26 abril 2017

MELÂNCTON

Alguém me contou que José Manuel Fernandes passou o programa televisivo do passado Domingo de presidenciais francesas a rebaptizar o candidato Jean-Luc Mélenchon com um nome que soava a coisa parecida com Melâncton (acima). Não vi, não posso dizer que tenho pena (andava a seguir as eleições francesas noutro canal), mas confesso que agradeceria que alguém mo confirmasse ou desmentisse a proeza, porque à história ouvi-a detalhada e sarcástica, incluindo o pormenor de um vizinho de programa que acabou, ao fim de várias repetições do erro, a corrigi-lo, enfadado. Confesso que o que ouvi combina com a personagem, de um gongorismo intelectual pretensioso que o leva nos dias bons a confundir São Francisco de Assis com São Francisco Xavier. Num dia assim pior, para José Manuel Fernandes um candidato presidencial francês bem pode assumir o nome de um teólogo alemão protestante do século XVI. Reconheça-se porém, que até mesmo para pessoas com o cosmopolitismo intelectual de José Manuel Fernandes pode tornar-se episodicamente difícil pronunciar certos nomes estrangeiros...

25 abril 2017

O FIM DO CICLO PRESIDENCIAL DOS BAIXINHOS

Como se comentava cruel mas merecidamente diante desta capa do Paris Match do Verão de 2015, o casal Sarkozy/Bruni fora passar as suas férias a um local verdadeiramente paradisíaco chamado... Photoshop. Neste caso até, nem fora sequer apenas o tradicional milagre fotográfico de dar mais alguns centímetros de altura ao ex-presidente (e agora sem recorrer aos tacões altos nos sapatos), pois adicionalmente a fotografia do casal conseguira roubar uns 20 anos ao corpo de 47 (e dois filhos) de Carla Bruni. De resto, e quanto a estaturas, a substituição de Sarkozy por François Hollande em 2012 parecera ter deixado tudo na mesma, com o Chefe de Estado francês passível de ser gozado numa qualquer cerimónia a passar revista a uma guarda de honra (no estrangeiro!). Durante um decénio as instituições competentes no Palácio do Eliseu sublimaram o handicap remetendo para a analogia com Asterix, que há quase 60 anos não se envergonha de contracenar com um parceiro que é muito maior que ele (abaixo). Esses tempos parecem, contudo e felizmente, estar a chegar ao fim. Com um metro e 78, Emmanuel Macron está longe de ser um colosso, mas tem a mesma altura de Marcelo Rebelo de Sousa. É o que basta...

MAPAS COMPARATIVOS ENTRE A EUROPA E OS ESTADOS UNIDOS - 2

O mapa acima compara, usando a mesma escala, os coeficientes de Gini de distribuição da riqueza nos países europeus e nos estados norte-americanos. Variando entre 0 e 1, quanto menor for esse coeficiente (assinalado na escala a azul progressivamente mais escuro), mais homogénea a sociedade e menor serão as assimetrias registradas na distribuição da sua riqueza. O efeito inverso a esse pode apreciar-se com os tons de vermelho. A Europa está dominada pelo azul e os Estados Unidos pelo vermelho. Por exemplo e embora com níveis de riqueza completamente distintos, o estado de Nova Iorque possui uma desigualdade na repartição dela que é equivalente à da Turquia. Vem a propósito disso recordar que a sua famosa estátua é conhecida exclusivamente por Estátua da Liberdade, deixe-se para lá a Igualdade e a Fraternidade, os outros dois ideais da França e da sua Revolução que a ofereceu aos Estados Unidos em 1886...

AS PORTAS QUE ABRIL (NÃO) ABRIU

Durante precisamente 40 anos, de 25 de Novembro de 1975 a 26 de Novembro de 2015, o discurso político do PCP foi o que se pode sintetizar pela frase que aparece destacada acima, proferida originalmente (como não poderia deixar de ser...) por Álvaro Cunhal. "O actual Governo é o pior desde o 25 de Abril" Por quatro décadas este exagero foi dito e repetido à exaustão como um dogma. O alvo foram 20 governos das composições mais distintas, 12 primeiros ministros diferentes. Cada um deles o pior desde o 25 de Abril na época em que exerceu funções, Soares e Cavaco, Guterres e Barroso, o discurso permaneceu por 40 anos obtusa e tacticamente coerente. Foi preciso atingir-se um governo que fosse, a sério, o pior desde o 25 de Abril, acumulado com o perigo de que a mesma equipa governamental e a mesma ideologia liberal prosseguisse no poder para que o PCP arrepiasse caminho e contribuísse positivamente pela primeira vez em 40 anos para uma solução governamental. Devemos tratar as histórias dos 43 anos de Democracia da mesma forma como no PCP gostam que se tratem as dos 48 anos de Ditadura. Fazer por não as esquecer.

