23 fevereiro 2017

A ALEMANHA FALA!

O padrão parece estender-se desde a propaganda mais primária da Geringonça (à esquerda) até à opinião económica abalizada de Ricardo Paes Mamede (à direita): aquilo que é dito na Alemanha, por ser dito na Alemanha, revestir-se-á de um carácter incontestável. Desta vez refiro estes exemplos porque aquilo que está a ser citado se enquadra no discurso político governamental de cá. Da Geringonça é óbvio que não, mas, de Ricardo Paes Mamede, exigir-se-ia uma justificação mais desenvolvida para o acatamento da opinião do dito instituto - alemão - DIW, para além da chancela simples da sua nacionalidade. É assim um instituto tão reputado? Então realce-se academicamente o seu trabalho e não somente a sua nacionalidade. Senão, depois não se deve estranhar que, nesta guerra de opiniões, os assuntos sejam debatidos superficialmente porque, para os refutar, é simples e não há nada mais igual a um alemão do que ir arranjar outro alemão... como, por exemplo, o famosíssimo Herr Schäuble! Que diz coisas nos antípodas destas e esse, ainda por cima, é ministro. E com isso, todos fazemos uma triste figura!

O BOMBARDEAMENTO DE ELLWOOD

Hoje comemoram-se os 75 anos do bombardeamento das costas da Califórnia pelo submarino japonês I-17, episódio relativamente obscuro da Segunda Guerra Mundial que se veio a celebrizar anos depois, quando foi reproduzido em jeito de paródia no filme 1941 - Ano Louco em Hollywood (1979). Na realidade, foi já em 1942, a 23 de Fevereiro e pelo fim da tarde (19H00), que se deu o incidente que veio a ficar conhecido por bombardeamento de Ellwood e que inspirou uma correspondente no filme. O alvo dos tiros do canhão de 140 mm único do I-17, o submarino comandado pelo capitão Kozo Nishimo, foi uma refinaria e um depósito de combustíveis...
...e não propriamente um parque de diversões como acontece no filme mas, de acordo com os relatos, o resultado foi igualmente inócuo em perdas humanas e ridículo em materiais, senão menos, caso se valorize a espectacularidade da destruição da roda gigante no filme de Spielberg (abaixo). No real, durante uns bons vinte e tal minutos, os japoneses fizeram fogo à vontade - entre uma a duas dúzias de disparos - e no fim a única reacção (se assim a quisermos chamar) do dispositivo de defesa foi a promessa de um ajudante do xerife local que, pelo telefone, prometeu a um dos visados a chegada da aviação. Até hoje, só que hoje chamar-lhe-íamos, à promessa, um tweet de Trump.

22 fevereiro 2017

«IT COULD BE A YUGE PROBLEM»

Depois do anúncio da descoberta de um sistema de sete exoplanetas em redor da estrela Trappist 1, e por causa da possibilidade de que algum dos planetas ora descoberto possa ser habitado, foi de uma outra estrela que eu me lembrei, uma que tem iluminado os nossos dias informativos e que por momentos passou em recato, até regressar brevemente ao estrelato que é seu, por direito... A sério: os americanos (no caso a NASA) têm tanta tendência para se apropriarem de tudo em que se metem que nem destaque foi dado ao facto de que a equipa responsável pela descoberta ser belga, um projecto da Universidade de Liége.

A PROPORCIONALIDADE DAS CRÍTICAS

Já houve tempo em que atribui a culpa à comunicação social, mas já me apercebi que é o próprio estilo como são redigidos os relatórios anuais da Amnistia Internacional a causa principal para que aconteça o disparate noticioso que se pode apreciar acima. O antigo Portugal do Minho a Timor é, todo ele, passível de algum género de censura por parte dos activistas da organização. Para o conjunto, porém, não parece haver uma escala aferida e comparativa do que deve censurar mais em cada país e, por norma, todos os países são igualmente censuráveis e com a mesma veemência. O resultado é que se gera uma diluição dos actos mais condenáveis, e cria-se a aparência que tudo se equivale, aproximadamente. Desde uma ditadura que encosta os seus opositores políticos à parede e os fuzila, até a uma democracia onde há uns polícias renegados que arreiam (e não podiam...) nos detidos. É tudo muito grave, e sendo assim tudo tão grave, o que de facto o é, deixa de o ser. Tanto mais que as ditaduras, tanto mais férreas sejam, tanto mais se costumam estar a marimbar para o que os membros da Amnistia digam ou façam.

