31 dezembro 2018

IMAGENS DE 2018 - O TURISMO DE GALOCHA

Veneza, 30 de Outubro. Um par de turistas asiáticas exibe-se exuberantemente com as suas compras na emblemática Praça de São Marcos que está inundada e onde a água a atinge uma altura acima do joelho. O comércio local tenta reagir como pode às circunstâncias, criando um conjunto de imagens bizarras que percorreram mundo.

A QUEDA DE UMA DITADURA E A EMERGÊNCIA DE OUTRA


31 de Dezembro de 1958. O presidente (e ditador) cubano Fulgêncio Batista (1901-1973) anuncia a sua renúncia ao cargo durante a festa do réveillon. A cena foi recriada em 1974 no filme O Padrinho II (acima), onde se enfatizam as celebrações populares e onde, pela capacidade de antecipar os acontecimentos, se deixa a insinuação que aquela revolução que iria colocar de seguida Fidel Castro no poder, fora acompanhada de perto, senão mesmo financiada, pelo próprio Padrinho, Michael Corleone. Um Fidel Castro (1926-2016) que - nunca é demais recordar! - irá estabelecer uma outra ditadura e permanecer pessoalmente no poder em Cuba pelos próximos cinquenta anos.

30 dezembro 2018

JOSÉ GOMES FERREIRA, QUANDO PÕE OS ÓCULOS,...

...É PORQUE SE PREPARA PARA DAR SOLUÇÃO AO PROBLEMA!
AQUI ABAIXO TEMOS JOSÉ GOMES FERREIRA COMO COMANDANTE DOS BOMBEIROS...
E NESTE OUTRO "BONECO" TEMOS JOSÉ GOMES FERREIRA COMO ENGENHEIRO CIVIL...
HAVERÁ ELE ASSUNTO SOBRE O QUAL JOSÉ GOMES FERREIRA NÃO MANDE O SEU "BITAITE"?...
 Afinal, a SIC Comédia não desapareceu totalmente; dissolveu-se em formato rebuscado na SIC Notícias... 

JUDEUS E CATÓLICOS

30 de Dezembro de 1993. Apesar de o Estado de Israel ter mais de 70 anos, foi apenas há 25 anos que o governo israelita e o Vaticano estabeleceram relações diplomáticas formais. E, como se pode apreciar acima através de uma fotografia recente dos dois titulares, a relação continua a ser muito pouco descontraída, assaz cerimoniosa... E isto apesar de uma apreciável percentagem de peregrinos que visitam Jerusalém e robustecem a indústria do turismo israelita serem católicos.

29 dezembro 2018

MOMENTOS FATAIS


29 de Dezembro de 2012. A câmara de uma viatura que circulava numa das vias rápidas à volta do aeroporto moscovita de Vnukovo capta parcialmente as imagens do desastre que acaba de se registar na pista à sua direita com um Tupolev Tu-204 que acabou de falhar a aterragem. O automóvel que leva a câmara e o que o precede são bombardeados com os destroços do avião. São imagens de uma fatalidade inevitável: os ocupantes dos automóveis quase nada poderiam fazer para os evitar, aos destroços.

28 dezembro 2018

A HISTÓRIA DE UMA GRANDE MENTIRA E DE UMA «PEQUENA» EVIDÊNCIA GEOGRÁFICA

Felizmente, depois de ter corrido grandes perigos, Portugal parece ter escapado por agora ao fiasco europeu dos comboios de alta velocidade, e isso apesar do empenho de José Sócrates e dos seus governos. A Europa até se podia dispor a financiar a quase totalidade do investimento (95%, diziam eles...), mas os resultados de exploração de quem os tinha (como a França) mostravam inequivocamente quanto o risco era enorme de que tudo não resultasse em mais uma - dispensável - catástrofe financeira. Era uma daqueles prendas que, mesmo que nos fosse dada, havia de sair-nos cara... Hoje, parece um assunto encerrado ou, quanto muito e por razões de decoro, pontapeado para voltar a ser discutido com os espanhóis no dia de são nunca à tarde. Ainda há um punhado de meses, o novo líder do PP espanhol, Pablo Casado, mostrou a sua (menos) valia política (mesmo acabado de eleger), ao adicionar o assunto do TGV Lisboa Madrid ao encontro que teve com Rui Rio (que lhe respondeu, naturalmente e como Costa havia feito com Rajoy, mandando o assunto para o tecto). Note-se que um dos equívocos mais patentes quando se tratou deste assunto entre os seus entusiastas em Portugal e em Espanha era a nuance do discurso, com os espanhóis, prosaicos, a falar da ligação por TGV entre Lisboa e Madrid, e os nossos, visionários, a quererem ligar-se «às capitais europeias». E é a propósito desse equívoco que vale a mostrar uma daquelas evidências geográficas, que se baseia até num mapa do Ministério do Fomento espanhol onde estão realçados aqueles que eles consideram ser os principais eixos da sua rede viária doméstica (acima). Os meus acrescentos são duas setas pretas no canto superior direito, que destacam os dois eixos principais das ligações de Espanha com França, contornando a cordilheira dos Pirenéus que as separam. Sendo o eixo de Ocidente o mais próximo de Portugal, será por aí que se devem estabelecer as nossas ligações mais rápidas com as capitais europeias (plural): não apenas com Madrid, mas sobretudo com Paris, Bruxelas, Londres, Berlim, Roma... Mas agora repare-se nos três corredores de aproximação (vindos do Porto, de Lisboa e Faro) que eu tracei, vindos de Portugal: nenhum deles passa por Madrid. As nossas mais eficazes ligações terrestres com a Europa não passam - nunca passaram... - por Madrid. Todavia, na perspectiva do outro lado, uma perspectiva que até é mais castelhana que espanhola, o que para eles é prioritário é completar até ao mar a conexão que, no mapa acima, vinda de Madrid, se detém em Badajoz, reforçando com isso a centralidade madrilena. Como acima se pode observar, para eles, Madrid representa o centro de toda a conectividade de Castela com os litorais (e nós somos mais um). Por isso, em toda esta embrulhada história dos TGV, cujo principal traçado nunca ficou bem definido, se a ideia é fazer (mais) um TGV de Lisboa a Madrid a preocupação é deles e a prioridades é deles - já que, até agora, os prejuízos inerentes a todas as outras ligações também o foram... Estamos bem assim. Mas sobretudo, antes de voltarem a discutir o assunto, não o façam no ar e olhem para os bonecos!