O COMBATE DOS CHEFES (44)

Estas últimas pranchas das histórias de Astérix, por se obrigarem a incluir o tradicional banquete com o bardo amarrado para não cantar, nunca se revelam muito interessantes, a não ser pela imaginação mostrada pelo desenhador (Uderzo) quanto ao plano de conjunto final.

24 abril 2017

OLHA QUEM FALA

Não se consegue ler este título no The Times, a descrever o rescaldo das presidenciais francesas, sem pensar numa certa desforra vingativa por aquilo que aconteceu há dez meses do outro lado da Mancha. Nessa altura foi a elite britânica a humilhada por se ter permitido convocar um referendo na presunção de que conseguia controlar o desfecho... Pela reputação do Times, parece que a disposição não é para que as elites respectivas se consolem reciprocamente nestas horas más.

MAPAS COMPARATIVOS ENTRE A EUROPA E OS ESTADOS UNIDOS - 1

O que aparece representado é a esperança de vida média nas grandes regiões dos países que compõem a União Europeia e nos estados que compõem os Estados Unidos. A escala é rigorosamente a mesma num lado e noutro, o vermelho mais escuro representando esperanças de vida mais baixas até ao verde escuro que as representa mais altas. Aceitando a esperança de vida média como indicador de bem estar a comparação é eloquente: a esmagadora maioria dos estados norte-americanos só se comparam às regiões dos países da antiga Europa de Leste. É caso para dar um significado renovado ao título do famoso filme de 2007 dos irmãos Coen.

O (OUTRO) COMBATE DOS CHEFES

Não foi apenas Emmanuel Macron que ganhou as eleições por ter conseguido obter a votação mais elevada, foi também Marine Le Pen que a perdeu por o não ter conseguido. Como um Napoleão em Waterloo, só a vitória eleitoral nesta primeira fase interessaria a Marine para, com ela e com o frenesim mediático que se seguiria, obter aquele elan que lhe permitisse disputar com a convicção do seu eleitorado a fase decisiva da segunda volta das presidenciais. Assim, esta arrisca tornar-se uma daquelas cerimónias de que se conhece a coreografia de antemão. Pela eliminação dos candidatos dos partidos tradicionais e pela passagem à segunda volta de um candidato de extrema direita e de um outro (que depois tudo deseja que ganhe), as presidenciais francesas assemelham-se ao que aconteceu na Áustria o ano passado. A diferença estará na diferença da relevância dos dois países na União Europeia e também nas responsabilidades políticas muito superiores que assentam sobre o presidente francês. As portas do Eliseu parecem-lhe escancaradas mas, como se deduz do que ontem ouvi na France 2 a um político de velha cepa como Jean-François Copé (Republicanos), os problemas de Emmanuel Macron vão começar quando ele, vindo do exterior dos aparelhos dos partidos, tiver que arranjar uma maioria parlamentar para governar a França. Já li por aí algumas opiniões expressas de que, por esta vez, os institutos de sondagens não se enganaram e que as reacções elogiosas nunca terão a proporção das críticas de episódios precedentes, casos do referendo do Reino Unido ou das eleições presidenciais americanas. Perdoou-se o plebeísmo da comparação, mas a referência às sondagens assemelha-se ao que se possa dizer sobre a arbitragem de um jogo de futebol: não nos podemos desfazer em elogios a uma arbitragem que cumpriu as suas funções de não se dar por ela. Se calhar é injusto, mas é a triste sina da arbitragem e dos institutos de sondagem.

23 abril 2017

O COMBATE DOS CHEFES (43)

Na recomposição final das coisas para que a circunferência da história se encerre no ponto onde começara, destaquem-se apenas duas sanções: para políticos colaboracionistas (como Aplusbégalix) e para druidas vocacionados precocemente para a psiquiatria (Amnésix). Como já dissera aqui, é um bocado injusto para este último.

UMA NOVA COCA-COLA QUE NINGUÉM PEDIRA

23 de Abril de 1985. Com toda a força que as suas promoções sempre tiveram, a Coca-Cola anunciou para esse dia o lançamento da New Coke, que se anunciava ser a transformação da famosa fórmula secreta original da bebida para uma nova versão, mais adequada aos novos tempos. Durante a década anterior, a rivalidade da Coca com a Pepsi Cola, com esta a ganhar quota de mercado, tornara-se até um dos temas anedóticos da publicidade televisiva norte-americana (abaixo). Como produto, a Pepsi, porque mais doce, aparentava ser a bebida preferida na esmagadora maioria dos testes cegos que se realizavam. A rivalidade tornara-se mundial e transferira-se mesmo para os territórios mais hostis ao capitalismo: a Coca-Cola ganhara a corrida ao mercado chinês, mas a Pepsi Cola fora a primeira a instalar-se na União Soviética.