21 fevereiro 2017

OS CONDENÁVEIS E OS INCONDENÁVEIS

Por abaixo ter falado de Richard Nixon e de efemérides, vale a pena falar de uma outra que lhe está também associada, embora bastante mais desagradável: a 21 de Fevereiro de 1975 e no seguimento de um dos julgamentos associados às revelações do Escândalo Watergate, o antigo Procurador-Geral dos Estados Unidos, John Mitchell, o Chefe de Gabinete do Presidente, Bob Haldeman, e um dos Conselheiros presidenciais, John Ehrlichman, eram condenados a (pelo menos) dois anos e meio de prisão (até um máximo de oito anos, notícia acima). Só que, para a severidade da sentença, terá contribuído indiscutivelmente a resignação do próprio Richard Nixon, que havia tido lugar seis meses antes. A Justiça pretende ter a reputação de independente, mas a constatação é que são raríssimos os episódios de sancionar quem esteja próximo do Poder. Pensando numa sentença de absolvição de um caso bem recente, será que alguém alguma vez imaginou a possibilidade real de que a irmã do rei de Espanha fosse condenada a cumprir pena numa penitenciária espanhola?...

VISITAS PRESIDENCIAIS

Neste mesmo dia 21 de Fevereiro mas de há 45 anos, o presidente norte-americano Richard Nixon dava início a uma surpreendente, mas também controversa, visita a Pequim e à República Popular da China. Sinal dos tempos, mas também da evolução da geopolítica, uma visita do seu longínquo sucessor Donald Trump vê-se agora envolvida também em controvérsia. Não que isso seja novo, já que quase todos os presidentes dos Estados Unidos, incluindo também o próprio Nixon, tiveram a sua quota-parte de controvérsias quando de algumas deslocações ao exterior. Mas o que é perfeitamente inusitado é o destino desta futura, mas já controversa, visita de Donald Trump: Londres, capital do mais indefectível aliado europeu dos Estados Unidos e onde, aliás, ontem houve um animado debate parlamentar, precisamente a respeito do assunto (abaixo). De uma outra forma, quem sabe se a visita de Donald Trump ao Reino Unido não estará destinada a tornar-se também histórica?...

(Nota: Bom texto evocativo da efeméride de José Carlos Lourinho.) Sobre o resto, reconheça-se que se parecem viver dias históricos, onde se testam os limites da aceitação da Realpolitik pelas opiniões publicadas e públicas. Dos tempos do apogeu do cavaquismo (há uns 25 anos!) lembro-me de uma piada, em que se previa que, fosse Cavaco Silva engolido inteiro por um crocodilo, no Congresso do PSD que se seguisse, o crocodilo era eleito presidente do partido. Também neste caso, o Reino Unido - com acontece connosco, de resto - obriga-se a cortejar o presidente dos Estados Unidos, seja ele quem for e o que for. Agora ajudaria que os eleitores norte-americanos não dificultassem a tarefa, elegendo uma galinha ou um cavalo para ocupar o cargo...

TURISMO, TERRORISMO E OUTRAS ACTIVIDADES ACABADAS EM ISMO

É perfeitamente pertinente especular se muito do que passa por serem sucessos da nossa economia depende afinal numa boa parte de circunstâncias que são alheias ao nosso controlo.
É o contraste absoluto com aqueles governantes que se fazem à fotografia tentando capitalizar como seu um sucesso que a continuação dos factos vem a demonstrar nada ter a ver com a sua acção.
Ainda para mais quando, para além de não terem contribuído em nada para os resultados, o seu diagnóstico da situação se vem a mostrar redondamente errado.
Como político, considero Paulo Portas um bom político embora antipatize visceralmente com a imagem pública que projecta. Como governante, e como se constata acima, é um fiasco.

