30 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (23)

Mais do que a sede de Martin Milan, é o detalhe (inconfessável) do inspector Schnockmaster se entreter a encher o seu cantil com aguardente que vai ter um impacto decisivo para o desenrolar dos acontecimentos.

«THE SHOW OF MAY 68 WASN'T OVER TILL THE FAT LADY SANG...»


30 de Junho de 1968. Conforme já ficara indiciado pelos resultados da primeira volta disputada uma semana antes, os da segunda volta realizados neste dia de há cinquenta anos em França confirmavam a vitória esmagadora das formações que apoiavam o governo (abaixo a composição da Assembleia nacional em que as formações governamentais estão assinaladas a azul) e a derrota dos contestatários. Depois das vicissitudes de Maio de 1968 e na primeira vez que o povo francês foi chamado a pronunciar-se, o povo elegeu uma representação em que quase ¾ dos eleitos (72,7%) eram contra o clima que se criara. A Esquerda democrática e a outra sofreram uma derrota colossal, perdendo mais de metade da representação parlamentar. E foi assim que terminou o Maio de 68, com uma sanção inequívoca dos franceses a tudo o que acontecera no mês anterior, algo que as evocações dos acontecimentos se esquecem expressamente de mencionar.

«HÁ QUE VIOLENTAR O SISTEMA...»

Grande instantâneo de Marcelo em palco, ao lado do Tim, a fazer os coros dos Xutos. Com eles, e ao lado do Kálu, esteve o Fefé dos Assembleia da República (escondido entre os dois) e a emparceirar com o Cabeleira esteve o Chamuça dos Equipa Governamental (à direita a bater palmas para marcar o ritmo). Em relação às grandes figuras tradicionais do protocolo de Estado, notou-se no palco do Rock in Rio a ausência (inexplicável) dos dois presidentes dos Supremos Tribunais. O instantâneo e as figuras de Estado rockstars fizeram-me lembrar um dos êxitos de outra veterana banda punk, predecessora e por uns tempos rival dos Xutos & Pontapés nos idos anos dos finais da década de 1970, e que se chamava Aqui d'El-Rock. «Há que Violentar o Sistema*» chamava-se esse grande êxito musical de há 40 anos e ontem o que se podia observar em palco era o sistema completamente violentado...

* Os Xutos & Pontapés de então não se dedicavam a essas análises político sociais mas a sua intenção de confrontar a sociedade era idêntica, recorde-se que o seu primeiro grande sucesso se intitulava Sémen.

29 junho 2018

A ESTAFADA CONVERSA DO «AMOR À CAMISOLA»

Esta primeira notícia foi publicada num vespertino lisboeta em 29 de Junho de 1989, há precisamente 29 anos. A notícia abaixo tem um punhado de dias. E nota-se um padrão comum nas duas. Por grande que seja o alívio dos sportinguistas pelo afastamento de Bruno de Carvalho, convém que as suas ilusões não deixem passar o quanto o estilo de Sousa Cintra pertence a toda uma outra era. Se há 29 anos o discurso do empenho desinteressado já era inverosímil, actualmente utilizar o tema tornou-se de um ridículo caduco, num negócio que movimenta muitos mais milhões do que há 29 anos. Sousa Cintra terá sido uma solução de compromisso, quiçá a única solução de compromisso aceitável pelas várias facções que se mobilizaram para a destituição de Bruno de Carvalho, mas a vetustez do protagonista, do seu discurso e do seu estilo mostra que esta solução tem que ser muuuuito transitória...

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (22)

DESEJOS INCONFESSADOS

Creio que a todos nós já nos surgiu a tal ocasião em que desejámos íntima e vingativamente estar a conduzir um blindado para podermos deixar uma marca indelével naquele carro que está particularmente mal estacionado e que nos bloqueia ou dificulta a manobra... Um pequeno momento de egoísmo infinito mas recíproco, em que nos estamos a cagar completamente para os problemas que possamos causar ao dono do carro potencialmente abolachado, tão completamente como ele se esteve a cagar para nós quando estacionou naquelas condições.

