03 agosto 2020

A CURA DE ÁGUAS DO SENHOR DIRECTOR

3 de Agosto de 1950. Já aqui me havia referido anteriormente a situações em que aquilo que acontecia ao director do Diário de Lisboa se podia revestir de importância de primeira página naquele jornal. O que se tornava supimpamente ridículo. Nessa outra altura, a 4 de Maio de 1943, o sr. dr. Joaquim Manso fora vítima de um acidente quando, «ao passar na rua Nova do Almada, escorregara, caíra, desamparado, pelo que recebera uma funda incisão na região superciliar», conforme se podia ler na notícia de primeira página do jornal que tão superiormente dirigia. Sete anos transcorridos, as razões que o faziam reaparecer na primeira página do jornal eram ainda (acessoriamente) de saúde, mas felizmente não tão graves: o director da publicação estivera numa cura de águas em Mondariz, na Galiza, e a notícia, de primeira página, é sobre o banquete de despedida que alguns compatriotas terão organizado em sua homenagem... Mas o melhor nestas coisas é sempre reproduzir o original: «Regressou de Mondaris (sic), onde fez a sua habitual cura de águas, o sr. dr. Joaquim Manso, director do «Diário de Lisboa». No último dia da sua estadia, um grupo escolhido de portugueses ofereceu-lhe, na maior intimidade, um banquete a que assistiram também algumas gentis senhoras. No momento dos brindes, falaram, brilhantemente, os srs. dr. Adriano Pires e o sr. Major Castelino Pais que tiveram para com o homenageado palavras de muito apreço. O nosso director agradeceu, frisando o seu reconhecimento por uma tão espontânea manifestação de simpatia.» As minha considerações a respeito dos brindes que saudaram o fim da cura de águas do senhor director serão mais compreensivas do que o exemplo anterior, em que a sua «incisão na região superciliar», trágica, ombreava com o drama de 63 navios afundados no mês anterior pelos submarinos alemães, mas, de toda a forma e mesmo compreendendo-se que Agosto é sempre um mês pobre em notícias: era mesmo necessário o destaque?...

02 agosto 2020

O PRIMEIRO «SPLASH» DEPOIS DE 45 ANOS

Acabei de assistir em directo à amaragem da cápsula da SpaceX (acima). Desta vez e com uma melhor acuidade informativa, já houve jornais que se dispensaram de classificar o acontecimento de histórico e que até mencionaram que o episódio é uma reencenação de acontecimentos que tiveram lugar por repetidas vezes durante as décadas de 60 e 70, embora o facto não seja apresentado propriamente dessa maneira... O que esses jornais dizem é que a última vez que uma amaragem de uma cápsula teve lugar foi há 45 anos. É verdade, por sinal eu assisti a essa amaragem de há 45 anos, deu-se em 24 de Julho de 1975 (veja-se abaixo, do lado direito, a programação de TV para esse dia, com o directo em destaque). Confesso que hoje me deu uma certa nostalgia desses momentos. Vale a pena acrescentar que assisti a essa transmissão com uma atitude francamente irritada com os comentários produzidos pela RTP. Eu passo a explicar: a amaragem da Apollo ocorria no quadro do único voo - esse sim, histórico - conjunto entre uma nave tripulada americana Apollo e uma nave tripulada soviética Soyuz. O propósito principal da missão era mais político do que verdadeiramente científico, procurando simbolizar uma nova atitude reciprocamente mais amena entre as duas superpotências. E o que me irritava era que a locução da RTP, antes pelo contrário, não se mostrava nada integrada nesse espírito conciliador. Por um lado, quiçá por estar plenamente integrada no espírito do Processo Revolucionário em Curso, haviam arranjado um novo comentador, que os dois tradicionais que a estação sempre usara para apresentarem aquele tema, José Mensurado e Eurico da Fonseca, haviam sido afastados, talvez por serem fascistas. Depois, porque o seu comentário era de uma parcialidade estúpida. Não havia outra maneira de a qualificar: estúpida. Depois de, três dias antes, a 21 de Julho, o comentador/camarada ter passado a transmissão (também em directo) da aterragem da Soyuz a tecer elogios rasgados à tecnologia soviética (abaixo, à esquerda), agora era ouvi-lo a criticar a tecnologia americana com um despropósito duplamente inaceitável - em termos técnicos (afinal, os Estados Unidos haviam ganho a corrida espacial para a Lua!) e em termos do espírito não competitivo que enformara aquela missão conjunta. Por isso, ao ver aquele splashdown da SpaceX de hoje, fui subitamente transportado para outros tempos e para outros disparates, felizmente esquecidos, como esquecido está, aliás, o nome do cientista-comentador-camarada, que devia ser tão competente em astronáutica quanto a Rita Rato o promete ser a dirigir museus... Aliás, simbólico da parcialidade de como a comunicação social portuguesa acompanhava o assunto, o Diário de Lisboa noticiava a 21 de Julho o regresso à Terra da Soyuz nos termos documentados na imagem abaixo (ao centro - com 1ª página e desenvolvimento no interior), enquanto a edição do dia 24 de Julho não dizia uma palavra que fosse sobre o regresso da Apollo... Neste caso e para bom entendedor, mais do que meia palavra, a ausência delas basta...

