05 abril 2020

O NOVO «GURU» DA CORONAHISTERIA (2)

Uma das nossas deficiências colectivas é a de não exigirmos responsabilidades até ao fim às pessoas que se enganam, erram, cometem faltas. Há sempre quem venha dizer que é «chato», e eu acho que só é «chato» quando as pessoas visadas dão mostras de arrependimento. O que não me parece se, de todo, o caso. A meio do mês passado eu tinha assinalado aqui no blogue o aparecimento de um «guru da coronahisteria» que, catapultado pelo Observador, e alicercado no seu estatuto de matemático, antecipara dois cenários de terror da propagação da infecção (um benigno, assinalado a verde no mapa acima, outro maligno, a vermelho). A história começava mal porque o «guru» em questão, começara a sua carreira de «guru» manifestando uma opinião radicalmente oposta, e aquilo que ele escrevia, mais do que os números, estava redigido com um vocabulário catastrofista. Em termos de jornalismo, porém, era um sucesso. Era uma das primeiras antecipações do que nos esperava e todos falavam do artigo; eu também. Dois dias depois, quando comentei o artigo aqui no Herdeiro de Aécio, já se percebia que as previsões não pareciam aderir lá muito à realidade, mas que o seu autor, embriagado pela notoriedade súbita, não oferecia confiança. Mas o futuro iria tornar cristalino quem tinha razão. Tornou-o, como se pode apreciar no gráfico acima. Cinco dias depois da última previsão do modelos do matemático Jorge Buescu, os casos hoje reportados (11.278) estão muito abaixo dos mais de 16 mil estimados na sua versão benigna, isto para não falar dos 48 mil versão maligna. Os seus modelos revelaram-se uma merda, a sua insistência em defendê-los com teorias da conspiração (estavam a sonegar dados...) transformaram-no noutra (merda). Mas há ainda uma terceira merda em tudo isto: o Observador. O jornal devia ter feito aquilo que se esperaria: no fim do período, a 31 de Março, avaliar o resultado das previsões, para mais num jornal que se enche de gráficos numa rúbrica intitulada "Como Portugal se compara com outros países no número de novos infectados". Há lá muitos gráficos mas não o das previsões de Buescu e a sua comparação com a realidade. Esse (que publiquei acima) teve que ser feito cá em casa... Mas melhor que isso: não apenas o Observador não denunciou o bluff que ajudara a montar, como ainda por cima lhe foi fazer uma entrevista! Cinco dias é uma eternidade em jornalismo moderno, mas parece-me que ainda podemos ir a tempo de não ser «chato» chamar pasquim a um pasquim, pois não? (...e fiquemos à espera do retorno de Buescu à ribalta)

QUANDO O MISTÉRIO DO CRIME DO GUINCHO AINDA NÃO ERA A BALADA DA PRAIA DOS CÃES

5 de Abril de 1960. Nas páginas centrais do Diário de Lisboa publicava-se este artigo a respeito de um cadáver que aparecera a 31 de Março na praia do Guincho e que, entretanto, viera a ser identificado como sendo o do capitão José Joaquim Almeida Santos, um oficial do exército que se evadira do estabelecimento militar prisional de Elvas, onde se encontrava detido, na sequência do envolvimento numa conspiração para a eclosão de uma revolta militar. Em 1960, tratava-se de um assunto importante, porém delicado. Quem matara o capitão rebelde? E porquê? Mas dali por mais de vinte anos, em 1982, virá a ser um episódio popularizado por constituir, em versão ficcionada, o núcleo de um romance de sucesso intitulado Balada da Praia dos Cães, da autoria de José Cardoso Pires. Cinco anos transcorridos, a mesma história será transformada em filme, realizado por José Fonseca e Costa. Mas o mais surpreendente, e menos conhecido dos documentos a respeito deste caso policial, é o livro que veio a ser escrito pelo próprio protagonista, o inspector Correia das Neves, que na notícia acima lemos a primar pela discrição, e que veio a publicar em 2004 a sua versão dos acontecimentos - em edição do autor, o que não se deixa de achar estranho. Não houve editoras que se interessassem pela versão séria de uma história já então tão conhecida?