O QUE PODERIAM SER MANCHETES TÍPICAS ADEQUADAS À ÉPOCA...

...a quadra é parca em notícias, predominam os balanços do ano e as entrevistas de fundo, a Carolina Patrocínio está ocupada com as crianças (dela), e só está disponível António Lobo Antunes, que até tem ar de avozinho mas nunca gostou muito delas (crianças), e que até pode ter uma compilação de pensamentos muito interessantes expressos em entrevistas ao longo do ano que finda...

27 dezembro 2018

A MAIS ICÓNICA FOTOGRAFIA DO NOSSO PLANETA

Se são muitos, porventura milhões, os que recordam aquela que será a mais icónica fotografia do nosso planeta, fotografado por um dos membros da tripulação da Apollo VIII na véspera de Natal de há cinquenta anos, serão bem poucos, talvez menos de meia dúzia, os que recordarão que a cena havia sido antecipada (com um retoque de humor...) por Jo-El Azara e Vicq, os autores de Taka Takata, num dos números da edição da revista Tintin (francesa) de Agosto de 1967.

COMO SE SE TRATASSE DE UM «TIJOLO POLÍTICO»...

Se calhar, olhando para a justaposição destas duas notícias acima, alguma razão assistiria àqueles que, há seis anos, queriam encerrar a maternidade Alfredo da Costa... Foi só uma ideia que me ocorreu. Mas o que tornará todo este último episódio da falta de anestesistas verdadeiramente ridículo é a mudança das atitudes: aqueles que eram os mais exuberantes contestatários de há seis anos (comunistas e bloquistas), agora não se dá por eles em discreto silêncio, e são aqueles (pafistas), que deveriam ter saído nessa altura em defesa da solução do encerramento, que agora parecem protagonizar as críticas mais severas a uma situação num hospital cuja solução preconizada pelo seu governo havia sido a do seu encerramento. Esta permuta de papéis, tão comum em política, é coberta por uma comunicação social que mostra não ter memória do que aconteceu na semana passada (nem disposição para a ir buscar...). Assim sendo, vale a pena atribuir alguma seriedade à discussão pública sobre o destino da maternidade Alfredo da Costa? Ou o assunto não passará de uma espécie de tijolo político que se arremessa a quem está no governo ao sabor das circunstâncias?

26 dezembro 2018

THERESA MAY A ATRAVESSAR A PASSADEIRA DE ABBEY ROAD


É engraçado quanto os assessores de imagem se esforçam por criar uma cenografia que faça esquecer os incidentes da edição anterior do evento, mas, por deficiência óbvia da protagonista, surgem novos incidentes memoráveis, a ter que cuidar para uma próxima edição - caso venha a existir...

O AFUNDAMENTO DO SCHARNHORST

26 de Dezembro de 1943. O Scharnhorst, um dos navios mais emblemáticos da Kriegsmarine, é afundado no decurso da batalha naval do Cabo Norte. Não é a primeira vez que aqui se fala do navio: já o mencionáramos quando o Scharnhorst, conjuntamente com o seu irmão Gneisenau, afundara o porta-aviões britânico HMS Glorious em Junho de 1940, numa batalha naval de que não se fala muito, porque vai ao arrepio do que iriam ser os padrões da superioridade aeronaval do futuro; e já o mencionáramos quando, ainda acompanhado do mesmo Gneisenau mais ainda do Prinz Eugen se escapulira pelo Canal da Mancha sob as barbas da Royal Navy em Fevereiro de 1942. Contudo, as histórias dos feitos de guerra do Scharnhorst vão literalmente soçobrar neste dia de há 75 anos e, mais uma vez, sem a glória que a reputação dos seus feitos decerto mereceria. Se o afundamento do Bismarck se tornou num épico algo exagerado, este afundamento do Scharnhorst passará por um olvido quiçá imerecido.
O principal inimigo do Scharnhorst foi o HMS Duke of York (que podemos apreciar em fotografia durante a acção), sob as condições meteorológicas extremas do Inverno ártico que impossibilitavam o emprego da aviação embarcada. O engajamento foi, por isso, clássico e o Scharnhorst acabou afundado sob o fogo da artilharia do Duke of York e dos torpedos dos navios que o escoltavam. Apenas 36 dos 1.968 homens que constituíam a tripulação foram resgatados, uma taxa abaixo de 2%, o que é inferior aos 5% registados quando do afundamento do Bismarck (onde houvera 114 sobreviventes). Sendo a guerra o que é, nem mesmo isso os dispensou, aos 36 sobreviventes, de serem usados como material de propaganda, ao serem fotografados humilhantemente vendados a desembarcarem como prisioneiros de guerra na base naval Scapa Flow na Escócia. Na antiga base naval do outro lado, na cidade de Wilhelmshaven, um memorial recorda hoje os mais de 1.900 que não regressaram.

25 dezembro 2018

A PRIMEIRA EMISSÃO DO 2º PROGRAMA DA RTP

25 de Dezembro de 1968. A RTP inicia as suas transmissões regulares do seu segundo programa, que era emitido em frequências de UHF (ao contrário do primeiro, que era emitido em VHF). Isso fazia com que muitas televisões já instaladas, por não disporem de meios de captação das frequências mais elevadas, não estivessem habilitadas a captar as emissões do novo programa. Além disso, exigia-se a instalação de uma antena exterior suplementar. E, acentuando a especificidade do novo programa, até a mira técnica que fora instalada para a sintonização (acima) era inteiramente distinta da do primeiro programa. Porém, significativo - só se percebeu depois... - de que as aparências eram mais do que a substância e de que o invólucro não corresponderia ao conteúdo, a emissão inaugural do programa (abaixo) começou pela transmissão em simultâneo do telejornal que passava no primeiro programa!
Não se pode dizer que constituísse uma alternativa ... Durante esta primeira semana de lançamento, conforme se pode ver pela programação pré anunciada nos jornais da época, a duração das emissões raramente ultrapassaria as duas horas e meia de emissão diária, e onde a meia hora inicial era o obrigatório telejornal conjunto com o primeiro programa. O resto da emissão dedicava-se a repetições de programas que já haviam sido emitidos. Do ponto de vista prático, e durante os primeiros anos que se seguiram, receber as emissões do segundo programa foi algo que era importante dizer que se tinha, não era para usufruir. Só alguns anos depois é que o segundo programa começou a transmitir alguma programação, pouca, que não fora transmitida previamente, mas houve que esperar uma década (até 1978) para que se concretizasse a ideia de o constituir como um canal autónomo.

