30 junho 2021

A TRAGÉDIA DA SOYUZ 11

Durante a corrida espacial, os Estados Unidos tiveram o seu acidente espacial com o voo da Apollo 13. Um interruptor não se desligou como previsto, ocasionando uma explosão que danificou irremediavelmente um dos dois tanques de oxigénio da nave (como se pode observar acima). Apesar dos danos e dos objectivos do voo terem sido cancelados, tudo acabou bem quando os três astronautas norte-americanos (Lovell, Haise e Swigert) regressaram sãos e salvos à Terra a 17 de Abril de 1970. Vinte e cinco anos depois, Hollywood fez do episódio um filme em estilo de epopeia dramática. O voo da Soyuz 11 soviética não foi uma epopeia, mas uma tragédia. Realizado entre 6 e 30 de Junho de 1971, pouco mais de um ano depois do da Apollo 13, e ao contrário desse, o dos soviéticos foi um voo em que tudo estaria a correr sem incidentes graves até ao dia do regresso à Terra, em que tudo acabou por correr muito mal. Quem viu o filme sobre a Apollo 13, pode encontrar semelhanças em alguns aspectos associados ao voo da Soyuz 11. Nos dois casos, houve questões médicas – rubéola entre os americanos, tuberculose entre os soviéticos – que levaram a alterações nas equipas de voo.
Assim como na equipa americana houve o impacto da substituição à última da hora de Mattingly por Swigert, na soviética, o processo de constituição da equipa de reserva agora promovida para a missão¹ também poderia ter sido mais reflectido, ao escolherem um Comandante (Dobrovolski, acima ao centro) que era novato a ser coadjuvado por um cosmonauta experiente (Volkov, à direita, que já voara na Soyuz 7), num meio onde a questão da antiguidade é muito valorizada. O terceiro membro da tripulação e engenheiro de voo (Patsayev, à esquerda) também seria um estreante no espaço.
Mas, mais uma vez como na Apollo 13, não foi o factor humano mas sim o material o responsável pelo desencadear dos acontecimentos que conduziram ao desastre. Durante as manobras de reentrada na atmosfera, ainda a 168 km de altitude, abriu-se prematuramente uma válvula que se destinava a equilibrar a pressão atmosférica da cabine quando ela se encontrasse próxima da superfície. Os cosmonautas teriam tido 20 a 30 segundos de lucidez para reagir antes que a pressão na cabine descesse para níveis que os fizeram desmaiar e depois morrer. Em menos de dois minutos a pressão desceu para zero.
As equipas em terra não se terão apercebido do que acontecera. Estranharam o súbito silêncio rádio mas a operação de reentrada – que se processa automaticamente – já se iniciara e a manobra em si inclui um período de silêncio rádio. Veio a ser a equipa de recuperação que encontrou os três cosmonautas já definitivamente mortos apesar das tentativas de reanimação que encetaram (abaixo). Deduziu-se depois, pelos hematomas que apresentava na mão, que Patsayev ainda havia tentado selar manualmente a válvula defeituosa antes de desmaiar. Ao contrário da outra, esta história não teve um final feliz.
¹ Ao contrário das norte-americanas, as equipas soviéticas funcionavam em bloco. No caso, as suspeitas de tuberculose que incidiam sobre Kubasov fizeram com que a sua equipa (Leonov, Kubasov e Kolodin) fosse integralmente substituída pela equipa de reserva (Dobrovolski, Volkov e Patsayev).

29 junho 2021

ISTO, QUE ACONTECEU A JACOB ZUMA, NÃO SERÃO BOAS NOTÍCIAS, NEM PARA JOSÉ SÓCRATES, NEM PARA DONALD TRUMP...

É uma pena que não esteja a ser dado mais destaque à notícia. É que o poder judiciário sé tem por que valorizar-se quando, como aqui acontece, põe cobro aos excessos do poder político.

VAMOS CONTINUAR A FAZER DE CONTA QUE NÃO ACONTECEU NADA?...

A edição de hoje do Público é uma demonstração que, caracterizar aquele jornal somente pelas simpatias bloquistas na sua redacção, é uma descrição demasiado simplista das inclinações do jornal. A propósito «das comemorações dos 150 anos do nascimento de Alfredo da Silva», Vasco de Mello, que é o «presidente dos conselhos de administração da José de Mello e da Brisa, e da direcção da Fundação Amélia de Mello», «dá uma das suas raras entrevistas ao Público». São dez perguntas confortáveis e pretexto para aparecer na capa da edição impressa do jornal com o destaque que a imagem documenta. Enfim, creio que no Público se devia reconhecer que os episódios das recentes audições parlamentares aos grandes devedores do Novo Banco provocaram uma severa mossa na reputação daqueles que eram considerados os grandes empresários e nos denominados grandes grupos económicos portugueses. Convinha que, tanto quem trata das relações públicas desses grupos, como os jornais que acolhem essas operações de promoção, inovassem as mensagens, demarcando o trigo do joio. É que operações como esta que hoje vemos acima promovida em prol do grupo Mello, não se distinguem particularmente de outras, que outrora vimos promovidas, por exemplo, em prol do grupo Ongoing, grupo esse que foi, ainda recentemente, mediaticamente enterrado pela vergonhosa prestação televisiva do seu CEO Nuno Vasconcellos (com dois ll). E esse foi apenas um dos nomes a emergir negativamente das audições acima referidas: Luís Filipe Vieira, Bernardo Moniz da Maia. Enfim, e dando conta do que será o ambiente prevalecente a respeito de grandes empresários, o que é uma pena é que a entrevista de Vasco de Mello não tenha saído emparelhada com a outra grande notícia do dia envolvendo grandes empresários portugueses: a notícia da detenção de Joe Berardo por «alegada fraude à Caixa Geral de Depósitos»...

O ALARMISMO DE UMA GUERRA COMO A DA COREIA, MAS NA EUROPA

29 de Junho de 1951. No jornal desse dia, mesmo ao lado das notícias a respeito da guerra da Coreia, cujo ritmo das operações militares se havia acalmado substancialmente, quando ela completara um ano, surgia um outro grito de alarme, este oriundo de Belgrado, a capital da Jugoslávia, anunciando uma pretensa concentração de tropas soviéticas nas suas fronteiras, naquilo que os jugoslavos de Tito pretenderiam que passasse por uma analogia com a invasão norte-coreana que ocorrera no ano anterior, e que fora a causa do conflito coreano. As duas notícias oriundas de Belgrado apresentam-se encadeadas de tal forma que as intenções dos jugoslavos se mostram límpidas: «O pedido da Jugoslávia aos Estados Unidos para fornecimento de armas». Adiante-se que o pedido jugoslavo vai ser satisfeito e que os Estados Unidos irão realmente fornecer material de guerra à Jugoslávia, apesar de se tratar de um país assumidamente comunista! Na fase que aqui estamos a cobrir, o fornecimento mais importante será o de 150 caças-bombardeiros P-47 Thunderbolt, que se podem ver nas duas fotografias abaixo, voando em formação à época, e exposto actualmente num Museu do Ar sérvio, com as estrelas vermelhas identificativas da força aérea jugoslava .