20 fevereiro 2017

A «OBJECTIVIDADE» DO OBSERVADOR

É preciso ter a objectividade do Observador para conseguir criticar o governo em dias encadeados por algo e também pelo seu contrário: acima, é criticado por se ter mostrado excessivamente optimista nas expectativas quanto ao crescimento económico em 2016 (e eu aí comungo da crítica, não embarco na técnica das expectativas deslizantes ao longo do ano...); em baixo, é criticado por se ter mostrado demasiado pessimista e por nem ter previsto a redução que se registaria no défice orçamental do mesmo ano (esta crítica já eu tenho uma certa dificuldade em compreender - assinada ainda por cima por Helena Garrido, fica-se com aquela certeza que nem no mais óbvio a senhora estará com disposição de dar créditos ao governo).

THE WORLD ACCORDING TO TRUMP (O estranho mundo de Trump)


Serão os tiros do vídeo abaixo exemplos dos atentados na Suécia a que o presidente Trump se estaria a referir no vídeo acima?...

É que, se for assim, os donuts são as vítimas...

19 fevereiro 2017

O PRIMEIRO ATAQUE AÉREO À AUSTRÁLIA

Há precisamente 75 anos, a Austrália sofreu o primeiro ataque registado da sua História. Foi um raid aéreo ao porto de Darwin perpetrado precisamente pelas mesmas esquadrilhas da força aeronaval que, dois meses e meio antes, atacara Pearl Harbor. O comandante das 188 aeronaves era o mesmo Mitsuo Fuchida que se cobrira de glória naquela outra ocasião. No caso e em complemento, os cerca de 60 navios que estavam fundeados no porto australiano vieram a ser atacados também por esquadrilhas de bombardeiros (54) que haviam descolado de bases aéreas de ilhas da Indonésia que entretanto haviam sido conquistadas pelos japoneses.
Darwin era então uma pequena cidade de 5.800 habitantes (em tempo de paz) situada no extremo Norte da Austrália e que era a capital do mais remoto e despovoado dos seus Territórios, o do Norte. Só a expansão militar dos japoneses por toda a Ásia e Pacífico é que lhe conferira subitamente aquela importância estratégica desmedida como potencial porta de entrada para o continente australiano. Aos 242 aviões que os japoneses puseram no ar a RAAF apenas podia opor uma trintena deles. O desfecho do raid era antecipável: toda a aviação foi destruída, 11 navios foram afundados, 25 ficaram danificados, contaram-se 236 mortos e 300 a 400 feridos.
Como em Pearl Harbor, as perdas entre os atacantes foram ínfimas: 4 aparelhos abatidos, 2 mortos. O que distingue o episódio do de Dezembro de 1941 nas ilhas Hawaii foi a sua (não) utilização como elemento de propaganda para mobilizar os australianos. Na Austrália o episódio foi tratado com muito mais discrição, porventura pelo receio que acendesse no público o receio de uma invasão. Este ataque aéreo de 19 de Fevereiro de 1942 foi, aliás, o primeiro de uma longa sucessão deles que, entre Fevereiro de 1942 e Novembro de 1943 tiveram lugar ao longo das costas despovoadas do Noroeste da Austrália. Hoje, quase ninguém sabe que eles tiveram lugar.

O DONALD E O DOPEY

Corrida para Oklahoma (Ruée sur l'Oklahoma, no original) é uma história de BD protagonizada por Lucky Luke (desenhada por Morris, concebida por Goscinny). Data de 1958 mas uma das passagens da história (passagem que compactei abaixo) é prescientemente moderna. É que houve necessidade de organizar eleições para o governo da cidade. Surgiram múltiplas candidaturas, incluindo a do idiota local, Dopey. E os eleitores candidatos, pelo despeito de quererem votar uns nos outros, acabaram por votar - e eleger - Dopey. E depois os eleitores desataram a protestar, enquanto Lucky Luke (que é sempre o paradigma da seriedade) os confrontava com as responsabilidades daquilo que haviam feito. O único aspecto que escapará à analogia é que não sei se o conjunto da sociedade norte-americana já atingiu o patamar de indignação que se vê no penúltimo quadro da história abaixo: é que Donald Trump tem presentemente (e ainda) uma taxa de aprovação rondando os 40%!

POR SER RARÍSSIMO, É QUE VALE A PENA DESTACAR RECONHECIMENTOS DESTES...