A INVASÃO VIETNAMITA DO CAMBOJA

25 de Dezembro de 1978. Depois de três anos e meio de uma hostilidade progressivamente crescente, em que o último ano se regera até por uma conflitualidade militarmente assumida, o Vietname decide-se a pôr fim às relações agitadas que vinha a manter com o Camboja, invadindo este último país. A campanha militar que se seguiu, uma invasão canónica protagonizada pelos vietnamitas, pode ser sintetizada e simbolizada pela fotografia acima: dois prisioneiros cambojanos na frente da foto (o da direita usa o krama, o lenço identificativo dos khmers vermelhos) são conduzidos pelo meio de uma plantação por dois soldados vietnamitas armados (no da esquerda reconhece-se o tradicional capacete norte-vietnamita). A vitória dos invasores - como se pode ver pelo vídeo abaixo - demorou apenas um par de semanas: a 7 de Janeiro de 1979 eles haviam conquistado Phnom Penh, a capital cambojana, onde instalaram um governo composto por cambojanos, mas obediente às suas directivas. Mas esses episódios iriam ser apenas o começo de um novo conflito sangrento que se iria prolongar por mais dez anos, em que as novas autoridades e o Vietname, agora como força ocupante, iriam ser contestadas por uma guerrilha patrocinada pela China e - numa certa vindicta - pelos Estados Unidos. Ao longo desses dez anos (1979-1989), centenas de milhar de conscritos vietnamitas passaram pelo Camboja como tropas de ocupação, num rodízio que, apenas por ser desconhecido no Ocidente, não deixa de ser menos real nos seus traumas e consequências. Com a clarividência adquirida nestes 40 anos, tratou-se de uma guerra onde se confrontaram os maus... e os péssimos.

Mas isso é apenas parte da história de há 40 anos que aqui se quer contar. Outra parte tem a ver com a forma como a imprensa comunista (e não só) de então tentava digerir acontecimentos que escavacam toda a narrativa romântica como se concluíra a história da Guerra do Vietname. Esta última acabara num happy end, com a queda de Saigão e a vitória dos mais fracos versus o ogre norte-americano. Só que a História continua, e a continuação deu em expor as clivagens nacionalistas e ideológicas entre as várias facções vencedoras. Se os conflitos entre países capitalistas eram apenas uma consequência da natureza malévola desses regimes e se os conflitos entre países capitalistas e socialistas tinham a limpidez cristalina de quem eram os bons e de quem eram os maus, para um jornal como o Diário de Lisboa de 26 de Dezembro de 1978 (não havia edição no dia de Natal), noticiar a invasão de um país socialista (Camboja) por outro país socialista (Vietname) era uma atrapalhação dialéctica. É assim que vemos o assunto a ser remetido para uma página interior (p.12), misturado entre assuntos avulso e com menor destaque que a instauração da lei marcial na Turquia ou a aprovação de um novo plano económico na China. E repare-se que, mesmo salvaguardando os exageros, normais nestas ocasiões, o Vietname anunciava então a morte de 400 soldados inimigos como um indicador da violência dos combates. Porque o período noticioso (natalício) é rigorosamente o mesmo, e as paragens geográficas próximas, tome-se para referência o destaque noticioso que está a ser dado a um número semelhante de mortos provocados pelo tsunami na Indonésia...

24 dezembro 2018

O ACIDENTE DE ALMEIDA SANTOS

Há cinquenta anos, numa das suas páginas interiores, onde se noticiavam os acontecimentos locais, o Diário de Lisboa dava conta de um «choque de automóveis ocorrido próximo da Polana, em Lourenço Marques» (Moçambique), de onde saíra bastante ferido o futuro dirigente socialista António Almeida Santos, que fora suturado com «mais de duzentos pontos no crânio e nas faces». Uma indicação que o advogado oposicionista era uma figura local suficientemente relevante para que o seu acidente se tornasse numa notícia na metrópole.

(OUTRAS) FANTASIAS DE NATAL


Só durante a idade da inocência de outros tempos é que as Fantasias de Natal podiam ser anunciadas na TV sem que as redes sociais viessem complementarmente lembrar-nos em imagens, em que é que podiam consistir os formatos dos bonecos depois de despojados das pratas envolventes: um sujeito tão simpático quanto o Pai Natal pode transfigurar-se num pénis de chocolate!

23 dezembro 2018

HERBERT HOOVER NO BRASIL

23 de Dezembro de 1928. Com a despedida do Rio de Janeiro (que era então a capital do Brasil), Herbert C. Hoover, então o presidente eleito dos Estados Unidos, dá por terminada a visita de cortesia que realizara a alguns países da América Latina. Hoover aproveitou os quatro meses que mediariam entre a sua vitória eleitoral de 6 de Novembro de 1928 e a sua tomada de posse, que viria a ter lugar (como era tradicional) em 4 de Março de 1929, para realizar um périplo por dez países latino-americanos que lhe tomou um mês e meio, no que se pode considerar ter sido um vasto trabalho diplomático prévio, assim como uma demonstração de boa vontade entre os países considerados à época como tradicionalmente pertencentes à esfera de influência norte americana. Vale a pena evocar este episódio antigo de noventa anos enquanto se pergunta o que, nas circunstâncias presentes e com o actual presidente, é a boa vontade e em que estado estará a esfera de influência norte americana... O presidente eleito realizou a segunda parte da sua digressão a bordo do couraçado USS Utah conforme se pode ver na fotografia abaixo. A comitiva chegou aos Estados Unidos a 6 de Janeiro de 1929.

22 dezembro 2018

SE AINDA NÃO COMPROU O PERU DE NATAL...

...tem esta proposta assustadora, quase canibalesca, de o levar para a mesa com o formato de ursinho de peluche. A £15 o urso. Quem é que não quer trinchar e comer um ursinho infantil feito de carne de peru?... A entrega não abrange Portugal e felizmente ainda não devemos ter por cá empreendedores que façam ursinhos de postas de bacalhau...

