televisão, de que aqui dei conta neste blogue, as denominadas forças vivas do regime decidiram promover uma manifestação de apoio a Salazar, que ficou marcada para 27 de Agosto, ao fim da tarde, no Terreiro do Paço. O convite dos «organismos patronais» - a lista dos grémios é propositadamente extensa - que podemos ler acima e que foi publicado dois dias antes nos jornais, parece-me suficientemente esclarecedor nos seus considerandos sobre a natureza e os propósitos da manifestação, que me dispensa comentários adicionais.
A RTP compareceu com uma equipa de reportagem que transmitisse as palavras do presidente do Conselho, um discurso de poucos minutos, que veio a ser sintetizado posteriormente numa passagem: «Está tudo bem assim e não podia ser doutra forma». Mas a equipa de reportagem da RTP não teria apenas essa incumbência, já que, na panorâmica que recolheu da multidão que enchia a Praça do Comércio, que veio a ser estimada pelos jornais em 200.000 pessoas, acabou por se concentrar - e não por acaso... - no local onde se encontrava Cilinha Supico Pinto, a esposa do presidente da Câmara Corporativa, e figura mediática do regime.
Para quem esteja interessado em perceber agora como estas coisas se montavam, Cecília Supico Pinto aparece no vídeo mais acima aos 3:05 a bater palmas entusiasmadamente, e reaparece aos 3:55 ainda a escutar atentamente as palavras do presidente do Conselho. A ingenuidade para com a manipulação dos meios audiovisuais ainda era grande, embora haja outros processos de organizar estes eventos que são de sempre, como este abaixo, encerrando os locais de diversão na tarde da manifestação. São métodos consagrados e que são transversais a qualquer ideologia: ainda hoje, na Festa do Avante, os bares encerram obrigatoriamente quando do discurso do secretário-geral do PCP.

AS CONVERSAÇÕES DAS SEIS PARTES

(Republicação)
27 de Agosto de 2003. Tinha lugar a primeira ronda das Conversações das Seis Partes (Six-party talks). As seis partes eram (por ordem alfabética): China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia. E o tópico era o programa nuclear norte-coreano. Dois dias depois as conversações eram suspensas e agendada nova ronda para daí a seis meses. Segundo os diplomatas experimentados em conversações com coreanos, a primeira ronda correra excepcionalmente bem. O armistício de Panmunjon de 1953 demorara mais de dois anos a ser negociado, todos os pormenores eram objecto da mais minuciosa negociação. Mas aqui conseguira-se fixar rapidamente um formato (hexagonal) e uma disposição para a mesa de negociações! No canto superior, realce-se o pormenor - sinal de importância - de que é o representante chinês o que fica mais próximo da porta. Na fotografia acima, e embora os negociadores norte-americanos sejam dos que mais gostam de se destacar nas fotografias, os dois representantes mais fotogénicos e bem dispostos ao centro são os da Rússia e da China. Foi há quinze anos. Seguiram-se outras cinco rondas. Donald Trump ter tido a pretensão de que se resolvia tudo isto com uma cimeira foi uma estupidez, uma arrogância, uma ignorância, uma presunção, uma mediocridade.

26 agosto 2023

QUANDO O POVO NÃO SE ENTUSIASMA EM LUTAR CONTRA A CORRUPÇÃO

26 de Agosto de 2018. Na Colômbia é dia de um referendo em que os eleitores são convocados para se pronunciarem separadamente sobre sete medidas distintas para combater a corrupção na administração pública (abaixo, um exemplar do boletim de voto com as sete perguntas). Como seria de esperar, os sins ganharam por uma maioria esmagadora, superior aos 99%, mas a oposição ao referendo preferiu actuar indirectamente, activando a resistência passiva e pedindo aos eleitores que se abstivessem de ir votar, esperando com isso reduzir a participação eleitoral para valores que tornassem o resultado do referendo não vinculativo. E conseguiram-no. No computo global, apenas 32% (11,7 milhões de eleitores) dos eleitores registados votaram, num universo total de 36,4 milhões de colombianos. Foi um episódio que não mereceu grande destaque noticioso a nível mundial, porque é daqueles que desmente as narrativas simplificadas que costumam ser dadas como evidentes: a de que o povo tem poucas oportunidades para combater a corrupção dos poderosos e que é por isso que ela se perpetua. Neste caso, os colombianos terão tido essa oportunidade e uma maioria deles desperdiçou-a.

