19 março 2019

SOBRE A FORMA DE NOTICIAR EXPLOSÕES EM ALTITUDE

Como costuma acontecer regularmente com as notícias de cariz científico, quando o bombástico se confronta com o rigoroso, este último é fragorosamente derrotado. O que os autores da notícia acima podem afirmar com segurança é que só ao fim de três meses a explosão foi noticiada. Sabe-se (esta jornalista não sabe, mas essa é toda uma outra história...) que as potências empregam sistemas e equipas profissionais para rastrear os céus, de que o exemplo norte-americano do DSP (Defence Support Program) é apenas isso: um exemplo. Os profissionais do rastreamento devem ter sabido do acontecimento quando aconteceu. Só que a missão dessas organizações não é, propriamente, andar a informar os jornais. Pelo contrário, as mais sofisticadas, caso da americana, da russa ou da chinesa têm até um certo dever de reserva, para não revelarem aos adversários as suas potencialidades (ou, acessoriamente, os seus pontos fracos). Impera a discrição e percebe-se porque é assim. Para quem se dispuser a lê-la, atente-se que a origem da notícia é um carola canadiano no twitter com as imagens da agência meteorológica japonesa. Em suma, não sendo uma notícia falsa, publicada como está e sem o devido contexto e enquadramento, torna-se uma notícia errada.
Por uma singular coincidência, há precisamente sessenta anos, também era notícia de jornal (e logo de primeira página), outras grandes explosões, três, «acima da atmosfera». Essas, porém, e apesar de noticiadas com um atraso bem superior ao do exemplo acima, eram de origem artificial, embora se tratassem de explosões de uma potência cem vezes inferior à acima mencionada. A denominada Operação Argus fora montada pelos Estados Unidos no Atlântico Sul. Três engenhos nucleares de "pequena" potência (1,5 kton) foram detonados a altitudes progressivamente crescentes (180 km, 300 km, 800 km) numa das localizações mais remotas do planeta, para verificar na prática uma tese. Não era assim tão «sensacional» quanto o título da notícia pode levar a induzir, mas leve-se o entusiasmo da época à conta da ignorância a respeito das consequências de tais ensaios. Na sua realização haviam participado nove navios da US Navy que se haviam postado a uns 1.800 km a Sudoeste da cidade do Cabo na África do Sul, num dos locais menos frequentados do planeta*, mas também, e por causa de eventuais intromissões e equívocos, um dos mais afastados da União Soviética. Os testes haviam tido lugar em Agosto/Setembro de 1958 (quando, não esqueçamos, é Inverno no hemisfério Sul) e a notícia só se terá sabido por causa de um furo jornalístico do New York Times, que precipitou a comunicação oficial do secretário adjunto da Defesa Donald Quarles.

* Vale a pena também mencionar que ali se situa a Anomalia (magnética) do Atlântico Sul.

TANQUES NA PRAÇA VENCESLAU DE PRAGA

19 de Março de 1939. Vivem-se dias de uma outra entrada de tanques estrangeiros em Praga. Estes eram alemães. E a praça Venceslau, no centro da cidade, tem uma configuração ampla, adequada a coreografias com carros de combate, para que estes circulem, como se fizessem parte de um corso carnavalesco fora de época...

