26 agosto 2016

VIVA O BENFICA!

Ele há certas crónicas em que se sente como o jornalismo político deste país pode estar tão atrasado quando em comparação com o do futebol. Muito longe vão já os anos em que ainda havia a ousadia de pôr Leonor Pinhão, só por ser jornalista, a escrever sobre um jogo em que participasse o Benfica. Era proverbial a sua falta de objectividade, certo e sabido que, em caso de mau resultado, o Benfica havia de ter saído prejudicado (grosseiramente) pela arbitragem - à antiga - porque os roubos vinham desde sempre. Mas, mesmo que já não se faça disso no futebol e essa função demagógica tenha sido entretanto assignada ao paineleiro radical do programa do dia seguinte (estatuto a que, não por acaso, Leonor Pinhão foi entretanto promovida), no jornalismo político ainda se vive a hipocrisia de fingir não querer perceber quem é que é - e não consegue deixar de ser... - do Benfica, do Porto ou do Sporting. É neste contexto que se devem apreciar alguns textos recentes que Helena Garrido tem vindo a publicar no Observador a respeito da CGD, em que a indignação que ela manifesta com as deficiências das soluções para a resolução do problema da Caixa tem sido manifestamente superior à indignação que ela manifestara originalmente quando da eclosão desse mesmo problema. Ou seja, aparentemente, para ela é pior estar a tentar resolver (ainda que mal) um grande problema, do que tê-lo causado. Não terá lógica mas, se no futebol nada é para ter lógica, este género de discussão política também estará repleta de outras certezas parecidas: a de que os nossos defesas nunca cometem faltas para grande penalidade. Na verdade, intriga-me porque é que os textos de Helena Garrido aparecem na páginas de Economia do Observador, eles nem sobre política são - Viva o Benfica!

O MERGULHADOR

A fotografia é de Nino Migliori (1951) e tem a oportunidade do momento político actual: já vai sendo altura, depois das pressões lá de fora, de Mário Centeno proceder a algumas rectificações no orçamento sob pena de vir a dar um grande chapão quando chegar à água...

FOTOGRAFIA DE MODA

A fotografia de moda é uma arte, mas pode ser cruel para quem está do outro lado da objectiva. Um bom profissional deste lado tem por missão realçar o produto que envolve o manequim, embora para isso tenha que despojar o modelo de qualquer personalidade, preservando-lhe a beleza. A modelo desta montagem é a mesma (Judy Dent) assim como o fotógrafo (Frank Horvat). Mas nesta sequência que aqui apresento (1960/61), acaba por se tornar indiferente para com Judy ver-mo-la coberta de roupa, com um vestido ligeiro ou mesmo sem roupa alguma, a nudez trivializa-se como se nem fosse íntima, como se se tratasse de um manequim de montra apanhado a fumar...

25 agosto 2016

A BATALHA DE RANDENIVELA (25 de Agosto de 1630)

Perdido bem no interior do Sri Lanka, o monumento da esquerda assinala a vitória do exército do reino cingalês de Kandy sobre um exército português comandado pelo governador Constantino Sá de Noronha na batalha de Randenivela que ocorreu há precisamente 386 anos. Num retoque irónico, quem celebra a vitória são os cingaleses, mas quem melhor descreve a batalha são fontes portuguesas e é a elas que a propaganda nacionalista cingalesa hoje recorre para detalhar como foi o feito das suas armas. Pelas descrições, as forças portuguesas seriam um clássico exército colonial, com uns 400 a 500 europeus (que seriam na sua esmagadora maioria portugueses) a enquadrar uns 13.000 soldados locais. Do outro lado, os efectivos do exército de Kandy são estimados em 40.000 (os números podem estar empolados porque por uma questão de reputação os portugueses nunca perderiam batalhas em que não defrontassem um inimigo numa desproporção inferior a 1 para 3...). Encurtando a história da batalha, terá havido traições de algumas unidades ao serviço dos portugueses mas a razão principal para a derrota portuguesa dever-se-á ao acaso. Terá sido a chuvada torrencial inesperada que lhes retirou a superioridade tecnológica das armas de fogo, ensopando-lhes a pólvora. E no entanto, os relatos da campanha são consequentes em reconhecer a competência e a experiência de Constantino Sá de Noronha, que até escolhera o mês mais seco (veja-se o quadro meteorológico abaixo) para entrar em operações. Mas, com um dos antagonistas desprovido do seu poder de fogo, os efectivos superiores e o poder de choque do outro terão pesado decisivamente no desfecho da batalha.
A batalha terminou com o aniquilamento total do exército português e com a morte de Constantino Sá de Noronha. Há nos relatos dos momentos finais uma semelhança marcante com Alcácer Quibir, que acontecera 52 anos antes. Também aqui no Sri Lanka, como acontecera em Marrocos, o desfecho da batalha pode ser assinalado como um dobre de finados das ambições portuguesas em constituir uma possessão com profundidade territorial na ilha de Ceilão, diferente das feitorias e praças-fortes (Goa, Malaca, Ormuz, Macau) que então constituíam o esteio do império marítimo português no Oriente. 25 de Agosto de 1630 poderá ter sido um dia negro para as armas portuguesas, mas parece-me um daqueles casos em que nos devemos orgulhar, nem que seja ao descobrir até onde alguns de nós foram na busca - mesmo por vezes inglória - do sucesso...

