27 abril 2018

O PACHECO PEREIRA NÃO PERCEBE NADA DAQUILO...

A forma como acabou a edição desta semana da Quadratura do Círculo, quando calhou a vez a Pacheco Pereira de emitir as suas opiniões sobre a corrupção, já mesmo a terminar o programa, a forma como os outros dois o interromperam consecutivamente, enquanto ele se esforçava por transmitir a ideia que o episódio Manuel Pinho seria mais banal do que o que se possa julgar, ou que a questão da corrupção ia muito para além da circunstância pontual de Pinho ser ministro na altura em que recebia as luvas, é ilustrativa de como a classe político-económica que aqueles outros dois representam detesta ver-se ao espelho. Não é coisa que não se saiba sobre o elenco, mas é sempre bom refrescar a constatação que não há ali corruptos naquele programa (evidentemente!), embora seja melhor que Pacheco Pereira não se ponha para ali a concretizar despropositadamente em que é que consiste a corrupção. Só para que pareça que só os políticos é que são corruptos, os outros não...

26 abril 2018

AS «FAKE NEWS» DE HÁ 75 ANOS

A edição de há 75 anos do Diário de Lisboa dava o porta-aviões norte-americano USS Ranger como afundado por um submarino alemão. A notícia baseava-se no que noticiara a agência noticiosa alemã DNB, embora o jornal português tivesse o cuidado de não dar toda a corda aos detalhes da narrativa dos alemães, que incluía até a autoria do submarino responsável pelo afundamento, o U-404, e a identidade do respectivo comandante, o capitão-de-corveta Otto von Bülow. Mandava a experiência e a prudência aguardar alguns dias até que os Estados Unidos assumissem a perda - importante - de um porta-aviões. Entretanto, menos cautelosos que um mero jornal português, a Kriegsmarine e Adolf Hitler já condecorara nesse mesmo dia von Bülow com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro com Folhas de Carvalho. Afinal os dias escoaram-se e o USS Ranger apareceu miraculosamente a flutuar para tranquilidade das famílias do seu milhar de tripulantes, sem qualquer arranhão e sem que os seus registos de bordo conseguissem justificar as causas para o tremendo erro cometido pelos alemães, ao dá-lo por afundado antes de tempo. Só que aí, claro, ter-se-ia tornado muito embaraçoso descondecorar o autor da proeza. Prematuramente afundado pela propaganda alemã, o USS Ranger irá cumprir o seu dever durante o resto da Segunda Guerra Mundial, até ser abatido aos efectivos em Outubro de 1946.

A CONFRARIA DOS GAJOS BRILHANTES QUE SÃO BONS DEMAIS PARA RECEBEREM MUITOS VOTOS

Patentemente, Rui Tavares não terá perdido ontem qualquer boa oportunidade de aparecer ao lado de Yanis Varoufakis nas fotografias... E tem momentos em que os jornalistas vivem tão ensimesmados no seu mundo de favoritos que perdem a imagem global do que é importante. As duas 'special guest stars' a que acima o Expresso se refere, compõem, com o «anfitrião» Tavares que aparece destacado na fotografia da notícia, uma troica de políticos que são levados ao colo pela comunicação social sem que essa (pretensa) popularidade depois se confirme nas urnas. A 'guest star' Benoît Hamon, que foi o candidato do Partido Socialista às ultimas eleições presidenciais francesas de há um ano, terminou aquela sua participação «classificado em 5º lugar na escolha dos franceses, com um resultado historicamente baixo de 6,36%». Por sua vez, o anfitrião Rui Tavares recebeu 71.500 votos (2,18%) à escala nacional como cabeça de lista pelo Livre nas eleições europeias de 2014 e 14.700 votos (1,27%) como candidato a deputado pelo distrito de Lisboa nas últimas eleições legislativas de Outubro de 2015. Finalmente, à avaliação eleitoral da outra 'guest star', Yanis Varoufakis, põe-se o problema de nunca se ter apresentado eleitoralmente e de assim não se saber a verdadeira capacidade de arrastamento popular das suas (brilhantes) opiniões. O Movimento Democracia na Europa 2025 (DiEM 25 - vejam-se os cartazes na fotografia) já tem dois anos e imensos apoiantes colunáveis, mas ainda não se apresentou a qualquer eleição. O que é uma pena!... Na Grécia natal de Varoufakis, nas últimas sondagens ali realizadas (18 de Abril, 19 de Abril, também 19 de Abril e 21 de Abril), constata-se que as intenções de voto no partido de Varoufakis são tão irrelevantes que nem sequer aparecem mencionadas! Aparentemente e em contraste com o entusiasmado punho cerrado brandido por Rui Tavares na foto acima, a esmagadora maioria dos compatriotas de Varoufakis estão-se a cagar para Varoufakis. O que devia ser devidamente sopesado quando se dá esta cobertura à sua pessoa e às suas opiniões. A política em Democracia devia ter a ver muito mais com os votos que se recebem do que com as figuras com quem os jornalistas engraçam.

