31 julho 2018

DEPOIS DE 1972, OS AGENTES DO FBI DEIXARAM DE SER FOTOGRAFADOS EM TROUSSES...

31 de Julho de 1972. Um avião DC-8 da Delta Air Lines que fazia uma ligação doméstica entre as cidades de Detroit e Miami quando foi sequestrado por um grupo de passageiros - mais tarde apurou-se que o grupo era composto por cinco adultos e três crianças e que os adultos pertenciam ao Black Liberation Army, uma organização radical armada de afro-americanos. O avião aterrou em Miami como previsto e foi nesse aeroporto que se realizaram as negociações com os sequestradores. Para libertarem os 86 passageiros os sequestradores exigiram um resgate de um milhão de dólares e são as operações de entrega do resgate que as fotografias mostram: como medida de segurança, para retirar quaisquer possibilidades que o fizessem armados, foi exigido aos agentes que procederam à entrega do dinheiro que só vestissem trousses. Foram imagens que humilharam as autoridades em geral, e a do FBI (que conduzia as negociações) em particular.
Depois da recepção do resgate e já transportando apenas a tripulação e os sequestradores, o avião voou para Boston, onde foi reabastecido para uma viagem transatlântica até Argel. À chegada, não tendo concedido asilo político aos piratas do ar, as autoridades argelinas apreenderam o aparelho, o dinheiro do resgate e libertaram a tripulação, devolvendo-os à origem. Mas os sequestradores não foram extraditados. Fazendo-se eco do que dizia a imprensa internacional, o que o Diário de Lisboa destacava do episódio no dia seguinte era o facto dos sequestradores serem negros. Mas o futuro iria reservar uma muito maior intimidade entre Portugal e um dos protagonistas desta acção terrorista... Quatro dos cinco foram capturados em 1976 em França e aí julgados e condenados a três anos de prisão ,sendo libertados em 1981. O último andou desaparecido durante 30 anos depois disso, até ser descoberto em 2011, a viver em Portugal, com um nome falso, mas possuidor de uma genuína cidadania portuguesa. O pedido de extradição norte-americano foi recusado por causa desse motivo.

A ESTREIA DE «DAD'S ARMY» NA BBC

31 de Julho de 1968 foi o dia da transmissão do primeiro episódio de «Dad's Army» na BBC. A série cómica nunca foi transmitida em Portugal, embora os portugueses reconheçam o estilo do humor por causa de outra série dos mesmos autores que também decorre na Segunda Guerra Mundial: «'Allo, 'Allo!». Neste caso percursor de «Dad's Army», em vez da ocupação e da resistência em França, a paródia incide sobre os próprios britânicos e os seus preparativos para a defesa na hipótese de uma invasão alemã da Grã-Bretanha em 1940 e nos anos seguintes. O dispositivo de defesa britânico incluía unidades territoriais («Home Guard») compostas de voluntários, que eram civis durante o dia, mas que preenchiam as noites e seus tempos livres em tarefas de antecipação da invasão. Esses voluntários eram indivíduos inelegíveis para o serviço militar (normalmente por causa da idade), o que conferia às unidades um aspecto grisalho, algumas contingências quanto ao seu desempenho em manobras e ainda essa alcunha de o exército do paizinho, que a série se limitou a recuperar. O humor gira à volta das idiossincrasias dos membros de uma dessas unidades locais, na vila costeira imaginária de Walmington-on-Sea.
Logo o genérico da apresentação (acima) é uma animação com umas setas com Union Jacks a desembarcarem de peito feito no continente, apenas para levarem uma tareia das setas com as cruzes gamadas, uma indicação que a série constitui uma revisitação irónica do passado e da narrativa heroica que se construíra à volta desse período de 1940-41. (as fotografias e o vídeo são a preto e branco porque os originais assim o eram: a BBC 1 só passará a emitir a cores em Novembro de 1969). Mais de 25 anos passados, em 1968 era uma nova geração de ingleses que reapreciava os acontecimentos, geração essa que já se apercebera que a tal «finest hour» da retórica churchilliana, os sacrifícios de guerra e os, praticamente esquecidos, sacrifícios do pós-guerra não haviam impedido que a prosperidade dos britânicos, quando em comparação com a de outros povos, assim como a condição do país como superpotência mundial, fossem agora coisas do passado. Em Inglaterra, uma nova geração tinha direito a exprimir a sua reapreciação sobre esse passado. E em Portugal faltavam ainda três dias para que a antiga geração caísse da cadeira. O mesmo género de humor era impensável embora quem fizesse a mesma revisitação irónica ao passado, tinha que concluir algo de muito parecido: que, apesar da indisputável habilidade negocial como Portugal preservara a sua neutralidade durante a Guerra, o país se encontrava então, quando em termos relativos, política e economicamente, muito mais frágil do que já estivera 25 anos antes.