O RESTAURANTE DO FIM DA RUA E AS CLASSIFICAÇÕES SUPERLATIVAS DISPARATADAS

Havia uma história antiga que descrevia certa cidade onde o sector da restauração era não só bastante disputado mas onde havia também a particularidade dos concorrentes se concentrarem todos numa mesma rua. A uma esquina da rua, um dos concorrentes proclamava-se em cartaz o melhor restaurante da cidade, para alguns metros adiante um seu rival se proclamar o melhor restaurante do país, seguido de um outro que os batia na imodéstia de se considerar o melhor restaurante do Mundo até que se chegava ao do fundo da rua, que apostava no impacto psicológico dos superlativos dos rivais a que fora submetido o potencial cliente e que procurava pôr senso na escalada, assumindo-se simples e prosaicamente como o melhor restaurante desta rua...
Os superlativos têm isso: se lhes pregarmos uma rasteira, eles estatelam-se. Quando a BBC convocou 177 críticos para escolher o melhor filme do século e anuncia que "Mulholland Drive" assim foi considerado, põe-se um evidente problema de aritmética que nada tem a ver com o número - robusto - de críticos - decerto competentes - a que a BBC pediu a opinião. É que o século XXI ainda não completou 16 anos, o que corresponde a menos de 1/6 da duração normal de um século. Será talvez prematuro dispormo-nos a estas classificações seculares; o filme de David Lynch não sairia rebaixado se, como o restaurante do fim da rua, fosse reclassificado como o melhor mas apenas dos últimos 16 anos. Afinal o século XXI ainda nos reserva mais 84 anos de produção cinematográfica...
E que bem pode superar a que foi produzida até agora. Atendendo ao precedente do século XX, analisando este calhamaço que recomenda os 1001 filmes para ver antes de morrer (publicado em 2003 e ao qual, confesso, nunca prestei demasiada atenção...), verifica-se que só 5 deles foram feitos até 1916...

24 agosto 2016

O drama, a tragédia, o horror... - PARA LÁ DE NEPTUNO (2)

Há precisamente dez anos, a assembleia da União Astronómica Internacional estava ao rubro. Até parecia uma rede social... Defrontavam-se duas concepções distintas para a reclassificação dos planetas. O problema impusera-se com a descoberta encadeada durante os primeiros anos do século XXI de vários corpos celestes com dimensões próximas, mesmo superando, as de Plutão, o último dos planetas clássicos a ter sido descoberto (1930). Havia uma concepção democrática, a que aparece no quadro acima e que estaria aparentemente predestinada a vingar, que se prepararia para alargar o estatuto planetário a outros corpos celestes (12).
E havia uma concepção aristocrática, a do segundo quadro, que pretendia reduzir esse estatuto aos grandes planetas complanares canónicos (8). Na votação, que teve lugar a 24 de Agosto de 2006 e envolveu cerca de 2.500 membros do organismo, acabou por vingar esta segunda tese. Mas já então, mais importante que as razões que haviam levado a privilegiar uma solução em detrimento da outra, o que se impôs na comunicação social foi a vacuidade de anunciar tragicamente que o planeta Plutão fora despromovido do seu estatuto. Isso é que poderia interessar as pessoas! Na descrição ímpar de Artur Albarran: o drama, a tragédia, o horror...

SARKOZY ANUNCIA RECANDIDATURA ÀS PRÓXIMAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS FRANCESAS

É uma pena que tenha de ser assim, porque eu até simpatizo com Sarko, mas outra coisa tem de ser a avaliação das condições políticas para que recomeçasse a carreira. Se outro indício não lhe bastasse, esta rapidez (de 24 horas!) com que alguém pagou e publicitou uma sondagem que dá uma maioria esmagadora de franceses contra a sua candidatura, devia dar-lhe uma dimensão precisa da sua (im)popularidade mas também das antipatias que gerará entre as forças vivas da nação francesa. Depois dos exemplos mais próximos de Passos Coelho e de Mariano Rajoy sucede-se mais este caso de políticos cimeiros que não se conseguem conceber fora de prazo...

