20 julho 2017

CHEGADA À LUA

20 de Julho de 1969. Pela primeira vez, uma nave tripulada pousava na Lua. Os Estados Unidos haviam vencido a corrida espacial, mas havia que esperar mais um dia (21 de Julho) para a saída dos astronautas Armstrong e Aldrin, para o primeiro passeio na superfície lunar e para a consagração.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (32)

19 julho 2017

NEM SEMPRE O EMPREENDEDORISMO RESULTA...

Esta coisa das expressões da moda nem sempre corresponde à realidade. O jóquei da direita, por exemplo, até accionou o turbo (uma expressão que foi moda há trinta anos) mas, mesmo assim, teve que se contentar com o segundo lugar...

PINTASSILGO ACEITOU

19 de Julho de 1979. Maria de Lourdes Pintassilgo aceita o convite do presidente Ramalho Eanes para encabeçar um terceiro governo de iniciativa presidencial. Questões políticas à parte (o executivo iria passar dali por um mês numa votação em que recebeu mais votos contra do que a favor, mas que não perdeu porque a maioria... se absteve), o que importa realçar no episódio é a questão do género. Como chefe de governo, a nova primeira-ministra portuguesa iria ser a segunda mulher na Europa (a britânica Margaret Thatcher tomara posse há dois meses e meio, em Maio desse mesmo ano) e a sétima em todo o Mundo.

PS - É engraçado inserir o cabeçalho do Diário de Lisboa desse dia, para perceber pelos cabeçalhos colaterais como a comunicação social estava também bandeada... mas nesse tempo para a esquerda. À direita da notícia principal, inquire-se as opiniões de Cunhal e Soares (por essa ordem, presume-se a alfabética, e não a da representatividade dos respectivos partidos...), mas esquece-se Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Celebra-se o fim do regime nicaraguano, o presidente interino já fugiu e as tropas sandinistas rebeldes entraram na capital, no que pretendia ser uma completa reedição do que acontecera quatro anos antes no Vietname. E havia ainda imagens actuais da URSS, não nos fôssemos esquecer dela...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (31)

De todas as aventuras de Astérix onde ele se cruza com Júlio César, esta será aquela em que o romano aparece pior retratado em termos morais.

18 julho 2017

«AGARREM-ME, SENÃO DENUNCIOS-OS A TODOS!»

Exemplo acabado do comentador «Agarrem-me, senão denuncio-os a todos!». Ninguém agarra e a denúncia concreta fica sempre para o próximo programa. Se levássemos Tiago Caiado Guerreiro a sério, então a "paisagem" estaria repleta de "malandros". Contudo, esses malandros têm o benefício de o bom do Tiago nunca chegar a identificá-los, nem sequer a sugerir vagamente de quem se trata. Ao fim de tantos anos e de tantos programas de televisão iguais, a sua presença e o seu estilo marcante mas um pouco já repetitivo tornou-se numa rábula familiar, ao jeito do José Freixo e do seu boneco Donaltim... só que lhe falta o Donaltim. E é pena porque talvez o pato Donaltim concretizasse as suas insinuações...

A PERFEIÇÃO

18 de Julho de 1976. Nas competições de ginástica feminina dos Jogos Olímpicos que se estavam a disputar em Montreal no Canadá, e por uma primeira vez há uma ginasta que alcança a pontuação máxima possível num exercício (de paralelas assimétricas): 10 pontos, a perfeição. O feito foi alcançado por uma atleta romena de 14 anos, Nadia Comăneci. Embora muito mais conhecida pela sua vertente desportiva, a ocasião foi também um momento de afirmação da superioridade da inteligência humana sobre a máquina: como os marcadores que afixavam os resultados só haviam sido concebidos para um algarismo seguido das centésimas, o comissário responsável teve que improvisar aquando da afixação da nota. O resultado pode apreciar-se na fotografia acima: 1,00, aparentemente uma nota miserável e injusta para a prestação da jovem romena que terá causado alguma perplexidade inicial na assistência, até à compreensão do que se tratava e ao romper dos aplausos e aos encómios dos comentadores televisivos. Nem todos os humanos chegaram lá sozinhos mas um computador é que nunca teria lá chegado...

A posterior alteração das regras de pontuação dos jurados, com critérios mais exigentes, tornou estas notas mais difíceis de repetir. A perfeição também é um conceito relativo...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (30)

Admire-se a sabedoria da confissão de Parafusis que poupou a história a mais algumas pranchas de violência desnecessária.

