25 maio 2020

E DE REPENTE... COMEÇA UM TERRAMOTO

Um terramoto foi o que aconteceu ainda ontem à primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, quando ela dava uma entrevista a um canal de televisão. Jacinda transformou-se numa coqueluche da comunicação social internacional (especialmente depois de discursar numa das recentes sessões da Assembleia Geral da ONU, onde protagonizou um significativo contraste com Donald Trump), mas o episódio que o vídeo acima exibe, demonstra o quanto ela tem pinta... e sangue frio. A pinta (muita) e o sangue frio (nenhum) que faltaram ao Chicão quando ele aqui há coisa de dois meses e meio se viu numa situação precisamente idêntica enquanto discursava no Funchal (abaixo). Para aqueles (como eu) que gostam de escrutinar os assuntos até ao pormenor (para estragar o trabalho dos encarregados de arranjar desculpas para o que as não tem e obrigá-los a arranjá-las, às desculpas, ainda mais estúpidas e inverosímeis), esclareça-se que o terramoto da Jacinda (5,8 graus na escala de Richter) foi maior do que o do Chicão (5,2). Em contrapartida a expressão do Chicão é visivelmente mais assustada do que a da Jacinda (tipo 2,0 graus na escala da Cueca Borrada). Estes momentos são minudências numa carreira política, mas não se fingem nem se forjam. Estão lá. E é por isso que , por muito que ele venha a fazer, perdura a impressão que o Chicão não vai levar o CDS a lado nenhum.

O INÍCIO DAS TRANSMISSÕES DA PROGRAMAÇÃO DE TV À HORA DE ALMOÇO

25 de Maio de 1970. Como se anunciava acima de véspera, a RTP passava a transmitir durante um novo espaço televisivo durante a hora de almoço, com uma duração aproximada de duas horas (das 12H45 às 14H40, quando começavam as transmissões da telescola, aulas pela televisão, processo que foi recentemente redescoberto por causa da pandemia). O assunto já foi objecto de uma das minhas evocações nostálgicas (TV Nostalgia - 89) aqui no Herdeiro de Aécio, mas trata-se de tópico que não resisto a revisitar. Seja pelo genérico dos desenhos animados de Tintin:
Seja pela possibilidade de ver o próprio primeiro episódio completo da série «Ele & Ela» das 13 e 15 (embora neste caso ele tenha que ser visto, naturalmente, sem legendas).
Seja para recordar a crítica televisiva dessa primeira emissão, publicada no dia seguinte, arrasadora como era então convencional que o fossem todas as críticas de televisão (a fazer lembrar o espírito do comentário de rede social da actualidade).

A EVACUAÇÃO ISRAELITA DO SUL DO LÍBANO

25 de Maio de 2000. Cumprindo uma promessa eleitoral do primeiro-ministro Ehud Barak, o exército israelita evacua todas as posições militares que ocupava no sul do Líbano. As imagens acima exibem o tradicional regozijo exuberante que as populações árabes daquela região tanto gostam de fazer, para satisfação dos operadores de câmara das televisões para ali destacadas. Neste caso, as imagens até são consistentes com o resto. Os israelitas haviam ocupado aquela região-tampão desde a sua primeira invasão do Líbano em 1978 (Operação Litani), já ia para 22 anos. As populações libanesas locais professam maioritariamente o xiismo e eram, por isso, insuspeitas de grandes simpatias pelos ocupantes israelitas, uma antipatia que era, de resto, recíproca. A grande força político-religiosa (e também militar, que naquele país tudo isso está associado) no Líbano meridional era o Hezbollah, apoiado pelo Irão. Contudo, aqueles que Israel consideraria os inimigos prioritários eram a Síria (que também ocupava outra parcela do Líbano) e a OLP. Esta é uma retirada, cuja promoção do facto de ter sido o cumprimento de uma promessa eleitoral de Barak, ilude o problema de que, nem Barak, nem o seu muito mais agressivo rival Ariel Sharon, sabiam o que fazer depois de 22 anos na posse de um território-tampão que só lhe tinha trazido chatices (a começar pelas resoluções da ONU e a acabar nas iniciativas das guerrilhas locais), e nenhuma vantagem substantiva na mesa das negociações. Sem a exuberância dos árabes, a suspeita é que os israelitas também deviam estar muito aliviados, que por ali ninguém dá nada a ninguém se, em alternativa, puder ser vendido ou trocado. E todavia o tempo veio demonstrar que fora uma má opção para os israelitas - em 2006, já eles estavam de volta ao sul do Líbano, só que a realidade militar mudara sobremaneira.

