14 setembro 2019

A DUPLA DE PENSADORES

Portugal tem o privilégio de possuir no seu panorama audiovisual esta dupla de pensadores acima, os quais, com excepção da ornamentação capilar, se assemelham em quase tudo o resto. Observem-nos de mão no queixo, a amparar cabeças cansadas de tanto exercício... Ele é a mesma atitude sabichão-sabe-tudo-e-vai-nos-explicar e o mesmo estilo que esconde uma agenda política muito mal disfarçada sob uma capa - ténue - de tecnicidades. Valha a franqueza de reconhecer que as agendas não são bem as mesmas: o lobismo de um não coincide com o botifarrismo* do outro, mas a incongruência de ambos acaba por os reunir a fazer a mesma figura, porque se um é o general que nem sequer assentou praça, o outro é o empresário que nunca dirigiu uma empresa digna desse nome. Mas isso não impede que tenham ascendido ao estatuto de estrelas intelectuais do nosso panorama audiovisual onde até possuem o seu círculo de admiradores. Mas aí, torne a valer a franqueza,o problema não é deles: é dos admiradores. Como não evoluem em círculos concorrentes, até pode acontecer que não se considerem como rivais, mas não é descabido qualificar Camilo Lourenço como o Nuno Rogeiro dos carcanhóis ou Nuno Rogeiro como o Camilo Lourenço da BB-Gun** (abaixo).
* De botifarra: bota da tropa.
** BB-Gun é um dos vários géneros de réplicas de armas de brincar.

13 setembro 2019

A PONTE SOBRE O RIO KWAI

Um dos expedientes de que Boris Johnson se tem socorrido, neste tempos difíceis por que tem passado a governar o Reino Unido (em vias de se dissociar da União Europeia), é o de lançar foguetes com anúncios de projectos espampanantes, à espera que alguma imprensa acorra para ir apanhar as canas, e com isso aliviar a pressão política e mediática a que ele tem estado a ser submetido. É assim que o Channel 4 News teve acesso a documentos - imagine-se quem lhos facultou... - que demonstram que o actual governo britânico está a estudar a hipótese da construção de uma ponte que ligue a Escócia e a Irlanda do Norte! É um projecto que, de há algum tempo para cá, fascina o actual primeiro-ministro britânico e que, como se pode constatar num mapa, é uma obra ambiciosa,que terá de ter uma extensão mínima de uns 40 quilómetros. Claro que os custos do empreendimento são igualmente ambiciosos, estimados em 17 mil milhões de euros.
Ainda há menos de um ano, na China, inaugurou-se uma ponte com 55 quilómetros de extensão que, atravessando o Delta do Rio das Pérolas, faz a ligação entre Hong Kong, Zhuhai e Macau. É a maior ponte do Mundo, custou também 17 mil milhões de euros e demorou nove anos a ser construída. Em comparação, a ponte sobre o Mar da Irlanda acarinhada por Boris Johnson, pareceria ser um galvanizante desafio britânico à proeza da engenharia chinesa. Contudo, para complicar a vida ao primeiro-ministro, existe um certo consenso entre a classe dos engenheiros locais sobre a inexequibilidade da obra. Entusiasmo e garantias quanto à viabilidade da mesma, só mesmo os vindos de arquitectos ou de políticos unionistas da Irlanda do Norte. Reconheça-se que a argumentação dos engenheiros britânicos faz algum sentido: os mapas que acompanham estas argumentações raramente expressam as profundidades das massas de água que as pontes atravessam, e foi por isso que eu fui pesquisar à internet mapas que as exprimissem, porque é precisamente para esse aspecto que os engenheiros chamam a atenção.
Enquanto que a ponte na China foi edificada na foz de um rio, onde as profundidades raramente ultrapassam os 20 metros, a ponte que hipoteticamente viria a ligar a Escócia e a Irlanda teria que atravessar uma falha (o dique de Beaufort) onde as profundidades atingem os 200 a 300 metros(!). Não é bem a mesma coisa em termos de engenharia e de custos. E, para acrescentar ainda mais dificuldades à concretização do projecto, essa falha foi usada no passado para despejar munições e material radioactivo(!). Ou seja, por detrás das aparências e por debaixo das águas, apresentam-se dificuldades e riscos que tornam a promoção da ideia tão fantástica que chega a tornar-se insensata. Estes argumentos já por várias vezes foram brandidos, mas nada parece demover Boris Johnson. Apesar dos elogios que por cá lemos a respeito da sua formação em Estudos Clássicos, é nestas circunstâncias que se percebe que a sensibilidade de Boris Johnson quanto a problemas do foro científico, assuntos que imponham rigor, a sua prestação é muito fraquinha, graças a Deus.
O que é um handicap para qualquer primeiro-ministro, admita-se. Mas, porque toda esta história gira à volta da construção de uma ponte, embora a ponte venha a revelar-se o menos importante para o enquadramento geral em que a acção decorre, lembrei-me do tenente-coronel Nicholson, a personagem quintessencialmente britânica criada por Alec Guiness para o filme A Ponte do Rio Kwai. Lembrei-me dele porque, tal como Boris Johnson, o coronel está tão obcecado com aquilo que considera a sua missão, missão essa que ele aceita ser o melhor dadas as suas circunstâncias (do cativeiro), que Nicholson não chega a compreender o quadro mais vasto que o envolve. Quando, no fim, o coronel morre destruindo a ponte, e apesar de se perguntar o que é que fez (What have I done?) para mim ainda é equívoco se o faz deliberada ou acidentalmente. E é desta mesma forma trágica que eu vejo Boris Johnson num futuro próximo: daqui por meses, de uma forma ou doutra, ele vai conseguir o seu Brexit; só não garanto que, para já, queira estar consciente das consequências do que vai desencadear.