17 julho 2017

O MITO DO PARAÍSO ANDALUZ

«Córdova, que conta actualmente 326 600 habitantes (2016), tinha na Idade Média, a acreditar-se na tradição árabe, meio milhão. Ainda que toda a população da actual Península Ibérica não ultrapassasse 40 milhões de habitantes, só a Andaluzia, no tempo do califado, contava 34 milhões. Com as suas 600 mesquitas, numerosos banhos públicos, bibliotecas (sendo a do califa, com as suas 500 000 obras, a mais importante). Córdova era a Damasco do Ocidente. De noite a cidade era iluminada com lanternas. Setecentos anos mais tarde, o londrino que circulasse de noite precisaria de transportar a sua própria luz. As ruas de Córdova estavam pavimentadas. Séculos mais tarde, o mais pequeno aguaceiro ainda transformava as ruas de Paris num lamaçal. A Mesquita de Córdova, com a sua floresta sem fim de pilares de mármore e de jaspe, ultrapassava, em importância e magnificência, todos os templos muçulmanos do Oriente.»

Carl Grimberg. História Universal, Vol. 6, p. 114
O Al-Andalus, o estado muçulmano edificado na Hispânia europeia desde o Século VIII até aos finais do Século XV, sempre gozou de um estatuto especial benigno na forma como os historiadores ocidentais o descreviam quando em comparação com os outros estados islâmicos daquela e de épocas posteriores. Aprecie-se esta descrição acima de Córdoba, feita nos anos imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial por um historiador sueco. Mesmo para um historiador vindo do extremo boreal da Europa, o califado andaluz, cujo apogeu terá sido alcançado sob Abderramão III (912-961), representaria a versão mais europeia e mais sincrética do islão. Daí a transformá-lo num modelo de convivência entre comunidades religiosas seria apenas um passo mas também uma necessidade de coerência discursiva para a historiografia europeia. O Al-Andalus era tomado como um exemplo de tolerância religiosa, o que pôde levar a excessos interpretativos quando não se tiveram cuidados com o entendimento a atribuir à palavra “tolerância”, indispensáveis quando num contexto medieval. As tendências de há 80 anos agudizaram-se com o alargamento das ciências sociais do após-guerra e o alvo primordial de Os Mitos do Paraíso Andaluz são as descrições descabeladas mais elaboradas de uma sociedade andaluza que acabou descrita tão cosmopolita que até há quem lhe consiga encontrar analogias com a Califórnia do século XXI, nomeadamente no que se refere à emancipação das mulheres e à assunção pública da homossexualidade masculina! É giro, até pode dar um bons artigos de imprensa, mas é um disparate e quando Darío Fernández-Morera desmonta tais ideias disparatadas fá-lo com propriedade porque é ele que ocupa o lado da razoabilidade argumentativa.
Mas se a razão assistirá à tese central de Os Mitos do Paraíso Andaluz, de que “La Convivencia” não se reveste de todos aqueles aspectos benignos de como essa tese costuma ser apresentada, também fiquei com a impressão que o formato escolhido, combativo e recriminador, para a rebater deixou imenso a desejar. Por causa de erros factuais clamorosos cometidos pelo autor quando, por exemplo, dá para exemplo correlativo da mudança da toponímia local pelos conquistadores árabes o caso de Istambul, cidade que mudou de nome mas apenas 350 anos depois da sua conquista pelos turcos e, mesmo aí, por iniciativa de Kemal Ataturk, que é o paradigma do laicismo de todo o mundo islâmico. Ou então quando baralha as classificações das línguas e aparenta os góticos que seriam o idioma dos visigodos com os neo-latinos praticados pelas populações hispânicas durante o processo de formação do estado visigótico na Península (século V). Também por causa de flagrantes erros de omissão: um português consegue acabar de ler aquele livro sem ocupar os dedos de uma mão com referências ao seu país ou então encontrando relatos referentes ao território que veio a ser ocupado por Portugal. Numa das poucas referências e como é quase tradição nos livros anglos, os nossos reis Afonsos tornam-se... Alfonsos. E esta constatação é tanto mais irónica quando se descobre que o departamento onde Darío Fernández-Morera lecciona na Northwestern University é o Department of Spanish & Portuguese... Mas onde a gravidade dos erros se destaca é naqueles que ele assume por descontextualização. Só muito relutantemente o autor vai admitindo que ao longo dos quase 800 anos abrangidos pelo livro se multiplicaram exemplos de dhimmis (cristãos e judeus) a serem chamados pelos monarcas para ocuparem os postos mais importantes da governação. O próprio Darío Fernández-Morera explica que a causa para tal nada teria a ver com a tolerância, antes uma forma de neutralizar o poder das facções em que normalmente se desdobravam as sociedades árabes (e berberes). Mas a verdade é que, apesar dos protestos das elites religiosas e das reacções negativas que se adivinham das camadas inferiores dessa própria população muçulmana, os monarcas hispânicos recorriam a esse género de solução com uma frequência que era desconhecida na Síria, no Egipto, no Iraque, em todos esses sítios onde houve outras cortes califais contemporâneas.
Porém, o processo escolhido por Darío Fernández-Morera é o de dar preferência à documentação e aí, toda aquela que sobrevive acaba por estabelecer a predominância da produção intelectual, sobretudo religiosa. E a sociedade que os ulemás queriam estabelecer não se orientava (como seria de esperar) pelas regras da tolerância religiosa e do pragmatismo político. Um exemplo interessantíssimo é o de Averróis (que o autor não se esquece de designar pelo seu nome árabe - Ibn Rushd – sempre que a ele se refere), que foi um filósofo muito estudado e acarinhado a Ocidente nesse segundo papel, mas que também foi um ulemá zeloso e aí bastante distinto da impressão causada pelo filósofo – no livro faz-se um ferino acompanhamento dos seus comentários sobre variados temas: a jihad (p.26), a apostasia (p.100), o roubo (p.103), as bebidas alcoólicas (p.105), o adultério (p.145), (a condição d)as mulheres (p.156). Defender a tolerância durante “La Convivencia” torna-se um exercício bastante ingrato, para mais quando o leitor tem como referência as democracias ocidentais do século XX. O que se preservou escrito para a posterioridade foram um conjunto de regras do que os seus autores achavam que devia ser a sociedade islâmica ideal, subordinada aos ensinamentos de Alá, e não aquilo que a sociedade islâmica da Hispânia terá sido de facto, nos seus compromissos. É como tentar aferir da razoabilidade das políticas financeiras de Portugal nos últimos 20 anos a partir dos programas de televisão do professor Medina Carreira... E, no entanto, estas revisões em baixa dos valores integradores da civilização islâmica têm-se acentuado a partir dos inícios do século XXI. Mesmo descontando a propensão para a polémica de Darío Fernández-Morera, há aspectos por ele mencionados no livro que só se estranha que só agora estejam a ser investigados com mais rigor. Por exemplo, a tese de que muito do conhecimento da Antiguidade só chegou até nós por ter sido preservado pelos árabes era algo que sempre foi, pelo menos, controverso. Como ali se demonstra num caso em particular, muitas e as melhores traduções que terão chegado ao Ocidente dos clássicos, se não haviam permanecido por cá preservadas durante toda Idade Média, terão chegado depois, no tempo das cruzadas e traduzidas directamente do grego para o latim pela via do Império Romano do Oriente.
 
