07 dezembro 2016

NETANYAHU DE OURO

Aparentemente, o assunto não terá interesse suficiente para despertar o interesse a um só órgão de informação cá em Portugal, por isso dou eu relevo aqui no blogue à ideia de um artista israelita que, nesta Terça-Feira de madrugada e clandestinamente, resolveu içar esta estátua dourada de 4 metros de altura, representado o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, numa praça central de Telavive - a praça Rabin. Segundo o autor da estátua e da proeza, um escultor que se chama Itay Zalait, a sua intenção era a de desencadear o debate sobre a liberdade de expressão em Israel, usando um modelo de expressão - estátuas em grandes dimensões dos líderes políticos - que é muito conotado com os regimes ditatoriais. Aliás, Israel não será estranho a este género de humor satírico, episódios associados a obras (pseudo) públicas erigidas sem autorização alguma, como foi exemplo o filme O Canal Blaumilch (1969 - filme que já aqui referi no Herdeiro de Aécio), cujas cenas finais foram até filmadas nessa mesma praça Rabin que ontem recebeu a beneficiação inesperada da estátua dourada de Netayahu.
Durante o dia de ontem e enquanto permaneceu erecta a estátua foi repetidamente fotografada isoladamente ou em selfies. Segundo as declarações do autor à agência France-Press, a sua questão era a de verificar - quiçá em comparação com o que (não) aconteceu a Blaumilch, o protagonista do filme, que era louco, mas escapa impune - se era possível fazê-lo: erigir uma estátua à noite, clandestinamente, num dos locais mais centrais de Telavive e ao arrepio das autorizações municipais. Será que as autoridades a iriam lá deixar ficar? E por quanto tempo? E quais serão as sanções para si, autor confesso da transgressão? Cada coisa a seu tempo. Para já, a estátua foi derrubada, no momento que a foto e o vídeo mostram, com um certos retoques reminiscentes de cenas parecidas com estátuas de Saddam e de Lenine. O problema - e aqui vê-se a pertinência da polémica lançada por Zalait - pôs-se em saber que atitude tomar para com a estátua: pode-se pisá-la e batê-la como se fazia com os outros ditadores derrubados ou há que respeitar a figura do primeiro ministro, mesmo sabendo que ela foi esculpida como uma paródia provocadora?

Do ponto de vista estético, como escultura, a estátua é verdadeiramente medíocre, nem se parece com Netanyahu, mas como operação de autopromoção de Zalait acho o incidente não só interessante como também imaginativamente engraçado. O que eu não percebo são os critérios editoriais da comunicação social portuguesa que o ignoraram até agora: vale não sei quantas vezes, tanto do ponto de vista noticioso quanto até mesmo do de audiências, aquelas esforçadas coisas nenhumas a respeito de Kim Kardashian...

06 dezembro 2016

ARGUMENTOS QUE ATÉ VÊM MESMO A CALHAR

Tenham sido 63 ou 67, a verdade é que a Itália teve muitos governos desde o final da Segunda Guerra Mundial e essa característica da sua história política aparece, desde que me lembro, invocada pelos opinadores da comunicação social quando de cada crise que ali se regista, como agora mais uma vez tornou a acontecer. O que é menos coerente é quando estudamos o assunto mais em profundidade e comparamos o caso da Itália, por exemplo, com o de um outro vencido da Segunda Guerra, o Japão, que, pelo menos a crer nas análises daqueles mesmo opinadores, passa por um modelo de estabilidade, nos antípodas da confusão italiana, quando afinal se descobre que, não tendo tido os sessenta e tal governos em 70 anos da Itália, o Japão teve, nesse mesmos 70 anos, cinquenta e muitos governos... Ele há argumentos que são mais eficazes que consistentes, e uma boa parte dessa eficácia deve-se à ignorância da audiência.

AS VITÓRIAS DA EUROPA

Para percebermos a quem a Europa está entregue, aprecie-se esta intervenção (abaixo) de ontem do comissário francês Pierre Moscovici em que, no mesmo comentário, consegue descartar a derrota das propostas de Matteo Renzi no referendo como um assunto exclusivamente italiano e reivindicar para si e para a Europa a vitória do candidato Alexander Van der Bellen nas presidenciais austríacas. O problema não será a cara-de-pau do burocrata, que isso trata-se com aquela grande invenção brasileira que é o óleo de peroba, o problema é que o discurso até me parece genuíno, é a capacidade de toda aquela fauna que povoa o Berlaymont se continuar a iludir.