24 maio 2020

OS CAMARADAS DA SEITA RELIGIOSA

24 de Maio de 1990. Num artigo de opinião publicado no semanário Tempo (jornal que irá deixar de se publicar no final daquele ano), o autor compara o comportamento dos comunistas a uma fé fanática e considera o ambiente vivido no PCP como sendo ainda mais retrógrado e menos adaptável às novas circunstâncias do que o da igreja católica. A associação entre o comunismo e uma forma de vivência religiosa, mais do que político-social, não é, como se vê, nada original e tem muitos anos - no caso, comprovadamente trinta. E, no entanto, ainda hoje, os visados (comunistas), cada vez que são menorizados por tal subserviência, assumem um comportamento ultrajado como se nunca tivessem ouvido falar de tal analogia.

23 maio 2020

O FIM DA AUTORIDADE FRANCESA SOBRE A SÍRIA E O LÍBANO

Ainda 23 de Maio de 1945. A reinstalação da autoridade francesa naqueles que haviam sido os seus mandatos no Próximo Oriente (Síria e Líbano) mostra-se mais do que problemática. Os dois países haviam aproveitado o período de extrema fraqueza da França depois da sua derrota de 1940 para ambos ganharem autonomia e até proclamarem a sua independência (1943 e 1944), sob a tutela das tropa de ocupação britânicas que ocupavam os países desde 1941. Com o fim da Guerra em 8 de Maio de 1945, pensara-se em Paris reencetar os programas de autonomia progressiva que haviam sido previsto ainda antes de 1939. Era esquecer cinco anos de acontecimentos decisivos, contar com a colaboração benévola dos britânicos, mais a solidariedade de americanos e russos, e ainda presumir a complacência benévola dos árabes. A França comportava-se como um daqueles seus aristocratas que foram corridos dos seus domínios por ocasião da Revolução de 1789 e que agora regressava a tomar posse dos seus palácios, pretendendo que nada de substantivo se alterara com os anos de ausência. Fica por saber se era ingenuidade ou se era apenas petulância gálica, mas iriam confrontar-se com uma resistência militar que superava a capacidade militar francesa em lhes fazer face - os exércitos coloniais locais haviam-se bandeado em peso (70% dos quadros e 40% dos soldados) para o lado das forças independentistas. Dia 28 de Maio os franceses viriam a receber uma nota americana a respeito da sua política na região e a 31 de Maio seriam os britânicos a exigir que os franceses aceitassem um cessar fogo. Os dias da França no Próximo Oriente estavam contados. Na revanche, nos anos que se seguiram, os franceses iriam cuidar de contribuir para emerdar o mais possível todas as iniciativas britânicas para resolver o problema palestiniano, do qual o Reino Unido iria sair dali por três anos e com o rabo entre as pernas...

A DISSOLUÇÃO DO ÚLTIMO GOVERNO NAZI

23 de Maio de 1945. Desde a data da rendição alemã em Berlim, que pusera fim à Segunda Guerra Mundial na Europa, pairava no ar o espectro da indecisão quanto ao que fazer com o governo alemão que sucedera ao de Adolf Hitler. Sediado no porto de Flensburgo, no Norte da Alemanha, junto à fronteira com a Dinamarca, aquele governo era encabeçado pelo Reichspraesident Karl Doenitz, a ocupar um cargo para o qual fora nomeado pelo próprio Adolf Hitler no seu testamento. Seguiam-se os titulares das pastas, de que o mais conhecido era Albert Speer, o ministro do Armamento de Hitler que transitara para a nova equipa governativa. Verdade seja que a capacidade de actuação da equipa que se reunia todos os dias pelas 10H00 era nula numa Alemanha fortemente destruída e onde os exércitos invasores haviam assumido as responsabilidades administrativas. Mas punha-se sempre a questão do carácter simbólico de tal equipa governamental, por muito que ela nada tivesse para fazer. Neste dia de há precisamente 75 anos, Doenitz, Speer, e o general Jodl, que ficara com o comando militar dos restos da Wehrmacht, foram convocados pelo general norte-americano Lowell W. Rooks para comparecerem logo pela manhã no paquete alemão Patria (que havia sido requisitado pelas autoridades aliadas) e ai foram presos. Exibidos perante os correspondentes da imprensa convocados previamente para o efeito, conjuntamente com eles, foi preso um verdadeiro exército de burocratas fardados, cujas cenas serviram para alimentar o noticiário cinematográfico dos aliados em mais uma humilhação dos alemães vencidos (acima).

