09 março 2021

A ADVOGADA DA MADONNA EM NOVA «EMBALAGEM»

Ainda há dois anos, no meio do exuberante frufru mediático que acompanhou a fundação do Aliança, o partido unipessoal de Pedro Santana Lopes, nas fímbrias dos figurantes de que se falava para além do figurão, apareceu na paisagem esta senhora acima, uma das sete(!) vice-presidentes da nova formação política e que, desconhecida até à data e à falta de mais coisas que se pudessem dizer a seu respeito, ostentava um cabelo louro moderno, gostava de furar as orelhas e, sobretudo, era a advogada da Madonna. (Olha eu, que penso o que penso da mediocridade que rodeia a Madonna...) Como se sabe, o Aliança deu com os burrinhos na água, os otários que Pedro Santana Lopes ainda havia conseguido impressionar ao fim de décadas de asneiras dispersaram, e agora vim a reencontrar um desses otários, precisamente a tal advogada da Madonna, noutro acontecimento também muito mediático: a candidatura da Iniciativa Liberal à câmara de Lisboa. Também aqui ela é apenas uma - a segunda - de vários membros de uma lista que a IL vai constituir para concorrer à autarquia, mas a merecer destaque por causa da Madonna (veja-se a notícia abaixo). Saiu do Aliança há cinco meses mas já apanhou este autocarro. Mas algo mudou nela nesta sua transição da Aliança para a Iniciativa Liberal: agora a advogada da Madonna está morena e o distanciamento social impede-nos de ver se continua a gostar de furar as orelhas...
Adenda: Várias horas depois da publicação deste poste veio a saber-se que o candidato que encabeçaria a lista da Iniciativa Liberal a Lisboa desistira. Se a lógica prevalecer avançará a advogada da Madonna. Ou talvez não, que, se a lógica imperasse em tudo isto, ninguém teria apresentado uma candidatura para a retirar três dias depois.

«REINA A PAZ NA ÁFRICA PORTUGUESA»

9 de Março de 1961. Ás vezes acontece isto: os jornais publicam assertivos títulos que o decorrer de alguns - poucos - dias se encarrega de desmentir. Neste caso a fava calhou ao embaixador português em Washington DC, Luís Esteves Fernandes, a quem fora conferida a tarefa de desmentir um artigo que aparecera publicado no Washington Post. O artigo, bastante crítico da actuação portuguesa em África, na sua recusa em conceder a autodeterminação às suas colónias, reflectia a inflexão política a respeito do assunto - maior pressão sobre Lisboa - que se desencadeara com a tomada de posse da administração Kennedy em Janeiro de 1961. Aquilo que se pode ler da carta na transcrição do Diário de Lisboa até é prudente e conforme o expectável para as circunstâncias, embora evite tocar - naturalmente - na questão de fundo. O problema virá a ser o trecho dela que foi destacado para o título: «Reina a paz na África portuguesa». Dali por menos de uma semana, os acontecimentos sangrentos no Norte de Angola (abaixo) ridicularizarão a cuidada argumentação do embaixador.

08 março 2021

NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER... À CABEÇA DA EUROPA

...vale a pena publicar estes dois gráficos, o de cima referente a 2020, o de baixo deste ano, acabado de publicar na edição desta semana da The Economist, onde se percebe que a posição portuguesa, no que diz respeito à avaliação da condição feminina no emprego, não nos envergonha, muito pelo contrário. De um ano para o outro Portugal até subiu duas posições. É uma notícia que viria a propósito do Dia Internacional da Mulher e deve haver certamente entre os jornalistas portugueses quem leia a revista britânica, mas... Claro que, se fosse ao contrário, não me teria que preocupar nada em dar divulgação a estes gráficos; alguma publicação encarregar-se-ia de dar conta de que, até nisto, Portugal estava na cauda da Europa... Felizmente não está e devíamos ter orgulho que o não esteja. Mas enquanto persistir esta impressão entre a classe dos nossos jornalistas que os leitores querem é saber de desgraças, a objectividade continuará a ser uma coisa que a eles não lhes assiste...