ESTA PEQUENA ALDEIA QUE É PORTUGAL...

(...) com a audição de Guilherme d’Oliveira Martins, que foi presidente do Tribunal de Contas e é o actual presidente do conselho fiscal da Caixa, ainda que vá ser ouvido (na comissão parlamentar de inquérito à Caixa Geral de Depósitos) na qualidade de antigo ministro das Finanças.

Por sermos dez milhões é que precisaremos tanto destes Homens dos Sete Instrumentos.

05 dezembro 2016

QUE SAUDADES...

...dos tempos em que o Partido Comunista Português tinha uma realidade concreta e alternativa ao modelo de sociedade - capitalista - que os seus militantes tanto criticavam por cá aos países da Europa ocidental. Evoque-se a Moscovo pitoresca desses outros saudosos tempos soviéticos, em que o abastecimento de uma tabacaria provocava a concentração que a fotografia documenta. Quanto mais eu regresso ao passado e mais exemplos encontro de política pós-factual... Parece-me cada vez mais um nome moderno de um fenómeno antigo.

«DE COLÓNIA É O LEITI QUE VOCÊ DEVE USAR... LEITI DE COLÓNIA PRÁ BELEZA REALÇAR»

O que mais aprecio no jingle é o seu sotaque, numa época em que o que era brasileiro era exótico por ser raro, casos do Badaró ou da Mara Abrantes (esqueçam lá os jogadores de futebol...).

04 dezembro 2016

A CENA DA CERIMÓNIA DA ABERTURA DA ARCA DA ALIANÇA


Mesmo sem Donald Trump ainda ter tomado posse, só alguns preâmbulos noticiosos da sua actividade já assustam um bocado. Todos estes incidentes carregados de consequências para o futuro fazem-me lembrar a cena da cerimónia da abertura da Arca da Aliança pelos nazis no filme Salteadores da Arca Perdida. A cena até começa em ritmo suave mas evolui num crescendo ameaçador carregado de promessas... que se concretizam. Era bom que quem fosse puro e fechasse os olhinhos na altura certa se safasse sem uma beliscadura como aconteceu no filme com Indiana Jones e a Marion?... Mas esperemos antes que eu, que não acredito no enredo de filmes como Trump, me engane com a analogia.

A EUROPA VISTA POR ALGUNS DOS QUE A CONSTITUEM

Neste dia em que se realiza um referendo em Itália e se repetem umas eleições presidenciais na Áustria, ambos capazes de gerar resultados que façam correr muita tinta de comentários quanto às perspectivas de evolução política da União Europeia, deixe-se aqui para reflexão este quadro de como em alguns países se classificará as relações com os outros membros da União. Perguntou-se sucessivamente aos questionados que país consideravam mais e menos digno de confiança (trustworthy), arrogante (arrogant) e mostrando compaixão (compassionate). A nós não nos perguntaram nada... ou a The Economist achou que não valia a pena dar destaque à nossa opinião.

03 dezembro 2016

A VERDADEIRA OPINIÃO POPULAR (2) - «Pertence a alguma Comissão de Moradores?»

Dois anos e meio depois do inquérito anterior, foi em Lisboa que o jornalista do Diário de Lisboa foi para a rua perguntar às pessoas se «pertenciam a alguma Comissão de Moradores?» Muita coisa mudara nesses dois anos e meio, nomeadamente em consequência do 25 de Abril de 1974. Mudara a atitude do entrevistador e também mudara o que havia a esperar dos entrevistados. Estava-se em pleno Verão Quente (trata-se da edição de 28 de Agosto de 1975). E o próprio texto introdutório ao inquérito deixará transparecer esse ambiente engajado de PREC:

Forma de organização popular destinada a resolver, a nível de bairro ou de rua, alguns problemas fundamentais dos habitantes, as «comissões de moradores» terão um papel insubstituível a desempenhar na fase de transição para o socialismo. O processo já está em marcha e contam-se à centenas as comissões já existentes. E o leitor? Pertence a alguma comissão de moradores? Já existe alguma na zona onde mora? O breve rastreio a que procedemos mostra-nos que ainda há quem desconheça esta forma de organização popular...