Os Mitos do Paraíso Andaluz é um livro polémico no sentido académico. É demasiado curto (240 páginas) para aquilo que ambiciona: analisar com profundidade 800 anos de presença muçulmana na Hispânia e desmontar um discurso edulcorado a respeito desse período. Está apresentado de uma maneira demasiado assertiva para não o considerar trendy no revisionismo de tudo o que tenha a ver com o Islão. Será esse revisionismo oportuno? Eu quando ouço o Xeque Munir a esgueirar-se como uma enguia besuntada de manteiga para não condenar os atentados feitos em nome da sua religião, tendo a concordar que sim, apesar de todas as suas limitações.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (29)

Repare-se como na segunda imagem há uma referência ao sinal de transito de aproximação de escola, onde as duas crianças apareciam desenhadas quase à egípcia.

«BOUILLON DE CULTURE»

Hoje, em conversa, acabei por me referir ao Bouillon de Culture, um programa cultural da televisão francesa, que esteve em exibição por lá (Antenne2) durante dez anos (1991-2001), num formato que era fortemente influenciado pelo estilo do seu apresentador, Bernard Pivot, e que por cá serviu de inspiração à programação cultural televisiva dessa mesma época. Mas a edição específica do Bouillon de Culture que valeu a referência (porque me marcou a memória) foi uma dedicada especificamente à cultura portuguesa e que teve a particularidade de ter sido gravada em Lisboa no palácio Fronteira (o marquês, anfitrião, foi um dos convidados da emissão), que acabou sendo transmitido também na RTP em Junho de 1998.

