20 fevereiro 2018

O REI E O PEDINTE

Mesmo constatando a existência desde há muito da liberdade de imprensa no Reino Unido, é forçoso constatar a coexistência dela com um consenso entre a opinião publicada para que fotografias como o instantâneo que acima se exibe não apareçam publicadas com frequência nos jornais, mesmo entre aquela imprensa tabloide, mais iconoclasta. Neste caso, a cena passa-se algures perto de Epsom, no princípio do mês de Junho de um dos primeiros anos da década de 1920, quase há cem anos. Na traseira do landau, que se dirige para o tradicional Derby equestre, reconhece-se o rei George V e, à sua esquerda, um dos seus filhos, Henry, o Duque de Gloucester. Mas o que torna a fotografia muito pouco british é a presença de um pedinte que, correndo, acompanha a carruagem estendendo o boné, num gesto universal de quem lhes pede uma esmola. Uma observação mais cuidadosa ao pedinte leva a identificar-lhe uma condecoração batendo-lhe no peito o que indicia que se estará na presença de um veterano da Grande Guerra (1914-18) que há bem pouco tempo terminara. O episódio não deixa de ser notável quando nos lembramos que essa Grande Guerra começara precisamente porque um monarca (no caso, um herdeiro) morrera assassinado a tiro em circunstâncias muito semelhantes às da fotografia. Eu bem sei, por um caso já aqui publicado com Olavo V da Noruega, que não é raro os monarcas andarem por aí sem porta moedas, e talvez isso justifique as expressões constrangidas da realeza naquelas circunstâncias. Mas o momento fotográfico está lá, sem atenuantes, e diz muito, e o que ele diz não é propriamente abonatório, nem para a monarquia britânica, nem para a sua solidariedade social, uma sociedade em que os ricos estão muito distantes dos pobres, um assunto que nem mesmo os famosos jornais sensacionalistas locais gostam de abordar.

«OS OUTROS SÃO O DEMÓNIO»

As pessoas como Isabel Moreira são assustadoras. Não por causa do entusiasmo como abraçam a «limpidez» das revelações de homossexuais que se assumem, mas por causa da forma como definem aqueles que consideram que não abraçam essa sua atitude, que são remetidas, sem apelo nem agravo, para o «obscurantismo». O mundo assim desenhado fica a gosto delas, mas tão a preto e branco que a Verdade de alguns factos acaba por sair completamente cilindrada. Não tivesse sido assim, tivesse Isabel Moreira alguma ponta por onde se agarrar nas suas (destrambelhadas) acusações a Ribeiro e Castro, e onde já iria a polémica que se desenrola no Expresso.

IDEIA A RETER ATÉ Á ECLOSÃO DA PRÓXIMA INDIGNAÇÃO QUE DEIXE AS REDES SOCIAIS AO RUBRO...

O gag pode até ser banal mas é, ao mesmo tempo, uma grande lição de sociologia. Quantos episódios da moda, ainda que da efémera, não terão resultado de gestos tão banais quanto uma necessidade prosaica de empinar o nariz para que o desobstructor nasal escorresse mais facilmente?...

O GAJO DA QUERCUS É UM CHATO MAS O QUE ESTE QUER É FACTURAR À CUSTA DOS LEITORES...

Se, como outrora se dizia, quando um pobre come galinha é sinal que um dos dois está doente, então, na actualidade, quando um rico a sente necessidade de exprimir publicamente as suas preocupações com ambiente, é porque se prepara para nos propor um negócio à nossa custa. José Roquette nem sequer é o primeiro que nos vem com este género de conversas, há o precedente de Patrick Monteiro de Barros, de que muito poucos haviam ouvido falar, até que um dia se descobriu que ele era um entendido em energia e especialista em recomendar-nos a energia nuclear. Esse lóbi pela construção de centrais nucleares em Portugal, que arrancou há uma dúzia de anos, e que terá sido definitivamente enterrado com o desastre de Fukushima em 2011, usou precisamente o mesmo género de argumentos que acima se podem ler a José Roquette, a começar pelas acusações ao poder político. No caso das centrais nucleares o problema era o assunto ser tabu, neste caso das de dessalinização são «os partidos que estão em estado de negação». É uma curiosidade recorrente como estes grandes próceres da iniciativa privada precisam sempre de usar a opinião publicada para concretizar negócios que só o acordo dos poderes públicos consegue concretizar. E que quem os vai bancar vamos ser nós. Ver José Roquette, esse visionário preocupado, a vir falar de dessalinização para as páginas de um jornal merece uma atitude equivalente à reacção a alguém de aspecto duvidoso que entrou na carruagem de metro em hora de ponta: mão dentro do bolso onde está a carteira...