25 abril 2018

...MAS NÃO NECESSARIAMENTE PELAS RAZÕES CERTAS

Aqui há duas semanas referi-me no blogue a um episódio caricato que entretinha toda a Espanha: o de uma universidade privada madrilena que produzia títulos académicos à medida e da presidente do governo local madrileno, Cristina Cifuentes de 53 anos e militante destacada do PP, que, nem mesmo assim o conseguiu obter... Para alcançar o seu canudo teve que o falsificar! As duas semanas que se seguiram caracterizaram-se por pressões de todo o género e origem para que Cristina Cifuentes se demitisse do cargo. Que não haviam tido sucesso, até hoje. Quando, subitamente, apareceu um vídeo da segurança de um supermercado em que aparece a mesma a ser revistada e onde se lhe encontram, esquecidos, um par boiões de cremes de rejuvenescimento. O episódio, rapidamente apropriado pelo humor das redes sociais, tivera lugar já há oito anos(!). E, agora sim, as pilhérias sobre o roubo (e sobre o artigo roubado!) terão feito a própria aperceber-se da sanção social que o conhecimento generalizado da sua falsificação do mestrado não havia conseguido.

Constata-se que, ali por Madrid, ser-se ladra caçada no supermercado estará alguns degraus abaixo na escala social do que o estatuto de falsificadora de documentação académica. E é só assim, perante a nova vergonha, que Cristina Cifuentes se demite, depois de resistir, muito para lá da decência, a tudo e a todos. A origem da nova notícia que finalmente derruba a presidente madrilena não será difícil de deduzir, nestes processos em que os podres sobre os rivais se guardam para ser activados nas ocasiões mais convenientes. A ironia final da situação é uma pirueta protagonizada por Pablo Iglésias do Podemos que, situando-se nos antípodas do espectro político em relação a Cristina Cifuentes e ao PP, aparece a condoer-se daquilo que classifica como «a destruição de um ser humano». É o tal género de atitude que, sendo vera, é muito cândida ou então não e é insuportavelmente cínica, Mas vale a pena aprender com estas modas que nos chegam lá de fora: não se surpreendam se Catarina Martins se vier a mostrar solidária com a próxima vítima da guerra interna do PSD...

AS «BIRRAS» DOS «ÓRFÃOS» DO PASSISMO

O caricato da situação fala por si e a identidade do órgão de comunicação que o noticia só lhe dá mais enfâse. Nem mesmo os incondicionais do Observador parecem poder endossar estas «birras» dos «órfãos» do passismo, atitudes desastradas de que já nem Pedro Passos Coelho pode ter culpa. Mas, se querem ser uma facção organizada dentro do PSD, mesmo sem Luís Montenegro a disciplinar o recreio das crianças, convinha que se concertassem para se resolverem a fazer gazeta às cerimónias oficiais do 25 de Abril. Isto que aconteceu, mais do que uma infantilidade, é a completa perda do sentido das conveniências. Fernando Negrão sai absolvido da sua impotência e Rui Rio agradece. Acessoriamente, os companheiros não foram muito corteses para a recém eleita líder da JSD que discursou em seu nome.