JOE FRAZIER vs CASSIUS CLAY

8 de Março de 1971. No mundo muito próprio do boxe registavam-se com alguma regularidade grandes combates que eram crismados de combates do século - como este de 1927. A verdade é que os séculos daquele mundo não duravam mais do que meia dúzia de anos... Mas reconheça-se que algo distinguia este combate do século de 1971 dos demais... Iria ter lugar no Madison Square Garden de Nova Iorque, estaria em disputa um título mundial, iriam competir dois norte-americanos, o campeão titular Joe Frazier contra o favorito das multidões Cassius Clay (que posteriormente ficou a ser conhecido pelo nome muçulmano que veio a adoptar de Muhammad Ali). A novidade era um esforço promocional do acontecimento para além das fronteira americanas, nomeadamente na Europa, onde, com apenas algumas excepções, o boxe sempre fora uma modalidade muito secundária. A promoção chegava ao ponto de se transmitir o combate em directo para alguns países europeus. Cá por Portugal não se chegaria a esses excessos de uma transmissão de um combate de boxe em plena madrugada, mas a comunicação social também era arrebatada por esse frenesim «boxeur», e o jornal do dia seguinte dedicava duas páginas inteiras a mais este combate do século: vencera Joe Frazier aos pontos. Repare-se que apreciável percentagem daquele espaço se deve ao crítico de televisão (Mário Castrim) que fora para Elvas, junto à fronteira, seguir o combate através da emissão da TVE! Saudosos tempos esses em que a sofisticação cultural nos chegava da fronteira com Espanha e em que um crítico de TV se atrevia a escrever um desenvolvido texto sobre um combate de boxe!

UMA PRIMEIRA PÁGINA DE GUERRA FRIA

A primeira página do Diário de Lisboa de 8 de Março de 1946 exibia logo três pontos de atrito entre os antigos Aliados, comprovando que a expressão Guerra Fria não era uma expressão vã. 1) No Irão, onde a União Soviética deixara passar a data limite (1 de Março de 1946) a que os três países se haviam comprometido para evacuar as tropas que haviam estacionado naquele país durante a Segunda Guerra Mundial. 2) Na Turquia, outro país vizinho da União Soviética, onde esta e aproveitando a dinâmica da posição vencedora no fim da guerra, «solicitara» uma rectificação de fronteiras em seu favor. 3) Na Dinamarca, onde ainda os mesmos soviéticos haviam ocupado a ilha de Bornholm no Báltico (588 km², 47.000 habitantes), e agora se arrastavam as negociações para a sua retirada.

07 março 2021

É MENTIRA

Quando o Público de ontem publicou esta primeira página e nos tentou fazer embarcar no lirismo de que os comunistas estão «em busca de uma sociedade que ainda não existiu», importa denunciar que isso é MENTIRA. A Verdade é que, para os comunistas portugueses, essa sociedade existiu... até 1989. Todos os documentos históricos do PCP até essa data o comprovam (recorde-se abaixo o seguidismo de Cunhal e do PCP em relação à União Soviética - a tal sociedade avançada). Agora, quanto ao que essa sociedade realmente foi, ainda hoje podemos perguntar aos imigrantes ucranianos de mais de 50 anos que vivem em Portugal... Celebrem lá amplamente as efemérides do partido, mas não continuem a aldrabar o passado.

