21 Novembro 2009

SOON

20 Novembro 2009

O MISTÉRIO DE MIRANDA

Quando as crianças ainda iam a pé para a escola, era frequente escolherem uma pedra – sílex, de preferência, para que fizesse faísca – que raspavam ao longo das paredes e muros do percurso. No final do trajecto as pedras ficavam com um aspecto muito parecido com o da fotografia abaixo, fortemente desbastadas dos lados que haviam sido submetidos ao atrito com as paredes. Só que esta fotografia não é de nenhuma pedra, mas sim de um satélite natural de Úrano, baptizado com o nome de Miranda…
Com cerca de 470 km de diâmetro médio, Miranda é o menor dos cinco grandes satélites de Úrano (abaixo) e a área de toda a sua superfície é apenas ligeiramente maior do que a do Afeganistão. Foi descoberto em 1948, mas quando foi fotografado de perto pela primeira vez, quando da passagem da sonda Voyager 2 pelas proximidades de Úrano em Janeiro de 1986, ninguém havia concebido teoria nenhuma sobre a formação de satélites que se enquadrasse com as formações que se observavam
Foi mais um caso, frequentíssimo em astronomia, em que as observações precederam as teorias. A explicação mais imediata, justificando as bizarras formações geológicas que se observavam, com desníveis escarpados (abaixo) de pelo menos uns 5 km de altura(*), foi que um corpo celeste, antepassado de Miranda, fora percutido por outro de grandes dimensões e se desagregara em grandes blocos. Depois, estes haviam-se tornado a reunir pela acção da gravidade, mantendo contudo as cicatrizes do acontecimento…
A outra explicação, posterior e mais ponderada, atribui a uma actividade geológica intensa as bizarras formações geológicas que podemos observar na superfície de Miranda. Contudo, para explicar tal actividade e dadas as dimensões reduzidas do satélite, teriam sido precisas temperaturas internas muito superiores às actuais, que fossem geradas por forças de maré (a atracção e repulsão criada pela presença de Úrano) que não as exercidas actualmente dada a órbita de Miranda… Um mistério.

(*) À escala da Terra isso corresponderia a uma escarpa com um desnível de 135 km, 17 vezes a altitude do Evereste…

19 Novembro 2009

COHÉRENCE MANQUANTE

São dois vídeos com duas jogadas de futebol muito idênticas, em que os dois golos são precedidos de uma falta claríssima do atacante que joga a bola com a mão. E nas duas, o golo foi validado porque os árbitros não a viram. O jogo de cima teve lugar há dezanove anos, o de baixo foi ontem. Mas a razão para os ter juntado aqui é o idioma em que são comentados, o francês, em que, mesmo para quem não o compreenda, é perceptível a mudança do tom indignado dos comentários no vídeo acima - era a equipa francesa a lesada - para o tom complacente nos do de baixo – foi a selecção francesa a beneficiada… Conclusão: no resto do Mundo, tanto como cá, futebol não tem moral…

DA LENDA DE EL-REI D. SEBASTIÃO À MORTE CONFIRMADA DE LUÍS II DA HUNGRIA

O vídeo acima, infelizmente truncado, contém a metade inicial de uma canção intitulada A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111 que data da segunda metade da década de 60, muito anos antes destes vídeos assim mais ousados se chamarem telediscos ou, muito menos, videoclips… Mesmo truncado, preserva aquilo que é o seu aspecto mais marcante, o efeito inicial que é criado pelo som dos instrumentos antigos usados no começo da melodia. O ambiente transporta-nos de imediato para uma época histórica longínqua e só então o vocalista (José Cid) começa a cantar. A versão integral da canção pode ouvir-se aqui.
Significativamente, atendendo precisamente à época, a letra original – que começava por Fugiu de Alcácer Quibir, El-Rei D. Sebastião… – foi alterada devido à censura – para um neutro Depois de Alcácer Quibir… – que aquilo eram tempos de monarcas que não tinham defeitos, em que não ficaria nada bem dizer-se que o Desejado tivesse fugido da peleja. Porém, os antecedentes históricos já haviam mostrado que, contra infiéis, a participação de monarcas em grandes batalhas convencionais era um daqueles desportos radicais que lhes podia correr mal, como já acontecera com Luís II da Hungria, em Mohács em 1526, contra os otomanos…
Apesar da distância geográfica e temporal de 52 anos que separaram estas duas batalhas travadas por duas potências da cristandade contra o Islão, existem vários elementos de semelhança nos dois acontecimentos e nas suas consequências que vale a pena recordar. Sebastião I de Portugal tinha por ocasião da batalha de Alcácer Quibir 24 anos e Luís II da Hungria 20 anos em Mohács. Ambos morreram em consequência delas. Nenhum dos monarcas possuía descendentes legítimos à data da morte. Por causa disso, os seus reinos vieram a ser absorvidos pela expansão centrípeta pan-europeia representada pela habilidade matrimonial dos Habsburgos…