A INVASÃO DO KOWEIT

2 de Agosto de 1990. O Iraque invade o Koweit. Do ponto de vista militar, a disparidade das forças em presença não oferece dúvidas quanto ao desfecho: em 48 horas os iraquianos conquistarão o emirado. Do ponto de vista das lições históricas da diplomacia, este é um daqueles exemplos de que nem sempre vale a pena «amansar uma fera»: o Koweit fora um grande aliado do Iraque na guerra que este travara com o Irão entre 1980 e 1988 e a paga que agora recebia era a invasão. Do ponto de vista da estratégia, e recordando aquele tempo em que os Estados Unidos tinham a pretensão e o poder de supervisionar o que era tolerável e o que o não era nos status quo internacional, o que o Iraque fizera não era tolerável. Se fosse hoje, quando é conhecida a propensão do inquilino da Casa Branca para se axandrar diante de homólogos de atitudes másculas e robustas (do género de Putin ou de Erdogan), não se poder descartar que o primeiro problema da América seria convencer Donald Trump a assumir uma reacção consequente, não fosse ele ter ficado impressionado com Saddam Hussein por causa do que ele tinha acabado de fazer.

01 agosto 2020

QUEM OS (OU)VIU E QUEM AINDA TEM PACIÊNCIA PARA OS (OU)«VER»

Eu já fui um admirador destas tertúlias patrocinadas pelo Observador intituladas Conversas à Quinta. Aliás, fui um seu admirador desde o princípio, de uma admiração que até dei nota na altura (Julho de 2014). Uma admiração que, vim depois a descobrir depois, se alicerçava em pressupostos errados: a de que o programa evoluiria à volta dos comentários de dois convidados com uma cultura sólida (mais sólida a de Jaime Gama, mais presa com arames a de Jaime Nogueira Pinto...), e com o programa a ser orientado pelo anfitrião José Manuel Fernandes. Só que, o que eu não contava é que este último tinha ambições de ser muito mais do que um Carlos Andrade da Quadratura do Círculo ou um qualquer outro moderador de um programa desse mesmo género. José Manuel Fernandes queria apoiar-se nos ombros dos colegas de programa para saltar para a ribalta do reconhecimento intelectual. O preço da promoção do ego do publisher do Observador não tardou a tornar-se notório através da multiplicação das calinadas por si protagonizadas, que eu também fui dando conta, episodicamente, aqui no blogue, (Abril de 2015). Mais do que isso, provavelmente devido ao desequilíbrio (intelectual) das forças em presença, a intervenção dos presentes, sobretudo Gama e Nogueira Pinto, tornou-se cada vez mais compartimentada e alheia à opinião adjacente: o programa, ocasionalmente interessante, assumira-se como um encadeado de monólogos, o de Fernandes normalmente penoso de medíocre (Novembro de 2015). Tornei-me um espectador cada vez mais irregular (Março de 2017) até o deixar de ser de todo. Até esta promoção abaixo na página do jornal me ter chamado a atenção há dois ou três dias...
...é que um pouco antes disso, e a respeito dos problemas políticos, de sustentabilidade e legitimidade com que se confronta o monarca espanhol Filipe VI, eu assinalara a propósito do exemplo de há 70 anos de Leopoldo III da Bélgica, que um rei, mesmo que legitimidado por uma maioria do eleitorado, quando é detestado ostensivamente por uma apreciável minoria dos seus súbditos, não tem condições para continuar desempenhar as funções que se lhe exigem, mormente num país propenso a fracturas internas. Filipe VI pode continuar a ser rei de uma Espanha que não inclua a Catalunha, ou então, se a Espanha quer continuar a incluir a Catalunha, Filipe VI só lá está a atrapalhar. O rei de Espanha não pode ir à segunda cidade do seu país acompanhado de um dispositivo policial de quem está em país conquistado. E, por outro lado, não pode deixar de lá ir: durante décadas Isabel II não se atreveu a pôr os pés em Belfast sob pena de ser mal recebida pelos seus súbditos católicos, mas a Catalunha não é um Ulster remoto de Espanha. Apresentado como o faz acima, em jeito de denúncia de escândalo de costumes, eu nem quis ouvir o que os protagonistas das Conversas à Quinta teriam para dizer de inovador a respeito do dilema da monarquia espanhola. De escândalos há muito que a monarquia espanhola está servida, não nos esqueçamos que o rei de Espanha tem um cunhado na prisão, sítio onde ainda não é garantido que Ricardo Salgado vá visitar. A putativa ruptura de Filipe VI com o pai João Carlos é que me parece uma forma, para o dizer francamente, bastante estúpida de enquadrar o tópico. Fica assim a meio caminho, entre os problemas sérios de Espanha e os enredos dos artigos da revista ¡Hola! O que há para dizer sobre a monarquia espanhola é muito mais do que um enredo simples e maniqueísta, onde um rei bom se compara a um ex-rei mau (que, por sinal, já gozou de uma excelente imagem pública e já também foi um rei bom). Um rei ou serve ou não serve: há ocasiões em que, como aconteceu com Leopoldo III, a figura do rei serve, a pessoa daquele rei em particular, não serve. As dificuldades pessoais de Filipe VI devem-se a si próprio, ao comportamento que adoptou quando da crise na Catalunha, quando se mostrou sobretudo rei de Castela e se esqueceu de ser rei de Aragão (ora aqui está uma tirada que qualquer dos Jaimes poderia ter dito durante o programa...). Mas o programa degenerou nisto...