18 março 2019

QUANDO A MILITÂNCIA POLÍTICA PODIA PREJUDICAR GRAVEMENTE A SAÚDE DOS MILITANTES

18 de Março de 1919. Há cem anos, começavam em Moscovo os trabalhos do 8º Congresso do Partido Comunista Russo (bolchevique), no decorrer dos quais veio a ser eleito um renovado Comité Central do Partido, ampliado de 15 para 19 membros. Desconhecido dos delegados comunistas aquilo que o futuro reservava para a excelsa representação que acabara de eleger. A morte iria arrebatar prematuramente o mais excelso de todos eles, Lenin, em 1924, seguido de Dzerjinsky, em 1926, e de um mais idoso (66 anos) Stučka, em 1932. Mas, dos 16 destacados comunistas de há cem anos que ainda estavam vivos nos meados da década de 1930, 12 vão morrer de uma morte não natural nos cinco anos que medeiam entre 1936 e 1941. Por ordem alfabética: Beloborodov (1938), Bukharin (1938), Evdokimov (1936), Kamenev (1936), Krestinski (1938), Radek (1939), Rakovski (1941), Serebryakov (1937), Smilga (1938), Tomsky (1936), Trotski (1940) e Zinoviev (1936). Se, nesta dúzia de nomes constam nomes de notoriedade diferente (o que não abona em prol da igualdade preconizada pelo comunismo), reconheça-se a forma como compartilharam fraternalmente a fatalidade do destino que lhes foi preconizado pelo seu camarada Stalin (esse, só morreu em 1953), que é outro e muito provavelmente o mais bem sucedido dos membros do renovado Comité Central de que hoje se comemora o centenário.
Recuperando um slogan que só apareceu muitas décadas depois e passando o anacronismo, faz todo o sentido rematar com a opinião de a uma ampla maioria daqueles revolucionários lhes fez bastante mal à saúde que terem sido eleitos membros do Comité Central... Tempos idos esses em que nada de pior para a saúde de um comunista do que ser tomado por inimigo por outro comunista.

A ERUPÇÃO DO VESÚVIO

18 de Março de 1944. Em Itália e em plena Segunda Guerra Mundial, apesar da destruição da frente de batalha passar apenas a 90 km dali, em Monte Cassino, a Natureza, na sua suprema indiferença, resolve exibir-se, accionando o Vesúvio, que entra em erupção. Aos beligerantes resta-lhes contemplar impotentes os tremendos poderes destrutivos - mas neutrais - da Natureza.

17 março 2019

PHILIPPE PÉTAIN NOMEADO EMBAIXADOR JUNTO DO GOVERNO NACIONALISTA ESPANHOL

17 de Março de 1939. Na edição do Diário de Lisboa podia ler-se a seguinte notícia, oriunda de Burgos, que permanecia a capital dos nacionalistas espanhóis envolvidos ainda na Guerra Civil: «O marechal Pétain, embaixador da França em Espanha, que ontem chegou a San Sebastian, deve partir amanhã para esta cidade (Burgos), a fim de entregar, na próxima segunda-feira (dia 20), as suas credenciais ao generalíssimo Franco.» Estas profusas movimentações diplomáticas (numa outra notícia desse mesmo jornal, anunciava-se que o duque de Alba, pelo governo nacionalista espanhol, apresentava as suas credenciais em Londres), eram o reflexo do desfecho do conflito em Espanha se considerar então decidido. A escolha pelos franceses para um posto subordinado de embaixador de um militar tão prestigiado quanto Philippe Pétain destinava-se a colmatar a má opção da França não ter apoiado os vencedores na altura certa. Mas, desconhecido então de todos, o futuro de França iria proporcionar a Pétain outras missões de muito maior responsabilidade...

«UNFORGETTABLE»


17 de Março de 1919. Há cem anos, em Montgomery, Alabama, no Black Belt do Sul dos Estados Unidos, nascia Nathaniel Adams Coles, mais conhecido pelo nome artístico de Nat King Cole.

16 março 2019

A RESSONÂNCIA E A ACÚSTICA DAS NOTÍCIAS

Já não há censura, mas os dias que correm são tempos em que há umas notícias que são mais iguais que outras (para parafrasear Orwell noutro contexto). Mesmo que as umas sejam o reverso das outras. Tome-se este bem recente exemplo, de como foi amplificadamente noticiada a ruptura dos grupos de saúde privados com o Estado, colocando-os a falar grosso e exigentes, e da discrição desta semana como foi noticiada a reversão da atitude desses mesmos grupos económicos. As três primeiras notícias versus as duas últimas, separadas apenas por um mês. Felizmente e no computo global, parece que se estará a caminho de um acordo mas, comprovadamente, saúde exclusivamente privada em Portugal, como actividade económica independente do Estado: esqueçam lá isso. Sem o Estado a bancar, os privados fecham as portas. O que a CUF e a Luz Saúde escusavam é de ter andado para aí, na comunicação social, armados em marialvas (com a cumplicidade do jornalismo do costume). Já que o óbvio é óbvio: «A ADSE tem uma grande arrogância na negociação»