23 agosto 2016

O ATLETA HIPERSENSÍVEL, O PÚBLICO SAFADO E O JORNALISTA QUE NÃO PERCEBE PORRA DO ASSUNTO

Há algumas histórias olímpicas que, mais do que o facto de eu não acreditar nelas, tornam-se-me antipáticas para além da inverosimilhança. Foi o caso das lágrimas de Renaud Lavillenie, o saltador com vara francês (acima, à direita, a chorar durante a cerimónia protocolar de atribuição das medalhas e enquanto se escutava o hino brasileiro), que perdeu o concurso da disciplina num último salto de sorte do seu rival brasileiro Thiago Braz que se veio a sagrar campeão olímpico. O que terá provocado as lágrimas, e que foi pretexto para inúmeros artigos condenatórios na imprensa, terá sido a hostilidade da assistência brasileira, que o vaiava, e que o próprio chegou a comparar à que fora manifestada em Berlim em 1936 contra Jesse Owens: «desde aí nunca vimos mais nada assim». É muita ignorância, a par de tanta sensibilidade, a do francês. Nos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980 e na mesma disciplina do salto com vara, a grande disputa final travou-se entre o russo Volkov, que jogava em casa, e o polaco Kozakiewicz. E o público russo portou-se para com este último da mesma maneira antidesportiva como o brasileiro o fez agora no Rio de Janeiro com o atleta francês. A substancial diferença é que foi Władysław Kozakiewicz o vencedor e campeão olímpico. E o que distinguiu tal final de tantas outras finais olímpicas da mesma disciplina foi o gesto - tornado famoso e que Lavillenie, se não conhece, deveria conhecer... - como o novo campeão olímpico saudou na hora da vitória o público que o vaiara (abaixo): com um descomunal manguito - ora aí está quem não chora! As peripécias não acabaram por aí. Já contei a história aqui no blogue. Os soviéticos queriam que o atleta fosse punido, os polacos defenderam-no dizendo que aquilo não passara de um espasmo muscular... Para o que interessa, não me restam dúvidas que, Lavillenie tivesse sido o campeão olímpico, e suspeito que a sua hipersensibilidade dificilmente se teria manifestado e tantas críticas ao comportamento do público brasileiro ficariam por contar. Embora os jornalistas, que tanto opinaram sobre este episódio, fossem obrigados a saber como Renaud Lavillenie é até pessoa de lágrima fácil: ainda há três anos isso já acontecera, só que aí fora a protestar contra a decisão dos jurados... Não só parece mau perder, até faz lembrar a Linda de Suza.

O «MILAGRE ECONÓMICO» DA SEGUNDA QUINZENA DE AGOSTO DE 2015

Foi só há precisamente um ano, mas na opinião pública já se terá desvanecido aquela sensação que se sentiu na segunda quinzena de Agosto de 2015 que no país se vivia um Milagre Económico... O crescimento económico (1,5%...) estabilizara, a dívida pública caíra, até se ventilava devolver a sobretaxa de IRS... O Diário Económico passava as mensagens todas. Constata-se quanto um ano pode ser muito tempo, porque fora precisamente um ano antes, em Agosto de 2014, que o banco Espírito Santo explodira e sobre a evolução dessa situação e sobre a situação da banca portuguesa em geral, nesse radioso mês de Agosto de 2015, a pouco mais de um mês das eleições, parecia não haver grande coisa que o governo quisesse que fosse dita...
Um ano depois desse milagre gorado, este outro governo a esses costumes nada tem dito. Concentra-se na banca, o enorme buraco que havia permanecido semi-escondido. Mas os indicadores económicos e financeiros permanecem medíocres, piores que os herdados, o que mudou substancialmente foi o teor da cobertura noticiosa desta tal imprensa da especialidade. Este cenário vai implicar significativos desvios na execução orçamental. Agora já se vai tarde para rectificar seja o que seja. Os outros sempre tinham razão quando insistiram com o actual governo para rectificar as contas públicas, porém o que os outros não têm é moral para se fazerem obedecer depois da benevolência que deram mostras para com os exercícios do governo anterior...