«A TELEVISÃO DOMINARÁ AS ELEIÇÕES»

1 de Agosto de 1960. Uma notícia introdutória sobre quem seria o candidato democrático à presidência dos Estados Unidos, o então mais ou menos desconhecido senador John Kennedy do Massachussetts, termina de uma forma particularmente profética, sob a antevisão que «a televisão dominará as eleições». Dominará esta e dominará todas as outras que se lhe seguirão. O primeiro dos debates, então denominados por «discussões televisionadas» virá a ter lugar em 26 de Setembro e ficará histórico por se tratar de uma nova forma de comunicar com o eleitorado. Abaixo, pode ver-se que os dois candidatos acordaram em fazer declarações prévias com uma duração de oito minutos(...). O aperfeiçoamento da comunicação televisiva fez descobrir que oito minutos afinal representam uma eternidade em televisão: o telespectador médio não retém quase nada do que foi dito para trás, em contrapartida retém muito melhor o que vê, e a imagem abaixo de John Kennedy, a começar pelo fato que envergava, que tirava muito mais partido da paleta de cinzentos da imagem de uma televisão a preto e branco, essa imagem de Kennedy, escrevia, é muito mais pensada e cativante do que a de Richard Nixon. Depois há a linguagem corporal, o modo como se sentam, as pernas assimétricas de Nixon versus as cruzadas de Kennedy. Este começava com vantagem e ainda nada fora dito. E depois ainda há a questão de os intervenientes se dirigirem primariamente às câmaras, numa conversa triangular com ausentes, não para falarem uns com os outros, contestando-se, contradizendo-se, desmentindo-se, o que permite que, em ambientes aconchegados, haja quem diga as maiores patranhas sem medo de serem contraditados. A propósito precisamente de patranhas desavergonhadas e deste debate Kennedy-Nixon, José Sócrates conseguiu inventar que o tinha acompanhado... quando na época Sócrates tinha apenas três anos de idade.

31 julho 2020

COMO COMBATER INCÊNDIOS COM BEBIDAS ALCOÓLICAS

31 de Julho de 1820. A meio da noite declara-se um fogo num dos armazéns do bairro de Bercy em Paris. Com o fogo a alastrar e apesar da proximidade do Sena, o facto de se estar no pino do Verão fez com que a água começasse a faltar nos engenhos. Foi nessa altura que, dado o facto que, à época, proliferarem por Bercy os armazéns, nomeadamente os de vinho, uma mente mais criativa se lembrou de recorrer ao vinho armazenado nas pipas para combater o incêndio. Quanto ao sucesso dos bombeiros e do emprego de vinho para combate a incêndios, pouco reza a história. O que se sabe é que pelo menos um hectare de prédios de habitação foi destruído pelo fogo. Muitas centenas de pessoas ficaram desalojadas. Mas quanto a queixas a respeito dos prejuízos comerciais, houve-as de 610 proprietários grossistas de vinho que naquela noite haviam contribuído compulsoriamente para a formação de um grande lago de vinho de 15 metros de diâmetro e um bom meio metro de profundidade, onde os engenhos se vieram abastecer durante o combate ao sinistro. Com as queixas, também a qualidade do vinho derramado ganhou dimensões inesperadas: uma estimativa inicial de prejuízos de três milhões, passou para os dez, para vir a ser finalmente fixada em quatorze milhões. Quase cento e cinquenta anos depois, Goscinny reaproveitou a história para Lucky Luke, situando-a no Oeste americano e usando dessa vez a cerveja em vez do vinho (acima).

30 julho 2020

O PRIMEIRO CAMPEÃO DO MUNDO DE FUTEBOL

30 de Julho de 1930. No jogo da final do primeiro campeonato mundial de Futebol, disputado em Montevideu no Uruguai, a selecção do país anfitrião bate a da Argentina por 4-2. O Uruguai era então uma selecção reputadíssima: havia-se sagrado campeão olímpica em 1924 em Paris e em 1928 em Amesterdão, neste último caso numa final onde vencera a mesma Argentina por 2-1.

CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA FOTOGRAFIA QUE PECA PELO COMPORTAMENTO DA SUA EXTREMA DIREITA

Berlim, Agosto de 1936. Esta seria uma das melhores fotografias para ilustrar Adolf Hitler e os dignitários nazis a assistir, presidindo, aos Jogos Olímpicos... não fosse a atitude como é apanhado Herman Göring no extremo direito da imagem, atrasado na saudação e displicente na facécia que se reserva para dizer a Goebbels que está a seu lado. O resultado é um instantâneo em que a segunda figura do Reich parece estar a fazer uma careta, com a mão direita atravessada à frente do nariz! Não ficava bem em qualquer regime, fica particularmente mal num que se leva tão a sério como a Alemanha nazi, e a fotografia teria feito companhia a tantas outras fotografias falhadas, não fosse 1945. Mas a fotografia contém uma ironia final: o facto de o seu ponto fraco se situar precisamente na extrema direita da imagem, parece sugerir que um regime de extrema-direita possa ser frágil... pelo comportamento da sua extrema direita.

