19 Maio 2013

O «HABITAT» NATURAL

O que há de insólito na fotografia acima é que um dos animais estava fora do seu habitat natural. Não abundariam os automóveis daquela sofisticação nos países de origem dos rinocerontes, nem costumava haver muitos rinocerontes à solta pelas estradas dos países para onde aqueles espadas costumavam ser produzidos. À sua maneira, foi um desastre ecológico.

18 Maio 2013

O MINISTRO DE ESTADO E DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS


Terá que ser por ironia que recentemente se instalou a moda da informação tratar Paulo Portas pelo seu título por extenso de ministro de estado e dos negócios estrangeiros, como se fosse para lhe estampar uma dignitas que se sabe que não tem. Recuperam-se aqui algumas das suas intervenções no parlamento de há cinco/seis anos em que a formação do preço dos combustíveis parecia ser, pelo conteúdo e forma dos seus discursos, um problema apocalíptico para a economia portuguesa. Desses anos para cá, o preço da matéria-prima (petróleo) desceu no mercado internacional enquanto o preço do produto acabado (gasolina) subiu no mercado nacional. Actualmente Paulo Portas e o seu partido já estão há quase dois anos no governo mas não me recordo de qualquer iniciativa do CDS/PP para resolver o problema de quem está a viver uma crise dramática do ponto de vista da sustentabilidade das empresas com o preço dos combustíveis (como se pode ouvir no vídeo acima), em vez de baixar o ISP que é bom para quase todos e tem efeito na economia em geral, acaba por ir cedendo a uns e a outros conforme o tom e a pressão… (no vídeo abaixo). De Portas já se ouviu tanto e tão variado, que ele pode tornar-se o pior crítico de si mesmo...

17 Maio 2013

DA DIFICULDADE EM COMPREENDER OS ALEMÃES

Sendo mais de oitenta e um milhões é natural que os alemães tenham uma imensa variedade de opiniões políticas. Explorar informativamente as contradições entre o que surge em off e em on a respeito da crise actual da Europa é um exercício informativo que servirá para vender papel ou ocupar tempo de antena mas será gratuito para efeitos do seu significado. Na Alemanha é costume ser-se transparente no que pensa e o que distingue os alemães na Europa é a sua disciplina na acção, exemplificada pela série de fotografias das suas organizações de juventude do passado. Creio que nenhum outro país as terá possuído tão genuínas:








E o facto da série de fotografias começar com Adolf Hitler em pessoa antes da Segunda Guerra Mundial e terminar com Joseph Estaline num retrato gigante já depois dela demonstra quando essa disciplina entre os alemães é intuída e transversal às ideologias…

16 Maio 2013

A MANIPULAÇÃO DE PREÇOS E A AUTORIDADE DO ESTADO

Ainda não dei por que a notícia cá tivesse chegado e especulo porque será, mas a descoberta que terá havido fixação dos preços de venda dos combustíveis é um dos assuntos da actualidade no Reino Unido. Algo que até nem é nada de novo para nós. Mas o que eu quero aproveitar do assunto são umas declarações de David Cameron, daquelas que não são para levar a sério mas que fazem manchete, de que, a ser verdade, os executivos das petrolíferas correm o risco de ser presos. Agora, por maior que seja a proximidade ideológica entre os dois, será que alguém consegue imaginar Pedro Passos Coelho a ter os colhões de dizer publicamente o mesmo?

15 Maio 2013

FOTOGRAFIAS DAS ELITES INDIANAS

Na fotografia acima vê-se o primeiro-ministro Jawaharlal Nehru ao lado de um letreiro que está escrito em hindi (e em alfabeto devanágari) mas que depois na sua versão inglesa se percebe ser um aviso de que é estritamente proibido fotografar naquele sítio onde o fotografaram. Seria grave, se na Índia alguma coisa pudesse ser estritamente proibida... A autora das fotografias foi a fotojornalista Homai Vyarawalla num dia em que Nehru foi esperar a irmã Vijaya Pandit ao aeroporto de Nova Deli, vinda de Moscovo onde estava colocada como embaixadora. Na época (1954) o aeroporto era conhecido por Palam mas posteriormente recebeu o nome de Indira Gandhi, a filha de Nehru, que veio a ocupar o mesmo cargo do pai, assim como depois veio a acontecer o mesmo com Rajiv Gandhi, o seu filho. E é também essa promiscuidade implícita entre família e política que parece aparecer expressa no abraço dos irmãos depois da chegada.

