17 Maio 2008

O “VENTRE MOLE” DA EUROPA – 1

Entre 1942 e 1944 travou-se uma feroz disputa estratégica entre britânicos e norte-americanos quanto ao estabelecimento das prioridades sobre quais deveriam ser os objectivos militares da Guerra a travar na Europa. Para os norte-americanos, recem chegados ao conflito e mais sensíveis aos pedidos soviéticos (que, por esta altura, se defrontavam com a esmagadora maioria do poder militar alemão), os recursos deviam ser afectados tendo em atenção a abertura no menor espaço de tempo possível de uma segunda frente na Europa Ocidental. Para os britânicos, havia várias razões, algumas de carácter táctico para que isso não pudesse ser feito desse modo.

Eram duas escolas de pensamento estratégico, dirigidas respectivamente por George Marshall, do lado norte-americano, e por Alan Brooke, onde os argumentos dos primeiros contavam com o peso dos seus recursos materiais e humanos e os dos segundos com o peso da sua experiência. Alan Brooke chamou a atenção aos seus aliados que a abertura de uma Frente Ocidental nos moldes desejados por eles só se poderia realizar através de um desembarque anfíbio em regiões defensivamente preparadas pelo inimigo, nas costas francesas, belgas, holandesas… ou alemãs. E o desembarque tinha que ser obrigatoriamente bem sucedido, porque os custos políticos e militares de um fracasso de uma operação de tal magnitude seriam inaceitáveis.
Aí, a experiência britânica, com o episódio do Raid de Dieppe de Agosto de 1942 que acabara muito mal para aos atacantes aliados, demonstrara que, quanto a desembarques anfíbios, havia ainda muito que progredir tanto em meios como em doutrina táctica para o emprego desses meios. Convinha adquirir essa experiência em desembarques onde o inimigo fosse menos resistente. Além disso, na linha do pensamento estratégico estabelecido por Basil Liddell Hart, os militares britânicos passaram a privilegiar as abordagens indirectas aos objectivos como numa reacção traumática às mortandades dos ataques frontais da Primeira Guerra Mundial.

Foi assim que acabou por vingar o plano britânico, que começava por um desembarque na África do Norte francesa (Novembro de 1942), onde os defensores seriam as pouco empenhadas tropas francesas fiéis a Vichy. Seguir-se-iam os desembarques na Sicília e na Península italiana. À racionalidade dos argumentos de Alan Brooke, juntou-se depois a riqueza metafórica da prosa de Churchill: Estamos a fazer este vasto movimento de cerco no Mediterrâneo, (…) tendo como objectivo expor o ventre do Eixo, especialmente a Itália, a um pesado ataque. Mas não foi a retórica, e sim a prática que demonstrou aos norte-americanos que os britânicos eram capazes de ter razão...

Por falar de retórica, segundo as afirmações de Benito Mussolini, publicadas alguns dias antes do desembarque dos aliados na Sicília em Julho de 1943 (Operação Husky), se o inimigo desembarcar em Itália, será exterminado até ao último homem na linha de areia onde termina a água, onde começa a terra. Se ocupar um pedaço da Pátria, será numa posição horizontal, não vertical e para sempre! Surgiram imensos problemas aos atacantes durante a Operação Husky (valeria até a inserção de um poste destinado exclusivamente a eles) mas o empenho defensivo demonstrado pelas 10 divisões italianas que se deveriam ter oposto ao desembarque não se contarão entre os principais…

Para mencionar apenas um exemplo, a ausência de um verdadeiro serviço de meteorologia, transformou a primeira utilização de tropas pára-quedistas em campanha por parte do Aliados num enorme fiasco. Os fortes ventos que se fizeram sentir dispersaram os aviões que transportavam os pára-quedistas norte-americanos (só metade deles se chegaram a reagrupar em terra), enquanto, entre os britânicos, os mesmos ventos afectaram de tal maneira a progressão dos planadores em que eles se faziam transportar que, num caso, apenas 12 dos 127 planadores aterraram no local previsto, enquanto noutra operação, metade dos planadores nem chegaram a terra, tendo de amarar
Os combates duraram cerca de um mês (até 17 de Agosto), período onde os Aliados adquiriram uma vantagem militar esmagadora, mas não conseguiram impedir que as duas divisões alemãs inicialmente presentes na Sicília (e que foram as únicas que se mostraram dispostas a combater) fossem evacuadas para a Itália propriamente dita através do Estreito de Messina. Noutras condições, perante um inimigo mais determinado, o resultado da campanha bem poderia ter sido outro e, do ponto de vista táctico, a atitude britânica mais cautelosa, contando com a inexperiência das tropas parecia justificar-se. Depois surgiu a oportunidade de uma manobra mais ousada…

(continua)

* A citação total em inglês é: We make this wide encircling movement in the Mediterranean, having for its primary object the recovery of the command of that vital sea, but also having for its object the exposure of the underbelly of the Axis, especially Italy, to heavy attack. Mais tarde ela foi sintetizada para uma expressão que se pode traduzir por ventre mole da Europa (soft underbelly of Europe). Embora as expressões mole e Europa não tivessem sido expressamente utilizadas na citação original elas não parecem atraiçoar a intenção do autor.