19 fevereiro 2018

ENTRETENIMENTOS SUCEDÂNEOS DOS TEMPOS DE GUERRA: DO CICLOCROSSE AO BILHAR


19 de Fevereiro de 1943. Para entreter a população de uma Paris ocupada pelos alemães, tinha lugar uma disputada competição de ciclocrosse que 150 corredores iriam disputar na famosa colina de Montmartre, num percurso propositadamente acidentado, nove quilómetros de subidas, oito quilómetros a descer, mais de mil e quatrocentos degraus a galgar e mesmo 400 metros em que se atravessavam parques. A corrida foi seguida por uma entusiasmada multidão superior a 100.000 pessoas. Na meta, instalada na Place du Tertre, a uns metros da simbólica basílica do Sacré-Coeur, o vencedor foi um corredor de 30 anos chamado Robert Oubron, mas isso é que menos aqui interessará para a história destas modalidades que as circunstâncias da Segunda Guerra Mundial popularizaram. Nesse mesmo dia, mas em Lisboa, disputava-se um interessantíssimo Portugal - Espanha em bilhar...

O «ENTEBBE» FALHADO DOS COMANDOS EGÍPCIOS


19 de Fevereiro de 1978. O preâmbulo desta história começa por uma daquelas situações de crise tão típicas dos anos da década de 1970: um comando terrorista árabe de dois homens procedera a uma tomada de reféns numa convenção que estava a ter lugar num grande hotel de Nicósia, Chipre. Um dos presentes fora assassinado no assalto, mas outros 16 delegados (árabes) haviam sido feitos reféns. Nas negociações que se haviam seguido com as autoridades cipriotas, os terroristas haviam obtido um avião (o DC-8 das linhas aéreas de Chipre das imagens acima) para os transportar com os reféns para um destino à sua escolha. O problema é que nenhum país vizinho os quis acolher. As imagens acima apanham o DC-8 já de retorno a Nicósia, depois da aterragem lhes ter sido negada em vários destinos. Os terroristas viam-se perante um impasse. Simultaneamente, havia a perspectiva egípcia da questão: se apenas um dos dezasseis reféns era egípcio, o refém que fora assassinado também o era e, para mais, tratava-se de alguém considerado muito próximo do presidente Anwar Sadat. O Egipto estava a assumir um interesse muito especial no assunto, Sadat telefonara ao seu homólogo Spyros Kyprianou que lhe assegurara que iria supervisionar pessoalmente a gestão da crise dos reféns. Ao mesmo tempo, os egípcios enviaram um comando especial a bordo de um avião militar C-130 para Chipre, para a eventualidade de um assalto ao aparelho usado pelos terroristas. Recorde-se que o resgate de aviões sequestrados estava então na moda, uma moda que fora criada em 1976 pelos israelitas, com a operação no aeroporto de Entebbe, no Uganda, a que se seguiu em 1977 uma operação semelhante protagonizada pelos alemães em Mogadishu, na Somália. Apresentava-se uma excelente ocasião para os egípcios emularem os seus rivais israelitas. Só que, quiçá para beneficiarem mais completamente do efeito surpresa, os membros do comando egípcio não se coordenaram minimamente com o dispositivo militar que os cipriotas tinham disposto ao redor do DC-8. Por outro lado, os militares de Chipre tinham os seus próprios problemas de amor próprio depois de em 1974 terem visto a sua ilha a ser invadida pelas tropas turcas (que ocupavam - e ainda ocupam - o norte de Chipre). Só cá faltava aparecer uma outra grande potência muçulmana a operar em Chipre discricionariamente. A reacção dos cipriotas à tentativa de assalto não autorizada dos egípcios foi feroz, com uma potência de fogo com que os egípcios não estavam a contar. Os combates terão demorado cerca de uma hora, neles terão morrido quinze membros do comando, assim como a tripulação do C-130 que os havia transportado (destruído com um míssil anti-tanque!) e pelo menos uma dúzia adicional de comandos terão ficado feridos, assim como um número não divulgado de cipriotas. O Egipto assumiu o papel de parte ofendida, rompeu as relações diplomáticas com Chipre, mas o desenrolar dos acontecimentos veio dar toda a razão aos cipriotas, é um daqueles casos de política internacional em que as culpas nem se conseguem repartir. Os dois terroristas palestinianos da FPLP, sentindo-se encurralados, já então estavam em vias de se render: ainda naquele dia foram presos e posteriormente extraditados - apesar de tudo - para o Egipto, que manifestou interesse em os julgar, onde foram condenados a prisão perpétua. As relações egipto-cipriotas demoraram mais de três anos e meio a serem reatadas. Mas, como assinalavam logo os jornais da época (abaixo), era impossível não perceber o que teria motivado (desastradamente) os egípcios: a vaidade de também terem a sua operação de EntebbeVanitas vanitatum et omnia vanitas»)

