24 setembro 2018

COMO UM VELHO DISCO DE VINIL RISCADO...

Há quatro anos, João César das Neves era taxativo: «Subir o salário mínimo teria consequências dramáticas sobre os pobres». O impacto da sua subida já fora «estudado por vários economistas e podia ter consequências negativas». Criminoso, enfatizava até o conhecido economista nas suas declarações, enquanto que, pelo seu lado, a Comissão Europeia, já dois anos depois (2016), se mostrava mais comedida (embora obviamente mais poderosa), e punha todo o seu peso na não concretização desse aumento (abaixo). Mas ele acabou mesmo por acontecer, para desagrado de João César das Neves e descontentamento de Bruxelas: em finais de Dezembro de 2016, Marcelo promulgava um novo valor para o salário mínimo para o ano seguinte (2017): 557 €. 
E o que é que se podia dizer um ano depois, em Janeiro deste ano? Como se pode ler no artigo acima, concluía-se que, ao contrário do que havia sido «estudado pelos vários economistas» que João César das Neves conhecia», o salário mínimo aumentara, mas a taxa de desemprego diminuíra. A explicação é rebuscada, o significado de monopsónio ainda mais, mas o resultado concreto traduziu-se num banho de realidade que desmentia a doutrina. Em Maio passado, a comissão europeia dava o braço a torcer, contrariada. E qual foi o impacto de tudo isso na opinião de João César das Neves? Nenhum. Este Domingo tornou a dar uma entrevista onde mantém que subir o salário mínimo vai ser mau para os pobres, precisamente tal qual o fizera há quatro anos. Como opinião, não tem mal nenhum. Mas do ponto de vista científico e académico, é a constatação da mediocridade.
E porque é que há órgãos de comunicação que insistem em promover estes medíocres?...

QUANDO AS PARADAS CORREM MAL...

Há qualquer coisa nas imagens da parada militar recentemente atacada no Irão que mas faz associar às cenas de uma outra parada militar acidentada, realizada também no Médio Oriente, no Egipto em 6 de Outubro de 1981 e que culminou com o assassinato de Anwar Sadat (fotografia abaixo, a preto e branco). Porém, na parada do Cairo de há 37 anos, o que se subverteu não foi a demonstração do poder militar. O ataque incidiu sobre as personalidades do palanque, a imagem forte é a das cadeiras derrubadas por aquelas quando da sua fuga, e o que se retém é a ideia da insubmissão de uma facção militar radical ao poder institucional. Mas no caso recente das imagens de Ahvaz, aquilo que ocorreu no palanque é secundário, a força da imagem advém dos soldados estendidos no chão, e é a própria demonstração do poder militar iraniano que se pretendia reforçar com aquela parada que se vê lesada - soldados armados mas sem munições e por isso impotentes para reagir aos atacantes.

23 setembro 2018

O TERRITÓRIO DE MORESNET

23 de Setembro de 1818. As autoridades dos reinos dos Países Baixos e da Prússia procedem à delimitação precisa do pequeníssimo território de Moresnet. Tratava-se do corolário e do subproduto bizarro do gigantesco processo do retraçar das fronteiras da Europa que tivera lugar no Congresso de Viena em 1815, após o fim das Guerra Napoleónicas. Por toda a Europa, as fronteiras que haviam sido redesenhadas continuamente durante vinte anos, à mercê do sucesso das armas napoleónicas, mas a partir de 1815 iriam receber uma configuração que, em grande medida, se iria perpetuar por um século, até 1918. Apesar da pequenez de Moresnet, com uma área total de 3,5 km², aquele pequeno território de formato vagamente triangular a 8 Km a Sudoeste de Aachen (assinalado a vermelho no mapa acima), havia despertado o interesse dos dois países por causa da mina de zinco que ali se localizava. As pretensões sobre a mina haviam levado a que se tivesse de encontrar uma solução criativa, neutralizando o território. Ele seria administrado conjuntamente pelos dois países, embora não pertencendo a nenhum. Há precisamente duzentos anos, a comissão conjunta dos dois países terminava os seus trabalhos de delimitação do polígono, configuração que ficava assegurada pela afixação de 60 marcos no terreno.
Nem de propósito, e para tornar mais complexa um traçado de fronteiras heterodoxo, uma dúzia de anos depois, as províncias do Sul do reino dos Países Baixos tornaram-se independentes sob o nome de Bélgica (1830). O traçado de fronteiras entre os dois novos países (Bélgica e Países Baixos) fazia com que a Bélgica passasse a ser o país adjacente ao território de Moresnet e que assim a relação de administração conjunta que existia com a Prússia fosse transferida dos Países Baixos para a Bélgica. Mesmo assim, o vértice norte do território, passava a constituir o local onde se concentrava a nova fronteira entre os três países (a Alemanha, que sucedeu à Prússia em 1871, a Bélgica e os Países Baixos, foto acima e mapa abaixo). Por causa da mina e sobretudo à conta dela, a economia do território prosperou ao longo de quase todo o século XIX: a população daqueles 344 hectares, que era apenas de 256 pessoas em 1815, dobrara para 500 em 1830, quintuplicara para 2.570 em 1858 e era de 4.670 em 1914, no ano em que começou a Primeira Guerra Mundial. Destes últimos, apenas 484 (ou seja 10% do total) é que descendiam daquela que fora a população original do território.
Contudo, desde 1885, que aquela que fora a mais importante mina de zinco da Europa se esgotara. E a sustentação económica do território tivera que ser repensada. Houve algumas tentativas nesse sentido, nomeadamente a abertura de um casino que as autoridades alemãs bloquearam. A proposta mais interessante foi a do aproveitamento do território (bandeira abaixo) para que ele se tornasse o primeiro estado do Mundo que tivesse o esperanto como sua língua oficial (o esperanto é um idioma artificial aparecido nos finais do século XIX cujo criador e promotores esperavam que se tornasse na língua franca). A ideia não teve grande prosseguimento. Menos visionários e mais pragmáticos, os alemães aproveitaram a invasão da Bélgica em 1914 para anexaram formalmente o território de Moresnet no ano seguinte. E na revanche, os belgas receberam-no conjuntamente com os cantões do Leste, como compensações territoriais no quadro do Tratado de Versalhes (1919). Actualmente, as terras do antigo território - já só resta uma sobrevivente centenária do período em que ele existiu - fazem parte da região belga de língua alemã. E assinale-se que a página em português da wikipedia sobre o assunto vale a visita.