04 abril 2020

HUMPÁ-PÁ CONTRA MAUS-FÍGADOS (IX)

O CASAMENTO DA CILINHA... E DO MINISTRO

4 de Abril de 1945. Numa página central, distinta daquela em que o Diário de Lisboa costumava dar as notícias de sociedade, o jornal dava conta do casamento, naquela quarta-feira, do ministro da Economia:
«
Na residência do sr. dr. Manuel António do Casal Ribeiro de Carvalho, administrador do Banco de Portugal e director da companhia de seguros «Royal Exchange», realizou-se hoje, em capela armada expressamente, o casamento de sua filha, sr.ª D. Cecília do Casal Ribeiro de Carvalho, com o sr. dr. Luiz Supico Pinto, ministro da Economia.
Assistiram cerca de 350 convidados, entre os quais se viam os srs. ministros da Educação Nacional, das Finanças, e das Obras Públicas e Comunicações, subsecretários de Estado da Agricultura, das Comunicações e das Corporações e Previdência Social, director da Faculdade de Direito de Lisboa, embaixadores de Portugal em Madrid e de Espanha em Lisboa, e numerosas entidades em destaque na sociedade e nos meios bancários e seguradores.
Foi celebrante o padre franciscano Augusto de Araújo e assistiram também o cónego Alberto, prior da freguesia dos Mártires.
No final, foi servido aos convidados um «copo de água».
»
Quanto à cerimónia e à notícia em si, vinque-se, apesar da presença de quatro ministros (contando com o noivo...) e de três subsecretários de Estado, a ausência do presidente do Conselho entre os «350 convidados», cujo colectivo deveria representar a elite financeira portuguesa em 1945. António de Oliveira Salazar era demasiado inteligente para conceder o aval da sua presença. Por outro lado, também é muito possível que ele desconfiasse que, no seu âmago, aquelas elites nunca deixariam de o considerar o arrivista provinciano que ele, no fundo, era. E os desprezasse. 
Quanto aos nubentes, nota-se que a notícia aparece desprovida daquelas referências sentimentais que eram quase imperativas nas notícias análogas das páginas de sociedade. Era notória a diferença de idades entre a noiva (23) e o noivo (36), pormenor que poderia ser de somenos, mas que ainda hoje é enfatizado na wikipedia. Por seu lado, nos meandros sociais sabia-se que o noivo tivera uma ligação e uma filha (então com dois anos) com uma conhecida actriz de teatro.
O casal manter-se-á na ribalta da sociedade e do regime até à queda deste último em 25 de Abril de 1974. Na última dúzia de anos a visibilidade dever-se-á muito mais a ela do que a ele. Enquanto Luís ocupava o lugar destacado, mas pouco visível, de presidente da Câmara Corporativa, Cecília Supico Pinto, de seu nome de casada, tornar-se-á numa figura nacional, com o diminutivo de Cilinha, no papel de dirigente do Movimento Nacional Feminino, a organização que se encarregara da animação dos soldados enviados para África ao longo das décadas de 1960 e 70. O diminutivo não correspondia nada à personalidade da visada* e a contraste era mais uma das blagues do regime. O poder do casal derivava de uma alegada intimidade com Salazar que intimidava a «concorrência» (das figuras destacadas de então). Salazar de quem a dupla se proclamava muito devotada, mas que, como se deduz ironicamente pela notícia acima, fizera decerto questão de não aceitar o convite que lhe haviam feito para o enlace.
* A analogia com os tempos modernos que penso ser mais parecida, seria tratar por Teresinha Teresa Leal Coelho durante os anos do passismo. O marido de Teresinha, recorde-se, tinha a influência de ser o chefe de gabinete de Pedro Passos Coelho, então primeiro-ministro. E Teresa Leal Coelho é um verdadeiro pão-de-quilo - tudo menos uma Teresinha...

03 abril 2020

HUMPÁ-PÁ CONTRA MAUS-FÍGADOS (VIII)

Aquele pormenor da carroça a acompanhar as tropas que saem do forte é uma alusão a uma famosa expressão já aqui comentada no Herdeiro de Aécio. 