29 julho 2020

...E PORQUE AS CONVERSAS SÃO COMO AS CEREJAS...

...vale a pena recordar que, há coisa de dois anos e meio, um dos participantes naqueles programas agora proscritos por «toxicidade», resolveu montar um gag cómico à volta do tema «mercearia», exibindo um conjunto de artigos diante de si, em pleno programa, com as cores do seu clube de futebol lá por trás. Mal sabia ele que no futuro - este mês! - o próprio presidente dos Estados Unidos conferiria ao seu gesto paródico uma outra dignidade, quando se deixou fotografar a fazer precisamente o mesmo na sua secretária da sala oval da Casa Branca, bandeira e estandartes lá atrás também. Nesta perspectiva, quando ele se consagra como um percursor visionário, esta é uma altura particularmente injusta para tirar Manuel Serrão do ar. Isso, ou então há que enviar Ricardo Costa e os seus homólogos da TVI e RTP à América, para convencerem as TVs locais a cancelarem Donald Trump, por «toxicidade»...

«ONDE É QUE TU ESTAVAS NO 25 DE ABRIL?...»

A famosa pergunta popularizada (acima) por Artista Bastos tem, para mim, um sentido mais profundo do que aquele que normalmente nos faz sorrir, que parece uma simples pergunta de velhos, entre velhos. Saber onde se estava no 25 de Abril também tem a ver com uma lição de vida sobre o sentido de timing político. Em política, nunca se pode ter razão muito antes do tempo, mas também não se pode chegar demasiado atrasado às grandes mudanças de opinião. Perguntar onde o interlocutor estava na data, como o fazia o Artista Bastos, era, para mim, sobretudo uma forma dissimulada de testar o entrevistado, seleccionar quem esperara pelo próprio dia 25 de Abril para se atrever a mudar de opinião, para identificar aqueles que ficaram então conhecidos como os oportunistas, os que haviam sido os vira-casacas de última hora.
Como aconteceu com o 25 de Abril original, também este foi precedido de intentonas (em 2010 ou em 2014) mas o 25 de Abril definidor e denunciador da sordidez e do mau gosto comentário futebolístico aconteceu, para mim, no dia 17 de Outubro de 2016, por ocasião do momento abaixo, num programa da TVI. Mas, mais significativo do que o momento, foi o que se lhe sucedeu depois: nada. Nenhum dos protagonistas daquela peixeirada foi instado a abandonar o programa pela figura que fizera, a que se seguiram muitas outras, como aliás eu chamei a atenção aqui no Herdeiro de Aécio, três meses depois. Aparecer agora, anos e anos depois de todas estas porcarias, um Ricardo Costa, ingénuo, mais os seus homólogos dos canais rivais, a invocarem uma suposta «toxicidade» como pretexto para acabar com aquela vergonha é, não apenas muito depois do 25 de Abril, é tão depois do 25 de Abril que se torna num insulto à nossa inteligência. Que se assumam e que sejam eles a chafurdar no conteúdo daquilo que emitiam...

A CONTESTAÇÃO AO REGRESSO DE LEOPOLDO III DA BÉLGICA


29 de Julho de 1950. A edição daquele dia do Diário de Lisboa conferia um destaque de primeira página à situação na Bélgica onde, após cinco anos de exílio voluntário, o rei Leopoldo III acabara de regressar, legitimado por um referendo que tivera lugar em Março daquele ano. E não fora nada bem recebido... O conteúdo da notícia do Diário de Lisboa (que se pode ler no fim do poste) revela-se, a esta distância temporal de 70 anos, mais alarmista do que esclarecedor. Como dali se pode concluir, há uma caracterização política no movimento daqueles que se opõem ao retorno do monarca ("socialistas e liberais", como o descreve o jornal), mas há sobretudo uma caracterização regional e cultural, e essa o jornal mal a aflora. Como se percebe facilmente pelo mapa abaixo, com os resultados do referendo de Março, destaca-se ali nitidamente uma mancha vermelha que se opusera ao retorno de Leopoldo III, mancha essa que se centra à volta da região francófona da Valónia. No computo global, o retorno do rei fora aprovado por 57,7% dos votantes, mas os resultados haviam sido díspares, se contados entre a comunidade flamenga (72%) e a comunidade valã (42%). O regresso do rei fora rejeitado, ainda que tangencialmente, na própria capital, Bruxelas (48%). Havia mais do que uma razão para a objecção dos valões a Leopoldo III, mas disso já eu falei num outro poste, onde aproveitei para rematar o desfecho desta história - a renúncia de Leopoldo III em seu filho em 31 de Julho, seguida da abdicação formal a 15 de Julho de 1951. Mas há uma lição que se pode extrair destes acontecimentos de há 70 anos: é que a aritmética dos resultados eleitorais tem que ser apreciada com muito atenção quando o assunto político em causa é o da viabilidade de um monarca: o retorno de Leopoldo III foi legitimado por uma maioria absoluta (57,8%). Porém essa maioria era heterogénea. Para além disso, aqueles que se opunham ao seu regresso, não gostavam mesmo nada dele. E quando isso acontece, o papel de qualquer rei perde o sentido. E quem rodeava Leopoldo III ter-lhe-á explicado isso. E é por isso que não estarei a ser propriamente visionário quando antecipo enormes dificuldades para o futuro de Filipe VI no trono espanhol: qualquer visita que o monarca espanhol faça à Catalunha tornou-se num desastre de relações públicas, protagonizado por aqueles que agora tomaram o rei como a corporização do centralismo castelhano. Como acontecia na Bélgica, um rei parcial de um país dividido, não serve para nada.

