23 fevereiro 2024

O INÍCIO DA DEPORTAÇÃO DOS CHECHENOS

Às primeiras horas de 23 de Fevereiro de 1944, cerca de 120.000 soldados soviéticos cercaram os mais importantes centros urbanos da República Socialista Soviética Autónoma da Chechénia. Alegando que a esmagadora maioria da população daquela nacionalidade colaborara com as tropas invasoras alemãs, e beneficiando-se paradoxalmente do facto de que a maioria da sua população adulta masculina estar ausente por ter sido mobilizada para a guerra contra a Alemanha, cerca de 500.000 chechenos foram levados para estações ferroviárias (foto acima), de onde foram expedidos para territórios da Ásia Central, nas Repúblicas do Cazaquistão e da Quirguízia. Em 6 dias, de 23 a 28 de Fevereiro de 1944, a operação de limpeza étnica estava concluída, muito embora os deslocados tivessem ainda demorado entre três e quatro semanas a chegar aos destinos. Impressiona perceber que a capacidade logística mobilizada para esta limpeza étnica - envolvendo 120.000 soldados (1 para 4 deportados), quase 200 comboios de 65 vagões cada, um orçamento de 150 milhões de rublos - nunca tivera quaisquer precedentes na história da URSS quanto à sua brutalidade e eficácia, e que isso se deve à guerra e à mobilização de guerra. Por exemplo, o transporte dos deportados até às estações foi muito mais rápido porque se fez em camiões Studebaker norte-americanos, que haviam sido fornecidos aos soviéticos ao abrigo das leis de empréstimo e arrendamento. A União Soviética de Estaline procedeu a acções idênticas de limpeza étnica ou limpeza sociológica com outras nacionalidades sobre as quais não tinha confiança. Neste caso, os chechenos só foram autorizados a regressar à sua região de origem a partir de 1957.

NAVALNY MORREU »NATURALMENTE»... NO GULAG

Esta é desavergonhadamente descarada e, como já se sabe de antemão que os comunistas portugueses vão evitar criticar o regime russo até ao limite do absurdo, vale a pena recordar-lhes que até o seu venerado Bento Gonçalves, quando morreu em 1942 no Tarrafal, a sua certidão de óbito atribuiu-a a uma biliosa. A esse ao menos, os do estado novo não tiveram o descaramento de o dar por morto «de causas naturais». É muito mais do que uma mera diferença de «concepções e opiniões» entre os comunistas daqui e as práticas da ditadura russa.

22 fevereiro 2024

O LANÇAMENTO DE «PORTUGAL E O FUTURO»

22 de Fevereiro de 1974. Data do lançamento do livro «Portugal e o Futuro» do general António de Spínola. O seu lançamento foi um happening político nos tempos em que os eventos políticos tinham que ser autorizados (e este não foi). O livro em si, como o distanciamento temporal veio comprovar e como eu já aqui disse neste blogue, o livro é uma merda. Era significativo e simbólico do isolamento e atraso ideológico deste Portugal de há cinquenta anos que mais de 15 anos depois, se levasse a sério uma solução para o problema colonial português que não passava de uma versão mitigada daquela que fora proposta inicialmente pela França de de Gaulle em 1958 e que depois fora rapidamente descartada por impraticabilidade em 1960. Já nem era apenas a situação portuguesa que estava atrasada; a solução para a resolver, também!

A ESTREIA NACIONAL DE «AS FÉRIAS DO SR. HULOT»

22 de Fevereiro de 1954. No cinema Tivoli estreia «As Férias do Sr. Hulot». A sua estreia mundial em França ocorrera um ano antes (25 de Fevereiro de 1953), ambas as estreias no pino do Inverno, apesar do filme tratar de umas férias de Verão.

21 fevereiro 2024

...CHAMEM-LHE «MANDATO ATÍPICO» ENTÃO...