28 junho 2021

«O RACIONAMENTO DO PÃO EM INGLATERRA»

28 de Junho de 1946. Este tema já tem sido repetidamente aqui evocado ((1), (2), (3), (4)), mas nunca é demais enfatizar como, mesmo depois de a Segunda Guerra Mundial ter terminado (no caso, há mais de um ano!), continuavam a subsistir problemas de abastecimento alimentar por toda a Europa, problemas esses que afectavam até os países que haviam saído vencedores do conflito, como fora o caso do Reino Unido. Mesmo que, por causa da sua sensibilidade política, o assunto fosse, por lá, «debatido nos Comuns», e por cá não fosse debatido em lado algum (...), a causa para a formação das longas filas de racionamento em Portugal não seriam propriamente por culpa do Salazar, como teima uma certa corrente de escritos que persistem em se publicar por aí. É o género de textos que não adianta de nada estudar...

LUCKY LUKE INTERPRETADO POR DOIS DESENHADORES

A aventura de Lucky Luke é «O Pezinho Mole» e as duas pranchas são rigorosamente a mesma, só que a da esquerda é a desenhada originalmente por Morris, enquanto que a da direita é uma paródia desenhada por Jean Giraud, no seu estilo mais realista. Comparando-as, dá para perceber como, apesar de respeitando a planificação do argumentista (neste caso Goscinny), não é apenas o estilo mas sobretudo as opções escolhidas por cada desenhador que acabam por conferir, mesmo num trecho tão curto, uma especificidade distinta à narrativa.

27 junho 2021

A GUERRA DOS DEZ DIAS

27 de Junho de 1991. Após a declaração de independência da Eslovénia, que tivera lugar dois dias antes, esta antiga república federada da Jugoslávia, agora com pretensões a tornar-se independente, é invadida pelas colunas armadas e blindadas do exército jugoslavo - veja-se o mapa acima. Vai ser uma demonstração de capacidade militar completamente gratuita e até contraproducente. Mais importante do que um plano de operações militares, os secessionistas eslovenos complementaram-no com um mapa de operações mediáticas, inundando as televisões de todo o mundo - especialmente os países ocidentais - com imagens de carros de combate (de concepção soviética) a desfazerem as barricadas montadas para os deter (abaixo). Um desastre político para os federalistas jugoslavos que, para além disso, não contavam com grandes simpatias entre a população eslovena (no referendo de Dezembro, 88,5% do eleitorado tinha-se pronunciado a favor da independência). No terreno, os jugoslavos ocuparam todos os objectivos a que se haviam proposto, mas o problema é que não havia qualquer solução política que Belgrado pudesse propor depois disso, enquanto as tropas de ocupação se tornavam vítimas de acções de guerrillha das unidades eslovenas. Havia um impasse político que rapidamente teve que se resolver com a assinatura de umas tréguas. É significativo que, apesar da brutalidade do lado jugoslavo que nos sugere as imagens televisivas, no final do conflito, que durou apenas dez dias, o número de baixas era sensivelmente o mesmo de ambos os lados: 190 (44 mortos e 146 feridos) entre os jugoslavos e 201 (19 mortos e 182 feridos) entre os eslovenos. O David esloveno era só para aparecer nas câmaras da TV...

26 junho 2021

O PIOR DOS VÍDEOS DAS PREPOTÊNCIAS POLICIAIS NA AMÉRICA PODE SER O QUE NÃO SE VÊ

Este episódio teve lugar há quase seis anos, em Julho de 2015, em Rohnert Park na Califórnia. O vídeo regista hoje mais de 29 milhões de visualizações. Mas o mais chocante talvez não sejam as imagens do que então aconteceu, antes as suas consequências que, na altura e como se pode ver no vídeo, ainda não se podiam avaliar porque o incidente estava pendente da investigação. O que esta última concluiu, cerca de um ano depois, era que era «razoável» que o polícia (David Rodriguez) «tivesse sacado da sua arma de serviço da forma que o fez durante o seu encontro com o residente». E o relatório prosseguia, considerando que Rodriguez abordou o residente (Don McComas) «por razões legítimas e não com a finalidade de intimidar ou incomodar o residente», como este último alegava. Não é o que parece nas imagens, mas pronto... aceite-se a conclusão. Faça-se notar todavia, que o agente David Rodriguez, que ficara confinado a trabalho administrativo até à conclusão do inquérito, se aposentou cerca de seis meses depois dos acontecimentos acima filmados, e ainda antes da publicação do relatório que o exonerou. Se os indícios contarem para alguma coisa, estes não abonam em favor da conduta do agente e da admissão de responsabilidades pela autoridades policiais. Até parece que houve por ali uma negociação: tu demites-te e nós não te queimamos a carreira... Tanto mais que houve ainda a considerar, simultaneamente, uma acção de direitos civis que foi interposta pelo residente Don Comas em conjunto contra David Rodriguez, o departamento de polícia a que ele pertencia e ainda a administração municipal de Rohnert Park. Essa acção veio a ser abandonada em Abril de 2017 porque as partes haviam chegado a um acordo, acordo esse cujos detalhes não é possível conhecer... Normalmente isto quer dizer que as partes chegaram a acordo quanto a uma verba compensatória para o queixoso, verba essa que a parte contrária impõe que seja mantida em segredo, para não ajudar futuros queixosos. Em síntese, pior do que o despotismo do polícia é o facto da sua conduta não ter sido publicamente sancionada e ainda o facto de o queixoso se ter deixado comprar em silêncio. E tudo isso não se explica em vídeo.

Este poste é publicado, não por acaso, no dia em que se soube que o polícia que assassinou um detido em Minneapolis, num caso de grande repercussão mediática, foi sentenciado a 22 anos e meio de prisão. Num país que é conhecido pela severidade sancionatória da sua justiça, a ponto de ela se revestir muitas vezes de aspectos caricatos, como penas de dezenas e centenas de anos de prisão, e mesmo casos extremos como o do terrorista que foi condenado a 161 prisões perpétuas a que se adicionam 9.300 anos sem possibilidade de concessão de perdão(!), não deixa de se saudar que, por esta vez, e quiçá por se tratar do réu que se trata, a pena é ainda inferior aos 25 anos que a leniente justiça portuguesa estabeleceu como pena máxima.

