17 julho 2018

«YELLOW SUBMARINE»


17 de Julho de 1968. Estreia mundial em Londres do filme «Yellow Submarine». Sempre o considerei um filme que não se sabe muito bem em que consiste: é uma animação, um musical, ou então o quê? Às cores garridas e às formas bizarras dava-se a classificação de psicadélicas e era de rigor na época. Para cúmulo, havia ainda aquela pressão para que, tratando-se de The Beatles, ter de se lá encontrar "mensagens": evidentes ou subliminares. A esta distância, saudades mesmo de animações musicadas, tenho sobretudo das incursões de Bugs Bunny pelo mundo da música.

16 julho 2018

A «RECUPERAÇÃO» DE UM EXILADO POLÍTICO BÚLGARO

16 de Julho de 1975. Empurrado para uma página interior, a do Desporto, o Diário de Lisboa dá conta daquilo que designa como a "recuperação" (entre aspas) de um atleta búlgaro, «várias vezes campeão nacional» do seu país que fazia dois anos desertara e recebera asilo político na Alemanha Ocidental . Segundo continuava a história, a "recuperação" dera-se porque o exilado cometera o erro de continuar a encontrar-se com «uma amiga» mas em Berlim-Leste, na Alemanha Oriental, um dos países comunistas aliados da Bulgária. A notícia não especifica, mas terá sido certamente a reputada Stasi a "recuperar" o exilado político e a entregá-lo às autoridades búlgaras, onde se encontrava em «regime de detenção preventiva». As ditaduras são sempre a mesma coisa, sejam de esquerda ou de direita. Mas o que vale a pena assinalar é a dualidade de critérios das notícias neste jornal comunista, pois se o exilado em questão fosse, por exemplo, um cantor chileno, e os autores da "recuperação" fossem os espanhóis (então ainda sob a ditadura franquista) era certo e sabido que o Diário de Lisboa não o iria noticiar desta mesma forma ligeira na página interior dedicada às Artes e Espectáculos... Esta coisa das fake news, a adulteração das notícias, não começou com as acusações de Trump; ele deu-lhe foi um novo nome a uma prática que, como vemos, é bem antiga...

COMO SE DONALD TRUMP TIVESSE DADO UM TRAQUE EM PLENA CERIMÓNIA

Esta é a expressão instantânea, não depurada, de Theresa May quando explicava numa entrevista à BBC que o conselho que Donald Trump lhe dera de como conduzir o processo de separação do Reino Unido da União Europeia fora... processar a União Europeia («...sue the EU»). A imagem valerá por mil palavras, tanto mais que novecentas e noventa delas não podem ser ditas, muito menos diante das câmaras da BBC. Mas o que maravilha é a forma quase unânime como a opinião publicada de todo o Reino Unido se solidariza com a sua primeira-ministra, na sua discrição de não arrasar as idiotices de Donald Trump, colocando uma ou duas perguntas pertinentes: a) Em que Tribunal (ou seja, sob que autoridade judicial) o Reino Unido interporia a acção contra a União Europeia?... ou b) Qual a fundamentação do processo, já que a iniciativa da denúncia do contrato foi do próprio Reino Unido quando votou favoravelmente o referendo do Brexit?... Todo este silêncio solidário (mas incomodado) que rodeia um completo disparate, faz lembrar aquilo que a etiqueta e as boas maneiras preconizam quando o convidado dá um sonoro traque em plena cerimónia de gala: a cerimónia continua como não tivesse acontecido nada...

15 julho 2018

«THE SHINNING» TWINS

Assim como no filme The Shinning (1980) apareciam as duas assustadoras (creepy) gémeas oriundas do passado propondo-se brincar com a criança do presente, esta espécie de reencenação de Cimeira Americano-Soviética nos moldes clássicos das realizadas durante a extinta Guerra Fria (para mais a realizar-se cuidadosamente em terreno considerado neutro por esses padrões antigos, como é o caso da Finlândia), tudo isso se torna numa coisa assustadora, não apenas pela pretensão de um bilateralismo mundial que, na realidade, todos sabem que já não existe, como também pelo carácter confuso da agenda do que ali se vai discutir, mas sobretudo pela imagem creepy mundialmente projectada pelos dois protagonistas. Trump e Putin são pessoas desagradáveis e juntos são duas pessoas sinergeticamente ainda mais desagradáveis.