Apesar da expressão posta a circular pela Lusa, o «mandato» de Isabel Camarinha como secretária-geral da CGTP pouco teve de «atípico» quando a comparamos com os seus antecessores Arménio Carlos e Manuel Carvalho da Silva. O alinhamento da central sindical com a agenda e a acção política do PCP continuou a ser o que sempre fora. A única diferença terá sido a duração. Depois dos 26 anos(!) de Manuel Carvalho da Silva e dos 8 anos de Arménio Carlos, os 4 anos de Isabel Camarinha pareceram um instantinho. E não costuma ser assim nas organizações comunistas, mesmo se, ou apesar de, eles quererem continuar a fingir que «a CGTP não é uma estrutura ligada ao PCP». Tomemos a aldrabice por verdadeira e digamos então que o PCP inspira profundamente a CGTP em mais do que um aspecto, como se constata pela queixa, feita ainda a semana passada pela «Corrente Sindical Socialista» da «falta de pluralidade» da CGTP e do «apelo ao voto no... PCP».

Os dirigentes sindicais comunistas costumam ser nomeados para durar e, quando há regras que limitam essa duração, elas contornam-se, como aconteceu com o veterano vitalício Mário Nogueira do sindicato dos professores, que anunciou em 2019 que se ia embora em 2022, que anunciou em 2022 que ia ficar mais um bocadinho, vamos lá a ver se é desta que ele se vai mesmo embora por causa da regra de limite de idade... Em síntese, apesar do tratamento dialéctico do assunto, fica-nos a impressão que Isabel Camarinha não terá deixado saudades. Analisado pelo lado positivo, é sempre bom constatar que já há paridade de género no sindicalismo, recordo que se dizia que só a existência de uma mulher incompetente a desempenhar um cargo é que seria sinal de que aquela paridade fora alcançada.

....COMO A «SABEDORIA» DO DIABO

(Republicação a pretexto dos cinco anos da canção Telemóveis de Conan Osiris no Festival e da crónica entusiasmada de Miguel Esteves Cardoso num dos dias seguintes)
Não é apenas o Diabo que se torna sábio apenas por ser velho. Também nós, desde que preservemos a memória, nos conseguimos surpreender a nós próprios com a displicência como descartamos aquilo que nos é dado a ler, apenas pelo facto do que lemos ser uma reedição do que já lêramos. No caso acima, tratou-se de uma crónica encomiástica sobre Conan Osiris (o vencedor do festival da canção de 2019) produzida pela imaginação fecunda de Miguel Esteves Cardoso. O mesmo que, ocorreu-me e vai para uns 40 anos, produzira um texto com o mesmo entusiasmo vigoroso a respeito de Relax dos Frankie Goes to Hollywood... Quem?... Precisamente. Podem ouvir abaixo essa tal canção que outrora arrebatou Miguel Esteves Cardoso no formato que podemos adivinhar pela prosa mais abaixo, e fiquemo-nos pela constatação que, possuindo ele tantas outras virtudes, nomeadamente como prosador e humorista, estes 40 anos entretanto transcorridos não lhe terão causada uma sensível evolução no gosto musical.

Os textos de MEC continuam a poder ser tão exuberantes na forma quanto vazios de substância, quanto as apreciações daqueles enólogos que nos querem persuadir que conseguem encontrar sabores subtis de chocolate e baunilha e sabores afins de casa de gelados em provas de vinhos. Para contraste, o povão, corporizado neste caso nos velhotes de um centro de terceira idade perdido no verdadeiro Portugal profundo, sem aquele dom da palavra escrita de Miguel Esteves Cardoso, limitaram-se a manifestar a sua opinião do jeito que sabe, parodiando Conan Osiris. (A propósito, será que o leitor ainda se lembrará da canção original que suscitou todos estes textos?...)