25 junho 2021

EM HOMENAGEM A QUEM, NÃO TENDO DOIS BARRACÕES, ACABOU FICANDO COM DOIS AUTOMÓVEIS

(Publicado originalmente em Março de 2013, no tempo dos rectificativos de Vítor Gaspar)
Costuma dizer-se que tudo o que tem qualidade nunca passa de moda. Este sketch abaixo dos Monty Phyton já tem mais de 40 anos mas eu costumo revê-lo, a sério, com alguma frequência na nossa televisão. A evolução de então para cá desta caricatura foi tornar os entrevistadores, não propriamente mais preparados tecnicamente sobre o assunto que devem tratar, mas pessoalmente menos hostis com o entrevistado. E em alguns casos – estou a pensar no exemplo de Mário Crespo na SIC Notícias – essa pretensa empatia chega a tresandar incomodativamente a graxa

Anfitrião (Eric Idle): Na semana passada assistiu-se no Royal Festival Hall à estreia de uma nova sinfonia de um dos mais importantes compositores modernos: Arthur “Dois Barracões” Jackson. Sr. Jackson…
Jackson (Terry Jones): Boa noite
Eric Idle: Só um pequeno aparte para deixar isto esclarecido. Esta – como poderei dizer… – sua alcunha…
Terry Jones (agastado): Ah!... Pois…
Eric Idle: ...“Dois Barracões”. Como é que apareceu?
Terry Jones: Bem, não é coisa que eu incentive, mas há alguns amigos meus que me tratam por “Dois Barracões”.
Eric Idle: E tem realmente esses “Dois Barracões”?
Terry Jones: Não. Só tenho um. Sempre tive um, só que há uns anos disse que estava com vontade de ter outro e desde aí houve quem me passasse a tratar por “Dois Barracões”.
Eric Idle: Apesar de só ter um?
Terry Jones (para atalhar conversa): É isso.
Eric Idle: E ainda está com vontade de comprar o segundo?
Terry Jones (impaciente): Não.
Eric Idle: Para se adequar à forma como é conhecido?
Terry Jones: Não.
Eric Idle: Estou a ver. Voltemos à sua sinfonia.
Terry Jones (aliviado): Ah, bom!
Eric Idle: Escreveu-a no barracão?
Terry Jones (ultrajado): Não!
Eric Idle: Então escreveu alguma das suas peças mais recentes nesse seu barracão?
Terry Jones: Não, nada disso. Trata-se de um vulgaríssimo barracão de jardim!
Eric Idle: Ah, estou a ver! E está a pensar em comprar um segundo barracão para o usar para escrever?
Terry Jones: Não. Não! Esta história do barracão não tem interesse nenhum. Os barracões não têm importância nenhuma. Há alguns amigos que me chamam “Dois Barracões” e é tudo. Eu queria que me fizesse perguntas acerca da música. Eu sou é compositor. Toda a gente me chateia com os barracões. Isto está a passar dos limites. Quero é ver-me livre do barracão. Estou farto dessa história.
Eric Idle (travesso): Era da maneira que passava a ser o Arthur “Sem Barracões” Jackson, ahn?
Terry Jones (assertivamente): Olhe, esqueça lá os barracões, está bem?
Eric Idle (subitamente austero): Sr. Jackson, desculpe lá, mas creio que deveríamos voltar ao tópico da sua sinfonia.
Terry Jones (apanhado de surpresa): O quê?
Eric Idle: Segundo sei, a sua sinfonia foi escrita para tímpanos e órgão...
(Uma fotografia de um barracão aparece no cenário por detrás de entrevistador e entrevistado)
Terry Jones (virando-se para trás): O que é que é aquilo?!
Eric Idle (fingindo-se desentendido): Aquilo o quê?
Terry Jones: É um barracão! Tirem já aquilo dali!
(O anfitrião faz um discreto sinal e a fotografia é substituída por uma de Jackson em pose)
Terry Jones (ressentido): …Assim está melhor.
Eric Idle: Segundo soube, já foi um entusiasta da observação de comboios…
Terry Jones: O quê?!
Eric Idle: Segundo soube, há uns trinta anos, foi um entusiasta da observação de comboios.
Terry Jones: E o que é que isso tem a ver com a porra da minha música?
John Cleese (entrando em cena): Está a ter problemas com ele?
Eric Idle: Sim, um bocado. (Olhando para Cleese). Meu Deus! É o homem que acabou de entrevistar Sir Edward Ross mesmo agora.
John Cleese: Exactamente. Nós os entrevistadores chegamos e sobramos para pessoas como vocês, “Dois Barracões”.
Eric Idle: Sim, faça por desaparecer na paisagem, “Dois Barracões”. Este estúdio não é suficiente para nós três.
Terry Jones: É pá, o que é que vocês estão a fazer? Parem lá com isso. (É expulso de cena)
John Cleese: Arranja o teu próprio programa cultural oh maricas!
Eric Idle: Foi... Arthur “Dois Barracões” Jackson.

«SABÚ»: DE ASSALTANTE DE BANCOS A FUTURO «GRANDE EDUCADOR» DO CAMPESINATO

25 de Junho de 1971. Também Sexta Feira. A edição daquele dia do Diário de Lisboa assumia um formato vincadamente tablóide e dava destaque e desenvolvimento às peripécias a respeito da captura dos assaltantes a uma agência bancária lisboeta, um assalto à mão armada que tivera lugar ainda no princípio da semana. No meio das irrelevâncias, que iam de umas bolas de ping-pong ao destino que alguns assaltantes dariam ao seu quinhão do dinheiro roubado, um dos cinco participantes consegue captar as simpatias de quem escreve a reportagem e é brindado com uma caixa especial para falar do seu caso. «Sabú» mora no Bairro Alto e é tido por um rapaz popular, «bate-chapa, residente num quarto alugado na Rua da Atalaia, 179-2º, onde vive na companhia de uma rapariga» (sugestão que talvez não trabalhasse muito na oficina?...). De todo o modo, quem abona em seu favor é o seu barbeiro que até lhe cortou o cabelo uma hora e meia depois do assalto.
Não se sabia na altura, mas «Sabú» não era pessoa para se ficar por aqueles quinze minutos de fama. Apesar dos juízes não se terem deixado impressionar pela reputação que granjeara no Bairro Alto, e de ele ter cumprido pena de prisão pelo assalto, quatro anos depois já o tínhamos cá fora. Abandonando o assalto a bancos, «Sabú» mudara de ramo, mas retinha aquela sua vocação para o estrelato. Podemos apreciá-lo abaixo a capitanear a ocupação da herdade Torre Bela em Abril de 1975, ocasião em que é um dos protagonistas de um dos mais emblemáticos diálogos dos tempos do PREC. «Sabú» já nos deixou, infelizmente, há uns seis meses, mas em quase nenhum dos obituários que assinalaram a sua morte, se assinalou este outro seu momento de fama, em que, por assim dizer e apesar do anacronismo de lhe atribuir uma ideia que só lhe ocorreu anos mais tarde, ele entrou de farramenta assestada por uma agência bancária dentro, tentando convencer os circunstantes que todo o dinheiro que ali estava era da comprativa...