(MAR)CELO in the USA!!!


Como diria o Celo nos tempos em que dava notas na rádio: - Muito Bom! 19 valores!

28 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (21)

PODE-SE MESMO DIZER QUE FOMOS VERDADEIRAMENTE COLHIDOS DE SURPRESA PELO ANÚNCIO...(2)

...de uma nova obra de Vasco Pulido Valente. E que o estilo de promoção da obra seja precisamente o mesmo do das obras anteriores: o autor é dado como referência incontornável da paisagem cultural, há uma entrevista provocatória, ilustrada por fotografias suas com muitos livros por detrás, onde o entrevistador recolhe um conjunto de conclusões iconoclásticas que se adivinham ser o resultado da sua maturada reflexão - também conhecidas por bojardas quando as conversas culturais se travam nas tabernas - e que depois afixa em título. Como com Pedro Santana Lopes, embora por razões distintas, não é preciso coerência ou consistência, o que é interessante é o estilo, o que é preciso é que o livro se venda... E que haja uma sociedade que aceite indiferente estas palhaçadas.

PODE-SE MESMO DIZER QUE FOMOS VERDADEIRAMENTE COLHIDOS DE SURPRESA PELO ANÚNCIO...(1)

...que Pedro Santana Lopes deixa o PSD e prepara novo partido. De facto, considerados os (à volta de) dezasseis anúncios idênticos de dissidência que já fez ao longo dos seus trinta e tal anos de política, entremeados das mais apaixonadas proclamações em prol da unidade desse mesmo PSD, nada fazia prever que ele teria o descaramento de recorrer ainda a esse estafado expediente do anúncio da criação do novo partido para readquirir cartaz mediático. Vamos lá a ver se desta vez também torna a convidar Pacheco Pereira para acompanhá-lo... E haja jornalismo que não se atreva a realçar o quanto tudo é ridículo.

27 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (20)

Assinale-se o empenho como Martin Milan, sendo um estrangeiro na Eslavónia como se viu no início da história, abraça o patriotismo do país de residência.

MORDE AQUI A VER SE EU DEIXO...

Para o próximo jogo entre Portugal e o Uruguai sugiro que Fernando Santos coloque Pepe numa marcação directa a Luis Suárez. Pode ser que haja um espectáculo dentro do (verdadeiro) espectáculo e, na bestialidade, estarão bem um para o outro...

O MANIFESTO DAS DUAS MIL PALAVRAS

27 de Junho de 1968. Publicação na Gazeta Literária (Literární Listy, acima) e em outros três jornais checos de um manifesto intitulado Duas Mil Palavras (Dva Tisíce Slov), comentando o processo de transformação por que estava a passar a Checoslováquia desde o princípio daquele ano de 1968, após a eleição de Alexander Dubček para a direcção do partido comunista checoslovaco. O autor do manifesto chamava-se Ludvík Vaculík (1926-2015). Pelos padrões de hoje, o conteúdo do manifesto revela-se contido, consagrando, por exemplo, o axioma comunista da manutenção do papel dirigente do partido na condução dos destinos do país, apelando apenas para que houvesse um mais amplo e mais transparente escrutínio à actividade dos seus quadros, escrutínio para o qual se tornaria indispensável a existência de uma imprensa livre (aqui pode consultar-se uma versão condensada do manifesto - em inglês!). Mas o que se publicara era apenas ilusão e teoria. Na prática, para os sectores conservadores dos comunistas checos, assim como para os seus aliados soviéticos, a publicação do manifesto foi interpretada convenientemente como uma indicação de que o processo de liberalização da Checoslováquia, a denominada Primavera de Praga, estava a escapar ao controle dos quadros que haviam assumido o KSČ com Dubček. Hoje, e apesar da moderação que o tempo lhe veio conferir, o Manifesto das Suas Mil Palavras é considerado como um dos estopins da invasão da Checoslováquia de Agosto de 1968. É que quando a vontade de prevaricar está enraizada - e aqui a prevaricação é invadir o país vizinho! - os pretextos para o fazer nem precisam de ser consistentes.