18 Novembro 2009

A VÉNIA DE OBAMA

Entre os fait-divers que costumam rodear mediaticamente Barack Obama, há alguns casos, raros, que se tornam interessantes por aquilo que nos mostram da América retrógrada. É o que acontece com a controvérsia a respeito da vénia feita por ele quando cumprimentava o Imperador Akihito do Japão (fotografia acima). Na origem, como seria de esperar, está aquela comunicação social próxima das teses agressivas que levaram George W. Bush e, com ele, a imagem dos Estados Unidos aos píncaros da glória mundial: a Fox News é um excelente exemplo disso.
E os heróis dessa comunicação social são pessoas que já foram muito importantes e/ou muito influentes e que agora, mesmo mandando muitas bocas…, não são: Dick Cheney, William Kristol, Bill Bennett. Ao olhar para a fotografia e pensando nos comentários por eles emitidos, percebe-se que, mais do que a ideologia, há uma grande dose de ignorância misturada com grosseria quando criticam Obama por ter adoptado um costume alheio. É que Akihito, ao saudar com um aperto a mão (que não é um costume japonês), está, de forma cortês, a adoptar precisamente a mesma atitude que Obama…

São estes pequenos episódios que nos servem para recordarmos porque é que a Adminsitração Bush não deixou quaisquer saudades…

A(S) GUERRA(S) DO FUTEBOL (A DE 1969)

Antes de se saber qual será o resultado do jogo de hoje entre Portugal e a Bósnia, e as consequências imprevisíveis para a paz e segurança na Europa que os quatro jogos de apuramento que hoje se disputam poderão provocar (Bósnia – Portugal, França – Irlanda, Eslovénia – Rússia e Ucrânia – Grécia), para não falar já do que poderá acontecer à África do Norte na sequência do Argélia – Egipto a disputar em Cartum, no Sudão, lembrei-me de evocar um acontecimento de há 40 anos atrás, que ficou conhecido como a Guerra do Futebol ou a Guerra das 100 Horas, uma guerra travada entre as Honduras e El Salvador, um conflito militar a sério que teve por pretexto próximo, precisamente como aqui, uma eliminatória de apuramento para um Campeonato Mundial de Futebol – no caso o de 1970, que se iria disputar no México.
A história aparente do conflito começa a 8 de Junho de 1969 quando, em partida disputada em Tegucigalpa, capital das Honduras, a selecção local ganhou à de El Salvador por 1-0. Na véspera, os hondurenhos haviam montado um comité à volta do hotel onde a comitiva salvadorenha se havia alojado, que passou a noite a fazer barulho impedindo os visitantes de descansarem. Uma semana depois, os salvadorenhos, feitos agora anfitriões retribuíram, com mais alguns requintes de maldade, incendiando, por exemplo, 150 carros de hondurenhos que haviam vindo ver o jogo a Salvador. Nesta segunda mão El Salvador veio a ganhar por 3-0 e foi preciso um jogo desempate, que se disputou em campo neutro a 27 de Junho na cidade do México onde a selecção de El Salvador veio a ganhar após prolongamento por 3-2.
Mas, no dia anterior ao jogo, que contou com a assistência de 5.000 polícias mexicanos, já o governo salvadorenho havia rompido as relações diplomáticas com o seu homólogo hondurenho e, de gesto ameaçador em gesto ameaçador de parte a parte, em 14 de Julho os dois países estavam envolvidos numa Guerra que tinha por causa mais profunda o contraste social entre os dois países vizinhos da América Central, onde em El Salvador havia gente de mais para terra de menos (uma densidade média de 154 habitantes por km²) ao invés da situação nas Honduras (com 18 habitantes por km²), onde sobrava terra e havia uma comunidade imigrante salvadorenha crescente. Quanto ao conflito propriamente dito, El Salvador, com um exército mais poderoso, assumiu a ofensiva e invadiu as Honduras, mas as operações acabaram por durar apenas 4 dias.
Para além dos três milhares de mortos, na sua grande maioria civis e hondurenhos, a 2 de Agosto de 1969, através dos ofícios dos intermediários da OEA (Organização dos Estados Americanos), o exército salvadorenho regressara às suas posições originais na fronteira, enquanto o governo hondurenho se preparava para expulsar as centenas de milhares de imigrantes ilegais salvadorenhos do seu território, acicatando as tensões sociais que estariam por detrás da Guerra Civil salvadorenha que se desencadearia dali por dez anos. Mas, esclarecendo o que normalmente mais interessa aos verdadeiros adeptos do desporto, depois destes jogos de apuramento, El Salvador veio a participar no Campeonato Mundial de 1970, perdendo os três jogos que disputou sem marcar sequer um golo: 0-3 contra a Bélgica, 0-4 contra o México e 0-2 contra a União Soviética…