24 junho 2021

A FALSA NOTÍCIA DA BOMBA ATÓMICA

24 de Junho de 1946. A edição do jornal daquele dia escarrapachava uma falsa notícia logo na primeira página! Afinal, não havia sido lançada nenhuma bomba atómica. Os problemas técnicos decorrentes de um sempre complexo ensaio nuclear, haviam obstado a que o ensaio tivesse tido lugar naquelas condições que são tão detalhadamente descritas pela notícia. Porém, por entre a profusão de militares, cientistas e jornalistas que se acotovelavam pelo «ilhéu de Bikini», haviam sido os últimos a ganhar a disputa e haviam sido os jornalistas a rebentarem a bomba mesmo que a bomba não houvesse rebentado! Atrasado por uma semana, o ensaio nuclear, descrito como uma experiência científica e também um teste militar, mas que era sobretudo uma gigantesca operação de relações públicas para demonstrar ao Mundo o poderio dos Estados Unidos, terá verdadeiramente lugar a 1 de Julho de 1946 (abaixo). Mas a pedagogia desta evocação é outra: é a de alertar como ao longo destes 75 anos houve inúmeras ocasiões em que a poderosa máquina da comunicação social detonou a bomba sem que a bomba tivesse efectivamente sido detonada. Ainda hoje me deparei com um exemplo crasso disso, no The Guardian, a propósito de Jacinda Ardern, a primeira ministra neozelandesa que, por uma graça inexplicável, caiu nas simpatias da comunicação social de todo o resto do Mundo*, mas sem que houvesse um interesse correspondente nos problemas e dificuldades que se lhe(s) deparam.

23 junho 2021

AS INSPIRAÇÕES AERONÁUTICAS DE EDGAR PIERRE JACOBS

Nos finais de 1941 e com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, os jornais da Europa ocupada deixaram de poder publicar as tiras das histórias aos quadradinhos daquela origem, nomeadamente as aventuras fantásticas de Buck Rogers ou de Flash Gordon. Para as substituir, houve que recorrer a desenhadores nacionais, de que há que realçar para esta história, o caso belga. Edgar P. Jacobs, um antigo cantor de ópera, que as circunstâncias obrigaram a seguir uma outra vocação artística, a do desenho, foi o mais bem sucedido desses casos de autores de BD que só se revelaram devido às circunstâncias. É assim que surge em 1943 uma extensa história (158 páginas!) de uma aventura de ficção científica descaradamente inspirada nas personagens de Flash Gordon a que o autor deu o título de O Raio U (acima, a penúltima página da aventura). Porém, por muito forte que fosse a inspiração dos modelos americanos, havia aspectos em que Jacobs tinha que recorrer ao que tinha à sua disposição. Um deles era o «hardware» que o poderia inspirar para o desenho das suas aeronaves, e aí, e como se comprova pela comparação entre os desenhos assinalados acima e as fotografias abaixo, os modelos que inspiraram o desenhador belga eram de inconfundível proveniência germânica, no caso o Messerschmitt Bf-109 e o Junkers JU-87, este último correntemente designado por Stuka.

22 junho 2021

...É UM ARTISTA PORTUGUÊS E SÓ USA PASTA MEDICINAL COUTO

Basta apenas ler no título o nome dos intervenientes para não ser preciso ler mais nada sobre o resto. Vital Moreira é o homem indicado para fazer os fretes ao governo e dispensa-se o tempo que se despenderia a ponderar os argumentos das partes. Vital Moreira não tem, verdadeiramente, opiniões. Tem as opiniões que é preciso ter. As que as circunstâncias impõem. Aquelas que é preciso possuir e a desfaçatez adequada para argumentar em prol. Já era assim no tempo em que ele era comunista, manteve a versatilidade e utilidade depois. Ao fim da mais de quarenta anos, não convence, mas comparece. Por isso, quando vemos abaixo o nome de Vital Moreira, já não interessa saber o nome do outro. E comprova que, se o governo tem que o ir buscar, é porque as coisas estão mesmo complicados lá para o lado de São Bento... Quarenta e tal anos de leais serviços consagraram Vital Moreira como o fundo do tacho!

A ATITUDE ITALIANA A RESPEITO DA OPERAÇÃO BARBARROSSA

Com a invasão alemã da União Soviética, Domingo, 22 de Junho de 1941 foi um dia verdadeiramente histórico. Mais do que isso, foi um dia longamente histórico, porque começou muito cedo, às 03H15 (hora de Berlim e da Europa Central), quando a artilharia alemã abre fogo ao longo da frente que separa as suas posições das do exército vermelho no Leste da Europa. Em Roma, um quarto de hora antes (portanto às 03H00 da manhã!), o principe Otto Christian von Bismarck-Schönhausen havia levado pessoalmente a Benito Mussolini uma longa carta de Adolf Hitler em que este reexplicava as razões e precisava finalmente o momento (agora!) em que se decidira a invadir a Rússia. O Duce, que tanto se abespinhara em privado com desconsiderações bem menores que o Führer tivera para com ele, aceita agora sem mostras de despeito ou ressentimento esta, enorme. Mais, Mussolini toma imediatamente a iniciativa de declarar guerra à União Soviética e anuncia, também de imediato, a disposição de mobilizar um corpo do exército italiano para participar na campanha. Para Mussolini parecer-lhe-ia mais importante fazer agora tudo para causar uma impressão pública que os acontecimentos haviam sido desencadeados em sintonia consigo. No Palácio Chigi* procura cumprir-se as instruções do Duce ainda durante a madrugada, a começar por desencantar o paradeiro do embaixador russo que não se encontra (como de resto quase todo o restante pessoal) na embaixada! Os russos haviam aproveitado o fim de semana e o tempo quente para uma ida à praia e uma estadia à beira-mar! Finalmente, lá encontraram o embaixador Nikolai Gorelkin alojado num hotel, a quem entregaram a convocatória para uma reunião com o conde Ciano, o ministro dos Estrangeiros. A cerimónia, a que os italianos pretendiam conferir alguma solenidade, transformou-se rapidamente numa farsa. Segundo testemunhos, o russo chegou com o ar desenvolto de quem estivera de férias (e estivera), cumprimentou descontraidamente o ministro como se se tratasse de cumprir um pró-forma (e era, como se lê acima, a declaração de guerra já fora anunciada várias horas antes...), e retirou-se rapidamente com o documento na mão, como se tivesse recebido um convite para um jantar de gala. Mas, a notícia que nesse fim de tarde o Diário de Lisboa dava conta a respeito das repercussões que os acontecimentos do dia haviam tido em Itália, não nos dizia nada disto...
 