Manuel José da Silva, vendedor de jornais, 31 anos:
Não faço parte. Lá no meu bairro há uma comissão de moradores, da Rua de São Paulo. Penso que seja perfeita por causa de uma coisa: Hoje há muita falta de moradias e nestes bairros ainda se conseguem encontrar algumas. Fora de Lisboa saem caríssimas, porque ainda temos de pagar transportes e outras coisas mais.
Participou na eleição da comissão de moradores?
No dia em que chamaram, que remédio, porque eu necessito também de uma morada, porque eu estou num quarto, a pagar 900 escudos.
João Cidade Rebelo, ajudante de motorista, 31 anos:
Eu, por acaso, não pertenço. Estão a organizar uma comissão de moradores lá no bairro onde eu moro, em Xabregas. Vejo utilidade nisso, porque há muitos assuntos a tratar, como por exemplo, comissões de obras. Pertenço a um grupo desportivo. Estamos neste momento a arranjar uma sede, e já fomos subsidiados pela comissão administrativa da junta. Vamos fazer uma sedezinha, para ajudar as crianças, com um ginasiozinho lá dentro. A comissão de moradores deve ter plenos poderes para organizar tudo o que seja preciso nos bairros e nos fogos.
Vítor Manuel Rodrigues, vendedor, 36 anos:
Moro em Odivelas, mas não pertenço à comissão de moradores. Há lá comissão, só é pena, quando foi das eleições... Houve lá um plenário, com 60 e tal indivíduos... quer dizer, há pouca assistência. Numa população de 100 mil habitantes, é pena que a comissão não faça os possíveis para levar mais gente. O plenário que eu vi com mais assistência devia ter aí à volta de 150 habitantes. Quanto a mim. Acho que isso não é nada, nem se pode de maneira nenhuma eleger uma comissão de moradores assim. O mal é as tais cúpulas de partidos...
Acho que essas comissões são necessárias, e até digo mais: deviam ser constituídas só por moradores e não por proprietários de andares e prédios. Por exemplo, em Odivelas há indivíduos que são proprietários, e isso a nós não nos interessa.
(...), empregado da construção civil, 38 anos:
Moro na Damaia. Se há comissão de moradores, não conheço. Olhe, saio de manhã e venho à noite, pró meu trabalho, ganhar o meu, prós meus filhos.
Mas já ouviu falar numa comissão de moradores...
Não senhor.
Mas um grupo de pessoas que lá no bairro queira resolver os problemas principais...
Ninguém me tratou mal, também não tratei mal a ninguém. Saio de manhã e entro à noite...
 
Ou os jornalistas do Diário de Lisboa tiveram muito azar ou não se esforçaram o suficiente até encontrar alguém que pertencente a uma das centenas de comissões de moradores ou então era o engajamento do povo trabalhador na revolução que deixava mais a desejar do que aquilo que a propaganda deixava entender: nenhum dos entrevistados fazia parte de uma comissão de moradores, o mais próximo do empenho social era o cidadão que estava mais interessado no seu clubezinho, com a sedezinha e o ginasiozinho... Isso não era razão para que os baladeiros - abaixo é Luís Cìlia - cantassem aquilo que era mais sonho deles que realidade...

A VERDADEIRA OPINIÃO POPULAR (1) - «Atribui algum significado à realização de um Congresso da Oposição Democrática?»

A 16 de Dezembro de 1972, o Diário de Lisboa foi para as ruas de Aveiro questionar os aveirenses sobre o III Congresso da Oposição Democrática que iria ter lugar naquela cidade no próximo mês de Abril (de 1973). O texto abaixo é o conteúdo do artigo relatando o resultado das entrevistas.
 
Aveiro, cidade onde decorrerá o I (sic) Congresso da Oposição Democrática, está a viver o acontecimento de maneira especial. Não só porque os anteriores Congressos também decorreram em Aveiro, como, também, porque durante as reuniões preparatórias se deslocam aquela cidade muitas personalidades cuja presença tem sido naturalmente motivo de conversa. Daí a nossa pergunta feita a pessoas que encontrámos, ao acaso, na rua «Atribui algum significado à realização de um Congresso da Oposição Democrática?»
 