O SEGREDO ESTÁ NO FORMATO COMO NOS INDUZEM A PENSAR

A propósito do debate entre candidatos democratas que ontem teve lugar nos Estados Unidos, lembrei-me de ir recuperar este poste, já com 13 anos e meio, de um blogue das redondezas. Aborda a questão das eleições presidenciais americanas de 2008, quando elas estão ainda a dois anos e meio de distância. A conclusão, a de que John McCain era «o político mais bem colocado para suceder a George W. Bush como presidente dos EUA» é, observada a esta distância, ridiculamente cómica, quando conhecemos o desfecho das eleições. Mas mais interessante é constatar que as possibilidades de eleição de Barack Obama nem ali foram consideradas. Uma das maneiras mais eficazes de formatar a opinião pública consiste em formatar os cenários como as induzem a pensar, enquanto seleccionam as premissas do problema. No caso concreto acima, o leitor é convidado a pensar que, mesmo a mais de dois anos e meio das eleições, todos os candidatos relevantes para a disputa da eleição presidencial já são conhecidos. O que, como se constatou neste caso com Obama, é mentira. De notar, no último parágrafo, a preocupação recorrente na opinião publicada americana com o esquerdismo/radicalismo dos candidatos democratas, que é apontado sempre como óbice ao seu sucesso. E repare-se como, em contraste, para as eleições de 2016 quase não se deu por tão veemente argumento quando invocado em simetria em relação ao radicalismo/populismo republicano no caso de Donald Trump durante as primárias republicanas... Veja-se agora que, nos dias que correm, a conversa do esquerdismo excessivo foi transferida de Hillary Clinton para Bernie Sanders e Elizabeth Warren! Mas isso é levar estas coisas a sério, quando o que aconteceu ontem à noite na América foi apenas mais um show para televisão...

A FUNDAÇÃO DA CGT

13 de Setembro de 1919. Por ocasião da realização do II Congresso Operário em Coimbra, dá-se a fundação da Confederação Geral do Trabalho (CGT). Embora se preste a confusão, por causa da semelhança das siglas e de ambas serem (ou terem sido) confederações de sindicatos, a actual CGTP não tem qualquer relação com a CGT.

12 setembro 2019

A JUNÇÃO DAS DUAS INVASÕES

12 de Setembro de 1944. Tem lugar numa aldeia borgonhesa chamada Nod-sur-Seine (veja-se a sua localização no mapa abaixo) a junção entre as duas invasões que os Aliados haviam desencadeado em terras francesas: a muito mais famosa invasão desencadeada pelo desembarque da Normandia em 6 de Junho e a desencadeada pelo desembarque da Provença em 15 de Agosto. Teoricamente, aquelas unidades alemãs de ocupação que não se haviam apressado a retirar das posições que ocupavam em território francês estavam agora cercadas.
Não por acaso, as duas unidades que se encontram naquele local são francesas, pertencentes à 1ª Divisão da França Livre e à 2ª Divisão Blindada, assim como é francês o documentário acima que celebra o acontecimento. 75 anos depois, existe o monumento a assinalar o encontro, à borda da estrada nacional 71, para quem conheça o significado do que ali aconteceu e se dê ao incómodo de lá ir. Eu bem sei de quem acabou demonstrando predilecção por pilaretes do género daquele que se exibe acima, assim como por outros fenómenos que desabrocham em França à borda das estradas.

BOLTON

«But America has probably not heard the last of Mr Bolton, who is unlikely to replicate the dignified silences of Mr McMaster or James Mattis, an ousted defence secretary. Two years after leaving the second Bush administration, he cast a withering judgment on its decision to engage in limited diplomacy with North Korea. “Nothing can erase the ineffable sadness of an American presidency, like this one, in total intellectual collapse”. Little did he then know how much further things could go.»

(The Economist)

Mas a América possivelmente ainda não ouviu as últimas palavras de Bolton, já que é improvável que ele se resigne aos silêncios dignos do seu antecessor McMaster ou então de James Mattis, o secretário de defesa. Dois anos depois de Bolton ter deixado a segunda administração de George W. Bush, ele apreciava a decisão desta em se envolver numa iniciativa diplomática limitada com a Coreia do Norte dizendo: “Nada pode esconder a tristeza inefável de uma administração americana como esta, imersa num colapso intelectual total”. Mal sabia ele, então, até quão mais fundo as coisas poderiam ir.

11 setembro 2019

A CONVERSA DO COSTUME

É um exercício caricato, porém útil, comparar aquilo que nos contam agora a respeito da importância do pelouro de Elisa Ferreira com o que se dizia do pelouro atribuído há precisamente cinco anos a Carlos Moedas. A comunicação social portuguesa, quase sem excepção (e esta excepção agradou-me sobremaneira), embarca no discurso que se tratam sempre de pelouros importantes, aqueles que são atribuídos aos comissários indicados por Portugal. Costuma ser mentira. Mas o que torna o exercício ainda mais engraçado é esquadrinhar qual a composição das comissões, e descobrir que a importante pasta que agregava a Inovação, a Ciência e a Inovação, e que foi sobraçada até agora por Carlos Moedas, desapareceu, enquanto que a também muito importante pasta da Coesão e Reformas, que irá ser sobraçada por Elisa Ferreira, não existia na orgânica da comissão anterior. Moedas não tem sucessor(a); Elisa não tem antecessor(a).
Tudo isto nos leva, com pertinência, a questionar o significado e a importância desta coreografia das cadeiras da comissão, descontando alguns pelouros reconhecidamente cruciais. E que costumam ser entregues a gente de confiança. Por exemplo: Pierre Moscovici, que tinha sido até agora o comissário para os assuntos económicos e monetários, mas que tem desmerecido essa confiança. E é capaz de ser por isso que a comissária indicada pela França para lhe suceder (Sylvie Goulard) recebeu agora o aliciante desafio de tutelar... o mercado interno. Mas, descontando estes pormenores, mais do que pela substância e com o decorrer dos anos, a constituição das novas comissões parece pautar-se por uma criatividade inovadora na denominação das pastas, a mudar títulos mas não a orgânica da plataforma da burocracia bruxelense onde tudo assenta, e que nos fazem lembrar a inventividade de Pedro Santana Lopes a baptizar as pastas do seu governo aqui há muuuitos anos: quantos é que se lembram da expressão surpreendida de Paulo Portas ao ouvir que o seu ministério ficara também com a tutela do mar? Ele, que viera para a cerimónia sem fato de banho?...
Se Pedro Santana Lopes se lembrou naquela altura de baptizar uma pasta da Segurança Social, da Família e da Criança (deixando os idosos desprotegidos, acrescentaria eu...), Ursula van der Leyen entregou agora ao comissário grego o pelouro ingrato da Protecção do Modo de Vida Europeu. A sério: encaremos estas parvoíces da composição e dos pelouros da comissão europeia com a contenção que o assunto merece.