O reconhecimento do engano é tanto mais de saudar quanto Paulo Ferreira é um jornalista com um passado onde demonstrou ter mais argúcia botânica do que lógica aritmética, recorde-se este seu artigo no Observador que foi publicado logo a seguir às eleições de Outubro de 2015, ainda a Geringonça era um projecto relutantemente encarado por quase todos nós (eu incluído). E há também o reconhecimento implícito do meu amigo Alfredo Costa que, apesar de não ser pessoa que dê na televisão mas porque havia uma espécie de despique em jogo, é pessoalmente mais importante para mim do que o do Paulo Ferreira... Claro que, neste último caso, vamos seguir para Bingo...

18 fevereiro 2017

A REVOLUÇÃO RUSSA, COMO ELA DEVIA SER CONTADA NA OPINIÃO DE RAQUEL VARELA

De um eloquente texto escrito por Raquel Varela e publicado recentemente no blogue brasileiro Esquerdaonline (de que recomendo a leitura, nem que seja por profilaxia do disparate), recuperei este parágrafo abaixo:
 
"O grande revisionismo deste centenário (fala-se da segunda Revolução Russa de 1917) tem algo de estalinista, curiosamente. Ele faz-se publicando biografias de Estaline, livros, “esquecendo” os dois dirigentes máximos da revolução, Lenine e Trotsky. E todos os outros. Apagando-os da fotografia. E lá para o fim da biografia do Estaline colocar algo como «se tivesse sido Lenine ou Trotsky tinha sido igual». Na profissão de historiador chama-se a isto um «contractual», o «se». Na falta de factos inventa-se um «se»."
 
Na verdade, o contractual tanto se aplicará à tese que Raquel Varela censura como àquela que ela defende: pura e simplesmente nada de taxativo se poderá dizer como teria sido a URSS de Trotsky. E, objectivamente, foi Lenine e não Estaline a mandar assassinar a família de Nicolau II. Eu até posso perceber a racionalidade política de executar o monarca, mas... o resto da família? Discuta-se porém da opinião de Raquel Varela algo que possa ser objectivamente mensurável como será a questão das biografias de Estaline e do esquecimento das dos outros. Consultem-se as páginas da Amazon, a maior livraria on-line, e contem-se as edições recentes em inglês de biografias das grandes figuras comunistas da Revolução de 1917: desde 2010 sobre Estaline publicaram-se 5 biografias: Robert Service (2010), Simon Sebag Montefiore (2014), Oleg Khlevniuk (2015), Robert Payne (2015), Stephen Kotkin (2015); sobre Lenine foram 4: Robert Service (2010), Robert Payne (2015), Catherine Merridale (2016) Victor Sebestyen (2017); e sobre Trotsky outras 4: Robert Service (2010), Isaac Deutscher (2015), Robert Payne (2015), Victor Serge (2016). Sobre Lenine prepara-se a edição para Julho próximo de uns comentários de Slavoj Žižek, um filósofo esloveno marxista muito na moda, mas já nem será isso que mais interessa, o panorama editorial acima desmente completamente a descrição de Raquel Varela de uma cabala que destaca Estaline em detrimento dos muito mais genuínos revolucionários Lenine e Trotsky. O que ela escreveu é mentira, e isso já por si é merecedor do nosso escárnio. Mas também é um disparate, atente-se a algumas outras passagens do texto:

"...hoje as evidências históricas são incontornáveis. Demonstram, ao contrário da tese mediatizada, que há um corte radical entre a política bolchevique (1917-1927) e a política Estalinista (1927-1989)..." "Explico-me. (...) O Socialismo é abundância, a URSS era restrição, escassez." "Celebrar os 100 anos da revolução (...) com a figura tétrica de Estaline dá jeito a quem quer manter a apoplexia intelectual de que não há alternativa aos regimes actuais..."
 
Claro que há e haverá cada vez mais alternativas aos regimes actuais. Mas o que essas alternativas não serão, estou convicto, é recuperações de ideias velhas de cem anos como Raquel Varela parece desejar pelo que escreve. Como, adiante-se, há cem anos as alternativas não seriam recuperações das ideias velhas de 125 anos antes, que seria a referência da Revolução francesa de 1789. O destaque dado a Estaline no encadeamento da Revolução russa acaba por ser o equivalente ao que tem de ser dado a Napoleão no encadeamento da Revolução francesa. Isso goste-se ou não das duas figuras: foram eles os protagonistas da História. Onde não há cegueira combinada com obtusidade ideológica não há historiadoras a reclamar pelo destaque que é dado a Napoleão e pelo injusto lugar modesto na História que é conferido a Danton, Marat e Robespierre... - por muito puros que houvessem sido os ideais destes últimos três.