30 julho 2018

A AMEAÇA DE «GOVERNMENT SHUTDOWN»

Em Novembro de 2015, um ano antes de ser eleito presidente, Donald Trump atacava o seu antecessor, considerando que seriam os historiadores a culpar Barack Hussein Obama se ocorresse algum «government shutdown» (expressão de difícil tradução para português, qualquer coisa como suspensão da governação). E, porque considerava que essa responsabilidade recairia sempre sobre o presidente, criticava os congressistas republicanos por não saberem negociar com Obama em posição de força. «São uns horríveis jogadores de poker. Horríveis.» - lamentava-se. Pois bem, agora o presidente é ele e, como já nos habituámos, desdiz tudo o que dissera. Agora os historiadores e o julgamento da História não são precisos para nada, é ele próprio, Donald Trump, que ameaça precipitar o «government shutdown» se os congressistas democratas não votarem de acordo com as suas intenções quanto ao muro, como se estes últimos não tivessem memória (dois anos e meio devem ser uma eternidade...) e fossem outros "horríveis jogadores de poker", daqueles que nem sabem reconhecer um bluff...

UM DIA NEGRO PARA A «KRIEGSMARINE»

30 de Julho de 1943 foi um dia negro para a Kriegsmarine, especialmente para os seus submarinistas, quando, no mesmo dia, se registou o afundamento de seis(!) submarinos da frota da Marinha de Guerra alemã: um no Atlântico Norte (U-43), outro no Mediterrâneo (U-375), um terceiro no Atlântico Sul (U-591) e, sobretudo, três no Golfo da Biscaia (U-461, U-462 e U-504), estes últimos interceptados pela aviação aliada quando percorriam as rotas de aproximação aos portos franceses onde estavam baseados. Assentara-se que a melhor táctica para conter a ameaça naval representada pelos U-Boot era a de patrulhar incessantemente as serpentes junto aos ninhos que as albergavam. A denominada Batalha do Atlântico avaliava-se em duas vertentes. Por um lado, e para que os homens e o material continuassem a chegar à Europa, havia a necessidade de que os estaleiros navais dos Aliados construíssem navios mercantes numa tonelagem que superasse as perdas que os submarinos do Eixo fossem infligindo; mas por outro e em complemento, havia a necessidade de afundar os submarinos inimigos num ritmo que superasse a capacidade alemã de os construir, assim como a de treinar as respectivas tripulações (só 32% das tripulações somadas dos seis submarinos afundados naquele dia sobreviveram aos afundamentos e a maioria foi capturada). Neste último aspecto, o dia 30 de Julho de 1943 revelou-se um excelente dia para os Aliados.

29 julho 2018

A CRIAÇÃO DA NASA

29 de Julho de 1958. Há 60 anos o presidente Eisenhower assinava a legislação que criava uma nova autoridade que supervisionaria a partir daí todo o programa espacial civil dos Estados Unidos. Os acontecimentos que estão por detrás do início da Corrida Espacial (o lançamento pelos soviéticos do Sputnik 1 e 2) são conhecidos. A humilhação acirrada sentida pelos norte-americanos também. O que é menos recordado foi a constatação posterior que que uma boa causa para a ultrapassagem naquele campo pelos soviéticos se devera a uma péssima coordenação de esforços e a uma total dispersão de recursos entre os programas concorrentes de cada um dos três ramos das forças armadas: o Atlas da Força Aérea, o Redstone do Exército e o Vanguard da Marinha. A primeira reacção da administração foi a de optar pelo projecto da Marinha - quiçá por possuir um melhor lóbi... - e o resultado foi um fiasco, o que acentuou ainda mais a sensação de humilhação. O primeiro satélite artificial dos Estados Unidos foi lançado em 31 de Janeiro de 1958 pelo foguetão do Exército. Seis meses depois, a lição fora aprendida e a ideologia descartada. Projectos desta dimensão e complexidade era mais eficaz que fossem superiormente dirigidos ao bom estilo do centralismo e da planificação socialista, em vez da dinâmica da concorrência capitalista. Paradoxalmente, e para quem conheça os detalhes da corrida espacial que se irá disputar entre americanos e soviéticos durante a próxima dúzia de anos, até à chegada à Lua (abaixo), é mais fácil encontrar concorrência e disputas entre os diversos construtores associados ao programa espacial soviético - as rivalidades entre Korolev e Mishin e Chelomei, e entre o segundo e Glushko, por exemplo - do que entre aqueles que estavam sobre a égide da majestática e omnipotente NASA.