O HINO RESSUSCITADO DOS «COLETES AMARELOS» PORTUGUESES

Vão... sem mim, que eu... vou lá ter...

O «PREC» DA AMÉRICA

Há três anos Donald Trump dizia precisamente tudo ao contrário daquilo que hoje está a dizer sobre o encerramento do governo (government shutdown). A completa incoerência deste presidente já nem sequer merecerá o destaque que mereceria se o presidente fosse normal, embora esta dinâmica da produção de notícias politicas nos Estados Unidos - ele há demissões de generais na Casa Branca ao ritmo de uma por semana - (1) (2) - nos faça recordar em exuberância os nossos tempos do PREC de 1975, só que nesta versão é o Otelo que ocupa a presidência e até pode usar armas nucleares... (um aspecto que tem sido cuidadosamente esquecido).

21 dezembro 2018

O PRIMEIRO PRESIDENTE DA V REPÚBLICA FRANCESA


21 de Dezembro de 1958. Um colégio eleitoral de um pouco mais de 80.000 grandes eleitores procede à eleição daquele que virá a ser o primeiro presidente da V República francesa. Concorrem três candidatos e o grande vencedor é o incontornável Charles de Gaulle que recebeu 62.400 votos, o correspondente a uns conclusivos 78,5%. Os candidatos comunista (13,0%) e socialista (8,5%) receberam votações marginais. O colégio de grandes eleitores é uma vasta e heteróclita colecção de dignatários republicanos que inclui os parlamentares (deputados e senadores), os membros dos conselhos regionais e das assembleias das possessões ultramarinas e sobretudo dezenas de milhares de autarcas que constituíam a maioria dos 81.764 cidadãos com direito a voto. Esta iria ser a última vez que as eleições presidenciais se iriam disputar com este figurino. Uma alteração à constituição, aprovada por referendo em Outubro de 1962, viria a fazer com que a eleição presidencial se passasse a disputar por sufrágio universal, o que aconteceu pela primeira vez em Dezembro de 1965.

20 dezembro 2018

YOU STUPID WOMAN!...


Vai uma grande animação por Inglaterra por causa de Jeremy Corbyn ter respondido a uma diatribe de Theresa May com o comentário entredentes de «stupid woman». Mesmo que ninguém o tenha ouvido, todos o puderam ver a desabafar, lendo-lhe os lábios. Perante o encenado ultraje das bancadas conservadoras, Corbyn já teve que se vir penitenciar, mentindo com um descaramento simétrico e especificando que o que era estúpido não era a mulher (May), mas o colectivo que a suportava com os seus apartes: «stupid people». Por acaso, eu também concordo com aquilo que agora se descobriu que o líder da oposição do Reino Unido não pode dizer, mesmo em surdina, quando está sentado na «front bench» desse templo da Democracia que é o parlamento britânico: que a líder do governo está a ser estúpida demais para a ambição que quis ter quando se prestou a herdar o caos deixado pelo referendo do Brexit. E a acrescer a essa verdade elementar que não pode ser assumida, tudo o que aconteceu fez-me recordar a "punch line" que, em Allo Allo, René Artois adoptava contra a mulher Edith, cada vez que esta o apanhava em situações comprometedoras com uma das criadas: «You stupid woman!...»

A OPERAÇÃO CORVO

20 de Dezembro de 1948. Dá-se por concluída a primeira fase da Operação Corvo (Operatie Kraai, no holandês original) com a captura da cidade de Jogjacarta, que fora até aí a capital dos nacionalistas indonésios. Contudo, convirá explicar que circunstâncias haviam conduzido os holandeses a confrontarem-se com uma típica guerra colonial (koloniale oorlog) na sua colónia das Ilhas Orientais nesses anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial. Como os franceses na Indochina e como os britânicos na Malásia, os holandeses haviam também recuperado o seu estatuto de potência colonial a partir do Outono de 1945, embora com uma situação política substancialmente modificada por quatro anos de ocupação japonesa. Durante esse período, os japoneses haviam feito o possível por exacerbar as ambições nacionalistas locais, embora em seu proveito. No seu regresso, os europeus depararam-se com uma infraestrutura administrativa, política e militar instalada que lhes disputava a legitimidade colonial.
As situações descambaram repetidas vezes para a confrontação aberta, embora outras vezes fosse dissimulada. O caso concreto das Índias Orientais holandesas pode ser apreciado pelo mapa de situação reportado a 1 de Dezembro de 1948, onde se percebe coexistirem regiões que eram controladas pelos nacionalistas (assinaladas a vermelho) com outras controladas - a títulos diversos - pelas autoridades coloniais holandesas (diversos tons de azul). Na ilha de Java, a mais importante do arquipélago e onde viviam 48 dos seus 75 milhões de habitantes (64% do total), essa coabitação era ainda mais complexa, com as áreas sob as duas tutelas a serem separadas por uma designada Linha Van Mook, uma linha de cessar fogo que fora estabelecida em Janeiro de 1948 na sequência de um acordo que fora firmado para substituir um outro assinado em Novembro de 1946... Ou seja, os acordos encadeavam-se mas a situação política não estabilizava porque aquilo que as duas partes procuravam era fundamentalmente contraditório.
Em Dezembro de 1948 os holandeses consideravam que se estava novamente numa situação de impasse e foi para o romper que decidiram desencadear esta Operação Corvo. Do ponto de vista militar a sua superioridade era flagrante. Esta primeira fase da operação consistiu num lançamento surpresa de paraquedistas sobre Jogjacarta, a capital nacionalista, capturando o seu aeródromo. Foi um completo sucesso táctico. Mas, se os militares dos dois lados reagiram como previsto (i.e., os holandeses ocupando os locais estratégicos da cidade e os indonésios dispersando pela áreas rurais depois de uma defesa honrada, mas fundamentalmente simbólica), os membros do governo nacionalista (na fotografia mais abaixo e da esquerda para a direita, o vice-presidente Hatta, o presidente Sukarno e o primeiro-ministro Sjahrir), trouxeram uma perspectiva política ao conflito com o gesto de se deixarem capturar pelos soldados holandeses. Contavam com o efeito perverso que a ofensiva militar teria junto dos norte-americanos. E tiveram razão!
Recorde-se que em 1948, através do Plano Marshall, os Estados Unidos eram o financiador da recuperação económica de todos os países da Europa ocidental. Bastava que ameaçassem a suspensão das ajudas para que os países europeus vergassem e os Países Baixos não foram neste caso excepção. Às vitórias tácticas dos holandeses no campo militar sobrepôs-se a vitória estratégica dos indonésios no campo político. Assinou-se mais um acordo(!) em Maio de 1949 e a verdadeira independência da Indonésia ocorreu no final desse ano, mas só depois de uma conferência em Haia que durou mais de dois meses. Uma última herança possível de toda esta operação é que ela terá despertado algum interesse entre os militares indonésios por operações aerotransportadas: quando foi a sua vez de desencadearem uma operação muito similar - a Operação Seroja em 1975 - também os seus paraquedistas se lançaram sobre o aeroporto de Dili, para conquistar a cidade...