O DISCURSO DE 7 DE MARÇO DE MUJIBUR RAHMAN

Na sequência de um clima de tensão crescente entre o governo militar paquistanês e a Liga Awami, a formação política bengali que vencera com maioria parlamentar absoluta as eleições que se haviam realizado em Dezembro, este discurso proferido há cinquenta anos pelo líder da Liga, o xeque Mujibur Rahman, representa uma primeira ruptura de Bengala oriental com a legalidade paquistanesa. Mas não era a declaração unilateral de independência que a comunidade mediática internacional estaria à espera - leia-se a notícia acima. No seu discurso, o habilidoso Rahman proclamava a certa altura: «Desta vez a luta é pela nossa liberdade. Desta vez a luta é pela nossa independência» Mas não foi ao ponto de a proclamar. Cautelosamente, ia primeiro recuperar a tradição da desobediência civil, que fora a arma dos nacionalistas para alcançar a independência paquistanesa (e indiana) do Reino Unido em 1947. Só que agora o inimigo colonizador era o governo que estava domiciliado do outro lado do subcontinente.

06 março 2021

O 150º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE AFONSO COSTA

6 de Março de 1871. Nasce em Seia Afonso Costa (1871-1937). A fotografia acima tem cem anos: data de Março de 1921. Advogado, professor universitário e político republicano, Afonso Costa virá a ser um dos políticos mais importantes, senão mesmo a figura predominante da Primeira República portuguesa (1910-26), quer exercendo o poder formalmente, encabeçando vários governos (o que aconteceu por 3 vezes), quer dominando a cena política informalmente, através do controle da máquina eleitoral do Partido Democrático, o mais importante do panorama político de então. Neste dia em que as atenções vão todas para a efeméride do centenário do Partido Comunista Português, não deixa de ser importante deixar esta nota de outra figura histórica do século XX português.

AQUELAS PREVISÕES QUE JÁ SABE DE ANTEMÃO QUE SÃO MENTIRA

A previsão de António Costa que é repuxada para título da entrevista que deu ao Público é uma daquelas mentiras desnecessárias, inúteis e que cujo resultado mais certo é que se voltará contra ele no futuro. Em primeiro lugar porque toda a evolução económica precedente nos indica que não estaremos mais próximos da Alemanha daqui a cinco anos. Aliás, e como já aqui escrevi, nem na própria Alemanha os resultados de políticas de convergência económica têm resultado: a antiga Alemanha de Leste não se tem aproximado economicamente do resto da Alemanha. Mas isso é apenas a avaliação técnica da previsão. Quanto à sua avaliação política, estes expedientes manhosos de alardear uma previsão bombástica mas falsa, esperando que ela sirva os seus propósitos e depois caia no esquecimento, perderam muita validade depois da criação deste universo on-line, onde basta googlar para que os disparates de há cinco anos, proferidos por causa das circunstâncias do momento, ressuscitem para assombrar as ambições políticas. Daqui por cinco anos, e se ainda andar por cá, António Costa há de levar nas ventas com esta previsão risonha de crescimento económico, assim como, em retrospectiva, podemos imaginar esta outra previsão de Pedro Passos Coelho, feita há cinco anos, a ser-lhe arremessada na eventualidade de ele querer regressar à política...

...ONDE É QUE «ISSO» FICA?...

6 de Março de 1971. Em mais um daqueles artigos de fundo, transcrições de jornais estrangeiros (neste outro caso, o Washington Post), no Diário de Lisboa podia ler-se uma desenvolvida análise sobre o que era então um dos mais desconhecidos e desinteressantes sítios do globo: o Golfo Pérsico. Ao redor do Golfo, distribuíam-se um conjunto de pequenos emirados que, de uma forma ou outra, haviam caído sob tutela britânica no período do apogeu do império. Só que agora era tempo de os ingleses partirem, enquanto que a descoberta de jazidas de petróleo e gás natural antecipava uma mudança significativa naquela região. E antecipavam-se as cobiças dos vizinhos - sobretudo Arábia Saudita e Irão - perante o previsível vácuo de poder. Os nove emirados só se tornarão totalmente autónomos a partir da segunda metade de 1971: em primeiro lugar o Barein, em Agosto de 1971, depois o Qatar em Setembro e finalmente os outros sete, que formarão uma confederação denominada Emirados Árabes Unidos em Dezembro de 1971. Mas nada do que o autor então escrevia poderia antecipar o que estava para acontecer: nos 50 anos que se seguiram as economias agregadas dos três países ter-se-ão multiplicado mais de 200 vezes e a população conjunta, que rondava então os 500.000 habitantes, multiplicou-se quase 30 vezes. Hoje é menos provável perguntar-se onde é que «isso» - o Dubai, por exemplo - fica... 