VOCÊ AINDA SE LEMBRA DE QUANTO PARECEU IMPORTANTE O QUE AS AGÊNCIAS DE NOTAÇÃO PENSAVAM DAS FINANÇAS PORTUGUESAS?

Ainda se lembra daquele período em que pareceu fundamental o que as agências de notação financeira pensavam das finanças públicas portuguesas? E de como o assunto era apresentado como se essa reputação se transferisse individualmente para todos e cada um de nós? A vergonha de sermos "lixo" parecia recair em todos e cada um de nós. Os gráficos a esse respeito evidenciavam o caminho da degradação (veja-se abaixo, a inclusão dos símbolos partidários do governo em funções à data da reclassificação foi um acrescento meu). E de como a mensagem que invariavelmente se lhe seguia era que apenas o bom comportamento preconizado pelas políticas de Vítor Gaspar era o caminho da salvação?
Ainda se lembra? Foi assim e, por sinal, a coisa até correu bastante mal para o Passos Coelho porque Vítor Gaspar, apesar de incensado cá dentro e lá fora, se revelou um ministro assaz medíocre e a reacção das agências de rating não se quis adaptar às necessidades do ciclo político do PàF. O assunto acabou descartado do palco político e os gráficos prontamente esquecidos, já que iriam demonstrar um colossal fracasso. só mesmo eu para perversamente os ir actualizando, a mostrar aquilo que não era suposto mostrarem: que foi o nerd do Centeno a fazer aquilo que se esperava que o Gaspar, por ser nerd, fizesse. E é assim que, oito anos passados, um jornal simpático para Passos Coelho como o Observador (que, por sinal, aparecido apenas em 2014, ainda não existia nos anos mais rubros do "não há alternativa à austeridade"), de toda a forma um jornal da causa, se limita a subcontratar a agência Lusa para noticiar o que, noutras circunstâncias, seria noticiado como um espectacular salto de dois níveis no rating da dívida pública portuguesa.

QUANDO CUNHAL REGRESSAVA DE MOSCOVO PARA «PÔR FIM A UMA CERTA DESORIENTAÇÃO NO SEIO DO PCP»

Quinta-Feira, 16 de Março de 1989. Duas notícias distintas, respectivamente do noticiário nacional e internacional, publicadas no "seu" Diário de Lisboa, ajudam a recordar as desventuras por que então passavam os comunistas há trinta anos, enquanto o Muro de Convicções que haviam erigido à volta da sua argumentação se desmoronava com fragor. Em Moscovo, «o plenário do Comité Central do Partido Comunista Soviético» debatia «as propostas de Mikhail Gorbachev tendentes a vencer a escassez crónica de produtos alimentares» (afinal, havia-a, as filas não eram montagens fotográficas da propaganda capitalista...). Mais estranho, o camarada secretário-geral era citado empregando um slogan («devolver a terra a quem a trabalha») precisamente igual àquele que fora brandido em terras alentejanos na segunda metade da década de 70 pelo PCP, quando da sua tentativa de implementação de uma "reforma agrária" em tudo igual ao regime de propriedade da terra que vigorava na União Soviética, em que, só para lhe dar um colorido local, os Kolkhozes se denominavam UCPs. Regime esse que Gorbachev se propunha agora reformar, reformando a Reforma Agrária. Confuso. Nessa mesma edição do jornal, mas a dez páginas de distância, noticiava-se que o camarada Álvaro Cunhal regressava de Moscovo «para, finalmente, pôr fim a uma certa desorientação (natural, acrescentar-se-ia...) no seio do PCP.» Cunhal fora «passar férias» e «fazer exames médicos de rotina», sem que ninguém lhe perguntasse porque prescindira para isso do SNS português, que era (e continua a ser) na propaganda do PCP, «uma conquista de Abril». Outra incongruência da viagem de Cunhal fora a outorga de uma segunda condecoração soviética, a Ordem de Lenine. Incongruência, porque à época e mesmo depois, Cunhal recusara e continuaria a recusar a atribuição de qualquer condecoração portuguesa, quando sondado sucessivamente por Eanes, por Soares e por Sampaio. A modéstia não lhe terá permitido aceitar qualquer condecoração portuguesa, mas, saiba-se lá porquê, a Moscovo não conseguia dizer que não... Mas regressado curado e condecorado há precisamente trinta anos, o «revolucionário inflexível, verdadeiro patriota e internacionalista convicto» revelava-se indispensável para definir a atitude dos comunistas portugueses face ao vacilar dos dogmas de fé da ideologia deles.
Para o que interessa, a Reforma da Reforma Agrária na União Soviética veio a revelar-se aquilo a que em inglês se qualifica por "too little and too late". Mas essa é toda uma outra história...