16 Maio 2008

DA SINCERIDADE (E DO RIGOR…) DE CERTAS ANÁLISES

Esta semana, houve um debate na SIC Noticias com a presença de Manuel Villaverde Cabral, José Manuel Barata Feio, José Medeiros Ferreira e José Adelino Maltez* a propósito dos acontecimentos de França em Maio de 1968. Houve nele um daqueles momentos que considero emblemáticos, que clarificam por si só uma impressão que tinha sobre alguém, que sentia mas que, de alguma forma, tinha dificuldade em explicar. A impressão era difusamente desagradável e quanto ao alguém trata-se de José Medeiros Ferreira.
Nesse debate, e referindo-se a um episódio das vicissitudes de Maio de 68 em que teriam participado Pierre Mendès France (acima) e a François Mitterrand (abaixo), Medeiros Ferreira qualificava-os em termos elogiosos num estilo aproximado ao de duas respeitáveis figuras da esquerda francesa quando um dos outros presentes (já não me lembro qual) lhe observou que, pelo que dele hoje sabemos, o qualificativo de respeitável (ou um outro equivalente que tenha sido usado) dificilmente se poderá aplicar a François Mitterrand…
Embaraçado, José Medeiros Ferreira engrolou uma justificação de como havia sido o pudor ou a boa educação que o havia levado a não fazer distinções entre as reputações dos dois nomeados... Ora aí está, no mínimo, uma opinião tão significativa quanto discutível: é que à má educação de realçar, naquele contexto, a indiscutível má reputação actual de Miterrand contrapõe-se a indelicadeza e a injustiça de equiparar em respeitabilidade Mendès France com alguém cujo percurso se tornou hoje num verdadeiro embaraço para a esquerda francesa…
Conseguindo perceber que um político no activo possa ter umas relações tensas com a verdade, ponderada com as conveniências, tenho muito mais dificuldades em compreender as razões de quem, como é o caso de José Medeiros Ferreira que se reclama afastado da política activa, num mero programa evocativo de um acontecimento com 40 anos, confessa assim tranquilamente malbaratar adjectivos elogiosos em quem ele próprio reconhece não os merecer. Que efeitos pensará ele que aquela descarada falta de sinceridade produzirá em quem ouve as suas análises?
Seria nota de rodapé, mas vale o esclarecimento que o episódio referido por Medeiros Ferreira se tratou da reunião da União Nacional dos Estudantes de França, que teve lugar em 27 de Maio, no Estádio Charléty, nos arredores de Paris. É dessa reunião que se extraiu a fotografia acima, onde aparecem Pierre Mendès France e Michel Rocard. Ironicamente, ao preparar este poste vim a descobrir que até como memorialista Medeiros Ferreira se equivocara: a respeitável figura de François Mitterrand nunca esteve em Charléty...

* Um particular agradecimento ao JRD, um leitor atento, pela correcção a uma crença minha, que estava errada (ver caixa de comentários).
* E outro particular agradecimento ao Dissidente-x, outro leitor atento, que são os leitores atentos que dão valia aos blogues.

15 Maio 2008

OS NOSSOS MILIONÁRIOS DE VOZ GROSSA

Dos meus outros tempos, sempre fiquei com uma impressão bem vincada: a de que as diferenças entre os sistemas remuneratórios dos gestores de topo das grandes empresas entre os países setentrionais e meridionais da Europa eram mais questão da aparência do que de substância. Nos países da Europa do Sul era-se muito mais descarado e nos do Norte muito mais hipócrita na forma como se abordavam os sistemas remuneratórios que contornavam a incidência fiscal sobre as remunerações recebidas por esses gestores.

Era assim que, mesmo num país de fronteira entre essas duas atitudes, como era o caso da França, a atribuição de um Cartão de Crédito (acima) para pagamento de despesas de representação a um qualquer quadro médio de uma empresa podia ser um verdadeiro tabu (embora fosse prática normal nos outros países latinos), mas nos esquemas de remuneração dos administradores para que ficassem isentos de tributação através do recurso a paraísos fiscais, a escola francesa contava-se entre o que de melhor havia ao nível europeu a esse respeito...
Mas, apesar daquela minha impressão que parecia óbvia (e não resultou de qualquer investigação aprofundada…), durante décadas manteve-se a ficção que essas evasões fiscais eram manobras sórdidas dos mafiosos dos países do Sul. Até que recentemente apareceu (de uma forma mais ou menos escabrosa) na posse do BND* um DVD com os dados de muitas centenas de clientes (e 900 deles eram alemães) de bancos do Liechtenstein que os utilizavam para se evadirem às obrigações fiscais nos seus respectivos países.