«Bruxelas, 29 – Numa atmosfera quase de revolução, o Gabinete católico da Bélgica, constituído por partidários do rei Leopoldo, decidiu ontem á noite fazer esforços para chegar a um compromisso com os adversários não comunistas do soberano – os socialistas e os liberais. Esta informação foi hoje dada de origem autorizada. Durante a sessão do Conselho de Ministros, estes concordaram em que devem recomeçar negociações entre os três grandes partidos do país. O chefe do Governo, Jean Duviesart, falando pela rádio, apelou para o «senso comum» do povo e anunciou que o rei deseja conferenciar com os representantes dos vários partidos políticos para poder com toda a imparcialidade encarar as medidas para «promover uma política de união». Mas avisou que isto só se pode conseguir «na calma e dignidade» e disse aos amotinados que os actos de sabotagem seriam energicamente punidos. Nos círculos políticos declara-se que as negociações entre católicos e os socialistas e liberais conduziram quase a um acordo na base de que Leopoldo delegaria as suas funções durante um certo período em seu filho, o príncipe Balduíno. Isso foi, porém, antes dos partidários do rei terem obtido a maioria em ambas as Casas do Parlamento, do que resultou o regresso de Leopoldo a Bruxelas. A situação em todo o país era hoje caótica. O movimento da greve geral – que partiu da zona industrial da Valónia – espalhou-se pelo país, paralisando a vida de cidade para cidade e esta manhã ameaçava envolver o grande porto de Antuérpia. Os actos de violência são ainda raros e as cenas quase revolucionárias nas ruas de Bruxelas limitaram-se a gritos subversivos. Mas o perigo aumentou durante a noite. Todas as estradas e linhas férreas que conduzem á capital estão cheias de manifestantes da região da Valónia de língua francesa, que avançam. Obedecendo ao apelo para a greve da Federação Geral do Trabalho, milhares e milhares de operários inactivos percorrem as ruas e praças de Bruxelas proferindo gritos contra o rei e procurando encontrar quem quer que se atreva a levantar a sua voz em favor do monarca. A atitude de expectativa era ainda hoje a ordem das autoridades. As forças de polícia ainda não fizeram fogo, mas o estado de espírito dos agentes da autoridade agrava-se depois de uma semana de quase contínua tensão (Reuter).»

28 julho 2020

ENTRADA EM VIGOR DA LEI VOLKSWAGEN

28 de Julho de 1960. Começando por algo completamente diferente, reconheça-se que os alemães têm uma grande vantagem moral sobre nós, portugueses, que temos a mania que nos desenrascamos a falar línguas dos outros. A verdade crua é que a língua deles, alemães, desmoraliza-nos logo nas tentativas lusas de arranhar o idioma. Senão vejamos em concreto: não há português desenrascado, nem sequer um Zezé Camarinha poliglota treinado por muitos verões algarvios, que se atreva a dar uma ideia do que é que consiste a seguinte frase: «Gesetz über die Überführung der Anteilsrechte an der Volkswagenwerk Gesellschaft mit beschränkter Haftung in private Hand». (A não ser que saiba alemão e isso é batota para este teste).

É o título oficial de uma lei. Que entrou em vigor há precisamente 60 anos, quando a Volkswagen foi privatizada e transformada numa sociedade por acções. Esta lei, costuma ser referida pela alcunha abreviada (carinhosa?) de VW-Gesetz. Explicando os seus propósitos em termos necessariamente simplificados, essa lei estabelecia que nenhum accionista podia exercer mais de 20% dos direitos de voto na empresa VW, mesmo que detivesse um valor superior de acções. Na época em que foi promulgada, o objectivo do sector público era reter a influência sobre este importante fabricante de automóveis, uma vez que no processo de privatização se concedera ao estado federado da Baixa Saxónia uma minoria de bloqueio, ou seja, um direito de veto em todas as decisões importantes da empresa, através de uma participação qualificada de 20,2% do capital da VW.

Mas o significado principal do gesto, que justifica esta evocação 60 anos depois, foi político. Numa Alemanha (Ocidental) que ressurgia, economicamente cada vez mais pujante, quinze anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a promoção dada a este aspecto social de quem detinha o capital das grandes empresas, conferia ao capitalismo da Alemanha reconstruída características híbridas entre os interesses privados e o interesse público. Pelo menos, essa era a aparência e foi a partir disso que se construiu uma reputação... Mas é uma fama sem proveito: em contraste com a VW, comprove-se que há outros construtores automóveis alemães que assumiram uma estrutura de capitais bem mais convencional, como sempre foi o caso das participações da família Quandt na BMW. Mas a fama é o que interessa. Esta VW-Gezetz aguentou-se por quase meio século mas veio a ser atacada pelas regras do capitalismo muito mais liberal da União Europeia em 2007; o contra-ataque do governo alemão demorou uma meia dúzia de anos de batalhas legais até se encontrar uma nova situação revista que fosse satisfatória para as partes.