19 dezembro 2018

A PRISÃO DE INDIRA GANDHI E A SOBREVIVÊNCIA DA DEMOCRACIA NA ÍNDIA

19 de Dezembro de 1978. Na Índia, a antiga primeira-ministra (1966-1977) Indira Gandhi é presa. Em consequência da prisão, pela lei indiana e ao contrário do que costuma acontecer noutros países, onde os eleitos costumam gozar de algumas imunidades, Indira Gandhi perdeu automaticamente o estatuto de deputada, estatuto que ela adquirira apenas um mês antes, quando disputara uma eleição intercalar por um círculo eleitoral que lhe fora arranjado para poder regressar ao parlamento (Lok Sabha). Há quarenta anos viviam-se tempos difíceis, não apenas para os membros da dinastia Gandhi (o filho de Indira, Sanjay, fora preso ao mesmo tempo que a mãe), mas sobretudo para a Democracia na Índia. E quem começara por a pôr em perigo fora precisamente a própria Indira Gandhi cerca de dois anos e meio antes, quando decretara o estado de emergência - o período ficou conhecido como The Emergency - o que a possibilitara suspender o parlamento, governar por decreto e suspender as liberdades civis. As eleições foram adiadas e quase todos os membros destacados da oposição foram presos e a vida política da Índia naquele período é, para todos os efeitos práticos, equiparável a uma ditadura. A normalidade apenas retornou em Março de 1977, por ocasião das eleições gerais e que - importa salientar - decorreram com toda a regularidade democrática. O Congresso de Indira Gandhi foi esmagado: a sua representação parlamentar passou de 350 para 150 deputados (a própria Indira Gandhi perdeu a eleição no círculo a que se apresentou). E, na sequência, tomou posse um governo liderado por Morarji Desai (ele próprio um antigo membro agora dissidente do Congresso), que se apressou a desmontar muitas das decisões aprovadas pelo governo precedente e que se apoiava numa heteróclita coligação de adversários e inimigos políticos de Indira Gandhi. São estes últimos que vamos encontrar há precisamente quarenta anos a quererem desforrar-se de Indira Gandhi, recorrendo aos mesmos métodos que lhe haviam criticado e que haviam, aparentemente, sido uma das principais causas da sua clamorosa derrota política nas urnas. As acusações que pendiam sobre ela eram frágeis do ponto de vista jurídico e esta prisão de Indira Gandhi acabou por ter uma ressonância contrária à do que esperariam os seus promotores. Por esta vez, o aparelho judicial indiano não se quis prestar ao frete de servir de arma de arremesso dos conflitos políticos e a antiga primeira ministra acabou por ser libertada uma semana depois, apesar de visivelmente desagradada, como demonstra a fotografia abaixo. Acessoriamente, os juízes indianos terão cortado cerce a adopção de uma tradição de enviar os adversários políticos para a prisão por causas pueris e com isso salvo a vigência de um padrão mínimo de Democracia na Índia.

18 dezembro 2018

A OCUPAÇÃO FRANCESA DE ODESSA

18 de Dezembro de 1918. Soldados franceses desembarcam e ocupam a cidade (hoje) ucraniana de Odessa. A cidade, então com cerca de 400.000 habitantes, a quarta maior  e quiçá a mais cosmopolita das cidades que compunham o antigo Império Russo (a população era composta por 42,5% de russos, 36% de judeus, 15% de ucranianos, 3% de polacos, etc.), era também o seu porto comercial mais importante. Razões estratégicas impedem contudo que o porto tenha um grande valor como base naval - o acesso aos oceanos de todos os portos situados no Mar Negro é condicionado por quem controle a sua única saída no Bósforo e Istambul*. Ora os franceses haviam acabado de ocupar esta última cidade e a sua intenção era utilizar as instalações portuárias de Odessa para dali prestarem apoio militar/logístico às diversas formações que, na Ucrânia e na Rússia, combatiam o poder bolchevique. A ideia parecia interessante quando configurada em Paris mas, no terreno, as realidades parecem ter-se sobreposto aos estrategas de salão: a ocupação francesa de Odessa durou tão somente três meses e meio: assim com o chegaram, partiram a 3 de Abril de 1919.
* Um pormenor que Vasco Pulido Valente aqui há uns tempos não parece ter percebido lá muito bem.

OS DUPONDT DO ROUBO DE TANCOS

Depois de há dezassete meses o caso das armas de Tancos ter sido pretexto para verdadeiros disparates de alarmismo (ver o texto da época de Nuno Rogeiro), agora parece estar a caminhar-se para o exagero oposto: atribuir-se a autoria do roubo a suspeitos que se denomina por Laranjinha e Caveirinha (quase a fazer lembrar uma dupla de palhaços ou de personagens secundárias das histórias de Tintin) só servirá para pretender transformar todo o caso numa história para não ser levada muito a sério.