Entre aqueles 900 contavam-se muitos dos gestores de topo das maiores empresas alemãs e será no seguimento da confirmação daquilo que o poder político e o fisco alemão considerarão como uma verdadeira traição a uma espécie de pacto oficioso que ficámos a saber que no Conselho dos Ministros das Finanças da União realizado ontem. a União Europeia declara guerra aos salários “escandalosos” dos gestores das empresas**. Falta é saber se e de que forma essa guerra virá a ser travada
Mas, se essa guerra precisar de vir a ser travada, dificilmente Belmiro de Azevedo e Fernando Ulrich, apesar das declarações tonitruantes que entretanto prestaram, participarão nela com patentes superiores às de cabo ou furriel… Basta comparar a dimensão da fortuna do primeiro (assinalada a vermelho no lugar de Portugal no mapa acima) com as restantes fortunas europeias, de acordo com as listas da Revista Forbes. Compare-se com a Torre constituída pelas fortunas dos milionários alemães, e como a maioria destes andam caladinhos que nem ratos nos últimos meses…

* Bundesnachrichtendienst. Trata-se do Serviço Federal de Informações (espionagem) da Alemanha.
** Titulo do Público de hoje e mais uma prova (caso seja precisa) que, actualmente, a agenda dos assuntos económicos e financeiros europeus é idêntica à agenda alemã.

14 Maio 2008

A CONSTITUCIONALIDADE DA SUPERFICIALIDADE

Eu percebo que as informações que enquadrem a luta política que se está a travar na Birmânia possam não ser realmente muito atraentes para o público em geral. Já é menos aceitável que jornalistas escrevam artigos de opinião a respeito do Líbano contendo erros grosseiros sem depois se retractarem, mas enfim, serão pequenos detalhes e, como se vê pela sua produção de hoje no mesmo jornal no mesmo local, o distinto jornalista até consegue produzir uma prosa - neste caso o assunto é o terramoto na China - que, quanto à densidade da informação contida, flutuaria em cima de azeite. Eu bem sei que aquilo pretende passar por artigos de opinião, mas pergunto-me que outros predicados terá Manuel Queiroz para se justifique darem-lhe aquele relevo no Diário de Notícias?
Numa contrapartida renhida, um dos seus concorrentes – Público – resolveu ontem pegar num episódio em que o 1º Ministro, o Ministro da Economia e mais não sei quantos membros da comitiva que os acompanhavam à Venezuela estiveram a fumar num voo em que isso era expressamente proibido. É obviamente grave, muito grave! Significativamente, os jornalistas daquele jornal que acompanham a comitiva durante a visita de Sócrates à Venezuela conseguiram produzir dois artigos ontem: um, contendo 880 palavras sobre as perspectivas da visita que se irá realizar, e o outro (presumivelmente muito mais interessante!) apenas com 790 palavras descrevendo todas as deambulações dos fumadores durante o voo e incluindo o número preciso de cigarros fumados por José Sócrates!…
Para quem pense que ainda possa existir aquilo que antigamente era designado pela expressão francesa fait divers fique a saber que o mesmo jornal retoma o assunto hoje de forma ainda mais aprofundada e desenvolvida: são 1360 palavras e um título que não deixa lugar a dúvidas – Constitucionalistas dizem que José Sócrates violou Lei do Tabaco. Há qualquer coisa de absurdo, e não apenas no jornalismo, nesta adição das opiniões de Jorge Miranda e de Vital Moreira que se prestam a dar mais colorido a este verdadeiro carnaval noticioso que confirma os traços de carácter desagradáveis de José Sócrates. Coisa que, os que gostam de andar informados, já de há muito conhecem. Dúvidas, só as havia (e só para alguns) quanto à utilidade que Belmiro de Azevedo dá à posse do seu jornal e essas desapareceram...

Adenda: Para que o carnaval noticioso acabasse numa quarta-feira de cinzas apropriada, o que faltava mesmo era que José Sócrates aparecesse em penitência: aí está ele!

13 Maio 2008

OS MAUS

Com os meus agradecimentos ao amável convite de Pedro Correia para que publicasse um texto no Corta-fitas.
Os generais birmaneses (acima) tiveram um longínquo antepassado português de seu nome Diogo Soares, por alcunha o galego, um mercenário que se tornou general e governador do Reino de Pegu no Século XVI, conforme o contou Fernão Mendes Pinto e o veio a cantar Fausto, no seu álbum Por Este Rio Acima (1981). Já no Século XX, e já não no aspecto estritamente político e militar, mas ainda assim ligado ao aparelho de segurança, a Birmânia colonial contou com um outro ilustre membro, pertencente às Forças Policiais Imperiais Indianas, de seu nome Eric Blair, mas que se tornou mais conhecido noutras funções – escritor – e com outro nome – George Orwell.

À semelhança do que acontecia no caso português com a relação entre a Guiné e Cabo Verde, também as províncias birmanesas durante o período colonial britânico eram uma espécie de colónia de outra colónia. Fazendo parte do Império Indiano (acima), a grande maioria do aparelho administrativo, policial e militar presente na Birmânia era comum com o da Índia e, quando não guarnecido por britânicos (como Orwell), era-o por indianos. No último censo realizado pelas autoridades britânicas (1931) cerca de 7% dos 15 milhões de habitantes eram de origem indiana. E na capital (que então se chamava Rangoon - abaixo), os imigrantes indianos estavam até em maioria (53%).
Portanto, ao contrário do que acontece em muitos outros países que foram antigas colónias, as Forças Armadas birmanesas actuais não vão buscar as suas origens nem se reconhecem herdeiras do antigo exército colonial, mas a organizações nacionalistas insurreccionais, como acontece em países onde houve conflitos armados para que se alcançasse a independência – são os casos das Forças Armadas da Argélia, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau ou do Yemen. No caso da Birmânia, o embrião das Forças Armadas foi construído à volta dos Trinta Camaradas que inicialmente receberam formação militar ministrada pelos japoneses em 1940-41.