ALBERTO FUJIMORI - UM EXÓTICO NIPÓNICO NA PRESIDÊNCIA DO PERU

28 de Julho de 1990. Nesse ano e nesse dia, o Peru ganhou destaque no noticiário internacional por causa da tomada de posse de Alberto Fujimori como presidente. Já a disputa eleitoral, por sinal de um cariz democrático não muito comum na América do Sul, se revelara interessante para os observadores internacionais, não por causa de Fujimori, mas por causa do seu mais directo rival, o escritor - mais tarde vencedor do Prémio Nobel - Mário Vargas Llosa. Mas, se era Llosa que concitava as atenções da opinião publicada, foi Fujimori, o underdog, que ganhou. Saliente-se que a história de Fujimori até nem era nada de desinteressante do ponto de vista jornalístico: filho de dois imigrantes japoneses, era o primeiro político sul-americano daquela origem a alcançar proeminência, num continente onde eles, japoneses e seus descendentes, não são muitos. E, considerada a reputação de eficácia nipónica e por um racismo daqueles menos convencionais (os japoneses são uma espécie de "brancos honorários"), esperava-se então qualquer coisa com Fujimori à frente dos destinos de um país como o Peru. Era uma ideia interessante e exótica, mas revelou-se uma desilusão: um golpe à legalidade constitucional dois anos depois, dez anos de poder que acabaram em eleições forjadas, num exílio forçado, em acusações e em julgamentos por desrespeito pelos direitos humanos e por corrupção, Alberto Fujimori ainda hoje está preso.

27 julho 2020

VERSÃO PRÁTICA DE «TÉCNICA DO GOLPE DE ESTADO», AO ESTILO CARIBENHO

27 de Julho de 1990. Ocorre um golpe de estado em Trinidad e Tobago, um discreto país caribenho exportador de petróleo, com 5.131 km2 e habitado, à época, por 1.125.000 habitantes. O curioso é a identidade dos golpistas. Não os militares que tinham a fama (e o proveito) de tais iniciativas por toda a América do Sul e Central (Caraíbas incluídas), mas antes um grupo radical islâmico denominado Jamaat al Muslimeen. O grupo era encabeçado por um antigo polícia chamado Lennox Phillips que adoptara o nome islâmico de Yasim Abu Bakr aquando da sua conversão. Mas o Jamaat al Muslimeen mostrava ser muito mais do que uma organização religiosa. Muito provavelmente financiada pela Líbia desde o seu início em 1982, a organização assumira uma postura combativa contra o tráfego e consumo de droga, adoptando os mesmos métodos de controle das ruas, modelo de gang urbano, embora capeado por um discurso moral. Por várias vezes, a polícia efectuara buscas nas suas instalações, detendo fiéis/militantes e apreendendo armamento. Operando num país onde se usufruía de uma não muito sofisticada mas indiscutível liberdade política, com eleições livres, mas liderado por uma personalidade autoritária como Yassim Abu Bakr, o Jamaat al Muslimeen apresentava-se como uma fascinante combinação entre o fascismo clássico, o gangsterismo urbano e o radicalismo islâmico. Há precisamente 30 anos reuniram-se 114 militantes armados com a intenção de promoverem um golpe de estado. 42 deles foram para o parlamento (conhecido por Red House) e ocuparam-no enquanto estava em sessão, incluindo no espólio o primeiro-ministro e alguns membros do governo que ali se encontravam, espólio esse que guardaram como reféns. Quanto aos 72 restantes membros, esses dividiram-se em dois grupos, com um deles ocupando a única estação de televisão do país, e o outro a estação de rádio pública. A partir daí, alteraram a programação em seu proveito. A escolha das prioridades dos objectivos dos golpistas (elegendo o próprio centro de poder democrático e também os meios de comunicação) faz-nos lembrar as apreciações técnicas do livro «Técnica do Golpe de Estado» do italiano Curzio Malaparte. Só que aqui parece não ter havido qualquer esforço (sucedido) para aliciar as forças militares trinitário-tobagenses. E a desproporção de meios era muito grande. Podemos acima ver Abu Bakr a aproveitar o seu quase monopólio da comunicação, lendo não só o comunicado televisivo anunciando o golpe aos compatriotas, como anunciando a sua intenção de querer negociar com os militares. Um problema é que a sua tomada da Red House não decapitara por completo o poder político. Por exemplo, tanto o presidente Emmanuel Carter, como o ministro da Segurança não se encontravam entre os reféns de Abu Bakr. Esses dirigentes políticos que haviam escapado encabeçaram a reacção ao golpe: o primeiro dos acima mencionados decretou o estado de emergência; o segundo pôde coordenar as negociações com os revoltosos. E um outro problema para os revoltosos, quiçá maior que o anterior, foi a completa falta de simpatia como a sua iniciativa fora acolhida pela população em geral: havia os relatos de pilhagens na capital (abaixo), mas essas manifestações não eram de carácter político; o resto do país permanecia calmo; aliás, o islamismo professo dos insurrectos, pelo contrário, parecia funcionar contra eles, numa população onde apenas 5% dela seguiam aquela confissão. A uma distância de 30 anos é fácil reconhecer que foi precisa uma enorme dose de ingenuidade política - para a não classificar de outro modo mais cruel... - para ter levado esta iniciativa para diante. Sobre o desfecho, resta dizer que, com o tempo a correr contra si e com promessas (mantidas) de leniência, os revoltosos se renderam passados quatro dias (a 1 de Agosto). Mas, para lá dos golpes da lista do livro de Malaparte, este deve contar-se entre os golpes de estado mais estúpidos dos tempos modernos.