A NOVA CORRIDA LUNAR, LEMBRANDO A VELHA CORRIDA LUNAR

Se dúvidas houvesse, estas notícias, todas deste ano, mostram-nos que existe uma nova corrida à Lua, de que os anteriores concorrentes (Estados Unidos e Rússia) parecem ter sido dispensados. Há cerca de cinquenta anos, por ocasião dessa outra primeira corrida à Lua, estas pequenas histórias de Taka Takata traziam uma visão irónica e também cómica do fenómeno, para mais quando protagonizado pela que seria então considerada uma pequena potência na Astronáutica: o Japão. Os insucessos de Israel e agora da Índia são um lembrete do quanto naquela actividade se incrementam as probabilidades dos fracassos, quando ela é prosseguida nos formatos mais económicos.

10 setembro 2019

QUANDO AS «RAÍZES COMUNS» NÃO SERVEM PARA NADA

Desde John Kennedy que os americanos usam a carta na manga da ancestralidade irlandesa de uma apreciável proporção da sua população branca para, por ocasião das viagens dos seus presidentes à Europa, transmitirem uma imagem de partilha de raízes comuns e de simpatia que é nomeada e naturalmente ainda mais usada por ocasião das visitas à Irlanda. Quando, como aconteceu no mandato anterior de Barack Obama, a coisa não funciona com o presidente, avança o vice-presidente, como se pode constatar na notícia acima, de há três anos, da (dita) peregrinação de Joe Biden(s?) ao condado de Mayo para visitar a família. Por muito ingénua (de repetida) que a história seja, há sempre quem apareça, como noticiava o Irish Times em Junho de 2016, exibindo uma fotografia de irlandeses aguardando a chegada do primo. Haverá sempre quem apareça? Com Trump e as suas raízes alemãs, voltaram a evidenciar-se, numa operação parecida com a de Biden, as origens irlandesas de Mike Pence, o seu vice-presidente. Só que a visita deste último, que teve lugar em princípios deste mês, não correu nada bem. Em primeiro e principal lugar, porque o recado que Pence trazia de Trump, um endosso veemente ao Brexit e a Boris Johnson foi muito mal acolhido em Dublin. O Irish Times, que aqui acima embarca no romantismo da visita à família por Biden, diz agora de Mike Pence que se portou diplomaticamente tão mal que até parece que «ele cagou (sic) na carpete do hall das visitas». Em segundo lugar porque, ao alojar-se num hotel que o patrão (Trump) tem na Irlanda, teve que responder pelo racional de ali se ter alojado, apesar do hotel se situar a 290 km da capital(!), local onde iriam decorrer naturalmente os seus encontros. Em terceiro lugar, por fim, e o pretexto mais directo para este poste, porque as multidões previstas para o acolher primaram pela ausência, como se constata pelas imagens abaixo, de gradeamentos postados nos passeios e com os fotógrafos na expectativa... diante de uma paisagem deserta. Obviamente que ninguém dá grande cobertura noticiosa àquilo que não aconteceu mas, ao contrário do que acontecera com Joe Biden, a Irlanda profunda ter-se-á (reciprocamente...) cagado para Mike Pence.
Para os mais curiosos esclareça-se que estas eram as imediações de um restaurante de um parente longínquo de Mike Pence, situado num vilarejo obscuro da Irlanda. As imagens foram colhidas algum momentos antes da chegada do vice-presidente para ali jantar. Como comentava no seu tweet um repórter enviado para cobrir o (não) acontecimento: felizmente a gardai (polícia irlandesa) parece estar a conseguir lidar com as multidões.

FOGO «AMIGO»

10 de Setembro de 1939. Uma semana depois do início da guerra, a Royal Navy perde o seu primeiro submarino, o HMS Oxley (o primeiro da fotografia acima). Foi afundado... pelo HMS Triton, (abaixo) também da Royal Navy, que durante uma patrulha nocturna em alto mar o tomou por um U-Boot da Kriegsmarine, torpedeando-o. Morreram todos menos dois homens da tripulação (de 54) do Oxley. Estas primeiras semanas da guerra vão encontrar combatentes tão ansiosos quanto impreparados e, por causa disso, predispostos a disparar em qualquer circunstância. Quatro dias antes fora a RAF que registara as suas primeiras baixas num incidente semelhante, quando formações de Hurricanes (o primeiro da fotografia abaixo) e Spitfires se enfrentaram por engano sobre os céus de Inglaterra, e onde os segundos abateram dois Hurricanes, causando a morte de um piloto. Para completar o ridículo, a artilharia anti-aérea conseguiu abater um dos Spitfires... Quando de uma guerra em curso (seria o caso da guerra a decorrer no Leste, onde alemães e polacos se enfrentavam a sério), estes episódios embaraçosos conseguem ser disfarçados no quadro complexo das operações. Mas no caso do Ocidente, as hostilidades praticamente não existiam, e a justificação para tanto nervoso no gatilho era muito menos compreensível. Em Inglaterra, a batalha aérea de 6 de Setembro havia sido baptizada ironicamente de batalha de Barking Creek. Mas o afundamento do Oxley, atendendo ao elevado número de vítimas, foi completamente abafado quanto às verdadeiras causas. Só cerca de dez anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial é que se soube que fora afundado por um torpedo «amigo».