17 Novembro 2009

O PICO DAS TRÊS LÍNGUAS

Na fronteira que a sudeste a Suíça faz com a Itália encontra-se um pico de 2.843 metros de altitude (assinalado no mapa acima) que tem a particularidade de ser o ponto de intercepção das fronteiras linguísticas de três idiomas europeus: o alemão, o italiano e o romanche. Chama-se, utilizando a menos conhecida das três, apesar de se tratar da quarta língua oficial da Suíça, o Piz de las trais Linguas (leia-se a placa abaixo).
Como dará para deduzir, trata-se de um idioma neo-latino que é falado por apenas 0,9% da população suíça, embora os seus falantes se concentrem no Cantão dos Grisões, onde constituem quase ⅓ da população. Como acontece nas regiões compartimentadas, existem vários dialectos distintos e, como acontece com os idiomas neo-latinos, o seu vocabulário (compare-se neste quadro) tem bastantes semelhanças com o português.
Porém, como aconteceu com outras línguas europeias (na Península Ibérica, o caso mais conhecido é o do basco), o romanche também falhou a transição de idioma rural para a sofisticação de idioma urbano a partir do Século XIX, acompanhando a industrialização e a urbanização que transformaram a Europa. Quando o fez já era demasiado tarde e os mapas acima marcam a diminuição da influência do romanche (a grená) de 1860 para 2000.