A CONQUISTA DE JERUSALÉM

15 de Julho de 1099. Conquista de Jerusalém pelos cruzados. Foi há 919 anos mas ainda ontem se assinou mais um cessar-fogo na região, embora não tenha a certeza que o problema seja ainda o mesmo...

14 julho 2018

IDOLATRAR A MEDIANIA

Hoje, ao apreciar a prestação da selecção inglesa no jogo de disputa pelo terceiro lugar do Mundial, lembrei-me do que George Best (que, assinale-se, apesar de britânico, jogou pela selecção da Irlanda do Norte) disse certo dia de David Beckham: «Não consegue rematar de pé esquerdo, não sabe jogar de cabeça, não gosta de defender, nem sabe desarmar os adversários, e não marca muitos golos. Mas, aparte disso, é um bom jogador*». O olho experimentado da estrela veterana não se deixava iludir pela promoção de alguém que a afición inglesa queria fazer passar por um seu longínquo sucessor. Entre as várias idiossincrasias dos ingleses (onde se inclui a insistência em conduzir do outro lado da estrada), subsiste esta necessidade da existência de um panteão muito próprio de futebolistas locais cuja valia aparente raramente sobrevive à travessia do Canal da Mancha**. Nesta promoção insuflada de David Beckham registe-se, com simpatia, a coincidência de, sendo um jogador mediano, ter enchido cabeçalhos por ter casado com uma cantora (Victoria das Spice Girls) que também não se distinguiu na sua carreira por causa das suas qualidades vocais...

* He can’t kick with his left foot, he can’t head a ball, he can’t tackle and he doesn’t score many goals. Apart from that he’s all right.”
** Alguém imagina, por exemplo, Wayne Rooney a vingar como grande estrela num clube europeu do continente?

A APRESENTAÇÃO DA DINAMITE NO REINO UNIDO

14 de Julho de 1867. Os acasos da História fixaram este dia como sendo o da primeira demonstração da dinamite no Reino Unido. O patrocinador do evento foi o seu inventor, o sueco Alfred Nobel, e a demonstração teve lugar numa pedreira em Merstham Quarry, no condado de Surrey. Ao contrário do que se possa pensar à primeira vista, o interesse da demonstração foi mais comercial do que militar. Trata-se de uma região mineira, hoje atravessada por dois extensos tuneis ferroviários, e a dinamite queria revelar-se como um auxiliar inultrapassável na perfuração de galerias subterrâneas. Feita a demonstração, os britânicos aceitaram-no com a tradicional relutância em adoptar um invento não atribuível a um dos seus, mas aquelas as famosas barras cilíndricas com mecha que conhecemos viajaram rapidamente para o outro lado do Atlântico, para os Estados Unidos, onde terão constituído um sucesso ainda maior e uma componente substancial para a fortuna amassada até ao fim do século por Nobel. Tanto terá sido o sucesso e tão mais forte terá sido o mito do novo produto, que a dinamite se veio a tornar um adereço cinematográfico recorrente dos westerns, indispensável mesmo quando o sub-género é o dos western-spaghettis. A coolness de Clint Eastwood a acender a mecha com a beata semi-apagada arrancada do canto da boca (abaixo) tornou-se num dos patrimónios de Hollywood, o único pormenor que costuma ficar de fora desses filmes costuma ser a congruência, já que neste filme (O Bom, o Mau e o Vilão) a acção se situa durante a Guerra Civil americana (1861-65), no mínimo dois antes da demonstração de Alfred Nobel que aqui se evoca...