25 agosto 2023

DOIS CHEFES DE ESTADO QUE NÃO FORAM OS PRIMEIROS A ENTRAR NUMA TRINCHEIRA...

A propósito das legendagens disparatadas que ontem os nossos canais de televisão andaram a afixar por conta da visita - surpresa! - de Marcelo Rebelo de Sousa à Ucrânia, permitam-me a ousadia de ir recuperar esta fotografia com quase 106 anos (Outubro de 1917), quando de uma visita presidencial a Ham, no Norte de França, onde então acantonava o Corpo Expedicionário Português (CEP). Como se percebe, a povoação está quase totalmente destruída. Em plano destacado identifica(va)m-se (da esquerda para a direita) Bernardino Machado, o presidente da República Portuguesa, Raymond Poincaré, o presidente da República Francesa e Afonso Costa, o chefe do governo português. T(iv)emos portanto ali não um mas dois chefes de Estado e, do que consta da visita, nenhum deles «foi o primeiro chefe de Estado a entrar numa trincheira»... Talvez no século passado, naquilo que mediaticamente será a era A.M. (antes de Marcelo), entrar numa trincheira não tivesse um significado por aí além...

APROVEITEMOS A OCASIÃO HISTÓRICA E A FOTOGRAFIA HISTÓRICA PARA QUE NÃO NOS ESQUEÇAMOS DOS ATRASOS E DAS INCOMPETÊNCIAS HISTÓRICAS

Por causa do processo que tem a correr contra si no estado da Georgia, Donald Trump teve que se apresentar numa esquadra, de onde acabou por ser libertado depois de apresentar uma caução de 200 mil dólares. Mas o que está a deixar o circo mediático americano em êxtase é a fotografia que o antigo presidente teve que tirar, como acontece regulamentarmente com todos os detidos nos Estados Unidos. A foto - muito presumivelmente pensada - de um Donald Trump que se pretende desafiador faz agora a volta ao Mundo, acompanhada de considerações sobre o carácter histórico da mesma, a primeira de um tão alto responsável político americano a contas directas com a justiça. O que nos deve despertar a atenção para que nós, cá em Portugal, também temos fotografias históricas da mesma casta, veja-se a que publico abaixo. Se as associo é para que esta ocasião seja aproveitada para recordar que José Sócrates também é um escroque a contas com a justiça, mas também e sobretudo para recordar que o aparelho judicial português é de uma incompetência de envergonhar o país. Mais de 12 anos depois de ter abandonado o poder e a caminho de se completarem 9 depois da sua prisão preventiva, não há desculpas aceitáveis para que nada ainda tenha sido formalizado como acusação contra o antigo primeiro-ministro. Estamos numa situação em que já nem é possível reparar os estragos reputacionais. Mas ainda estamos na situação em que, só pela inércia, se consegue estragar ainda mais...

O QUE ERA SER-SE «SOCIALITE» HÁ 75 ANOS

25 de Agosto de 1948. Oriunda de Paris, esta pequena notícia publicada na primeira página do Diário de Lisboa dava conta aos leitores do paradeiro do ministro dos Negócios Estrangeiros português, o já então septuagenário José Caeiro da Mata. Mas, talvez mais importante do que dar a saber aos leitores que ele passara por Paris, seria saber-se que fizera o seu «habitual tratamento» nas termas de Vittel, nos Vosges franceses. Era toda uma outra sofisticação que distinguia o ministro de todos aqueles que se tratavam em termas nacionais... Lembro-me que cinquenta anos depois, nos anos da década de 1990, já os tratamentos de águas haviam há muito passado de moda, assistiu-se a uma outra reencenação desta moda do no-estrangeiro-é-muito-mais-sofisticado, só que aplicado às férias de inverno e às estâncias de ski.

24 agosto 2023

PARA OS JORNALISTAS PORTUGUESES PARECE QUE A «CONSCIÊNCIA AMBIENTAL» NÃO É UMA CAUSA, É UMA PESSOA, E É APENAS ESSA PESSOA