22 maio 2020

UM FESTIVAL RTP DA CANÇÃO FORA DA DATA DO COSTUME

22 de Maio de 1970. Por razões que já expliquei num poste publicado já há muitos anos (pode lê-lo aqui), o tradicional festival RTP da canção teve lugar em finais de Maio. Venceu a canção nº 6  - Onde vais rio que eu canto, mas desta vez limito-me a assinalar o cinquentenário do concurso e a publicar os vídeos de todas as canções concorrentes, sem a adição da crónica subsequente - e frequentemente maledicente - de Mário Castrim no Diário de Lisboa.
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HERR KRIPPAHL E PORQUE É QUE NÃO LHE PERGUNTARAM POR ANGELA MERKEL E PELA AfD?

Ontem ainda fui a tempo de assistir ao trecho final de uma entrevista que o humorista Herman José deu à RTP3, numa altura em que comentava a política nacional, nomeadamente as presidenciais (acima). Falou-se de Marcelo Rebelo de Sousa (de que não tem dúvidas nenhumas que será reeleito) e de Ana Gomes (que ele acha giríssimo se for candidata), também de André Ventura (um actor que está a fazer o seu papel) e daí derivou-se para Bolsonaro no Brasil e Trump na América. Mas, paradoxalmente, o que ficou mesmo por perguntar foram assuntos aquela realidade política em que Herman Krippahl pode participar como cidadão, a alemã, a sua opinião sobre o que poderá ser o futuro da Alemanha depois da previsível saída de Angela Merkel e, em fez de André Ventura, ouvi-lo a respeito do que pensa da AfD, que em vez de um (Ventura), tem noventa e dois deputados no Bundestag. Por uma vez, que a RTP dispunha da oportunidade de entrevistar em exclusivo um alemão genuíno (e que, ainda por cima, fala sem sotaque!), Vítor Gonçalves desperdiça-a por razões que não descortino...

A UNIFICAÇÃO DO IÉMEN

22 de Maio de 1990. Unificação do Iémen. O Iémen fica longe e a notícia mereceu apenas uma breve referência no jornal daquele dia (acima). Na época, pareceu mais um daquelas rectificações de fronteiras que se haviam tornado possíveis por causa da distensão da situação internacional depois da Guerra Fria. Mas não. Repare-se como a expressão empregue é unificação e não reunificação. Os dois Iémenes vieram a mostrar-se quanto estavam muito longe de constituir uma entidade social comum ou de, então, compartilharem aspirações para um futuro comum. A histórica política naquele canto da península Arábica sempre foi turbulenta, pautada por múltiplas entidades políticas, num espaço de autoridade(s) muito fragmentada(s). E assim iria tender a continuar. Houve uma guerra civil em 1994 para reverter esta unificação de 1990, mas as forças secessionistas foram derrotadas. Mas essas forças secessionistas subsistem, embora ultimamente estejam coligadas com o governo central, por causa de uma outra guerra civil em curso no Iémen. Quando aparecem aqueles analistas com pretensões que as situações internacionais a que se referem pode descrever-se de forma muito simples - modelo Pedro Marques Lopes - fico sempre com ganas de os mandar escrever um texto sucinto em que descrevam a situação politico-militar iemenita, mesmo para lhes tirar as peneiras.

21 maio 2020

CASAMENTO DE HUMPHREY BOGART E LAUREN BACALL

21 de Maio de 1945. Casamento das duas estrelas de Hollywood. O noivo tinha 45 anos e a noiva 20. Neste blogue gosta-se de assinalar estes casamentos improváveis mas que depois se vieram a revelar duradouros. Como o de Chaplin com Oona O'Neill um ano antes, também este irá durar até à morte de um dos cônjuges, Bogart, em 1957.

20 maio 2020

PARA QUE... «TENHAM(OS) NOÇÃO!»