Só que este Exército Nacional Birmanês (ENB) também passou pela situação desconfortável de ter servido de marioneta que legitimava os invasores japoneses quando estes invadiram a Birmânia em 1942 e dali expulsaram os britânicos (e os indianos – houve cerca de 500.000 abandonaram o país fugindo aos invasores). Em 1943, a Birmânia veio a tornar-se teoricamente independente, mas, debaixo da tutela nipónica, o grau de liberdade do governo do novo país era nulo. E a importância militar da participação do ENB (com os seus míseros 11.000 efectivos) na Campanha da Birmânia foi perfeitamente residual.
Em finais de Março de 1945, ainda a tempo do gesto ser honroso (o Japão só se rendeu em Agosto…), o ENB mudou-se para o campo dos Aliados. Claro que o ENB não se podia defrontar com as Forças Armadas imperiais japoneses mas, como um exército clandestino (parecido com a resistência francesa), os seus membros puderam servir de base de uma administração clandestina birmanesa livre da influência britânica mas também do controlo japonês. O General* Aung San, pai da conhecida Aung San Suu Kyi, é considerado o autor desta oportuna manobra política que trouxe os nacionalistas birmaneses para o lado dos vencedores.

A Birmânia do período do pós-Guerra, em direcção à sua independência (1945-48) tinha três grandes problemas. As negociações entre britânicos e birmaneses foram duras e não contiveram quaisquer daqueles elementos de cortesia diplomática entre colonizadores e colonizados próprios destas ocasiões. Por exemplo, a futura Birmânia independente não quis fazer parte da Commonwealth e nasceu assim internacionalmente isolada. Em segundo lugar, e como já aqui descrevi noutro poste, o novo país seria, quanto à sua coesão interna, de uma heterogeneidade capaz de pôr em causa a sua existência. Um terço da sua população não é etnicamente birmanesa (abaixo).
Em terceiro lugar, já então, a luta política birmanesa, protagonizada por vários dos Trinta Camaradas, além de outros nacionalistas, regia-se segundo regras muito semelhantes às da Máfia. Em Julho de 1947, 6 meses antes da data de independência (Janeiro de 1948), Aung San foi assassinado conjuntamente com outros 6 ministros do governo de transição por um comando terrorista a mando de um dos seus rivais. Foi assim que, como acontece frequentemente aos políticos que morrem tragicamente (lembre-se Sá Carneiro…), Aung San se tornou num mito de um outro percurso histórico que a Birmânia podia ter trilhado.

Os primeiros 14 anos de independência (1948-62), sobretudo sob a direcção de U Nu** (1948-56, 1957-58, 1960-62), caracterizaram-se pela necessidade da repressão das várias minorias étnicas em conflito armado contra o poder central e, por causa disso, pela importância crescente das Forças Armadas e do seu comandante, Ne Win (abaixo), que fora um próximo de Aung San. Entre os birmaneses, a luta política manteve a mesma dureza que levara ao assassinato de Aung San. É neste quadro, e também para boicotar uma solução federal negociada por U Nu com as minorias, que Ne Win promoveu um Golpe de Estado em Março de 1962.
De então para cá, os militares birmaneses nunca mais abandonaram o poder. Ao contrário do que aconteceu com outros regimes militares mais clássicos (como os sul americanos), onde mesmo os mais duradouros (no Brasil ou no Chile) não ultrapassam uma geração (25 anos***), este regime militar birmanês já vai a caminho de perfazer o dobro disso (46 anos). Conhecidas em birmanês pela designação de Tatmadaw, todos os membros que hoje compõem as Forças Armadas da Birmânia (o serviço militar é voluntário) já entraram depois delas se terem apoderado do poder. Na Birmânia, há muito tempo que poder político e militar são uma e a mesma coisa.

E, consequentemente, para qualquer birmanês o gesto de se apresentar como voluntário para o serviço militar ou de concorrer a uma das Academias tem um significado e abre-lhe possibilidades de carreira que não se comparam com situações equivalentes no Ocidente. Sobre a Prússia dizia-se que, ao contrário dos outros países vizinhos que tinham um exército, na Prússia era o exército que possuía um país. Na Birmânia, os generais do Tatmadaw deverão defender uma opinião que muito se assemelha: para eles, se não houver exército, não haverá Birmânia. É uma opinião minoritária, como se provou as eleiçoes de 1990.
Um dos maiores paradoxos é que a junta de generais na Birmânia comanda uma Forças Armadas que nunca se distinguiram por defender a nação dos seus inimigos externos (poderosos, a Birmânia está na região de confronto entre as influências chinesa e indiana) mas que apenas fundamentaram a sua maior razão de ser nas vitórias registadas nas guerras de contra-subversão, contra aquilo que consideram ser os inimigos internos do Estado birmanês – as minorias étnicas. O actual regime goza do beneplácito tácito da China, enquanto prosperou à custa de uma hostilidade xenófoba contra os indianos (hoje são apenas 2% da população).