28 julho 2018

A CERIMÓNIA DE ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS DE AMSTERDÃO

28 de Julho de 1928. Há precisamente 90 anos tinham lugar as cerimónias da abertura dos jogos da IX olimpíada que se realizaram na cidade holandesa de Amsterdão. 2.883 atletas (dos quais 277 - 10% - eram mulheres), vindos de 46 países diferentes, iriam tomar parte nas 109 competições de 14 modalidades que iriam decorrer nos quinze dias seguintes, até 12 de Agosto. Mas o que interessará do episódio é a forma como foi então noticiado e o contraste com a actualidade. Os Jogos Olímpicos não tinham a projecção de hoje. O artigo que o Diário de Lisboa então dedica ao acontecimento aparece publicado apenas na página 5, embora com um certo desenvolvimento (abaixo). Como se perceberá pelo breve vídeo mais abaixo, a cerimónia, incluindo a parada das delegações e os milhares de atletas presentes, o acender da chama e os juramento olímpicos, já terá tido algo de verdadeiramente imponente.
E no entanto, omisso do noticiário, está o facto de a delegação francesa não ter desfilado, em protesto por um incidente que ocorrera no dia anterior, entre funcionários daquela delegação, que vinham em missão de reconhecimento, e um porteiro do estádio, que os impedira de entrar. Da confusão que se gerara, um dos funcionários acabara agredido na cara, e os franceses haviam exigido do comité organizador um pedido de desculpas (prestadas), assim como o despedimento imediato do conflituoso porteiro. No dia seguinte, aperceberam-se que o homem lá continuava... e a decisão de boicotar a cerimónia foi tomada. Uma decisão emotiva mas não considerada, já que os fez assistir, despeitados, à maior ovação da cerimónia que foi dispensada à delegação dos rivais alemães, que regressava pela primeira vez aos jogos, depois de, como vencidos da Grande Guerra, terem sido impedidos de participar nas duas olimpíadas anteriores (1920 e 1924). Fosse hoje e, mais do que uma notícia, toda a história do boicote francês teria sido o destaque do dia...

A NATO DAS ARÁBIAS


Sempre que Donald Yosemite Trump torna a insistir naquela ideia da NATO das Arábias lembro-me do que acontece com a NATO original mas sobretudo destes desenhos animados com o verdadeiro Yosemite Sam, especialmente a sua relação complicada com a domesticação do dromedário...

UM MUNDO DIRIGIDO(?) A «FLASHCARDS»?

Por esta vez, a expressão condoída de Jean-Claude Juncker nos jardins da Casa Branca não se deverá à ciática. A acreditar naquilo que veio a ser soprado ao Wall Street Journal por um anónimo «funcionário europeu» ( e depois posto a correr pelo resto dos media), terá sido extenuante o trabalho do presidente da comissão para explicar quais as posições europeias a Donald Trump recorrendo a flash cards híper coloridos e ultra simplificados - não mais de três números em cada cartão. Mas uma meras 48 horas depois do encontro já se torna evidente que o método pedagógico não resultou, quando Juncker se vê obrigado a contradizer afirmações posteriores de Trump aos seus agricultores. O acordo não foi bem um acordo, assim como já havia acontecido em Singapura, em Helsínquia, etc.
A diplomacia da era Trump está a tornar-se numa coisa previsivelmente reversível. E eu até percebo que os responsáveis em Washington DC tenham que se resignar a gerir este handicap de ter um presidente como Donald Trump, não sei se tão estupido quanto o descrevem, mas que é claramente ignorante, superficial e orgulhoso de o ser. Agora o que é ridículo são as tentativas de promover esse defeito a virtude, como se tem visto cada vez mais, Porque uma coisa, para ir buscar uma referência clássica à Antiguidade, é registar a existência dos imperadores loucos (casos de Calígula ou Nero), outra coisa é argumentar que os seus reinados foram vantajosos para a subsistência do Império Romano.