A APRESSADA EXECUÇÃO DA OPERAÇÃO «GERBOISE» VERDE


25 de Abril de 1961. O primeiro ensaio nuclear francês realizou-se na Argélia meridional, em pleno deserto do Sahara, a 13 de Fevereiro de 1960. Outros ensaios se seguiram, a que se deram o nome de operações «Gerboise» (jerboa, em português), um pequeno roedor nocturno do deserto, de patas compridas e grandes orelhas, assaz comum na fauna do local dos testes. Cada ensaio recebia um nome de código ligeiramente diferente, a operação «Gerboise» Azul fora o ensaio original (acima), a que se seguiram a «Gerboise» Branca e a «Gerboise» Vermelha (as outras cores da bandeira francesa), antes desta operação «Gerboise» Verde há precisamente 57 anos. Esta última diferenciou-se de todas as anteriores pela circunstância de ter sido executada à pressa. Poucos dias antes, alguns generais franceses haviam realizado um pronunciamento militar em Argel (aquilo que se veio a designar pelo «Putsch dos generais»), quendo se apoderaram localmente do poder, em rebelião contra as decisões de Paris e da metrópole (veja-se abaixo a notícia da época). O momento era tenso. Sem uma garantia de controle e considerada a localização do centro de ensaios na própria Argélia semi-insurrecta, as autoridades francesas legítimas decidiram detonar preventivamente a próxima arma nuclear a ensaiar, acautelando a remota hipótese (catastrófica!) de que ela pudesse vir a cair sob o controle dos generais revoltados.
E foi assim, que em português designaríamos por às três pancadas, que a operação «Gerboise» Verde arrancou. Sabe-se hoje, por exemplo, que a pilha de combustível (plutónio) que era destinada a formar a massa crítica do engenho foi transportada na noite anterior ao ensaio num prosaico Citroën 2 CV por 50 km de pistas no deserto... Não surpreenderá o leitor saber que, com tanta preparação, o ensaio se revelou tecnicamente um fiasco: a potência do engenho, que os cálculos teóricos prévios estimavam alcançar entre as 6 e as 18 mil toneladas de TNT equivalente, ficou-se por um décimo da potência esperada. Mas o mais importante fora feito: como nessa época as armas nucleares francesas se fabricavam a um ritmo artesanal, desaparecera a hipótese dos generais de Argel se apropriarem de um desses engenhos. A edição de há 57 anos do Diário de Lisboa transmitia devidamente o recado tranquilizador que o general de Gaulle pretendia dar aos seus homólogos (abaixo), comprovando, em paralelo, um dos mais sólidos princípios do jornalismo de massas: nenhum rumor é para ser levado a sério até ele ser devidamente desmentido, como acontecia com aquela sugestão (absurda!) que os acontecimentos de Argel haviam influenciado o calendário dos ensaios nucleares... Eu creio que há certas ocasiões em que, quem produz informação, se sente inferiorizado se não a produzir insultando no processo a inteligência daqueles a quem a informação é dirigida.

24 abril 2018

EVOCAÇÕES FILATÉLICAS DE OUTROS 24 DE ABRIL

Se por «24 de Abril» se entender um regime posteriormente apagado da memória colectiva porque tido por inconveniente, eis um selo duplamente de 24 de Abril.

HISTÓRIAS PROSAICAS QUE NÃO CONTRIBUIRAM PARA A ALVORADA DE ABRIL

Quarta Feira, 24 de Abril de 1974. Na véspera do 25 de Abril, numa página interior (p. 16) do Diário de Lisboa, dava-se nota de que a UEFA varrera para debaixo do tapete uma tentativa de suborno - fracassada - a um árbitro português que fora denunciada pelo jornal britânico Sunday Times. O caso, que datava já da época anterior (1973), fora protagonizado por dirigentes da Juventus num jogo da meia-final da Taça dos Campeões Europeus contra o Derby County e a descrição das medidas tomadas pelo UEFA para investigar aquilo que acontecera evidenciava o amadorismo inepto - voluntário ou não... - das autoridades do futebol europeu. Neste caso, e para variar das tradicionais insinuações sobre as arbitragens domésticas, vale a pena elogiar Francisco Lobo, porque se assistia a um árbitro português que se mostrava demasiado honesto para os padrões europeus...