22 setembro 2018

«...ELEIÇÕES TÃO LIVRES COMO NA LIVRE INGLATERRA.»

22 de Setembro de 1945. A nova lei para o próximo acto eleitoral restabelecia as eleições por círculos mas excluía a representação proporcional das minorias. Com esse expediente técnico, a lista que recebesse mais votos elegeria todos os deputados do círculo e, na prática, obrigaria as listas da oposição a terem que vencer num qualquer círculo eleitoral, caso quisessem alcançar representação entre os 120 membros que comporiam a próxima Assembleia Nacional. Mais do que difícil e atendendo às circunstâncias, era um feito impossível, dado que a União Nacional, a organização governamental, contava em todo o país com o suporte do aparelho do Estado e a oposição não. Era impossível, mas também era o desejável, já que ideia do regime era a de realizar eleições legislativas satisfazendo a pressão das democracias anglo-saxónicas, mas impedir que, depois delas, a oposição se pudesse continuar a manifestar através de uma representação, ainda que diminuta, nos trabalhos parlamentares. Daí a menos de dois meses, Salazar dará uma alargada entrevista institucional a António Ferro, onde considerará, numa expressão depois tornada famosa, que as eleições que se iriam realizar seriam «tão livres como na livre Inglaterra». Hipocrisias à parte, vale a pena acrescentar que o método expediente eleitoral vigorou até às últimas eleições do Estado Novo em 1973, impedindo que a oposição alguma vez conseguisse representação parlamentar, mesmo quando compareceu nas urnas, como foi o caso das eleições de 1969, caso em que, não existisse aquela cláusula, a oposição teria tido uma pequena representação de 4 lugares (3 da CDE e 1 da CEUD). Ironicamente, foi nessa legislatura (1969-73)que os trabalhos parlamentares ganharam novo interesse, não por causa dos deputados da oposição mas por causa de um conjunto de eleitos nas listas governamentais que se mostraram dissonantes com o regime: a ala liberal.

QUE NEM VASOS DE FLORES...

Confesso que, quando me encontro diante de bibliotecas alheias, dedico quase tanta atenção aos livros que as compõem, quanto à usura das lombadas das obras - nem todas! - expostas. Descobri que era tão instrutiva a composição quanto a utilização de uma biblioteca. Copiei a fotografia da esquerda de um facebook de alguém que arrogantemente a usou como ilustração de uma entrada a que deu o título «A arrumar o Marcelo numa prateleira». O pretexto próximo terá sido a traição que Marcelo terá cometido a uma certa facção da direita política que encanitou que a salvação do regime passava pela manutenção de Joana Marques Vidal como procuradora. Os livros arrumados e acima exibidos serão portanto do próprio traído, mas o que me chamou a atenção foi o aspecto de quase flor de cunho das lombadas dos dois exemplares de «A Revolução e o Nascimento do PPD» (2000). Pelo menos, a comparar com os exemplares cá de casa (acima, do lado direito), onde se notam os vincos das leituras e sucessivas consultas destes últimos dezoito anos. Uma utilização normal para uma obra em que Marcelo Rebelo de Sousa contava as suas experiências e que ainda hoje permanece uma referência de consulta para aquele período histórico revolucionário (1974-75) em que o PSD ainda se chamava PPD. (Nem de propósito, o enfâse dado à antiga sigla do partido realçava colateralmente que Pedro Santana Lopes, que era o rival de Marcelo na altura e que passava o tempo a encher a boca com a denominação PPD/PSD, nunca militara no partido quando ele se denominava PPD...) Refira-se aliás, quanto obras como a de Marcelo são importantes, quanto o período dos primeiros dez anos de vida do PSD, até à ascensão de Cavaco Silva, permanecem - propositadamente? - nebulosos ainda nos dias que correm. Ainda esta semana precisei de auxílio recapitulativo sobre esse mesmo período, quando apareceu um artigo no Observador que se socorria da história do PSD e que, conforme desconfiava, a respeito dos acontecimentos dessa década inicial do PSD, continha a sua basta quantidade de asneiras... Mas, para voltarmos aos livros e aos proprietários que conseguem preservar as suas lombadas da forma mais imaculada, feito que só se consegue estimando particularmente os livros ou nem sequer os lendo, importa confessar que o aspecto daqueles livros só me surpreendeu pela circunstância de o seu proprietário ter construído uma reputação nas redes sociais dedicando-se à traulitada política... E eu julgava que as condições propedêuticas de acesso a tal actividade, haviam sido, no caso em apreço e dada a pose, mais exigentes. Só que isto de ver os livros expostos para enfeitar e sem uso, quais vasos de flores, é indício que, diz-me a experiência, nunca me enganou: uma biblioteca que exibe livros com lombadas tão imaculadas quanto aquelas é porque o proprietário a tem para a exibir.

