12 julho 2020

JOSÉ GOMES FERREIRA - O INTÉRPRETE PATUSCO DE UM NOSTRADAMUS DE TRAZER POR CASA

Esta de José Gomes Ferreira ir recuperar a profecia despeitada de Pedro Passos Coelho de há quatro anos, para lhe procurar arranjar um contexto que a justificasse fez-me lembrar todos aqueles livros que procuram interpretar os escritos de Nostradamus, martelando-os para que os dizeres consigam ter antecipado aquilo que o profeta, no século XVI,  já sabia que ia acontecer no século XX e que nós já presenciámos. E contudo, isso é apenas a fase preparatória, porque aquilo que o(s) autor(es) do(s)  livro(s) nos quer(em) mesmo impingir é a sua visão sobre o que nos reserva o futuro, normalmente de contornos apocalípticos. Escolhi a capa deste livro de Serge Hutin porque já o tive; li-o e deitei-o fora de tão mau que era. Ao jornal i não precisei de fazer o mesmo porque não o compro. Mas a entrevista de José Gomes Ferreira ao jornal, que me surgiu pelos comentários das redes sociais, despertou-me a comparação, tanto mais que, como se percebe pelas notícias da época (acima) e ao contrário do que José Gomes Ferreira agora quer retocar, Pedro Passos Coelho fez a alusão à chegada do diabo num contexto bem preciso: em antecipação às eleições autárquicas de 2017, que lhe correram bastante mal. A reconstrução de Gomes Ferreira é espúria. Mas confesso que o associar o episódio a Nostradamus também se deve ao teor de como o disparate de José Gomes Ferreira está a ser defendido nas redes sociais: privados de partido (PSD ou CDS), os simpatizantes saudosistas do antigo primeiro-ministro estão a assemelhar-se cada vez mais àqueles incondicionais do esotérico, que constroem um mundo só para si, impermeáveis à argumentação racional.

CARREIRAS PARA A ARMONA

12 de Julho de 1970. Lembro-me que esta queixa, a da sobrelotação dos barcos da carreira de Olhão para a ilha da Armona, era tão tradicional quanto o aparecimento da época balnear. E formulá-la era também muito mais fácil do que corrigi-la, porque ninguém, nem mesmo os mais indignados, teriam coragem de colocar fiscais a contar pessoas e a limitar os embarques, obrigando os veraneantes a esperar pelo menos mais uma hora pelo próximo barco e aturando as suas reclamações. Isso seria a negação da prosperidade da vila. Os navios lá continuariam a navegar por anos e anos, ajoujados e obrigados a manobras mais inspiradas na baixa mar, como se constata por este vídeo de 1977 abaixo, com o saudoso Rio Belo.
Nitidamente, por aqueles dias de Julho de 1970, algum dos membros mais destacados da redacção do Diário de Lisboa estaria a passar férias em Olhão... e, mesmo de férias, não resistia ao bichinho do jornalismo, enviando várias peças com temas locais da vila algarvia, como fosse aquele caso acima da lotação dos barcos da carreira da Armona (e do Farol), o então o do assoreamento da ria ou ainda o do (proverbial) mau cheiro que ali se fazia sentir quando da maré-baixa (abaixo).