RECORDANDO UMA FRASE POLITICAMENTE SUICIDA

21 de Fevereiro de 2014. Neste dia, quando se celebra precisamente o décimo aniversário, o actual presidente do PSD conseguia o destaque da comunicação social ao proferir a frase acima. A ideia que o então líder da bancada parlamentar do principal partido do governo da época pretenderá transmitir não é desprovida de méritos nem de razoabilidade, mas, para isso, precisaria de ser devidamente enquadrada e explicada, o que estaria muito para além das capacidades explicativas de quem a proferiu e muito para além das capacidades de atenção daqueles (os jornalistas) a quem se destinava. Normalmente, fosse o PSD um partido saudável e pletórico de quadros ambiciosos, como o foi no último quartel do século XX, e as consequências desta frase muito infeliz seriam irremediavelmente nefastas para as futuras ambições de Luís Montenegro. Só que o PSD do século XXI é o que é e já mostrou que não aprendeu nada com erros de palmatória como a colocação de uma inutilidade como Pedro Santana Lopes à frente do governo em 2004 e de uma completa inexperiência como Pedro Passos Coelho à frente do governo em 2011. Mas parece-me desnecessário adoptar este discurso crítico que parece uma descompostura ao colectivo dos militantes do PSD que, apesar de tudo, escolheram Luís Montenegro para os dirigir neste potencial retorno ao poder. A escolha foi deles e estamos a 18 dias de eleições legislativas - vamos saber se tenho razão ou não e ver o que o futuro nos reserva. Entretanto, recordemos um pouco do que então se escrevia a respeito de Montenegro e da sua famosa frase.

20 fevereiro 2024

RECORDANDO O PENÚLTIMO GRANDE DEBATE ANTES DESTE ÚLTIMO GRANDE DEBATE

Para perceber a irrelevância do grande debate de ontem, há só que recordar a irrelevância do penúltimo grande debate entre António Costa e Rui Rio, em 13 de Janeiro de 2022. O que é que nos lembramos de tudo aquilo que na altura se escreveu a respeito, nomeadamente a audiência que o espectáculo terá mobilizado? Provavelmente nada, já que nem conseguimos fazer as contas de que o debate de ontem foi visto por menos 0,7 milhões de espectadores do que os «3,3 milhões» de há dois anos. Num requinte de maldade, adicionei uma passagem (do lado direito), em que um dos especialistas praticamente excluía a hipótese de que se viesse a registar uma maioria absoluta parlamentar para o PS, que, azar!, foi precisamente o resultado que se veio a verificar. O jornalismo quer impingir-nos coisas que nos entretenham, enquanto eu me preocupo em saber coisas que considero que valha a pena saber. Eu tenho outros passatempos e aquilo que ontem se passou entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro não valeu (e não vale!) a pena saber. Não seria nada do que lá se dissesse que decidiria o meu voto. E suspeito que isso é verdade para milhões (mais milhão, menos milhão...) de portugueses.

POLÍTICA EM AZUL CLARO

Abstraindo-nos do espectáculo dos debates televisivos, façamos esta reflexão sobre as transformações que o espectro partidário da política portuguesa tem vindo a sofrer nas últimas eleições. Reconheça-se que o instinto de Pedro Santana Lopes estava correcto: havia uma tendência para a direita portuguesa se cindir e reconfigurar. O problema para Santana Lopes é que uma facção dessa direita era composta por pessoas com ideias à procura de um protagonista, enquanto o que ele tinha para lhes oferecer era apenas um protagonista sem ideias (Um protagonista sem nada na cabeça, para ser mais preciso...). E, descontando as ideias que uns tinham e os outros não, ficou só o azul claro. Decerto que alguém estudou a razão para que estas direitas fossem azuis claras. Não sei se já repararam, mas também não deve ser por acaso que as cores dominantes do cabeçalho do Observador são como são. É compreensível: as pessoas tendem a não fazer essa associação, porque não o consideram um projecto político camuflado de órgão de comunicação social...