Como acontece com Mário Nogueira e o sindicalismo dos professores, que anda há mais de trinta anos naquilo e nunca mais se dispõe a sair de cena, também a causa da «consciência ambiental», como acima a designam hoje no Público, essa causa do ambiente corporiza-se numa só pessoa, se atendermos à forma como a comunicação social cobre o tópico. Ao longo destes últimos 25 anos, permanece para mim um enorme mistério, porque é que qualquer tópico que tenha a ver remotamente com questões ambientais se circunscreve mediaticamente a Francisco Ferreira, o senhor que aparece na fotografia supra, hoje objecto de (mais) uma entrevista, a pretexto de estarmos em Agosto e haver que encher as páginas do jornal. Se bem me lembro, o seu aparecimento inicial, ainda em finais do século passado (1996), devia-se à sua condição de presidente de uma associação ambientalista que, apesar de fundada em 1985, ninguém conhecera até então, e que dava pelo nome de Quercus. A figura inicialmente simpática do careca da Quercus (a careca precoce de Francisco Ferreira parecia funcionar como uma demonstração muda, mas eloquente, do efeito corrosivo das chuvas ácidas), foi-se desgastando, porque os seus aparecimentos mediáticos iam constantemente no sentido de bloquear, por razões ambientais aparentemente muito respeitáveis, quaisquer iniciativas sobre as quais pretendessem pronunciar-se. A ponto de a Imprensa Falsa o ter parodiado a opôr-se à demolição de uns barracões velhos porque eram os locais de nidificação de uma espécie como as ratazanas de esgoto... Esta fase do careca da Quercus foi-se esvanecendo com o tempo, para que o protagonista Ferreira ressuscitasse subitamente em 2016... mas com uma mudança de marca. A partir daí a Quercus desaparece praticamente das notícias para ser substituída pela «associação ambientalista Zero». Mais uma vez, os jornalistas são de uma indulgência extrema na apresentação desta nova organização de Francisco Ferreira, da qual, e como acontecia com a anterior, continua a promover-se um e apenas só um membro. Nunca se soube (porque também ninguém nunca terá perguntado...) as razões para a «nova associação criada a partir de uma cisão na mais conhecida associação ambientalista portuguesa» (Quercus). Quais haviam sido as causas para tal cisão? Quem era a «mão-cheia de ex-presidentes» que abandonara aquela outra «ONG do ambiente»? Estas perguntas ganhavam uma pertinência suplementar porque, por aquela altura e desde 2015, já a causa da «consciência ambiental» ganhara representação parlamentar através da eleição do deputado André Silva do PAN. Mas engana-se quem, ingenuamente, pensasse que as duas organizações (e dois protagonistas) compartilhavam objectivos comuns. Não apenas não compartilham, como têm métodos de actuação diferentes. O PAN, André Silva e agora Inês Sousa Real vão a eleições, apresentam-se a votos, aquilo que propõem é escrutinado. Em contraste, Francisco Ferreira e a Zero que já foi Quercus, não tem mostrado qualquer interesse em captar votos, apenas um talento inaudito para, por causa da causa do ambiente, não se fazer esquecido junto dos jornalistas e estar sempre a aparecer - (1) (2) (3) (4). Hoje foi apenas mais uma dessas vezes, e confesso que este expediente, de tão repetido e tolerado, mais a mediocridade de quem o promove e com ele contemporiza, me irritam.