ESCÂNDALOS «POUCO» ESCANDALOSOS

O escândalo dos financiamentos da CDU desencadeou-se em princípios de Novembro de 1999 com a prisão de Walter Leisler Kiep que fora um antigo tesoureiro do partido entre 1972 e 1992. A acusação era que em 1991 Kiep recebera um donativo de um milhão de marcos de um negociante de armas germano-canadiano chamado Karlheinz Schreiber e o dinheiro nunca aparecera na contabilidade oficial do partido. Kiep foi confessando os factos, a começar  pelo recebimento da doação em cash numa mala numa área de serviço de uma auto-estrada suíça, e implicando sucessivamente vários membros destacados da cúpula da CDU que estava então na oposição. Ainda nesse mês, o antigo chanceler e presidente do partido Helmut Kohl estava atascado no escândalo, proclamando um desconhecimento do assunto que os implicados de mais baixa categoria desmentiam. Pouco mais de um mês depois, acontecia o mesmo ao seu sucessor à frente da CDU envolvendo agora um envelope de cem mil dólares, sucessor esse que era nada mais nada menos, que o nosso estimado Reichsprotektor Wolfgang Schäuble.
 
Mais de treze anos passados, as consequências quase inócuas do escândalo para os políticos envolvidos – Kohl, que foi o mais penalizado por se recusar a divulgar ao tribunal o nome dos autores das doações, foi condenado a pagar 75 mil Euros de multa e a doar outro tanto para caridade – permitirão especular se não se terá tratado de uma operação interna na CDU para remover a facção protagonizada por Helmut Khol e pelo seu sucessor Wolfgang Schäuble e substitui-la por outra que se poderia apresentar com as mãos mais limpas, encabeçada pela então secretária-geral da CDU, fadada para se vir a tornar em 2005 a chanceler da Alemanha: a também muito estimada por nós Angela Merkel. Mesmo não tendo sido assim, não deixa de ser surpreendente o apagamento que o escândalo recebeu na memória colectiva: não se torna obrigatório referi-lo quando se faz uma qualquer recapitulação da carreira e da biografia de Helmut Kohl. Kohl podia estar envolvido em negócios sujos mas era bom rapaz, foi um grande estadista. Mas convém relembrar o escândalo quando parece estar a circular tanta argumentação impregnada de moralidade entre os países do Sul e do Norte da Europa…

14 Maio 2013

COMO UM NOVO SOPRO DE MOLOCH

O infanticídio foi uma prática comum durante o período da Antiguidade clássica até à difusão do cristianismo. Em algumas sociedades, como a fenícia ou a cartaginesa, ele terá chegado a ser oficializado através de sacrifícios religiosos de crianças. Acima, pode apreciar-se uma reprodução em BD de uma dessas cerimónias numa Cartago que estava então cercada. Além das invocações ao deus Moloch – uma gigantesca estátua de bronze alada com uma cabeça de touro que funcionava como uma fornalha - servirem para levantar o moral dos cartagineses, as crianças sacrificadas deixavam de representar um fardo nos recursos sempre escassos de uma cidade sitiada. Em situações excepcionais o Estado podia arrogar-se o direito de reduzir o grupo etário mais dispensável à sua sobrevivência imediata.

Porém, vinte e três séculos depois a demografia modificou completamente a estrutura demográfica das sociedades modernas, as crianças tornaram-se agora um produto escasso enquanto os raros velhos de outrora agora abundam. Ainda não será preciso aniquilar estes últimos em qualquer altar, que o problema é de sustentabilidade e não de sobrevivência, mas quando se voltam a invocar situações excepcionais, tornam a ser os recursos atribuíveis ao grupo demográfico que menos importa os primeiros a serem sacrificados…

13 Maio 2013

IMAGENS EM BANDA DESENHADA CLÁSSICA DA ACTUALIDADE POLÍTICA

Esta é a imagem inicial de uma aventura de Olivier Rameau intitulada O Castelo das Quatro Luas e se aqui a coloco é porque ela me parece interpretar, de uma certa forma, o ambiente social dos dias que correm, a respeito das aldrabices de uma parelha nossa conhecida… que, além de nos aldrabarem e de se aldrabarem reciprocamente, também parecem estar a aldrabar os correligionários e a troika.