O PREC DA DIREITA

Ao contrário do que Rui Ramos acima descreve, a sociedade portuguesa gerou uma alternativa em 2015: ideologicamente ela era protagonizada por pessoas como ele próprio e pelos seus amigos do Observador (jornal aparecido em 2014). O que aconteceu é que essa alternativa foi rejeitada, assim como já o havia sido 40 anos antes a alternativa das esquerdas radicais urbanas composta por organizações como o MES, a UDP ou o PRP-BR nos tempos do Processo Revolucionário em Curso (PREC), o original de 1975. Felizmente, num caso e noutro, não se entregou o país aos radicais, porque era isso que em 2015, ainda sem dinheiro, se perfilava por detrás de um Portugal à Frente cujos protagonistas se mostravam, mais do que desgastados, esvaziados de ideias. O mérito não é dos «colegas de Sócrates», ao contrário do que o despeito de Rui Ramos pretende sugerir.

23 abril 2018

ESPANHA, UM PAÍS COM UMA BANDEIRA VERMELHA E AMARELA


Se, no final da Taça do Rei, depois das tradicionais vaiadelas ao hino e em jogo jogado, o Barcelona venceu o Sevilha por 5-0, pelo Barcelona, pelo menos com os seus apoiantes mais radicais, continua-se a meter golos, mesmo depois do jogo já ter terminado anteontem. Basta a afixação destas imagens acima do dia do jogo, antes de tudo, das vaiadelas e do jogo, quando da admissão ao estádio, em que se vê que a cor amarela, que é o símbolo do independentismo catalão, está a ser proibida pelas autoridades policiais que controlam as admissões ao estádio. Ou seja, como se lê por aí pelas redes sociais, em Espanha a cor amarela passou a ser um risco de segurança. Sabia-se já da lendária antipatia dos touros pela cor roja. Mais política e menos instintiva, sabia-se também da antipatia do generalíssimo Franco por aquela mesma cor - tantos os seus inimigos de tal cor que acabaram os seus dias encostados ao paredão. Novidade desta Espanha dita democrática é mesmo esta proscrição do amarelo, por ironia a outra das duas cores da bandeira espanhola. Felizmente a política e os políticos castelhanos - que se distribuem transversalmente do PP até ao PSOE - parecem impermeáveis à ironia, a mesma ironia que me leva a publicar aqui o hino do franquismo em homenagem a estes pequenos episódios que fazem da democracia espanhola um regime com um cunho tão... castelhano.

A NICARÁGUA, TAMBÉM ÀS VOLTAS COM AS TAIS REFORMAS ESTRUTURAIS

Aquilo que acabou de acontecer na Nicarágua tem a ironia adicional de ser protagonizado por Daniel Ortega, o tal sandinista rojo que tanto incomodou a administração Reagan nos seus tempos de ouro. Agora transformado em presidente com lugar cativo (como nos estádios de futebol), nem mesmo depois de 11 anos de poder ininterrupto e de escolher a mulher para sucessora, Ortega parece ser o dono da Nicarágua, e teve que recuar abruptamente com a implementação de uma reforma na segurança social que, como tantas outras por esse mundo fora, deverá precisar de ser financeiramente reequilibrada, mas cujos protestos sociais tornaram inviável. É nestas ocasiões concretas que se percebe quanto a retórica das reformas estruturais se reveste de uma leveza semelhante à do comportamento das bolhas do anidrido carbónico nas bebidas gaseificadas: quando expostas à superfície, fazem pop e desaparecem... Quando as reformas, por muito estruturais que se proclamem, se têm de fazer à custa de alguém, o que acontece na esmagadora maioria dos casos e por muito que os promotores sejam de governos de direita, de esquerda ou do centrão (como Macron está a descobrir à sua custa em França), aqueles que saem lesados com o que se reforma tendem a reagir negativamente. Chama-se a isso política. E a política em Democracia - mesmo numa democracia assim mais ou menos como a da Nicarágua - passa por convencer as pessoas. E aí a coisa tem falhado: não é por os iluminados as qualificarem de estruturais que as mais comuns das pessoas passam a acreditar na indispensabilidade das reformas. Tanto mais que se acumulam as provas de que há muitas outras áreas que precisam ser reformadas com tanta ou mais prioridade e em que não se mexe. Por cá também foi assim e também com a segurança social: ainda se lembram quando Pedro Passos Coelho tentou impingir-nos uma coisa dessas meio à traição em Setembro de 2012?