26 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (19)

O CENTENÁRIO DA BATALHA DO BOSQUE DE BELLEAU

26 de Junho de 1918. Há precisamente cem anos concluía-se a Batalha do Bosque de Belleau (Bois de Belleau no francês original, Belleau Wood para os americanos que a venceram e promoveram), um feroz embate táctico entre as energias das últimas ofensivas do exército alemão e a resistência encarniçada por parte das unidades do recém chegado exército norte-americano, que ali provaram o seu valor. Entre estas, e apesar do bosque se situar a quase 200 km de distância do mar, alguns batalhões do Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos. Como aconteceu recorrentemente ao longo da Primeira Guerra Mundial, mesmo as unidades tradicionais tiveram de combater nos locais e com os meios que as circunstâncias da guerra impuseram, esquecendo o papel tradicional que lhe fora atribuído. Foi assim com as unidades da cavalaria tradicional, que passaram toda a guerra apeados dos seus cavalos a combater nas trincheiras, e foi assim com os fuzileiros, que passaram a guerra a combater a centenas de quilómetros do mar. Pelos padrões das grandes batalhas da Frente Ocidental, e tomando o número de baixas como indicador da violência dos combates, a Batalha do Bosque de Belleau terá sido um enfrentamento muito secundário: os norte-americanos tiveram dez mil baixas, dois mil mortos e oito mil feridos (enquanto, para comparação, as baixas francesas e britânicas nas verdadeiras grandes batalhas do conflito - Verdun, Somme - se contam pelas centenas de milhar...). Mas a ocasião foi sublimada para a promoção não apenas da atitude dos norte-americanos, como sobretudo da conduta do seu Corpo de Fuzileiros (abaixo). Um agradecido governo francês foi cúmplice nessa acção promocional. Laços de cumplicidade que se perpetuaram para lá do fim da guerra, numa espécie de penhor que os dois governos invocavam quando precisavam de reanimar as relações entre os dois países. Em 1942, por exemplo, deu-se o nome simbólico de Belleau Wood a um porta-aviões norte-americano; esse mesmo navio, com o nome Bois Belleau, veio a ser posteriormente emprestado à França entre 1953 e 1960. Depois disso, entre 1978 e 2005, os norte-americanos baptizaram um grande navio anfíbio com o mesmo nome. O tópico do bosque de Belleau parece ser um daqueles assuntos em que a França e os Estados Unidos podem se reconfortar num assentimento diplomático tácito. Ou, pelo menos, parecia ser assim. Na sua recente visita a Washington, em Abril deste ano, Macron trouxe um carvalho daquele famoso bosque que foi replantado numa photo-op pelos dois presidentes nos jardins da Casa Branca. Mas, apesar de centenário, o tradicional efeito apaziguador de Belleau parece não estar a sortir efeito com Donald Trump.

25 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (18)