O PRESIDENTE É MENTIROSO


É muito difícil levar a sério alguém que comete uma galga («...creio que foi a maior vantagem no colégio eleitoral desde Ronald Reagan...»), para depois tentar evadir-se perante a demonstração de que era mentira («...eu estou a referir-me a (presidentes) republicanos...»), até à tentativa desesperada final de desresponsabilização («...deram-me essa informação, não sei, deram-se essa informação...») quanto ficou patente que a galga era loa tanto para democratas como para republicanos. Eu creio que ajudava à seriedade da coisa que se abandonassem os hábitos de designar tais expedientes por inverdades, factos alternativos e eufemismos quejandos. Os números estão errados, os factos são falsos e o presidente é mentiroso.

O DÉFICE CERTO


Paradoxalmente, à luz do que se tem vindo a saber, eu acho que o impacto deste vídeo é bastante pior para José Gomes Ferreira do que para Maria Luís Albuquerque. Ela pertence a um dos clubes, e o que se espera que ela diga não é a verdade antes o previsível antes de qualquer jogo: o Benfica vai ganhar por 2-0, golos de Jonas e Mitroglou. É a ele, como jornalista, que compete preservar a imagem de distanciamento e convencê-la agora, a ela, a vir assumir o clamoroso erro de previsão nos mesmo ecrãs onde disse o que disse acima. Faça o que fizer, está lixado: nem o tenta fazer (o que é bem possível!) e está lixado, tenta-o fazer e, se Maria Luís o mandar ir passear (possibilidade bem elevada!), José Gomes Ferreira está lixado à mesma, porque não o imagino a ele e à SIC, a denunciá-la e a destruir a reputação da antiga ministra das Finanças.

17 fevereiro 2017

AEROPORTO MÁRIO SOARES... E OUTRAS OPÇÕES DO MESMO NOME PARA OUTROS AEROPORTOS E DOUTROS NOMES PARA O MESMO AEROPORTO

Menos de um ano depois de baptizar o da Portela de Humberto Delgado, parece-me não fazer qualquer sentido rebaixar o lugar de Mário Soares na História dando o seu nome a um aeroporto, o do Montijo, que se sabe que irá ser sempre secundário em relação ao principal de Lisboa. Se é para se ser malicioso (o que em Marcelo Rebelo de Sousa, autor daquela ideia, nunca é de excluir...), então já há muito que se podia ter dado o nome de Mário Soares ao Aeroporto Internacional de Macau (acima). Note-se, que já não consideraria mal se, por causa da sua localização ser na Margem Sul, baptizassem o Aeroporto do Montijo de Álvaro Cunhal. Porque, nada destas escolhas podem ser inocentes, seria uma ironia para o antigo camarada Mário "Jamé, Jamé" Lino.

ÍNDIA COLOCA 104 SATÉLITES EM ÓRBITA COM UM SÓ FOGUETÃO


Não é a primeira vez que aqui menciono o assunto, mas esta capacidade indiana de acomodar tudo e de se acomodarem todos num mesmo meio de transporte parece imbatível à escala mundial e continua a maravilhar-me, tanto mais que agora o vemos transposto para a astronáutica. Com impacto para a nossa História, são conhecidas várias narrativas na História Trágico-Marítima de naus portuguesas que, saídas da Índia na viagem de retorno a Portugal, se afundaram por estarem ajoujadas de especiarias para além de um limiar de segurança. Combinado com o desejo lusitano de rentabilizar a viagem e de mais depressa enriquecer a todo o custo, adivinha-se a participação da consultoria indiana qualificada na técnica da estivagem...

16 fevereiro 2017

RECAPITULANDO...