...LIMPEM-SE AO JORNAL

Ontem, a meio da cobertura em directo da visita (surpresa!) de Marcelo à Ucrânia, o presidente tem um daqueles arranques cénicos, que parecem mesmo concebidos para serem interpretados diante das câmaras de TV quando em directo (veja-se o canto superior direito da frame acima) e, rapando de um bocado de jornal que, diz ele, apanhara numa das trincheiras que acabara de visitar, chama por Pacheco Pereira (que andava por ali, enquanto Cravinho - ao fundo - já se preparava para entrar no carro), para lho entregar, o «resto de um jornal», como se de uma relíquia se tratasse, que o comentador televisivo acolhe com as duas mãos gratas, destinando-o de imediato para a sua Ephemera... Todo o episódio não dura mais do que 15 segundos, mas, para os que a viram, terá destruído toda uma reputação de distanciamento crítico em relação à conduta presidencial que Pacheco Pereira tenha andado a cultivar ao longo de algumas temporadas consecutivas do programa Quadratura do Círculo, Circulatura do Quadrado, Princípio da Incerteza, enfim, aquele programa de comentário político que, saltitando de um canal para outro, tem de ter obrigatoriamente José Pacheco Pereira a comentar, com outros.
Em primeiro lugar, e como aposto que notaria o mesmo José Pacheco Pereira, caso estivesse sentado na cadeira do estúdio a responder às perguntas de Carlos Andrade, desmontemos esta história de qualificar esta visita de ter sido de surpresa. Ela só terá sido surpresa para as audiências portuguesas. Porque se ela foi discutida previamente com quase toda a gente, incluindo o PCP, a probabilidade é elevadíssima que os russos já soubessem com antecedência da visita de Marcelo. Se os russos não bombardearam a trincheira que o Marcelo visitou foi porque: a) os ucranianos escolheram uma trincheira tão segura e turística quanto aquelas que existem da Primeira Guerra Mundial na Flandres; b) também pode ser que os russos, ao contrário de António Costa, não estejam nada empenhados em pregar partidas ao Marcelo, bombardeando-lhe a trincheira com um drone, enquanto ele lá estivesse. Deixaram-no ir fazer o turismo dele à vontade, talvez. O que nos leva ao segundo tema crítico de um José Pacheco Pereira apreciando os acontecimentos de fora: o que é que lá estava a fazer o mesmo José Pacheco, na comitiva presidencial? Naturalmente, foi convidado. Mas a que título? Se a resposta for: o Marcelo convida quem quiser e o Pacheco Pereira sempre gostou de ir a estas coisas, então, para a próxima vez, registem que há mais quem gostasse de ir, no lugar do ministro Cravinho por exemplo, que sempre apareceu a bocejar e com cara de frete. Finalmente, por último, e regressando ao episódio acima descrito, as pessoas que se arrogam de conhecer Marcelo (como Pacheco Pereira já o fez repetidamente), decerto que lhe conhecem estes arranques cénicos. E aí, uma de duas: ou se demarcam, contrapondo um registo sóbrio à excitação e à teatralidade, em coerência com tudo o que lhes havíamos ouvido comentar anteriormente, ou então alinham na pantomina, perdendo a credibilidade, tornando-se em mais um sucessor de frei Tomás. Enfim, limpem-se (os dois) ao jornal.

HEINRICH HIMMLER - O POLIVALENTE

(Republicação)
24 de Agosto de 1943. Neste dia de há oitenta anos Heinrich Himmler (1900-1945) era nomeado ministro do Interior (Reichs- und Preußischen Ministerium des Innern - inútil procurar referências a esse ministério na wikipedia em alemão... se aceitarmos o que lá aparece escrito, então algumas estruturas do estado alemão só surgiram em 1949...). À época Himmler já era Reichsführer das SS, estava à frente de todas as polícias alemãs, era o comissário da Agência para o Apuramento da Raça e dirigia também o Gabinete Central de Segurança do Reich. E agora iria acumular todas aquelas responsabilidade com o ministério. Mas não se iria ficar por aqui: no futuro iremos encontrá-lo como chefe de guerra, no comando directo de tropas, à frente do exército de reserva (Ersatzheer), do Alto Comando do Alto Reno e do Grupo de Exércitos do Vístula. Um homem incansável e verdadeiramente polivalente.

23 agosto 2023

UM POVO MUITO IGUAL A SI PRÓPRIO OU O GNR QUE PALMOU A PALMEIRA...

A história pode contar-se muito sucintamente. Numa das suas obras de requalificação, a Câmara de Cascais plantado «várias centenas de espécies arbóreas em todas as zonas ajardinadas, nomeadamente palmeiras jovens com menos de dois metros de altura». «Passado pouco tempo da requalificação, os funcionários da autarquia notaram que tinham sido roubadas várias espécies arbóreas, nomeadamente palmeiras, bem como programadores de rega.» A autarquia resolveu replantar novas árvores para substituir as roubadas, só que, desta vez, puseram localizadores GPS em algumas das espécies mais valiosas, como as palmeiras. E a história repetiu-se. Só que desta vez, os localizadores permitiram localizar para onde haviam ido as palmeiras. A notícia ganha contornos insólitos quando a polícia municipal veio a descobrir uma delas «na casa de um homem que se identificou como sendo militar da GNR», «na Aldeia do Juzo» (portanto, ainda no mesmo concelho de Cascais).

Mas a parte verdadeiramente interessante da notícia começa no momento em que o tal militar da GNR, em sua defesa, «alegou ter encontrado a palmeira no lixo»... Ou seja, a querer convencer os outros que alguém fora roubar originalmente a palmeira onde fora colocada, mas apenas para depois a colocar no lixo. E é nestes momentos que constatamos, seja um antigo banqueiro como Ricardo Salgado ou um antigo político como José Sócrates, até a um modesto militar da GNR, todos somos um povo com uma falta de sentido inata para aquilo que tem de ser uma desculpa plausível. Entre passar pelo ridículo de apresentar uma desculpa disparatado e a dignidade de ficar calado para não nos enterrarmos, não nos contemos, não sabemos ficar calados, insultando a inteligência de todos os outros...