21 setembro 2018

POR INDECENTE E MÁ FIGURA...

Se o Observador e os seus concorrentes ((1),(2),(3),(4),(5)) querem dar tanto enfâse à desfiliação do ex-ministro Martins da Cruz do PSD e aos termos que usa na carta em que anuncia essa desfiliação, nunca perdendo de vista o emprego da expressão «pacóvios», então também teria vindo a propósito relembrarem-nos em que circunstâncias há quinze anos ele passou de ministro a ex-ministro (dos Negócios Estrangeiros), demitido do governo à força, chutado borda fora por indecente e má figura. Mesmo depois de Pedro Lynce de Faria, seu colega de governo e de escândalo, se ter demitido, a atitude de Martins da Cruz era a de assobiar para o lado, pretendendo que o que causara o escândalo - a concessão de um favor ilegal à sua filha na admissão à faculdade - nada tivera a ver com ele próprio. Como o Correio da Manhã de então destacava, horas antes de se demitir ainda Martins da Cruz «divulgava um comunicado garantindo que não se demitia». Desconheço quantos dos jornalistas que assinam a notícia de hoje já o eram há quinze anos, mas a falta de vergonha não se esquece por esses quinze anos se terem passado, nem se esbate com tiradas de pretensa superioridade que soam agora como um coro afinado em todos os artigos que assinalam a desfiliação de Martins da Cruz. Quanto à ética, porque é que não me surpreende que o proponente da filiação de Martins da Cruz em 2007 houvesse sido Luís Filipe Menezes?... Desdenha quem pode, não desdenha quem quer.

A UM MINUTO DA «LEGALIDADE»

A TRADUTORA DE IMPÉRIOS AO SOL

Já havia perdido a esperança que qualquer um destes livros que trata do período colonial de África seja razoavelmente equilibrado (e, convém deixar desde já assente, não foi este Impérios ao Sol que a ressuscitou). Os autores ingleses escrevem quase só sobre a África colonial britânica e os franceses, por sua vez, fazem-no sobre a África francófona. O que não é surpreendente, não se pusesse o caso de depois escolherem títulos falsamente abrangentes para os seus livros como A Corrida para África ou História da Descolonização (ou este Impérios ao Sol). Quem comprar um destes livros e se puser à procura do que se passou nos países do lado (nomeadamente as antigas colónias portuguesas) descobre que os autores pouco referem, quase nada, sobre esses assuntos periféricos, seja a história das antigas colónias alemãs, a forma como se processou a descolonização belga ou a espanhola e, sobretudo importante para nós, a maneira como eles analisam o processo colonial português. Não analisam, não se econtra lá praticamente nada disso - e vale a pena recordar que o conjunto das colónias portuguesas em África somavam mais de 2 milhões de Km² e concentravam 11% da população africana. Lawrence James, o autor do livro acima e que eu já conhecia pela autoria de Raj - A construção e desconstrução da Índia Britânica, não é excepção ao padrão acima descrito. Por ele, a história da penetração europeia em África só começa em meados do século XIX (mais precisamente 1830), descartando de uma penada tudo o que portugueses e holandeses (os africânderes do Cabo) já haviam feito nos século precedentes. Não é apenas nem sobretudo a distorção que esta abordagem ao assunto causa; é a preguiça intelectual subjacente ao gesto de selecionar apenas uns impérios em detrimento de outros. Se os ingleses só se começaram a interessar seriamente por África nessa altura, então é por aí que começa o livro. Nessa época, e isso não é um pormenor de somenos, a questão da escravatura perdera para o Reino Unido o seu carácter economicamente controverso: com a independência dos Estados Unidos e com as suas possessões antilhanas superpovoadas de mão de obra de origem africana, o tráfico de escravos podia ser agora encarado apenas na sua vertente moral. Concebido para ser um livro que agrade ao público anglo-saxónico e por isso centrado na história das possessões britânicas, o arremedo de cosmopolitismo consiste em complementá-la com referências ao rivais franceses. Mas um título mais justo para este livro seria, à semelhança daquele que Lawrence James escreveu sobre a Índia Britânica*, apenas o de História da África Colonial Britânica (e um bocadinho da francesa). Mas a grande surpresa agradável do livro, a que justifica que eu preste este destaque, é a contribuição da tradutora, Susana Sousa e Silva. Ela acrescenta valor ao livro, quando explica em notas de rodapé quem é Golliwog (p.200), o que é uma mince pie (p.214) ou o que significa a sigla MBE (p.268). Um tradutor tem aquela tarefa inglória que é a mesma de um árbitro num jogo de futebol: o melhor elogio que se lhe pode fazer no fim é o confessar nem se ter dado por ele. Confesso que foi preciso ter estado atento para destrinçar entre as notas que eram do autor e as notas que eram da tradutora mas eu, que já aqui destrocei trabalhos medíocres de tradução, acho que vale a pena atribuir o mesmo empenho aos elogios quando de um trabalho assaz bem feito.
 