O INÍCIO DA GUERRA DA COREIA

25 de Junho de 1950. Sem quaisquer preliminares diplomáticos para, ao menos, constituírem uma capa de justificação, a Coreia do Norte invade a Coreia do Sul. Hoje percebe-se que se tratou de um erro crasso de interpretação das intenções norte-americanas por parte dos soviéticos e de Estaline. Estes não se deviam ter esquecido como os seus adversários americanos e Harry Truman acabavam de enfardar a vitória dos comunistas na Guerra Civil chinesa (em 1  de Outubro de 1949). Às naturais ambições regionais do coreano Kim Il Sung em querer fazer também um bonito no seu país, o senhor do Kremlin devia ter balanceado a capacidade de encaixe de Washington, que Estaline evidentemente sobrestimou. De resto, e nessa mesma perspectiva, é bem verdade que Ho Chi Minh andava a fazer uma coisa parecida no Vietname, mas aí a guerra era anti-colonial e assimétrica, enquanto que na Coreia e desde o princípio se tratou de uma guerra civil e convencional, com os beligerantes em pé de igualdade. O discurso propagandístico dos invasores pela libertação dos seus compatriotas do sul, tinha uma analogia mais do que evidente no exemplo da Alemanha dividida, assustando toda a Europa democrática. E se esse não era um problema de Kim Il Sung, seria um (grande) problema de Estaline. Mas os americanos caíram no erro de presumir que Estaline nunca cairia nesse erro de dar carta branca a Kim. É interessantíssimo analisar o que aconteceu desde que se saibam umas coisas sobre a Guerra da Coreia...
E é tanto mais interessante saber sobre o tema, quanto se assistiu em meados deste mês e a pretexto da cimeira de Singapura, a uma profusão de conversas a respeito das sequelas dessa Guerra da Coreia em que a máquina promocional da administração americana - e a máquina comunicacional que lá vai beber - se distinguiu - como de costume - pela ignorância asinina. Como de costume, esta de Singapura - são todas! - foi mais «uma cimeira histórica», descontando todas as outras cimeiras históricas (abaixo, em 2000 e 2009, as cimeiras com a secretária de Estado Madeleine Albright e com o ex-presidente Bill Clinton), das quais não resultou a ponta de um corno de resultados tangíveis... Se Donald Trump estiver agora disposto a ceder onde os antecessores não o fizeram, aí talvez o panorama mude, mas será que ele tem a capacidade de manobra que Harry Truman há 68 anos não tinha?...



O COMEÇO DO BLOQUEIO DE BERLIM OCIDENTAL

Há 70 anos, o bloqueio de Berlim ocidental não se consumou de um dia para o outro. A partir de 18 de Junho de 1948, data em que as restantes potências ocidentais (Estados Unidos, França e Reino Unido) anunciaram a introdução de uma nova moeda, o Deutsche Mark, nas suas respectivas regiões de ocupação, os soviéticos retaliaram colocando progressivas dificuldades ao tráfego rodoviário, ferroviário e fluvial entre Berlim ocidental e as regiões administradas pelos Aliados ocidentais. Até que em 24 de Junho, escassos dias depois, todo o tráfego foi parado. E a 25 de Junho, cumprem-se hoje precisamente 70 anos, os russos chegaram ao limite de cortar o fornecimento de víveres aos sectores ocidentais de Berlim, como noticiava acima o Diário de Lisboa desse dia, numa página do interior. Será o dia em que, considerada a gravidade da situação (havia reservas alimentares em Berlim para 36 dias), as potências ocidentais colocaram pela primeira vez a hipótese de reabastecer a cidade pelo ar. Se a situação internacional parecia quente, pelo destaque que era conferido à situação na Alemanha naquele jornal, o leitor português não o compreenderia. Este é apenas mais um dos milhares de exemplos em que o jornalismo passou ao lado da História. Em contraste, verdadeiramente quentes apresentavam-se as temperaturas na capital, com a crónica do lado a falar de uma «cidade de mármore» a passar por uns «37, 6º graus à sombra». Eram ondas de calor que já aconteciam mesmo antes do clima estar todo alterado...

24 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (17)

Não esquecer a senha de reconhecimento: «Groargreugro, com um argreu entre os dois gros». É uma infelicidade que a frase não possua o reconhecimento e o prestígio intelectual de algumas réplicas dos Monty Python.

SILVIO «BUNGA BUNGA» BERLUSCONI

24 de Junho de 2013. Há precisamente cinco anos, um tribunal de Milão condenava o antigo primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi a sete anos de prisão, assim como à sua inabilitação perpétua para o exercício de cargos públicos. O que dava interesse ao desfecho é que se tratava da primeira condenação de Berlusconi, depois de uma variada litigância de décadas, contando-se os processos implicando Berlusconi por mais de uma trintena! Mas ainda não será dessa vez: dos sete anos de prisão, Berlusconi cumpriu zero dias. A sua inabilitação e a sua condenação foram anuladas por uma sentença de um tribunal da Relação pouco mais de um ano depois. Agora, antecipem que vai acontecer precisamente o mesmo em Portugal com José Sócrates, com Ricardo Salgado, com Zeinal Bava, com Miguel Macedo, etc., porque por cá também parece adivinhar-se existir uma impunidade legal (na prática) para réus de estatuto superior...