13 julho 2018

A VISITA DE ESTADO E A ANFITRIÃ DISTRATADA

Aqui há ano e meio, em finais de Janeiro de 2017, ainda Donald Trump não aquecera o lugar na Casa Branca e já circulava na internet a Petição acima, apelando a que se evitasse que o recém eleito realizasse uma visita de Estado ao Reino Unido. E, porque as razões aduzidas neste género de iniciativas não costumam impor-se pela precisão e complexidade, aquilo que então ali se podia ler como justificação para a iniciativa era «porque iria causar um embaraço a Sua Majestade, a Rainha.» O assunto foi discutido (e refutado) num debate parlamentar que teve lugar em Fevereiro de 2017, a compasso de algumas piadas adicionais sobre a etiqueta de Donald Trump a tomar chá com a velha soberana, mas isso não encerrou a questão das características de que se revestiria uma futura visita do inquilino da Casa Branca ao Reino Unido. Tanto assim que, quando a visita que hoje se realiza foi anunciada no passado mês de Abril, percebeu-se que houvera um prolongado trabalho de negociação entre as duas diplomacias: a dos anfitriões teve que responder a uma opinião pública muito dividida, anunciando que a Visita seria de Estado, mas enfatizando que não havia nenhuma Recepção de Estado planeada. Eram atitudes, aliás, que apareciam em sintonia com, por exemplo,a intenção do Speaker da Câmara dos Comuns em não permitir que Donald Trump discursasse naquela casa, uma distinção que fora concedida a Barack Obama, e por isso mesmo capaz de irritar Donald Trump e o seu ego até à medula. Theresa May e o seu governo terão feito o que lhes seria possível para contemporizar os antagonismos, até se arranjou um cházinho com a Rainha, mas Trump está a deixar pelo Mundo fora, especialmente quando destes encontros com os seus homólogos, um rasto de comportamentos imprevisíveis: coincidindo com a sua chegada, dá uma entrevista ao tabloide local The Sun, onde crítica o comportamento da anfitriã e elogia o do seu rival Boris Johnson. Há quem se pergunte se atitudes como esta assinalam o fim de um certo estilo clássico de diplomacia, pelo menos nas relações com os Estados Unidos, enquanto por lá continuar Donald Trump. Seja como for, ano e meio de actuação já deram para compreender um padrão de comportamento de Donald Trump: ele tem sido muito mais sacana para com aqueles que querem manter-se seus aliados do que com aqueles que são seus adversários (vejam-se os dois cartoons mais abaixo).

12 julho 2018

PAPEL HIGIÉNICO ARRUMADO EM FORMATO DE MAIO DE 68

É capaz de ser isto que os contestatários de há cinquenta anos compreenderiam por expressões de «a imaginação ao poder». Enquanto a imaginação lá não chega - ao poder - podemos encontrá-la - em estilo contestatário - logo ao lado da sanita...

COMÉDIAS DE SEMPRE

Há cenas da vida política que são como os filmes clássicos portugueses, como «O Pai Tirano» ou «O Pátio das Cantigas». Fazem-nos sempre rir quando os revemos, se não é por uma coisa, é por outra. O episódio abaixo, plantado deliberadamente na altura no Expresso e agora já com mais de dois anos e meio, pode ser levado à conta de uma réplica moderna à divertidíssima cena dos avisos da chegada da filha da Dona Rosa n«O Pátio das Cantigas». De chorar a rir. Centeno é uma espécie de Vasco Santana, mas em magro, e Pedro Passos Coelho tem aquele mesmo estilo sisudo de nos fazer rir como acontecia com António Silva.
Verdadeiramente de ir às lágrimas. Quanto mais tempo passa, mais piada tem...