A 15ª CIMEIRA DOS BRICS E O RETORNO A UMA CERTA «KREMLINOLOGIA»

A ideia original do bloco de países denominado por BRICS (em inglês, literalmente, tijolos) apareceu já neste século. Foi em 2001 que a Goldman Sachs terá cunhado aquela sigla (originalmente bric, tijolo) num artigo sobre o potencial económico daqueles países: Brasil, Rússia, Índia e China. Houve, entre os seus dirigentes da época, quem tivesse ficado lisonjeado com a ideia e tivesse promovido uma aproximação recíproca. O quarteto original realizou a sua primeira cimeira em 2009. No ano seguinte, e porque a ausência africana era embaraçosa num projecto que era um contraponto às economias desenvolvidas do G7, a África do Sul foi convidada a aderir, ganhando o acrónimo actual, com o S de South Africa. A ideia parecia muito prometedora, mas o bloco acabou por não ganhar tracção política e/ou económica. A forma distanciada como toda a comunicação social dos países do G7 os noticia, também não os ajuda. Porém, as cimeiras continuam a realizar-se, como que por persistente e teimosa inércia. Ontem começou a 15ª, na cidade de Joanesburgo na África do Sul.

Na fotografia acima temos (da esquerda para a direita), Lula da Silva pelo Brasil, Xi Jinping pela China, o anfitrião Cyril Ramaphosa ao centro, Narendra Modi pela Índia e Sergey Lavrov pela Rússia. A razão para a ausência de Vladimir Putin da fotografia é um daqueles (poucos) assuntos a respeito da cimeira que terá suscitado o interesse da comunicação social dos países do G7. É que se Vladimir Putin comparecesse, a África do Sul, sendo membro do Tribunal Penal Internacional (TPI), teria sido obrigada a cumprir o mandado de prisão que foi emitido para o presidente russo em Março deste ano. Ou então não cumpria. Foi preferível não ter ido. Entretanto, logo no primeiro dia, já surgiu um outro pequeno episódio digno da maledicência ocidental. De acordo com o programa do primeiro dia, o líder chinês, Xi Jinping, deveria participar do fórum e fazer comentários ao lado dos outros líderes. Mas não foi isso que aconteceu. Em vez dele, o seu soporífero discurso foi lido pelo seu ministro do Comércio, Wang Wentao, levantando interrogações para uma tal alteração protocolar.

Outrora, nos tempos da guerra fria, a ignorância dos jornalistas ocidentais sobre o que se passava nos altos escalões dos poderes comunistas, levou esta prática jornalística ao estatuto de uma verdadeira ciência: a kremlinologia. Os cientistas especializavam-se em dar interpretações a episódios desprovidos de valor noutras circunstâncias. Neste caso concreto, há que dizer que as publicações oficiais chinesas davam o discurso como tendo sido lido pelo próprio Xi, o que permite aos cientistas deduzir que se terá tratado de uma alteração de última hora. Que talvez não tenha afinal grande significado, já que foi o próprio Xi Jinping que compareceu no jantar que se seguiu. Seja a ausência de Putin ou a alteração de programa por parte de Xi, este é o género de cobertura noticiosa que a comunicação social que estamos habituados a consultar tem para dar, de uma cimeira de onde não se esperam grandes surpresas.

A ÁRVORE PLANTADA POR SUA EXCELÊNCIA

Esta fotografia foi tirada em Moçambique mas é uma denúncia da mediocridade inconsequente de muitos deste género de gestos políticos públicos. Passado o momento da cerimónia, quando lá devem ter estado dezenas de pessoas a dar-lhe importância, a árvore plantada por pessoa tão ilustre - presidente da República de Moçambique! - ali ficou, sem ser cuidada, nem regada, sem ter ninguém que olhasse por ela, até vir a definhar. E não sei se o ilustre plantador da árvore, se confrontado com a fotografia, manifestaria alguma sombra de embaraço ao ver o seu nome associado a tal fracasso, a tal ridículo... Desconfio que não, porque parecer-se estóico nesses momentos completamente embaraçantes é um dos segredos de se ser (um bom) político. Quanto a Armando Guebuza, não tenho condições para opinar se a árvore será uma boa metáfora dos seus dez anos de presidência. Mas esta mesma árvore é uma excelente metáfora da seriedade e empenho como muitas iniciativas são encaradas em Moçambique.