27 julho 2018

A ESPECULAÇÃO E A INDIGNAÇÃO

Subitamente, no espaço de menos de uma semana, ficámos a saber de dois espectaculares negócios de valorização imobiliária, envolvendo dois protagonistas bem apartados quando se pensa no seu posicionamento no espectro partidário: António Preto do PSD e Ricardo Robles do BE. Não vale a pena descrever os detalhes. E aceitemos pacificamente a coincidência. Mas, entre as indignações que se manifestaram e manifestam nas redes sociais, apreciemos como é proporcionalmente pequena a intersecção dos conjuntos daqueles que se mostram indignados com um e com outro negócio.

O RECONHECIMENTO DO DIREITO DOS POVOS ULTRAMARINOS À AUTODETERMINAÇÃO

27 de Julho de 1974. Em discurso rádio e teletransmitido ao país, publicado depois pela imprensa no mesmo dia (abaixo), o presidente António de Spínola reconhece «o direito dos povos dos territórios ultramarinos portugueses à autodeterminação, incluindo o imediato reconhecimento do seu direito à independência». A segunda parte da declaração, destinada a contemplar diplomaticamente a situação específica da Guiné (onde o PAIGC já declarara unilateralmente a independência do país em Setembro de 1973), acabou por abalroar a substância do reconhecimento.
Lendo o cabeçalho do jornal desse dia, com a transcrição integral do discurso, percebe-se que a fórmula do reconhecimento do direito à autodeterminação fora entendida como um mero preâmbulo protocolar para a concessão da independência. Autodeterminação e independência tornavam-se em sinónimos. Numa pequena entrevista de dois minutos e meio feita também nesse mesmo dia por José Carlos Megre a António de Spínola, o jornalista parte do mesmo pressuposto. A alusão do presidente a que uma parte das populações locais havia combatido do lado colonial, soa a despropositada.

26 julho 2018

O COMPORTAMENTO PADRÃO EM ALGUNS GRUPOS PARLAMENTARES FACE AOS DESENVOLVIMENTOS DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O estudo terá sido feito pela Lusa, mas a notícia li-a no Expresso, hierarquizando os deputados desta legislatura pelo seu comportamento mais desalinhado em relação ao sentido de voto do grupo parlamentar a que pertencem. A lista é encabeçada e dominada por deputados socialistas. Mas o que mais me interessou na notícia foi a constatação de que à sua esquerda o desalinhamento é raríssimo, no caso dos comunistas, ele é mesmo inexistente: não há qualquer registo de desalinhamento entre os seus 15 deputados nestes dois anos e meio de trabalhos parlamentares. Com o desenvolvimento acelerado que a inteligência artificial tem vindo a registar, acredita-se que a muito breve prazo existirão máquinas muito mais autónomas do que os nossos parlamentares comunistas.

A BATALHA DO RIO SAMICHON

26 de Julho de 1953. Fim da batalha do rio Samichon na Coreia. Esta batalha está longe de ter sido uma das batalhas mais importantes, simbólicas ou renhidas da hoje esquecidíssima Guerra da Coreia (1950-53). A situação táctica em que teve lugar é simples de descrever se nos socorrermos do mapa acima. O rio Samichon (assinalado a um azul muito claro) é um afluente da margem direita do muito mais importante rio Imjin (assinalado a um azul mais escuro). O vale do Samichon seria o corredor natural de progressão das tropas norte-coreanas e chinesas (setas vermelhas) no caso de elas conseguirem romper o dispositivo defensivo (a verde) que fora adoptado pelas tropas sul-coreanas e dos seus aliados ocidentais (na sua grande maioria tropas americanas). Na tentativa de obter essa ruptura, a batalha começara dois dias antes, a 24 de Julho, uma ofensiva desencadeada pela 137ª divisão chinesa, com a curiosidade de que uma parte da linha de defesa atacada era guarnecida por um batalhão australiano (as unidades restantes eram americanas) e de que uma unidade de artilharia que os apoiava ser neozelandesa. As características da ofensiva chinesa não se alteraram em relação à táctica que se viera a tornar tradicional naquele conflito: uma ofensiva nocturna (para neutralizar a superioridade aérea esmagadora do inimigo), uma preparação prévia de fogo de artilharia (sobretudo de morteiros) e vagas sucessivas de ataques de infantaria tentando submergir as posições inimigas pela superioridade maciça dos seus efectivos. A comparação das baixas sofridas pelas duas partes mostra o quanto, a esse respeito, aquela guerra era assimétrica.
Os americanos sofreram 43 mortos e 316 feridos; os australianos 5 mortos e 24 feridos; com as estimativas do número de mortos sofridos pelos chineses a cifrar-se entre os 2.000 a 3.000. Mesmo descontando o exagero destas estimativas, a desproporção entre os mortos do lado ocidental para os do inimigo, mesmo usando a estimativa mais cautelosa é de 1 para 40! Mas aquilo que é verdadeiramente impressionante nesta batalha é que ela foi a última da Guerra da Coreia. A batalha do rio Samichon cessou na véspera do dia da assinatura do Armistício - 27 de Julho de 1953 - que pôs fim às hostilidades. Era um acontecimento que estava previsto desde há dias (acima, a edição do Diário de Lisboa de há 65 anos) e que fora o culminar de um arrastadíssimo processo de negociações que durara mais de dois anos, onde houvera 575 reuniões em que - alguém estimou - se haviam trocado 18 milhões de palavras! Mas, para a parte chinesa não se punha o problema de correr o perigo de poder desfazer tudo o que se alcançara até aí e sacrificar mesmo 2.000 vidas para obter ainda, à última hora, uma pequena vantagem táctica adicional para a trazer para a mesa das negociações! Na verdade, no cômputo global e nos últimos meses, eles e os norte-coreanos haviam sofrido 72.000 baixas (dos quais 25.000 mortos) tentando fazer isso mesmo. As negociações na Coreia são tradicionalmente muito duras e inconclusivas e o problema da Coreia não se resolvem com coisas simples que se possam dizer em tweets, nem os tweets têm espaço para que se explique convenientemente porque é que essas simplicidades são um disparate...