22 agosto 2016

AS CONTAS DO COSTUME

Todas as olimpíadas, de quatro em quatro anos, lá vem o quadro recalculando a atribuição das medalhas com o lirismo - e a ignorância - do costume. O exemplo canónico é o da União Europeia, cujos atletas agregados no Rio de Janeiro terão ganho quase o triplo das medalhas da equipa dos Estados Unidos. Também existe uma outra versão, igualmente lírica mas mais nostálgica, que é a de somar as medalhas alcançadas pelos atletas dos países da antiga União Soviética. Também aí, o resultado hipotético, com as 142 medalhas conquistadas, seria superior ao dos Estados Unidos. É um cálculo engraçado, mas quem conheça um mínimo de regras olímpicas, sabe que quaisquer conclusões que se queiram extrair do exercício, arriscam-se a ser um disparate. O busílis está nas condições de acesso aos jogos. Se concorressem unificadas, a União Europeia ou a União Soviética, como acontece com os Estados Unidos, apenas poderiam apresentar uma selecção por cada modalidade. A selecção da União Europeia até poderia ganhar o torneio de andebol masculino mas não poderia conquistar simultaneamente as medalhas de ouro (Dinamarca), prata (França) e bronze (Alemanha). A acrescer a isso, cada modalidade limita o número de atletas de cada equipa que podem competir em cada evento desportivo: são, por exemplo, três no atletismo, dois na natação, um na vela. Assim, a disputa travar-se-ia muito mais acirradamente na pré-selecção para os jogos (que é o que acontece com a equipa norte-americana) e dificilmente, apenas para concretizar a ideia, os seis (que aí já poderiam ser apenas três) concorrentes soviéticos à categoria de 105 kg da halterofilia masculina poderiam ter o aspecto sortido daqueles que foram os medalhados: um usbeque (ouro), um arménio (prata) e um cazaque (bronze). Em suma, nessas simulações não se comparam dados semelhantes. Uma hipotética equipa olímpica da União Europeia ou da União Soviética ressuscitada não teriam tido condições de alcançar os mesmos resultados que o somatório das equipas nacionais. Os ciclos olímpicos passam, as contas repetem-se, prestam-se estas mesmas explicações, e o que ainda não descobri se será por ignorância ou por malícia que nunca vejo esta ressalva assinalada...

UMA SESSÃO PARLAMENTAR NA ASSEMBLEIA NACIONAL

Assembleia Nacional, Lisboa, 5 de Dezembro de 1972. A sessão desse dia foi animada por um discurso do deputado Manuel José Homem de Mello (na fotografia da esquerda) visando indirectamente o deputado João Pedro Miller Guerra (à direita), elemento constituinte daquela que era conhecida informalmente por ala liberal. Sem nunca nomear os visados, o orador criticava os autores de certas odes à liberalização política, panaceia universal susceptível de sarar os males de que padecemos. A opinião de quem discursava divergia: crises sempre as houvera em Portugal, para as vencer o que sempre fora preciso fora força de ânimo e união. Ora na situação actual o país não só não estava preparado como viria a sofrer os mais graves reveses se, nesta fase crucial, enveredasse por experiências políticas portadoras do germe da desagregação e instabilidade. E prosseguia o deputado Homem de Mello, à época também director do vespertino A Capital: A democracia não se decreta, merece-se. Nem se impõe, conquista-se. Merece-se através do civismo das populações, da preparação consciente das elites, da unânime aceitação das regras do jogo político. Mas o mais interessante e significativo do discurso do deputado Homem de Melo não foi propriamente o detalhe das palavras do orador, foi o facto de elas terem servido de estopim para três interrupções do seu colega Miller Guerra, cujos diálogos com Homem de Mello, muito vivos e significativos pelas opções filosóficas e ideológicas subjacentes, a seguir se transcrevem:

Miller Guerra: - V.Exª. referiu-se àqueles que laboram num grave erro ao pretenderem a liberalização. Não é verdade?
Homem de Mello: - Eu não disse exactamente isso.
Miller Guerra: - Nesse caso, peço desculpa.
Homem de Mello: - Eu disse exactamente que temos, nestes últimos dias, voltado a ler e ouvir certas «odes» à liberalização política, panaceia universal susceptível de sarar os males de que padecemos e que laboram em grave erro quantos assim pensam.
Miller Guerra: - Muito obrigado. É exactamente a mesma coisa que apontei tendo a mais a referência às odes.
(Risos)
Homem de Mello: - Mas as «odes» por vezes são importantes.
Miller Guerra: - Não contesto. É uma opinião que respeito e a de muita gente, também respeitável. Mas protesto, permita-me a expressão, contra o que V.Exª. disse ao afirmar que o país não está preparado.
Há 50 anos que oiço dizer que o país não está preparado. Admiro-me imenso que 50 anos de pedagogia política constante não nos tenha preparado.
Pergunto a V.Exª. por que se espera para fazer essa preparação? Ou melhor, para preparar o país, visto que ele não está preparado nem parece por este caminho que chegue a estar.
Homem de Mello: - Sr. deputado Miller Guerra, pois eu admiro-me também com V.Exª. por o país não estar preparado, mas o problema consiste em se saber se está ou não preparado. E eu respondo que não está.
Miller Guerra: - Eu, sob pena de insistir num ponto já muito batido, repito: o país não está preparado porque não o prepararam. É o país que é incapaz de se preparar ou são os pedagogos que são incapazes de o ensinar?
Homem de Mello: - Eu limito-me a frisar que V.Exª. acaba de concordar que o país não está preparado.
Henrique Tenreiro: - V.Exª. que é pedagogo podia ensinar-nos alguma coisa...
(Risos)
Miller Guerra: - Tem razão o sr. almirante Henrique Tenreiro. Sou pedagogo por profissão mas não sou pedagogo político. Se fosse pedagogo político há muitos anos que o país estava preparado para a liberalização. Tínhamos hoje, em vez da situação presente, uma democracia.
Homem de Mello: - Sr. deputado Miller Guerra, mas não há pedagogia com efeito retroactivo?
(Risos)
Miller Guerra: - Não insisto. Perece que já está bem claro o meu pensamento e o de V.Exª.
Cunha Araújo: - 50 anos são muito na vida de V. Exª., mas não são nada na vida de uma nação.
Homem de Mello: - Dizia eu que a democracia...
Mais adiante o deputado Homem de Mello falou da defesa do interesse comum para fundamentar os seus pontos de vista. E novamente Miller Guerra:
Miller Guerra: - V. Exª. dá-me licença?
Homem de Mello: - Com certeza.
Miller Guerra: - É justamente a bem do interesse comum que eu desejo a liberalização.
Homem de Mello: - É justamente a bem do interesse comum que entendo que devemos aguardar por uma maior liberalização.
Vozes: - Muito bem!
O orador prosseguiu, empregando na sua argumentação a expressão “sacrificar o acessório”.
E por uma terceira vez:
Miller Guerra: - V.Exª. dá-me licença mais uma vez? Prometo que seja a última, pelo menos por hoje.
Homem de Mello: - Faça favor.
Miller Guerra: - Diz V.Exª. que é sacrificar o acessório. Eu acho que a liberdade é essencial e não acessória.
Homem de Mello: - Eu acho que o que é essencial é o interesse colectivo, muito mais importante do que a liberdade.
Vozes: - Muito bem!
Miller Guerra: - Isso é vago.
Homem de Mello: - É tão vago como a liberdade.
Miller Guerra: - Está enganado.
Homem de Mello: - Não estou, não.
Miller Guerra: - Depende de quem define a liberdade.
(Baseado na transcrição dos trabalhos parlamentares que foi publicada na edição do dia seguinte do Diário de Lisboa).
Menos de ano e meio depois dava-se o 25 de Abril de 1974. A sessão da Assembleia desse dia foi muito curta, teve quinze minutos... Antes disso, uns escassos dois meses após a troca de palavras, em Fevereiro de 1973, Miller Guerra renunciaria ao seu cargo de deputado. Terá sido uma cena interessantíssima, mas dessa pouco se soube, porque quase nada pôde ser publicado. Mas o percurso político que os dois antigos deputados vieram depois a ter sob o novo regime democrático pouco refletiu as posições filosóficas sobre a liberdade que haviam sido adoptadas por cada um deles durante o interessantíssimo debate acima transcrito. Posições amadurecidas, qualquer deles era um homem feito, Miller Guerra tinha 60 anos, Homem de Mello 42. 
 
João Pedro Miller Guerra (1912-1993) veio a ser deputado à Assembleia Constituinte (1975-76), tendo sido eleito pelas listas do Partido Socialista. O seu melhor momento nessa câmara terá sido a ocasião em que pretendeu ler o mesmo discurso de renúncia que pronunciara na Assembleia Nacional, e que ele considerava mais actual que nunca, porque as condicionantes à liberdade, outrora representadas pela Acção Nacional Popular (ANP), eram então protagonizadas pelo lado oposto do espectro político, pelo Partido Comunista Português (PCP), em pleno PREC. Mordendo o isco, e numa situação repleta de ironia, Octávio Pato calçou os sapatos que outrora haviam pertencido a Henrique Tenreiro na contestação. Depois disso, a caminho dos 65 anos, Miller Guerra desapareceu discretamente da ribalta política.
 
Manuel José Homem de Mello (1930-   ) teve que fazer o seu caminho das pedras. Como deputado em exercício a 25 de Abril de 1974 teve os seus direito políticos cassados por alguns anos. Voltou à superfície depois disso, em meados da década de 80 e curiosamente sob a égide desse mesmo Partido Socialista que acolhera Miller Guerra. Mas, mais do que o Partido, Homem de Mello tornou-se conhecido por gravitar à volta de Mário Soares. Tornou-se um autor prolífero. Não consta é que continue a considerar que o interesse colectivo seja mais importante do que a liberdade...

É uma falsa questão apontar a pessoas como Homem de Mello o facto de eles terem mudado de opinião. Aí, é pacífico constatar que todos mudamos de opinião, que só os tolos é que não mudam de opinião. Mas a verdadeira questão é outra: é o quando, as circunstâncias e as motivações que levam as pessoas em geral e essas em particular a mudar de opinião, que nestes casos oportunistas nunca parece resultar de um profundo e genuíno trabalho de reflexão interior... Ou na definição imorredoura do meu pai, destinada a qualificar este género de pessoas interesseiras (que importa não deixar esquecer como o foram): eles foram da outra, são desta e hão de ser da próxima...