22 agosto 2023

O ENCERRAMENTO DAS INSTALAÇÕES PRISIONAIS DA ILHA DO DIABO

22 de Agosto de 1953. As autoridades francesas encerram definitivamente as instalações prisionais da ilha do Diabo, na sua colónia da Guiana. Entre 1852 e 1946, nos 94 anos que o estabelecimento serviu de local de deportação, passaram por ele 329 condenados dos quais 76 ali morreram (23%). Outros 58 evadiram-se (18%). 177 (54%) acabaram por regressar a França no final das suas penas de deportação e apenas 17 (5%) escolheram radicar-se na colónia. Passados 16 anos, em 1969, um livro denominado Papillon (acima) tornou-se um best-seller, narrando de uma forma muito criativa a experiência de um desses condenados que se evadiu. O sucesso do livro tornou o local famoso, uma fama que só aumentou quando o livro foi transformado em filme por uma primeira vez em 1973 (abaixo) e por uma segunda vez em 2017. Esta fama acaba por dar uma impressão completamente distorcida da importância dos destinos dos deportados franceses: a Guiana francesa acabou por receber 329 deportados em 94 anos de funcionamento (uma média de 3 deportados/ano); em contraste, a Nova Caledónia (na Oceânia) recebeu 21.000 durante os 60 anos que medeiam entre 1864 e 1924 (350 em média por ano).  

21 agosto 2023

CONSIDERAÇÕES SOBRE A OPORTUNIDADE DE CERTAS NOTÍCIAS...

A inteligência artificial não deve ter dado por isso, mas aqueles que lêem notícias e que não são desprovidos dela, mas na sua forma natural, já devem ter reparado na fortíssima campanha que a Arábia Saudita tem despendido para conferir respeitabilidade ao seu campeonato de futebol. Eles foram comprar o Cristiano Ronaldo, depois foram comprar o Neymar (acima à esquerda), mas o que parece é que, para além deles dois, os clubes sauditas compram tudo aquilo que lhes apetece. Mas aquilo que o dinheiro saudita parece querer comprar será mais do que apenas os jogadores e os treinadores de primeiro plano do futebol: será sobretudo a respeitabilidade de fazer parte da elite do futebol mundial. Tanto é assim, que não surpreendeu a notícia da semana passada quanto à intenção dos sauditas virem a disputar a liga dos campeões europeia (notícia do centro). Em suma, os sauditas estarão cheios de vontade de subir de estatuto e terão dinheiro para aquilo tudo. Só que são sauditas... têm dinheiro, mas não são civilizados. A notícia de que os seus guardas fronteiriços se têm entretido a praticar tiro ao alvo com os migrantes etíopes (à direita) constitui uma novidade muito oportuna para os desacreditar num tópico onde eles, de resto, não têm crédito nenhum: o do respeito pelos direitos humanos. A notícia constitui uma novidade porque as nossas atenções - europeias - sobre as migrações dos países pobres para os países ricos se têm concentrado apenas naquelas que nos afectam - nomeadamente as que cruzam o Mediterrâneo. Só que neste último caso, registam-se tragédias porque os navios se afundam e os migrantes se afogam. No caso da fronteira saudi-iemenita, os guardas sauditas têm dado uma ajudinha às tragédias, a acreditar no que se pode ler relatório da Human Rights Watch que foi acabado de publicar. Os incidentes constantes do relatório abarcam um período que se estende de Março de 2022 a Junho de 2023. A ressonância que lhe está a ser conferida a este relatório, por parte duma ONG que não é conhecida por aí além, também dá que pensar... Para quem não tivesse ainda pensado numa boa razão para que o Al-Hilal de Jorge Jesus não participasse na liga dos campeões, aí está esta.

O ASSASSINATO DO LÍDER DA OPOSIÇÃO FILIPINA À FRENTE DA COMUNICAÇÃO SOCIAL AMERICANA

21 de Agosto de 1983. As Filipinas de há quarenta anos eram uma ditadura, mas daquelas onde, de quando em vez, se realizavam eleições pluralistas, uma obrigação que era imposta pela antiga potência colonial: os Estados Unidos. Claro que as eleições eram fraudulentas e ganhava invariavelmente o partido no poder, mas existência de campanhas eleitorais criava oportunidades para que aparecessem, promovessem (...e se popularizassem) políticos da oposição. Fora o que acontecera a Benigno Aquino Jr. (1932-1983). O pior era o que acontecia entre eleições, quando as atenções mediáticas da América se viravam para outros lados. Também fora o que acontecera a Benigno Aquino Jr. Acabou preso pela ditadura filipina entre 1972 e 1980. Quando sofreu um ataque cardíaco na prisão, e porque a sua morte seria um embaraço em termos das relações com os Estados Unidos, foi libertado e autorizado a tratar-se nos Estados Unidos, na condição explícita de se manter no exílio. No Verão de 1983, contra aquilo a que se comprometera, Benigno Aquino decidiu-se a voltar às Filipinas.