17 dezembro 2018

AS DECLARAÇÕES DO EMBAIXADOR

17 de Dezembro de 1938. Numa das páginas interiores do Diário de Lisboa, com as últimas notícias do estrangeiro, podia-se ler as declarações do embaixador norte-americano no Reino Unido, quando da sua chegada a Nova Iorque, para um pequeno período de férias por ocasião do Natal. Dizia então ele que «a situação na Europa não é (era) para optimismos. Acrescentava que estava de acordo com o presidente Roosevelt sobre a necessidade de se aumentarem as forças armadas nacionais. Referindo-se às perseguições dos judeus na Alemanha, disse que elas constituíam a coisa mais horrível que conhecera em toda a sua vida». Ora aqui está quem não se precavia nas palavras, nem acalentava expectativas de um compromisso funcional com o expansionismo alemão. Para ele, a guerra parecia estar prestes a eclodir (como de facto aconteceu) e a quadra natalícia não lhe pareceria razão para amenizar as suas impressões junto da opinião pública do seu país. O embaixador em questão chamava-se Joseph Kennedy (1888-1969), era o pai do futuro presidente John Kennedy (1917-1963), e, ao contrário do filho, tem hoje uma imagem histórica negativa como appeaser para com Hitler e como anti-semita. A verdade é que a sua curta carreira como embaixador em Londres (1938-40), saldou-se por um fiasco: os britânicos antipatizaram profundamente consigo. Tão má é a imagem que, em Fatherland, uma distopia de História alternativa escrita em 1992, em que o factor pivot é a vitória da Alemanha na Segunda Guerra Mundial e cuja acção decorre em 1964, Joseph Kennedy é que aparece como presidente dos Estados Unidos em vez do filho. E um presidente contemporizador para com o führer Adolf Hitler, nesse universo paralelo em que a Guerra Fria se travava entre os Estados Unidos e a Alemanha. E contudo, se atentarmos àquelas suas declarações (reais) de há 80 anos, torna-se difícil compatibilizar as duas impressões da mesma pessoa.

16 dezembro 2018

OPERAÇÃO RAPOSA DO DESERTO


16 de Dezembro de 1998. Sete anos passados sobre a Guerra do Golfo de 1991 tornara-se perceptível que a situação política alcançada na região, com a permanência de Saddam Hussein ainda à frente dos destinos do Iraque, fora uma solução ainda instável. Saddam Hussein sempre se mostrou um vencido muito pouco convencido. E a relação entre os iraquianos e as autoridades da ONU, encarregues de monitorizar os programas de desarmamento e de bom comportamento, a que os iraquianos se haviam originalmente comprometido por ocasião da derrota, essa relação tornara-se disfuncional. Foi tomando por pretexto mais um encadeado de incidentes, que os Estados Unidos (com o seu aliado britânico) desencadearam há precisamente 20 anos uma operação a que deram o nome de Desert Fox. Tratou-se de mais uma série de bombardeamentos a objectivos militares iraquianos que, desta vez, se iriam prolongar por quatro dias (16-19 Dezembro). Como seria de esperar, no fim, a operação foi considerada um sucesso pelos promotores, mas, tal como também seria de esperar, a comunicação social não tinha condições de fazer uma avaliação independente sobre o assunto - limitava-se a transmitir as tão apreciadas imagens dos bombardeamentos nocturnos de Bagdade (acima), um verdadeiro espectáculo de fogo de artificio que saía muito bem nas televisões! Por coincidência (ou talvez não...) por aqueles dias decorriam em Washington os trabalhos da Câmara de Representantes a respeito do «impeachment» do presidente Bill Clinton por causa do Caso Lewinsky. As votações que o condenaram por perjúrio e obstrução à justiça tiveram lugar em 19 de Dezembro e houve quem tivesse memória para se lembrar da enorme coincidência de tudo o que estava a acontecer com o enredo do filme Wag the dog (Manobras na Casa Branca), que estreara no princípio daquele ano...

15 dezembro 2018

FINALMENTE O GALILEU

15 de Dezembro de 2016. Foi apenas há dois anos que os primeiros serviços do sistema europeu de posicionamento global Galileo se tornaram operacionais. A conclusão da montagem do sistema só está prevista para 2020, quando todos os 24 satélites de referenciação se tornarem operacionais (abaixo), muito embora o sistema contasse já este Verão com mais de 200 milhões de utilizadores. Mas a questão que se põe, quando se sabe que o sistema norte-americano rival GPS entrou já nos hábitos de consumo por todo o mundo, é a razão para esta insistência europeia (cara: orçada em 10 mil milhões de euros) de querer criar o seu próprio sistema de posicionamento. Uma atitude em que a Europa é, aliás, acompanhada tanto pela China (Compass) quanto pela Rússia (Glonass). A verdade é que todos estes sistemas (e aqui já estou a falar de muitos outros, para lá dos de posicionamento), por muito complexos que sejam, por muito globalizados que estejam, têm sempre não apenas um dono, mas uma autoridade por detrás, a quem esse dono tem de prestar contas. E quem dirige as potências não está disposto a depender de outras potências em aspectos que sejam considerados primordiais. Por muito ricos que os donos possam ser, Zuckerberg é que é a realidade frágil, os Blofelds são só para aparecer nos filmes de James Bond.