11 julho 2020

A PANDEMIA E O QUE SE NOTÍCIA A SEU RESPEITO

Ao confrontar-me com este cabeçalho do The Guardian, confesso-vos que a minha reacção foi: «só agora?» A Índia é o segundo país mais populoso do Mundo (1.360 milhões de habitantes) e portanto não é surpresa alguma que que a pandemia registe ali um impressionante número de infectados, os 800 mil a que o jornal agora dá destaque; o que é anormal, e disso os jornais deviam dar conta com ainda mais relevo do que os casos da Índia, são os ridículos 80 mil casos que foram até agora registados - oficialmente - na China, China essa que, registe-se, tem uma população superior à indiana (1.400 milhões). Mas estes não são os únicos casos de números oficiais de infectados que são mais do que duvidosos. A atenção mediática tem estado focada nos Estados Unidos (está sempre! - 3,3 milhões de casos para 330 milhões de habitantes) e no Brasil (1,8 milhões em 210 milhões de habitantes) mas ninguém se tem interrogado sobre a razão dos ridículos registos de infectados apresentados por países de grandes dimensões populacionais como a Indonésia (74 mil para 270 milhões de habitantes) ou a Nigéria (31 mil em 205 milhões de habitantes). Eu acredito que entre os leitores do Guardian não haja grande interesse em cuidar do rigor do que está a acontecer na Nigéria e noutras partes do Mundo, mas é perfeitamente dispensável que os seus jornalistas se entusiasmem assim desta maneira ao constatar que o segundo país mais populoso do Mundo registe centenas de milhares de infectados pela covid-19. É da natureza da própria realidade demográfica. A mesma realidade que torna natural que os países mais populosos registem mais casos do que os menos populosos, mas que também torna suspeitosamente pouco natural que países com a mesma dimensão demográfica apresentem números significativamente distintos: se atentarmos acima, a desproporção de infectados entre a China e a Índia é de 10 para 1; isso, se calhar, é que deveria ser o cabeçalho do The Guardian. Seguido de uma investigação das causas do sucesso chinês... Por curiosidade e ainda a respeito de números oficiais ridículos respeitantes à pandemia, acrescente-se que a desproporção de infectados entre Portugal (46.000) e a Grécia (3.700) é de 12 para 1 e com tendência crescente; na Grécia parece que há muito tempo ninguém se infecta. A Grécia deve ser outro caso de sucesso... Adenda: E como tudo o que tem sucesso noticioso acaba sempre por cá chegar, mesmo com atraso, eis abaixo a mesma notícia promovida pela Lusa no dia seguinte:

O MASSACRE DE SREBRENICA

11 de Julho de 1995. É a data em que se considera que terá começado o massacre dos prisioneiros (mas também civis) bósnios que as tropas sérvias haviam capturado por ocasião da conquista da pequena povoação de Srebrenica, que tivera lugar alguns dias antes. Não me interessa contar aqui o que aconteceu, apenas as lições que se podem extrair do que aconteceu. No final da guerra, mais de 8.000 corpos serão exumados de valas comuns e uns 6.000 serão identificados, constando os seus nomes de um memorial (fotografia acima). Se a História tiver servido para ensinar alguma coisa aos vindouros, deste (verdadeiro) Massacre, ocorrido há 25 anos, pode concluir-se:

a) Que os militares sérvios eram comandados não apenas por criminosos, mas por criminosos imbecis que nunca conseguiram explicar qual a vantagem militar ou outra de assassinar 8.000 pessoas naquelas circunstâncias; contudo, o enorme preço político que a Sérvia paga até hoje é que os sérvios são considerados internacionalmente como os nazis maus de um conflito (a cisão da Jugoslávia) que não foram eles a desencadear, nem teve inocentes;

b) Que, quando as coisas se põem feias, é que se percebeu que as forças de interposição da ONU - os conhecidos capacetes azuis - estão lá apenas para enfeitar: a vergonha recaiu especificamente sobre os holandeses, que eram os que estavam em Srebrenica e que foram as testemunhas passivas do que aconteceu, mas o Massacre serviu como uma parada de poker em que alguém paga para ver, e se vem a descobrir que não há nenhum contingente daquelas tropas que se disponha a sofrer baixas por causas altruistas;

c) Que para os padrões da nossa simpatia solidária, ele há vítimas... e vítimas. Este caso dos bósnios muçulmanos é de escalão intermediário - são caucasianos (um ponto a favor), mas não professam a melhor das religiões. Um pormenor engraçado é aquele que destaca o facto de nas tropas sérvias se contarem algumas centenas de voluntários russos, extremistas ortodoxos, ao mesmo tempo que se esquece o facto de que havia também algumas centenas de gregos nas mesmas condições. Afinal a Rússia ainda é um inimigo tradicional do Ocidente, enquanto a Grécia faz parte da NATO e da União Europeia.

10 julho 2020

AQUELE SENHOR IRLANDÊS ELEITO PARA O EUROGRUPO E QUE VAI «MANDAR» AINDA MENOS QUE MÁRIO CENTENO...