09 setembro 2019

«TIRAR A BARRIGA DE MISÉRIAS»

Páginas centrais da edição de 9 de Setembro de 1969 do Diário de Lisboa. Aproveitamento o relaxe da censura induzido pelos preparativos para as próximas eleições legislativas de 26 de Outubro, o vespertino lisboeta não esconde para onde vão as suas simpatias. A área colorida a amarelo são as notícias referentes às actividades da oposição, a pequena área sombreada a azul claro é a notícia que fala das actividades da União Nacional. Seria um momento de desforra para os jornalistas mas, para quem levasse as aparências a sério, até parecia que a oposição corria o risco de alcançar uma vitória esmagadora nas urnas! Cinquenta anos depois, ele há coisas que parece que não mudaram: a imprensa entusiasma-se a si mesma... e arrasta os leitores crédulos atrás de si.

08 setembro 2019

OS «TAROLAS» DAS REDES SOCIAIS - 2

Ainda a propósito de tais tarolas (e, mais uma vez, não os confundamos com estarolas), não deixa de ser engraçado apreciar o número de vezes em que eles se concertam no formato e tópico daquilo que publicam nas redes sociais, que se distingue somente pelos retoques artísticos de mensagens que acabam por ser substantivamente iguais. «O Marcelo é uma besta, o Rio também, e eles próprios não se estão a sentir lá muito bem.» Mas o que importará será a informação que aparece em rodapé, primordial para qualquer disputa entre um Gilvaz e um Fuas, exibindo-se para comparação o número de likes e outras expressões emoji, mais os comentários suscitados e as partilhas concordantes.

07 setembro 2019

A «OFENSIVA» DO SARRE

7 de Setembro de 1939. Grupos de reconhecimento pertencentes aos III, IV e V exércitos franceses atravessam a fronteira alemã a oeste dos Vosgos, em frente de Sarrelouis, de Sarrebrück e de Deux-Ponts. O objectivo da ofensiva é aliviar a Polónia, obrigando o exército alemão a voltar-se para a frente ocidental. Tudo não passa de uma magnífica encenação, destinada a alimentar a frente política interna francesa (e não só, leiam-se acima as notícias do dia em Portugal) e sem qualquer impacto nas operações a sério, a decorrer simultaneamente na Polónia. A farsa percebe-se pela comparação dos dois mapas, o de cima e o de baixo (detalhando e avaliando as operações), com a imprecisão e a escala do mapa do jornal a esconder a exiguidade do avanço pomposamente anunciado pela notícia que o acompanha. A resistência alemã destacou-se pela falta de empenho na defesa do solo pátrio, e a ofensiva francesa pela falta de empenho na dinâmica ofensiva para objectivos mais importantes.
Manda a verdade reconhecer que, pelos ritmos da Guerra de 1914, esta ofensiva ao quinto dia de mobilização é uma atitude respeitável dos franceses. Os exércitos concentravam-se por detrás das trincheiras e é só depois dessa concentração ter lugar é que, sob a indispensável cobertura da artilharia, se desencadeia a ofensiva. O ritmo da progressão também é o mesmo dos ritmos da guerra anterior: uma meia dúzia de quilómetros conquistados em território alemão (assinalados no mapa acima pela mancha às riscas). Tudo isto é ridiculamente pouco quando se justapõe à ferocidade como, ao mesmo tempo, se combate na Polónia. Em 1939 tudo mudara e muita gente ainda não percebera. E a caricatura bem se pode sintetizar nesta fotografia abaixo, de uns soldados franceses que se passeiam de mãos nos bolsos diante de uma pensão (entaipada) situada algures num vilarejo de fronteira do lado alemão, que eles acabaram, aguerridamente, de conquistar.
Quando por ali passei, aquela que viria a ser denominada (não apenas por esta ofensiva, mas por toda a atitude adoptada pelo alto comando franco-britânico) por «Paródia de Guerra», foi por mim celebrada com um «chocotat chaud aux menthe», tomado em Sarreguemines (ver mapa acima), em jeito de reforço de meio da manhã e que me soube como mais nenhum outro. Pensando ainda na Gasthaus da foto acima e no meu «deambular sem fronteiras», não poderia deixar de a associar à incrível banheira - um prodígio da tecnologia do banho! - que vim (viemos) a encontrar num estabelecimento equivalente num outro vilarejo mas da Alsácia, do lado francês da fronteira.   

06 setembro 2019

OS ESCÂNDALOS DE HÁ CINQUENTA ANOS QUE HOJE DEIXAM DE SER ESCANDALOSOS

6 de Setembro de 1969. O jornal francês L'Aurore publicava uma entrevista com Salazar onde o grande destaque era a revelação que o entrevistado - incapacitado desde há um ano por causa de um AVC que ocorrera na sequência de uma cirurgia - estava convencido de que ainda era o presidente do Conselho e que continuava a governar Portugal. Aos olhos do Mundo, a ditadura portuguesa aparecia exposta de uma forma caricata, os próximos do ditador aconchegando-o numa mise-en-scène de uma realidade virtual. Consequentemente, a repercussão da entrevista foi abafada pela censura, que cortou qualquer referência a ela na comunicação social em Portugal. Compreende-se: há cinquenta anos, ver-se um ex-ditador totalmente iludido na sua senilidade constituía um escândalo. Hoje, com o padrão de ilusões do discurso político que foi estabelecido nestes últimos anos por Donald Trump, tenho quase a certeza que já não o seria.