A OPERAÇÃO «ARGUMENTO» - A GRANDE SEMANA (THE BIG WEEK) DO BOMBARDEAMENTO CONTINUADO ÀS INDÚSTRIAS AERONÁUTICAS ALEMÃS

20 de Fevereiro de 1944. A RAF britânica e a USAAF norte-americana dão início a uma operação concertada conjunta de bombardeamento que tem por objectivo as indústrias e outras infraestruturas aéreas usadas pela Alemanha - isso inclui alvos em outros países como a França, a Bélgica ou os Países Baixos. O sistema é de complementaridade e revezamento: os bombardeiros da RAF bombardeiam de noite, enquanto os da USAAF os substituem durante o dia. Neste primeiro dia, 921 aparelhos britânicos alternaram com 1.003 aparelhos americanos. Mas as perdas podiam ser significativas, como se percebe pela notícia abaixo. A Operação «Argumento» prolongou-se por seis dias (20-25 Fevereiro), daí o nome oficioso que veio a receber de Big Week. Quanto aos resultados, o objectivo de perturbar as indústrias aeronáuticas e as infraestruturas que suportavam a Luftwaffe, esse foi um fracasso. A USAAF fez um desastrado bombardeamento da cidade holandesa de Nimega. Contudo, a iniciativa remeteu a Luftwaffe, à defesa e anulou por sua vez o esforço da sua própria ofensiva de bombardeamento sobre Inglaterra. A desproporção de meios aéreos entre os dois beligerantes tornara-se significativa: enquanto os alemães se gabavam que os seus raids haviam envolvido 900 aviões (mas a verdade é que era metade disso), os britânicos e os americanos lançavam raids com efectivamente 900 aviões e mesmo mais, mas não se gabavam, os britânicos até se queixavam do número de baixas...

19 fevereiro 2024

AQUI ESTAMOS MESMO NA «CAUDA DA EUROPA» - MAS DUVIDO QUE ESTE GRÁFICO APAREÇA TRANSPOSTO PARA A NOSSA INFORMAÇÃO...

Apesar de Portugal aparecer aqui verdadeiramente mal colocado, no último terço dos países da NATO que proporcionalmente menos gastam com a defesa, este gráfico não é um daqueles tradicionais lamechas que costumamos ver por baixo de cabeçalhos com os dizeres Portugal na cauda da Europa. É que os militares não costumam fazer lóbi dessa maneira, lamentando-se como estão muito mais mal preparados do que os outros, no estrangeiro. E, sem ser dessa maneira, pressionando-os discretamente, os jornalistas não tratam desses assuntos, nem sabem onde procurar os gráficos, por muito importante que seja o tema da segurança e defesa, tanto mais agora, quando há, não uma, mas duas guerras em curso aí pelas redondezas... Quanto aos políticos, e mesmo estando em campanha eleitoral, a quantos partidos ouvimos referências a estes aspectos de segurança e defesa?... Aumentamos as despesas militares ou fazemos figas ou encomendamos umas missas, à espera que o assunto não sobre para nós?