05 março 2021

AVISEM-ME É QUANDO FOR O PRÓPRIO...

Na madrugada de 22 Junho de 1941, quando se tornou conhecida em Londres a invasão da União Soviética, acordaram às 4 da manhã Winston Churchill para lhe dar essa novidade. Este, que era daqueles que se deitava tarde e estaria ainda no primeiro sono, acordou muito mal disposto, descompondo-os: «Eu tinha-vos dito que só queria ser acordado no caso da invasão de Inglaterra...» No caso noticiado acima, estou como Churchill: quando o FBI prender o próprio Donald Trump pela invasão do Capitólio, aí é que passo a estar interessado no assunto...

O DISCURSO DA CORTINA DE FERRO

5 de Março de 1946. Winston Churchill profere no Westminster College, em Fulton, Missouri, um famoso discurso que, apesar do orador lhe ter dado o título de Sinews of Peace*, acabou ficando imortalizado pela expressão Cortina de Ferro (Iron Curtain) que é usada para descrever o afastamento progressivo que se verificava, menos de um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial, entre os países ocidentais e os do Leste europeu. Depois do discurso eleitoral de Stalin, ou do longo telegrama de Kennan, este discurso de Churchill - que, realçe-se, no momento em que este discurso é proferido é apenas o líder da oposição britânica - é mais um dos marcos simbólicos que se elegeram para assinalar a evolução da situação internacional para aquilo que se veio a designar como o período da Guerra Fria.

* O título escolhido por Churchill é de difícil tradução: sinews of peace é o antónimo de uma expressão consagrada da língua inglesa: sinews of war (à letra, o nervo ou tendão da guerra). Trata-se de uma forma literária de se referir ao dinheiro necessário para financiar a guerra. No caso, o nervo da paz do discurso de Churchill é a vontade determinada de não transigir com Stalin, evitando repetir o erro que se cometera com Hitler.

04 março 2021

O HINO NACIONAL DOS ESTADOS UNIDOS

4 de Março de 1931. O Senado dos Estados Unidos ratifica a proposta já aprovada pela Câmara de Representantes para tornar «Star Spangled Banner» o hino nacional dos Estados Unidos. A letra da canção foi redigida em 1814 e a música, composta por um inglês em Inglaterra, é até anterior a isso - data de cerca de 1780. Mas o reconhecimento oficial do estatuto simbólico da canção como hino tem apenas 90 anos. O que não deixa de ser irónico, quando vemos algumas das imagens iniciais do vídeo abaixo, com a evolução histórica dos Estados Unidos desde os 13 estados iniciais em 1776: em 1931, os Estados Unidos eram já constituídos por 48 estados e contavam 123 milhões de habitantes. A este exercício a que assistimos abaixo chama-se envelhecer os símbolos nacionais à martelada.

A ÚLTIMA NOTÍCIA DA PÁGINA...

Que aquilo que é produzido para informação é de uma parcialidade obscena, que desacredita os que a produzem, comprova-se todos os dias. Um exemplo crasso com que me acabei de deparar é o daquela notícia assinalada abaixo no Público, no fim da página (digital). A alguém ocorre que a notícia estaria naquele mesmo lugar e com aquele mesmo destaque se «Portugal fosse o 2º país da UE com mais novos casos e estivesse acima da média nas mortes diárias»?... Não me cansem com as culpas que depois tentam assacar às redes sociais!

NO TEMPO EM QUE ATÉ SE ACOMPANHAVAM OS FESTIVAIS DA VIZINHANÇA...