15 março 2019

ADOPÇÃO DO HINO OFICIAL DA UNIÃO SOVIÉTICA


15 de Março de 1944. Discretamente, em plena conflagração mundial e justificando-se por causa da auto dissolução da III Internacional no ano anterior, a União Soviética adopta oficialmente um novo hino em substituição de A Internacional. Com uma outra letra, em que as menções a Lenine e Estaline entretanto desapareceram, ainda hoje permanece sendo o hino da Rússia.

14 março 2019

OS PRIMÓRDIOS DA NATO E A IMPORTÂNCIA RELATIVA DE QUEM A VIRIA A INTEGRAR

14 de Março de 1949. Tendo-se os Estados Unidos decidido a criar uma Organização político-militar em parceria com os seus aliados europeus, e estando em pleno curso as negociações para a constituição daquilo que viria a ser a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte), eram notórias, porém encapotadas, as intenções da diplomacia portuguesa, expressas, de resto, nas notícias que ela soprava para os jornais da época e que só a distância histórica nos permite hoje ler com uma outra transparência.
Assim, a primeira página do Diário de Lisboa de há 70 anos dava destaque em primeira página ao facto da «Islândia não aceitar que fossem instaladas bases militares no seu território». Na última página, mencionava-se que «a adesão da Dinamarca ao Pacto do Atlântico estava a ser negociada». A edição do dia seguinte referia-se, com igual destaque, a que «a melhoria das relações entre os Estados Unidos e a Espanha depende da medida em que Franco tornar mais liberal o seu regime.» De uma penada, varriam-se os outros países com presença insular a meio do Atlântico Norte.
As preocupações e intenções portuguesas percebiam-se nitidamente na passagem sublinhada: «Na hipótese da Dinamarca e Islândia aderirem ao Pacto do Atlântico, o único país fora desse Pacto com ilhas importantes no Atlântico será Portugal que possui o arquipélago dos Açores. Não são ainda conhecidas as intenções do governo de Portugal, embora em Washington conste não haver informações substanciais de que Portugal não deseje, eventualmente, alinhar com as outras potências ocidentais.» Lido assim, até parece que Portugal estava a fazer um favorzinho aos outros...

13 março 2019

AS MARCAS DO ACONTECIMENTO

Há fotografias que nos contam uma história. Dispensam legendas. Mas é preciso disposição e tempo para apreender a história que a imagem nos conta, por muito desagradável que a história nos pareça. Neste caso acima e para os que até agora não descortinaram o que os rastos na neve nos contam, um qualquer daqueles mamíferos pequenos, saltitante e fofinho por causa da pelagem de Inverno, foi atacado por uma grande ave de rapina. A comparação até pode ser forçada, mas lembrei-me dela depois de mais uma derrota do governo de Theresa May no parlamento britânico. Se o resultado do desfecho do referendo do Brexit parecia chocante, o comportamento das elites políticas britânicas para gerir posteriormente as consequências está a deixar uma marca indelével no solo...