A TRANSFERÊNCIA DA CRIMEIA DA RÚSSIA PARA A UCRÂNIA

A 19 de Fevereiro de 1954, o Presidium do Soviete Supremo da União Soviética, sedeado em Moscovo no Kremlin (como se pode ler na área assinalada do documento acima), «tendo em consideração a integração económica da região, a proximidade territorial e os estreitos laços económicos e culturais entre a província da Crimeia e a República Socialista Soviética da Ucrânia», emite um Decreto transferindo a província da Crimeia da soberania da República Socialista Federativa Soviética Russa para a jurisdição da República Socialista Soviética da Ucrânia. À época, esta transferência teve um significado mais simbólico que substantivo: Ucrânia e Rússia faziam parte da mesma entidade política, a União Soviética, esta transferência era apenas uma mudança de uma fronteira interna do grande país. O problema passou a colocar-se de outro modo quando da desagregação da União Soviética em 1991 em que Rússia e Ucrânia se tornaram países distintos. E aí na Rússia mostrou-se a intenção de recuperar a Crimeia, tanto mais que a esmagadora maioria dos habitantes da península são russófonos. Foi o que aconteceu entre Fevereiro e Março de 2014. À época, a iniciativa de força por parte da Rússia provocou as suas ondas de choque, mas vale a pena recordar que ocorreu numa conjuntura em que uma iniciativa de cariz muito semelhante ocorrera numa outra parte da Europa e com o patrocínio dos Estados Unidos: a extracção do Kosovo à soberania sérvia. Não havia muita moralidade para se andarem a recriminar uns aos outros. Só que o assunto apresentava-se como encerrado na antiga Jugoslávia e está muito longe de assim ser com a Rússia nas suas fronteiras. A Rússia não se ficou pela Crimeia e invadiu a Ucrânia em Fevereiro de 2022 e hoje os dois países continuam em guerra. Como outrora aconteceu com a França do século XIX e a Alemanha do século XX, as ambições expansionistas da Rússia do século XXI são uma incógnita e um receio. Os outros países vizinhos da Rússia olham-na quase todos de viés. Contudo, paradoxalmente, registe-se que este gesto de há setenta anos havia sido apenas um expediente politico, sem se antever todas estas consequências.

18 fevereiro 2024

A MORTE ACIDENTAL DO REI DOS BELGAS

18 de Fevereiro de 1934. Toda a primeira página do Diário de Lisboa é ocupada pela notícia da morte acidental de Alberto I, o rei dos belgas*. O rei, que contava 58 anos, morrera no dia anterior à tarde, quando se encontrava sozinho a praticar o seu desporto favorito, alpinismo. O seu corpo só viera a ser encontrado depois da meia-noite e era uma notícia que enchia as primeiras páginas de quase todos os jornais europeus daquele dia. A 90 anos de distância é um detalhe da História.

* Demonstrativo do que foi a evolução em cinquenta anos da gramática editorial dos jornais, em 1934 não pareceria muito estranho dedicar toda uma primeira página de uma edição à morte acidental de um monarca belga; em 1984, dedicar metade de uma primeira página à morte por doença de um dirigente soviético, aí já pareceria muito excessivo, a não ser que o jornal se destinasse a um tipo de leitor ideologicamente muito específico, como seria o caso.

OPERAÇÃO JERICHO

(Republicação)
18 de Fevereiro de 1944. A RAF executa a operação Jericho sobre a prisão de Amiens, no norte da França ocupada. Tratou-se de um bombardeamento de precisão (hoje a propaganda substituiria a expressão pela de bombardeamento cirúrgico), executado por um esquadrão de DH 98 Mosquito, ao estabelecimento prisional de Amiens, onde estavam detidos - passíveis de ser fuzilados, acrescentam as crónicas que retocaram posteriormente a história - centenas de membros da Resistência francesa. E a prisão albergava, importa esclarecer, uma maioria de presos de delito comum. O bombardeamento teve lugar logo pela manhã, uma manhã fria de inverno (na fotografia acima, nota-se a paisagem nevada por detrás da prisão), e, se os desgastes nas infraestruturas prisionais são visíveis nas imagens captadas pelos avião de reconhecimento que acompanhou o raid (assinaladas na foto acima), menos perceptíveis são os resultados em termos de custos humanos para os prisioneiros: dos 717 que a prisão albergava naquele momento, 258 conseguiram fugir pela brecha que se vê no canto inferior direito da imagem; mas isso ao custo de 102 mortos e 74 feridos entre os presos - esquecendo as baixas entre os captores. De entre os 258 foragidos (dos quais apenas 79 estavam presos por razões políticas/feitos de resistência), 182 vieram posteriormente a ser recapturados - mas isso ainda não se sabia. Os britânicos fizeram um documentário de propaganda com as imagens recolhidas por um avião de reconhecimento que acompanhara o raid para passar nos cinemas. Como é tradição britânica, quando se questionam a pertinência e os resultados militares de uma operação, sublima-se e evade-se a questão, assegurando que foi muito boa para a moral.(...) Mas, mesmo depois de terem feito um filme inspirado no que aconteceu e até hoje, questiona-se quem é que, de facto, solicitou a realização daquela operação e, sobretudo, se ela teria sido mesmo necessária.