11 julho 2018

O COMBATE DO TEJO

11 de Julho de 1831. Uma esquadra francesa, seguindo as instruções do governo francês e sob o comando do contra-almirante Albin Roussin, força a barra do Tejo, derrotando no processo a artilharia dos fortes do Bugio, de São Julião, de Catalazete e a Torre de Belém (na imagem acima), superiorizando-se também às fracas forças navais que se lhe podiam opor, e, depois de fundear diante de Lisboa, vem apresentar um ultimato às autoridades portuguesas (relembre-se que, à época, vigorava em Portugal o regime absolutista de D. Miguel). Os marinheiros franceses sofreram três mortos e onze feridos. Não se sabem as baixas da parte portuguesa, mas parece inquestionável reconhecer que este dia de há 187 anos não terá sido um dos melhores da Marinha Portuguesa. Acirrando a humilhação, o Tratado em que Portugal dava satisfação às exigências francesas foi assinado a 14 de Julho, dia em que os invasores celebram a Queda da Bastilha, um insulto ao legitimismo do governo português.
Acredito que, na época, tivesse havido muitos simpatizantes liberais que tivessem visto com simpatia esta intervenção francesa, para mais quando executada contra o regime absolutista, mas quando ela é observada a esta distância histórica, despojada dos encarniçamentos políticos, trata-se de um episódio de lamentar - mas não de esquecer. É por ele ter sido esquecido que ainda hoje vemos quem, por aí, faça a mesma coisa, mostrando a mesma cegueira política e enaltecendo por conveniência circunstancial, a vinda e o comportamento impositivo dos elementos da Troica há alguns anos. Uma humilhação nacional é sempre uma humilhação mesmo que pretendamos que o não foi, ou que a culpa recai sobre outros que não os nossos.

«ARNHEM» por ANTONY BEEVOR

Para quem já lera Uma Ponte Longe Demais (Cornelius Ryan) e It Never Snows in September (livro não traduzido para português - Robert Kershaw), mais um livro de divulgação sobre a Operação «Market Garden», como é o caso deste Arnhem de Antony Beevor, não teria sido propriamente uma prioridade nas minhas leituras. Contudo, dá-se a circunstância de o livro ter aparecido como um dos de potencial interesse na livraria adjacente ao Memorial de Caen quando o visitei (abaixo). E foi por isso que o comprei quando o comprei. Diga-se que os € 17,95 que dei por ele valeram muito mais que os € 19,80, verdadeiramente excessivos, que paguei pela visita ao Memorial - mas essa é toda uma outra história.
As obras do britânico Antony Beevor sobre as grandes batalhas da Segunda Guerra Mundial são de qualidade bastante díspar: há-as muito boas, como é o caso da referente a Estalinegrado, há as que não adiantam grande coisa ao que já existia publicado sobre o assunto, casos do desembarque da Normandia, das Ardenas e da Queda de Berlim, e há ainda aquelas que são uma pastilha, como a da Batalha de Creta. Este Arnhem pertence ao segundo grupo. Encontrei lá um pormenor ou outro que achei interessante, mas não seriam precisas as 380 páginas que o livro contém para isso. Contudo, umas das boas características de Beevor é a força das opiniões que forma. Já arranjara um(a espécie de) sarilho com os russos quando descrevera o comportamento reprovável das tropas russas quando da Queda de Berlim, enquanto outro dos seus problemas de antipatias é doméstico, por causa da muito má imagem que formou e costuma transmitir quanto às decisões e motivações do marechal Bernard Montgomery, que foi o querubim da propaganda de guerra britânica durante o conflito e que ainda assim se mantêm para uma apreciável fracção de leitores (britânicos) deste género de livros. A estes se devem as mais veementes críticas ao livro na respectiva página da Amazon, acusando o autor de criticar Montgomery para assim aparecer mais simpático junto dos potenciais leitores americanos. É um daqueles processos de intenção que os factos (não alternativos) se encarregam de desmentir como se perceberá por esta última história.
Um dos pormenores engraçados que descobri foi a razão porque o general Maxwell Taylor (acima), o comandante da 101ª Divisão Aerotransportada que participara na Operação Market Garden, não veio a estar presente em Bastogne, quando da Ofensiva das Ardenas em Dezembro de 1944, dando assim oportunidade ao seu 2º comandante Anthony McAuliffe de se celebrizar com a sua resposta (Nuts!) à intimação de rendição dos alemães. Como se lê na página 355, numa das suas inspecções à frente de combate, no caso a do 3º batalhão do 501º Regimento, Taylor deu ordens para que o pelotão de morteiros da unidade fizesse fogo sobre algumas referências à distância para que ele pudesse aferir do grau de eficácia da sua pontaria. Avisaram-no que era um exercício que se arriscava a ser chato, que os alemães iriam retaliar, mas ainda assim o general insistiu. E, como os militares do sector previam, os alemães lá retaliaram, o que obrigou a que toda a comitiva tivesse de se abrigar. Sentindo necessidade de compensar a desfeita, Maxwell Taylor deu em armar-se em general destemido sob o fogo inimigo... e apanhou com um belo estilhaço no cu. É um daqueles ferimentos em combate que se tornam mais jocosos que trágicos. Descrever assim as vicissitudes de um dos generais americanos tidos por pertencentes a esse corpo de elite que são as tropas aerotransportadas parece-me desmentir a acusação mais acima de que as críticas se circunscrevem aos generais britânicos para cativar os leitores norte-americanos.