14 dezembro 2018

AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES BRITÂNICAS DEPOIS DO FIM DA GRANDE GUERRA

Sábado, 14 de Dezembro de 1918. Foi nesse dia que, em Lisboa, o presidente Sidónio Pais foi assassinado a tiro na estação de caminho de ferro do Rossio, quando se preparava para apanhar um comboio para o Porto. Mas essa efeméride será melhor assinalada noutros locais. No Reino Unido disputaram-se eleições legislativas, as primeiras que tinham lugar depois de oito anos - dos quais, mais de quatro anos com o Reino Unido engajado na Grande Guerra. Foram eleições notáveis, pode-se dizer mesmo históricas, em mais do que uma perspectiva. Em primeiro lugar, foi a primeira vez que os actos eleitorais decorreram simultaneamente nos 707 círculos eleitorais (por sinal, um número record de círculos eleitorais, nunca mais repetido). Dada as características do sistema eleitoral britânico, em que a eleição em cada círculo é independente dos restantes, as eleições decorriam tradicionalmente ao longo de semanas (as anteriores haviam sido de 3 a 19 de Dezembro de 1910), conforme as conveniências locais. Mas esta foi a primeira vez em que o acto eleitoral foi simultâneo para todo o país, como hoje é prática corrente em quase todas as eleições em toda a parte. Em segundo lugar, e também pela primeira vez, nestas eleições participaram todos os britânicos maiores de 21 anos e também as britânicas maiores de 30 anos. Não só o direito de voto foi concedido a todos os homens adultos como também às mulheres maiores de 30 anos. A justificação apresentada para a discrepância de idades entre os dois sexos prende-se com os efeitos que a Primeira Guerra Mundial causara na diminuição do eleitorado adulto masculino britânico (mais de 700.000 mortos). Mas o efeito da expansão foi o eleitorado potencial praticamente triplicar de 1910 para 1918, de 7,7 milhões de eleitores potenciais para 21,4 milhões. Mas, por causa dos milhões ainda incorporados no exército e estacionados em França (o armistício que pusera fim à Primeira Guerral Mundial fora assinado há apenas um mês) e que não tiveram condições de poder votar, a afluência às urnas ficou em menos de metade do seu potencial: 10,4 milhões de eleitores (49%). Mas é só tomando em consideração todas estas circunstâncias e também a profunda mudança de natureza do eleitorado que se pode compreender alguns dos resultados eleitorais que essas históricas eleições de há cem anos vieram mostrar.
A vitória foi para os Conservadores (assinalados a azul claro) que, com 38,4% dos votos, conseguiram a maioria absoluta dos lugares da Câmara dos Comuns (382). A sua vitória foi ampliada pelo facto de os seus tradicionais rivais, os Liberais, se terem apresentado ao escrutínio divididos entre apoiantes do primeiro ministro David Lloyd George (a amarelo claro) e do seu antecessor Herbert Asquith (em amarelo escuro). Em conjunto eles representavam 26,4% dos votos, só que divididos quase igualmente entre ambos (13,4% e 13,0%, respectivamente), embora as peculiaridades do sistema eleitoral fizesse que os apoiantes de Lloyd George (em concertação com os Conservadores seus aliados) tivessem conquistado 127 lugares, enquanto que os de Asquith se ficaram apenas pelos 36 (o próprio Asquith perdeu a eleição no círculo onde se apresentava). A terceira grande formação política da Grã-Bretanha eram os Trabalhistas (vermelho), a quem a extensão dos direitos de voto haviam feito triplicar o resultado eleitoral (20,8% dos votos), embora isso não se tivesse traduzido numa subida equivalente da sua representação parlamentar (57). Mas tudo isso era o retrato eleitoral da Grã Bretanha. Na Irlanda (que também fazia parte do Reino Unido), o panorama era dominado pela cor verde escura dos nacionalistas radicais do Sinn Féin. A votação alcançada por eles não impressionava quando contabilizada face ao total (4,6%), mas a realidade política era bem outra quando se tomava em consideração que eles haviam concorrido apenas na Irlanda, onde haviam conquistado 73 dos 105 lugares em disputa. Também eram os responsáveis por uma outra novidade: a primeira mulher a ser eleita para a Câmara dos Comuns, Constance Markievicz. Contudo, tanto ela quanto os outros 72 eleitos da sua formação recusaram-se a tomar assento no parlamento londrino. O que fizeram foi reunirem-se em Dublin para aí constituírem o primeiro parlamento irlandês. Como se depreenderá, estas eleições de há cem anos foram as últimas em que a Irlanda acompanhou o resto do Reino Unido no mesmo momento político, embora os nacionalistas o tivessem aproveitado para um outro propósito. Quanto ao partido Liberal, dividido, implodiu, e a alternância democrática passou a fazer-se entre os Conservadores e os Trabalhistas. E quanto à participação feminina na política, o Reino Unido é um dos pouco países no Mundo que conta já com duas primeiras-ministras. Este é o que se pode designar por um acto eleitoral que foi uma charneira da História, mas os eleitores que nele participaram não tinham forma de o saber.

13 dezembro 2018

O CINQUENTENÁRIO DA PROMULGAÇÃO DO ACTO INSTITUCIONAL Nº 5 NO BRASIL

13 de Dezembro de 1968. Depois de quatro anos e meio de tentativas dos militares brasileiros para que o regime que eles desejavam para o Brasil tivesse uma aparência de democracia controlada (por eles), há cinquenta anos, os militares aborreceram-se e promulgaram este Acto Institucional nº 5 (AI-5), que os fazia assumir poderes como nunca até então. (Acima vê-se a primeira, penúltima e última página do documento conjuntamente com o presidente Artur Costa e Silva, o general que corporizava as novas relações de poder que o novo documento vinha permitir (de acordo com o que se pode ler na wikipedia):

O presidente da República recebeu autoridade para encerrar tanto o congresso nacional quanto as assembleias legislativas dos estados; esse poder foi usado logo após o AI-5 ter sido assinado, com o encerramento do congresso nacional e de todas as assembleias legislativas dos estados brasileiros (com exceção do de São Paulo) por quase um ano; esse mesmo poder de encerramento do congresso nacional seria novamente usado em 1977, durante a implantação do pacote de Abril;
O presidente da República e os governadores dos estados passaram a assumir, durante os períodos de encerramento forçado das legislaturas, as funções do poder legislativo federal e estadual, respectivamente, competindo ao presidente e aos governadores legislar através de decretos-leis que tinham a mesma força e efeito que as leis aprovadas pelas legislaturas. Esse poder incluiu o poder de legislar emendas constitucionais. Uma emenda constitucional global da Constituição de 1967 do Brasil (já adotada no âmbito do regime militar) foi promulgada em 1969 (Emenda Constitucional nº 1, também conhecida como a Constituição de 1969, porque todo o texto alterado e consolidado da Constituição foi reeditado como parte da emenda), sob a autoridade transferida para o executivo pelo AI-5.
Foi concedida a permissão ao governo federal, sob pretexto de "segurança nacional", para poder intervir em estados e municípios, suspendendo as autoridades locais e nomeando interventores federais para os dirigir em caso de necessidade;
Foi instaurada a censura prévia à música, cinema, teatro e televisão (uma obra poderia ser censurada até mesmo por motivos vagos, como subversão da moral ou dos bons costumes) e a censura da imprensa e de outros meios de comunicação;
Estabeleceu-se a ilegalidade para a realização de reuniões políticas desde que não autorizadas pela polícia; houve também diversos recolheres obrigatórios por todo o país.
Deu-se a suspensão do habeas corpus quando os crimes fossem considerados de motivação política.
O presidente da República recebeu o poder de destituir sumariamente qualquer funcionário público, incluindo políticos oficialmente eleitos e juízes, se eles fossem considerados subversivos ou não-cooperativos com o regime. Este poder era amplamente utilizado para desocupar os assentos dos membros da oposição no poder legislativo, de forma a que as eleições fossem realizadas como de costume, mas que a composição do legislativo resultante das eleições seria dramaticamente alterada pela cassação de mandatos de parlamentares da oposição, efetivamente transformando as legislaturas federais, estaduais e municipais em corpos subordinados aos militares. A cassação dos mandatos de parlamentares da oposição também afetou a composição do colégio eleitoral do presidente da República (sob as Constituições de 1967 e 1969, adotadas sob o regime militar, o presidente foi escolhido por um colégio eleitoral constituído por todo o congresso nacional e de delegados escolhidos pelas assembleias estaduais). Assim, não só as eleições para o poder executivo foram indiretas, mas as vagas criadas na composição dos órgãos legislativos afetaram a composição do colégio eleitoral, de modo que também se tornou um órgão subordinado aos militares.
O presidente recebeu também o poder para decretar a suspensão dos direitos políticos dos cidadãos considerados subversivos, privando-os da capacidade de votação ou de eleição por até dez anos .
Estabeleceu-se a legitimidade instantânea de certos tipos de decretos emitidos pelo presidente, que deixaram de estar sujeitos a qualquer revisão judicial. De acordo com essas disposições, os Actos Institucionais, e qualquer ação baseada num Acto Institucional (como decretos que suspendessem direitos políticos ou removessem alguém de algum cargo), não estavam sujeitas a fiscalização constitucional.