Foi interessante ter encontrado no Youtube dois trechos, ainda que breves, desse programa, ainda que concentrados apenas na intervenção de Manuel Maria Carrilho, à época ministro da Cultura do governo de António Guterres. Apesar da sua brevidade, os trechos foram suficientes para me fazer reviver o desconforto com que recordava a participação do ministro no programa. Até poderíamos culpar o pedantismo condescendente de Bernard Pivot para justificar a atitude submissa de Manuel Maria Carrilho (um ministro que ali parece estar a ser interrogado numa oral pelo professor!), não fora sabermos da arrogância altaneira genética de Carrilho que ele, de resto, tantas vezes manifestou noutras ocasiões.

Lembro-me que na altura me envergonhei do lado de cá do ecrã e, ainda agora, tenho dificuldade em arranjar explicação para aquelas atitudes axandradas que foram ali protagonizadas por pessoas que, supostamente e é por isso que ali estavam, deviam não se impressionar com a sofisticação altaneira do apresentador. Quanto a Bernard Pivot, fez-me lembrar uma definição que o general de Gaulle - nem de propósito! - tinha a respeito dos comunistas: «Fazem o que lhes permitem e permitem o que lhes fazem». Que foi assim, podem ir ver o vídeo de como o mesmo Pivot se relacionou com Woody Allen quando o teve como convidado no Bouillon de Culture, a começar pelo facto de Allen ter conversado na sua língua natal...

16 julho 2017

A REPÚBLICA ISLÂMICA DO PSD

Analisar a actual situação política interna do PSD é um exercício que se assemelha ao equivalente que fiz tantas vezes a respeito da República Islâmica do Irão. Quando se investigam os débeis movimentos de contestação interna que surgem, na esperança de uma abertura, percebe-se que eles são ainda mais radicais e antipáticos do que as correntes predominantes: é que a contestação protagonizada pela deputada Manuela Tender à próxima eleição de Hugo Soares para a liderança da bancada parlamentar do PSD é apenas metade da história; a outra metade da história é a que nos conta que os desejos dessas opiniões menos conformadas do núcleo duro do PSD era para o aparecimento de uma candidatura de Marco António Costa, o carismático «big MAC». As opções de quadros de que o PSD agora dispõe são como os aiatolás: não os há bons; há os maus e a melhor opção é viver com eles porque a única alternativa são os péssimos. Porque, para que as metáforas não sejam apenas iranianas, Marco António Costa a chegar ao poder há de ser muito parecido a ter o partido tomado pela 'Ndrangheta calabresa.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (28)


15 julho 2017

OS SEMPITERNOS «DOUTORES EZEQUIEIS PRADO» DA POLÍTICA PORTUGUESA


Mesmo quem viveu aqueles tempos longínquos de há quarenta anos já se deve ter esquecido como a popularidade da telenovela brasileira Gabriela não foi um fenómeno imediato. A sua estreia teve lugar em 16 de Maio de 1977, teve um acolhimento bastante desdenhoso por parte da intelectualidade instalada e foi só a pulso que, nos meses seguintes, a telenovela (que era transmitida cinco vezes por semana, por volta da hora de jantar) foi ganhando paulatinamente a sua audiência. Só em pleno Verão de 1977 (ou seja, há precisamente quarenta anos) é que ela alcançara o estatuto de estrelato (há quem a designe por Fase de Tematização), antes de se vir a tornar icónica, lá mais para o Outono de 1977, absolutamente obrigatória de acompanhar, alterando os horários dos teatros e as marcações das reuniões parlamentares. Por essa altura até o reconhecidamente circunspecto e sisudo Álvaro Cunhal se permite desculpar-se de um atraso a um compromisso da própria agenda televisiva por ter ficado a assistir à telenovela Gabriela.
Mas o que é interessante recuperar para a história que hoje publico é o carácter pedagógico político de que a telenovela se podia revestir. Apesar da sua origem brasileira (os modelos sociais sul-americanos não são de transposição fácil para a realidade europeia) e apesar da acção decorrer numa sociedade rural que se situava cinquenta anos antes da data da transmissão (década de 1920), havia uma predisposição benévola do auditório para transpor os estereótipos do ecrã para a realidade portuguesa, embora naturalmente distorcidos em função das convicções políticas próprias: para o major Otelo Saraiva de Carvalho, o vilão da telenovela, o Coronel Ramiro Bastos, era uma figura parecida com o General António de Spínola; e do outro lado do espectro político, Ribeiro e Castro do CDS, pedia que não se partidarizasse a telenovela. De facto, lembro-me que, a respeito de Gabriela e em termos de opinião política, acabava por lá caber tudo. E esse tudo acabou varrido da memória, mesmo o que era verdadeiramente interessante.
Tomemos o exemplo incontornável desta personagem acima, o doutor Ezequiel Prado, que na novela era protagonizada pelo actor Jaime Barcelos. O doutor Ezequiel Prado era um insigne causídico de Ilhéus, reputado pelas suas ideias liberais e libertinas e por isso arqui-rival do seu colega Maurício Caires (Paulo Gonçalves - o rosto do conservadorismo moralista na cidade), mas muito superior a ele na exuberância, na pena e na eloquência, que alegadamente melhorava até quanto mais etilizado se apresentasse o advogado, e isso independentemente do valor e da justiça da causa que abraçasse. Era das personagens mais simpáticas do elenco mas nós, os telespectadores atentos que ali tentávamos aprender alguns rudimentos práticos de política, bem depressa compreendemos que contar com o doutor Ezequiel Prado para a disputa política que se travava em Ilhéus era tempo perdido. Todo aquele brilhantismo formal (que o tempo até tornara anacrónico) de nada servia em prol da causa da modernidade representada pelo doutor Mundinho (José Wilker).