21 agosto 2016

AS DUAS LEGENDAS POSSÍVEIS PARA UMA CENA DA HIPERACTIVIDADE DE MARCELO

Tanta tem sido a hiperactividade demonstrada pelo presidente Marcelo Rebelo de Sousa que esta fotografia se pode prestar a duas legendas alternativas e distintas (e acredito convictamente que, se o próprio Marcelo nos ler, ele próprio sugerirá uma terceira...):
 
a) ou Marcelo há-de se deitar na cama que fizer com esta sua actividade frenética;
b) ou então é Marcelo a fazer a cama a um outro vulto da política portuguesa.
 
Acrescente-se, para o primeiro caso, que a cama é de casal, alimentando os novos rumores veranis da imprensa cor-de-rosa; e para o segundo caso, que, se a cama estiver a ser feita para Pedro Passos Coelho, a solidariedade de pertencerem ao mesmo partido mereceria a atenção de Marcelo deixar lá um chocolatinho em cima da almofada...

ZIKA OLÍMPICO

Agora que os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro se aproximam do seu fim, adivinhe-se o que vai acontecer neste futuro próximo à densidade das notícias e fotos que apareceram publicadas a respeito do vírus Zika. Quantos fotografias de bebés afectados pela microcefalia teremos oportunidade de continuar a ver nestas semanas que se seguem, agora que a dinâmica noticiosa demonstra que os haverá por toda a parte, incluindo em cidades civilizadas? Ou querem ver que tanta preocupação com a saúde pública tinha um outro objectivo, o Rio de Janeiro, um objectivo bem preciso e razões completamente diferentes?!...

EURO - como é que uma banal moeda ameaça o futuro da Europa

O Euro tornou-se o grande pomo de contenda capaz de dilacerar a Europa. E Joseph Stiglitz é um daqueles Nobel (Paul Krugman é outro...) que adora dizer coisas que se escutam com a amplificação derivada de ter recebido o prémio. Acabou de publicar o livro acima. E a revista The Economist fez do livro a recensão que se pode ler abaixo. Não é demasiado elogioso mas acaba dando-lhe razão no essencial: Sem uma revisão do que existe, o Euro parece garantido ao fracasso e que um divórcio amigável seria preferível à situação actual, que já está a colocar em risco tudo o que foi alcançado até agora em termos de integração europeia. Já que estes livros nunca são para ler, mas apenas para se dizer que se leram, neste caso ao menos que se tome em linha de conta estas duas conclusões...

Aqueles que estejam em busca de um antídoto para as ansiedades que advêm do voto britânico pelo abandono da União Europeia devem evitar o último livro de Joseph Stiglitz. O tópico é o Euro, que tem sido a maior fonte de preocupações para a Europa e que, a crer na sua análise, vai continuar a sê-lo. É um assunto robusto, adequado a ser tratado por um economista que ande nas bocas de toda a gente. Stiglitz é um dos laureados com o prémio Nobel, é um dos economistas cabeça de cartaz do Banco Mundial e já escreveu alguns livros com a sua dose razoável de presciência, nomeadamente “Globalisation and Its Discontents”, publicado em 2002.

O argumento principal do seu livro mais recente é que, pela evolução corrente das coisas, o Euro vai tornar-se um fracasso – e que, de facto, estava fadado para isso desde o seu início. Está associado a taxas de câmbio e de juro fixas para o conjunto dos países membros que adoptassem a moeda, o que significa que eles têm que abdicar da opção da desvalorização em tempos difíceis. Para compensar, os arquitectos do Euro deviam ter criado outras mecanismos tais como títulos emitidos em conjunto, um apoio recíproco aos depósitos bancários ou um fundo comum para financiar o desemprego, para que os custos de rectificação de cada economia fossem compartilhados pelas outras. Em vez disso, o fardo recai em cada país individualmente através de políticas austeritárias como a subida de impostos e a redução de salários. Os resultados foram os piores na Grécia, onde o rendimento nacional se reduziu em um quarto desde 2007 e onde a taxa de desemprego é de 24%. Joseph Stiglitz pensa que ainda se vai a tempo de corrigir isso. Mas um divórcio amigável seria preferível à situação actual, que já está a colocar em risco tudo o que foi alcançado até agora em termos de integração europeia.