O «REALISMO» DOS COLABORACIONISTAS

Os grandes projectos de hegemonia europeia, o alemão de 70 anos atrás (acima, um poster apelando por voluntários dinamarqueses) ou o francês 140 anos antes desse (abaixo, um livro sobre os uniformes dos lanceiros polacos) sempre contaram com a sua dose de colaboradores espalhados pelos países submetidos. O que impressiona é como muitos, senão a maioria desses colaboradores, justificavam a sua atitude não pela bondade da causa que abraçavam mas antes pela inevitabilidade da situação gerada, um argumento que se torna a ouvir muito repetido por aí, com o retoque de querer tornar (uma vez mais…) esses colaboracionistas em pessoas particularmente mais lúcidas que as outras que não se aprecebem dessa inevitabilidade. Das outras duas vezes os colaboracionistas acabaram vencidos pela falta de mobilização do projecto que defendiam, com uma concentração de poderes a ser feita em benefício de certas regiões da Europa com o sacrifício das outras regiões e com a História a requalificar o seu pretenso realismo em oportunismo. Depois dos de 1943 e dos de 1803, como nos poderão os colaboracionistas de 2013 convencer que desta vez será diferente? Ou não será que todo o seu realismo os pode estar a impedir de se aperceberem quando uma situação inevitável se torna, a prazo, insustentável?

12 Maio 2013

A DISPUTA DE AL BURAIMI

Al Buraimi é um oásis remoto no interior da península arábica como se pode ver acima, assinalado no mapa. Tradicionalmente a suserania daquela região havia pertencido ao sultão de Omã quando em 1949 o rei da Arábia Saudita apresentou a reivindicação de que essa região seria sua. A pretensão saudita afectaria o traçado (acima, a tracejado) das suas fronteiras tanto com o sultanato de Omã como com o emirato do Abu Dhabi, o maior, o mais importante e o mais ocidental da federação que constitui os actuais Emiratos Árabes Unidos. Nessa época as duas monarquias (o sultanato e o emirato) eram ambas protectorados britânicos e, por outro lado, detrás das ambições sauditas não era difícil identificarem-se os interesses da Aramco.

A Aramco era a empresa responsável pela exploração do petróleo da Arábia Saudita. Era um consórcio de algumas das grandes petrolíferas norte-americanas, as Standard Oil da Califórnia, de Nova Jersey (veio a ser a Exxon) e de Nova Iorque (tornou-se depois na Mobil) associadas à Texaco. A área reivindicada era mais importante que o oásis porque se localizava numa zona muito prometedora (veja-se abaixo) quanto à existência dos maiores e mais rentáveis campos petrolíferos do Médio Oriente. A Arábia Saudita já era uma produtora de petróleo desde 1939 mas os britânicos, talvez por serem ainda plenamente abastecidos pelo petróleo iraniano não viam razões para dinamizar a sua prospecção noutros locais da região que tutelavam. Posteriormente na região disputada também se vieram a descobrir jazidas de petróleo.
A manobra saudita, patrocinada pela Aramco, começou por fazer-se sentir no terreno através de uma incursão de um emir saudita acompanhado de uma escolta oficiosa que atenuava a formalidade da invasão e que se instalou numa das três aldeias do oásis em 1952. Em vez de resolver o problema da forma tradicional, correndo os intrusos a tiro, os britânicos persuadiram os dois monarcas afectados (o sultão de Omã e o emir do Abu Dhabi) a resolverem a disputa de forma civilizada, levando-a à avaliação de um tribunal arbitral. Mas os próprios britânicos perderam a paciência quando os opulentos sauditas atrapalharam as negociações formais com tentativas pouco discretas de subornar juízes e intervenientes da parte contrária.

Em 1955, o Reino Unido deu a sua cobertura a uma operação militar conjunta de omanitas e de soldados ao serviço do Abu Dhabi, enquadrada por oficiais britânicos que culminou com a expulsão dos sauditas. A então recém-formada unidade militar do Abu Dhabi tornou-se a antecessora das actuais forças armadas dos Emiratos. A atitude britânica provocou uma certa azia do outro lado do Atlântico e o assunto tornou a ser várias vezes ventilado, especialmente quando as relações entre os dois países anglo-saxónicos atingiram um nadir por causa da Crise do Suez de 1956, mas a disputa não voltou a ter grande visibilidade até à sua resolução em 1974, já depois das independências dos Emiratos Árabes e de Omã (1971), através da assinatura de um Tratado de Fronteiras. Um livro a sair proximamente poderá acrescentar alguns pormenores importantes a esta história.