23 junho 2018

A SAGA DOS IMIGRANTES INGRATOS

Estas duas vinhetas foram publicadas nos finais do século XIX pela revista satírica norte-americana Puck. Convém esclarecer que o fundador e principal desenhador da publicação em causa, que aparecera em 1871, se chamava Joseph Keppler, nascido em Viena de Áustria. Mais: durante boa parte da sua existência, a revista, embora publicada nos Estados Unidos, tinha duas edições: uma em inglês, outra em alemão. A simpatia para com a causa dos imigrantes seria, por causa disso, indiscutível. Estes dois desenhos, ambos da autoria de Keppler e separados por uns dez anos mostram, a esse respeito, um fenómeno social recorrente, embora nada altruísta. Na vinheta de cima, publicada por volta de 1880, os imigrantes são acolhidos de braços abertos numa arca de refúgio por uma figura assemelhando-se ao Tio Sam. Na tabuleta são-lhes prometidas que não haverá «impostos opressivos», «monarcas dispendiosos», «serviço militar obrigatório», «chicotes», nem «masmorras». Na vinheta de baixo, antigos imigrantes (conforme se percebe pelas silhuetas das suas figuras aquando da chegada à América que são projectadas na parede atrás deles), agora já bem instalados na vida, manifestam-se ostensivamente contra a chegada de mais imigrantes, companheiros de infortúnio e de ambições. O desenho será de cerca de 1890, Keppler morreu em 1894 e conhecia bem os meios dos imigrantes bem sucedidos - ele próprio tornara-se num, o que não o impedia de os satirizar, como aqui se vê. Curiosamente, foi num ano bem próximo a estes (1892), aquele em que Friedrich Trump, o imigrante bávaro que foi o avô paterno de Donald, obteve a sua naturalização, depois de ter chegado à América sete anos antes. Como se vê pelo que está a acontecer, em 130 anos pode-se apagar a memória dos homens, sem que nada se modifique na natureza humana.

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (16)

A MOÇÃO DE CENSURA AO GOVERNO AUSTRALIANO

23 de Junho de 1943. Foi por apenas um voto que, há precisamente 75 anos, a moção de censura que fora apresentada pela oposição acabou sendo derrotada no parlamento australiano. Porém, o primeiro-ministro trabalhista Jonh Curtin (foto acima) aproveitou a ocasião para solicitar ao governador-geral da Austrália, Lorde Gowrie, para que este, em nome de Jorge VI, dissolvesse a Câmara e se convocassem eleições gerais. A dimensão das pequenas noticias locais como estes acontecimentos eram noticiados na imprensa portuguesa (quando em comparação com o destaque como se noticiava o que acontecia, por exemplo, na Argentina), davam a indicação do quão pouco nos interessaria aquilo que se passava daquele lado do Mundo, apesar da proximidade da colónia portuguesa de Timor Oriental, na época ocupada pelos japoneses.

22 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (15)

A DESCOBERTA DE CARONTE

22 de Junho de 1978. Quarenta e oito anos depois da sua própria descoberta em 1930, descobre-se que Plutão possui um satélite, que veio a ser posteriormente baptizado de Caronte. Como se percebe pelas fotografias originais da descoberta (acima), a existência de Caronte terá sido mais deduzida do que propriamente observada - Caronte é a protuberância assinalada a amarelo na foto da esquerda.
Mas, mais do que a descoberta de Caronte, o que se pretende destacar por ocasião do 40º aniversário do feito científico, é a evolução que foi registada pelos instrumentos de observação. A fotografia seguinte de Plutão com Caronte que aqui se apresente foi feita pelo telescópio Hubble 16 anos depois da descoberta, já em 1994. Planeta e satélite vêem-se perfeitamente distintos. E vinte e um anos depois, em 2015, quando a sonda New Horizons recolheu imagens próximas do sistema, existem agora amplos detalhes da superfície dos dois corpos celestes.