Por muito que o acompanhasse com uma lucidez que faltaria aos demais, o doutor Ezequiel Prado era inútil para o combate político que então se travava em Ilhéus mas isso não seria defeito dele, era apenas feitio e opção: as suas prioridades iriam para o bataclã. Era divertido ouvi-lo mas era estúpido levá-lo a sério, algo que, se calhar, nem o próprio faria. Saber distinguir entre os actores e os comentadores políticos foi uma lição antiga que aprendi com Gabriela, que me esforço por não esquecer e que regularmente vejo por aí esquecida, com os papéis misturados. Tome-se o (um) exemplo de Vasco Pulido Valente que (também) de há quarenta anos para cá consegue ofuscar alguns sectores da nossa intelectualidade com o seu brilhantismo também formalmente escorreito e com o teor ribombante das opiniões (controversas...) que emite. As admirações que suscita parecem despertar nele próprio um efeito inebriante que, a contrário do que aconteceria com Ezequiel Prado, fazem-no levar-se a sério nessa sua embriaguez (que não se é apenas) retórica...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (27)

Note-se que, para benefício de um detalhe suplementar da narrativa, é bom que Obélix seja um glutão e coma o resto do bolo: como o bolo estava efectivamente envenenado, assim não há hipóteses de que alguém possa comer ainda os seus restos. Contudo, nem mesmo por uma boa consequência, Obélix se livra de levar uma descompostura de Astérix.

14 julho 2017

A CRÍTICA E O CRÍTICO

Eu concordo com a crítica de Pedro Passos Coelho: o parlamento não é o local apropriado para que António Costa proceda a uma admoestação pública a uma grande empresa portuguesa nos moldes em que a fez. Mas, depois de quatro anos e meio de governo é impossível esquecer o rasto deixado pelo crítico, como será o caso que abaixo se evoca, uma ocasião de um «cumprimento muito amigo e muito especial» a um grande empresário português bem sucedido... Assim como há admoestações que não se devem fazer em público, há cumprimentos que acabam por manchar a reputação de quem os produz.

ALGUÉM SABE POR ONDE ANDA MARIA LUÍS ALBUQUERQUE?