* À época era a sede do ministério dos Negócios Estrangeiros. Hoje é a sede do conselho de Ministros.   

21 junho 2021

O PROBLEMAS DO PARLAMENTARISMO DO PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS

21 de Junho de 1921. Três meses depois de fundado, o partido comunista português (PCP) já se debatia com aquilo que o linguajar típico do partido posteriormente denominará por «inquietações» a respeito do comportamento a adoptar perante as instituições da democracia burguesa, mormente o parlamento. Na «assembleia geral» que há 100 anos o Diário de Lisboa noticiava, discutia-se a manutenção ou a remoção da palavra «anti-parlamentar» (na notícia não se esclarece de onde), cuja decisão se remetia para um futuro congresso do partido. Congresso esse que só viria a ter lugar dali por dois anos e meio, em Novembro de 1923. Porém, do que dele dá conta a história oficial do PCP, esse assunto - a «táctica parlamentar» - não terá sido, afinal, discutido no congresso. Quanto aos esforços para que o PCP obtivesse então uma representação parlamentar, a mesma história oficial limita-se a um lacónico: «Em 1925 o Partido participa nas eleições parlamentares formando um bloco com as chamadas forças democráticas de esquerda.» Depois disso, com o estabelecimento da Ditadura Militar em 1926 e depois com o regime do Estado Novo, o partido comunista passou a ser um partido proscrito, como todos os outros, à excepção da união nacional. Só voltou a fazer sentido falar da relação dos comunistas com o parlamento depois de 1974. Sobre esse período e ainda sobre esse assunto, já aqui se publicou um pequeno, mas interessante, estudo intitulado: Álvaro Cunhal, o parlamentar. Nessa época não conhecia este pequeno episódio da história inicial do PCP, senão ter-lhe-ia dado o título de Álvaro Cunhal, o anti-parlamentar...

20 junho 2021

O «HAUPTSTADTBESCHLUSS»

20 de Junho de 1991. No Bundestag, que então ainda estava sediado em Bona, teve lugar um prolongado debate a respeito da transferência efectiva das estruturas governamentais de Bona para Berlim. Aquando da reunificação alemã, no ano anterior, ficara explícito que a capital da Alemanha retornaria a Berlim, recuperando o estatuto que adquirira entre 1871 e 1945. O que se discutia há trinta anos era a substancialidade desse estatuto: se isso implicaria a transferência de todos os organismos governamentais, executivos, judiciais e legislativos, ou se alguns permaneceriam em Bona, a cidade que fora escolhida para capital provisória da Alemanha Ocidental em 1949, assim permanecera até 1990 e cuja localização geográfica era vista agora por uma fracção dos alemães como vantajosa, já que Berlim perdera a sua localização central (abaixo), quando a Alemanha perdera os seus territórios de Leste no final da Segunda Guerra Mundial. O debate arrastou-se por mais de dez horas e a tese berlinense veio a  vencer mas por uma pequena margem (338-320 votos), como se pode apreciar no quadro acima. Mais do que isso, e como também se pode perceber por aquele mesmo quadro, a divisão foi transversal aos partidos. A geografia, mais do que a filiação partidária, ajudou mais a compreender o sentido do voto dos deputados, conforme se percebe pelo mapa da direita: a maioria dos deputados eleitos pela antiga Alemanha Ocidental ter-se-á pronunciado a favor da manutenção dos organismos federais em Bona, e foram os deputados eleitos nas regiões da ex-Alemanha Oriental (os ossies) que foram decisivos para a transferência do aparelho governamental para Berlim. Com aquela virtude tipicamente alemã de atribuir um nome interminável (e impronunciável...) a tais eventos, este ficou conhecido por Hauptstadtbeschluss.

A APRESENTAÇÃO DO CANDIDATO ELEITO

20 de Junho de 1951. Em substituição do presidente Óscar Carmona, que falecera a 18 de Abril, a união nacional anunciava naquele dia que se decidira a apresentar a candidatura do general Craveiro Lopes à presidência da República. Sendo as estruturas de poder como eram sob o Estado Novo, isto correspondia à apresentação aos portugueses do nome daquele que viria a ser o seu próximo presidente a partir de 9 de Agosto, data marcada para a tomada de posse do vencedor das eleições de 21 de Julho. A nota que dava conta da decisão era sóbria, como era a prática da época: «O sr. general Francisco Higino Craveiro Lopes, actual comandante da 3ª Região Militar (Tomar) e professor do curso de altos comandos do Instituto de Altos Estudos Militares, anuiu á solicitação que lhe foi feita para aceitar a sua candidatura á Presidência da República. A respectiva proposta, subscrita por dirigentes e filiados da União Nacional e por outros eleitores, vai ser apresentada num dos próximos dias ao Supremo Tribunal de Justiça.» Mais interessante era uma outra nota prévia, que constava do desenvolvimento da notícia no interior do jornal, e que fora emitida quinze dias antes pela presidência do Conselho de Ministros, ou seja, da responsabilidade do todo poderoso António Salazar, que era quem puxava os cordelinhos da sucessão, enquanto assegurava interinamente, por prescrição constitucional, a chefia do Estado. Essa outra nota procurava acalmar as intenções mais arrebatadas dos seus seguidores que queriam que fosse ele, Salazar, a assumir a presidência, um cargo que, porque desprovido de poder executivo, não lhe interessaria nada. A nota de Salazar continha uma passagem que é emblemática do seu estilo literariamente rebuscado* e politicamente cínico: «A verdade é que não tenho já resistência moral nem possivelmente resistência física para recomeçar vida nova e fazer outra magistratura.» Fingindo-se cansado para ser presidente, depois de dezanove anos à frente do governo, o futuro falará pela sinceridade do argumento: Salazar iria manter-se no cargo que lhe interessava por mais dezassete anos.