16 Novembro 2009

O MOSAICO PAQUISTANÊS

Nas análises que se fazem acerca do problema afegão e da contribuição paquistanesa para a sua solução, apercebo-me de quanto quem analisa não costuma ter consciência das fragilidades paquistanesas, limitando-se a repetir o lugar comum que quase nada se fez e faz do lado paquistanês da fronteira contra os guerrilheiros talibans porque é do próprio interesse dos militares paquistaneses que nada se faça contra eles.
A recente sucessão de atentados no Paquistão, alguns deles visando especificamente instalações dos serviços de informações do exército paquistanês (ISI), reputadamente os tais que, na versão dos analistas, davam a tal cobertura aos talibans, parecem tirar as dúvidas à ideia que aqui tinha adiantado: até aqui e para o exterior, os militares preferiram camuflar por duplicidade aquilo que não passava afinal de impotência…
E se essa constatação é importante numa perspectiva internacional é crucial do ponto de vista interno. Nas crónicas internacionais, costumam apontar-se vários estados falhados: a Somália, a Libéria, Serra Leoa. E depois há outros que, pela sua dimensão e pelos problemas que resultariam do seu desaparecimento é melhor não se apontarem: a Birmânia é um deles, a Indonésia provavelmente outro e o Paquistão é-o definitivamente.
Já se passaram 62 anos desde a constituição do Paquistão, o Estado dos Muçulmanos da Índia, e o exército paquistanês continua mais poderoso que nunca para defender esse Estado das hipotéticas ameaças do grande vizinho de maioria hindu mas, na sua essência, o conjunto das regiões que formaram o Paquistão não parecem ter progredido grandemente para a constituição daquilo se costuma designar por consciência nacional
Pior, parece ter ficado para os militares a responsabilidade dessa constituição mas, ao contrário, da Birmânia, onde há um núcleo demograficamente maioritário de birmaneses, e ao contrário da União Indiana onde, não havendo possibilidades que se constitua esse bloco maioritário, o poder tem de ser exercido por coligações de grupos de geometria variável, no Paquistão a disputa obriga-se a ter de assentar entre sindis e punjabis.
Em contrapartida, há outros grandes grupos étnico-linguísticos paquistaneses, que mantêm laços de parentesco próximos com as populações do outro lado das fronteiras com o Irão e com o Afeganistão, como acontece com os baluches e os pashtuns que, por razões históricas e por vontade dos próprios ou alheias, nunca terão participado significativamente na definição das políticas paquistanesas. Essa parece ser a essência do conflito actual.
Estes dois últimos grupos (ver o mapa mais abaixo e a sua distribuição respectiva) de há muito – desde o tempo colonial – estabeleceram uma espécie de modus vivendi tácito com os outros grupos, assente no respeito pelas respectivas áreas de influência. Instados pelos norte-americanos a desmascarar o bluff, os poderes de Islamabad defrontam-se agora com uma guerra de contra-subversão que é ao mesmo tempo civil e colonial.
Nunca tendo estado verdadeiramente unido, o Paquistão corre agora o sério risco de precipitar a desagregação. Por curiosidade e para evidenciar quanto o Paquistão ainda é, de uma certa forma, um verdadeiro mosaico de povos, utilizei para separador dos parágrafos deste poste uma bandeira de sete dos estados principescos que em 1947 se haviam fundido para virem a fazer parte da nova nação. Também estão assinalados a cores no mapa final.
Assim, de cima apra baixo, temos sucessivamente as bandeiras dos antigos estados de Bahawalpur com 45.900 km² (assinalado a laranja), de Dir, com 5.300 km² (a vermelho), de Kalat, com 30.000 km² (a verde-claro), de Khairpur, com 15.800 km² (a amarelo vivo), de Kharan, com 48.000 km² (a azul-claro), de Las Bela, com 18.300 km² (a grená) e de Swat, com 8.200 km², (a azul-escuro).

15 Novembro 2009

LAVAX LAVA MAIS BRANCO

Ele há leis contra o branqueamento de capitais. Mas não há leis que proibam o branqueamento de pessoas, pessoas essas que haviam sido anteriormente escurecidas por leis, essa existentes, contra a corrupção e o enriquecimento ilícito. A reportagem que o Público hoje dedica no seu suplemento ilustrado a Isaltino de Morais é um desses serviços parecidos com a publicitada acção da lixívia Lavax. A capa (abaixo), com um retrato do Marquês de Pombal por detrás do branqueado e a frase em destaque falam por si... Será que os editores da Pública se disporiam a consagrar outras oito páginas a uma apresentação explicativa e sintética dos factos dados como provados na sentença que condenou Isaltino de Morais a sete (7) anos de prisão?...

Nota: Este poste foi endereçado tanto aos editores da Pública como à autora da reportagem da limpeza.

HIPOTERMIA

Esta história é, não só apenas um gag de BD (clicar para ampliar) de um autor muito pouco conhecido de que gosto muito (e de que aqui já falei – Jan Kruis), como também uma excelente descrição da disputa política actual, com a sucessão dos casos (Freeport, Face Oculta) e contra casos (da mala, BPN, Fernando Lima) e a hipotermia a funcionar como uma metáfora do que ameaça a falta de senso que é demonstrada pelos dois lados. Já com alguns membros enregelados de um lado e doutro, como serão os casos de Augusto Santos Silva e José Pacheco Pereira, pode não tardar muito para que PS e PSD acordem uma bela manhã abraçados num instantâneo das suas disputas que a sociedade em geral – a começar pela comunicação social que delas se alimenta… – se limita a observar do aconchego cálido das suas casas. Ou, como diz uma das personagens do gag: – Pessoalmente, nunca me deito sem botija…

14 Novembro 2009

BANDOLINS


Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos bandolins...

E como não?
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim

Seu colo e como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim

Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins...

Como fosse um lar
Seu corpo a valsa triste
Iluminava e a noite
Caminhava assim

E como um par
O vento e a madrugada
Iluminavam a fada
Do meu botequim...

Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite ´tá no fim

Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos bandolins
...