Creio que se impõe o enquadramento desta notícia da eleição do ministro das Finanças irlandês para a presidência do Eurogrupo. Vale a pena recordar que o «Eurogrupo é um órgão (meramente) informal em que os ministros dos Estados-Membros da área do euro debatem os assuntos respeitantes à moeda única». E que o papel do seu presidente é o de «apresentar publicamente os resultados das reuniões». A visibilidade mediática do titular daquele cargo só terá começado quando da crise da dívida pública da zona, consubstanciado na pessoa de Jeroen Dijsselbloem*, o titular holandês, que protagonizou uma atitude de confrontação ostensiva para com os países mais atingidos pela crise. Entre as críticas mais severas que lhe fizeram, houve quem o considerasse, nessa atitude dura e deselegante, como um «homem de palha» do seu homólogo alemão, Wolfgang Schäuble (abaixo). Terá sido para amenizar um clima que se tendera demasiado que o escolhido para lhe suceder veio de um dos países visados pelas suas críticas: o português Mário Centeno. Mas os dois anos e meio que entretanto decorreram com Centeno a presidir ao Eurogrupo parecem mostrar que o organismo deixou de ser o que fora. O que os países pensarão uns dos outros não terá mudado, mas, ao contrário do período mais agudo da crise, convencionou-se em não vir lavar a roupa suja para a rua. O presidente voltou a ser aquilo que está escrito que seja: o que «apresenta publicamente os resultados das reuniões», o responsável para que se alcancem consensos e para que não se produzam bojardas insultuosas para com outros países membros. E é tomando tudo isto em conta que chegamos à eleição de Paschal Donohoe. Há a notícia oriunda de um órgão oficial da União Europeia como a euronews (acima) e há a notícia publicada no Le Monde, que é um jornal impermeável a lirismos europeus: para aquele jornal, ou se trata de uma vitória da França ou de uma derrota da França. Neste caso, foi uma derrota. A candidata apoiada pela França,a espanhola Nadia Calviño, perdeu a eleição - 9 votos contra 10 para Donohoe dos 19 ministros das Finanças que compõem o Eurogrupo. O problema que não tenho visto a ser referido, mas que se percebe do artigo do Le Monde, é o da «qualidade» da votação: terão votado vencidos (a votação é secreta) a Alemanha, Chipre, a Espanha, a Finlândia, a França, a Grécia, a Itália, Malta e Portugal. São apenas 9, mas estes países e as respectivas economias representam 5/6 do total da zona Euro. E como na União Europeia os estados membros são todos iguais, mas há uns que são mais iguais que os outros, tenho dificuldade em imaginar Paschal Donohue a fazer alguma coisa mais do que a servir de mestre de cerimónias das reuniões futuras do Eurogrupo. Se for pelas suas repercussões futuras, a notícia desta eleição, desconfio, não valerá grande coisa.
* Ninguém se lembrará que o seu antecessor por oito anos (2005-2013) se chamava... Jean Claude Juncker.

A CONCESSÃO DE PLENOS PODERES AO MARECHAL PÉTAIN

10 de Julho de 1940. Na ressaca da derrota francesa frente à Alemanha, e numa sessão conjunta que reuniu os membros do Senado e da Câmara de Deputados (que compunham a Assembleia Nacional), colectivo esse que se encontrava reunido excepcionalmente em Vichy (devido à ocupação de Paris pela Wehrmacht), os parlamentares franceses votaram esmagadoramente pela concessão de poderes constituintes ao então presidente do Conselho, o Marechal Philippe Pétain. O Estado Francês, que resultou deste gesto magnânimo, e que quase todos preferem actualmente designar por regime de Vichy, teve assim uma génese perfeitamente legitimada pelas instituições da III República, um pormenor que se torna assaz incómodo de lembrar por ocasião destas efemérides. Como se lê na notícia acima, local, no Le Petit Dauphinois, a maioria era imponente (imposante) e os poderes eram totais, enquanto a perspectiva de Lisboa, abaixo, era um pouco mais sóbria, talvez mesmo irónica, na sua referência ao «fortalecimento da autoridade» de um Estado que acabara de consentir na ocupação militar de 60% do seu território.