TUDO, MAS ABSOLUTAMENTE TUDO, O QUE HÁ PARA SABER SOBRE A CRISE DO SUEZ

Totalizando 585 páginas mais anexos e notas, este livro deve conter tudo o que de relevante e irrelevante haverá para saber acerca da Crise do Suez de 1956, quando britânicos e franceses se aperceberam finalmente como não dispunham de autonomia estratégica para intervir autonomamente em defesa dos seus interesses sem o beneplácito norte-americano. Publicado originalmente em 1991, quando muita da documentação originalmente classificada se tornou acessível, faz parte daqueles livros que o tempo tornará naturalmente em matacões desajustados da importância do tema que tratam. O assunto foi importante mas, mesmo para o leitor interessado, não merecerá todas aquelas páginas.

11 Maio 2013

PEACE & PROFIT

Afinal, as gigantes eléctricas não quiseram entrar numa guerra de preços. Esta singela notícia do Expresso conseguiu esclarecer-me aquilo que anos de doutrina e teologia liberal, propagandeada por esses blogues por aí, nunca antes conseguira: que uma coisa é a concorrência em abstracto, que em princípio é sempre uma coisa boa e indispensável à evolução das organizações e da sociedade; e que outra coisa bem diferente é a reacção dessas organizações quando instadas a concorrerem entre si: isso já não é bem concorrência, isso pode desencadear aquilo que se designa por guerra de preços, que é uma coisa , porque todos devemos ser sempre pela paz, a paz dos preços

COZINHA INDIANA

Este mapa de cima pode ser considerado uma desforra surda aos anos e anos em que frequentei um restaurante indiano que era dominado por um gigantesco mapa da Índia pendurado na parede, onde se viam todos os seus estados devidamente identificados… embora estivesse desactualizado¹ e eu nunca tivesse feito qualquer observação. Este está correcto e em cada estado estão listados os pratos típicos regionais (clique-se-lhe em cima para o poder ler). Existe uma imensa variedade culinária que não tem correspondência naquilo que os restaurantes indianos que conhecemos têm para oferecer. Suponho que Portugal será até uma feliz excepção no caso específico da cozinha de Goa (o vindalho, o balchão, o chacuti ou a bebinca que aparecem referidos no mapa, quase todos pratos que resultam da influência portuguesa), mas ao procurar-se pelo resto da Índia, ir-se-ão encontrar poucos mais nomes que costumem constar dos menus que temos por indianos. As excepções serão as receitas de frango tandoori e butter, o arroz biryani e as espetadas (kabab). Mas tudo o resto ser-nos-á desconhecido, demonstrando que a cozinha dos restaurantes indianos que frequentamos será um franchise adaptado ao gosto ocidental que terá muito pouco a ver com a genuína cozinha indiana. Há até pratos comuns nesses menus como o tikka masala ou o balti que se suspeita terem sido criados no Ocidente e para gostos ocidentais. Para rematar, veja-se este sketch de Goodness Gracious Me em que um grupo de amigos indianos vai a um restaurante inglês comportando-se, só que de forma inversa e em caricatura, da mesma forma boçal como alguns britânicos mais vulgares tendem a comportar-se em restaurantes indianos - encomendando quantidades astronómicas de pão e arroz, por exemplo.

¹ Faltavam-lhe os estados de Chhattisgarh, Jharkhand, e Uttarakhand, que foram o resultado da reorganização interna do país em Novembro de 2000.

10 Maio 2013

O DESEMBARAÇO DOS ESQUIADORES…


Há um episódio de Dexter em que ele aprisiona e executa (mais) um psicopata, vendedor de automóveis, que o maravilha pela maneabilidade como vai mentido, qual esquiador na neve. É uma estranha sociedade, a nossa, em que se considera que dizer a verdade é a virtude que está eticamente correcta mas onde mentir com agilidade e convicção é a qualidade que faz singrar…