Já aqui fiz notar que há cinquenta anos os festivais (de canções) se levavam muito mais a sério do que na actualidade. O interesse concentrava-se primeiro - Fevereiro ou Março - no festival doméstico, para depois se transferir - Abril ou Maio - para o festival europeu. No entretanto, sobrava algum tempo para investigar o que acontecia nos festivais dos países vizinhos, futuros concorrentes na Eurovisão, de que exemplo incontornável era a Espanha, e que aqui se pode apreciar nesta notícia de 4 de Março de 1971. Se a letra é «em estilo de xarope», a música e a cenografia escolhida para a apresentação da canção podem ser apreciadas no vídeo abaixo...
E, para os mais curiosos, esclareça-se que a canção virá a ficar classificada em 2º lugar no Eurofestival que se disputaria dali por um mês em Dublin, na Irlanda...

03 março 2021

RODNEY KING - TRINTA ANOS DE UM ESPANCAMENTO «À FRENTE» DE TODOS

Há precisamente trinta anos (3 de Março de 1991), um vídeo, que foi captado pela câmara de uma testemunha mostrando uma complicada detenção de um condutor norte-americano, veio posteriormente a dar a volta ao Mundo (das imagens televisivas). A cena é impressionante (abaixo, apenas um trecho do tratamento, acima o resultado do tratamento). São cerca de dois minutos em que o condutor (chamado Rodney King) levou um descomunal enxerto de porrada de três polícias - 33 bastonadas e ainda 6 pontapés - sem que quem esteja a observar a cena consiga se aperceber de uma causa que justifique a proporcionalidade daquele tratamento. A cena chocou os Estados Unidos e o resto do Mundo, que, falho de experiência directa, se apercebia pela primeira vez que os Estados Unidos possuíam uma polícia que se comportava para com o cidadão comum como uma polícia colonial (imagem mais forte entre africanos e asiáticos) ou então como soldados de um exército de ocupação (imagem mais forte entre os europeus). Por uma vez, parecia que a opinião pública estaria formada, dispensando a intermediação da opinião publicada. Mas não foi o fim da história. Dali por catorze meses, o veredicto de absolvição dos quatro polícias envolvidos na cena iria ser o estopim de uma vaga de protestos, saques e distúrbios em Los Angeles que se arrastaram por seis dias e que causaram mais de 50 mortos. Aquela tão citada passagem do famoso discurso de Lincoln em Gettysburg (governo do povo, pelo povo e para o povo) teve alguns dos seus dias mais sombrios... E se eu estivesse convencido da evolução da América numa certa direcção, nada teria a dizer de cauteloso quanto à possibilidade de que tudo isto se repita quando do julgamento dos agentes policiais responsáveis por um homicídio de um detido chamado George Floyd, também ele filmado e extremamente publicitado. O julgamento começa para a semana... e as autoridades já erigiram barricadas.   

02 março 2021

A PROPÓSITO DA CONDENAÇÃO DO EX-PRESIDENTE FRANCÊS NICOLAS SARKOZY...

...vale a pena comparar o formato como o mesmo facto é noticiado à esquerda e acima (no Público) e à direita e abaixo (no Observador). Os dados são os mesmos mas o destaque que lhes é dado é, como se pode ler, completamente diferente. E, no entanto, em qualquer dos dois casos, não ocorreu aos autores da respectiva redacção, divagar para a associação de ideias que terá ocorrido de imediato a qualquer leitor de qualquer das versões da notícia: «como é que está o caso do Sócrates?...» Esse é que é assunto de que se sente cá uma vontade de o deixar morrer!...