Lá fora brilha o Sol do Verão mas há situações da política portuguesa que parecem embrulhadas num nevoeiro espesso, daquele onde não se consegue ver nada: alguém tem dado nos últimos meses por Maria Luís Albuquerque? Ocorreu-me perguntar por ela depois do episódio recente em que Pedro Passos Coelho se foi inspirar numa publicação do facebook de Miguel Poiares Maduro para a sua intervenção parlamentar na sessão sobre o Estado da Nação. Nada tendo de mau em si, o episódio é, pelo menos, indiciador de que não abundarão ideias nem inspiração - nem se registará satisfação... - entre o staff próximo de Pedro Passos Coelho, ao ponto de se ir buscar algumas (ideias) que devem ter parecido jeitosas ao facebook de um ex-ministro. Uma dessas ideias é uma narrativa nova sobre o ciclo económico depois da sua saída do governo: segundo essa narrativa, a constituição da geringonça terá atrasado a dinâmica da recuperação económica que agora se vive, recuperação essa que o seu governo preparara de antemão. Será plausível, mas só será consistente para quem se dispuser a esquecer que houve um outro discurso, aquele que postulava, precisamente há um ano, que vinha aí o Diabo. Outra inflexão é a das críticas à execução orçamental que, por causa das assertividades de Maria Luís Albuquerque no ano passado, até se tornou objecto de uma paródia, envolvendo a própria e o também presciente José Gomes Ferreira (abaixo). Este ano, as assertividades (que podem ser tão bem fundamentadas quanto as outras...) afiguram-se flagrantemente favoráveis ao governo. Mas é precisamente o encadeado destes factos que torna mais pertinente ouvir a opinião e saber do paradeiro mais recente de Maria Luís Albuquerque, não se fique com a impressão que o presidente do PSD está cada vez mais politicamente isolado...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (26)

13 julho 2017

OS SENADORES MAUS e OS SENADORES BONS ou então OS «ULEMÁS»

Quando acompanhado em continuidade já se sabe que não se pode classificar José Manuel Fernandes como um modelo de coerência. Vêmo-lo aqui abaixo, há menos de três anos, a renegar o conceito de senador e a utilidade de debater as ideias das venerandas figuras caso ele fosse aplicado a uma pessoa como Diogo Freitas do Amaral. Hoje, em contraste, podíamos vê-lo como num êxtase a prestar um tratamento deferencial a António Barreto que desempenha no happening do Observador um papel que não se iria distinguir particularmente da entrevista de Freitas do Amaral que lhe suscitara tão antipática reacção em 2014. Pelos vistos, ele haverá senadores que dizem coisas de que José Manuel Fernandes gosta, enquanto para ter senadores dos quais discorda ele «preferirá os plebeus». Se houvesse um Senado mesmo a sério e ele fosse constituído à imagem dos desejos do publisher do Observador seria uma câmara de gente idosa, decerto, mas também um bocadinho facciosa, ou não será?...
O resultado da entrevista, dada por António Barreto ao Observador, que aparece condensada num encadeado de tweets (a fazer lembrar os processos modernaços agora tão popularizados por Donald Trump...), é um resultado interessante mas dela não se poderá dizer que contenha grandes novidades que justificassem o êxtase prévio de José Manuel Fernandes. Ainda no princípio do mês de Junho passado, António Barreto dera uma outra entrevista ao Expresso que pouco se diferencia desta de hoje. Ninguém, nem mesmos estes senadores (os que agradam a José Manuel Fernandes...) pensará em catrefas de ideias novas e interessantes a cada mês que passe. Por isso, as entrevistas mimetizam-se, desde a descrição dos antigos períodos de há 40 anos, logo depois do PREC, em que houve necessidade da rectificação dos excessos da Reforma Agrária, até à antipatia e desconfiança veemente de António Barreto pelos comunistas, que condiciona a forma como aprecia a situação política actual, a famigerada geringonça.
Mas o que acho mais irónico de todas estas entrevistas, assaz repetitivas e previsíveis, a pessoas com o perfil de retirados a quem prestam atenção de menos (ou então de mais...), é o hábito de qualificar pessoas com aquelas características por senadores. Trata-se de um tratamento de cortesia, visto que as pessoas assim designadas, para além do respeito propiciado pela idade e sabedoria acumulada, na verdade não têm quaisquer responsabilidades legislativas. Ora, não fosse o nosso eurocentrismo e a nossa aversão por conhecer outras civilizações que não a Ocidental e estas pessoas sábias e de pensamento fortemente conservador poderiam ser muito mais exemplarmente tratadas informalmente por ulemás (acima). O Ulemá aparece definido na respectiva página da wikipedia como «um teólogo ou sábio e versado em leis e religião, entre os muçulmanos». Entre os sunitas, a importância de um ulemá é informal e é função da sua audiência e do respeito que suscita entre a comunidade dos crentes, qual espécie de rating da audiência televisiva moderna. No caso concreto de António Barreto até se pode acrescentar que ele tem uma barba a condizer...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (25)

Com Cleópatra não vale a pena discutir: tem mau feitio, mas um nariz tão bonito! Na política portuguesa existem várias figuras femininas proeminentes com as quais também não se pode discutir... mas não por causa do nariz.