...é que, além de ter tido que recuar na medida, como agora o fez Ortega , mais de cinco anos depois, e com mais de 14.000 milhões já ali gastos e com a conta a aumentar todos os anos, percebe-se que prioridade mais prioritária devia ter sido o sector bancário, ao qual o governo de Passos Coelho prestou uma atenção muito relutante... a não ser quando passou a ser obrigado.

A GUATEMALA DECLARA GUERRA À ALEMANHA

23 de Abril de 1918. Há cem anos, a Guatemala declarava guerra à Alemanha, ou melhor, como se lê acima: «assumia a mesma atitude beligerante que os Estados Unidos (assumiam para) com o Império Alemão». O país contava então com 1,7 milhões de habitantes e era uma ditadura férrea dirigida por Don Manuel Estrada Cabrera (que foi seu presidente entre 1898 e 1920), embora o poder de facto pertencesse à United Fruit Co., que ali adquirira milhares de hectares de plantações para a produção de fruta tropical, nomeadamente bananas, hegemonizando a política local. Era a chegada (simbólica!) da típica República das Bananas ao grande conflito...

22 abril 2018

A VERDADEIRA CORRIDA PARA OKLAHOMA

22 de Abril de 1889. Há precisamente 129 anos tinha lugar a verdadeira corrida para Oklahoma. Segundo os relatos, no fim do dia, a cidade de Guthrie (no centro do Oklahoma) tinha uma população estimada em cerca de 10.000 pessoas, chegadas ao longo dessa tarde. No recenseamento de 1900, Guthrie tinha sensivelmente essa mesma população (10.006) e assim se manteve ao longo do século XX - no último recenseamento, em 2010, eram 10.191 pessoas. Foi uma boomtown de explosão particularmente controlada...

SEM MODERAÇÃO...


Só recentemente me tornei espectador habitual deste Sem Moderação do Canal Q e talvez isso possa justificar a indulgência como aqui o vou apreciar. Admito perfeitamente que anos em cima me pudessem levar a avaliar o programa com a mesma saturação como encaro outras rotinas semanais concorrentes - um Governo Sombra (por exemplo) - em que já se me esgotou a paciência para a previsibilidade das reacções do elenco. O elenco deste Sem Moderação também tem o seu quê de prisco (Daniel Oliveira é uma espécie de Júlio Isidro destas tertúlias políticas televisivas), mas, por ora, Daniel Oliveira pelo Bloco, Francisco Mendes da Silva pelo CDS, João Galamba pelo PS e José Eduardo Martins pelo PSD, e apesar de passarem num canal de que ninguém fala, levam uma cabeça de vantagem em relação à competição multiplicada de programas do género. Um bónus do programa é que, como o título indica, a moderação do mesmo é atribuída rotativamente aos quatro intervenientes, o que evidencia quão prescindíveis são as presenças falsamente neutras de Carlos Andrade na Quadratura do Círculo ou de Carlos Vaz Marques no Governo Sombra. O vídeo abaixo é o da edição desta semana do programa, para quem esteja interessado em experimentar a minha recomendação.

A TRADICIONAL VAIADELA AO HINO ESPANHOL NA ABERTURA DA TAÇA DO REI


Qual é o país, qual é ele, em que já se tornou uma espécie de tradição ouvir uma enorme vaia ao próprio hino nacional quando das cerimónias preliminares da final da Taça em futebol? A Espanha, pois claro. Para que isso aconteça é só necessário que um dos clubes finalistas seja oriundo de uma das nações que contesta a hegemonia castelhana. Ontem, a cena - baptizada localmente de pitada - tornou-se a repetir por causa dos apoiantes do Barcelona que defrontava o Sevilha, e mesmo apesar do jogo se disputar em Madrid.

Sendo uma tradição antiga, o gesto tem adquirido uma notoriedade crescente nestas últimas décadas, e a sua audição sonora multiplica-se quando a final é disputada por dois grandes clubes que sejam conotados com nacionalidades hostis ao castelhanismo, como é o caso dos frequentes encontros entre o Barcelona (catalão) e o Atlético de Bilbau (basco). Nos últimos dez anos foi assim em 2009 em Valência, tornou a ser assim em 2012 em Madrid (são notórios os esforços da realização da TVE em abafar o som ambiente e o da organização em abreviar o momento, executando a versão curta do hino) e chegou a ser épico em 2015 quando a final da Taça se realizou em território hostil, em Barcelona.