* Livro onde a omissão a qualquer referência às pequenas possessões portuguesas e francesas no subcontinente era, pelo contrário, perfeitamente compreensível, dada a sua irrelevância para a história do conjunto.

20 setembro 2018

O ATAQUE DOS HUSSARDOS A NAZARÉ

«Cerca das 05H30 da manhã de 20 de Setembro de 1918, os Hussardos de Gloucestershire, a guarda avançada da 13ª brigada da 5ª divisão de Cavalaria cavalgou os quilómetros finais da estrada de El Afule e reagrupou-se na crista dos montes que rodeavam Nazaré.
Cidade modernizada, com 15.000 habitantes, Nazaré localiza-se no fundo de um vale fértil de forma circular pontificado por olivais e searas. Os montes à volta erguem-se de forma tão abrupta que, à distância, as açoteias das casas parecem, em alguns locais, serem degraus de escadas. Fora Nazaré que o general Otto Liman von Sanders, o alemão que comandava os exércitos turcos na Palestina, escolhera para instalar o seu Quartel General.
À medida que o Sol subia nos céus aquecendo o dia, os hussardos a cavalo trotaram aceleradamente para o centro da cidade, onde acabaram por chegar às 06H30, à procura de von Sanders, com a esperança de o capturar. O inimigo, ainda adormecido, nem os suspeitava ali, e foi completamente apanhado de surpresa.
Os cavaleiros tinham permanecido em sela, durante as últimas 24 horas, descontando os períodos de repouso e dar de beber aos animais. Mas a oportunidade que se lhes apresentava era suficientemente boa para lhes mobilizar as últimas forças.
Apesar da vantagem da surpresa, o combate de rua que se iria desenrolar não costuma ser vantajoso para as tropas montadas. Mas os homens de Gloucester estavam equipados com espadas para além das versões curtas de cavalaria da espingarda Lee-Enfield, arma de outras épocas mas que, tanto eles quanto a cavalaria australiana, haviam copiado dos lanceiros indianos quando os viram a usá-las.
Os serventes das metralhadoras dispostas nas varandas e açoteias começaram a abrir fogo enquanto os soldados turcos e alemães oriundos, na sua grande maioria, das unidades de retaguarda e de serviços, acordavam com os tiros e ripostavam com o armamento que tinham à mão a partir das janelas. O combate rapidamente se tornou uma confusão, sem uma frente definida.
Soldados que estavam aboletados no Mosteiro Latino (5) rapidamente se começaram a render e por toda a cidade os assaltantes iam reunindo os prisioneiros, muitos deles ainda de pijama.
Mais acima, a rua principal de Nazaré estava engarrafada com uma coluna de camiões alemães (2) cujos condutores queriam desesperadamente inverter a marcha para fugirem pelo saída do Norte, que os britânicos ainda não haviam selado.
Os homens de Gloucester esquadrinhavam a cidade à procura de von Sanders, mas sem se aperceberem que Casa Nuovo (1), um antigo hospício, era o seu Quartel General. Mal o ataque começara, o general Sanders, apesar de estar ainda em pijama, fugira no seu carro rua acima, passando pela mesquita (3), para apanhar a estrada de montanha que o conduzisse para Tiberíades (4).
Cerca das 08H30, outras unidades da 13ª brigada juntaram-se aos hussardos. Mas o cansaço e a falta de efectivos fez com que os atacantes não dispusessem dos meios necessários para controlar a cidade e guardar simultaneamente os 1.500 prisioneiros que fizera. A meio da manhã, retiraram, levando os prisioneiros consigo.
Haviam apreendido variadíssimos documentos importantes mas havia-lhes escapado a importância de Casa Nuovo. Documentação muito mais importante veio posteriormente a ser recuperada e queimada pelos turcos.
A acção custara 13 baixas aos Hussardos de Gloucestershire e 28 cavalos haviam sido abatidos. Uma outra unidade da brigada reocupou a cidade, dessa vez permanentemente, no dia seguinte.»
 