Esta é a lista de apoios estatais aos órgãos de comunicação social nestes tempos de crise. Uma lista que provoca ciúmes entre órgãos de comunicação rivais de ideologia liberal, que nestes tempos de aperto mandam a ideologia e a independência do estado às urtigas. Uma lista que é encabeçada pela SIC de Rodrigo Guedes de Carvalho, pivot televisivo que se celebrizou nestes tempos difíceis que atravessamos por instar os espectadores a que... «tenham noção!». (abaixo) Por acaso, eu não tinha noção que as estações de televisão, a começar por aquela onde trabalha aquele pivot, saíam assim comparativamente tão beneficiadas neste regime de apoios... Algo que não enquadra nada bem com anos a transmitir uma imagem de opulência nas remunerações praticadas no segmento.

REFERENDO DO QUÉBEC (1980)

20 de Maio de 1980. Na província canadiana do Québec realiza-se um referendo incidindo sobre a soberania daquela província no quadro da confederação do Canadá. Na prática, patrocinado pelas forças separatistas francófonas locais, tratava-se de um primeiro passo para a secessão do Québec. Os eleitores quebequenses rejeitaram a proposta por uma maioria de 60%.

19 maio 2020

UMA NOTÍCIA QUE «SÓ PODIA» SER PUBLICADA ANTES DO 25 DE ABRIL

19 de Maio de 1970. Uma notícia interior dá conta do início do julgamento de quatro trabalhadores de um sindicato - o sindicato nacional dos profissionais de propaganda médica - todos acusados do desvio de fundos. Muito se costuma falar, e com toda a razão, do leque alargado de assuntos sobre os quais não havia liberdade de noticiar, antes do 25 de Abril, por causa da censura. Mas, muitas vezes mais poderosa do que os mecanismos de censura, será a assumpção da auto-censura por parte daqueles que redigem as notícias. E este exemplo com 50 anos que aqui recupero é muito interessante quanto a esse aspecto. Porque, apesar de se ter a certeza que a natureza humana continuou a ser a mesma, antes e depois do 25 de Abril, e se continuarem a registar certamente desvios e apropriações ilegais de fundos entre quem os movimentava nas organizações sindicais, um título com este destaque e esta crueza será impensável de aparecer assim publicado no Diário de Lisboa e em quase todos os jornais portugueses nos anos imediatamente subsequentes ao 25 de Abril. E isso aconteceu não por uma questão de falta de liberdade de o poder noticiar. Mas por uma espécie de imposição de um novo paradigma, que estabeleceu que a defesa dos trabalhadores era uma causa quase sagrada, e que seria mau para a moral pública revelar-lhes que as associações que os devem defender, os sindicatos, também podiam ser vigarizadas, como qualquer outra instituição. Este novo paradigma durou uns bons quinze anos, até à época do cavaquismo e só veio a ser rompido por um jornal da direita, O Independente, perante o caso escabroso da UGT e do aproveitamento que essa central sindical fizera dos fundos de formação europeus (abaixo). Mas nesse intervalo de tempo que vai de 1970 a 1990, nunca pôde ser grande notícia a de sindicalistas em tribunal por apropriação de fundos.

FERNANDO SANTOS, SALVADOR SOBRAL E MÁRIO CENTENO

Ainda não sei como terminará o «folhetim» Mário Centeno. Mas considero propositado recordar por onde andávamos há sete anos (acima), com o ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, a não ter outras ideias para a redução do défice público senão cortes vigorosos nas áreas sociais, nas pensões e nos salários da função pública. Quando a notícia foi publicada, a 28 de Abril de 2013, ainda ninguém saberia que Vítor Gaspar estaria a dois meses de apresentar a sua demissão. Uns meses depois dessa demissão, veio a apurar-se que o saldo do défice que legara à sua sucessora, Maria Luís Albuquerque, havia sido de 7,1%, uma evolução miserável dos 8,3% que recebera em Junho de 2011 de Teixeira dos Santos. A sua sucessora havia de o reduzir para uns ainda preocupantes, mas mais aceitáveis, 4,9%, dali por outros dois anos. Mas é a Mário Centeno que se deve a sua redução para valores compatíveis. E sem os tais imprescindíveis cortes nas áreas sociais, os tais para os quais nos fartavam de martelar que «não havia alternativa». Por sinal e em contraste, ele há três coisas que Portugal alcançou nestes últimos anos ao arrepio daquilo que ficara convencionado. Ganhou a final do Euro 2016, sem que Cristiano Ronaldo tivesse praticamente jogado nesse jogo. Venceu o Eurofestival de 2017 sem que se apresentasse com uma canção comercial para agradar ao ouvido dos espectadores europeus. E equilibrou o seu défice orçamental sob a égide de um ministro das Finanças que nunca gozou do apreço dos seus pares - ao contrário dos antecessores. Tenho muita simpatia por qualquer dos três protagonistas - Fernando Santos, Salvador Sobral e Mário Centeno.