25 julho 2018

UMA MANOBRA DE DIVERSÃO INFORMATIVA CLÁSSICA

O quadro acima é para começar a ser lido pelo centro, da direita para a esquerda e de baixo para cima. Começa-se pelas notícias mais antigas, as de há duas semanas (11 e 12 de Julho), em que se ficou a saber que o Antigo rei terá bens ocultos sob o nome do primo, que Juan Carlos terá usado amante para proteger a filha e que Técnicos do fisco pedem inquérito a Juan Carlos. Pelo conjunto percebia-se então que, à volta do antigo monarca espanhol se estaria a formar um remoinho mediático, remoinho esse que esta semana irrompeu como um tornado escandaloso: o assunto, agora já qualificado de crime, chegou ao parlamento espanhol (Parlamento debate alegados crimes de Juan Carlos). E no desenvolvimento de hoje, explica-se que o Rei emérito Juan Carlos deixou de ter imunidade. E a substância das acusações a Juan Carlos deve ser séria e fundamentada, porque o que se assiste em defesa do ex-monarca nesse mesmo terreno do mediatismo é a uma manobra de diversão das clássicas, agitando a questão do divórcio do filho, assunto com um bom potencial de substituir e obscurecer mediaticamente o anterior, conhecida que é a profunda antipatia gerada pela sua nora.

O SABOR ESSENCIAL DO SORVETE

Como explica o letreiro, aquele sabor não tem açúcar, nem ovo, nem lactose, é completamente vegan e nem tem calorias. Aqui para nós, também não deverá ter grande sabor, mas cumpre a sua missão de ser refrescante. Tal a sua pureza e os seus predicados, estará para os sorvetes como alguns dos posicionamentos políticos mais radicais, aqueles que resolvem os problemas da sociedade mas passando por cima daquilo que elas são. Imagino facilmente Francisco Louçã a comer um copinho daquilo...

24 julho 2018

UMA LINGUAGEM CORPORAL ELOQUENTE

Previne-se o leitor que não será preciso ver os vídeos na totalidade. Os primeiros minutos de cada um servirão perfeitamente para constatar o contraste da linguagem corporal de Vladimir Putin quando ele se encontrou há cinco anos com Barack Obama no âmbito de uma cimeira do G8 na Irlanda, e quando do encontro deste mês com Donald Trump na cimeira que os juntou na Finlândia.

Em qualquer dos dois casos, Vladimir Putin está a fazer a mesma coisa: um apanhado do teor das conversações que ele acabara de realizar com o seu homólogo norte-americano. Mas, mesmo que não se perceba directamente nada do seu discurso (em russo), a diferença da sua linguagem corporal pode perfeitamente substituir-se a essa incompreensão: desta última vez, Putin mostrava-se completamente à l'aise...

E, já agora, vale a pena recordar como a vida pode dar muitas voltas. Em 1995 era o presidente dos Estados Unidos (Bill Clinton) que se mostrava relaxado, bem humorado até, quando o seu homólogo russo (Boris Yeltsin, um alcoólico) fazia o mesmo apanhado do teor das conversações havidas. Era a época em que, por sua vez, nos Estados Unidos não se levava a liderança russa a sério e se apoiava a sua reeleição...