A New Coke apresentava-se assim como uma gigantesca mas indispensável operação de marketing para dar a volta a uma situação que à Coca-Cola parecia inexorável: a perda da liderança do mercado. A operação saldou-se directamente por um fiasco histórico, embora se viesse a concluir com um resultado satisfatório para a Coca-Cola e isso apesar do que haviam sido as intenções originais dos seus gestores e marketeers. Com a clarividência de se saber o desfecho, percebeu-se depois que uns e outros pareciam não perceber nada do que era a essência do seu negócio. As Colas são uma bebida social e o seu sabor é apenas um factor residual das fidelidades do consumidor. No caso da New Coke de há 32 anos, a facção conservadora dos norte americanos manifestou-se exuberantemente contra a mudança e não havia facção simétrica que os contradissesse.

Dois meses e meio depois a Coca-Cola voltava à produção da sua antiga fórmula escondida por detrás da designação de Coca Cola clássica. Gradual e discretamente, a New Coke passou para um papel secundário até ter deixado de se produzir. A operação serviu para mostrar como era possível que as grandes corporações capitalistas também adquirissem aquele vícios estruturais que só se costuma(va)m imputar aos organismos do estado e aos políticos. Aqui, os gestores, pressionados para fazerem qualquer coisa, também fizeram qualquer coisa, e o aparelho, neste caso representado pelo marketing, em vez de os alertar para os resultados dos estudos de mercado, adaptou-os para que dali se concluísse o que os gestores queriam ouvir. Numa manobra redentora final, apareceu o boato de que esta operação New Coke não passara de uma manobra rebuscada, mas genial, para reavivar a notoriedade à bebida...

O COMBATE DOS CHEFES (42)

Estas batalhas são um clássico dos livros de Asterix. Não há mortos nem feridos, apenas aleijados. Um pormenor de referir: o mocho aparecido na prancha 20 por cá continua, apesar desta desventura final do legionário Plutoqueprévus.

22 abril 2017

AS PEDRAS QUE SE ARREMESSAM... ACABAM POR CAIR EM ALGUM LADO

Os instantâneos foram colhidos acompanhando os protestos estudantis em Caxemira, assunto sobre o qual a comunicação social portuguesa não tem dito nada. O fotógrafo poderia vender a foto acima a uma das facções e a de baixo à dos seus adversários. Reunidas tornam-se num manifesto pacifista.

QUANDO E ONDE É QUE FOI O NOVO EXAME DO RELVAS?

A última vez que Miguel Relvas foi relevante para o panorama mediático foi quando o mandaram ir estudar RELVAS. Perdeu o título académico, mas não foi por isso que o motivou a agarrar-se aos livros. Até reaparecer recentemente ao lado de Luís Montenegro num almoço, em que este último finge que até teve uma ideia, mas onde o resto da notícia parece ter sido escrito directamente para a revista Caras, inventariando o peso e a panache das presenças na audiência. Num dia em que ficámos a saber que há quem, bombasticamente, dê Pedro Passos Coelho por politicamente morto (José Miguel Júdice), nada melhor que este reaparecimento do aluno refractário para começarmos a ter já pena do putativo defunto. Com o PSD assim os gajos no PS ainda se convencem que são muito bons...

QUEM SABE COMO SE FAZ, FAZ, E QUEM NÃO SABE...

...vai para o FMI comentar (criticar) os que obtêm resultados.
O vice Abdelhak S. Senhadji deve ter uma pátria (árabe) algures nesse Mundo que estará decerto ansiosa por beneficiar dos seus profundos conhecimentos, disciplinando-lhe as finanças. O que torna Portugal num país avançado é que o nosso país já deu para esse peditório...

21 abril 2017

O COMBATE DOS CHEFES (41)

A ESTRATIFICAÇÃO DOS ACTOS DE HIGIENE PRIVADA

Quando nos deparamos com concepções arrojadas de designers russos, como é o caso desta casa de banho que se vê acima, confesso que não sei o que pensar: estaremos perante a expressão do que pode ser o mais puro génio russo como acontece na música com Tchaikosvsky ou na literatura com Dostoiévsky, ou isto é pura e simplesmente delirante? Se bem interpreto o que vejo, houve ali um cuidado em hierarquizar pelos pisos as várias funções que se desempenham numa casa de banho. Mas o critério, como veremos mais adiante, não pode ser o da funcionalidade pela frequência. A começar pelo urinol e pelo duche, no piso térreo sobre a direita. Banho, costuma tomar-se um por dia, embora as idas à casa de banho para urinar sejam bastante mais frequentes. O gesto que costuma estar associado a essas idas é o de lavar as mãos. Porém, com pouca funcionalidade, o lavatório encontra-se localizado no piso intermédio sobre a esquerda, o que obriga o utente a recolher os pertences e subir um degrau para o poder fazer. Mas o acto a que o designer resolveu atribuir indiscutivelmente a primazia foi o de defecar, ao colocar a sanita ao centro e numa posição mais elevada do que todos os outros apetrechos, quase como se se tratasse de um trono e o momento de o utilizar o supremo requinte dos vários actos de higiene privada que se realizam numa casa de banho. O único senão que encontro na concepção e no desenho é a singeleza do suporte do rolo de papel higiénico, a pedir um dispensador automático de folhas de papel macio e absorvente. Claro que, numa perspectiva feminista, circunstância na qual se dispensará a utilização do urinol térreo, todas estas conclusões são substancialmente alteradas...