Acho que é uma coisa boa, afirma Carlos Peixinho profissional de seguros. Penso que o Congresso pode ajudar a encontrar novas soluções para os problemas porque, quanto a mim, é preciso remodelar o modo de vida que a gente leva. É da discussão que nasce a luz e eu sempre acreditei nos resultados positivos da discussão.
Um Congresso desta natureza representa sempre uma melhoria para o País, responde Acácio dos Santos Pires, fiel de armazém.
Uma vez que se aproximam as eleições o Congresso justifica-se, segundo a dr.ª Maria Albuquerque, professora liceal. Todas as opiniões devem ser escutadas quando se trata de resolver os problemas que a todos interessam.
Eu estou muito fora da política, diz Maria Manuela Silva, dactilógrafa. Sinceramente não sei o que hei-de responder. Não sei porque não sei mas, de facto, não me interessa responder.
Não atribuo qualquer significado à realização do Congresso da Oposição Democrática, afirma António Manuel Algés, estudante do ensino técnico.
Desde que seja para o bem do País, acho bem, responde Manuel, empregado de estação de serviço.
Dou grande importância à realização de um Congresso da Oposição Democrática, até porque não é usual que a Oposição se possa reunir a nível nacional, é a opinião de Carlos Marques, profissional de futebol.
Acho tudo isto um pouco teatral, afirma Maria Helena Branco Lopes, decoradora. Este Congresso e os que os outros realizam. Sou apolítica. Há anos que me deixei disso. Cheguei à conclusão que nada está certo.
Não atribuo significado especial mas, se não for para mal, até acho bem. É a opinião do capitão Ferreira da Silva, armador de barcos.
O Congresso poderá ter um significado extraordinário, segundo o eng.º Carlos Henrique, industrial. Não estamos habituados a reuniões deste género que deviam ser organizadas com muito mais frequência.
Finalmente conversámos com um grupo de três jovens: Maria do Amparo Picado, empregada de escritório; Maria da Conceição Santos, empregada de escritório; e Virgínia Maria Santos, estudante liceal. Eis as opiniões que manifestaram:
M.A. – Acho que é bastante interessante.
M.C. – A malta jovem também participa? Acho que devíamos estar representados. A nossa opinião é muito importante.
V.M.S. – Mais que a dos mais velhos.
M.A. – Pena é que não ponham a idade de votar aos 18 anos. Assim aumentaria a participação dos jovens.
 
Entre truísmos, trivialidades, algum desinteresse confesso mas também algum entusiasmo, embora pouco substanciado, esta amostra sociológica do que pensaria o português típico do antes do 25 de Abril da disputa política, desmentem o retrato mítico que actualmente se pretende fazer da Oposição ao Estado Novo: tratava-se de uma elite restrita e distanciada do português comum.

A GRÉCIA CONTINUA A EXISTIR...

A Grécia continua a existir e continua em crise. E o descontentamento dos gregos também. Ontem foram publicados os resultados de uma sondagem que colocam a Nova Democracia 16% à frente do Syriza. Nove em dez gregos estão insatisfeitos com o desempenho do governo grego. Pelos vistos, continua tudo como dantes lá pela Grécia, o que terá mudado foi a cobertura que se dá aos problemas gregos aqui em Portugal. Quem for ler o histórico das notícias sobre a Grécia de um jornal da corda como o Observador apercebe-se como terá havido uma intenção deliberada de assustar os leitores com as consequências do caminho trilhado pelos gregos, mas só até há cerca um ano atrás. Nessa época, todas as vicissitudes do governo do Syriza, fossem elas internas ou europeias, mereciam destaque reforçado e um enfoque o mais pessimista possível. Significativamente, a 15 de Novembro de 2015, o governo do PSD/CDS preparava-se para ser chumbado aqui no parlamento português e ainda se publicava naquele jornal um artigo com um título como: «Grécia. Qual está a ser o preço da "aventura"?»... Depois, instalou-se por cá a geringonça e ter-se-á perdido a utilidade de invocar o (mau) exemplo grego. O mal já estaria feito e deixava de ter interesse falar mais do assunto. Progressivamente, a Grécia e as desventuras do governo do Syriza foram desaparecendo do radar de notoriedades do Observador. Tanto assim que, quando escrevo, o jornal ainda não noticiou sequer - nem tenho a certeza que o venha a fazer - esta última sondagem que dá o Syriza com metade das intenções de voto da Nova Democracia. Pelos vistos, agora já não valerá a pena. Emblemático daquilo que acabei de descrever: ao longo de 2015 José Manuel Fernandes dedicou doze das suas crónicas à situação na Grécia (abaixo); 2016 aproxima-se do fim e este ano o número de crónicas de José Manuel Fernandes tendo por tema a Grécia tende para zero. O que mudou na Grécia nestes dois anos? E o que mudou em Portugal?...