09 julho 2020

O ULTIMATO NA CONFERÊNCIA DE SPA - NOS TEMPOS EM QUE ERA A ALEMANHA QUE TINHA QUE «COMER E CALAR»

Spa, 9 de Julho de 1920. Desde dia 5 que está a decorrer naquela cidade termal belga - escolhida, não por acaso, porque ali se instalara o quartel-general do kaiser Guilherme II durante a Grande Guerra... - uma Conferência juntando vencedores e vencidos para uma reavaliação do cumprimento do Tratado de Versalhes, assinado um ano antes. Um dos aspectos a que os vencedores haviam dedicado uma particular atenção fora ao ritmo como a Alemanha estava a proceder ao seu desarmamento, um tópico a que o governo alemão se andara a esquivar continuamente, fruto de pressões várias, internas, para que o seu exército não fosse reduzido aos 100.000 efectivos acordados originalmente no tratado. No dia anterior, os Aliados haviam apresentado, na pessoa do primeiro-ministro britânico David Lloyd George, um ultimato de 24 horas para que a Alemanha se prestasse a assumir um calendário para o seu desarmamento: reduzir as suas forças militares até aos 150.000 até final de Outubro de 1920, para atingir o patamar de 100.000 até 1 de Janeiro de 1921. O ultimato expirava ao meio-dia deste dia 9 de Julho de 1920. A sanção era a invasão e ocupação do resto da Alemanha de além Reno por parte das tropas aliadas: francesas, britânicas, americanas, italianas, belgas e eventuais contingentes aliados como o Japão, a Sérvia, Portugal, a Grécia, etc. A Alemanha não tinha como não aceitar o ultimato - estava demasiado desarmada para resistir a uma acção militar dos Aliados por um lado e, por outro, o poder político alemão sabia-se demasiado frágil para não temer as consequências para si de uma eventual insurreição popular contra os invasores. Só lhe restou «comer e calar», como aconteceu, de resto, com todas as outras exigências apresentadas pelos Aliados na Conferência. Foi nesta Conferência que se definiu a percentagem de distribuição das indemnizações a serem pagas pela Alemanha: 52% para a França, 22% para o Reino Unido, 10% para a Itália, 8% para a Bélgica e os 8% restantes a serem distribuídos pelos outros países aliados entre os quais Portugal. Mas, para que percebamos o quanto isto podia ser moroso, alcançando-se o como repartir, não se chegou ainda a conclusão alguma quanto ao montante a exigir.

08 julho 2020

ANTECIPA-SE CONVITE A BERNARDINO SOARES PARA ASSUMIR A PASTA DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS...

Adenda: Há as cunhas à antiga e as cunhas do século XXI. Antigamente, quando se metia uma cunha o candidato entrava e o assunto estava arrumado, não havia por que reclamar. Agora, já não pode ser assim à bruta, mas o expediente consiste em atribuir um alto factor de ponderação à entrevista, que é algo que é sempre completamente subjectivo e de difícil contestação.
Pela descrição acima, naquilo que nos é descrito como a defesa de «uma visão integrada para o museu» (bullshit), Rita Rato deve ter arrasado na entrevista: até a imaginamos a ter conquistado o júri («plural») com a sua interpretação do hino de Caxias, acompanhados de um coro de camaradas... Não havia como dizer que não a uma tal candidatura internacionalista proletária.
Segunda Adenda: Como alguém me notou, é da mais elementar justiça que, depois de anos a fio de «jobs for the boys», se progrida agora para uma fase de «Работа для девушек» (Rabota dlya devushek), que é como quem diz, em russo, empregos para as miúdas. Pode dizer-se que é uma das últimas conquistas conquistadas de Abril...

A FOTOGRAFIA DE HITLER EM MONTMARTRE

8 de Julho de 1940. Destacada, mas envolta em relatos sobre a guerra que se travava, aparece numa das páginas do Diário de Lisboa uma fotografia de Adolf Hitler em Paris, mais precisamente no seu bairro típico de de Montmartre. A legenda da fotografia é ingénua, quase bucólica, contrastante com o resto dos relatos daquela mesma página: «Hitler, acompanhado de oficiais do seu estado maior visita os lugares mais poéticos de Montmarte, donde se disfruta uma linda vista sobre Paris».
Esta é uma versão mais apurada da fotografia então aparecida no Diário de Lisboa. Trata-se de uma não muito subtil peça de propaganda do ministério do dr. Goebbels: Hitler na capital conquistada aos franceses! A acrescer, nem sequer se tratava de uma informação muito actualizada: a visita que Hitler fizera a Paris (foi a primeira e será a única), numa espécie de turismo do conquistador, ocorrera mais de duas semanas antes, a 23 de Junho, como se comprova por este filme abaixo.