05 setembro 2019

OS PAÍSES MÉDIOS NÃO TÊM POLÍTICA EXTERNA AUTÓNOMA

5 de Setembro de 1944. A União Soviética declara guerra à Bulgária. Isso acontece apesar deste país, obrigado a orbitar na esfera da Alemanha durante o período de hegemonia germânica na Europa, ter tido o cuidado de nunca ter hostilizado a União Soviética, nem mesmo quando a Alemanha a invadiu em Junho de 1941. Outros aliados alemães, como a Roménia, a Hungria, a Finlândia, a Eslováquia, e até mesmo a Itália e a Espanha, chegaram a participar com contingentes militares seus combatendo na Frente Leste. A Bulgária, preventivamente e antecipando outros cenários que não apenas a vitória alemã, limitara-se a declarar guerra ao Reino Unido e aos Estados Unidos (e isso só em Dezembro de 1941), deixando um grande ponto de interrogação em cima da atitude para com a União Soviética e não enviara quaisquer tropas para combater na Rússia. Há 75 anos e ao contrário da sua vizinha Roménia a Bulgária sentia-se com direito a um tratamento diferenciado e mais leniente, agora que, no refluxo, ocorria a invasão da Europa de Leste pelos soviéticos. Descobria agora que não, que Moscovo se estava a marimbar para isso tudo. Os soviéticos não se iriam incomodar com subtilezas e agradecimentos e a declaração de guerra era tão somente o precedente legal justificador da invasão e ocupação militar da Bulgária que se seguiria. Na fotografia acima, búlgaros acolhem os libertadores russos - no cartaz lê-se "Glória Eterna ao Exército Vermelho". A glória não foi eterna mas durou uns bons 45 anos.

04 setembro 2019

O SEQUESTRO DO EMBAIXADOR AMERICANO NO BRASIL

4 de Setembro de 1969. Uma organização de guerrilha urbana da extrema-esquerda brasileira, que se autodenominava MR-8, sequestra o embaixador americano naquele país. Pela sua libertação exigiam - e obtiveram - a libertação de 15 militantes políticos presos pelas autoridades. A operação teve uma repercussão mundial - podemos apreciar a capa do Los Angeles Times e também parte das notícias do Diário de Lisboa; repare-se que, neste último, o assunto aparecia na primeira página e havia desenvolvimentos nas páginas 8, 9 e 20. Constituiu um enorme embaraço para o regime militar brasileiro que, por sinal, na altura, estava atrapalhado com a escolha de um novo homem forte para o encabeçar, depois de um AVC que incapacitara totalmente o general Costa e Silva alguns dias antes. Mas a tróica militar que o substituíra foi célere a decidir-se a não arriscar a vida de um diplomata americano e a aceder às exigências dos sequestradores. Porém, a situação não deixava de apresentar alguns aspectos curiosos:
a) O sequestro tivera lugar no Rio de Janeiro, porque o embaixador americano ainda lá residia, mesmo nove anos depois de a capital brasileira se ter transferido para Brasília.
b) Ao contrário do que é comum entre os embaixadores americanos, Charles Burke Elbrick, o sequestrado, era um diplomata de carreira. Por sinal, já ocupara aquele mesmo posto de embaixador em Lisboa (1959-63), daí a explicação de algum interesse acrescido da imprensa portuguesa no episódio e na sua sorte.
c) O regime militar brasileiro nunca escondera um certo desdém pelo amadorismo das organizações de guerrilha urbana que o enfrentava. Neste caso, a asserção confirmava-se: tantas eras as infiltrações que as autoridades rapidamente localizaram o paradeiro do refém.
Só que os militares não quiseram correr riscos com um refém daqueles e seguiram as instruções dos raptores até ao fim. Os militantes foram colocados num avião militar que os levou até ao México e o embaixador foi libertado junto ao estádio do Maracanã, à saída de um jogo de futebol, para que os raptores se dissimulassem no meio da multidão. Era intenção do regime militar dar à opinião pública a impressão que o episódio não passara de uma espécie de seriado com um desfecho feliz e é esse o aspecto da capa abaixo do jornal O Globo de 8 de Setembro. O embaixador estivera 78 horas em cativeiro. Apesar do aspecto de final feliz, este não foi o fim da história. O sucesso da operação foi apenas o início de uma moda brasileira, depois latino-americana, de raptar diplomatas à troca da libertação de militantes presos. Nos meses que se seguiram o cônsul do Japão em São Paulo (Março de 1970) e os embaixadores da Alemanha Federal (Junho de 1970) e da Suíça (Dezembro de 1970) vieram também a ser raptados e permutados de igual modo.
A cena inicial é uma reconstituição feita para o filme O que é isso, companheiro? (1997)

03 setembro 2019

O ÍNDICE DOW-JONES

3 de Setembro de 1929. O índice Dow-Jones atinge um apogeu de 381,17 pontos. Nessa altura, não o vai repetir, e muito menos ultrapassar, até ao Grande Crash de 1929 que aparecerá daí por dois meses. O índice vai regredir depois disso até a um mínimo de 41,22 pontos, atingidos na sessão de 8 de Julho de 1932. E só recuperará esses 381 pontos em 1954, quase dez anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Ou seja, e ironicamente, o período histórico em que os Estados Unidos gozaram de uma maior vantagem comparativa em relação aos seus rivais, não se reflectiu na opulência da sua bolsa de valores. Para contraste, ontem encerrou a ultrapassar ligeiramente os 26.400 pontos... (o gráfico pode enganar, pois é semi-logarítimico)