13 Novembro 2009

...DAIALOG BAI DEI

E já que estamos numa de falar de deputados (ver poste anterior), parece que se perdeu mais uma oportunidade de, como se costuma dizer, aproximar os eleitos dos eleitores, neste caso concreto aproximar este eleitor que assina estes postes da eleita Ana Isabel Drago Lobato, deputada reeleita pelo Bloco de Esquerda há mês e meio, de quem estou à espera de uma resposta há duas semanas. Importa dizer que não estava à espera que as preocupações manifestadas por Ana Drago quanto às prepotências e despotismos em estabelecimentos de ensino secundário em geral fossem genuínas. Para ela, só terão interesse se aconteceram no Colégio Militar ou em outro estabelecimento do mesmo género. Importa dizer também que, pela ausência de resposta, não estava à espera que fosse tão fácil concluir isso… Neste caso, não será preciso passar um fim-de-semana romântico no Dubai à nossa conta para se ficar com o passaporte político carimbado

DUBAI BAI NAITE...

Eu não sei qual será o objectivo que estará por detrás da grande cobertura que o Público deu à decisão de Jaime Gama de alterar o regime das viagens dos deputados. É bem possível que ali esteja uma tentativa de criar um embrião de uma próxima candidatura presidencial do peixe de águas profundas, que nestas coisas do binómio política/informação nunca se pode partir do pressuposto que as notícias aparecem por acaso. Contudo, deve saudar-se a decisão de a publicar, sobretudo acompanhada da explicação da viagem que terá provocado o escândalo – abafado – que terá levado Jaime Gama a agir.
Ao contrário do grosso da actividade parlamentar, os eleitores compreendem aquelas histórias e quase todos se interessam por elas e será a sua divulgação e conhecimento público que as pode tornar instrumento de dissuasão para que os titulares de cargos públicos não repitam aquelas práticas abusivas. E todavia, e seguindo um outro hábito bem português, a identificação dos deputados que estiveram a fazer turismo no Dubai à custa do erário público, acaba por ser feita de uma forma superficial, permitindo, como é infelizmente costume, que as acusações possam ser diluídas por todos os deputados...
É por isso sempre útil e até pedagógico destacar e mostrar as caras das vedetas destes episódios burlescos, no caso, e a fazer fé na narrativa do Público, os deputados Duarte Pacheco (à esquerda) e Miguel Relvas (à direita) do PSD (acima) e Leonor Coutinho (à esquerda) e Miguel Ginestal (à direita) do PS (em baixo). Com a excepção de Relvas, todos eles dão pouco na televisão, e por isso fiz uma ligação em cima do nome de cada um deles para uma das suas intervenções parlamentares, para os conhecermos bem: todos eles nos devem a cortesia de um romântico fim-de-semana para dois em terras exóticas do Dubai…
Quanto ao hipotético prestígio que Portugal obteria por ter os seus deputados a viajar em voos de primeira classe, privilégio agora suprimido por Gama, nunca mais me esqueço de uma viagem de Paris para Lisboa, onde metade do avião fora reservado para a classe executiva por causa de uma numerosa delegação moçambicana que acabara de negociar com o FMI… Durante a viagem, conhecida a precária situação financeira de Moçambique, só me lembrava da cena de A Canção de Lisboa em que o marçano do talho batia à mesa do despejado (mas digno...) Vasco Santana (abaixo, aos 3:00s), que acabava destratado: – Eh, pelintra!…

Nota: Porque estes assuntos são sérios, convêm ser tratados com rigor, para que não haja confusões inadmissíveis como a que acontece neste blogue, em que suponho que Miguel Portas terá sido confundido com Miguel Relvas...