OS CÃES LADRAM E A CARAVANA PASSA, MAS...

...à entrada desta povoação chinesa(?) sempre afixaram um aviso aos caravaneiros.

23 julho 2018

A LÓGICA E A DESORDEM INTERNACIONAL

Pelas leis da Lógica (um ramo do saber que existe independentemente de quem ocupa a presidência dos Estados Unidos...), o encadeamento destas duas notícias, separadas apenas por 72 horas, teria despertado reacções, questionando sobre o que estaria a acontecer quanto à coordenação da política externa dos Estados Unidos em relação à questão da Coreia do Norte. O presidente diz que «não há pressa» e que as relações «são muito boas» enquanto o secretário de Estado exige da ONU a «plena aplicação das sanções»? Contudo, os media mal deram destaque ao assunto. Mais do que os habituais comentários dos especialistas de relações internacionais convidados para aparecer na televisão, esta «impunidade» é demonstração suficiente do desaparecimento de uma certa ordem internacional. As declarações e as atitudes dos protagonistas perderam consequência e coerência. E o fenómeno tem um nome. Apenas outras 72 horas passadas e, desta vez, Donald Trump parece estar muito zangado com o presidente do Irão...
O presidente iraniano não deve estar particularmente impressionado porque este género de bate bocas não são nada a que já não se tenha assistido (abaixo). E veja-se como agora o mesmo Trump considera que as relações com a Coreia do Norte «são muito boas»... e também como tudo continua essencialmente na mesma, tal qual o herdado de Barack Obama.

AS REDES SOCIAIS DE HÁ SETENTA E CINCO ANOS

23 de Julho de 1943. Numa página interior do Diário de Lisboa e sob o título de Vida Mundana, anunciavam-se os aniversários para o dia seguinte, qual facebook primitivo, embora com as regras específicas desses tempos de antanho: a) só se anunciavam aniversários de senhoras; b) mas não se anunciavam quanto anos as senhoras faziam; c) os nomes próprios das aniversariantes eram todos de classe (embora, no caso acima, se descortine uma Adosinda de ascendência um pouco suspeita...); e d) aos apelidos das aniversariantes anunciadas exigia-se soturnidade e patine (e onde uma pitada de estrangeiro nem cairia mal). Mas, descontando isso, o efeito da notícia era precisamente o mesmo do que o daqueles incentivos que o facebook de agora nos manda por ocasião dos aniversários alheios. Neste aspecto em concreto, o de se enviar parabéns uns aos outros, nunca a sociedade em geral terá sido tão simpática quanto agora.

22 julho 2018

«JERRY, JUST REMEMBER. IT'S NOT A LIE... IF YOU BELIEVE IT...»


Em 1995, quando foi transmitido originalmente, a frase em título era apenas uma punch line para rir, proferida pela personagem George Costanza, num dos episódios da popular série cómica Seinfeld. Mais de vinte anos depois a mesma frase tornou-se numa circunstância incontornável da vida política americana e... perdeu uma grande parte da piada... porque parece que se tornou verdade.

Por décadas a Opinião Publicada dos Estados Unidos considerara arrogantemente ele era a feitora da opinião pública. O Washington Post estivera na origem do derrube de Nixon e George Bush pai perdera a reeleição porque mentira descaradamente aos americanos. Mas, após o que aconteceu em Novembro de 2016, quando esse Opinião Publicada falhou em antecipar a eleição de Donald Trump, a atitude parece ter passado, rápida mas complexadamente, do oito para o oitenta. Agora, frustradamente, a mesma Opinião Publicada assume que nada daquilo que se possa noticiar sobre as asneiras de Trump terá consequências em mudanças da opinião pública. O «eleitorado de Donald Trump» é uma construção política nova, impenetrável, são pessoas que, municiadas pelo que sabem pela Fox News e relacionados, não mudam de opinião.