07 julho 2020

OS «PRIMEIROS» TRÊS TENORES

7 de Julho de 1990. Integrado nas celebrações do Campeonato do Mundo de Futebol (que terminaria no dia seguinte com a vitória da Alemanha), tem lugar, nas termas de Caracala em Roma, a primeira apresentação dos Três Tenores. O espectáculo foi muito mais do que um sucesso: foi uma revelação do que poderia ser a imensa popularidade de um estilo musical que até aí fora considerado erudito e reservado a um público restrito. Tal foi o sucesso que os espanhóis José Carreras e Plácido Domingo e o italiano Luciano Pavarotti viriam a reencontrar-se por mais 33 vezes! Mas nenhuma dessas outras poderá recuperar aquela mística, aquela surpresa, da primeira vez, há precisamente trinta anos.

UM CERTO PAÍS...

A notícia é dada por um Expresso despeitado, que tem o cuidado de esclarecer o leitor que se trata de gente do Observador: «três administradores e dois colunistas...». Todos os intervenientes nesta história, o anfitrião, os convidados e também quem a torna pública, assentam na premissa de que vivemos num país em que é a opinião publicada que forma a opinião pública e que é importante para os actores (como Marcelo) tomar isso em consideração: apaparicar a crítica teatral (para prolongar a metáfora). 

06 julho 2020

AQUELAS COISAS QUE TEMOS A CERTEZA DE JÁ TER LIDO EM ALGUM LADO, SÓ QUE NÃO TEMOS A CERTEZA DE QUEM AS DISSE...

O que acima se lê, foi publicado no Expresso de 15 de Janeiro de 2015. Por outro lado, «contactado pelo SOL (para a edição deste fim de semana), António Pires de Lima, ministro da Economia em 2015, não quis comentar o tema: "Não tenho feito comentários públicos sobre a TAP e, por enquanto, não os irei fazer".», escreve-se naquele outro jornal. Quanto ao Expresso, nada perguntou a Pires de Lima ou, tendo-o feito, não se sentiu na obrigação (ao contrário do que fez o SOL) de informar os seus leitores que o fizera e que aquele se recusara a comentar. Pelo que se lê mais acima, quaisquer declarações actuais de Pires de Lima a respeito da TAP nem serão precisas: estava já tudo dito em 2015...

05 julho 2020

AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES BRITÂNICAS APÓS A GUERRA

5 de Julho de 1945. Têm lugar as primeiras eleições britânicas após o término da Segunda Guerra Mundial. As circunstâncias, especificamente o facto de vários milhões de britânicos estarem deslocados, mobilizados a cumprir o serviço militar longe das suas residências, irá fazer com que as operações de escrutínio sejam particularmente demoradas, a aguardar pela chegada de um número significativo de votos enviados por correspondência. Os resultados só virão a ser conhecidos no final do mês quando se descobriu que aquilo em que «se acreditava, geralmente», ao princípio do mesmo, estava afinal errado...