Todavia, tem sido evidente que o regime militar da Birmânia tem estado a ser submetido a uma pressão crescente. Não é difícil adivinhar quem estará por detrás de tais pressões... Mas também não é difícil, lendo os antecendentes da história birmanesa, perceber como a campanha mediática que envolve tais pressões mostra ser de um maniqueísmo primário e excessivo: há a boa Aung San Suu Kyi (acima, junto a uma fotografia do pai) ou os inocentes monges budistas pacíficos que são perseguidos versus os generais, que são maus. A alguém interessa saber, herdeiro por herdeira, que o filho mais velho de Aung San (Aung San Oo) não aprova a conduta política da irmã?...

* A patente está em itálico porque, como se pode ler na sua biografia, a formação académica de Aung San foi em Literatura Inglesa, História Moderna e Ciência Política.
** Como já aqui escrevi, U tem o significado em birmanês de senhor e Nu é, neste caso, o seu (único) nome.
*** Brasil (1964-1985) e Chile (1973-1990).

12 Maio 2008

A SUÍÇA DO MÉDIO ORIENTE

Contou-me quem sabe que, numa reunião alargada com uma vintena de suíços mesmo que eles sejam todos originários dos cantões de língua alemã (que são a maioria: cerca de 75% da população), a primeira meia hora da reunião (e Deus sabe como eles são pontuais…) pode ser dedicada à escolha da versão cantonal oral do alemão suíço com que decorrerão os trabalhos. O debate não está aberto a estrangeiros (é o caso de quem me contou esta história, alemão de Hanôver, que preferiria uma versão oral das menos castiças…) mas ao fim daqueles 30 minutos a decisão é tomada e a reunião começa, de facto, com uma fluidez que nada tem a ver com as nossas tradicionais dispersões lusitanas.
O Líbano é frequentemente comparado com a Suíça e há alguns aspectos nos dois países que se assemelham, a começar pela geografia física (acima) que facilita a formação de agrupamentos cantonais distintos (abaixo), só que neste caso de carácter religioso. Mas as semelhanças por aqui se ficam. A hipotética vintena de libaneses da reunião do parágrafo acima não teria quaisquer problemas na escolha da língua de trabalho (árabe), mas a escolha sobre se se proferiria e quem proferiria uma oração antes da reunião teria sido o pretexto para os que queriam conduzir a reunião desencadeassem um debate que se tornaria mais importante do que os problemas que se procuravam resolver com aquela reunião.
Parece ser genético e fazer parte da gramática da disputa política local. É verdade que a localização geográfica do Líbano não ajuda à pacificação, entalado como está entre Israel e a Síria (abaixo), mas esse argumento aplicava-se também à Suíça na época das grandes rivalidades franco-alemãs e ela permaneceu neutral durante as duas Guerras Mundiais… Por outro lado, definido pelas comunidades religiosas, o quadro político libanês é mais complexo e confuso do que o suíço: até 1997, enquanto foi obrigatório mencionar a confissão religiosa do portador do bilhete de identidade, havia 17 comunidades distintas que eram legalmente reconhecidas… – 11 cristãs, 2 muçulmanas (xiita e sunita), druza, judia, ismaelita e alauíta.
É esta complexidade que torna mais fácil escreverem-se disparates quando se fala do Líbano, como o da coluna de opinião de hoje do Diário de Notícias, assinada por Manuel Queiroz, que se refere (final do parágrafo intermédio), aos cristãos de Nabih Berri, que é o presidente do Parlamento”. Ora, uma das primeiras coisas que se aprende quando se estuda o Líbano político são as cláusulas do Pacto Nacional de 1943 que repartiu os cargos do Estado libanês pelas confissões religiosas: um Presidente cristão maronita, um Primeiro-Ministro muçulmano sunita e um presidente do Parlamento, muçulmano xiita… Nabih Berri (abaixo), pelo cargo que ocupa, é obviamente xiita*. Manuel Queiroz até se podia ter informado
Já aqui na blogosfera, encontra-se uma outra abordagem para analisar estes recentes acontecimentos no Líbano, mais ideológica, mas mais defensiva, passando por alto o detalhe dos acontecimentos, e por isso menos propensa a cair nas armadilhas daqueles erros factuais. Decalcando os interesses israelitas, podem dar mais destaque à própria cobertura mediática do conflito actual, que é menor e menos enviesada do que quando Israel interveio no Líbano, ou então remetem para a incapacidade do governo libanês e da UNIFIL para derrotar o Hezbollah xiita. Mas, como já aqui escrevi e como se pode ler nos documentos originais que a mandatam, o objectivo da UNIFIL não é substituir o exército israelita…
Finalmente, lendo a substância das notícias do que aconteceu recentemente no Líbano, fica-se a saber que os recentes conflitos tiveram lugar tanto nos arredores de Beirute Ocidental** entre as milícias do Hezbollah xiita e do PSP*** druzo, como também nos arredores de Tripoli (cidade do Norte do Líbano) mas aqui entre milícias sunitas rivais, apoiantes e opositoras do governo. A vantagem parece ter pertencido à facção que aglutina as diversas forças que estão na oposição. Não é de excluir que se possa esperar uma nova invasão de tropas sírias. Só aí será apropriado fazer-se uma comparação com a cobertura informativa que foi dada aos acontecimentos do Verão de 2006. Mas até lá, a comparação parece-me excessiva…