02 dezembro 2016

LISBOA, AVENIDA DA LIBERDADE, NOVEMBRO DE 1942

Os livros de História assinalam que no mês de Novembro de 1942 os exércitos soviéticos executaram com sucesso a Operação Úrano, de que resultou o cerco das unidades do exército alemão que estavam engajadas na conquista de Estalinegrado. Mais perto de nós mas também ainda no quadro da Segunda Guerra Mundial, os mesmos exércitos alemães, executando por sua vez a Operação Anton, haviam ocupado militarmente a parcela da França que ainda se mantivera até aí autonomamente administrada pelo regime de Vichy. É com a consciência deste contrastes das sortes da guerra que se adiciona mais este contraste, o propiciado por esta fotografia, que apetece qualificar de bucólica (um bucolismo urbano), de uma Lisboa que, a uma primeira vista, se apresenta distante das convulsões que dilaceram a Europa. O distanciamento talvez, as consequências nem tanto. Estamos a ver uma das artérias mais concorridas da capital e não se vê um único automóvel em circulação - consequência mais do que provável do racionamento de combustível. E, quem for mesmo curioso, há de reparar que o filme em exibição no cinema Tivoli se intitula O Ídolo, com Gary Cooper, a história de Lou Gehrig, astro do beisebol, modalidade que por cá não tinha (nem nunca virá a ter) popularidade alguma. Portugal vivia sob uma prudente neutralidade. Aquilo que acabara de acontecer à França de Vichy era mais um reforço no sentido da precaução. Mas uma vistoria pelos filmes em cartaz em Lisboa (hoje isso seria qualificado como uma avaliação do soft power relativo das potências) desvendaria facilmente a que esfera de influência o país se submetia.

ESCREVEM LEVE, LEVEMENTE...

Os livros deste género parecem ter sido todos escritos com uma contundência equivalente àquela como a neve veio perturbar o que parecem ser os pensamentos ensimesmados de Augusto Gil. Este de João Gobern tem 228 páginas e não se aventura em raciocínios complicados - é um daqueles livros que, verdadeiramente, se pode ler num punhado de horas. Refere-se a dezenas de figuras da televisão sem que diga mal de algum deles - o que pode ser considerado uma proeza nos dias que correm. E finalmente pretende ter feito a narrativa do que foram quase 35 anos de emissões da RTP (1957-1991) socorrendo-se só da memória - já que no fim não apresenta nem bibliografia nem índice remissivo (o que me faz lembrar aqueles best-sellers de Paula Bobone...).

Contudo, tendo-o lido levemente, assim como imagino que tenha sido escrito, não pude deixar de me questionar sobre o rigor de uma ou outra passagem do livro. Ainda recentemente, quiçá com outra exigência por o autor ser um académico e por ser brasileiro, vi uma biografia sobre Marcelo Caetano ser destroçada pela falta de rigor. Ora, até para não mudar de assunto, falemos então da entrada que João Gobern dedica no seu livro ao antigo presidente do Conselho (p.206): «A 19 de Fevereiro de 1969, estreavam-se as Conversas em Família,...» Ora acontece que, como se comprova em Salazar, Caetano e a Televisão Portuguesa de Francisco Rui Cádima a primeira Conversa em Família na RTP teve lugar a 8 de Janeiro de 1969; e antes da data mencionada por Gobern já havia tido lugar uma segunda conversa, em 10 de Fevereiro (pp. 212 e ss.). E para que a asneira seja completa, a 19 de Fevereiro não houve conversa alguma...

Confesso que o que mais me intriga não é João Gobern ter falhado as datas certas; é saber onde é que ele foi desencantar aquela data errada. Podia ao menos ter consultado os jornais da época: a edição do Diário de Lisboa de 8 de Janeiro de 1969 anunciava a ida de Marcelo Caetano à televisão nessa noite (às 22H00) logo em primeira página! Felizmente para ele o livro é parco em factos verificáveis. Associo João Gobern aos meandros das corporação dos comentadores futebolísticos, que, reconheça-se, é um dos grandes empregadores da comunicação social, mas onde o grau de exigência gera esta cultura de negligência medíocre - aliás, costumam ser as excepções com mais qualidade a ser as mais marginalizadas. Se em campo (jogadores) e a pisar a relva (treinadores), Portugal até é campeão europeu da modalidade e pode orgulhar-se disso, à volta do campo o problema dos que por lá pululam (entre dirigentes e jornalistas/comentadores) é tanto de quantidade (que ele há muitos) quanto de qualidade (são muitos e normalmente muito maus).