O número quase insignificante de baixas britânicas (13), ainda para mais incorridas num Teatro de Operações periférico (a Frente da Palestina), mostra-nos a pequeníssima importância que terá tido esta acção no contexto global da Primeira Guerra Mundial. A importância em a publicitar deve-se ao facto de ter tido por protagonista uma unidade de cavalaria. Em Setembro de 1918, a Primeira Guerra Mundial já contava quatro anos, mas as características da guerra de trincheiras haviam feito que a arma de cavalaria tivesse praticamente desaparecido dos relatos de guerra. Como forma de compensação, e porque o comandante britânico, o general Edmund Allenby, era um cavaleiro, qualquer acção em que a utilidade da cavalaria pudesse ser invocada (neste caso era a superior mobilidade das tropas montadas que haviam permitido surpreender o inimigo), era saudada com a exuberância desmesurada que a descrição acima mostra. Na verdade, a cavalo e antes da motorização, o ritmo da guerra processava-se ainda a um ritmo que hoje nos faria sorrir: o general von Sanders fugiu para uma povoação que ficava a uns meros 30 km de Nazaré. E considerava-se em segurança aí...

VOO 950 PARA HAVANA

20 de Setembro de 1968. Um Boeing 720 da Eastern Airlines (como o da fotografia acima), que fazia a ligação entre San Juan de Porto Rico e Miami nos Estados Unidos, levando 53 pessoas a bordo, é desviado por um dos passageiros para Havana em Cuba. Se observarmos o mapa das Caraíbas e o trajecto do voo (a azul) constatar-se-á como o pirata do ar foi consciencioso, escolhendo uma ligação cujo desvio (a vermelho) provocasse o menor incómodo aos seus companheiros de viagem. A prática de desviar um avião para ir para Cuba parecia estar a banalizar-se. Depois de apenas três episódios em 1967, o desvio do voo 950 da Eastern Airlines já era o 13º desvio do género que ocorria em 1968, contando apenas aqueles em que o destino escolhido pelos sequestradores fora a capital cubana. Se já se percebera qual era a tendência da moda para a temporada daquele Outono/Inverno, ainda não se sabia que, até ao final daquele ano de 1968, registar-se-á um total de 24 desvios para Cuba, a uma média de dois por mês, e que, no ano seguinte (1969), essa média mensal subirá ainda para os três desvios (34 no total). Se as jovens gerações posteriores passaram a sublimar a sua busca pelo prazer da adrenalina em práticas como a do «bungee jumping», a geração jovem de há cinquenta anos misturava a coisa com uma capa diáfana de militância política. Não era difícil viajar para Cuba mas desviar um avião comercial para o fazer era toda uma outra emoção, uma afirmação política para uma audiência de milhões. Numa época em que também se tornara moda inventar slogans turísticos irónicos - Visite a União Soviética antes que a União Soviética o venha visitar a si!, em homenagem à invasão da Checoslováquia que acabara de ter lugar - esta outra prática de sequestrar aviões para chegar a um destino que era perfeitamente acessível também era passível do seu slogan irónico: «Conheça Cuba de uma forma radical: desvie o seu avião para lá chegar!»

19 setembro 2018

«... À LAGARDÈRE»


Tomo conhecimento pelo Le Monde da morte aos 93 anos, do actor francês Jean Piat. Para mim, Jean Piat foi, em Dezembro de 1971, o Lagardère, folhetim televisivo protagonizado por ele no papel de um espadachim destemido que se desenrascava sempre das situações mais complicadas, por muitos e muito ferozes que fossem os adversários. Terá sido o responsável pela subida da cotação das espadas como prenda para aquele Natal de 1971. A mais longo prazo, terá sido também Jean Piat e o estilo da personagem que interpretava os responsáveis pela importação da expressão para a língua portuguesa: «...à Lagardère». Quase cinquenta anos depois, a expressão mantém-se, mas a sua origem e significado precisam, de quando em vez, de ser explicados nas Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Mas é preciso assumir uma certa veterania para se ter estado , quando a série passou originalmente no ecrã, quando o Lagardère original entrava pela cena dentro (à Lagardère...) e, melhor que qualquer D'Artagnan rival, derrotava uma meia dúzia de adversários com a sua famosa estocada mortal na testa...

ELE HÁ PEQUENAS EFEMERIDES QUE TAMBÉM CONVÉM NÃO DEIXAR CAIR NO ESQUECIMENTO

«No 19º dia de Setembro de 1984, o antigo presidente dos Estados Unidos Gerald R. Ford ficou temporariamente preso neste elevador». É por causa de pequenos incidentes assim que há elevadores que se tornam históricos e outros não.