Apanhou um voo num avião da companhia aérea da Formosa, vindo de Taipé. E tentou regressar escudado pela comunicação social norte-americana, já que viajava rodeado de uma delegação de jornalistas norte-americanos. Durante a viagem, entrevistaram-no. A sua viagem era um segredo de polichinelo: em Manila, capital das Filipinas, alguns milhares de oposicionistas esperavam Aquino no aeroporto. Mas à sua espera, e ainda antes dos passageiros começarem a sair do avião, um pequeno destacamento de militares veio ter com o exilado que regressava, para o conduzir a uma carrinha que os aguardaria junto ao avião. Os jornalistas ficaram para trás e Aquino nunca chegou a entrar na carrinha. Foi alvejado a curta distância na placa de estacionamento do aeroporto. Por quem ainda hoje é motivo de dúvida: o assassinato ocorreu praticamente à frente de um punhado de jornalistas mas ninguém pode afiançar o que de facto aconteceu. A versão oficial veio a ser que fora um terceiro atacante, que fora de imediato abatido pelos militares. Na versão não oficial, a narrativa oficial não passaria de uma encenação dos militares.

Seja como for, entre os americanos o regime ditatorial filipino do presidente Ferdinando Marcos foi responsabilizado pelo que acontecera. O jornal The New York Times do dia seguinte (acima) dava ao incidente o destaque de primeira página que se pode apreciar. Essa era a opinião publicada. Em termos mais institucionais, o comunicado do departamento de Estado declarava que «o assassínio do senador Benigno Aquino é um acto cobarde e ignóbil que o governo americano condena nos mais vigorosos termos.» O assassinato de Benigno Aquino é hoje considerado o princípio do fim do regime filipino. É apenas sintoma das suas capacidades intrínsecas de resistência e da fraqueza das oposições que tenha demorado mais dois anos e meio até vir a cair em Fevereiro de 1986.

20 agosto 2023

A FRANÇA EM PÃO E CARNE

Coincidência deste fim de semana: em duas publicações, cada uma do seu lado do Canal da Mancha, há um artigo dedicado aquela preocupação tipicamente gaulesa em comer bem. Reconheço que por lá se come bem, muito bem. O que eu implico é com a pretensão deles que só por lá é que se come bem e que, para se comer bem, tem que se copiar como eles fazem.

OPERAÇÃO «ALCANCE INFINITO»

(Republicação)
20 de Agosto de 1998. Há precisamente vinte e cinco anos e em retaliação contra dois atentados que haviam tido lugar contra as embaixadas americanas de Nairobi e Dar es Salaam, os Estados Unidos desencadeiam um conjunto de ataques com mísseis contra alvos da Al-Qaeda no Afeganistão e também contra uma fábrica de produtos farmacêuticos situada no Sudão. Baptizaram a iniciativa de Operação «Alcance Infinito» (Infinite Reach). Convém recordar, entretanto, que, três anos antes do 11 de Setembro de 2001, a comunicação social internacional encarava o terrorismo islâmico em geral e figuras como Osama bin Laden (acima) com uma condescendência que os ataques contra as torres do WTC irão depois alterar radicalmente. Tanto, que hoje já esquecemos essa condescendência. Na foto acima, um momento de uma entrevista dada por bin Laden a uma cadeia televisiva alemã, a imagem captada pelo cameraman (a mão que segura a arma, o entrevistador ao centro e o entrevistado com o mapa mundo por detrás), não teria sido diferente se se tratasse de um filme de propaganda. E não era um fenómeno exclusivo de televisões não americanas: em 1997, a CNN havia-o entrevistado.