LE PEN NA SEGUNDA VOLTA


21 de Abril de 2002. As sondagens à boca das urnas da primeira volta das eleições presidenciais francesas deixam os próprios e os observadores da comunidade internacional boquiabertos com o anúncio da passagem à segunda volta de Jean Marie Le Pen, o candidato da extrema direita. A data acabou por cunhar uma expressão política. Se, à época, a surpresa eleitoral foi a passagem do pai, quinze anos depois e na primeira volta das eleições presidenciais que terão lugar depois de amanhã, a grande surpresa acontecerá se a filha Marine Le Pen não passar à segunda volta. Se a expressão eleitoral da extrema direita é uma consequência dos problemas sociais da sociedade francesa (tese que é sempre passível de ser contraditada...), então é forçoso constatar que, nestes quinze anos, esses problemas terão estado cada vez mais longe de se resolver.

20 abril 2017

O COMBATE DOS CHEFES (40)

A trapaça dos romanos a (não) acatar os resultados era previsível. Também não foi inesperada de todo a mesma atitude de uma facção dentro do Eurogrupo há uns três meses, antes de se saberem os resultados definitivos da execução orçamental (atitude desconfiada essa que foi entretanto esquecida...).

O ADIVINHO E A MENTIROSA

Há precisamente sete meses o líder trabalhista britânico Jeremyn Corbyn assegurava que a primeira-ministra Theresa May iria convocar eleições gerais daí a alguns meses. A afirmação era tanto mais importante quanto a visada havia assegurado no princípio daquele mês, na sua primeira grande entrevista depois de tomar posse, precisamente o contrário: que não iria convocar eleições antes de 2020, que o país precisava de um período de estabilidade depois das convulsões do resultado do referendo, blá, blá, blá,... Os factos encarregaram-se de dar razão completa às convicções de Corbyn. Fosse ele outra pessoa, e desconfio que a(lguma) imprensa britânica, assim como alguma outra internacional, estaria a dar verdadeiro relevo à presciência do dirigente trabalhista antecipando o tacticismo descarado da adversária. Mas não, nem os dois (elogio a Corbyn e crítica a May), nem só um, nem só outra. Nada. O próprio jornal Independent que acima publicou aquela notícia sobre a adivinhação de Corbyn parece agora esquecer-se de que o fez e só se interessa em saber se ele se irá demitir no caso de perder as eleições de 8 de junho. Porque, apesar de se verificar agora ter sido ele a dizer a verdade aos britânicos nesse aspecto das eleições e de, pelo contrário, a adversária ter mentido com todos os dentes que tem na boca, as sondagens mostram-se muito vantajosas para esta última, a antecipar uma vitória esmagadora sua nas urnas. Se calhar, os britânicos andam mais entretidos na imprensa a ler e ouvir as mentiras de Donald Trump do que se apercebem daquelas que lhes pregam directamente a eles...

O MASSACRE DE COLUMBINE

20 de Abril de 1999. Ao 18º aniversário do Massacre de Columbine pode associar-se o simbolismo de 18 anos ter sido a idade, não apenas dos dois autores do massacre, mas também de uma apreciável percentagem das vítimas (13 mortos e 21 feridos). Terão sido as elevadas consequências da tragédia que terão provocado a atenção mediática para o assunto dos tiroteios nas escolas norte-americanas. Foi aliás na sequência de Columbine que os serviços secretos foram encarregues de redigir um relatório sobre a questão, um relatório que se tornou público em 2002 e que compilava e procurava sintetizar um retrato padrão a partir das experiências recolhidas em 37 episódios semelhantes... Mas os factos continuarão a interessar mais o público do que propriamente as causas, pelo menos se atendermos à lição que se pode extrair da página da Wikipedia dedicada ao massacre de Columbine, onde os 27.000 caracteres dedicados à descrição metódica e detalhada de como ocorreu o massacre representam o triplo dos 9.000 onde se procura inventariar e especular posteriormente sobre quais terão sido as motivações e as causas para ele.