* Embora xiita, Berri não pertence ao Hezbollah, mas sim a um partido concorrente, o Amal.
** É em Beirute Ocidental que se localizam os bairros de maioria muçulmana. Beirute Oriental é predominantemente cristã.
*** Partido Socialista Progressista. É o único caso que me lembro de um partido nitidamente étnico/confessional que é membro da Internacional Socialista. Já ouvi o seu dirigente, Walid Jumblatt, um senhor feudal típico, a receber grandes elogios de son ami Mário Soares…

11 Maio 2008

CHRISTIAAN BARNARD, O DR. KILDARE (OU O GEORGE CLOONEY...) A SÉRIO

Antes desta nova revoada de series televisivas sobre medicina (como ER, House, M.D. ou Anatomia de Grey), que foi (re)começada com o aparecimento de ER durante a década de 90, tinha havido uma outra temporada sobre o mesmo tema durante a década de 60 e muito daquilo que consideramos novo, são apenas recuperações: por exemplo, o George Clooney daquela época chamava-se Richard Chamberlain (abaixo) e a série em que ele era protagonista e dava nome à personagem tinha o título de Dr. Kildare (1961-66).
A realidade aproximou-se bastante da ficção quando em Dezembro de 1967 uma equipa médica sul-africana da Cidade do Cabo anunciou que havia realizado o primeiro transplante de coração. O chefe dessa equipa e seu porta-voz era o Dr. Christiaan Barnard (abaixo) que, além das suas qualidades científicas, mostrava também, apesar dos seus 45 anos, umas indiscutíveis qualidades fotogénicas. Durante algumas semanas o interesse mediático científico mundial esteve centrado naquele hospital sul-africano e nos seus boletins clínicos*.
Foi uma excelente projecção pessoal para o Dr. Barnard (abaixo), mas o feito também foi devidamente aproveitado pelo regime sul-africano, já então a sofrer de um progressivo isolamento internacional. Ao contrário dos outros países do continente, a maioria dos quais haviam ascendido recentemente à independência, a África do Sul encontrava-se na vanguarda do conhecimento científico. Paradoxalmente, apesar da sua ascendência africânder, o Dr. Barnard nunca mostrou ser um grande adepto do regime do apartheid.
Christiaan Barnard também se tornou, literalmente, uma figura destacada da imprensa cor-de-rosa através da sua atribulada vida sentimental envolvendo três casamentos intercalados com inúmeros casos que encheram páginas e páginas das revistas da especialidade. A especialidade de Barnard, comentava-se ironicamente, eram todos os assuntos de coração… Sete anos após o transplante podemos observar ainda uma página de uma dessas revistas dedicada a ele (abaixo). Significativo da fluidez da fama assim adquirida, a autora do poste onde encontrei a página não sabe já de quem se trata
* O primeiro paciente transplantado sobreviveu 18 dias ao transplante, o segundo – que recebeu o coração numa operação realizada em Janeiro de 1968 – sobreviveu 19 meses.

10 Maio 2008

A ALIANÇA POVO-ELITES

São raras, e por isso históricas, as ocasiões em que os membros das elites (ou os que se tomam por pertencentes a tal) se reúnem em comunhão com o verdadeiro povo português. Lembro-me, por exemplo, de Setembro e Outubro de 1974 (acima), quando alguns membros das classes mais abastadas possuidoras de terras em regiões vitivinícolas, com um cartão de militante do MDP/CDE novinho em folha, vieram participar com os seus trabalhadores na vindima daquele ano. Apesar de tudo, 1974 foi considerado um bom ano vinícola…
Parece-me que a edição de ontem do Jornal Nacional da TVI teve uma audiência onde se terá formado essa improvável aliança histórica, associando o povo genuíno e as nossas melhores elites intelectuais. O pretexto próximo para a atenção destas últimas terá sido o reaparecimento de Manuela Moura Guedes como apresentadora do Jornal Nacional, e a outra atracção suplementar de programa seria o reaparecimento em televisão desse aclamado fenómeno comunicacional que responde pelo nome de Vasco Pulido Valente.
Confesso que até mesmo eu, não me considerando pertencer nem ao povo genuíno nem às elites intelectuais, passei ontem em zapping pelo Jornal Nacional da TVI embora haja que confessar que a causa próxima tenha sido uma aposta sobre o formato das novas bochechas de Manuela Moura Guedes: de que forma é que elas se podem comparar com aquelas com que maquilharam o Jack Nicholson quando ele fez de Joker no filme Batman? Compare-se acima e abaixo, mas note-se que as bochechas da Manuela estão actualmente muito melhores
Hoje li num daqueles blogues de elite – cujo autor (obviamente) não vê TVI, mas contaram-lhe… – que o aparecimento de Vasco Pulido Valente, apesar de repetidamente alardeado durante todo o programa não se chegou a concretizar. E o autor do blogue (que não viu) parece-me manifestar o seu descontentamento em nome dos que viram… As elites não estão habituadas a estas trapaças populares de barraca de feira, onde as promessas sobre o fenómeno excedem a realidade. E vê-se assim o pobre Vasco reduzido a esta espécie de condição de mulher-barbada...