OS PREPARATIVOS ESTRATÉGICOS DOS ESTADOS UNIDOS

É nestes momentos de crise que os dirigentes políticos são avaliados sem dó nem piedade sobre o que fizeram para preparar o seu país para a situação com que agora são confrontados - os países. Ele há países que se compreendem, e dirigentes que são absolvidos, porque dispõem de poucos ou quase nenhuns recursos para alocar preventivamente face a ameaças potenciais. E há outros que não, que dispõem até de imensos recursos e, se agora são apanhados impreparados, devem-no apenas as colossais erros de avaliação feitos no passado. Acresce a isso, no caso concreto dos Estados Unidos, o seu estatuto como superpotência dirigente, e a sua capacidade de instar os seus aliados a ajustarem as suas prioridades em função das suas avaliações. Tudo isto, para além dos custos da própria pandemia, os Estados Unidos vão pagar muito caro. As ameaças estratégicas dividem-se implacavelmente entre aquelas que se concretizam - a microbiologia - e as que não se concretizam - o espaço. Na conjuntura vigente, as primeiras tornam-se numa coisa muito séria e as segundas em brincadeiras de presidentes, almirantes e generais. E, por outro lado, os países aliados da NATO precisam todos desesperadamente de ventiladores, apetrechos que não estão contemplados entre o material classificável como «despesas com a defesa». Simbólico do malbaratar retrospectivo de recursos dos Estados Unidos, mas também do esvaziamento do seu prestígio moral e intelectual, esta notícia de um porta-aviões da US Navy (o género de dispositivo naval que só os Estados Unidos dispõem - onze no total!), que é neutralizado na sua imensa capacidade operacional pelo famigerado covid-19! Os Estados Unidos fartaram-se de despejar dinheiro para prevenir uma guerra que, para já, não vai ser travada. Para a outra guerra que aí está, encontram-se notoriamente mal preparados. Pelo menos pior do que os seus aliados da NATO a quem os Estados Unidos se haviam fartado de dar lições de moral sobre o aumento das despesas com a defesa...

A ESTREIA EM PORTUGAL DE «O COWBOY DA MEIA-NOITE»

3 de Abril de 1970. Um anúncio de mais de meia página do Diário de Lisboa anunciava a estreia para as 21H30 desse dia, no cinema São Jorge - e só nesse, nada destas estreias simultâneas em 20 salas, como agora acontece... - do filme «O Cowboy da Meia-Noite». Promovido como o Melhor Filme do Ano! e candidato a 5 oscars (sic), o filme viria a justificar a promoção, ao vencer dali por meros quatro dias os óscares para o melhor filme e para o melhor realizador nesse ano.

02 abril 2020

O «ADULTO NA SALA» INFANTILIZOU-SE

Eu bem me lembro de João Miguel Tavares a assumir o papel de «adulto na sala» e assumir como sua uma famosa citação do que Vítor Gaspar alegadamente dissera aos seus colegas de governo: «Não há dinheiro». Só que João Miguel Tavares fazia-o em público e diante dos seus colegas do programa Governo Sombra - não me lembro de qual era, mas provavelmente o visado seria Ricardo Araújo Pereira. E com a declaração emprestada, ele passava a cultivar a imagem da pessoa sensata que distinguia o que era possível e o que o não era naqueles anos difíceis e sombrios da troika. Como isso agora vai longe! Os tempos voltaram a ser difíceis mas o «adulto da sala» infantilizou-se. Agora vêmo-lo a pedir uma data para o fim desta crise, como se, só por se fazerem estudos em cima de uma situação sem precedentes, lha pudessem dar. A data do fim da crise está no mesmo sítio onde estava o dinheiro, João Miguel Tavares. Deixe-se de birras e tente lá voltar a ser adulto como quando lá estava um governo da outra cor...

HUMPÁ-PÁ CONTRA MAUS-FÍGADOS (VII)

INÍCIO DA OFENSIVA SOVIÉTICA SOBRE VIENA

2 de Abril de 1945. Os exércitos soviéticos da e Frentes da Ucrânia desencadeiam uma ofensiva sobre a Áustria tendo como objectivo principal a conquista da cidade de Viena. As conclusões da Conferência de Yalta, que tivera lugar em Fevereiro daquele ano, havia deixado várias áreas cinzentas quanto ao destino a dar a alguns territórios no após-guerra. Um desses casos era a Áustria, anexada pela Alemanha em 1938 e cuja evolução política, depois de novamente autonomizada, ficara apenas definida por uma vaga declaração de princípios. Estaline, que foi sempre um adepto das negociações assentes em factos concretos, pôs assim a sua máquina militar a desencadear esta ofensiva periférica - o objectivo principal dos russos era conquistar Berlim - para posteriormente conseguir negociar a Áustria - ocupada na sua maioria pelos seus exércitos - com os aliados ocidentais. Conseguiu-o. A conquista da segunda capital do III Reich estava concluída por volta de 15 de Abril. E a ocupação soviética da Áustria só terminou em 1955 e, embora o país estivesse politicamente do lado de da Cortina de Ferro (ou seja, vigorava um regime verdadeiramente democrático), os soviéticos conseguiram neutralizar a Áustria para a contagem de aliados dos dois lados durante os anos da Guerra Fria. Nas duas fotografias exibidas, as placas dizem, respectivamente, Áustria e Viena.