* «O que temos de fazer é escolher dentre os muitos servidores do mesmo ideal uma pessoa que convenha ao alto exercício da magistratura suprema do Estado, pelas suas qualidades e virtudes, pela dignidade da sua vida, pela compreensão do interesse público e das necessidades da política nacional, pela sua adesão, melhor direi, pela sua integração na ordem de ideias que nos têm inspirado e de cuja realização seja o primeiro garante

19 junho 2021

A INDISSOCIÁVEL AMIZADE LUSO-BRASILEIRA

19 de Junho de 1971. Um dos axiomas da imagem da política externa do último período do Estado Novo era a da indissolubilidade da aliança luso-brasileira. E podemos apreciar uma expressão desse entusiasmo (que não era propriamente recíproco) nesta notícia de há cinquenta anos, que nos fala da aceitação do emprego de sucedâneos nos cafés solúveis. Sendo ambos grandes países produtores, e como seria de esperar, os dois países mostravam-se contrários à prática de adicionar outros produtos torrefactos (cevada, chicória, centeio) ao café original, uma prática que apenas desvalorizava o produto. Por causa desse estatuto conjunto, os dois países também não desdenhariam cooperar na gestão do preço do café nos mercados internacionais. Mas também ainda por causa disso, sendo o Brasil o maior produtor mundial e Portugal o quarto produtor mundial através da produção angolana, também eram evidentes as rivalidades dos dois países pela conquista de quotas de mercado. Mas destas últimas disputas não se falava nos jornais portugueses...

QUANDO OS INCÊNDIOS, MESMO GRANDES, SÓ ERAM NOTICIADOS NA PÁGINA 11

19 de Junho de 1981. A notícia do controle do incêndio que grassara na Serra de Sintra era remetida para uma discreta página 11 do jornal. E contudo, o sinistro tinha tudo para ser um destaque: perdurara durante quatro dias; tivera lugar nas redondezas de Lisboa, na serra de Sintra; tivera dimensão, mobilizara «cerca de 500 homens de quase vinte corporações de bombeiros» e fora mesmo «considerado o segundo maior de sempre naquelas riquíssimas matas»; para rematar, e infelizmente, registara-se um acidente de viação que custara a vida de um bombeiro. Mas, apesar de todos esses atributos, não era a moda do jornalismo da época puxar tais tragédias para primeira página. Isso estaria guardado para o aparecimento das televisões privadas e a popularização dos directos ígneos. Até ao clímax de mau gosto mórbido representado pela cobertura do incêndio de Pedrógão Grande, dominada pelas imagens dos carros ardidos na estrada, que terá constituído o desmoronar desse voyeurismo em 2017. Porém, ainda sinal daqueles tempos, a notícia termina com a costumeira atribuição da origem do incêndio aos incendiários, «provavelmente a soldo». Eram tempos em que, sem qualquer hesitação, Marx e as razões económicas prevalecia sobre Freud e as razões psiquiátricas, quanto a explicações quanto ao que motivava a pulsão dos incendiários.

18 junho 2021

VOCACIONADO PARA UMA CARREIRA MUITO PROMISSORA...

18 de Junho de 1931. «Doutoramento em Direito. Terminaram ontem na Faculdade de Direito de Lisboa, as provas de doutoramento em Ciências Económicas e Políticas do sr. dr. Marcelo Caetano, que concluiu brilhantemente a defesa da sua tese, tendo merecido do juri uma honrosa aprovação.» Há que esclarecer que, por detrás do destaque noticioso, há 90 anos, os doutoramentos eram muito mais raros do que na actualidade. Em vias de completar 25 anos, Marcelo Caetano (ainda não adquirira o duplo l identificativo no seu nome próprio - Marcello) desabrochava para a carreira académica e, sobretudo, para a carreira política que o guindaria à presidência do Conselho de Ministros no Outono de 1968.

«A PAREDE DE LETRAS»

18 de Junho de 1951. A página 4 do Diário de Lisboa ostenta este artigo de Tavares da Silva, jornalista e treinador de futebol. Ocupa uma página inteira, descontando duas fotografias para aliviar(?) a leitura e um canto com publicidade. O interminável texto tem por tema a selecção belga que actuara no nosso país, mas, nem me disponho a transcrever uma passagem que seja, só para demonstrar o quão soporífero é. Não é o relato de um jogo, não é um tratado de táctica de futebol, é uma dissertação. E a dissertação ocupa uma página inteira, sem folgas. Há 70 anos tinha-se a ousadia de publicar coisas destas em jornais, sob a impunidade de que não haveria coragem para as classificar por aquilo que são: insuportavelmente chatas para os leitores medianos. Hoje, felizmente, há um outro dinamismo e até se criaram expressões próprias para estes episódios: isto denomina-se «Wall of Text» - concretamente, uma parede de letras. Só mesmo os mais dedicados é que a lêem.

17 junho 2021

PASSOS COELHO E AS REFORMAS «EM CONFRONTO»

Não vale a pena perder tempo... à excepção dos/das groupies de Pedro Passos Coelho, sempre exuberantíssimos nas redes sociais.

A HERANÇA DE ROMA

Porque me escapou a data certa para comemorar a efeméride, assinalo assim desta maneira endireitada os vinte anos (e um mês!) do lançamento de A Herança de Roma. Como quase se tornou lugar comum confessá-lo nestas ocasiões, se fosse escrito agora o livro seria muito diferente. Aliás, nem sei se ainda valeria a pena ser um livro.
O que se mantém é o meu fraquinho pela capa, e por aquela águia cravada em plenas terras lusitanas, projectando a sua sombra sobre a Europa, copiando um dos desenhos de contracapa dos álbuns de Astérix.