21 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (14)

A facilidade como Martin Milan se deixa corromper, embora com trocadilhos sempre espirituosos, é um das características pouco simpáticas da sua personagem, apenas compreensível considerando o seu estatuto de perpétuo vagabundo dos ares.

20 junho 2018

ESPECTÁCULO, MAS TALVEZ NÃO TANTO...


Existe um inegável anacronismo assistir à cerimónia quotidiana do Menin Gate de Ypres ao som da banda sonora de «Band of Brothers», a que ontem assisti. A primeira é alusiva à Primeira Guerra Mundial e aos exércitos da Commonwealth (Reino Unido, Canadá, Austrália, África do Sul, Índia e Paquistão, etc.), a segunda refere-se à Segunda Guerra Mundial e às tropas aerotransportadas dos Estados Unidos, nomeadamente às da 101ª Divisão. A acrescer ao anacronismo, a música só foi composta no século XXI. Mas reconheço o efeito dramático, a puxar à lágrima, embora me mantenha um turista nada tolerante nesses aspectos mais imaginativos.

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (13)

OS REGIMES DOS «SONOFABITCHES» TAMBÉM EXECUTAM AMERICANOS


20 de Junho de 1979. Atribui-se a Franklin Roosevelt, que foi presidente entre 1933 e 1945, uma citação a respeito do ditador da Nicarágua que em breve se tornou famosa: «Ele (Anastasio Somoza) até pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta» (son of a bitch). O pronome possessivo é para ser pronunciado enfaticamente e a expressão teve tanto sucesso que bem depressa foi estendida para retratar as relações dos Estados Unidos com os países (normalmente ditaduras militares) da América Central e mesmo de toda a América Latina. Contudo, há precisamente trinta e nove anos, aos americanos e via televisão, entrou-lhes pela casa adentro a constatação que o sonofabitchismo desses regimes se podia virar contra os próprios norte-americanos, quando encarregues de cobrir os conflitos locais. Se a guerra do Vietname habituara os telespectadores a imagens chocantes de execuções sumárias, as imagens podiam tornar-se muito mais chocantes se o executado não fosse um beligerante, mas um jornalista e, ainda por cima, norte-americano. É sob esse peso que se devem ver as imagens acima do jornalista William Stewart (1941-1979), da ABC News, a ser executado por um membro da Guarda Nacional. Se a situação do regime dos Somoza já se encontrava então periclitante, com uma guerra civil entre mãos, o impacto das imagens na opinião pública americana e, por arrasto, na administração Carter, teve como consequência o seu descalabro em apenas mais quatro semanas.

19 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (12)

AVIÕES NO CONVÉS DO «USS YORKTOWN»

Fotografia de há 75 anos do convés do porta-aviões USS Yorktown. Nela aparecem uma três dúzias de caças aeronavais Hellcat (Grumman F6F). Apenas num navio (da dúzia que a frota norte-americana contaria à época) e numa fotografia de propaganda, exibe-se uma capacidade aérea que é superior à de quase todas as forças aéreas dos restantes países da América Latina daquele tempo.

18 junho 2018

«ACHILLE TALON EN VACANCES ET HOP!»

Visitar por acaso uma feira de Sábado numa cidade banal da Normandia como Lisieux e depararmo-nos com estas duas relíquias em 2ª mão a 5€. Uma simbólica nota de boa disposição!