A «ONDA DE FÚRIA» DA AMÉRICA DE HÁ CINQUENTA ANOS

Muitas vezes, a História descarta pequenas histórias que, quando são devidamente recordadas, se prestam àquelas Grandes Ironias da História, que eu tanto gosto de evocar aqui no Herdeiro de Aécio. A 1 de Março de 1971 explodiu uma bomba no Capitólio em Washington. A bomba explodiu à uma e meia da manhã, numa das casas de banho do edifício e um telefonema anónimo avisara o chefe da polícia do edifício da sua presença uma meia hora antes da detonação. Considerou-se que a intenção da explosão da bomba era protestar contra o envolvimento norte-americano no Vietname, nomeadamente no apoio dado à operação Lam Son 719, e as suspeitas sobre a autoria do atentado recaíam sobre os radicais de extrema-esquerda - posteriormente veio a descobrir-se que os autores haviam sido membros da organização terrorista Weatherman. Mas, muito mais interessante do que aconteceu dia 1, foi o que aconteceu no dia seguinte, quando o establishment político e mediático local reagiu em uníssono ao que acontecera. Uma «Onda de Fúria», é assim que consta do título da notícia do jornal português do dia seguinte, fazendo-se eco do que se publicava na América. E são esses superlativos que apetece justapor ao que aconteceu 50 anos depois, a 6 de Janeiro deste ano, onde, se calhar, o emprego da mesma expressão «Onda de Fúria» para descrever a reacção institucional à invasão do Capitólio não seria particularmente judicioso... Faz-me sorrir também o zelo de quem, em 1971 e para fomentar a indignação, se havia apressado a fazer logo uma estimativa dos estragos provocados pela bomba: 300.000 dólares (US$ 1.950.000 aos preços actuais). Em contraste, aquando da invasão do Capitólio em 6 de Janeiro passado, não reparei que se tivesse falado muito no valor dos estragos causados. Talvez pelo impacto e pelo valor simbólico das imagens. Só mais recentemente, mais de mês e meio passados sobre os acontecimentos, se adiantou uma estimativa a esse respeito de 30 milhões de dólares.

A DESTRUIÇÃO DOS BUDAS DE BAMIÃ

2 de Março de 2001. Destruição das estátuas de Buda do vale de Bamiã, no Afeganistão. A iniciativa foi do regime dos talibãs, encabeçado pelo Mulá Omar. É um daqueles casos em que, como ocidentais, até podemos julgar a questão com distanciamento. De um lado está o Islão e do outro o Budismo. E embora se possa argumentar que aquilo é o extremismo islâmico, há qualquer coisa de intoleravelmente perverso nas pessoas que tomaram aquela decisão.

01 março 2021

A SUSPENSÃO DA DEMOCRACIA POR SEIS MESES... OU MAIS

A banalidade como se noticiou a aprovação pela 12ª vez do estado de emergência lembrou-me, para contraste, o fuzué mediático que se gerou quando, certa vez, Manuela Ferreira Leite, em registo irónico, aventou que a democracia podia ser suspensa por seis meses para que se pusesse «tudo na ordem». Se, na altura (Novembro de 2008), a «máquina governamental socialista» de José Sócrates aproveitou aquelas declarações, para as tentar explorar criticamente distorcendo-as para o seu sentido literal, na conjuntura actual as sucessivas suspensões da democracia têm sido votadas sem que haja máquina ou maquineta que conteste, e agora são mais do que meras palavras, a radicalidade dos actos, quando eles são avaliados em função dos resultados. É que Manuela Ferreira Leite, na sua ironia, referia-se ao bem último e justificável de pôr «tudo na ordem». A actuação e os resultados do actual executivo socialista, apesar da democracia ter estado intermitentemente suspensa, é que não parecem ter contribuído para o sucesso do «ordenamento». Como se depreende pela redacção e conclusões do último relatório sobre o estado de emergência.

Mas, como isto é política, acaba por não haver um lado com «maus» e outro com os «bons». Não é o comportamento dos poucos «desalinhados» a uma tolerância excessiva a medidas restritivas que nos vem consolar. Tomemos o exemplo da deputada socialista Isabel Moreira que em Novembro passado produzia a declaração de voto que abaixo se pode ler. Mais, a referida deputada «avisava» que poderia «passar a votar contra eventuais renovações do estado de emergência». Cobradas as ameaças e como se constata mais abaixo, a décima segunda vez ainda não foi a primeira vez que Isabel Moreira votou contra. De um lado chove e doutro venta.