18 fevereiro 2018

O ELOGIO IMPLÍCITO DO KIMILSUNGUISMO

No mesmo fim de semana e num mesmo jornal, veja-se o contraste como jornalistas analisam resultados de duas votações magnas de duas organizações prestigiadas, como são o Partido Social Democrata e o Sporting Clube de Portugal. Comparando as duas notícias, a anomalia (e sintoma de fraqueza) parece ser a existência de 35% de congressistas que não apoiaram a actual direcção do PSD e Rui Rio; em contraste, parece considerarem-se naturais (e substantivamente significativos) os quase 90% de sócios que apoiaram as teses da actual direcção do Sporting e Bruno de Carvalho.
Porque as manadas unanimistas nunca significaram historicamente grande coisa, imaginem lá que eu, na minha ingenuidade, quando lia notícias publicadas no Observador, falando de participações e resultados mirabolantes em actos eleitorais (de que o exemplo clássico extremo costumam ser os 99,97% da Coreia do Norte...), supunha que os jornalistas estavam a ser irónicos. Afinal não. Quase 90% não são um sintoma de primarismo dos eleitores e do acto eleitoral: pelo contrário, são um reforço, como se lê acima. E se Rui Rio se mostra ser um líder frágil, Kim Jong-un é afinal um líder reforçadíssimo...

«TOTALER KRIEG - KÜRZESTER KRIEG»

18 de Fevereiro de 1943. Diante de um auditório entusiástico, mas selecionado, Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda do III Reich, pronuncia um discurso no Palácio dos Desportos de Berlim que se celebrizará (o discurso, o palácio já era célebre...). É um dos mais famosos exercícios de propaganda de toda a Segunda Guerra Mundial - e, ao mesmo tempo, uma das peças mais insuperavelmente hipócritas do género. Depois da derrota de Estalinegrado, que só ficara conhecida no princípio do mês, o representante do Reich pretende-se institucionalmente surpreendido com esse desfecho acidental, e vem espoletar um sobressalto cívico à sociedade alemã: pois se isso aconteceu (acidentalmente), então a Alemanha irá desencadear uma guerra total (totaler krieg), que se descobriu agora ser também o melhor processo para a encurtar (kürzester krieg). Até parecia que os sangrentos vinte meses que haviam transcorrido depois da invasão da União Soviética haviam sido um fait divers... - só até Agosto de 1942, houvera 336.000 mortos, 1.127.000 feridos, 76.000 desaparecidos, milhão e meio de baixas. Mas há setenta e cinco anos, Goebbels proclamava que só a partir daí é que a Alemanha se iria passar a empenhar a sério na Guerra - acreditasse nisso quem quisesse...

17 fevereiro 2018

PODE SER SEM CUSTOS PARA OS CONTRIBUINTES, MAS É CADA VEZ MAIS SEM CUSTOS PARA OS CONTRIBUINTES...

A notícia é de hoje mas o colapso do BES já foi há três anos e meio. A cada ano que passou depois disso foi preciso enterrar mais dinheiro, mas, claro, perpetua-se a ficção, que foi lançada desde o início, de que aquele colapso não iria ter custos para os contribuintes... Um grande legado da obra de Pedro Passos Coelho que ontem se despediu - não a falência, mas a mentira.