ALVALADE TEM MAIS ENCANTO NA HORA DA DESPEDIDA

Começo por confessar que considero o exercício de acompanhar as contratações e rescisões do plantel de uma equipa de futebol como um exercício e um esforço gratuitos. Estúpido mesmo. No vastíssimo leque de actividades imbecis e supérfluas a que se dedicam os profissionais da indústria conglomerada à volta do pontapé na bola, esta actividade é uma das que leva a palma da inutilidade. Ao ritmo a que se processam as contratações, rescisões, cedências e empréstimos, não há tempo (nem paciência, nem empenho) para que os adeptos fixem a constituição do plantel do seu próprio clube, quanto mais os dos adversários! As excepções a essa regra são poucas, constituídas normalmente pelas estrelas do plantel, e porque são transaccionadas por muitos milhões. É um assunto a que os produtores dão muita atenção (porque ocupa espaço de papel ou tempo de antena) e a que os consumidores não dão atenção nenhuma. Mas é isso que torna mais significativo eu ter tomado boa nota da chegada de Jefferson ao Sporting, a ponto de o querer homenagear nesta hora da despedida. Aquele jogador, que até foi contratado a um preço modesto, e ao contrário de centenas de outros, que dizem - quando dizem - todas aquelas banalidades no momento da assinatura do contrato, mostrou, mais do que por palavras, por actos que chegara a Alvalade cheio de gás. E isso fez toda a diferença: um sonoro traque, oportunamente largado na cerimónia de apresentação aos sócios há seis anos, enquanto Bruno de Carvalho falava, levou-o a uma popularidade no seu país de origem (Brasil), a que ele dificilmente poderia almejar se tivesse conseguido guardar o peido para o soltar em local mais discreto. Assim se vê como, neste mundo do futebol, um olho do cu incontinente consegue projectar a notoriedade de um jogador muito mais do que a sua disciplina táctica em campo. E fiquemo-nos por aqui, rindo do absurdo. Porque, se fosse para falar a sério, e ainda a propósito desta rescisão de Jefferson, apetecia-me perguntar que racionalidade económica e desportiva consegue explicar o facto de, ainda há quatro anos terem avaliado o jogador por 45 milhões de euros (é o valor da cláusula de rescisão do seu contrato) para agora o despejarem com proveito zero... Mas não é preciso responder. Trata-se apenas de um exercício em que pretendo demonstrar que (este) futebol é para escroques e estúpidos.

O «MARACANAZO» DA SELECÇÃO CHILENA

3 de Setembro de 1989. No estádio do Maracanã no Rio de Janeiro disputava-se um jogo entre as selecções do Brasil e do Chile. Aos 67 minutos de jogo, uma adepta brasileira disparou um very-light para o campo que foi cair junto, mas a alguma distância, do guarda-redes chileno. Em certas condições, o emprego daqueles engenhos pode provocar danos pessoais e mesmo fatalidades (como aconteceu em 2006 em Portugal), mas não foi, felizmente, o que aconteceu naquele caso. Isso não obstou a que o jogador chileno, Roberto Rojas, se aproveitasse da ocasião para encenar uma lesão, daquelas que são, infelizmente, costume no futebol. Pior, dadas as circunstâncias do que a causara, a lesão de Rojas tinha que parecer grave. E assim, para o parecer, teve que contar com a cumplicidade dos membros da sua equipa médica e, por inerência, dos responsáveis que representavam a selecção chilena naquele encontro. Os chilenos, que estavam a perder mas que precisavam de vencer o jogo, abandonaram o campo invocando falta de segurança, consubstanciada no que acontecera ao guarda redes da sua equipa. O vídeo acima mostra uma das inúmeras e detalhadas coberturas noticiosas dadas ao acontecimento pelos brasileiros, denunciando o que se percebia ter sido uma falcatrua óbvia, que, ainda por cima, acontecera à frente de milhares de pessoas. Mas a indignação não era apenas monopólio dos brasileiros: em Santiago do Chile, os torcedores chilenos vieram para a frente da embaixada do Brasil protestar, partindo as janelas do edifício. Em suma, como em quase tudo que mete futebol, a crise entre Brasil e Chile parecia exuberante mas não grave, embora a cena de Rojas depressa tivesse sido desmontada pela profusão de imagens existentes do acontecimento. Por uma vez, as sanções foram severas: Roberto Rojas, o protagonista, foi irradiado, mas também receberam penas o presidente da federação chilena de futebol, o treinador e o médico da selecção, mais uns verdugos da equipa técnica da selecção chilena, etc. Foi (semi)consolador constatar que não era apenas em Portugal que o futebol era controlado por pessoas que não tinham quaisquer escrúpulos.

02 setembro 2019

A MARCAÇÃO DAS ELEIÇÕES PROMETIDAS PELO MARCELISMO

2 de Setembro de 1969. Marcação oficial da data das eleições legislativas: até dia 26 de Outubro, com tudo o que acontecer até lá em termos de campanha eleitoral, tornar-se-á o verdadeiro teste prático da abertura política que vinha sendo proclamada desde a chegada ao poder de Marcelo Caetano, um ano antes. Hoje sabe-se que a política de abertura iria ter o mesmo tipo de concretização que a «Nova Política de Consultas» (notícia do lado) prometida por Richard Nixon aos seus aliados do Sudeste Asiático... Ainda sobre os tópicos dominantes da política nacional e internacional de há cinquenta anos, levavam-se muito a sério «as probabilidades de uma guerra sino-soviética»...

01 setembro 2019

ESTARÃO OS ÁUGURES FADADOS A SER SUBSTITUÍDOS (TAMBÉM) PELA «INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL» OU ADAPTAR-SE-ÃO MAIS UMA VEZ?