O meu especial agradecimento pela preciosa fotografia inicial (Revista Gente nº 50, de Outubro de 1974), retirada daqui.

09 Maio 2008

60 ANOS NA TERRA SANTA

Relacionado com as evocações dos 60 anos da fundação do Estado de Israel e para ajudar a colocar a efeméride numa perspectiva menos ideológica, mais científica e mais substantiva do que estes dois exemplos, vale a pena dar uma leitura ao excelente livro acima de Steven Runciman, História das Cruzadas – Volume II, para recordar como em Abril de 1159, 60 anos depois da conquista de Jerusalém pelos cruzados, Manuel I Comnenus*, o grande Imperador Romano de Constantinopla, à frente de um grande exército e acompanhado de Balduíno III, Rei de Jerusalém, vinha tomar posse da cidade de Antioquia (na Síria actual). Intimidado e como gesto apaziguador, Nur ed-Din, o Soberano de Damasco, mandou libertar 6.000 prisioneiros cristãos que tinha na sua posse… Foi um momento de conforto e de consolidação do poder da Cristandade no Médio Oriente. Mas ninguém naquela altura imaginava que distavam apenas mais 28 anos para que a futura Batalha de Hattin tivesse lugar, na sequência da qual Saladino, o sucessor de Nur ed-Din, recuperou Jerusalém para a jurisdição do Islão (1187). Os israelitas e os simpatizantes da sua causa não se devem esquecer que naquelas paragens as vantagens tácticas costumam ser muito fluidas…

* Por curiosidade e coincidência, o Imperador Manuel I Comnenus (1118-1180) é praticamente contemporâneo do Rei Afonso Henriques (1109-1185) de Portugal.

A APOSTA PERDIDA DE GEORGE S. PATTON

Os conflitos modernos deram origem ao aparecimento de figuras iconográficas entre os generais, que depois se perpetuaram em reputações que raramente têm a ver com a sua real valia em termos da ciência militar ou, pelo menos, cuja superioridade para com o comportamento dos seus homólogos e dos rivais não justifica, objectivamente, o destaque que lhes é dado. Dando exemplos concretos dos Grandes Conflitos do Século XX, existem os casos de Joffre em França (abaixo) e de Hindenburg na Alemanha, durante a Primeira Guerra Mundial, do britânico Montgomery ou do norte-americano Patton, durante a Segunda.
No entanto, houve uma evolução natural na maneira como a imagem iconográfica dos ídolos evoluiu de um conflito para outro. Mais institucional com o francês e o alemão, a dos dois generais anglo-saxónicos parecia ser genuína porque parecia espontaneamente oriunda da imprensa, quando na realidade era afinal habilidosamente gerida por detrás. Tratava-se de uma habilidade característica de países onde se desfrutava de um certo nível de liberdade: durante a Segunda Guerra, nunca houve uma promoção de imagem interna de qualquer general alemão ou soviético da mesma forma de Patton ou Montgomery. Hitler ou Staline não as tolerariam…
Insira-se aqui um parágrafo como curiosidade pela forma como em Portugal, durante as Guerras em África, de 1961 para 1974, se transitou de um regime autocrático puro, ao nível das ditaduras totalitárias da Segunda Guerra Mundial (Salazar seria tão ciumento quanto à projecção pública dos seus generais quanto Hitler e Staline…) para um regime mais aberto depois da chegada de Marcello Caetano ao poder (1968), com o destaque dado na comunicação social às figuras de Spínola e os seus aspectos folclóricos do monóculo e do pingalim (acima) ou as explicações das operações de guerra em Moçambique, dadas por Kaúlza de Arriaga (abaixo).
Este extenso intróito serve para tentar colocar George S. Patton (abaixo) na devida hierarquia de mérito dos generais norte-americanos da Segunda Guerra Mundial, numa posição muito inferior à da proeminência que gozou entre jornalistas (pelas obscenidades e sound bites que caracterizavam os seus discursos) e fotógrafos (pelos adereços com que se enfeitava, especialmente um par de Colts 45, niquelados, com os punhos em marfim). De alguma maneira a imagem vingou, porque há um filme sobre si intitulado Patton (de 1970), e nenhum intitulado Eisenhower ou Bradley, e ambos foram seus superiores hierárquicos directos…
A forma como se conta o início da história da conquista de Brest é uma daquelas versões para jornalista. Não tendo participado no desembarque da Normandia, a 6 de Junho de 1944, foi só a 1 de Agosto que George Patton veio assumir o comando do recém-criado III Exército norte-americano. Ao fazê-lo, pegou nas únicas 4 Divisões operacionais que lhe atribuíram e mandou um par delas (a 4ª Blindada e a 8ª de Infantaria) para Rennes e o outro (6ª Blindada e 70ª Infantaria) para Brest, o porto que está localizado na extremidade da península da Bretanha (como se vê no mapa abaixo), que ficava precisamente no sentido oposto…
Segundo essa versão para a imprensa, ao tomar conta do cargo, Patton fizera uma aposta de 5 libras esterlinas com Montgomery (então ainda responsável por todas as Operações terrestres, até à posse de Eisenhower) em como as suas tropas estariam em Brest no Sábado seguinte (dia 9 de Agosto). E a versão continuava: ao encontrar o comandante da 6ª Divisão Blindada, Robert Grow (abaixo), num entroncamento, foi ter com ele quase casualmente e deu-lhe instruções para que conquistasse Brest até dia 9. Quando este protestou que o objectivo estava a 400 km de distância, ouviu: Não me vais fazer perder as 5 libras que apostei com Monty?!...
Teve a sua piada, deve ter feito vender bastantes mais jornais, mas é mentira que a definição dos objectivos a conquistar pelos Aliados pudesse depender assim dos caprichos e das apostas dos seus oficiais generais… Na verdade, a planificação das operações a realizar depois do desembarque em França atribuía uma alta prioridade à conquista dos portos franceses do Atlântico (abaixo) para facilitar o desembarque das tropas e do apoio logístico aos exércitos que estavam extremamente carentes de reabastecimentos como eram tradicionalmente os casos dos anglo-americanos. E Patton estava apenas a cumprir esse plano…