SOCIALISMO BOTIJEIRO

Estes dias frios tornam-se apelativos a fotografias como esta de Thomas Hoepker, da montra do que parece ser um estabelecimento comercial especializado em botijas de água quente, apropriadas à estação. Há as duas senhoras que, do lado de fora, parecem cobiçar o produto, apesar do aspecto negligente como se encontra exposto, mas a atenção do observador atento concentrar-se-á no aviso que se destaca, colado ao vidro, em que se assinalam os dez anos da DDR, a Alemanha Oriental, dita Democrática. O pormenor permite datar a fotografia do Outono de 1959 (7 de Outubro de 1959 é a data desse décimo aniversário), mas explica também tudo o resto: é preciso ser-se, não só alemão, mas também ter-se sido comunista para conseguir obter todo este cinzentismo na paisagem...

UMAS ELEIÇÕES NÃO MUITO DISPUTADAS... E NÃO MUITO APRESSADAS

Domingo, 17 de Fevereiro de 1935. Nesse dia houve eleições cá em Portugal mas não se pode dizer que tenha havido disputa eleitoral. Lendo a primeira página da edição desse dia do Diário de Lisboa até se pode deduzir que, sob a «Nova Ordem Constitucional», os eleitores concorriam às urnas para cumprir uma formalidade: a de «reeleger o sr. general Carmona para a Presidência da República». Era assim como uma formalidade que se cumpria e o que havia a noticiar era o civismo de como o acto eleitoral havia decorrido.
Mas também, admita-se que há oitenta e três anos os ritmos eram outros. O escrutínio dos votos, por exemplo, processava-se a ritmo tal que, nas edições dos dias seguintes do mesmo jornal, ainda não se computava qual o total do número de votos que haviam sido recebidos pelo candidato único. Candidato esse que, talvez por ter sido indisputado mas também por ter sido acometido de uma inoportuna gripe, só tomou posse dali por mais de dois meses (abaixo), numa cerimónia aonde compareceu viajando significativamente de caleche.
Se calhar, ainda estamos a dar uma ideia a Marcelo para a sua reeleição...

16 fevereiro 2018

PEDRO FERRAZ DA COSTA: SÃO TRINTA E DOIS ANOS A DIZER BABOSEIRAS QUE FAZEM GRANDES TÍTULOS DE JORNAL

Há 32 anos a separar estas duas entrevistas de Pedro Ferraz da Costa. Na de baixo, dada em 1986, já Cavaco Silva estava no poder mas ainda se estava antes do cavaquismo: Cavaco Silva e as duas maiorias absolutas alcançadas pelo PSD (1987 e 1991). Naquela altura, eu ainda o levava a sério. Mas se ele - Pedro Ferraz da Costa - valesse alguma coisa que se visse, hoje seria uma referência de um Portugal mudado pelas circunstâncias de duas maiorias absolutas, em vez de se ver remetido a continuar a produzir baboseiras como esta acima, apenas para não ser esquecido. «Poderíamos crescer acima de 4%, se quiséssemos.» Importa-se de ser mais explícito? Como? É que eu, para o peditório das assertividades abstractas, já dei... Em conjunto com figurões como Pinto da Costa ou Mário Nogueira, Ferraz da Costa faz parte daquelas múmias vindas dos mais variados quadrantes da sociedade portuguesa, que já andam por cá desde a década de oitenta do século passado e que, não por mérito próprio, mas por demérito de quem lhes dá corda, insistem em não sair de cena. Não é a qualidade que os perpetua, é a inércia - e a incompetência estúpida de quem os promove.
Adenda:
Este artigo, aparecido três dias depois e da autoria da professora Susana Peralta parece ser uma excelente continuação do tema. Nem sequer valerá a pena debater a tese de Pedro Ferraz da Costa: a autora refuta-a, pura e simplesmente. Tanto quanto é possível afirmá-lo, a partir dos indicadores disponíveis e quando em comparação com os nossos parceiros da União Europeia, aquilo que Ferraz da Costa diz é mentira. Para ele já serão anos demais a passar-se por pensador teórico junto dos executivos das empresas e por gestor de empresas junto dos académicos das áreas económicas. Ferraz da Costa é apenas um malandro sofisticado a disfarçar-se entre os interstícios desses dois mundos que ele, sagazmente, já há muitos anos descobriu que raramente cooperam entre si.

...E TANTAS VEZES NEM SEQUER É UMA QUESTÃO DE MOSTRAR CORAGEM, É TER «ESTILO» A EXIBI-LA...