Relativizando o fenómeno e encarando-o de forma optimista, ontem só houve lugar a uma meia-vaiadela. Especulo (e apenas isso) se aquelas mesmas pessoas vaiariam o hino com igual fervor se fosse a selecção espanhola a jogar. De toda a forma, e que conheça, actualmente é o único país da Europa em que tal fenómeno - vaiar ostensivamente o próprio hino nacional - ocorre com esta amplitude. E é caricato ver Madrid pretender que Espanha não tem problemas de identidade nacional.

150º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE VIANNA DA MOTTA


22 de Abril de 1868. Nascimento em São Tomé de José Vianna da Motta (1868-1948), pianista e compositor português. Em projecção europeia, no seu tempo, e no campo da música, Vianna da Motta terá sido assim como uma espécie de José Mourinho, embora notoriamente menos «besonderer» - Mourinho aprendeu inicialmente com Bobby Robson, enquanto Vianna da Motta estudou com Franz Liszt. Nos últimos anos da vida, o pianista e compositor veio treinar para Portugal. O exemplo acima é de uma composição sua interpretada pelo próprio numa gravação - salvo erro - de 1928. Se hoje poucos serão os que ainda sabem quem foi Vianna da Mota e em que consistiu a sua obra, fique a certeza que, a 26 de Janeiro de 2113, pelo 150º aniversário do seu nascimento, por maioria de razão e apesar das aparências de hoje, serão também muito poucos os que saberão quem terá sido José Mourinho.

21 abril 2018

EM ABONO DA LINEARIDADE DE COMO SE AVALIAM OS COMBATES DE BOXE

Vai animada a troca de comentários entre João Miguel Tavares no Público e Ferreira Fernandes no Diário de Notícias. Era destas polémicas que antigamente, muito antigamente, se animavam os jornais e se aumentava a sua circulação. Eu já sou de um tempo posterior, em que os polemistas de vanguarda eram figuras como Eduardo Prado Coelho, que faziam a festa, deitavam os foguetes e corriam atrás das canas por entre citações eruditíssimas de Jacques Derrida (quem?! ) e o desinteresse geral dos leitores. De há muito que já ninguém segue as polémicas com a elevação do antigamente em que as questões metafísicas mais divisivas podiam ser decididas em duelos esgrimidos ou à pistola. As polémicas da actualidade são vistas com a linearidade de um combate de boxe: quem é que arreia e quem é que encaixa. E com um defeito notável em relação ao combate de boxe: a transparência do que está a acontecer no ringue. No boxe, quando se enfarda, enfarda-se, não se consegue aparecer ao terceiro assalto a fingir que o que o contendor nos disse não nos beliscou, como o tentou fazer hoje João Miguel Tavares... No boxe, há sempre uma prova física, um KO técnico, um olho negro, a demonstrar que uma das partes saíu pior da situação. Não há disfarce possível. Nestas polémicas pode-se disfarçar e, para ajudar, há sempre os amigos do derrotado para o consolar: Ele deu-te com força mas tu chegaste para ele, pá!

A MORTE DO BARÃO VON RICHTOFEN

21 de Abril de 1918. Um dia depois de ter alcançado as suas 79ª e 80ª vitórias aéreas, o grande ás alemão Manfred von Richtofen é, por sua vez, atingido por fogo anti-aéreo inimigo sobre as linhas aliadas e morre enquanto tenta que o seu reconhecível avião vermelho aterre de emergência. Tal o seu prestígio que, mesmo tendo aterrado numa secção da frente que era mantida pelas tropas australianas e apesar das ofensivas alemãs em curso noutros sectores da frente, são os seus inimigos a organizarem o funeral do ás alemão, como se pode apreciar nas imagens acima e no vídeo abaixo. Comentado de uma perspectiva benévola, este respeito pela dignidade do inimigo é um contraste significativo com a execução dos três majores portugueses na Guiné que ontem aqui foi evocado. Comentado de uma perspectiva antagónica àquela, estou a crer que qualquer dos aliados organizariam naquela altura, com a mesma pompa e com a mesma boa vontade, os funerais de todos os ases da aviação alemã que se dispusessem a perecer...