18 maio 2020

UM CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO COMO HABITUALMENTE

18 de Maio de 1990. Início do XIII congresso (extraordinário) do PCP em Loures. Tudo aquilo que o partido defendera durante décadas ruíra fragorosamente na Europa comunista (seguir-se-á a pátria do socialismo propriamente dita), mas isso parecia ser irrelevante, porque em Portugal ser-se comunista não era uma opção política, mas antes uma profissão de fé. Nesta fotografia acima da cerimónia de encerramento realizada dois dias depois, o pontifex maximus caminha humildemente para o lugar mais destacado do altar, que os acólitos directos ciosamente conservaram para si. Quanto aos outros, aqueles fiéis que haviam substituído a confiança no clero pela leitura das escrituras e que pensavam que o partido incorporaria as lições do que estava a acontecer, «a porta da rua era serventia da casa» como se percebia logo no primeiro dia de trabalhos por estas notícias do, já algo distanciado, Diário de Lisboa. Como acontecera cinquenta anos antes do lado oposto do espectro político com Salazar, esta obediência devota também era uma maneira de «viver-se habitualmente» na extrema esquerda não democrática portuguesa.

UM CONSELHO DE MINISTROS COMO HABITUALMENTE

18 de Maio de 1940. Como anunciava uma discreta e muito sintética notícia do jornal, pelas 17H30 reuniu-se no palácio de S. Bento, o Conselho de ministros. No fim do mesmo foi emitida uma nota oficiosa que dava conta que se examinara a situação internacional - estava em curso a batalha de França - e que o governo resolvera manter ainda assim a realização dos actos solenes das comemorações centenárias (previstas para o mês seguinte). A sobriedade, a discrição e mesmo a contenção com que tudo isto aparecia noticiado era a melhor expressão do «viver habitualmente» que tanto agradava a Salazar.

17 maio 2020

EVOCAÇÕES DE UMA ÉPOCA EM QUE O MALCRIADO QUE ESTRAGAVA A CIMEIRA ERA O RUSSO E NÃO O AMERICANO

17 de Maio de 1960. Em Paris, estava em curso uma cimeira dos dirigentes dos "Grandes" (para adoptar a terminologia do Diário de Lisboa): Eisenhower pelos Estados Unidos, Kruchtchev pela União Soviética, MacMillan pelo Reino Unido e o anfitrião, de Gaulle. E a notícia do dia era que o russo se baldara à reunião: fora passear para os arredores de Paris, amuado, porque os outros três participantes não haviam contemporizado com a cena dramática que ele havia montado, à conta do abate do avião espião U-2 dos americanos.
A cimeira foi evidentemente um fiasco, uma perda de tempo para todos, enquanto o dirigente soviético consolidou a imagem internacional, que já viera adquirindo anteriormente, de pessoa instável, dada a temperamentos. Nikita Kruchtchev foi afastado dos cargos que ocupava em 1964 e durante décadas, os "Grandes" não tiveram dirigentes pitorescos do mesmo calibre, até à eleição de Donald Trump. Com ele, as cimeiras passaram a ser novamente uma animação (veja-se abaixo), só que agora a vedeta deixou de ser russa e passou a ser americana.

RECORDAÇÕES DE UMA OUTRA ERA EM QUE OS CABELEIREIROS NÃO SERIAM TÃO APRECIADOS QUANTO HOJE

Mais do que a música, já de si não propriamente notável, o que torna verdadeiramente memorável neste disco americano de 1964 é a sua capa. Qualquer das raparigas não é bonita, mas reconheça-se que o efeito de conjunto é potenciado pela habilidade do cabeleireiro - presumivelmente o mesmo - que as alindou para a fotografia de capa. Cabeleireiros como este deviam ter ido todos à falência durante o confinamento. Senão, agora regressam pujantes e com uma carteira de clientes ansiosos dos seus serviços, mais uma das tragédias colaterais da pandemia. Quanto ao disco propriamente dito, há quem tenha ido muito longe para se certificar que o que vemos (e ouvimos) é (foi) mesmo um disco a sério ou se se trata de uma encenação. Quando se lê o empenho das posições assumidas em defesa de qualquer das opiniões, percebe-se que um outro problema das redes sociais é que se discute este assunto menor (um disco medíocre!...) com o mesmo fervor e escrutínio como se discute a questão se a presença de Neil Armstrong na Lua foi genuína ou encenada em estúdio. E a irredutibilidade das partes é a mesma.