É preciso recordar esse pano de fundo de uma comunicação social internacional neutral, senão mesmo hostil, para se perceber uma certa pedagogia cautelosa no discurso em que o presidente Bill Clinton anuncia, nessa noite, o desencadear da operação aos próprios americanos. A opinião pública doméstica não se sentia incomodada, muito menos ameaçada, com os múltiplos atentados atribuídos à Al-Qaeda que são enumerados por Clinton, todos ocorridos no estrangeiro. Mas isso não impediu que, a crer nas sondagens efectuadas, a esmagadora maioria dos americanos apoiasse a iniciativa, muito embora uma apreciável minoria visse nela um expediente para distrair a atenção do escândalo envolvendo Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky, então numa fase de apogeu mediático. No resto do Mundo, habituado à exuberância de outras intervenções militares norte-americanas, esta, que não teve continuidade nem envolveu tropas, surpreendeu por isso. Em termos de imagens televisivas, os protestos dos países muçulmanos (abaixo, trata-se do Bangladesh) ocuparam o lugar que as concordâncias discretas das opiniões públicas dos países ocidentais não podiam preencher.

19 agosto 2023

O GOLPE DE ESTADO NO IRÃO

19 de Agosto de 1953. Depois de quatro dias de indecisão - podem-se apreciar acima os títulos contraditórios das primeiras páginas do Diário de Lisboa - sobre quem seria a facção vencedora entre um golpe e um contragolpe de Estado no Irão, é a facção monárquica do Xá que se consagra sobre a republicana do primeiro-ministro Mossadegh. Uma vitória que, veio-se muitos anos depois a descobrir, muito devera à intervenção oculta das agências de espionagem dos Estados Unidos (CIA) e do Reino Unido (MI6). O livro abaixo foi publicado originalmente em 2003, incorporando os elementos dos arquivos da CIA, mas não os do MI6, que estão ainda em segredo.   

18 agosto 2023

ESTE TAMBÉM SE TORNOU NUM HOMEM DE UMA FÉ APROFUNDADA, COMO O ANDRÉ VENTURA

Se ele tivesse vindo às Jornadas Mundiais da Juventude, no momento desta foto aparecer-lhe-ia miraculosamente serradura nas mãos (e nos joelhos), para abraçar ainda mais a Cruz... Quando sair dali de cima, também vai escrever uma carta ao papa Francisco a pedir desculpa pela ausência.

O TUFÃO QUE ASSOLOU MACAU EM 18 DE AGOSTO DE 1923

Há precisamente cem anos, um tufão assolou Macau. A sua passagem deixou um rasto de destruição computado em 200 mortos, mais de 120 casas destruídas, outras 100 muito danificadas, 50 navios afundados. Mas o que aqui se pretende assinalar é a morosidade da conexão de então entre a metrópole e as suas colónias. As imagens de destruição acima, só vieram a ser publicadas numa revista portuguesa em princípios de Novembro, ou seja cerca de dois meses e meio depois dos acontecimentos! Demorava-se imenso tempo a alcançar os recantos mais recônditos do Império Colonial português (e a regressar de lá).

17 agosto 2023

28.699 PALAVRAS QUE NINGUÉM VAI LER

O mais estúpido no título acima é o anúncio - a pretensão - de que o documento, ontem aprovado em conselho de ministros, entra hoje em vigor. Quem quiser proceder à leitura do - pomposamente denominado - plano nacional de saúde 2030, rapidamente se dá conta que o que lá está escrito é um encadeado de evidências, lugares comuns, truismos e intenções bonitas. E desmesuradamente palavroso: o que ali está escrito em 28.699 palavras (equivalente a 99 páginas A4) podia (e devia) ter sido escrito no equivalente a 10 páginas e, mesmo assim, arriscava-se ainda a ser um documento chato.

Um documento deste género bem elaborado tem sentido quando se fazem opções entre políticas alternativas distintas e se fundamentam essas opções. Exemplificando com as frases acima destacadas pela Lusa, seria um disparate contrapor ao que lá se lê, a opção que se deva «desproteger activamente as populações que vivem em situação de maior vulnerabilidade» ou então «prescindir de caminhar na eliminação de todas as mortes preveníveis e prematuras». E, claro, é completamente irrelevante a data em que o documento entra em vigor, já o que lá consta não interfere minimamente com o dia a dia dos cidadãos.

Tratou-se portanto de uma completa perda de tempo dos redactores de tal irrelevância. E de uma total perda de tempo do conselho de ministros, quando os vemos a aprovar estes documentos maçudos e irrelevantes que ninguém está interessado em ler na sua totalidade. (Adenda: houve quem, com muito humor e tal é a capacidade do documento de juntar palavras sem conterem nada de significativo, me tivesse sugerido que talvez o PNS 2030 possa ter sido redigido pelo ChatGPT, o dispositivo de Inteligência Artificial que tanto furor tem feito).