A AUDIÊNCIA DE PAULO VI AOS LÍDERES DA FRELIMO, PAIGC E MPLA

5 de Julho de 1970. Os jornais do dia dão destaque a uma audiência que o Papa Paulo VI dera alguns dias antes (1 de Julho) a três líderes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas: Amílcar Cabral do PAIGC, Agostinho Neto do MPLA e Marcelino dos Santos da Frelimo. Normalmente uma notícia deste cariz teria sido censurada, mas ela tornava-se indispensável para dar enquadramento à violenta nota emitida pelo ministério português dos Negócios Estrangeiros, condenando a iniciativa - e daí o hiato de tempo transcorrido entre a data da audiência e ela ter sido noticiada em Portugal. O gesto do Vaticano, acautelando o futuro da igreja católica naqueles três países, era tão compreensível quão previsível seria a reacção da parte portuguesa que se seguiu. Nesta altura dos acontecimentos, a atitude romana era a de tentar aplacar a irritação de Lisboa e, para isso, até mesmo os sacerdotes, que tanto admoestavam os fiéis escutando as confissões, por causa do pecado da mentira, não se eximiam de ser eles, por sua vez, a mentir grosseiramente: escrevia-se a rematar a notícia acima «Um prelado do círculo pontifical observou que os três dirigentes, que são católicos, tinham sido admitidos à audiência "na sua qualidade de cristãos". A audiência durou sete a oito minutos.» (Em primeiro lugar, nenhum dos três era conhecido por ser cristão praticante; em segundo lugar, Agostinho Neto nem era católico, a sua formação fora feita na missão protestante metodista dirigida por seu pai; em terceiro lugar, a audiência podia ter sido breve, mas chegara para que o Papa tivesse oferecido a cada um, um exemplar da sua encíclica ‘Populorum Progressio)

DE COMO AS NOTÍCIAS DAS GREVES NOS PAÍSES DITOS SOCIALISTAS TINHAM UMA CERTA DIFICULDADE EM «FLUIR» PARA O ESTRANGEIRO

Em 1 de Julho de 1980 o governo polaco acabara por implementar uma medida que andara a adiar até mais não poder: a actualização do preço dos artigos alimentares essenciais, cujos preços haviam sido mantidos artificialmente baixos desde 1966. Tentativas anteriores de os aumentar, haviam sido responsáveis pela queda do anterior executivo comunista polaco em Dezembro de 1970. A situação tornara-se insustentável, mas catorze anos de congelamento artificial dos preços, tornava brutais agora alguns aumentos, como seja o caso da carne, cujo preço duplicara de um dia para o outro. Nesse dia e nos imediatamente seguintes, despontaram greves espontâneas e fracamente coordenadas em variadíssimas instalações fabris por toda a Polónia reclamando por aumentos salariais que compensassem os novos preços. O movimento já envolvia mais de 200 empresas paralisadas na Polónia quando, cinco dias passados, jornais como o Diário de Lisboa se dispuseram finalmente a noticiar que a situação social polaca estava em convulsão e, mesmo assim, a notícia era distorcida. O que estava a acontecer era descrito como «indícios de um certo descontentamento operário que se estende a diversos pontos do país» e isso desencadeara «um apelo premente aos dirigentes polacos», por parte da revista Politika, «órgão do comité central do Partido», para que procedessem «com toda a urgência» a «profundas modificações estruturais da gestão» do país «a fim de o fazer sair do marasmo económico no qual se encontra». (abaixo) A notícia do Diário de Lisboa dificilmente podia ser mais absurda. Acreditar na sua redacção sugere um «desdobramento de personalidade» entre o partido comunista que governara a Polónia desde 1945 e aquele que agora apelava por reformas... Os polacos não eram como os leitores do vespertino lisboeta. O ritmo das paralisações evoluiu num crescendo cada vez mais reivindicativo, pelo mês de Julho, prolongando-se por Agosto. Em Agosto de 1980 o Verão Quente foi na Polónia e desse Verão Quente os comunistas não falaram muito e agora preferem nem falar.

04 julho 2020

ÉPOCAS E LOCAIS EM QUE OS «RECOLHERES OBRIGATÓRIOS» ERAM MESMO «OBRIGATÓRIOS»