Um grande bocado do livro é dedicado a criticar os decisores políticos e a forma como têm tentado resolver a crise do Euro. Joseph Stiglitz contesta correctamente a análise de culpar-a-vítima pelo fracasso do Euro, que é a que se costuma ouvir correntemente na Alemanha. Os superavits comerciais persistentes da Alemanha e os amplos deficits da Espanha, Portugal e da Grécia são dois lados de uma mesma moeda. Na realidade, numa circunstância em que a procura agregada escasseia, a contenção parcimoniosa dos alemães, longe de ser virtude, acaba por se tornar na maior razão para o fracasso, na opinião de Stiglitz. Ele defende o remédio que foi pela primeira vez proposto por John Maynard Keynes de forçar as economias credoras a ajustarem-se tributando os seus superavits comerciais. Mas na correcção dos desequilíbrios, Stiglitz dá demasiada pouca importância aos erros cometidos pelos países em crise. O livro tem outras deficiências. O tom estridente e as auto-referências em excesso vão cansar muitos leitores. Se as frases contendo as palavras “eu” ou “meu” fossem apagadas o livro tornar-se-ia substancialmente mais fino. Há passagens em que parece que as misérias da zona Euro derivam de sinistras forças corporativas e não de um idealismo desconchavado. Argumentos similares repetem-se em vários capítulos, o que é irritante e também sintoma de uma má estruturação global do livro.

Joseph Stiglitz não é o primeiro economista a apresentar perspectivas sombrias sobre o devir do Euro, embora seja evidente que ele favoreça o seu sucesso. Uma avaliação mais alargada das responsabilidades pela confusão em que se encontra a zona Euro não iria contrariar os principais argumentos do autor; pelo contrário, reforçá-los-ia. Ajusta-se que no final ele apresente a história do Euro como uma tragédia: “Foi criada com a melhor das intenções por líderes visionários cujas visões estavam nubladas por uma compreensão imperfeita do que seriam as implicações de uma união monetária”. É pena que este tom tão desapaixonado não conste dos capítulos iniciais da obra. Joseph Stiglitz está no seu melhor quando da sua frieza analítica e é do mais cansativo quando ajusta contas pessoais. Porém, no essencial, tem certamente razão. Sem uma revisão do que existe, o Euro parece garantido ao fracasso.

20 agosto 2016

GOA A DOURADA

Cinquenta anos depois da incorporação na Índia, este mapa que mostra, segundo o censo de 2011, a proporção de cristãos existente nos vários subdistritos (taluka) do estado indiano de Goa, constituirá um bom auxiliar para evidenciar alguns aspectos da presença portuguesa de 450 anos (1510-1961). A percentagem de cristãos em Goa tem vindo a decrescer sustentadamente, desde os 34% contados no censo de 1971 (o primeiro a ser realizado sob a égide da Índia - e que, ao contrário de Portugal, não teria qualquer razão para empolar o número de cristãos) até aos 25% que foram apurados neste último censo de 2011. Note-se porém a heterogeneidade da distribuição, de como as cores mais carregadas coincidem com as talukas junto à costa e próximas do estuário combinado do Mandovi e do Zuari. Em geral, correspondem às Velhas Conquistas, aquelas que foram realizadas originalmente no Século XVI por Albuquerque e os seus sucessores imediatos. Se o Império português no Oriente chegou a ser enorme por causa das rotas comerciais que controlava, constata-se que nem mesmo ao redor da sua capital, Goa, a Dourada (como era então apelidada), os portugueses tinham os recursos humanos, os meios materiais ou a vontade política para se expandirem territorialmente de forma significativa. As velhas conquistas são menos extensas que o menor dos distritos portugueses. Coisa outra foi o esforço alocado, pela evangelização, na aculturação dos habitantes. Notável nesse aspecto, é ainda hoje o caso da taluka de Salcete - cuja capital é Margão. Ao longa da costa do Malabar, é a unidade administrativa em que a proporção de cristãos é mais elevada, chegando os cristãos a constituir a maioria absoluta da população. Essa proporção de cristãos ainda é mais acentuada (75%) nas áreas rurais, numa demonstração de como o cristianismo permanece enraizado naquelas paragens.

MUITA FRUTA FRESCA, MAS SOBRETUDO O KIWI

...Abacate, abrunho e pêra francesa, romã, framboesa, kiwi... (sobretudo o kiwi...)

Recorde-se que Dina, a voz do kiwi, é também a voz do hino do CDS/PP

19 agosto 2016

BEIJOS DE GUERRA

O autor das fotografias até é o mesmo - Alfred Eisenstaedt - e o período em que foram captadas é também o mesmo - o da Segunda Guerra Mundial, a fotografia da esquerda data de 1943, a da direita de 1945 - mas tudo o resto as diferencia, mostrando como os beijos que se trocaram durante a guerra, por muito repetidos que fossem, também tiveram as suas nuances. Um deles é casto (na testa) e contido, o outro descarado (na boca) e exuberante. Talvez porque o primeiro assinalasse o retorno à Guerra (estava-se em 1943), e o outro o fim dela (Agosto de 1945). Há uma cumplicidade no casal da esquerda que não é evidente que exista no da direita. Também haverá as diferenças sociais a explicar outras diferenças, sobretudo na forma de se estar: o soldado parece ser um oficial (não só pelo boné mas também pelo jornal que leva debaixo do braço...) enquanto que o marinheiro, pela ausência de distintivos na manga, não passará de um simples marujo. A fotografia da direita tornou-se muito mais popular do que a outra, mas uma boa fotografia, tem sempre qualquer coisa interessante para nos contar, desde que tenhamos o tempo e o engenho de a saber ver.