17 fevereiro 2024

OS "GÉNIOS"

Depois desta cena deplorável protagonizada por Donald Trump em Julho de 2020, mandaria o bom senso que, por causa dela e por uns anos, quem se quisesse gabar publicamente das suas tremendas capacidades intelectuais... se abstivesse de o fazer ou o fizesse subtilmente. Se até um cretino como Donald Trump se acha o máximo, a conclusão é que todos se podem achar o máximo, incluindo todos os cretinos. Quanto àqueles que não forem cretinos genuínos, esses deveriam concluir que os exercícios ostensivos de auto-elogio - como o exibido acima por Donald Trump e abaixo por um sujeito chamado "Nuno Palma (em português)" - tenderiam a ser contraproducentes. O sujeito abaixo, que gostaria de ter, mas não tem, «adversários intelectuais à altura em Portugal», não percebe isso assim. Aquilo que o envaidece parece ter sido ter escrito um livro. E como ontem aqui deixei expresso, boas ideias, bem fundamentadas, permanecem válidas mesmo ao fim de 20 anos. Independentemente desta sua gabarolice presente, e porque o génio é intemporal, deitemo-nos a esperar (e a adivinhar) o que valerá intelectualmente em 2043 o seu diagnóstico d«As causas do atraso português (repensar o passado para reinventar o presente)». O tempo é um excelente «adversário intelectual». Livros com mais de 20 anos que prometiam salvar a pátria, não a salvaram, e estão hoje esquecidos, desses já vi muitos. Que, como este Nuno Palma, quem os escreve se arrogue de uma tal "superioridade intelectual", isso é que é diferente, é uma desfaçatez - muito estúpida, por sinal - da actualidade. Uma desfaçatez tornada moda por imbecis comprovados como Donald Trump. Uma desfaçatez que, ainda por cima, nos rouba a possibilidade de descobrirmos sozinhos e por nós mesmos a genialidade do autor. Ou não... Como diria Bugs Bunny: What a Maroon!

QUANDO SE ZANGAM AS COMADRES...

Para os últimos ingénuos, aqueles que ainda não haviam percebido como funciona o tandem noticioso formado pelo Ministério Público e pela Comunicação Social, a eclosão desta guerra civil na Justiça, pode servir de última oportunidade para compreenderem como os magistrados do MP plantam as suas notícias em prol das acusações que formulam com a completa cumplicidade dos jornalistas. É assim que se ficam a saber os detalhes das acusações - como dizia o outro, cagava-se ele, e todos se estarão a cagar para o segredo de justiça. Normalmente, quem está do outro lado não tem a mesma capacidade de plantar notícias, e o pouco que existe de contraditório são as declarações dos advogados à saída dos tribunais. Declarações essas que, surpresa!, são sempre absurdamente abonatórias em prol dos seus constituintes - mas defensivas, já que as acusações já foram plantadas. O que acontece neste «Caso da Madeira» (que, reparem no cimo da página, o Público classifica na secção de Política) é que o conflito, porque, por causa das três semanas de prisão preventiva para os três suspeitos principais, agora escalou para o embate às claras entre a Magistratura tradicional e o Ministério Público, se apresenta muito mais equilibrado, porque cada um dos lados tem capacidade para plantar as notícias que lhes convêm. Para recuperar os cabeçalhos da notícia acima, enquanto o MP acusa o juiz de ser um incompetente que não valoriza a profusão de envelopes com dinheiro que os seus encontraram nas buscas, do outro lado existe a constatação que os membros do MP são tão incompetentes que nem conhecem um mínimo dos procedimentos que evitem que os depoimentos que recolhem não acabem depois por ser invalidados por irregularidades formais. Noutro lado, pode ler-se em complemento que o «Ministério Público culpa o juiz», mas que o «Conselho Superior da Magistratura recusa averiguação» . De tudo isto um pouco extrai-se a sensação que vai sendo tempo do poder judicial dever ser seriamente escrutinado. Extrai-se também a sensação que aquele que costuma ser designado por Supremo Magistrado da Nação e que nos cansava por estar estar sempre a dizer coisas, agora nestas circunstâncias em que poderia dizer qualquer coisa, se calhar agora é que está calado de mais... «Ceterum censeo carthaginem esse delendam», continuo a defender que já devia ter começado o julgamento do Sócrates...