10 julho 2018

A INVASÃO DA SICÍLIA

10 de Julho de 1943. Há precisamente 75 anos os Aliados desencadeavam o desembarque e a invasão da Sicília. No mapa acima, os norte-americanos são representados a azul-claro, os britânicos a roxo; do outro lado, o dispositivo italiano está representado a cor de laranja, as unidades alemãs presentes na ilha, a cor de rosa. Designada globalmente pelo nome de Husky, foi cronologicamente a segunda grande operação anfíbia da Segunda Guerra Mundial na Europa, depois dos desembarques no Norte de África (Operação Torch). Mais uma vez, como acontecera com a Operação Villain no Norte de África, quis-se reforçar a componente anfíbia do desembarque com o apoio em profundidade de unidades aerotransportadas. E, mais uma vez, apesar dos meios se terem multiplicado nesses oito meses, os resultados foram medíocres. Por causa disso, hoje não se fala praticamente do assunto, e daí a pertinência de aqui o evocar. Realizaram-se quatro operações, duas delas norte-americanas e duas britânicas. As duas primeiras têm a virtualidade de não aparecerem referidas sequer na Wikipedia, nem mesmo na página dedicada à própria 82.ª Divisão que as realizou(!). Mas, noutros locais, pode-se descobrir algum detalhe do que aconteceu, num dos casos os 144 aviões de transporte foram vítimas do fogo amigo da própria frota que apoiava o desembarque e que os confundiu com bombardeiros inimigos, abatendo 16% dos aviões que transportavam os paraquedistas. A formação das esquadrilhas desfez-se, e não terá sido por culpa dos passageiros que apenas 25% dos efectivos previstos se puderam depois encontrar sobre o objectivo. Quanto ao que aconteceu às unidades aerotransportadas britânicas, e ao contrário da evasiva americana, até existem páginas na Wikipedia que são dedicadas à Operação Fustian (envolvendo paraquedistas) e Ladbroke (com tropas lançadas em planadores). Os números relativos a esta última são eloquentes: dos 147 planadores que foram largados para atingir os objectivos no interior da Sicília, 47% foram largadas demasiado cedo e acabaram por cair no mar e apenas 8% atingiram as proximidades dos objectivos para que haviam sido destinados. Não é difícil perceber que, ao preceder-se à avaliação do desempenho das operações aerotransportadas durante a Operação Husky, se concluísse e se formasse uma facção a favor de que se deixasse de investir nelas, que se haviam revelado extremamente caras tanto em termos humanos quanto materiais, e tudo isso para a obtenção de resultados medíocres. Era a opinião do próprio Eisenhower, mas não era a opinião do seu superior, o chefe de Estado Maior George Marshall em Washington DC, que via naquelas novas formações o elemento de propaganda de tropas de elite de que qualquer exército em guerra não pode prescindir. Qual a utilidade das verdadeiras operações aerotransportadas, separar essa utilidade da existência de tropas paraquedistas como unidades de elite dos exércitos, são assuntos que ainda hoje se discutem com muito pathos e pouco logos.

09 julho 2018

A PRETEXTO DO NOSSO PRÓXIMO ANIVERSÁRIO: BENEMERÊNCIA A RODOS!