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (11)

O LANÇAMENTO DO DISCO COM O FORMATO LP


18 de Junho de 1948. Em Nova Iorque, a Columbia Records americana apresenta um novo formato de disco a que atribui a designação de Long Playing (LP). Com um diâmetro de dez ou doze polegadas (25 a 30 cm) e uma velocidade de 33⅓ rpm (rotações por minuto), o novo formato tem uma capacidade tripla a quádrupla do formato então mais popular, de 78 rpm, que apenas suportava menos de cinco minutos de gravação em cada uma das faces do disco. Ao ser lançado, e com uma capacidade para um pouco mais de meia hora de música, este novo formato parecia pensado sobretudo para as peças de música clássica, tanto mais que no ano seguinte, a concorrente RCA Victor reagira com um terceiro modelo de disco também muito bem sucedido, menor, de mais curta duração e de 45 rpm. O formato permaneceu marginalizado por mais de uma década. Foi só em meados da década de 1960 que o LP se consagrou, de que um dos exemplos de mais popularidade foram The Beatles (acima). Nos finais da década de 1980, a tecnologia do vinil foi substituída pelos CDs, mas, desde há dez anos para cá assistiu-se a uma sua ressurgência e, com ela, a uma recuperação do formato LP, apresentado ao Mundo cumprem-se hoje setenta anos.

17 junho 2018

O «SOPHIA» QUE TRANSPORTOU A SOFIA

Permitam-me chamar-vos a atenção para as publicações da concorrência, especificamente o Defender o Quadrado, que está a publicar uma série de crónicas de viagem, de que se assinalam aqui alguns notáveis exemplos (1),(2) ou (3). Mas, como na Bíblia, tudo tem uma génese, e a desta viagem por uma França em guerra, começou por uma viagem num A-319 da TAP com o poético nome de «Sophia de Mello Breyner», um excelente presságio, a excitar-nos a imaginação de que, por uma vez, em vez da conversa tradicional da localização das portas de socorro, das máscaras de oxigénio e do enchimento dos coletes de salvação, o pessoal de bordo, instalado em pleno corredor, declamasse em uníssono, com outros gestos exuberantes como os do costume:

«Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
»

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (10)

16 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (9)

O CASAL IMPROVÁVEL

16 de Junho de 1943. Numa cerimónia discreta, Charlie Chaplin casa por uma quarta vez com Oona O'Neill, actriz e filha do dramaturgo Eugene O'Neill. Mesmo pelos padrões de uma Hollywood habituada ao insólito, este casamento destacava-se pelo facto do noivo (54) ter o triplo da idade da noiva (18 anos). Adivinham-se as repercussões e os comentários, se o mesmo acontecesse setenta e cinco anos depois... E contudo, o improvável casal irá permanecer casado por mais 34 anos, até à morte de Chaplin no dia de Natal de 1977, tendo tido oito filhos nos dezoito anos que vão de 1944 a 1962.

14 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (7)

CAMPANHA PARA QUE MARCELO DEIXE DE USAR GRAVATAS COMO O TRUMP

Não haja dúvida que, ou se tem uma vocação congénita para fazer certas figuras, como acontece com Marcelo ali sentado na relva entre os jovens, ou então a coisa fica com aspecto constrangido, como é o caso do ar afectado da ministra Maria Manuel Leitão Marques que aparece a seu lado. O único aspecto que se deve censurar em Marcelo é o comprimento trumpeano da sua gravata: as gravatas compridíssimas até podem estar na moda, mas ele é o presidente, e um presidente cool não usa gravatas como as do outro...

13 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (6)

«ZUIDERZEEWERKEN»

13 de Junho de 1918. Há cem anos, e apesar da Grande Guerra em curso, ou talvez também por causa dela, o parlamento holandês aprovava o financiamento para os Zuiderzeewerken, um ambicioso plano de engenharia que iria proceder ao encerramento do Zuiderzee e à recuperação de 1.650 km² de terras. A intenção do gigantesco projecto era proteger as terras baixas das províncias holandesas das tempestades marítimas do Mar do Norte, criar novas terras de cultivo e pastagem, ampliando a autonomia alimentar dos Países Baixos, e ainda melhorar a gestão dos recursos hídricos, criando um novo lago artificial de água doce em substituição da água salobra do Zuiderzee. Os trabalhos ir-se-iam iniciar em 1920 mas só viriam a estar concluídos em 1975, 55 anos depois. Aliás, um dos pólderes projectados, com uma área de cerca de 400 km² (Markerwaard) ficou por realizar.