21 julho 2018

A PRISÃO DE RADOVAN KARADZIC

21 de Julho de 2008. Depois de ter desaparecido em 1995, as autoridades sérvias anunciam a captura do antigo dirigente da comunidade sérvia da Bósnia, Radovan Karadžić. O foragido de treze anos, sobre o qual pendiam graves acusações por crimes de guerra e genocídio formuladas pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia, vivia em Belgrado, com uma falsa identidade e uma aparência retocada (acima). A protecção passiva de uma dúzia de anos de que gozara, por parte dessas mesmas autoridades sérvias que agora anunciavam a sua captura, só terá desaparecido quando estas se terão apercebido que o arrastamento da situação apenas estaria a penalizar a aceitação da Sérvia entre a comunidade internacional. O julgamento de Karadžić, repleto de incidentes causados pelo réu, demorou quase oito anos. Conclui-se em Março de 2016 com a sua condenação a 40 anos de prisão (abaixo). Também vale a pena contar as histórias em que os culpados pagam pelos seus crimes.

20 julho 2018

A MORTE DE BRUCE LEE


20 de Julho de 1973. Morte precoce - aos 32 anos - daquele que viria a ser o actor de referência dos filmes de artes marciais, Bruce Lee. Como acontecera quase vinte anos antes com James Dean, a sua morte vai preceder a eclosão do seu sucesso, transformando o actor num mito, muito embora aqueles que virão a ser os seus admiradores (e do género) não sejam propriamente do mesmo tipo de sofisticação dos de Dean. Os filmes de karatê dos anos 70 têm um argumento linear, pouco trabalho de interpretação, mas uma coreografia muito própria. Sobretudo, a novidade para os espectadores do Ocidente em 1973 era que o herói era um chinês e a acção decorria num ambiente chinês, só com algumas (poucas) concessões à presença de ocidentais. No vídeo acima, o início do filme O Dragão Ataca, um filme póstumo de Lee, repare-se como a assistência ao combate se veste de cores distintas conforme o lado em que se senta, ou como Bruce vence o combate imaculado, sem que o seu adversário o atinja uma vez sequer*. Mas nota-se que as cenas do combate são depois aprimoradas na montagem, acelerando-lhe o ritmo e acrescentando-lhe efeitos sonoros, embora para alguns fãs do género tudo aquilo parecesse natural, aprecie-se este último vídeo do casting para um filme do género em que alguns candidatos fazem uma triste figura de si mesmos.

* Compare-se isso com a coreografia do combate no ringue de boxe em Rocky (1976). A partir daquela época evoluíram duas escolas de abordagem quanto ao que acontece com o herói quando anda à porrada: numa delas, descendente desta do karatê, com protagonistas como Steven Seagal ou Jean Claude Van Damme, o herói distribui sem nunca receber troco; na outra, a de Harrison Ford ou de Bruce Willis, o herói passa o filme a enfardar mas está sempre pronto para mais uma.

19 julho 2018

O PEQUENO LIVRO VERMELHO COM AS CITAÇÕES DO PRESIDENTE TRUMP

Mesmo que inspirado no do presidente Mao, este outro pequeno livro vermelho com as citações do presidente Trump distingue-se daquele que o inspirou por estar dividido numa primeira metade com citações... que são todas frontalmente desmentidas pelas da segunda parte do livro que se lê virando-o ao contrário. O trumpismo é isso mesmo: desdobrável em duas personalidades.

O BOMBARDEAMENTO DE ROMA

19 de Julho de 1943. Há 75 anos Roma era fortemente bombardeada pelos Aliados. Entre as várias razões pelas quais a cidade permanecera relativamente incólume durante os quase quatro primeiros anos que então já levava a Segunda Guerra Mundial - era apenas o segundo bombardeamento que sofria - destacar-se-ia, decerto, o seu simbolismo como capital da cristandade. A acrescer a esse aspecto mais espiritual, colocava-se o mais concreto de que uma pequena parcela de Roma (44 hectares) que até era um país neutral: o Vaticano. A decisão de bombardear Roma só fora tomada pelos altos comandos aliados depois de ponderadas hesitações. Mas a sua situação central na península italiana, como nódulo das ligações rodoviárias e ferroviárias entre o Norte e o Sul de Itália e ainda os seus aeroportos (Littorio, Ciampino) tornavam-na num objectivo táctico indispensável de atingir para prejudicar a logística inimiga (especialmente a alemã), ainda para mais quando se combatia no Sul, depois dos recentes desembarques aliados na Sicília. Dessa vez foram catorze as esquadrilhas de bombardeiros da USAAF a lançar cerca de mil toneladas de bombas sobre a cidade milenar. Como era constante durante a época, a precisão do bombardeamento... não teve nada de preciso. Ficaram destruídos incontáveis edifícios civis, incluindo a Basílica de São Lourenço Fora de Muros. O contagem dos mortos e feridos provocados pelas bombas varia desde um mínimo de 719 mortos e 1.659 feridos até um máximo de cerca de 3.000 mortos e 11.000 feridos. Aproveitando o hiato deixado por um regime fascista em vias de se desagregar (e Benito Mussolini estava, nesse dia, longe de Roma, num encontro com Adolf Hitler), o papa Pio XII preencheu o vácuo político assumindo as suas funções pastorais como Bispo de Roma, visitando e confortando as populações mais atingidas. Na imagem acima vêmo-lo recitando o «De Profundis». Em contraste, a limousine de Vítor Emanuel III, o rei, foi vaiada e apedrejada quando da sua visita aos bairros afectados.