12 março 2019

AS VOLTAS QUE A EUROPA LEVOU EM VINTE ANOS

12 de Março de 1999. No Museu Harry S. Truman, no Missouri, tem lugar a cerimónia da adesão da Hungria, Polónia e República Checa à NATO. Na imagem acima, vemos a anfitriã, a então secretária de Estado Madeleine Albright (por sinal, nascida em Praga), a discursar perante os ministros dos Negócios Estrangeiros dos três países recém-admitidos, num momento que parecia de consagração para a ampliação da esfera de influência dos Estados Unidos na Europa. Vinte anos depois, aqueles mesmos três países estão considerados entre os mais mal comportados da Europa (veja-se o vídeo abaixo), sendo votados a um semi-ostracismo por causa do autoritarismo dos seus regimes e a mesma Madeleine Albright que lhes terá servido de madrinha escreve, não apenas a seu respeito, mas também por causa do que está a acontecer na Europa de Leste, um livro intitulado «Fascismo - Um Alerta». São só precisos vinte anos para que na Europa se tenha dado uma grande volta...

A PRESSÃO DIPLOMÁTICA DOS ALIADOS SOBRE A NEUTRALIDADE IRLANDESA

12 de Março de 1944. Os jornais daquele dia davam conta da intensa manobra de pressão diplomática que estava a ser promovida pelos Estados Unidos (com a cumplicidade britânica...) para que a Irlanda abandonasse a sua neutralidade e rompesse as relações diplomáticas com os países do Eixo. Eamon de Valera, o primeiro-ministro irlandês, resistiu às pressões, e a Irlanda manteve-se neutral até ao final da Segunda Guerra Mundial. As cordialidade das relações americano-irlandesas atingiu um nadir. As antipatias de Washington pelos países que insistiam em permanecer neutrais, e que no caso dos dois países ibéricos eram justificadas pelo facto de se tratar de ditaduras, perdiam a máscara neste caso da Irlanda , já que esta tinha um governo democraticamente eleito e, por não fazer aquilo que os Estados Unidos desejavam que fizesse, não era melhor tratada por causa disso. A conduta de Franklin D. Roosevelt foi de verdadeiro bullying, mas hoje isso não interessa nada ser lembrado.

11 março 2019

O GABINETE DE CERA DE MADAME TUSSAUD

Antiga de 51 anos e no francês original, uma história em BD sucinta sobre as origens do Museu de figuras de cera de Madame Tussaud e de como a arte de uma francesa alsaciana se veio a popularizar em Londres, antes de se espalhar daí para o resto do Mundo (excepto, curiosamente, a França...).

MAPAS MUNDO ÀS ESCALAS POPULACIONAL E ECONÓMICA

Neste redesenho geográfico, os países continuam a ser apresentados com o formato que lhes conhecemos, só que as dimensões estão ajustadas à escala demográfica da sua população. A Rússia e as suas regiões despovoadas da Sibéria fazem com que o país, imponente nas representações convencionais, neste formato quase passe desapercebido com apenas 1,9% da população mundial. Mas a Ásia continua a impor-se, só que neste caso por causa das populações chinesa e indiana. Uma outra forma de representar a importância relativa dos países do Mundo é repetir o exercício anterior só que, em vez das populações, se considera o peso das respectivas economias (abaixo). É qualquer dos casos, é toda uma outra geografia.

10 março 2019

SENHOR TARDÀ!... SENHOR TARDÀ...