16 maio 2020

A QUEM POSSA INTERESSAR...

O que é importante na notícia abaixo é o facto de ela não ser notícia. Confuso? Por décadas a fio a opinião publicada brindou-nos incessantemente com as travessuras e deambulações de Pedro Santana Lopes, como se tudo aquilo que ele fez e também o que andou por aí a fazer, por ser feito por ele, tivesse um interesse supletivo para a opinião pública. Atrás de si, Pedro Santana Lopes deixou um rastro de desgraças das quais a mesma comunicação social que o promovia nunca teve a ousadia de mencionar, fossem elas - as desgraças - um clube de futebol (Sporting), duas autarquias hiper-endividadas (Figueira da Foz e Lisboa), um governo sem rei nem roque (XVI governo constitucional), uma passagem para esquecer por uma IPSS (Santa Casa da Misericórdia). Quando se vier a fazer o computo destes anos, Pedro Santana Lopes personificará a impunidade política (e vamos a ver se José Sócrates não personificará a impunidade criminal...). Uma impunidade que se prolongou até há bem pouco tempo, quando, depois de se candidatar a regressar à liderança do PSD sob o slogan da unidade do partido, o abandonou pouco depois para fundar um novo. Um novo partido que, mau grado a promoção da opinião publicada, conseguiu o inconseguimento de não eleger um único deputado - o próprio Pedro Santana Lopes - nas eleições do passado Outono, ficando aquém do Chega, da Iniciativa Liberal e do Livre. O eleitorado, a opinião pública, teve finalmente a oportunidade de, através do seu voto, esclarecer a opinião publicada onde que esta última podia enfiar a pretensa popularidade de Pedro Santana Lopes. De há sete meses para cá, criador (PSL) e criatura (Aliança) debatem-se num estertor agónico para chamar a atenção sobre si, no meio das deserções dos admiradores do Pedro, mas o mais interessante desta notícia abaixo é o facto de que o pedido de dispensa de Pedro Santana Lopes (naturalmente deferido!...) já ter ocorrido há uns dias e  ter sido notícia no jornal Sol. Por todas as outras paragens mediáticas, já se terá chegado à conclusão - finalmente! - que a pessoa de Pedro Santana Lopes já foi chão que deu uvas?...

O CONFINAMENTO NÃO ESTÁ A FAZER MUITO BEM A NUNO MELO...NEM A PACHECO PEREIRA

Durante anos, a estupidez do eurodeputado Nuno Melo foi um dos segredos bem guardados dentro do CDS. O confinamento parece estar a tornar mais difícil preservar esse segredo. Neste último episódio temos um deputado europeu que vem, como convidado, ao parlamento nacional, dissertar e pedir que se investigue as relações entre um país (China) e uma organização do âmbito da ONU (OMS). O que fica por perceber, da leitura da notícia, é a identidade de quem ele pensa que devia realizar essa investigação: o parlamento português que o acolhia? o parlamento europeu de que ele faz parte? outro organismo, de maior peso político, para que as conclusões dessa investigação não sejam previsivelmente ignoradas? E que nos poderá ele dizer antecipadamente sobre as eventuais sanções?

Vale a pena recordar que Nuno Melo pode ser de uma superficialidade assustadora, verdadeiramente estúpida, mesmo quando não implica com a escolha de Rui Tavares para protagonista de uma aula da telescola (acima). A verdade é que, lêem-se os jornais de fim de semana, e conclui-se que todo este ambiente do confinamento não só agudiza as pulsões e os disparates de Nuno Melo como não nos faz bem a todos os restantes, imagine-se lá que, provavelmente por uma falta desesperada de assunto que estivesse à altura do seu intelecto e n"um surto de pedantismo incontrolável" (nas palavras do próprio), José Pacheco Pereira dedica o seu artigo de opinião de hoje a desancar a opinião de Nuno Melo sobre o marxismo cultural! Que distinção, Nuno, para mais vinda de alguém que se obstina em não nomear pelo nome qualquer dos membros do elenco do programa rival do governo-sombra! Qualquer dia, e por ser eurodeputado, Nuno Melo ainda ombreia com o Vasco Graça Moura!