01 abril 2020

HUMPÁ-PÁ CONTRA MAUS-FÍGADOS (VI)

A SENTENÇA DO TERCEIRO JULGAMENTO DE JOSÉ DIOGO

1 de Abril de 1980. José Diogo foi um nome emblemático do PREC. Neste blogue já se contaram muitas histórias e, entre essas, a de «José Diogo e o Latifundário Columbano». Para não me repetir, peço que a vão lá ler, recordando um dos momentos mais caricatos daquela época. Mas o que hoje se evoca é a sentença do seu terceiro julgamento, que foi conhecida há precisamente 40 anos. Depois do original julgamento que tivera lugar no tribunal de Tomar de onde José Diogo saíra absolvido como as imagens abaixo mostram (1975), houvera um outro, mais convencional em 1978, onde perpassara algum aspecto de desforra da autoridade desafiada e que o condenara a 16 anos de prisão. Neste novo julgamento, a sentença fora de 4 anos de prisão maior e uma indemnização de 150 mil escudos aos familiares da vítima. Como seria de esperar do jornalismo politicamente engajado, o Diário de Lisboa distorce a lógica do que acontecera, apresentando-a como uma redução da sentença quando, na verdade, se tratara de um novo julgamento.

31 março 2020

HUMPÁ-PÁ CONTRA MAUS-FÍGADOS (V)

A «SEGUNDA» BATALHA DE TRAFALGAR

31 de Março de 1990. Em Londres, uma marcha de protesto contra a introdução de um novo imposto municipal (conhecido por «poll tax») degenerou numa enorme batalha campal entre os manifestantes e a polícia. Marcada originalmente para ter início na Praça Trafalgar, no centro de Londres, a marcha acabou rapidamente por fugir ao controle dos organizadores, já que o local era manifestamente insuficiente para o número de manifestantes (as estimativas variam dos 70 às 200 mil pessoas). Isso, mas também a delicadeza do problema político da adopção da poll tax, prevista para entrar em vigor no dia seguinte, e que fomentara uma oposição militante, fizeram descambar a ocasião numa gigantesca confrontação entre polícia e manifestantes, como as imagens acima documentam. No final houve 113 feridos entre manifestantes e polícias, e estes últimos detiveram 340 dos primeiros. Alguém, com um forte sentido irónico, denominou os acontecimentos como a «segunda» batalha de Trafalgar. Quando a poll tax entrou em vigor já se produzira o efeito político das imagens televisivas com a desnecessária brutalidade que se vê acima. O impacto parecia sentir-se especialmente entre as classes médias britânicas, as classes que eram consideradas a coluna vertebral do apoio ao governo conservador de Margaret Thatcher. A aplicação do imposto tornou-se uma paródia, tal era o boicote ao seu pagamento - mais de ¼ dos londrinos pura e simplesmente não o haviam pago no prazo em Agosto daquele ano. Mas foi só em Novembro que Margaret Thatcher foi desafiada para a liderança do partido por um competidor marginal (Michael Heseltine). Quando foi brindada com a humilhação de ter que disputar uma segunda volta e renunciou aos cargos. E foi o fim da carreira política de Margaret Thatcher. Uma queda que começara há precisamente 30 anos. E desconfio, por tudo aquilo que ela deixou escrito nas memórias, que nunca terá percebido porquê... As grandezas políticas nunca foram incompatíveis com uma boa dose de obtusidade.

30 março 2020

PORQUE É QUE NÃO SE DEVEM DIZER CERTO TIPO DE BABOSEIRAS EM PROGRAMAS DE TELEVISÃO...