A MORTE DE UM DITADOR E A PERPETUAÇÃO NO PODER DE OUTRO

Ainda 27 de Julho de 1970. Precisamente no mesmo dia em que morria Salazar, era notícia um outro ditador de longa duração: Fidel Castro. Na altura ainda o não era, mas viria a ser. Num daqueles comemorações/comícios em que a população cubana era convidada a comparecer em grande número - na notícia da France Press pode ler-se 200.000 pessoas - o ditador cubano pronuncia um dos seus característicos discursos intermináveis em que parece apresentar um acto de contrição sobre os objectivos económicos (não) alcançados por Cuba, depois de 11 anos a ocuparem o poder (1959-1970): «A nossa aprendizagem, de nós os chefes da revolução custou excessivamente caro. Pagamos agora as consequências da nossa ignorância. Valeria mais dizer ao povo que escolhesse um outro chefe ou, o que seria preferível, outros chefes.» Mas Fidel não estava a falar a sério... como se percebia pela continuação: adoptar uma tal atitude «seria hipócrita» porque substituí-lo e aos seus colaboradores mais próximos não solucionaria os problemas actuais do povo cubano. Ou seja, se, por um lado, assumia haver fracassado rotundamente, continuava por outro a considerar ser ele e apenas ele o único cubano com capacidade de saber como se solucionavam os problemas do povo cubano. Claro que Fidel não era hipócrita e se sacrificou para continuar as suas diligências para solucionar os problemas passados e vindouros do povo cubano. À época, não se sabia por quanto tempo mais, mas hoje sabe-se: foram mais 36 anos, até que em Julho de 2006 Fidel transferiu os seus poderes para o seu irmão Raul. É apenas uma coincidência curiosa lembrar a propósito, que também Salazar ocupara o poder por 36 anos (1932-1968). O que não seria curiosa coincidência seria imaginar Salazar a transferir o poder para um seu - hipotético - irmão... Sempre houve nepotismo no fascismo, mas nunca foi tão descarado como no comunismo. 

SOBRE AS CONSEQUÊNCIAS DA MORTE DE SALAZAR

27 de Julho de 1970. Morreu Salazar mas falemos antes das consequências dessa morte. Se repararem, o óbito ocorreu às 9 e 15, a notícia começou a ser difundida ao fim da manhã. Mas, por essa altura, já eu estava na praia que aquele sol da manhãzinha é que fazia bem às crianças. E como felizmente não havia telemóveis, eu e todos os que lá estavam ficámos dispensados de receber as notificações tintinantes e irritantes dos SMS com a novidade que, presumo e como hoje também é comum, também não lhes interessaria nada naquelas circunstâncias. O que é sempre bom: ser-se preservado de saber o que não nos interessa saber. Só fiquei a saber da notícia à hora de almoço. Com o acontecimento, as programações da rádio e televisão tornaram-se uma pesarosa chatice, emitindo interminavelmente música fúnebre por horas, dias a fio, num luto que, sendo oficial, não me parecia socialmente compartilhado, nem quando o era - a minha avó continuava a considerá-lo responsável por nos ter livrado da guerra - era acompanhado nas suas manifestações em excesso. Salazar era um chato, a sua morte ainda mais chata, e é responsável pela leitura de empreitada de uns três ou quatro livros da série abaixo. Nessa perspectiva, a morte de Salazar fez alguma coisa pela Cultura.

26 julho 2020

CONFORME SE ESPREME, ASSIM SAI O SUMO...

Francisco Assis deu uma entrevista ao Público (metade superiora da imagem acima). Mesmo que a entrevistadora tenha sido Maria João Avillez e por isso o teor dominante das perguntas ter sido o que foi, o Observador, ao referir-se a ela (metade inferior da mesma imagem), e apesar de a entrevista ser a mesma, conseguiu encontrar um título que estivesse ainda mais de acordo com os seus desejos: para o Observador não há superlativos suficientemente elogiosos quando o tópico é apreciar a conduta de Pedro Passos Coelho. E por aqui se percebe que a escolha de um título em citação para encabeçar uma entrevista é como o Natal: é quando um homem quiser... e o que um homem quiser.

PARABÉNS JACINDA ARDERN!