BATALHA DE ALARCOS

19 de Julho de 1195. Reinava em Portugal Sancho, o Povoador, então homem maduro com 40 anos de idade. E em terras de Castela-a-Nova o seu homólogo de Castela, Alfonso VIII preferia afrontar isoladamente as forças almóadas do califa Abu Iúçufe Iacube naquela que viria a ser conhecida pela batalha de Alarcos. Seria um risco para os castelhanos, mas muito maiores seriam os despojos para o vencedor em caso de vitória, não tendo que os repartir com as outras monarquias cristãs peninsulares: Aragão, Leão e Portugal. Para ser diferente das ilustrações que, nesta época, nunca são de época, vale a pena acompanhar a batalha numa reconstituição através do traço e da imaginação de William Vance, o autor que retratou esta batalha em 1974 para a sua série medieval Ramiro.

18 julho 2018

COMO NO MONOPÓLIO, REGRESSAR À CASA PARTIDA E NEM RECEBER OS $200 A QUE TERIA DIREITO

Em balanço retrospectivo, o périplo de Donald Trump pela Europa foi mau. Até mesmo no aspecto mediático, que é aquele que, em última instância, a sua administração procura sempre salvaguardar. Se virmos o episódio na perspectiva de um jogo do monopólio, o périplo europeu foi como dar a volta ao tabuleiro, pagando alugueres em todas as casas onde se caiu e, no fim, nem se chega a receber os $200 quando do regresso à casa partida. E tudo isso por causa da bocarra de Trump, por ser estúpido, ignorante e indisciplinável. Começou por insultar a Alemanha e, durante a cimeira da NATO, tal foi a dureza das suas palavras que, como quem agarra com força demais um sabonete durante o banho e este lhe sai a voar disparado, os aliados reagiram em uníssono. Um susto diplomático, mas todas as implicações daquilo que ficou acordado parecem revelar-se indiferentes aos objectivos iniciais irrealistas que Trump anunciara. Depois, foi ao Reino Unido, provavelmente com a intenção de pavimentar um futuro acordo comercial com o mais firme aliado de sempre Estados Unidos, estando ele em vias de abandonar a União Europeia. E aconteceu-lhe dar uma entrevista onde criticava a anfitriã, a primeira-ministra Theresa May... Depois desdisse-se, e foi pior a emenda que o soneto, porque o jornal a quem a entrevista foi dada exibiu as gravações originais da entrevista. A visada, seguindo as regras da diplomacia, aceitou graciosamente as explicações e depois retribui-lhe proporcionalmente, mas sem qualquer comentário, mencionando uma das idiotices que Trump lhe sugerira como solução para o seu dilema político - processar a União Europeia! Ainda a bola dos disparates não batera no chão, e já o expedicionário se esmerara em mais uma calinada, desta vez elegendo a União Europeia como o primeiro inimigo dos Estados Unidos. Depois, tentou indirectamente emendar a mão, e correu mal. Mas aquilo que mais impacto negativo terá tido na frente política doméstica - a que verdadeiramente preocupa Trump - foi o encontro de Helsínquia entre os presidentes americano e russo. Sobre o que lá foi dito, houve um chorrilho de críticas, bem mais alargado no espectro partidário do que o que é costume (ouviram-se mesmo críticas na Fox News!), mas a reacção inicial de Trump foi a tradicional, desmentindo tudo. Mas algo deve ter sido entretanto devidamente sopesado nos ciclos próximos do presidente, para que ele viesse admitir, por uma vez, que se explicara mal - ou seja, tinha dito aquilo, mas não era bem aquilo que ele queria dizer... É interessante considerar que, se Donald Trump se tivesse deixado ficar por Washington DC e não tivesse ido a lado nenhum, estaria agora, ele, mas também o seu país, numa posição politica muito mais confortável do que aquela em que se encontra.