4 de Julho de 1970. Mantinha-se o «recolher obrigatório» num dos bairros (católicos!) da cidade de Belfast. A restrição fora estabelecida pelo exército britânico, enviado anteriormente para a Irlanda do Norte como força de mediação, e que, naquela circunstância, se vira alvo de fogo de atiradores do IRA. Este último alegava que os britânicos se haviam intrometido num combate que a organização travava contra as forças paramilitares protestantes. Estes últimos haviam atacado uma igreja católica isolada noutra área de Belfast. Segundo o IRA, os soldados britânicos haviam sido visados pelos dois lados e não especialmente pelo IRA. Contudo, as tropas britânicas selaram cerca de 3.000 casas do bairro de Falls e «procederam a uma rigorosa busca à procura de armas». Durante as 36 horas que durou aquele confinamento, houve várias trocas de tiros entre britânicos e locais mas a expressão da contestação dos residentes fez-se mais pelo arremesso de pedras, com os manifestantes a serem repetidamente dispersos a gás lacrimogéneo: no balanço final da operação de busca, 4 civis haviam sido mortos, 78 haviam sido feridos e 337 presos, um deles o próprio deputado local; do lado britânico havia 18 feridos a registar. Quanto ao inventário do armamento capturado contavam-se: 52 pistolas, 35 espingardas, 6 pistolas-metralhadoras, 14 caçadeiras, cerca de 100 granadas artesanais e ainda cerca de 100 kg de explosivos. Desarmara-se uma das facções do IRA, dando oportunidade à afirmação da mais radical. Cumulativamente, os britânicos enfrentavam agora acusações (mais tarde comprovadas) que os seus soldados haviam pilhado algumas residências aquando das revistas e, com tudo isto, a percepção da sua neutralidade no conflito perdera-se completamente entre a comunidade católica que os passou a equiparar à polícia pró-protestante da RUC. Um exemplo de academia de como o enviar de militares como forças de interposição para conflitos com esta complexidade social pode redundar num fiasco completo. E depois há a estupidez ignorante de Donald Trump em todo o seu esplendor...

AS ELEIÇÕES DO «PUT UP» OU «SHUT UP»

4 de Julho de 1995. Sempre houve, e continua a haver, uma certa tendência entre os britânicos para se esquecerem que foi sob um governo conservador que o Reino Unido aderiu à CEE em 1973. Tal como sempre houve uma certa propensão para negligenciar o facto que essa adesão havia sido depois validada por um referendo em Junho de 1975, referendo esse promovido por um governo trabalhista. O que os acontecimentos conducentes ao referendo do brexit em Junho de 2016 parecem ter tornado agora nebuloso é o quanto todos os líderes conservadores depois de Margaret Thatcher tiveram que lidar com uma facção eurocéptica dentro dos tories que usava e abusava desse eurocepticismo para desafiar o titular do cargo, acusando-o(s) de fraqueza(s) diante de Bruxelas. Há 25 anos quem estava de serviço era o primeiro-ministro John Major e que por essa altura se cansara de tanta intriga sem os correspondentes desafios directos à sua liderança. Por isso, a 22 de Junho, fora o próprio John Major a forçar o desafio, convocando eleições internas para a liderança do partido conservador e desafiando os contestatários a concorrer: «apresentem-se ou calem-se» («put up or shut up») era o seu slogan de campanha, conforme se pode escutar no vídeo acima. As eleições internas, em que participaram todos os deputados conservadores (329 à época), tiveram lugar há precisamente 25 anos: John Major ganhou por uma larga maioria (66%). Mas a concorrência a sério tivera, mais uma vez, falta de comparência. O rival do primeiro-ministro era uma daquelas figuras que nem sequer consegue ser levada a sério. O secretário de Estado para Gales, John Redwood, que, mesmo assim recebeu 89 votos (27%), tornara-se conhecido (até fora do Reino Unido!) por, dois anos antes, e ao assumir o cargo, ter sido filmado a fingir ridiculamente que cantava o hino nacional galês, cuja letra nitidamente desconhecia... Há vinte e cinco anos, um palhaço apanhado em tais palhaçadas não tinha grandes perspectivas políticas. Hoje já não há tanto a certeza...