18 setembro 2018

A ADMISSÃO DAS DUAS ALEMANHAS NA ONU

18 de Setembro de 1973. Foi já há 45 anos que os dois estados alemães vieram a ser admitidos simultaneamente na Organização das Nações Unidas. Passaram-se já 45 anos mas convém acrescentar que as duas Alemanhas tiveram que esperar 28 anos pela sua entrada na ONU. O problema não era apenas nem sobretudo o de se tratar de um dos países vencidos da Segunda Guerra Mundial: refira-se que o Japão se encontrava precisamente nessa mesma situação, mas já fora admitido 17 anos antes. A questão primordial que atrasara a admissão das duas Alemanhas era a da divisão do país. Aliás, o mesmo problema impedia ainda naquela altura a admissão das duas Coreias e dos dois Vietnames. Mas, por fim, os dois blocos da Guerra Fria haviam chegado a um acordo que possibilitara a admissão simultânea pelo menos das duas Alemanhas, a de Leste e a de Oeste, conjuntamente e em contraste com a das Bahamas, um pequeno país de 180.000 habitantes que acabara de receber a independência do Reino Unido há apenas dois meses. As fotografias assinalam a cerimónia simbólica do içar das bandeiras dos três novos estados membros em Nova Iorque. Há uma carregada ironia no facto do secretário-geral da ONU de então ser o austríaco Kurt Waldheim, que acima vemos a discursar. Ironia pelo facto de posteriormente se ter vindo a descobrir que Waldheim tinha um passado militar controverso na Wehrmacht quando ele também havia sido alemão (1938-1945), por força da anexação forçada da Áustria à Alemanha.

17 setembro 2018

OS BOMBARDEAMENTOS QUE É MELHOR ESQUECER

Ainda 16 e 17 de Setembro de 1943. Um tema delicado que é recorrentemente esquecido quando das evocações da Segunda Guerra Mundial é o dos bombardeamentos aliados a cidades francesas. Por uma vez, e esquecendo o seu efeito como propaganda, as notícias do dia seguinte que acima se lêem, são extremamente comedidas quanto aos seus efeitos. O maior ataque dos registados naquele dia, que teve lugar sobre a cidade de Nantes pelas 16H05 da tarde, envolvendo um total de 147 B-17 norte-americanos, que largaram 1.450 bombas sobre a cidade, havia causado muitas centenas de mortos, muitos mais do que os 250 até ali reconhecidos. Milhares haviam sido feridos e ainda mais milhares haviam ficado desalojados. Por seu lado, o comunicado de Londres é cruelmente sóbrio na avaliação das consequências. Quando às deambulações de Pétain, a manifestar a sua simpatia às populações afectadas, só podem ser entendidos como uma manifestação da sua completa impotência.

OS MOTINS DE QUE NUNCA NINGUÉM FALA

16 e 17 de Setembro de 1943. Há assuntos em que todos os exércitos do mundo compartilham a mesma compulsão para os abafar. Os motins são um deles. Soldados que subvertem a ordem estabelecida é algo de que a hierarquia militar dispensa. Os motins são abafados quando eclodem e são abafados dos registos. Normalmente estes últimos, indispensáveis para as sanções, desaparecem depois dos arquivos. Mas é por isso mesmo que vale a pena destacar a coincidência temporal destes dois, ocorridos há precisamente 75 anos, um de cada lado da Segunda Guerra Mundial que então se travava. O primeiro caso envolveu um grupo de 300 veteranos da 50ª e 51ª divisões britânicas (VIII Exército), que haviam sido originalmente transportados do norte de África para se reunirem com as suas unidades então colocadas na Sicília, quando foram realocados inesperadamente (e em trânsito) como reforços das muito menos prestigiadas 46ª e 56ª divisões (V Exército), que estavam então engajadas em combate em Salerno, na própria península italiana. O livro acima, publicado em 2005, defende a sua causa: alguém os havia aldrabado, o que não invalidou que os cerca de 200 amotinados viessem a ser julgados em tribunal militar e condenados. Ao mesmo tempo e a algumas centenas de quilómetros dali, na 13ª divisão SS (Cimitarra), estacionada em Aveyron na França, desencadeou-se um outro motim. Aqui, as razões eram outras. Apesar de pertencente às SS, a unidade era composta de uma esmagadora maioria de muçulmanos bósnios, embora os oficiais fossem todos de origem germânica. Obviamente, a adesão à causa alemã era, por isso, algo hesitante. A recente rendição de Itália tornara a situação militar na Jugoslávia assaz periclitante, obrigando o dispositivo militar germânico a ter que se desdobrar para suprir o desaparecimento das unidades italianas que com eles ocupavam a Jugoslávia. As guerrilhas nacionalistas e comunistas aproveitaram esse momento de fraqueza e entre os soldados bósnios houve quem pensasse que a sua unidade pudesse desempenhar um papel autónomo do preconizado pelos alemães. O motim assinalou-se pelo assassinato de cinco oficiais alemães. Os números diferem substancialmente quanto ao número de amotinados mortos e sancionados pela repressão alemã - de 14 a 141 mortos. Várias centenas foram expulsos das fileiras e mandados para organizações de trabalho forçado ou para campos de concentração. Estas são as pequenas histórias da Segunda Guerra Mundial que não se costumam contar.