A natureza do regime vigente no Brasil tornou-se evidente.

O PRIMEIRO PRESIDENTE AMERICANO NA EUROPA

13 de Dezembro de 1918. Depois de uma viagem de nove dias, o presidente Woodrow Wilson chega à Europa, desembarcando no porto francês de Brest. Trata-se da primeira vez que um presidente norte-americano em funções se deslocava à Europa, mas a sua presença torna-se indispensável para as negociações de pós guerra que iriam culminar com a assinatura do Tratado de Versalhes. Esta ia ser a primeira visita de muitas visitas de muitos presidentes americanos ao velho continente mas, ao vermos o instantâneo em que se vê o presidente a passar o portaló, tendo dado a precedência à sua esposa Edith, percebe-se que, algures nestes cem anos, houve qualquer coisa que se perdeu em termos de boa educação entre os ocupantes da Casa Branca...

12 dezembro 2018

VEJA AQUI AS NOTÍCIAS DO OBSERVADOR, DE UM RIGOR CIENTÍFICO INULTRAPASSÁVEL

Antes de ler o que escrevi, sugiro que os leitores comecem pela notícia abaixo, publicada ontem no Observador, tomando nomeadamente em consideração a passagem repetidamente enfatizada.
Se acabou de ler o artigo, o que lhe proponho em alternativa à audição do barulho do vento marciano que ali lhe é proposta, é a assistência - ainda que por pouco mais de três minutos - a uma conferência que já teve lugar há mais de seis anos, onde a conferencista, a professora de astronomia Carolin Crawford, recorda o episódio (considerado épico) da chegada da sonda Huygens a Titã. Como ela recorda, durante a descida, um microfone instalado na sonda foi captando os sons da atmosfera de Titã. Aconteceu em 14 de Janeiro de 2005 (no próximo mês completar-se-á o 14º aniversário...).

A jornalista responsável pela redacção não terá lido em nenhum site de confiança (como o da NASA) a afirmação de que se tratava d"o primeiro som captado noutro planeta". Deu-lhe para ali. Tivesse feito uma pesquisa mínima e teria chegado à conferência acima de Carolin Crawford onde ela explica até o que aconteceu (de mal) com as tentativas anteriores de captar o som da atmosfera marciana. Isso mas também o facto de já existirem registos sonoros da atmosfera de Titã (abaixo). Há um pormenor que servirá para Marta Leite Ferreira brandir, na tentativa de amenizar a dimensão da incompetência:
É que Titã não é tecnicamente um planeta, mas sim um satélite de Saturno. É frequente assistir-se a discussões assim, em que a parte perdedora se agarra a tecnicismos para não conceder a razão. Neste caso (se o caso se puser, pois suspeito que a questão estará muito para além dos conhecimentos da jornalista), convém ter presente que Titã é até ligeiramente maior que Mercúrio. Mas não valerá a pena elaborar muito mais sobre um caso que se afigura transparente: quem escreveu sobre o assunto não percebe a ponta de um corno dele. José Manuel Fernandes é que não se arrisca a escrever sobre astronomia para o apanharmos assim...

O MASSACRE DE BATANG KALI

Já aqui demonstrei neste blogue por mais do que uma vez a minha admiração, acompanhada do meu desdém, pela forma como os britânicos deturpam hipocritamente a sua História quando os factos se mostram desagradáveis para a sua reputação. O caso que hoje evocarei, ele situa-se no quadro de uma guerra colonial que os britânicos travaram na Malásia entre 1948 e 1960. Mas, como as designações são muito importantes, neste caso, não terá havido uma guerra colonial, mas apenas uma «emergência», ficção que ainda hoje perdura (acima). Porém e tirando a nomenclatura, e como «emerge» da crueldade da fotografia central, o que ali se passou assemelhou-se em quase tudo às guerras de retardamento da retirada que outras potências europeias travaram naquelas mesmas paragens da Ásia, como aconteceu com os franceses na Indochina (1946-54) e os holandeses na Indonésia (1945-1949). Até nos aspectos mais sangrentos das acções de subversão e contra-subversão, como é o caso dos massacres perpetrados pelos combatentes sobre a população civil. O que nos transporta até ao dia 12 de Dezembro de 1948, cumprem-se hoje 70 anos. Quando um pelotão de soldados britânicos dos Scots Guards ocupou a aldeia de Batang Kali no estado de Selangor e ali executou 24 aldeões, queimando depois a aldeia, que era povoada por chineses e, por isso, considerada muito mais permeável à subversão. Episódios como este terá havido, infelizmente, milhares em todas as guerras com aquelas características. Mas o que merece o destaque deste massacre é a atitude hipócrita, sempre sob a aparente cobertura do primado da lei, que as autoridades britânicas adoptaram nos 70 anos que se lhe seguiram. Havia testemunhas, havia uma proclamada disponibilidade dos britânicos em reanalisar o assunto e depois, há os resultados: em 42 anos, de 1970 a 2012 (veja-se abaixo a referência ao 'massacre'), conseguiu-se sempre concluir (oficialmente!) que não se conseguia concluir coisa alguma.