A ESTREIA MUNDIAL DE MADAMA BUTTERFLY

17 de Fevereiro de 1904. Estreia mundial no Teatro alla Scala de Milão da ópera Madama Butterfly de Giacomo Puccini. Segundo rezam as crónicas, foi um fiasco.

16 fevereiro 2024

SEM LEGENDA, MAS FAZENDO UM APELO À MEMÓRIA E À INTELIGÊNCIA DO LEITOR...

Adenda: foi-me sugerido que não fizesse uma aposta muito vincada na memória do leitor e que, não havendo memória, não haveria inteligência que lhes valesse. Eis então a solução.

NORMALMENTE, O QUE É URGENTE NÃO É IMPORTANTE E O QUE É IMPORTANTE NÃO É URGENTE

Pode-se recuperar da edição do jornal Público de 16 de Fevereiro de 2004 o contraste entre dois temas constantes das páginas daquele jornal. Enquadrando o primeiro deles, Pedro Santana Lopes - sempre ele! - dera uma entrevista ao jornal Expresso anunciando que, se Cavaco Silva não se candidatasse à presidência da República - cujas eleições só teriam lugar dali por quase dois anos (Janeiro de 2006)! - ele avançaria como candidato da área da direita política! E o circo mediático tinha-se instalado com armas e bagagens prontos a comentar - com seriedade! - a aleivosia. No Público avançava-se com um editorial escrito por Eduardo Dâmaso, recuperavam-se citações de Vasco Pulido Valente no Diário de Notícias e de José Leite Pereira no Jornal de Notícias, para além da indispensável referência ao que dissera Marcelo Rebelo de Sousa no seu espaço de comentário dominical na TVI. Convido o leitor do blogue a clicar em cima da imagem para, a 20 anos de distância, ler o que aquelas figuras achavam da outra figura, e a importância que isso projectaria para o futuro. Em contraste, e enquadrando o segundo tema, dali por um mês iria haver eleições gerais em Espanha (14 de Março de 2014) e José Loureiro dos Santos elaborava uma análise de quais seriam as oportunidades e as ameaças da evolução das relações dos dois países ibéricos. Também aqui convido o leitor a clicar no artigo para avaliar a forma como ele envelheceu nestes 20 anos. Creio que do exercício comparativo das duas leituras se pode concluir que, normalmente, aquilo que é urgente quase nunca é importante e aquilo que é importante raramente é urgente. Para as primeiras é preciso frenesim, para as segundas é preciso inteligência.

15 fevereiro 2024

A BATALHA DAS BOLAS DE NEVE

Algures em França, no Inverno de 1944, cumprem-se por estes dias 80 anos, alguns soldados alemães travam uma divertida batalha de bolas de neve numa estação de caminho de ferro, no que se presume ser o intervalo de um transporte de uma colocação para outra. Os intervenientes têm razões para estar contentes, eles serão uma minoria entre os militares alemães que não estão numa frente activa combatente, como é o caso da gigantesca frente Leste, contra os soviéticos, ou da frente de Itália, contra os exércitos anglo-saxónicos. Aqui, apesar do frio, o ambiente é descontraído e a função é apenas de guarnição. Mas a invasão é esperada e a sua hora em breve soará, antes do Verão, com o desembarque aliado na Normandia a 6 de Junho.