20 abril 2018

DOS TERRORISMOS CLÁSSICOS ATÉ AO TERRORISMO MODERNO DE «TRAZER POR CAUSA»

20 de Abril. Neste dia de 1998, na Alemanha, a RAF (Fracção do Exército Vermelho - Rote Armee Fraktion), organização terrorista mais conhecida pela designação de Grupo Baader-Meinhof (acima), num extenso comunicado de oito páginas enviado por fax para a Reuters, anuncia a sua dissolução depois de 28 anos de actividade. 20 de Abril, mas de 2018, e agora em Espanha. Numa carta publicada no jornal Gara, a organização terrorista basca ETA (Euskadi Ta Askatasuna) aparece a penitenciar-se por causa das vítimas que as suas acções causaram «que não tinham uma participação directa no conflito». Como aconteceu com a RAF, há quem antecipe o fim próximo da organização.
Se um certo tipo de terrorismo clássico parece caminhar gradualmente para a extinção, vale a pena recordar que, ainda a 20 de Abril, mas agora de 1999, tinha lugar o massacre de Columbine, e que esse género de acontecimentos (a que há uma grande relutância de designar por terrorismo, a não ser que o autor seja assim para o mais escuro...), esses, dizia, não têm qualquer tendência para regredir, bem antes pelo contrário: o último incidente parecido ao do liceu de Columbine, que neste caso provocou 17 mortos, aconteceu há apenas dois meses na Florida. Paradoxalmente, havendo pudor em tratá-los por terroristas, não o há em designar os seus autores por monstros (abaixo)...

A MORTE DOS TRÊS MAJORES

20 de Abril de 1970. Se há dois dias se evocou a emboscada aérea que há 75 anos levou à morte do Almirante Yamamoto, hoje evoca-se, como se prometera, um outro episódio, vagamente semelhante, que conduziu à morte de três majores do exército português que, na Guiné, iriam parlamentar desarmados com um comando local do PAIGC, visando a rendição deste e a sua integração no quadro das autoridades coloniais. A morte dos três, conjuntamente com mais quatro acompanhantes (um alferes do exército português e três guias guineenses), pôde ser (e foi) razoavelmente reconstituída e aparece profusamente comentada em vários textos na internet (abaixo, o croquis do relatório oficial). Não se pondo a questão quanto à identidade dos autores materiais das execuções (os membros do comando que supostamente se iriam render), existe toda uma literatura especulativa a respeito das circunstâncias dessas execuções. Seria verdade que a rendição dessas forças locais do PAIGC no chão manjaco fora uma encenação desde o princípio? Quem ordenara, e assacava assim com a responsabilidade moral, as execuções dos parlamentares desarmados? É que, pior do que o ataque selectivo a Yamamoto em 1943, neste caso havia-se quebrado mais outra convenção de guerra, a que protege os parlamentares quando do curso de negociações. Do lado da direcção política do PAIGC apresenta-se-lhes uma lose/lose situation: se se demarcavam do que acontecera, transmitiriam a imagem de que não controlam as suas tropas no interior da Guiné; se assumissem as execuções, ficariam com o odioso da decisão. Mal por mal, optaram por esta última assumpção, uma atitude que os veteranos do PAIGC mantêm até à actualidade, sem se conseguir descortinar quanto da história das negociações terem sido um embuste cuidadosamente gerido pelos guerrilheiros é mesmo verdade, ou se se trata apenas de uma bravata para preservar a ficção política. 48 anos depois, e já há muito conhecido o vencedor (o que torna muito mais fácil encontrar uma verdade), o que ainda estará em disputa é a memória histórica do que realmente terá acontecido.
Em homenagem a essa memória, 12 anos depois dos acontecimentos de há 48 anos, Fausto fazia de Fernão Mendes Pinto um improvável símbolo da memória de todos aqueles que, baços, sem o brilho da glória, dilataram a fé e o império, mesmo que não acreditassem nem numa nem noutro.