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Aniversário de Álvaro de Campos (trecho)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ainda os festejavam como nos tempos de Fernando Pessoa e o costume era que o aniversariante é que recebia as prendas. Com total limpidez, não havia nada destes ditos desafios que o facebook agora nos endossa para «criarmos uma angariação de fundos» para apoiarmos uma «causa que nos seja importante» apenas a pretexto da aproximação do nosso aniversário. Dão-nos o exemplo de um amigo que já caiu na aldrabice foi sensível ao desafio. Embora não sejamos nós a pagar, estamos a ser o estopim de um gesto em que se vende a sensação de sermos benemerentes, está tudo pensado: aparece-nos uma lista pronta com sugestões para escolher qual o destinatário da benemerência (é só preciso clicar sobre Seleccionar Organização). Mas a sensação de vigarice é reforçada pela informação (indirecta) de que nos podemos quedar pelas boas intenções, que do manejamento do contante, eles, os proponentes, se encarregarão, de preferência recorrendo à evasão fiscal, tal a bondade da causa («vamos tratar de processar os donativos sem aplicar taxas»). Por uma vez, estou sem adjectivos que qualifiquem isto. Só a abordagem é logo uma vergonha!

A TORNEIRA DA INDIGNAÇÃO

Cumpre-se hoje um ano que Nuno Rogeiro apelava a que se «abrisse a torneira da indignação». E ele abriu-a no artigo abaixo da Sábado que qualificava «o furto de dezenas de armas anti-carro do mais grave de toda a história da Aliança Atlântica. Sem exagero.» Sem exagero, pois claro... Um ano transcorrido, recuperadas as armas, o verdadeiro drama é que entre todo o histerismo de Nuno Rogeiro e um real e credível apuramento de responsabilidades pelo que aconteceu, se formou um fosso enorme que é colmatado somente por umas porradas menores dadas a uns subalternos e por sucessivas chamadas de atenção do presidente Marcelo (a 1 de Março, a 28 de Junho) a respeito do assunto, a que os responsáveis políticos e militares têm descaradamente evitado responder. Como descreveria o Marcelo comentador de Domingo, o ministro Azeredo Lopes e o chefe de Estado Maior do Exército Rovisco Duarte estão a assobiar ao cochicho e parece estar a ser mais difícil fazê-los fazer alguma coisa, do que descrever a cena à Judite no telejornal da TVI. Assim, uma de duas: ou se fecha a torneira da indignação do Nuno Rogeiro, porque o fosso já está cheio da água que corre desde há um ano, ou então reabre-se a torneira da indignação mas desta vez por uma razão plausível, não uma daquelas palhaçadas alarmistas do Nuno Rogeiro.

08 julho 2018

O «SUCESSO» DA CIMEIRA DE SINGAPURA NEM DUROU UM MÊS...

Aqueles que têm memória sabem como é fácil criar a ilusão de que uma qualquer cimeira foi um sucesso. Basta que uma das partes esteja de má fé e que a outra precise, por razões políticas internas, que essa Cimeira seja um «sucesso». A anteceder em oitenta anos a Cimeira de Singapura do mês passado, há a famosa proclamação de Neville Chamberlain ao chegar a Londres regressado da Cimeira de Munique em Setembro de 1938, de papel ondulante na mão, que acabara de obter a paz (Peace in our Time) junto de Adolf Hitler, uma presciente proclamação de um «sucesso». Como se vê nas imagens abaixo, ontem como hoje, arranja-se sempre um coro daqueles optimistas de ocasião para a endossar que depois o decorrer dos acontecimentos vai tratar de fazer desaparecer. À volta da política de appeasement, apenas um ano depois e confrontados com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, tornou-se difícil encontrar quem admitisse ter estado no aeroporto a vitoriar Chamberlain...