O título e as fotografias vêm a propósito deste próximo congresso do PSD...

PROMOÇÃO DE SÃO VALENTIM

Vem um bocadinho atrasada, mas ainda a tempo, esta inspirada promoção de São Valentim: para quem vier ao bar com a namorada o desconto é de 20%; para quem vier com a esposa esse desconto é de 45%, e para quem se atrever a trazer as duas - presume-se que ao mesmo tempo... - as bebidas são gratuitas e ainda se recebe de brinde o transporte até ao hospital mais próximo...

A INSTITUIÇÃO DO SERVIÇO DO TRABALHO OBRIGATÓRIO (STO)

16 de Fevereiro de 1943. Na França ocupada, o governo de Vichy presidido por Pierre Laval (na fotografia acima), institui o Serviço do Trabalho Obrigatório, que ficará tristemente conhecido pela sigla de STO. É uma medida que irá substituir outros processos anteriores usados pelos ocupantes para captivar trabalhadores franceses para irem trabalhar para a Alemanha. Com milhões de homens incorporados na Wehrmacht, a economia alemã acusava uma carência acentuada de mão de obra, mas da qualificada, daquela que apenas os trabalhadores dos países da Europa ocidental podiam fornecer. Os primeiros processos para engajar trabalhadores franceses haviam sido (cartazes abaixo) recorrendo ao aliciamento por melhores salários, seguido de um outro processo conhecido por «Revezamento» (La Relève), em que três trabalhadores voluntários franceses idos para a Alemanha eram compensados pela libertação de um prisioneiro de guerra francês detido pelos alemães. Mas era um «mau negócio» : enquanto para a contabilização das «idas» só contassem os operários especializados, na das «vindas» os prisioneiros eram normalmente de origem camponesa ou então homens idosos ou adoentados, logo improdutivos, que as leis do tratamento de prisioneiros obrigaria a libertar, mais tarde ou mais cedo. Como, ainda por cima, o processo de Revezamento nem sequer podia ser personalizado, escolhendo o prisioneiro a libertar, também este expediente se revelou um fiasco.
O Serviço do Trabalho Obrigatório que foi promulgado há 75 anos aparece assim, ao fim de 32 meses de Ocupação, como a única forma de suprir as exigências crescentes de mão-de-obra feitas pela Alemanha, depois de esgotadas todas as soluções benignas. Trata-se de uma mobilização em regra. Os cartazes apelativos a cores dos primeiros anos vão agora ser substituídos por soturnos editais a preto e branco (abaixo). O STO abrange as classes de 40, 41 e 42, o que corresponde aos franceses nascidos entre 1920 e 1922, que deverão ir trabalhar para a Alemanha em substituição do cumprimento do serviço militar, ora suspenso por causa da Guerra. As dispensas, inicialmente prometidas a agricultores e estudantes, vão desaparecer logo em Junho de 1943. Se a introdução do STO vai permitir a Vichy dar finalmente uma resposta satisfatória às exigências de mão-de-obra do III Reich, ela também se vai repercutir muito negativamente na popularidade do regime : centenas de milhares de jovens franceses que, até aí, haviam escolhido distanciar-se do conflito militar mundial e do conflito político interno, vão ver-se confrontados com as suas responsabilidades. Dezenas de milhares deles vão preferir passar à clandestinidade para não serem mobilizados para trabalhar na Alemanha, e uma fracção desses vão constituir mesmo acampamentos clandestinos na França rural, conhecidos por maquis. Estes agrupamentos (mal) armados de refractários, que a História de França vai adicionar ao quadro dos Resistentes, nunca terão qualquer importância militar, foram clamorosa e regularmente derrotados nas raras vezes que entraram em combate com unidades militares alemãs ou mesmo com a milícia francesa, mas, como o braço armado de um movimento político, terão tido a importância de terem existido.

15 fevereiro 2018

...E QUANDO NÃO FOREM CIGANOS?...