PORTUGAL vs. AUSTRÁLIA (como o preconceito combinado com a ignorância cria disparates indestrutíveis nas redes sociais)

Já há alguns anos que subsiste nas redes sociais esta comparação descabida entre as dimensões da representação parlamentar em Portugal e na Austrália. Hoje tornei a dar com ela no facebook, quiçá preparada para uma nova (e irritante) ressurgência. Vou ser apenas mais um de uma interminável série que tem tentado argumentar ingloriamente contra este disparate desde as aparições anteriores. Vamos a ver se um quadro (abaixo) ajuda. Onde se explica que, na verdade e ao contrário da nossa que é unicameral, a representação parlamentar australiana tem duas câmaras, uma com 150 representantes e a outra com 76 senadores e que, a haver comparação a esse nível, é o somatório dos membros das duas câmaras que se deve comparar com os 230 deputados portugueses. Como se vê, os números equivalem-se nos dois países (226 e 230). Mas não é tudo, nem o principal. O que também há que contar, e que faz a diferença substancial são os parlamentos estaduais, que são fundamentais no caso australiano, já que o país é uma federação de seis estados e dois territórios. No caso português esses parlamentos só existem nos casos das duas regiões autónomas. A esse nível haverá naturalmente seis vezes mais representantes na Austrália do que em Portugal (614 e 104). E é por isso que no computo global o número de representantes australianos é afinal duas vezes e meia superior aos portugueses. Devia bastar. Mas, pelos comentários indignados e concordantes que se seguem à corrente republicação daquela coisa lá em cima, quando os preconceitos se combinam com a ignorância, constata-se que tais disparates parecem tornar-se indestrutíveis para a eternidade.

18 agosto 2016

A ESSÊNCIA DO JORNALISMO OLÍMPICO

Há um par de dias assisti a uma entrevista televisiva deste atleta olímpico de taekwondo a um punhado de sopés de microfone sôfregos por medalhas e, pelo menos nessa disciplina de corrigir, moderar e refutar imbecis, ganhou para mim uma medalha virtual, porque lhes deu uma merecidíssima tareia - houve mais (e não melhores) perguntas do que a que é feita neste vídeo. Mas, por causa disso, também não seria difícil desconfiar que a sua popularidade entre a comunidade jornalística a cobrir os jogos do Rio pudesse ser não muito elevada. Como acima se comprova por esta apreciação à sua participação que foi feita por um cretino qualquer que escreve no jornal Record. Deu-lhe a medalha de lata... Eu não vi o combate, não aprecio taekwondo e estou-me cagando para o Record (lamento, mas não há outra expressão que traduza com igual rigor aquilo que penso da informação dita desportiva portuguesa). Mas quem não se devia estar cagando para o Record é quem lá trabalha. Porque os tempos mudam e a continuarem a adoptar esta atitude eles correm o risco de perderem o sítio onde trabalhar. Porque a essência da coisa e o que lhes convirá mais, é os jornalistas fazerem com que nós gostemos dos atletas olímpicos, não que fiquemos a detestar os jornalistas que fazem a cobertura dos eventos onde esses atletas participam.

PRESENÇA E PROPAGANDA DA ALEMANHA DURANTE OS ANOS DE GUERRA (1939-1945)

O local seleccionado pela Alemanha para sedear a loja que promovia a sua causa durante os anos da Segunda Guerra Mundial - a esquina entre o topo da Rua do Carmo e o início da Rua Garrett - ainda hoje é um local comercialmente muito valorizado do centro da capital. Era como se se tratasse de outra embaixada, que o prestígio da causa do Reich perante os portugueses também estava em jogo.
Curioso também apreciar a sua propaganda, que nos exemplos que aqui se incluem nos aparece mais interessada em denegrir os britânicos - aqui designados, à boa maneira coloquial portuguesa de então, por ingleses - do que propriamente em promover as hipotéticas vantagens comparativas dos alemães.
E quando se realçam essas vantagens comparativas (futuras), como acontece no exemplo acima (onde o contraste é entre a Inglaterra e não a Alemanha, mas o Continente), a argumentação pró-Eixo de há 75 anos tem ressonâncias que nos fazem lembrar a causa actual da União Europeia.