O TERRORISMO «SIMPÁTICO»


17 de Setembro de 1948. Um grupo terrorista radical sionista assassinava o enviado especial da ONU para a resolução do problema israelo-árabe, quando este se encontrava numa visita de trabalho à Palestina, para propor uma solução que acomodasse a hostilidade árabe e a recente proclamação do estado de Israel. Folke Bernadotte (1895-1948) era um diplomata sueco pertencente à família real sueca (era neto do rei Óscar II), que já se distinguira por negociações para o resgate de prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial e que casara nos Estados Unidos com uma herdeira de um grande empório industrial local ligado ao amianto. Mas, nem mesmo o facto de Bernadotte ser nobre, de abraçar causas nobres, de ser rico e de, além disso, possuir uma bela figura, induzirá a comunicação social americana (e a mundial, por arrasto) a indignar-se retumbantemente com o seu assassinato, como seria de esperar tivessem sido outros os autores do atentado. Nos Estados Unidos, onde se iriam disputar eleições presidenciais em Novembro próximo, alguém criara a convicção generalizada que o voto judaico seria decisivo para o seu desfecho. A ideia prevalecente era cortejar os judeus, Israel e a causa sionista mesmo que alguns dos seus membros mais radicais cometessem estes actos hediondos.
O teor da notícia acima no New York Times é de destacar, mas pela sua excepcionalidade. Veja-se o contraste com a primeira página do Diário de Lisboa desse mesmo dia, que corresponde muito mais à cobertura noticiosa que o acontecimento recebeu. Nota-se na notícia abaixo a ausência de uma fotografia do assassinado (que seria muito mais pertinente do que a do avião que lá aparece...) e um vocabulário redutor: Bernadotte morreu, não foi assassinado. Quanto ao teor da notícia, nada se diz dos detalhes do atentado (que se podem ler acima, no cabeçalho do NYT, do lado direito: o carro foi emboscado, a autoria foi estabelecida). Quanto ao corpo da notícia, ela não passa uma reflexão vaga e (propositadamente?) genérica sobre as implicações da sua morte para a paz mundial... Neste clima, não surpreenderá saber que as investigações das autoridades israelitas para a captura dos responsáveis foram absolutamente negligentes. Tanto que Israel foi condenado em tribunal internacional a pagar à ONU uma indemnização de 54 mil dólares. E excepcionalmente neste caso, foi depois possível avaliar qual o apoio popular que esta organização terrorista gozava junto da população. Nas eleições de Janeiro de 1949, a sua fachada política legal conquistou 1 lugar de deputado entre os 120 com que contava o Knesset... Em nome de quem é que aquela gente adoptava àquela conduta?

16 setembro 2018

SOBRE AS DIFICULDADES EM FUGIR DO «SOCIALISMO»

16 de Setembro de 1979. Duas famílias de alemães orientais, os Strelzyk e os Wetzel, perfazendo um total de oito pessoas, conseguem fugir da Alemanha Oriental, transpondo o Muro que separava as duas Alemanhas num balão artesanal de ar quente, construído pelos próprios, um electricista de 37 anos e um operário de 24. Depois de montarem e de encherem o balão num local propositadamente remoto mas não muito longe do Muro e de uma viagem nocturna de apenas meia hora mas cheia de peripécias, a expedição acabou por aterrar às 2H30 da manhã a um dez quilómetros para lá do Muro, já na Alemanha Ocidental. O feito surpreendeu pelo engenho e pela audácia. Claro que as autoridades daquela que, para efeitos do que era a correcção política da época, se fazia designar por República Democrática Alemã, se encarregaram rapidamente de se assegurar que a proeza iria ser irrepetível. A aquisição de qualquer material que, remotamente, pudesse vir a ser utilizado para a construção de balões, passou a ser severamente controlada. Mas o episódio acrescentou-se a uma colectânea deles no âmbito do usufruto das liberdades individuais, no quadro da propaganda da Guerra Fria. Viver sob o comunismo parecia ser muito duro, os trabalhos a que se davam estes trânsfugas para fugir de lá mostravam-no, e a Alemanha Oriental consolidava com estes episódios uma reputação - que a queda do Muro veio a mostrar merecida - de um estado policial onde se transitara directamente do nazismo para um comunismo que não lhe seria substancialmente superior. Esta paródia de hino do filme «Top Secret» (1984) mostra em quão pouca consideração era tomado o epíteto de democrático do seu nome oficial.