26 de Julho de 1980. Jacinda Ardern festeja hoje o seu 40º aniversário. A primeira-ministra neozelandesa tem adquirido, nestes quase três anos que leva do cargo (desde Outubro de 2017), uma projecção e simpatia mediática à escala mundial que vão muito para além da notoriedade do país de que é originária. Quando há mais do que uma biografia do mesmo político (acima), é porque houve uma delas que não foi certamente encomendada (como o foram por cá as de José Sócrates e Pedro Passos Coelho) e pode deduzir-se dessa constatação que o tema é mesmo capaz de ser editorialmente rentável. Nos tempos que correm, as razões para a verdadeira popularidade como a de Jacinda Ardern dependerão de pormenores pueris como a mudança de umas fraldas na assembleia geral da ONU ou então dar mostras de sangue-frio diante das câmaras durante um terramoto. E um outro aspecto que contribuirá ainda para aquela popularidade é a sua juventude: são muito poucos os líderes mundiais abaixo dos quarenta anos; são apenas cinco e um desses não conta porque é o líder da Coreia do Norte, que herdou o cargo. Se a política tem vindo a ser cada vez mais associada a uma actividade de velhos, é sempre refrescante assinalar a presença de quem, com a sua presença, o desmente. Parabéns, Jacinda Ardern!

25 julho 2020

A REPETIÇÃO MAIS DO QUE DISPARATADA DA METÁFORA DA BAZUCA

É patente o quanto é ridículo a repetição encadeada e acrítica por toda a comunicação social da expressão da bazuca a pretexto dos fundos europeus. É uma expressão que apenas faz sentido quando empregue de uma forma metafórica. E, por ser metafórica (as bazucas não distribuem dinheiro e o dinheiro não se distribui à bazucada...), mandaria o bom gosto que o uso da expressão fosse pontual, em jeito de alusão. Que houvesse alguns que dessem mostras de um gosto independente e se dissociassem do modismo. Mas não. Supimpamente estúpida e supimpamente estúpidos, a bazuca até já foi importada para as notícias da disputa do espólio.

O RELATÓRIO DE RÜTLI

25 de Julho de 1940. Numa reunião magna, que juntava os 650 oficiais mais graduados do exército suíço, desde os comandantes dos corpos de exército até aos de batalhão, o general Henri Guisan (acima), Comandante em Chefe, expunha os seus planos para a contingência de uma invasão alemã, agora que os exércitos ocidentais (francês, britânico, belga, holandês) haviam sido derrotados e que o país se apresentava rodeado pela Wehrmacht ou pelos seus aliados italianos. O local escolhido para a reunião, Rütli, junto ao Lago Lucerna, possuía um significado reforçado na identidade suíça, pois fora ali que, em 1291, se pronunciara o juramento que forjara o primeiro pacto entre cantões que estivera na origem da confederação helvética. Os planos de contingência anunciados pelo general Guisan naquele dia previam à retirada do dispositivo militar que defendia as fronteiras da Suíça até um reduto nacional, ocupando o centro do país em caso de invasão. Ao contrário de tantos outros planos militares, incluindo-se neste caso, os do lado alemão, precisamente para invadir a Suíça (a operação Tannembaum), os planos e as intenções do alto comando militar suíço eram para ser conhecidos: internamente para animar os próprios suíços; e externamente para refrear as intenções dos potenciais inimigos - a Alemanha e a Itália. «Enquanto na Europa houver milhões em armas e enquanto houver forças importantes capazes de nos atacar a qualquer altura, este exército tem que permanecer mobilizado». A questão da mobilização do exército suíço era primordial, já que os seus efectivos, da ordem de mais de meio milhão de homens, só era possível de manter com a convocação dos reservistas para as fileiras. Mas havia mais um pormenor: «Não prestem atenção àqueles que, por ignorância ou más intenções, espalham notícias derrotistas e dúvidas. Devemos confiar não apenas no nosso direito mas também nas nossas capacidades, que nos possibilita, se todos manifestarmos uma vontade de ferro, defendermo-nos com sucesso.» O destinatário desta passagem era o presidente do Conselho Federal, Marcel Pilet-Golaz que, precisamente um mês antes (25 de Junho) e perante o que acontecera à França cinco dias antes, fizera um discurso radiofónico de conteúdo assaz acomodatício com aquilo que se tornara a nova realidade europeia - a hegemonia alemã. Tecnicamente, Rütli é um golpe militar, ainda para mais praticado na civilizadíssima Suíça: o poder militar subleva-se contra a condução da política externa praticada pelo poder político. Acresce-se à ironia da situação que o fascista ali seria Henri Guisan, simpatizante do SVV (Federação Patriótica Suíça), enquanto Marcel Pilet-Golaz era membro do partido Liberal. Avaliando-o pelo que sabemos agora, o Relatório de Rütli não constituiu um elemento de dissuasão: mesmo depois delas, Adolf Hitler nunca abandonou a ideia de vir a controlar a Suíça. Mas estas declarações de há oitenta anos de Henri Guisan, que deixaram Berlim em fúria, terão evidenciado em que circunstâncias é que os alemães o teriam que fazer, e eles tinham muitas outras prioridades militares para além da Suíça. Como aqui não me canso de frisar, os países que conseguiram permanecer neutrais durante toda a Segunda Guerra Mundial, para o conseguir, fizeram-no sempre em circunstâncias muito nebulosas. Já agora, e porque se trata da Suíça, vale a pena relembrar o Caso Dänicker, aqui contado em 2015.