01 dezembro 2016

SOVIETO-KITSCH

No final deste mês de Dezembro de 2016 comemorar-se-ão as Bodas de Prata do desaparecimento da União Soviética. Mas há tendência para esquecer como a União Soviética ao tempo em que desapareceu já era muito diferente da canónica, daquela superpotência que por décadas dera gosto a Álvaro Cunhal apresentar em Portugal como O Sol na Terra. A União Soviética que resultara das iniciativas permitidas pela Perestroika tornara-se um embaraço, com as massas proletárias a darem expressão a um gosto kitsch que, imagine-se, até parecia copiado das suas congéneres ocidentais! Quase 75 anos de dogma da superioridade do socialismo esvaziavam-se perante esta oportunidade da expressão do gosto popular!... O Igor e a Natasha (no disco acima) eram uma dupla artística desses novos tempos, formada por Igor Nikolaev e Natasha Koroleva, cantava Del'fin i rusalka, uma canção de construção simples onde até a própria barreira linguística não nos impede de perceber o quanto as múltiplas invocações marítimas são por demais idealizadas e estilizadas. Mais do que os proletários, os foleiros de todo o Mundo é que pareciam estar unidos e sem necessidade de exortações para o fazerem...

OS BOMBISTAS E OS OUTROS

«Numa noite de pavor, a explosão de duas bombas provocou em Dublin a morte de duas pessoas, ficando feridas cerca de duzentas. Os atentados ocorreram no centro da cidade quando o Dail (o parlamento) se preparava para votar as propostas governamentais visando o Exército Republicano Irlandês (IRA). As notícias do derramamento de sangue, do pânico e terror, modificaram a atitude do principal partido da oposição que deixou de contrariar a legislação proposta pelo Governo de Jack Lynch. O resultado da votação na Câmara de 144 lugares foi de 70 votos a favor e de 23 contra. A nova legislação determina que um suspeito de pertencer a organizações clandestinas tenha de provar em tribunal que as suspeitas são infundadas, em vez de ser o Ministério Público obrigado a provar a culpabilidade dos réus. Entretanto, tanto o IRA Provisório como o Sinn Fein afirmaram que nada tinham a ver com os atentados, atribuindo-os a agentes secretos ingleses

Foi há precisamente 44 anos. Por aquela vez, aqueles que eram tradicionalmente descritos como os terroristas - o IRA e o Sinn Féin - estavam a dizer a verdade. A razão para que os serviços secretos britânicos estivessem por detrás da colocação daquelas bombas estava à vista de todos. Tanto assim que até uma pequena peça jornalística como a que acima se transcreve a explícita: condicionar o voto dos TDs do parlamento irlandês na aprovação de legislação que tornaria mais difícil a vida aos seus adversários. Estes foram, aliás, prestabilíssimos a auxiliar as investigações da polícia irlandesa para descobrir quem perpetrara os atentados. Em escassas semanas descobriu-se que os operacionais que haviam colocado os engenhos (automóveis armadilhados) eram militantes da UVF (organização lealista do Ulster). Por detrás deles adivinhava-se a assessoria dos serviços secretos britânicos, muito mais difícil de provar que são assim as operações clandestinas bem montadas... Além do impacto político e noticioso primário, Londres passara um recado discreto a Dublin: o IRA não podia operar na, e a partir da, Irlanda (do Sul) com a liberdade que o governo irlandês lhe havia concedido até aí. Senão a tensão alastrar-se-ia... Os profissionais tomaram nota daquele recado. As actividades do IRA perderam a indulgência (ostensiva) de Dublin. A opinião pública irlandesa, contudo,teve que esperar 32 anos, até à publicação do Relatório Barron em Novembro de 2004, para que houvesse um reconhecimento oficial da parte irlandesa quanto ao jogo sujo que os britânicos haviam praticado. Nessa época (2004) a noite de pavor em Dublin já era uma recordação antiga e o Sinn Féin uma respeitável formação política legal em qualquer das duas irlandas.