Joan Tardà é um deputado catalão às Cortes espanholas, eleito desde 2004 nas listas da ERC (Esquerda Republicana da Catalunha). E a notícia é que ele não tenciona voltar a apresentar-se às próximas eleições legislativas de 28 de Abril. O que é uma pena. Tardà é alguém que, como dizia o slogan de Fernando Pessoa, «primeiro estranha-se e depois se entranha». E que, como o chato que é, só pode ser devidamente apreciado no estrangeiro, a uma certa distância. Como professor de língua e literatura catalãs (profissão mais teórica que prática, já que tem dedicado a sua carreira à política), a atitude de Tardà, de defesa intransigente do seu idioma face à hegemonia do castelhano que o Estado espanhol impõe em todos os seus procedimentos, tem-no feito protagonista de inúmeros momentos mediáticos, começando quase sempre por se expressar em catalão e forçando as autoridades a chamar-lhe a atenção para o fazer mudar de idioma. Uma das ocasiões mais recentes em que isso aconteceu foi quando compareceu como testemunha no julgamento dos membros da Generalitat catalã que estão a ser julgados pela realização do referendo independentista de 1 de Outubro de 2017.

Os comentários recriminatórios que lhe são dirigidos (e que recuperei para título), tornaram-se assim uma imagem de marca de muitas aparições televisivas de Joan Tardà. Como diz o juiz presidente no vídeo acima (ao seu pedido para que responda às perguntas do Vox em catalão), «...não começámos bem...». Na verdade, com Tardà e a sua insistência em falar catalão e perante uma superestrutura organizada desde sempre para impor o idioma castelhano (a que se chama impropriamente espanhol), é garantido que, com ele, raramente se começa bem. Continua melhor mas, reconheça-se que, de uma certa forma, Joan Tardà continua a sua saga numa espécie de atitude de guerrilha, empregando um castelhano arrevesadíssimo, num país, aliás, onde a prática de assassinar um idioma à custa de um sotaque que o torne ininteligível é prática social aceite... com o inglês. Mais a sério, e ainda a pretexto da questão linguística, outros comentários de Tardà merecem verdadeira reflexão. Exemplo, um de 2009, em que comentava que o rei (na época, João Carlos) não sabia falar nem basco, nem catalão, nem galego, mesmo depois de mais de 30 anos de reinado. Para bom entendedor e descontados aquelas coreografias em que o monarca lê um discurso preparado de antemão num idioma alheio, a ausência de qualquer desmentido veemente da parte do palácio real tem um significado ribombante. Ou, como se perguntava o nacionalista Daniel Castelão (1886-1950), embora o fizesse a respeito do galego, «Com que direito é que se nos obriga a aprender a língua de Castela, sem que se obrigue os castelhanos a aprender também a nossa?...»

A atitude de Joan Tardà é mais inconveniente do que radical, como se percebe aliás, pelo atitude a respeito dos mais recentes desenvolvimentos políticos na Catalunha (acima). Por tudo isso, porque é um chato, mas também porque incomoda, porque é pertinente e ao mesmo tempo ponderado, a sua saída é uma perda para todos.

O CONFLITO CHECO ESLOVACO

10 de Março de 1939. A notícia que abalava a Europa há oitenta anos era a demissão do chefe de governo eslovaco, monsenhor Jozef Tiso (1887-1947), por parte do presidente checoslovaco Emil Hácha (1872-1945). O conflito civil checoslovaco, que viera a ser fomentado pela Alemanha, vai ser aproveitado por ela dali por uma semana, para estender a sua ocupação militar ao resto das províncias checas da Checoslováquia (Boémia e Morávia), enquanto a Eslováquia proclamava por seu lado a sua «independência».
Adolf Hitler ganhou esta jogada mas, a má fé de que deu mostras na forma como conduzira a questão, fez com que perdesse qualquer credibilidade diplomática com qualquer parceiro. Foi só em Março de 1939 que até os políticos mais crentes tiveram que se render à evidência que Adolf Hitler não era parceiro de se fiar. O pacto Germano Soviético que virá a ser assinado em Agosto de 1939 (para que a Alemanha possa atacar a Polónia à vontade) é tanto mais sórdido quando é assinado de má fé pelas duas partes: nem Stalin confia em Hitler, nem Hitler confia em Stalin; estão ambos a ganhar tempo: só que o calendário de Hitler se veio a revelar mais premente do que o de Stalin.