São nove notícias de outros tantos órgãos de comunicação social mas em nenhuma delas aparece a menção de que os autores da «selvática agressão», os protagonistas do «episódio de violência», os responsáveis pelos «desacatos» e «agressões» eram ciganos. Sabe-se, mas não está escrito. Está assumida a existência de uma «omertà» mediática quando o assunto envolve minorias étnicas, especialmente esta. E mesmo aqueles cronistas que a denunciam, como é o exemplo de Helena Matos, que a costuma atribuir à correcção política, esquecem-se entretanto de criticar os jornais para onde escrevem, que cumprem precisamente a mesma lei da «omertà», como todos os outros: porque não foi o Observador que se atreveu a chamar ciganos aos ciganos neste episódio do Hospital de São João no Porto... Mas, como tudo aquilo que não pode ser dito, criou-se um código, do mesmo estilo como há cinquenta anos havia (noutras circunstâncias), para contornar as censuras. Como todos esses códigos que se destinavam a um público diversificado, também este não pode ser muito sofisticado. E o que acontece nos relatos destes casos é que os jornais acentuam o comportamento associal dos prevaricadores: deslocam-se em magotes, agridem fisicamente os funcionários dos serviços, recorrem às armas sem qualquer inibição, não manifestam qualquer respeito pela autoridade. Não está lá escrito que são ciganos, mas acaba por estar, quem lê a notícia não fica com dúvidas. Assim como outrora, ao ouvir uma qualquer piada de teatro de revista que envolvesse um António, o espectador já sabia que se tratava de uma alusão a Salazar. Até se percebe a intenção bem fundada desta «omertà» - a verdade é que nem todos os ciganos adoptarão comportamentos tão extremamente associais como os que são descritos nestas notícias. Mas, também me interessa colocar a questão da perspectiva inversa - é que os ciganos não têm o exclusivo nestes comportamentos. E, se isso acontecer, como é que se notícia o acontecimento para que os ciganos não se vejam injustamente implicados? Para que não haja confusões nem falsos implicados, os jornalistas obrigar-se-ão a escrever artigos assim, codificados também: A dona Adosinda, fora de si e perdendo a razão, foi chamar o marido para arriarem um enxerto de porrada na professora do filho, ou então, o José Manuel, contrariando o bom senso, rapou de uma caçadeira para resolver a questão...

O METEORO DE CHELIABINSK


15 de Fevereiro de 2013. Vantagem constatada do avanço científico do socialismo soviético, a Rússia só bem tarde, a partir do último decénio do século XX, é que entrou na fase de popularização dos automóveis particulares. A condução na Rússia, com a profusão de acidentes de trânsito do mais bizarro possível, a que não falta o requinte exótico das estradas cobertas de neve*, tornaram-se assim numa imagem de marca da Rússia pós-soviética, popularizadas pelas imagens das câmaras de filmagem que as companhias de seguro passaram a incluir nas viaturas russas, com a finalidade de resolverem com mais celeridade os litígios em casos de acidente. É sobretudo a essas câmaras que se deve uma cobertura vídeo impar do fenómeno do meteoro de Cheliabinsk, que ocorreu há cinco anos. Tivesse o fenómeno ocorrido num outro país e a inexistência de câmaras nos automóveis teria reduzido as imagens do acontecimento a uma fracção dos dez minutos de imagens que estão disponíveis acima. Embora de forma indirecta, quiçá involuntária, a Ciência deve aqui ainda alguma coisa à sociedade socialista construída por Lenine, Estaline e os seus sucessores.

* Em países com as mesmas condições meteorológicas, casos da Suécia ou da Finlândia, em vez dos acidentes espectaculares, as estradas cobertas de neve parecem responsáveis pela produção de uma série infindável de grandes condutores de competição.

14 fevereiro 2018

EU, CÁ POR MIM, RECOMENDAVA QUE SE DISPENSASSEM OS APLAUSOS...

O recurso à metáfora dos aplausos tem uma péssima reputação quando a notícia se refere a operações de colocação de dívida. Foi já há mais de sete anos (Novembro de 2010) que apareceu Zeinal Bava a socorrer-se dela para comentar uma outra operação que correra desapontadoramente mal, porque as taxas de juro contratadas haviam sido substancialmente mais elevadas do que as previsões. Foi preciso ser-se Zeinal Bava para fazer aquele frete de vir prestar umas declarações públicas de conteúdo propositadamente vago, mas que podiam ser tomadas por optimistas pelos leigos. De então para cá a reputação de Zeinal Bava também se ajustou à sua verdadeira cotação de mercado, aí também com o aplauso de quem assistiu a uma sua célebre prestação na comissão parlamentar. Depois disso, ainda o descobrimos envolvido no saco azul do BES. Mas chega de denegrir (ainda mais) o homem e concentremo-nos numa das vários expressões públicas que o celebrizaram (de onde se destaca o «Eu não tenho de memória»). O que é incontestável é que o recurso ao aplauso por ocasião de uma qualquer operação de colocação de dívida pública - para os que têm memória - tornou-se profundamente negativo. Por causa do mau uso que Bava lhe deu, aplauso tornou-se um sinónimo de conversa da treta. Nesta notícia de hoje, teria sido desejável que os dois jornalistas do Jornal de Negócios se tivessem socorrido de uma outra metáfora qualquer.