...porque, da próxima vez que Daniel Oliveira quiser falar de Direitos Humanos a sério, haverá quem lhe chape na tromba comentários do género do que acabou de fazer a respeito de Bolsonaro... Ele não está numa tertúlia de amigos na tasca da esquina, nem ao volante de um táxi. «Não lamentará» a morte de Bolsonaro e, no entanto, quer convencer-nos que estará a ser genuíno quando arranca as vestes por causa da morte de um imigrante ucraniano às mãos de três agentes do SEF? Não sei se Daniel Oliveira se aperceberá disso, mas, a consequência dos dislates que profere publicamente é que, para ele, as vidas terão um valor relativo: a do imigrante ucraniano que foi assassinado (e que ele não conhece mas era humilde) é indisputavelmente boa; a de Bolsonaro (que ele julga conhecer porque é conhecido e poderoso e de direita) é inequivocamente má. O que eu lamento é a mediocridade que deixa medrar acriticamente estas figuras pela comunicação social. Diz muito sobre o que somos e ainda  mais sobre quem gere as aparições em palco.

HUMPÁ-PÁ CONTRA MAUS-FÍGADOS (IV)

FORMAÇÃO DO GOVERNO COLABORACIONISTA DA CHINA NACIONALISTA

30 de Março de 1940. Formação em Nanquim de um governo nacionalista chinês que pretendia ser um rival do de Chiang Kai-shek, que estava, por sua vez, sediado em Chongqing, no interior da China e fora do alcance das unidades invasoras do exército japonês. Na realidade, e a notícia do Diário de Lisboa acima era muito sóbria quanto a explicações, o governo que tomava posse, encabeçado por Wang Jingwei, um dissidente do Kuomintang, virá a revelar-se um mero instrumento das autoridades japonesas. Ainda assim, e por força das circunstâncias políticas, ele será até 1945 um dos três pólos à volta dos quais rodopiarão as legitimidades políticas da China: Chiang em Chongqing, Wang em Nanquim e o comunista Mao (Zedong) em Yan'an.

29 março 2020

QUE ME DESCULPEM A LEMBRANÇA, MAS EU JÁ HÁ DOIS ANOS CONSIDERAVA REPUGNANTE O COMPORTAMENTO DO MINISTRO DAS FINANÇAS HOLANDÊS...

E, que me perdoem a imodéstia, fi-lo com muito menos visibilidade mas com muito mais propriedade do que António Costa agora o fez. Porque a classificação de repugnante advém mesmo da repugnância. Mas confesso que o texto só me ocorreu porque entretanto vi este vídeo abaixo, com a presidente da Comissão Europeia a lavar as mãos ao som da Ode à alegria...
...um aspecto em que a disciplina comunitária dos holandeses, ao contrário das finanças públicas, deixará imenso a desejar como se verá de seguida. Eis então o poste original, que se intitulava:

«NA CAUDA DA EUROPA... MAS MUITO LIMPINHA! (a cauda e não a Europa)

«Podemos estar na cauda da Europa mas havemo-nos com ela com uns cuidados com a higiene que outros lá da frente mostram não ter. Vocês já imaginaram que há uma possibilidade em duas* de que Jeroen Dijsselbloem ande a limpar o rabo sem sequer lavar depois as mãos com sabão? Diga-se o que se disser, só essa probabilidade confere todo um nojo adicional à recordação de que ele, nos últimos anos, se esteve a cagar para nós...
* Segundo o mapa mais acima, a taxa de holandeses que lavam as mãos apropriadamente depois de usarem os sanitários é de apenas 50%.»

HUMPÁ-PÁ CONTRA MAUS-FÍGADOS (III)

A GUERRA DO HÍFEN

29 de Março de 1990. Nos trabalhos de revisão constitucional, os grupos parlamentares dos partidos checos e eslovacos não conseguem chegar a um entendimento quanto à designação do seu próprio país: Checoslováquia ou Checo-Eslováquia? Do desacordo, que subsistia latente desde a queda do regime comunista, irá nascer aquilo que virá a ser designado ironicamente pela Guerra do Hífen (Pomlčková válka em checo, Pomlčková vojna em eslovaco), uma guerra felizmente não muito sangrenta, mas intensa e pouco fraterna, entre as duas nacionalidades constituintes de um país em que até havia celeuma quanto à forma como se havia de auto designar - um muito mau sinal quanto às perspectivas da sua coabitação. No curto prazo, o problema foi solucionado com a adopção da designação República Federativa Checa e Eslovaca. Era uma solução que tinha a vantagem de ser um pontapé democrático na gramática de qualquer das duas línguas. No longo prazo, a questão do hífen era apenas uma dos detalhes - apreciado até com algum humor pela comunidade internacional - das dificuldades das duas nacionalidades em construírem um projecto comum. Tudo viria a culminar com o divórcio de veludo em 1 de Janeiro de 1993.