Aliás, do outro lado (alemão) já se haviam apercebido da importância que esses portos representavam para os adversários e, em vez de tentar retirar, impossibilitadas de bater em velocidade as unidades aliadas que estavam motorizadas, as unidades alemãs que guarneciam a França (algumas como aquelas que faziam a clientela (abaixo) do Café do René em ´Allo! ´Allo!…) haviam recebido ordens para se reagruparem nos portos e defendê-los a todo o custo, procedendo à destruição de todas as infra-estruturas portuárias na impossibilidade de não serem bem sucedidos na sua defesa.
Regressando à aposta de Patton e Montgomery sobre a data da conquista de Brest, quando Bob Grow e a sua 6ª Divisão Blindada chegaram aos seus arredores, a 7 de Agosto, já os alemães se haviam reagrupado. Entre as unidades cercadas, num total estimado em 40.000 homens, contavam-se elementos da 2ª Divisão de Pára-quedistas, que era uma unidade de elite alemã... A Divisão sitiante não dispunha dos meios necessários para desencadear uma guerra de cerco e Patton perdeu a aposta… Foram precisas 4 Divisões norte-americanas* e 6 semanas de combates (abaixo) para conquistarem Brest mas com o seu porto totalmente destruído...
Os recursos alocados à libertação de Brest, quando comparados com as vantagens que se extraíram depois da sua conquista, alteraram as prioridades aliadas quanto à libertação dos portos marítimos franceses que ainda permaneciam em mãos alemãs. Devidamente cercados por forças aliadas (constituídas sobretudo pelos antigos resistentes franceses, agora saídos da clandestinidade), as guarnições alemãs dos portos franceses de Lorient, Saint Nazaire e La Rochelle só se vieram a render a 9 de Maio de 1945 (há precisamente 63 anos), ao receberem as notícias da Assinatura da Rendição do III Reich.

* 6ª Divisão Blindada e as , e 29ª Divisões de Infantaria, com um reforço excepcional de artilharia, para além de apoio de bombardeamento aéreo.

08 Maio 2008

TUDO POR OBAMA, NADA CONTRA OBAMA

Geralmente gosto do que Rui Tavares escreve. Descobri ontem, quando a SIC Notícias o convidou para analisar o momento das primárias democratas, que ele também se sai muito bem em televisão. Por sair-se bem entenda-se que me estou a referir ao aspecto formal da argumentação que emprega quando defende as suas ideias. Porque em termos de distanciamento e imparcialidade quanto aos protagonistas do fenómeno que analisa, Rui Tavares tem tópicos em que é um bom discípulo da escola de análise Luís Delgado

Barack Obama é o candidato presidencial norte-americano de Tavares e substancial, que não formalmente, a atitude de ontem do analista para com o seu candidato escolhido fez-me lembrar aquele lema da época de Salazar quanto à atitude para com nação: tudo por ela, nada contra ela… Assim, pela descrição do tudo por Obama, nada contra Obama de Rui Tavares ontem, Obama soou a um depositário de todas as esperanças mundiais – incluindo, parece que acessoriamente, as de alguns norte-americanos…

Só que, ao contrário dos pecados de Luís Delgado, que considero um irrecuperável quanto à obtusidade do seu maniqueísmo, creio que são as simpatias em excesso que fazem turvar a lucidez das normalmente mais objectivas análises de Rui Tavares. Nelas, ao contrário das suas conclusões de ontem, a forma e o fundo não se costumam confundir. Se, como afirmou, o estilo de campanha de Obama se distingue do clássico só o optimismo lhe permite extrapolar que a sua hipotética actuação com presidente também será assim.

É que em Janeiro de 2009, seja quem for que tenha vencido as eleições presidenciais de Novembro anterior, o descomunal legado de George W. Bush há-de ser o maior constrangimento das primeiras iniciativas de quem vier a ser o seu sucessor. E, ao contrário do que se pode deduzir do que ouvi ontem a Rui Tavares, os interesses essenciais da sociedade que acabou de eleger o novo presidente permanecerão essencialmente os mesmos e é a eles que mesmo Obama terá que responder. Desejar diferente é bonito, mas não é sóbrio.