O RAPTO DE MURIEL MCKAY - UMA HISTÓRIA VERDADEIRA COMO SE FOSSE UM FILME DOS IRMÃOS COHEN

Fargo é um filme de 1996, realizado pelos irmãos Cohen. Costuma ser descrito como um policial de humor negro, a amoralidade e crueldade dos protagonistas maus só compete com a sua estupidez. O núcleo da história centra-se num rapto que seria para ser semi-encenado mas em que tudo nele acaba por correr mal. É célebre uma das cenas já no fim do filme em que um dos raptores tenta desfazer-se do corpo do seu cúmplice (que entretanto matara) e é apanhado pela polícia em flagrante a alimentar com uma das pernas (meia calçada e tudo!) um triturador de madeira...
Mas, mesmo na vida real, os raptores podem ser muito estúpidos e isso torna os raptos absurdamente anacrónicos. Em finais de 1969, houve um par de imigrantes trinidadianos no Reino Unido (os irmãos Arthur e Nizamodeen Hosein) que, depois de terem assistido a uma entrevista do magnata australiano Rupert Murdoch na televisão, se decidiram a montar um plano envolvendo o rapto da sua esposa, Anna. Para o concretizar, seguiram o seu Rolls Royce desde a sede da organização em Londres até à que previam ser a habitação do magnata, para conhecer os hábitos da família...
Só que, porque o casal Murdoch estava então na Austrália, nessa altura a viatura estava ao serviço do adjunto de Murdoch, Alick McKay e foi essa residência, situada em Wimbledon, que os dois irmãos assaltaram em 29 de Dezembro de 1969, levando consigo a dona de casa, Muriel McKay. Atente-se que, Anna Murdoch, a visada pelos raptores, tinha então 25 anos (como se pode apreciar pela foto acima), enquanto que Muriel McKay tinha então 55 (abaixo). Só se pode especular o que terá passado pelas cabeças da dupla dos raptores para terem confundido uma com a outra...
A princípio, como se percebe pela notícia inicial ou por este cartaz acima, houve confusão com o que acontecera. Muriel McKay não justificava o montante do resgate: um milhão de libras! A raptada fora um verdadeiro erro de casting. Mesmo assim, os raptores prosseguiram a sua operação e os familiares de Muriel McKay prosseguiram as negociações para recuperar a familiar. Uma das entregas acabou por fracassar e foi só à segunda, em princípios de Fevereiro de 1970, que a polícia conseguiu colectar elementos que os levaram à identificação e posterior captura dos irmãos Hosein.
Irrecuperavelmente estúpidos, mas maldosos como as personagens de Fargo, quando capturados já há muito se haviam desembaraçado de Muriel McKay e do seu cadáver, que nunca foi encontrado. Num remate adicional consentâneo com o filme, acredita-se que tenha sido dado como alimento aos porcos da quinta que ambos possuíam no condado de Hertforshire. Mas, mesmo sem o cadáver, a acumulação de outras provas era tal que a dupla acabou condenada a prisão perpétua. Segundo consta, acabaram sendo libertados e expulsos para a Trinidad natal ao fim de 20 anos.

HÁ CEM ANOS, A RÚSSIA ACERTAVA O CALENDÁRIO

Há precisamente cem anos e por decreto do Sovnarkom (acima), a Rússia adoptava o calendário gregoriano. A seguir ao dia 1 de Fevereiro de 1918 (do calendário juliano) sucedia-se o dia 14 de Fevereiro de 1918, saltando treze dias e adoptando a mesma data de praticamente todos os restantes países europeus. Só para efeitos litúrgicos - o cálculo do dia de Páscoa, por exemplo - as igrejas ortodoxas continuaram a manter o seu calendário tradicional.