«O MAIS BEM PAGO CORO MASCULINO DE TODO O MUNDO»

17 de Junho de 1941. Só num regime como a Alemanha nazi, em que o poder estava personalizado completamente em Adolf Hitler, é que os rumores do anúncio de uma próxima convocação da assembleia nacional (o Reichstag) podiam ser levados à conta de uma hipotética ameaça política, que urgia desmentir. como se comprova naquela notícia de jornal de há oitenta anos. As muito conhecidas eleições alemãs de Março de 1933, incluindo o conhecido episódio do incêndio do edifício do Reichstag, haviam dado a primeira maioria clara (mas não absoluta!) ao partido Nacional Socialista. Estes, tiveram que proceder depois a algumas purgas (comunistas) e alianças (nacionalistas) para que os nazis dispusessem da maioria de deputados que votasse as leis que representaram a emasculação das prorrogativas legislativas da própria câmara de que faziam parte. Logo depois de constituído esse novo quadro legal nazi, com o Führer a concentrar todos os poderes em si, é que tiveram lugar umas outras eleições para o Reichstag, ainda em 1933, em 12 de Novembro, só que desta vez apenas concorreu uma lista única... que recebeu 92% dos votos e ocupou todos os lugares do parlamento. A cena repetiu-se em 1936 e 1938, como scores eleitorais ainda melhores, se possível: 99% dos votos e, obviamente, a mesma unanimidade na representação! As sessões parlamentares passaram a ser muito raras: por exemplo, o Reichstag só se reuniu por sete vezes durante os quase seis anos da Segunda Guerra Mundial. E era um disparate especular que possuiriam alguma autonomia, como a notícia acima levaria a crer. Para as raras sessões, os parlamentares compareciam uniformizados nas suas fardas SA e SS, batiam muitas palmas, e claro que não havia propriamente debates, porque, depois da abertura da sessão pelo presidente Hermann Göring, só costumava haver um orador: Adolf Hitler. Como essas sessões costumavam acabar ao som dos dois hinos nacionais, Deutschlandlied e Horst Wessel Lied, cantados com todo o entusiasmo, o característico espírito de humor sarcástico dos berlinenses - as cenas passavam-se em Berlim - classificava o conjunto de 876 deputados como «o mais bem pago grupo coral masculino de todo o mundo».

16 junho 2021

A DESERÇÃO DE RUDOLF NUREYEV

16 de Junho de 1961. Rudolf Nureyev (1938-1993), considerado o mais destacado bailarino russo e a cabeça de cartaz do ballet Kirov, que se encontrava então em digressão pelo Ocidente, deserta, pedindo asilo político em França. Seria um acontecimento perfeitamente inócuo se: a) Os países comunistas não investissem nestas digressões culturais como actos de propaganda de regime e b) Os cidadãos desses países comunistas pudessem viajar para o exterior com liberdade. Assim como era, esta foi mais uma de muitas defecções que a propaganda ocidental adorava publicitar.

15 junho 2021

O QUE É SOCIALMENTE EXÓTICO ENTRE OS «FAMOSOS», NOS DIAS QUE CORREM...

Através de uma publicação denominada Hiper, fiquei a saber que a locutora e humorista Joana Marques havia estado, esta Segunda Feira «no programa “Casa Feliz” da SIC, conduzido por Diana Chaves e João Baião.» Passando adiante rapidamente os pormenores da estadia, o que se me tornou interessante na notícia foi o seu remate, que a dá como mãe de dois filhos, ambos do marido. Pelos vistos, e por valer a pena ser especificado, tratar-se-á de algo exótico entre as famosas nos dias que correm, ter logo um par de filhos, assim, com a mesma pessoa...

OS «PREOCUPANTES GRAUS DE EROSÃO» DOS PARTIDOS NO PODER

15 de Junho de 1981. Quarenta anos depois e invertidas as posições, não nos surpreenderia ler do PSD um comunicado salientando o «preocupante grau de erosão» do PS. Talvez não no mesmo suporte, que os comunicados saíram há muito de moda e a comunicação política processa-se agora em tweets pretensamente pessoais.

14 junho 2021

O FARELO E A FARINHA DA CENSURA PORTUGUESA

No provérbio tradicional português, critica-se quem poupa no farelo para depois gastar em farinha. O exemplo que aqui quero recuperar, desta notícia de jornal de há precisamente 75 anos é uma derivação dessa mesma ideia, mas aplicada aos mecanismos da censura da imprensa portuguesa em vigor à época. Repare-se como, na notícia, se evita empregar a expressão sindicatos, recorrendo-se em vez disso à expressão inglesa «trade-unions». É demasiado óbvio para ser casual, para mais quando, se fosse para preservar a expressão original, não seria a da língua inglesa, mas a da língua alemã: «Gewerkschaft». Afinal, a notícia é originária de Berlim... Constatados todos estes cuidados dedicados à semântica da designação do cargo do orador da conferência de imprensa, um senhor chamado Roman Chwalek, quem conhecesse (e ainda conheça) quais as posições defendidas pelas potências aliadas ocupantes da Alemanha, aperceber-se-ia que a transcrição do discurso constituía uma defesa completa das posições então defendidas pela União Soviética: «somos absolutamente contrários a qualquer espécie de separatismo ou federalismo na Alemanha». Ou seja: na forma a palavra sindicato era censurada; mas na substância, a mensagem soviética (comunista) era transmitida cristalinamente. E se dúvidas houvesse, e se o censor se tivesse dado ao trabalho de analisar o curriculum de Roman Chwalek, o orador que dissera aquelas coisas tão interessantes em prol da unidade alemã, descobriria que ele era militante comunista desde 1922, e que fora mesmo deputado daquele partido no Reichstag entre 1930 e 1933. Nem valia a pena adivinhar quem o colocara naquele cargo e lhe estava a dar aquela projecção... E claro que Chwalek estaria previsivelmente fadado para uma carreira ministerial na futura República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), onde o podemos apreciar nesse cargo na fotografia abaixo de 1954. Com uma censura como a portuguesa, os comunistas até podiam passar as suas mensagens, que a preocupação era não mencionar que eram oriundos dos «sindicatos»! 

13 junho 2021

AQUILO QUE LHE FAZ FALTA PARA ALÉM DO ESTUDO...