30 novembro 2016

A FALTA DA OPINIÃO DO NOSSO ESPECIALISTA EM GREVES DE PILOTOS

Conforme notícia esta quarta-feira o insuspeito Observador a greve dos pilotos da Lufthansa arrasta-se. É uma situação recorrente: já há um ano tinha havido outra greve, e as notícias respeitantes ao braço de ferro entre os sindicatos e a administração da transportadora aérea alemã já se contradizem entre a duração do conflito (dois anos, dois anos e meio?) e o número de greves já realizadas (15? 18?) e por quem (pilotos? pessoal de cabine?). O que me parece evidente é que, não se desse o caso da companhia ser alemã, e ouviríamos imensas vozes a clamar que tantas greves eram um escândalo. Não há disso nos países desenvolvidos. Para essas vozes a greve, qualquer greve, costuma ser um escândalo. Só depois é que há espaço para explicar porquê. E é por isso que é nestas alturas que se torna importante que órgãos de comunicação social responsáveis (como o Observador e outros) ouçam os especialistas nestes assuntos de greves inoportunas como será o caso, por exemplo, do ex-ministro Pires de Lima - conhecido por ter opiniões muito firmes quando de uma greve idêntica ocorrida na TAP (veja-se abaixo). Ir ouvi-lo, mesmo que o especialista não queira, neste caso, dizer nada. Muitas vezes é tão notícia o que o especialista quer dizer como aquilo que ele não quer dizer. Inquira-se e sobretudo publicite-se o resultado da inquirição. Para que não fiquemos com a impressão que a comunicação social é subserviente não apenas ao conteúdo mas também à oportunidade das notícias. Sei lá: mostrarem ter por objectivo informar o leitor...

UMA ANALOGIA SOBRE A BELEZA JUDAICA (do tempo em que não era politicamente incorrecto referi-la assim)

Maigret, que olhou maquinalmente para os tornozelos de Anna Gorskine, reparou que ela sofria, como a mãe receara, de hidropisia. 
Os seus cabelos ralos, que deixavam ver o couro cabeludo, estavam desgrenhados. O seu vestido preto estava sujo.
Para rematar, uma penugem mais do que evidente sombreava o seu lábio superior.
Mas, mesmo assim, era bonita, de uma beleza vulgar, animal. Com as pupilas cravadas no comissário, a boca mostrando desdém, o corpo vagamente encolhido, ou talvez enroscado pelo instinto do perigo, perguntou implicativa:
« Se sabe isso tudo, para que serve fazer-me essas perguntas?...»

Esta passagem é de Pietr-o-Letão, um dos primeiros romances de Georges Simenon, escrito por volta de 1930. Anna Gorskine é uma das personagens secundárias desse livro, uma jovem judia de Vilnius (então polaca, hoje lituana) que tinha vindo estudar para Paris e que entretanto se perdera. A cena decorre numa cela, a simpatia de Maigret por Anna Gorskine é evidente para o leitor, embora o trecho acima se venha a concluir com um episódio de uma exuberante histeria nervosa curado com o conteúdo de uma bilha de água que Maigret lhe atira à cara. Em compensação, à saída e discretamente, Maigret deixa a indicação para que as suas refeições viessem do restaurante da frente, uma mordomia rara para um detido...
Sabe-se muito mais de Anna Gorskine do que de Monica Lewinsky. É curioso como algumas páginas de um romance podem ser mais reveladoras de uma personalidade do que centenas delas de meses de acompanhamento de um escândalo. A bem dizer e para subsistir, o escândalo de Bill Clinton com a estagiária, nem precisava de personagens, apenas de uma história e das fotografias dos protagonistas, que o resto adivinhava-se. O padrão de beleza da estagiária não era o convencional, de WASP. Mas o que justifica esta minha associação é a descrição física acima de Anna Gorskine, mais pincelada que desenhada, mais sugerida que relatada por Simenon, e de como ela se assemelha a Monica, sobretudo quando os anos passam e pesam (abaixo). Vale a pena acrescentar que o escritor belga sabia desenhar os seus tipos físicos: os antepassados de Monica são também judeus e também originários daquelas mesmas paragens centro e leste europeias.

29 novembro 2016

«O CAFÉ» (1973)