09 março 2019

THE SHAGGS; POSSIVELMENTE O PIOR ÁLBUM DE ROCK DE SEMPRE

9 de Março de 1969. O conjunto rock The Shaggs inicia (e termina...) as suas sessões de gravação em estúdio daquele que vai ser o primeiro (e único...) trabalho. The Shaggs são uma banda de vanguarda, originária de Fremont, estado norte americano do New Hampshire (1.000 habitantes), sendo uma das suas particularidades o facto de ser totalmente feminina, composta por três irmãs, Dorothy ("Dot"), Betty e Helen Wiggin. Esta compilação de doze músicas que elas gravaram há precisamente 50 anos vai receber o título colectivo da primeira dessas músicas, Philosophy of the World. Para que o leitor possa apreciar o estilo das Shaggs coloquei o vídeo abaixo com essa música de abertura. Há também a possibilidade de apreciar o disco no seu conjunto.

Reconheça-se que, logo aos primeiros acordes(?), é fácil perceber as razões por que o disco não foi um sucesso musical na época. Nem depois, de resto. Pode dizer-se a seu respeito que é um estilo musical que levará a denominação rock-de-garagem(-que-nunca-devia-ter-saído-da-garagem) a novas fronteiras. Uma classificação de um crítico da Rolling Stone qualificou-o, em 1980, como o pior álbum de rock de sempre. Frank Zappa, Kurt Cobain e, provavelmente, Miguel Esteves Cardoso (caso tivesse sido convidado para criticar o disco), serão de opinião diferente, trata-se de uma sonoridade distinta. Desde há 50 anos que é possível dizer o que nos ocorre sobre cacofonias, é como o Conan Osíris e os telemóveis dele, só que sem coisas de metal penduradas na cara...

08 março 2019

SIGLAS POLÍTICAS COM PESO HISTÓRICO: A AOC

A AOC (Aliança Operário Camponesa) foi uma organização política portuguesa que concorreu às eleições legislativas de 1976 e que se notabilizou, nessa época, por ter uma presença televisiva muito própria. Tanta e tão memorável, que a evoquei aqui no Herdeiro de Aécio vai para dez anos. A AOC e, especialmente, o seu inconfundível slogan eleitoral - CADA DEPUTADO ELEITO DA AOC SERÁ UMA ESPINHA CRAVADA NA GARGANTA DO CUNHAL - constituirá decerto um dos elementos do património imaterial do PREC (Processo Revolucionário Em Curso) quando apresentarmos tal candidatura à UNESCO.
 
Compreenda-se agora a minha surpresa quando constatei que o mundo da comunicação social norte-americana está a recuperar precisamente esta mesma sigla AOC para designar a nova coqueluche da sua extrema esquerda parlamentar, Alexandria Ocasio-Cortez. Com aquela resistência tradicional a pronunciar fluentemente idiomas estrangeiros, a locução dos canais americanos conseguiu acordar tacitamente em passar a designá-la correntemente por AOC, para não tropeçarem nas armadilhas do castelhanismo do seu nome. (E que contraste com a desenvoltura como a senhora da AOC original (mais acima) se referia ao «... partido do Barreirinhas Cunhal...»! Se eles se queixam de Ocasio-Cortez, experimentem lá pôr um locutor americano a pronunciar Barreirinhas!)
 
Enfim, para o que interessa, existe uma nova AOC, desta vez nos Estados Unidos e é uma pena que a tradicional ignorância dos americanos acerca do que se passa no resto do Mundo, não lhes permita compreender a subtileza da piada de dizer que esta nova AOC bem pode ser considerada UMA ESPINHA CRAVADA NA GARGANTA DO TRUMP...