12 Novembro 2009

ALIANÇA POPULAR, A FEPU/APU/CDU DA ISLÂNDIA

Para contar a história desta Aliança Popular será necessário prestar algumas explicações adicionais sobre a Islândia (acima, a bandeira do país), sobre a sua história, sobre a situação da Europa Ocidental durante a Guerra-Fria e sobre a história das coligações políticas em Portugal desde 1975. Esta última será a parte mais simples de explicar: desde 1976 que o Partido Comunista Português (PCP) não se apresenta sozinho a eleições. Nesses 33 anos, a coligação que tem sido formada por aquela organização com mais uns amigos que gravitam à sua volta, já se chamou FEPU, APU e CDU (abaixo), conforme os amigos. E já se apresentou a 19 eleições legislativas e autárquicas.
Com isso, os comunistas portugueses já conseguiram bater o recorde dos seus camaradas islandeses, onde a Aliança Popular durou 32 anos (1956-1998). Registe-se como, nestas comparações internacionais, raramente nos lembramos da Islândia. Em primeiro lugar, por ser um país pequeno, com uma dimensão geográfica parecida com a de Portugal (103.000 km²) embora com uma população semelhante à da Madeira ou dos Açores (320.000 habitantes); e em segundo lugar, por ser um país localizado verdadeiramente na periferia da Europa, conforme se pode observar no mapa abaixo. Uma localização que tem tanto de periférica quanto de estrategicamente importante.
Surpreendentemente, uma das potências que tem um particular interesse na Islândia é a Rússia. A ilha tem a localização ideal para bloquear as ligações marítimas entre os seus portos do Oceano Árctico (como Murmansk) e o Oceano Atlântico. Foi para evitar que uma potência continental (nesse caso, a Alemanha, então aliada da União Soviética na sequência da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop) desfrutasse dessa vantagem, que os britânicos ocuparam a Islândia em Maio de 1940. A Islândia, permanecendo neutral, mas entretanto tornada independente (Junho de 1944), continuou sob ocupação aliada (britânica e norte-americana) até ao fim da Segunda Guerra Mundial - abaixo, tropas canadianas da guarnição.
As organizações de esquerda da Islândia foram-se inspirar nas suas designações às suas congéneres alemãs. Foi assim que, à esquerda do Partido Social-Democrata, num processo de fusões alimentado por dissidências oriundas desse partido, apareceu um partido islandês filiado no Comintern(*) designado por Socialista. Partido esse que, pelas razões apontadas no parágrafo acima, foi muito apoiado pelos soviéticos imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial, para que a Islândia adoptasse uma política externa neutral. Já então (eleições de 1946), os socialistas islandeses (comunistas), obtiveram um resultado eleitoral apreciável, com 19,5% dos votos, à frente dos sociais-democratas com 17,5%.
Mas o Parlamento (acima) era dominado pelos partidos da direita (Independência e Progressivo, que haviam recebido 62,6% dos votos no conjunto) e foi sob o governo deles que a Islândia acabou por aderir à NATO em 1949, apesar dos socialistas terem tentado transportar a oposição à decisão para protestos nas ruas (abaixo), uma ocasião que, pela sua raridade, se tornou histórica. Apesar da Islândia ser um daqueles típicos países nórdicos, tornados famosos pelos seus altos padrões de vida e pelos seus governos sociais-democratas, contava no seu espectro político com um partido comunista que era mais forte do que o social-democrata e, proporcionalmente, um dos mais fortes da Europa Ocidental.
Em 1956, possivelmente tentando alargar a sua base de apoio, a formação coligou-se com mais uma dissidência dos sociais-democratas, formando a já mencionada Aliança Popular que, de coligação, veio a transformar-se definitivamente num partido em 1968. Com este último, atingiu-se o climax dos resultados eleitorais: 22,9% nas eleições de 1978. Não se assumindo claramente como comunistas, o posicionamento da Aliança quanto à política externa era explícito e em favor das opções russo-soviéticas e não se distinguia, por exemplo, daquele que era então o posicionamento do PCP quanto a essas questões fundamentais: era contra a permanência da Islândia na NATO, contra a adesão do país à União Europeia, etc.
Chegou a fazer parte do governo islandês. Por cinco vezes: 1956-58, 1971-74, 1978-79, 1980-83 e 1988-91. A Aliança Popular (símbolo acima) ainda sobreviveu bem ao impacto da queda do Muro, mantendo uns digníssimos 14,4% e 14,3% nas eleições de 1991 e 1995(**). Em 1998, os seus dirigentes optaram por concorrer numa mais ampla frente de esquerda, incluindo outras formações, designada Aliança Social-Democrata que depois se veio a tornar numa nova formação política em 2000. Em Portugal, também neste aspecto da dinâmica partidária parecemos ser mais conservadores que os islandeses. O PCP, aparece coligado consigo mesmo há 33 anos mas a fórmula, que se assume garantida, está para durar…
(*) Organização comunista internacional, também conhecida por III Internacional, fundada em 1919 em Moscovo, e que supervisionava e coordenava a actividade dos partidos comunistas nacionais. Foi dissolvida em plena Segunda Guerra Mundial (1943).
(**) Quem dera à CDU, que obteve 8,8% e 8,6% nas eleições desses mesmos anos…