«O Café» (1973) é uma canção da autoria de Fernando Tordo e José Carlos Ary dos Santos, mas onde se desconfia ter havido toque de orquestração de José Calvário. É esta última que acaba por conferir à canção uma sonoridade de época. É a sonoridade típica dos primeiros anos da década de 1970, transmitindo um dinamismo optimista (a economia crescia então a um ritmo de 10% ao ano), uma sensação que era para ser neutralizada se atentássemos ao conteúdo da letra, na sua mordacidade e na descrição dos vários tipos sociais, muito semelhante no formato, aliás, à muito mais conhecida Tourada dos mesmos dois autores, que viria a ganhar o Festival da Canção da RTP desse mesmo ano de 1973. Há quem diga que a inspiração de Ary dos Santos terá sido a frequência de então da pastelaria Vavá. Talvez. De qualquer modo, não são apenas as descrições dos tipos sociais que estão datadas, alguns dos coloquialismos de que o letrista se socorre hoje praticamente desapareceram (penante, fava-rica, pescado do alto). Mas a canção possui a virtude de, na sua ligeireza despretensiosa, mostrar como em 1973 não se fazia a mínima ideia daquilo que estava para acontecer, quer nas economias do Mundo Ocidental, com a recessão do choque petrolífero, quer na política em Portugal, com as transformações radicais do 25 de Abril. Chamar a esta uma música de intervenção, como por aí vi escrito, nem chega a ser um disparate. As presciências só vieram depois, e têm-se tornado cada vez mais prescientes há medida que os anos passam.

Chegam uns meninos de mota,
Com a china na bota e o papá na algibeira
São pescada marmota que não vende na lota
Que apodrece no tempo e não cheira
Porque o tempo
É a derrota

Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais tal como a fava-rica
Sabem sempre de mais,
Escrevem para os jornais com canetas molhadas na bica
E a inveja (sim, a inveja!)
É quanto fica

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São as bichas matreiras que só dizem asneiras
São rapazes pescado do alto
E o que resta
É pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São raposas matreiras que só dizem asneiras
São rapazes pescado do alto
E que resta
(Evidentemente que é) Pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É sempre a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente.

E SE, A MEIO DE UMA VIAGEM, O PRESIDENTE DESAPARECESSE SEM QUE SE DESSE POR ISSO?

A pergunta pode parecer impertinente, com uma sugestão de troça, mas foi precisamente isso que há 96 anos aconteceu com o Presidente de França, Paul Deschanel (1855-1922). Ele havia apanhado um comboio para se deslocar ao Loire durante a noite de 23 para 24 de Maio de 1920, quando terá caído da composição quando ela felizmente se deslocava a pouca velocidade por causa dos trabalhos na via. Foi até um trabalhador encarregado de vigiar a obra a encontrá-lo, de camisa de noite, descalço e com a cara ensanguentada, reclamando ser o presidente da República! Outros tempos, outros costumes, a figura do presidente ainda não era conhecida do grande público (tomara posse há apenas três meses) e o empregado dos caminhos de ferro (cheminot) acompanhou-o desconfiado até à casa do encarregado da passagem de nível mais próxima onde, por volta da meia noite, foi tratado e albergado pela mulher deste. Mas foi só pelas 5 da manhã que o Prefeito da vila mais próxima (Montargis) foi alertado para o incidente. A descoberta do paradeiro do Presidente acabou quase por coincidir com a descoberta do seu desaparecimento quando o comboio chegou ao destino, pelas 7 horas da manhã.
O que acontecera a Paul Deschanel era impossível de abafar e a explicação oficial para descrever o que lhe acontecera também roçava o inverosímil: o Presidente tomara uns comprimidos para dormir que o haviam entontecido e que, quando procurara abrir uma janela para apanhar ar fresco, o haviam feito cair do comboio. Era o melhor que se podia arranjar para preservar a reputação presidencial... mas era claramente insuficiente. Os comboios não costumam ir largando passageiros pelos taludes da forma tão acidental como a da explicação. E o que já era complicado de explicar com um passageiro normal tornava-se mais difícil quando se tratava de um Presidente da República, por muito ensonado que estivesse. Os circuitos formais de formação da opinião pública podiam ser controlados (veja-se, a propósito, o tom positivo, quase casual, dado pelos cabeçalhos do Le Petit Journal do dia seguinte), mas os circuitos informais não: houve cançonetas, anedotas, caricaturas. Sussurravam-se histórias mirabolantes sobre a saúde mental do presidente. Em Setembro de 1920, sete meses depois de tomar posse, Paul Deschanel demitiu-se, pondo termo a uma situação insuportável.
Uma dúzia de anos depois, o escritor belga Georges Simenon incorporou o episódio num dos seus romances policiais protagonizados pelo Comissário Maigret: Le Fou de Bergerac. Naquele que eu considero um dos mais absurdos plot holes da sua obra, Simenon põe o seu Comissário, com uma reputação construída de fleuma e circunspecção, a saltar inexplicavelmente de um comboio atrás de um passageiro sem razão aparente. Até aí ele apenas lhe fizera uma companhia desassossegada num dos beliches da segunda classe...