A sorte de Donald Trump (e o azar de Chamberlain) é que as proclamações do seu sucesso nesta Cimeira de Singapura não foram (felizmente!) desmentidas pela eclosão de uma guerra mundial. Em contrapartida, o ritmo dos acontecimentos no século XXI é muito mais acelerado, e aquilo que com Neville Chamberlain demorou um ano a reconhecer-se (que Hitler era um aldrabão e estava a negociar de má fé), no caso de Kim Jong-Un foi coisa de menos de um mês, bastou uma ronda negocial com o secretário de Estado Mike Pompeo. Não se sabem detalhes das negociações, mas sabe-se que esta fase terá terminado com uma das partes - a norte coreana - a insultar a outra (abaixo), e esta a fingir que não ouviu nada. Quem tem memória sabe que a tradição das negociações na Coreia é para que se empreguem expressões fortes, mas a percepção da opinião pública mundial (que não é muito esclarecida) não apreciará decerto o episódio como mais um marco do sucesso da diplomacia norte-americana e de Donald Trump.
Não o sendo, e como também a questão se disputa em termos de atenção mediática, torna-se preferível que a atenção principal sobre aquilo que esteja a acontecer na Ásia se transfira para a Tailândia e para o resgate de um punhado de jovens locais, aprisionados numa galeria de grutas.

07 julho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (30)

A INDEPENDÊNCIA DAS ILHAS SALOMÃO

7 de Julho de 1978. As Ilhas Salomão alcançam a independência do Reino Unido. O novo país tinha então um pouco mais de 200.000 habitantes que se espalhavam pelos 28.450 km² e pelas seis grandes ilhas e 900 menores que constituem o arquipélago - uma baixíssima densidade, já que nas ilhas predomina a floresta tropical, como ainda o recorda as imagens da crucial Batalha de Guadalcanal, que se travou na ilha homónima entre Agosto de 1942 e Fevereiro de 1943, no decorrer da Segunda Guerra Mundial. E, no entanto, o que em 1978 não deixaria de surpreender o português mais atento e inquiridor, era como 3/4 anos depois de alcançada a liberdade de descolonizar (1974) e do empenho em o fazer (1975) por parte de Portugal, ainda as grandes potências coloniais como o Reino Unido, que haviam iniciado o processo de descolonização décadas antes de Portugal, ainda mantinham um programa compassado de concessão de independências, adequado não apenas ao frenesim descolonizador metropolitano, mas sobretudo adequado às capacidades do futuro país em subsistir com um mínimo de autonomia após alcançada a independência. Desde o início fora evidente que era preciso mais do que entusiasmo e ideologia (normalmente marxista) para constituir um estado. Eram precisos quadros e infraestruturas. E era por isso que as Ilhas Salomão só alcançavam a independência 30 anos depois do Sri Lanka. Em alternativa, Portugal desfez-se das suas possessões coloniais em 1975. Foi uma forma muito bem intencionada de se desfazer das nossas responsabilidades, apostando nas dos outros, no encantamento e na sofreguidão dos poucos intelectuais são tomenses ou timorenses em terem um país só deles para governar. Há precisamente 40 anos e um pouco mais de dois anos e meio depois da tragédia da invasão de Timor-Leste pela Indonésia, esta independência das Salomão naquela mesma região do globo (abaixo), constituía uma demonstração surda da nossa incompetência como potência colonial... mas também como potência descolonizadora.

06 julho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (29)

QUANDO OS MILITANTES SÃO MENOS DE 1% DOS ELEITORES

Estes são os resultados das eleições primárias do PP, para escolher quem irá suceder a Mariano Rajoy à frente do partido. Foi uma eleição disputada, mas, o que não aparece devidamente realçado no El País (onde obtive o quadro que reproduzo) e que foi o que verdadeiramente me impressionou, foram os números da participação no escrutínio. Numa eleição que produziu um resultado indeciso, o número de militantes activos cifrou-se num pouco menos de 60 mil, o que representa bem menos de 1% (0,73%) dos quase 8 milhões de eleitores que o Partido Popular convencera nas últimas eleições gerais de 2016. Para referência e para desenjoar das notícias a que só se dá relevo porque nelas os portugueses fazem má figura, também o PSD teve eleições internas no princípio deste ano e nelas participaram 42 mil militantes, o que representa 2% dos 2 milhões de eleitores que o PàF (PSD + CDS) haviam cativado nas eleições de Outubro de 2015. Não sendo participações exuberantes, parece-me, ainda assim, que há uma certa diferença de mobilização entre as duas realidades ibéricas. Enquanto o PP parece um partido al borde de un ataque de nervios, o PSD é apenas um partido onde militará alguma gente enervada...