03 julho 2020

AS QUARENTENAS DAS NOSSAS FRUSTRAÇÕES

Vai por aí uma preocupação doméstica imensa, tão estúpida quanto vasta, com os países europeus que anunciam ir sancionar os passageiros oriundos de Portugal com medidas de quarentena. O título do artigo acima do The Guardian, hoje, demonstra como o processo de decisão de quais os países a abranger nada tem de objectivo ou de baseado em critérios científicos. Neste caso concreto do Reino Unido, o que se percebe é que, em vez de serem essas tais regras a decidir quais os países a incluir e a excluir, faz-se ao contrário: desde que a Espanha, a Itália, a França e a Alemanha apareçam nos países incluídos, a partir daí é que se podem definir quais as regras de inclusão e exclusão. Ou seja, em vez de se estabelecerem as regras e com elas se classificarem os países, faz-se precisamente ao contrário: seleccionam-se os países e depois elaboram-se as regras para que os escolhidos sejam incluídos. É uma questão do foro político e não científico. Só assim se pode compreender que um país com uma das piores performances no controlo da pandemia como o Reino Unido, tenha o desplante de, com a maior pompa e circunstância, arrogar-se o direito de estabelecer regras sanitárias a respeito de viagens com países terceiros que exibem performances assaz superiores à sua. Não que isso queira necessariamente significar alguma coisa: há países na Europa que andam a publicar dados a respeito desse controlo da pandemia que estão descaradamente aldrabados, como é, por exemplo, o caso da Grécia, que, para uma população equivalente à belga, portuguesa, sueca ou checa, apresenta apenas uma fracção mínima de casos e óbitos do que os registados em qualquer um desses países (são menos de 10% dos casos portugueses). É mais uma indicação que a questão é política, onde não terá qualquer relevância o rigor científico: até agora, não apareceu nenhum país europeu que se dispusesse a desencadear um incidente diplomático questionando oficialmente a fidedignidade dos dados de alguns dos seus parceiros, por muito implausíveis que sejam. Ao invés e no caso concreto da Grécia, aquele país até se arroga a simpatia de tratar Portugal com condescendência: Covid-19. Grécia vai permitir entrada de portugueses a 1 de Julho! Não se tratasse de turismo e fosse um assunto sério de saúde publica, e eu tenho uma sugestão de onde os britânicos podiam enfiar essa sua lista de países «isentos de quarentena». E contudo e ao mesmo tempo e por cá, há quem (abaixo) noticie toda esta palhaçada do quem-pode-ir-aonde como se o assunto fosse mesmo a sério.

QUANDO A GUERRA DA COREIA SE TORNOU NO MAIS IMPORTANTE ASSUNTO DO MOMENTO

3 de Julho de 1950. O Diário de Lisboa dedica toda a sua primeira e última páginas a notícias sobre o conflito na Coreia. Contudo, muito provavelmente e na semana anterior, a esmagadora maioria dos leitores daquele jornal teriam tido dificuldade em localizar a península coreana num mapa mundo. Este estranha capacidade para que certas notícias irrompam com uma importância desmesurada, como cogumelos, não é propriamente recente. Também é canónico destas situações o facto de que a notícia principal do conjunto, aquela que dava conta d«A marcha das operações» - A ofensiva dos coreanos do Norte foi contida diz o comunicado de McArthur - ser uma mentira grosseira.

02 julho 2020

ELE HÁ HISTÓRIAS QUE TÊM MUITO MAIS PIADA QUANDO AS COMPARAMOS COM A HISTÓRIA


A Convenção Nacional onde se escolheram os candidatos dos republicanos às eleições presidenciais de 1936 teve lugar em Cleveland Ohio entre 9 e 12 de Junho. O candidato a presidente escolhido foi o governador do Kansas, Alfred Landon (1887-1987) e o candidato a vice-presidente Frank Knox (1874-1944), o publisher e co-proprietário do Chicago Daily News*. Agora, imaginemos que nestas cenas (sempre entusiasmadas) do vídeo acima, tínhamos ocasião de identificar o Dr. Goebbels e mais um ou outro dignitário nazi (ou umas caras menos conhecidas dos fascistas italianos) no meio daquela multidão que preenche a sala da convenção... Não há dúvida que se nota, com Donald Trump e com quem o rodeia, como os republicanos têm feito bastantes progressos na sua compreensão das subtilezas da política europeia, a ponto de apostarem na postura ideológica como também no futuro político promissor de André Ventura (abaixo). Alfred Landon apanhou uma tareia eleitoral: nem chegou a ganhar no próprio estado onde era governador, mas essa é toda uma outra história.
* Isto acontecia porque, imagine-se!, os jornalistas/políticos se assumiam e até se dispunham a ir a votos, coisa que não estamos a imaginar José Manuel Fernandes, publisher e co-proprietário do actual Observador a fazer, pois não?...