Se os adivinhos da Antiguidade se assumiam em toda a sua esplendorosa aldrabice, como muito bem recordou Goscinny no seu álbum O Adivinho de 1972 (acima), os oráculos, profetas, ou arúspices da Modernidade, disfarçam-se. O que perdura e que faz a ligação entre os antigos e os modernos é o obrigatório aspecto respeitável do protagonista (a idade ajuda), a impenetrabilidade do processo que conduz às conclusões (às vezes essa impenetrabilidade esconde-se por detrás de uma multiplicação desnecessária de palavras) e a ambiguidade da mensagem. E claro, a complacência do auditório, que normalmente está mais propenso a lembrar-se dos sucessos do que dos insucessos. As tecnologias do século XXI podem estar a dar cabo deste último aspecto.
Tomemos a afirmação, peremptória, deste opinador do Observador e do seu artigo de hoje. Mário Pinto tem 88 anos e, se calhar, devia resguardar-se mais. Não sei se terá chegado a aperceber-se das potencialidades das novas tecnologias em facilitar a detecção das contradições das opiniões que dá com as que deu no passado. Neste caso concreto, em que o jornal até é o mesmo, a importância da economia que agora, Setembro de 2019, não "é obra" deste governo, em Maio de 2015 era objecto de um tratamento assaz distinto - e, não por acaso, naquela época o governo até era outro. Mais do que isso, a questão da economia, que nessa altura não se percebia ser obra de quem (talvez por não apresentar resultados particularmente concludentes), alegadamente funcionava "como uma voz da direita contra a política de esquerda". As pessoas aos 88 anos deveriam conter-se e escrever coisas tão sábias quanto inócuas, resistentes aos testes de coerência, como fora privilégio dos áugures do antigamente. Mas não. Ignorantes quanto às capacidades inquisitivas de uma mera pesquisa no Google, parece que ainda precisam de se expor e fazer figuras tendenciosas como as do artigo acima, equiparando-se àqueles paineleiros dos serões futebolísticos da TV Cabo, em que adoptam critérios de julgamento completamente díspares, conforme a grande área onde a jogada decorre.
Note-se que eu concebo várias razões, algumas delas válidas, para que a evolução da economia não seja levada a crédito das políticas governamentais. Mas são razões a tomar em conta em todas as circunstâncias. Não se pode renegá-las quando a evolução é positiva, o governo é de esquerda e estamos deste lado do Atlântico como Mário Pinto, e aceitá-las quando a evolução é negativa, e o governo de direita, e/ou estamos na América.

DIAS QUE FORAM MUITO RICOS DO PONTO DE VISTA NOTICIOSO

1 de Setembro de 1939. Há dias que são naturalmente muito ricos do ponto de vista noticioso. Há 80 anos, o Diário de Lisboa publicou três edições nessa Sexta-Feira em que, como se pode apreciar acima, as primeiras páginas são completamente distintas para cada edição. Também não é todos os dias que se configura a eclosão de um conflito mundial, mas comparemos o que aconteceu naquele dia com as modernices daqueles repórteres que costumam ir agora para cima dos acontecimentos encher chouriços, a tentar comunicar com uma audiência habituada aos chouriços e entediada por eles (repórteres e chouriços).

31 agosto 2019

POSES POUCO MARCIAIS

São fotografias de soldados no seu tempo livre, datam ambas de 1969 e a pose dos fotografados não vai muito de acordo com aquilo que se esperaria de fotografias de propaganda, exibindo-os garbosos e marciais. Os da fotografia colorida da esquerda são italianos, estão em Milão, e conhece-se o autor da fotografia: Bruce Thomas. Cada um dos militares sentados no banco usa a boina ao seu estilo, as calças estão zangadas com os sapatos o que permite perceber que no exército italiano as cores das peúgas do uniforme são um opcional. O uso da gravata também. Se os dois italianos se limitam a fumar o seu cigarro, o fuzileiro português da fotografia da direita parece ser mais pró-activo na maneira como se escolhe divertir. Carregado num carrinho de mão, o carregador dá-nos a pista que a fotografia foi tomada algures em África, mais precisamente no norte de Angola. O autor desta outra fotografia, a preto e branco, seria menos pretensioso, e a sua identidade perdeu-se. Também o facto de o militar estar destacado e em zona de guerra merecer-nos-á maior complacência quanto à sua pose, mas o conjunto é-nos, igualmente, pouco simpático.

30 agosto 2019

OS «TAROLAS» DAS REDES SOCIAIS

Tarola é um pequeno tambor que soa claro mas cujo rufar não se ouve muito longe. Não confundir com estarola.
Os tarolas das redes sociais são uns indivíduos que se atribuíram para si o papel de defensores do legado de Pedro Passos Coelho, confiantes que ele, como um dom Sebastião do século XXI, há de regressar um dia. Os tarolas despendem ⅓ do seu tempo (e atenções) em arriar em António Costa, o malabarista que engendrou a espúria geringonça, mas os mais substantivos ⅔ da sua verve crítica concentram-se em Rui Rio, o usurpador, que não sabe fazer a oposição rábica ao primeiro como eles acham que devia ser feita. Portanto, não se percebe muito bem o que é que eles querem. Mas percebe-se muito bem de quem não gostam. Ontem, por exemplo, ficaram furibundos (acima) porque Carlos Moedas, que criara a reputação de ter sido um indefectível da confraria de Passos Coelho (abaixo), se deixou fotografar abraçado feliz a António Costa, como se se tratasse de uma cena final de um filme de Hollywood.
Há coisas que têm mais piada por acontecerem a quem acontecem. Os tarolas, considerando-se príncipes da lucidez e do maquiavelismo político em tudo o que publicam, que nunca são apanhados a dormir nas suas análises políticas e julgamentos de carácter, aparentemente não tinham dado até aqui por um daqueles mariolas que, tendo sido de outras senhoras (abaixo, vêmo-lo a apoiar Paulo Rangel contra Passos Coelho nas eleições internas do PSD em 2010), foi entre 2011 e 2015 da senhora de que os tarolas gostam tanto, passou desde 2016 a ser desta, e ainda há de querer ser da próxima - ele é (considera-se, pelo menos...) polifacetado! Por uma vez, tenho pena que aquela parelha ali de cima mais as suas publicações de facebook, e outros parecidos com eles, sejam uns tarolas, e que o seu rufar encornado e moralista não se ouça para lá das redes sociais.