Quem o escreveu não foram fontes facciosas e suspeitas como a Geringonça: a Comissão parlamentar de inquérito à Caixa Geral de Depósitos tomou posse já há sete meses e iria debruçar-se sobre a gestão do banco público desde 2000, sob a presidência do deputado do PSD José Matos Correia. Mas tem sido notório que, em vez dos extensos dezasseis anos de gestão que se propusera originalmente analisar, o âmbito da investigação da comissão se tem focado (ou, pelo menos, tem sido aí que se concentra a atenção mediática) no que aconteceu nos últimos seis meses de 2016 e nos pormenores (reconhecidamente obscuros) da contratação de uma equipa administrativa para o banco que, entretanto, já deixou de estar em funções. Ou seja, a condução dos trabalhos da comissão tem derivado e deixado muito a desejar. Felizmente, quiçá constatando a sua impotência em travar essa deriva, o presidente José Matos Correia apresentou hoje a sua demissão acusando a maioria de esquerda de tentativa sistemática de esvaziar o objecto da comissão. Ou seja, mesmo deixando para lá o reconhecimento do pormenor de que os outros conseguem ainda e sempre bloquear os intuitos dos legítimos vencedores das eleições de 2015, fica-se a saber de uma cabala onde PS, BE e PC impedem que se descubra o que as sucessivas administrações da CGD do século XXI andaram a fazer de errado a ponto de fragilizar a estrutura financeira da instituição. Parece algo transversal ao espectro político, com exclusão (evidentemente) de Matos Correia (e do PSD). E, para quem duvide, esclarece ainda (e sempre) o fiável Observador: «O deputado do PSD fez questão de destacar que, na origem da demissão, “não está saber se os SMS trocados entre António Domingues e Mário Centeno” devem ou não ser divulgados, mas as estratégias “anti-democráticas” dos partidos de esquerda na comissão a que presidiu. Matos Correia explicou ainda que sempre orientou o seu trabalho parlamentar “por princípios” e “não por conveniências” (...)». Grande Matos Correia! Aí está um homem vertical! Para quem acreditar nestas suas palavras...

15 fevereiro 2017

A GERINGONÇA E O OBSERVADOR

Reconheça-se que haverá uma certa simetria de comportamento: a Geringonça não quis noticiar que a operação de colocação da dívida a 10 anos no mês passado (dia 11 de Janeiro) correra mal e o Observador fê-lo (título da metade de cima); e que o Observador se esqueceu (até agora e apesar do anúncio) de noticiar o sucesso da operação a 11 meses de hoje, enquanto a Geringonça se apressou (desta vez) a publicitar o assunto (título da metade de baixo). Mas só seria razoável falar em simetria se Observador e Geringonça pretendessem passar por ser a mesma coisa. Mas não. Uma (a Geringonça) é um blogue engajado ao governo e o outro (o Observador) pretende passar por um jornal on-line. Na verdade, tão diáfana parece ser a distinção prática que, fossem os financiamentos outros, até poderia ser ao contrário: a Geringonça era o jornal on-line e o Observador o blogue anti-governamental. Substantivamente e em termos de facciosismo, ninguém dava pela diferença embora, reconheça-se, o Observador tem mais gente a trabalhar para ele.

LADRÕES EM PAÍSES ONDE «É SUPOSTO» NÃO OS HAVER...

Ben Weytz é um político da Bélgica, daqueles nacionalistas flamengos de direita que não gozam de boa imprensa. É ministro regional (Flandres) da Mobilidade e de mais um outro pelouro qualquer e alcançou os seus quinze minutos de fama nos rodapés da informação mundial quando foi fazer uma conferência de imprensa em prol da utilização da bicicleta e deixou que gamassem aquela em que se havia feito deslocar até lá, algures durante a hora e meia que durou a conferência. A notícia tem mais piada fora da Bélgica porque, desconhecida dos estrangeiros, por lá parece estar banalizada a prática de fanar tudo e mais alguma coisa e os ministros não têm tratamento de excepção. Há uns cinco anos houve um desses episódios que até foi filmado para a televisão, porque a ministra Joëlle Milquet estava precisamente a dar uma entrevista num café quando um artista lhe palmou o iphone. E, mostrando que nem sequer há respeito pelas hierarquias governamentais, há dois anos e meio foi o próprio primeiro-ministro Elio di Rupo que ficou a arder com o seu computador portátil, quando a sua própria viatura oficial foi assaltada(!). Acontecesse isto em Itália ou num outro país da Europa mediterrânica e era uma risota. Como isto aconteceu na Bélgica é uma risota mas é uma outra risota, porque me parece que esta outra risota é das que não servem para corroborar os preconceitos de uma certa organização da Europa... E nem toda porque, contradizendo isso e como se pode ver abaixo por esta BD de Mazel e Vicq, ele até há belgas que têm sentido de humor...