A estes artigos não se deve dar demasiada importância, parece que valem imenso no fim de semana em que são publicados, mas depois acabam enterrados nos escaninhos da memória. Contudo, este texto de José Pacheco Pereira publicado ontem mereceu-me o destaque por ser surpreendentemente medíocre. É um texto que, para além de arrogante, demonstra uma inteligência limitada, demonstrativo que, para certas circunstâncias, o estudo não é tudo. Eu explico.
Tomemos o exemplo deste quiz, de que eu gosto muito, porque simbólico, daquilo que, por vezes, se torna necessário para responder com sucesso a um problema. Neste caso concreto, a questão é a de saber qual o número que está escondido por debaixo do carro que está estacionado. Não vou deixar aqui a resposta correcta (vou escondê-la na caixa de comentários deste poste), mas posso adiantar que, para lá chegar, é preciso recuar naquilo que tomamos por convencionado, para procurar uma nova abordagem para o problema. E asseguro-vos que, para obter a resposta certa, não há qualquer estudo que se substitua à inteligência (a não ser a hipótese de já se ter encontrado um quiz semelhante...). Há ocasiões em que o estudo não é tudo... Parece-me ser, mais acima, o problema de José Pacheco Pereira (e da sua geração), que, nunca o tendo permitido nos seus tempos de activo, já não consegue alcançar como reformado (72 anos!) o distanciamento intelectual para aceitar que haja avaliações sectoriais válidas do desempenho do Estado Novo, que não o condenem obrigatoriamente (ao Estado Novo) pelos resultados. Não é questão de estudar, é questão de preconceito, de estar amarrado a uma só formulação do problema. A argumentação de José Pacheco Pereira não apenas não é inteligente; também não trata os que o lêem como tal. Por causa disso, merece esta retribuição.

...A FRACÇÕES DE SEGUNDO DOS DISPAROS

As duas fotografias deste poste têm precisamente um mês de diferença entre elas: 13 de Maio de 1981 a de cima e 13 de Junho de 1981 a de abaixo. Trata-se de dois atentados contra Chefes de Estado, o Papa João Paulo II em Roma e a Rainha Isabel II em Londres e dá-se ainda a espantosa circunstância das duas fotografias terem sido acidentalmente tiradas precisamente antes dos autores dos atentados terem começado a disparar sobre os seus alvos. Mas o resto das histórias diferem substancialmente. Os tiros da pistola de Mehmed Ali Agca atingiram João Paulo II por quatro vezes. O revólver de Marcus Sarjeant estava carregado com balas de salva¹ que se limitaram a assustar o cavalo de Isabel II. João Paulo II foi submetido a uma intervenção cirúrgica de urgência que o salvou mas que durou cinco horas. Isabel II limitou-se a apanhar um susto enorme. Ali Agca era turco e muçulmano e até hoje permanecem algo nebulosas as intenções por detrás do seu acto. Sarjeant era britânico e queria adquirir notoriedade. ¹ Também designadas por festim.

12 junho 2021

SÃO PETERSBURGO RECUPERA O SEU NOME ORIGINAL

12 de Junho de 1991. Num referendo local, que se realizou no mesmo dia que as primeiras eleições presidenciais russas, sai vencedora a proposta para que a cidade de São Petersburgo recuperasse o seu nome original. À época ainda existia a União Soviética - que só desapareceria no final de 1991 - e esta reversão do nome da cidade, de Leninegrado, nome que lhe fora atribuído em 1924 em homenagem ao fundador do império soviético, para o nome que a cidade possuíra entre a fundação (em 1703) e 1914 revestia-se de um inegável significado político. De um significado político menor, mas ainda relevante, fora a opção pelo nome germanizado original da cidade, e não a versão eslava, Petrogrado, que fora usada entre 1914 e 1924. Era uma sugestão de retorno à faceta mais europeia da identidade russa. Porém, se hoje se pode fazer um balanço destes últimos trinta anos, o retorno do nome original da cidade que fora a capital dos czares, prometia na altura muito mais da evolução da Rússia do que aquilo que hoje é constatável com a presença no Kremlin em Moscovo de um déspota oriental clássico como Vladimr Putin.

11 junho 2021

AS SETE VIDAS DO GENERAL PHIBUN

Há dias, por ocasião da evocação do 75º aniversário da misteriosa morte do rei da Tailândia, Ananda Mahidol (Rama VIII), havia ali deixado a promessa de exemplificar em ocasião posterior quanto a política tailandesa daqueles tempos estava salpicada de episódios pitorescos de natureza palaciana que tornavam aceitável o que acontecera ao monarca em 9 de Junho de 1946. O protagonista desta história exemplar foi o general (posteriormente marechal) Luang Phibunsongkhram, correntemente citado pela versão reduzida do seu nome: Phibun. No período de grandes transformações políticas e sociais na Tailândia no quarto de século que vai de 1932 a 1957, o general Phibun foi o primeiro-ministro e o detentor do poder no país por 15 desses 25 anos: 1938-44 e 1948-57. Explicada a importância do homem, contemos a história, que começa numa noite de Novembro de 1938, estava a general a fardar-se no seu quarto para uma soirée - e apreciemo-lo acima fardado de gala! - quando uma bala lhe acertou de raspão no braço. O estupefacto general descobriu que o potencial assassino era, nada mais, nada menos, do que o seu próprio criado de quarto, que se escondera debaixo da cama e que, saindo lá de baixo, se preparava para lhe assestar um segundo tiro mais certeiro. O general fugiu assim como estava, em cuecas, e a perseguição pela casa fora, com o criado pessoal atrás de si de pistola em riste, terminou em bem para o primeiro-ministro, com o seu potencial assassino detido, embora a sua dignidade tivesse ficado algo amachucada. Já nessa altura, Phibun adquirira uma reputação de alguém com sorte. Anteriormente, ainda ele era ministro da Defesa, fora atingido a tiro, também de raspão, no pescoço, quando assistia a um jogo de futebol. Mas a sua mística só ficou definitivamente consagrada quando, cerca de um mês depois do segundo atentado, um terceiro teve lugar, desta vez tentando envenená-lo durante um jantar de cerimónia que ele próprio organizara, mais uma vez em sua própria casa. Este último episódio levou a que 38 convidados tivessem sido levados de urgência para o hospital para lavagens ao estômago. Apesar daquilo que estes dois episódios podem indiciar quanto à completa falta de jeito do general Phibun para contratar pessoal doméstico - criados de quarto mas também pessoal de cozinha... - eles não parecem ter perturbado a sua reputação junto das elites, descontando uma evidente - e previsível - relutância da alta sociedade tailandesa em aceitar convites para jantar em sua casa. Ironias à parte, Phibun prosseguiu a sua carreira nesta fase (1938-44) até se transformar numa espécie de Mussolini à tailandesa (abaixo). Conhecendo estas histórias rocambolescas de tentativas de assassinato envolvendo o homem-forte do país naquele mesmo período, creio que se pode argumentar que a morte misteriosa do monarca em 1946 até se torna compreensível.

EM QUE SÍTIO É QUE FICA O PSD?

11 de Junho de 1981. Já há quarenta anos, se punha a questão do por onde andaria o PSD, como pretexto para as disputas internas do partido. Claro que a pretensão do PSD daquela altura de ser «de centro-esquerda» era uma daquelas ilusões que só o próprio partido sustentava.