29 agosto 2019

O MASSACRE DO VALE DE SAULX

29 de Agosto de 1944. Eu tenho receio que a evocação repetida de massacres perpetrados pelos alemães em França de que agora se comemore o 75º aniversário acabe por os banalizar. Já aqui evoquei este ano o mais famoso (e sangrento) de todos, o de Oradour-sur-Glane, e ainda há três dias referi aqui, ainda que en passant, o de Maillé. Mas alguém mo incentivou a fazê-lo. Talvez por já ter partilhado comigo o interesse de ter visitado alguns dos locais onde eles ocorreram. Este massacre de 29 de Agosto de 1944 ocorreu em quatro aldeias do vale do rio Saulx. Na sua origem o mesmo que aqui se contou a respeito dos outros: acções de resistência contra as tropas ocupantes alemães que causaram baixas entre elas e que originaram uma reacção desproporcionada destas. Neste caso, elas vieram a custar a vida a 86 civis.  O episódio é conhecido só dos franceses e, mesmo desses, poucos. Há uns memoriais a assinalar o acontecimento nas aldeias em que ocorreram. Só que, como estamos sempre a aprender, há dois anos eu não sabia nada disso, quando estive(mos) lá por perto, percorrendo a via sacra (logística) que abastecia Verdun durante a Grande Guerra, partindo de Bar-le-Duc, onde nunca é demais recomendar um restaurante sobranceiro à cidade, onde se  tem  uma vista espectacular sobre a mesma e umas moscas com noções de etiqueta e boas maneiras. Podíamos lá ter ido (veja-se o mapa abaixo), mas tinha colocado o chip da outra Guerra Mundial e a ignorância tem o seu preço.

MAIS DEPRESSA SE APANHA UM COXO DO QUE UM MENTIROSO

Os portugueses não se conseguem esquecer de como em 2011 foram massacradas com a mensagem de que a subida da yield dos títulos da sua dívida pública fora da sua responsabilidade colectiva, porque haviam vivido acima das suas possibilidades. Olhando em volta para os seus outros parceiros europeus, o panorama era claro e a explicação transparente, porque os mercados insistiam em atacar especificamente os países perdulários, como a Grécia, Portugal, a Irlanda, todos resgatados, a que se seguiria inexoravelmente a Espanha, a Itália, se não se fizesse nada. As razões eram específicas e da responsabilidade dos países que, com a sua incúria, haviam causado tal crise e agora pagavam o preço disso.
Entretanto, passaram-se um punhado de anos. Os países faltosos foram ultrapassando as suas crises como puderam, de forma mais canónica (Passos Coelho), de forma menos canónica (Alexis Tsipras). A esses já se sucederam outros (Costa, Mitsotákis). E o panorama do mercado das yields das dívidas públicas acalmou substancialmente: a da Grécia a 10 anos, que chegou a ser transaccionada a 40% em princípios de 2012, cotou-se ontem em valores próximos de uns triviais 1,8%. Mas aquilo que outrora era causado pelo demérito dos países em causa (o tal viver-se acima das possibilidades), agora, quando em sentido inverso, não se deve à especificidade e ao mérito dos países em causa, mas antes «às tendências gerais que fazem com que as yields tenham vindo a cair nos países da zona Euro». Ou seja, a explicação que agora nos querem impingir é que neste caso das dívidas públicas quando as taxas se agravam a culpa é do devedor; quando melhoram a causa deve-se aos mercados. Mas aquele que me leu até aqui não tente ver esta incoerência a ser aflorada sequer no Observador...

28 agosto 2019

ESTAVA, LINDO PEDRO, POSTO EM SOSSEGO (diria Camões)...

...quando lhe apeteceu, desta vez, ser ele a chegar ao aeroporto para roubar a atenção que se estava a prestar aos outros...
Imagine-se agora qual seria a amplitude da cobertura noticiosa se fosse o Gil Garcia a promover esta mesma palhaçada à porta da ERC.

PARIS LIBERTADA

Não conheço o autor da fotografia mas é assim que a vejo à Paris Libertada de há 75 anos, uma imagem despojada de todos os atributos subliminares que as Histórias de um e outro lado pretenderão impor, entre uma Paris insurrecta que se libertou sozinha do jugo alemão e uma Paris volúvel que ainda quatro meses antes juntava as mesmas multidões entusiasmadas para aplaudir os outros. Nesta fotografia apenas se vê a Torre Eiffel e um jeep (viatura simbólica da Segunda Guerra Mundial) na sua base, este ocupado por um punhado de GIs que a admiram, à estrutura de 324 metros que simboliza a cidade. No cimo, distingue-se a tricolor. Os homens parecem apreciar uma pausa na guerra que ainda não acabara.

27 agosto 2019

COMO A METEOROLOGIA PODE SER UMA CIÊNCIA POLITICAMENTE LOCALIZADA

Desta vez as inundações ocorreram em Madrid e por isso aquilo que a comunicação social portuguesa diz a respeito do assunto fica-se pela captação das imagens. Mas se a tempestade, o granizo e as inundações tivessem ocorrido em Lisboa, como aconteceu há 5 anos, então é garantido que o desenvolvimento jornalístico do assunto pela nossa informação doméstica teria sido completamente outro. É engraçado como, consultando tanto o que o ABC como o El Pais publicaram para já sobre o assunto, nenhum desses dois jornais que se opõem entre si no espectro partidário espanhol, tenha começado a atirar as bolas de granizo da responsabilização aos alcaides das localidades mais atingidas. Mas isso deve ser porque em Espanha eles não usufruem da excelência da objectividade da nossa comunicação social. Aqui o Medina já estaria a enfardar, pretexto indispensável para arriar no Costa.