O AVC QUE VERDADEIRAMENTE INCAPACITOU SALAZAR

«Lisboa, 16 de Setembro de 1968.
Boletim clínico do sr. Presidente do Conselho:
A evolução favorável do estado do sr. Presidente do Conselho, que no passado dia 7 foi operado por hematoma subdural pós-traumático à esquerda, foi hoje, às 13 e 45, alterada por brusco e grave acidente no hemisfério cerebral direito.
a) Prof. dr. Eduardo Coelho; Dr. Vasconcelos Marques; Prof. dr. Almeida Lima; Dr. Miranda Rodrigues»
 
Foi só nove dias depois da operação, completam-se hoje precisamente cinquenta anos, que Salazar teve o AVC que verdadeiramente o incapacitou, o episódio que irá precipitar a crise da sucessão do regime. Atente-se no detalhe do boletim clínico, especificando que a operação incidira sobre um hematoma localizado no lado esquerdo do cérebro (o hematoma que se formara em consequência da queda da cadeira, o tombo que acabou por fixar as atenções mediáticas de todo o incidente), enquanto no boletim se podia ler que o acidente vascular que o debilitará irreversivelmente ocorreu do lado direito. Se é impossível excluir que o hematoma e a operação subsequente não possam ter influenciado o AVC, a prova em contrário também é mais intuitiva do que científica.

15 setembro 2018

A LINHA MORICE

15 de Setembro de 1958. Conclusão da Linha Morice ao longo da fronteira entre a Argélia e a Tunísia. Estendendo-se pelos 450 km da metade norte da fronteira entre os dois países e separando as regiões mais povoadas (para o sul fica o deserto do Sahara), a Linha Morice era constituída originalmente por barreiras encadeadas de arame farpado, adjacentes a campos de minas. Baptizada com o nome do ministro da Defesa André Morice (e, nesse aspecto, uma reedição pouco auspiciosa da antecessora Linha Maginot), a intenção era a de bloquear os guerrilheiros da FLN que, oriundos dos campos de treino da Tunísia, pretendiam infiltrar-se em território argelino. Além de dispor de postos de vigia intervalados para mais rapidamente acorrer aos incidentes que ocorressem, o percurso era patrulhado incessantemente e a elaboração do dispositivo veio a ser continuamente aprimorado, nomeadamente com a sua electrificação (5.000 volts!), a adição de dispositivos de detecção usando tecnologia de ponta (aparelhos de escuta e visores de infravermelhos) e ainda com a construção de uma outra linha paralela - baptizada Linha Challe - nos sectores mais visados pela FLN. Do ponto de vista técnico e táctico, a Linha Morice foi um sucesso. Como se vê perfeitamente no gráfico abaixo, o volume da actividade rebelde foi contido para níveis como nunca haviam acontecido desde 1956 e as «exacções» mensais da FLN nunca mais ultrapassaram o nível das 2.000 por mês. Só que, como se sabe, a solução daquele conflito era política e não militar. A FLN não tinha que ganhar a guerra, tinha só que não a perder.

14 setembro 2018

O GOLPE DE SETEMBRO DE 1979 NO AFEGANISTÃO ou COMO LENINE FOI MAL TRADUZIDO PARA AFEGÃO

14 de Setembro de 1979. No Afeganistão, o primeiro dirigente progressista da sua história era derrubado. Como já foi evocado aqui no blogue, depois do golpe de estado de Abril de 1978, o Afeganistão deixara de ser um país neutral e remoto para passar a ser um país bem quisto pelo bloco comunista. E isso incluía a simpatia dos comunistas domésticos, incluindo naturalmente a comunicação social que lhe era afecta. Contudo, após 17 meses de revolução, o partido comunista afegão ainda não incorporara os princípios leninistas avançados do centralismo democrático e o partido apresentava-se dilacerado entre duas facções. No quadro desses conflitos internos, há precisamente 39 anos, desencadeava-se um novo pronunciamento militar em Cabul, depondo o presidente Taraki, substituído por um novo homem forte, o seu rival Hafizullah Amin. O que era engraçado - se alguma graça a situação tinha... - era assistir ao desconforto da imprensa comunista ao descrever uma situação político-militar para a qual ainda não havia doutrina explicativa. Os golpes de estado e os pronunciamentos militares eram fenómenos típicos de países incipientes como os de África ou então das ditaduras militares empedernidas da América Latina. Mas isso eram defeitos dos países capitalistas, não era para acontecer em países que se reclamavam estar a viver uma revolução socialista. Aí o partido seria soberano, não os militares. Simbólico da atrapalhação ou do carácter remoto do país socialista, a notícia demorou três dias (a notícia acima foi publicada dia 17) a aparecer no Diário de Lisboa. E mesmo assim eivada de suposições. Hoje sabe-se que os acontecimentos não se distinguiram muito de um ajuste de contas entre famílias mafiosas, só que envolvendo blindados T-54. O que acontecera a Taraki era então uma incógnita: teve o destino de qualquer dirigente comunista caído em desgraça durante o estalinismo. Mas a história do Afeganistão estava muito longe de estar toda contada, abalando as ortodoxias.