31 dezembro 2017

O FIM DA CHECOSLOVÁQUIA

31 de Dezembro de 1992 foi o último dia da existência da Checoslováquia. Dos países da Europa de Leste surgidos em 1918, se as animosidades entre as nacionalidades da Jugoslávia eram conhecidas perfeitamente pelo resto do Mundo, as da Checoslováquia surgiram com alguma surpresa logo depois do fim da Guerra Fria. O civismo recíproco como decorreu o processo serviu de base para que a partir dele se cunhasse uma expressão, «Divórcio de Veludo», para descrever o desmembramento de forma cordata de um país nas suas nacionalidades constitutivas. Como também já expliquei aqui neste mesmo blogue, a expressão pecará, como elogio, pelo excesso, porque realçado pelo contraste com o carácter sangrento como o desmembramento da antiga Jugoslávia se estava a processar nessa mesma época. O que se torna interessante, passados estes 25 anos, é como esses vários processos de desmembramento do Leste da Europa criaram uma dinâmica de novas fronteiras que acabou por chegar à Europa Ocidental. Entre os casos recentes mais relevantes apareceram os da Escócia, da Catalunha ou da Córsega (a que tenho visto ser dado muito pouca atenção). E, quando os problemas lhes batem à porta, a imaginação e o fair-play dos europeus cá deste lado parece desaparecer como por encanto, pois aquilo que se tem visto a Mariano Rajoy a respeito da Catalunha (e o que se antecipa como reacção de Emmanuel Macron a respeito da Córsega) é um comportamento tudo menos aveludado... De como todos estes assuntos não passam de uma questão de força política e de política de força e que os legalismos constitucionais só são evocados quando convêm, aqui fica a demonstração com a evocação do Art.º 107 (original em cima, tradução inglesa em baixo) da antiga constituição checoslovaca, que há 25 anos foi tão sumariamente deitada para o lixo.

A ÚLTIMA TIRA DE CALVIN and HOBBES

31 de Dezembro de 1995. Há precisamente 22 anos e depois de pouco mais de 10 anos de publicação, Bill Watterson, o desenhador da série, publicava a última tira de Calvin & Hobbes (acima). Calvin é um garoto de seis anos absolutamente irrequieto e dotado de uma imaginação prodigiosa. O nome da personagem foi-se inspirar ao teólogo francês João Calvino (1509-1564). O seu companheiro de aventuras chama-se Hobbes, como o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679). Hobbes é um tigre de peluche que apenas podemos ver dotado de vida própria pelos olhos de Calvin, funcionando como o seu amigo imaginário. As referências rebuscadas para o nome das duas personagens devem-se à formação académica de Bill Watterson em Ciência Política. Considerados, qualquer deles, como autores não só antigos como sobretudo sorumbáticos, daqueles que só se lêem por dever de ofício, o título da série começa assim por ser logo uma piada hermética (que escapou ao primeiro tradutor brasileiro da série quando deu ao tigre o nome de Haroldo...). Outras razões para o carisma que a série veio a alcançar, para além, obviamente, da sua qualidade, é o facto de Bill Watterson (hoje com 59 anos) só se ter disposto a desenhá-la durante dez anos (1985-1995) e não se mostrar interessado em enriquecer com ela, não permitindo, por exemplo, o merchandising da imagem das personagens ou a sua transposição para séries animadas como aconteceu com outras personagens do mesmo género (Peanuts, Garfield).

30 dezembro 2017

AQUILO QUE HÁ PRECISAMENTE 75 ANOS APOQUENTAVA «MUITAS CENTENAS» DE PESSOAS

Retirado da edição de um vespertino lisboeta de há 75 anos pode ler-se na sua íntegra esta interessante notícia que levanta a questão da dispensa de pagamento das taxas relativas aos auto-rádios dos automóveis particulares que haviam cessado de circular por causa da escassez de combustível devida à guerra (Segunda Guerra Mundial). Muito embora a imobilização das viaturas automóveis particulares fosse significativa, não nos podemos esquecer quanto o parque automóvel de então (1942) era escassíssimo e muito menos seriam os automóveis equipados de auto-rádio, que era considerado um equipamento de um luxo verdadeiramente superlativo (recorde-se que os rádios caseiros do tempo da guerra eram de válvulas e que os transístores só vieram a ser descobertos em 1947). E no entanto, ontem como hoje, essa escassíssima minoria de proprietários de automóveis ultra-luxuosos conseguia constituir um lóbi que conseguia construir na imprensa uma importância desmesurada ao seu problema específico .

(NÃO) FEZ SENTIDO...

30 de Dezembro de 1971. Lembro-me perfeitamente da atenção que foi dispensada a esta experiência pioneira, patrocinada pelo município de Roma: nove dias em que os transportes públicos da capital italiana eram gratuitos, para ver se assim se desanuviariam os seus proverbiais engarrafamentos de trânsito. Muito embora a expressão italiana «fare il portoghese» (à letra, fazer-se de português = sacar uma borla) seja de indiscutível origem romana, descobriu-se com esta operação promocional que passar-se por português só terá piada para os romanos genuínos se a borla não se revestir de um carácter institucional, se nem todos puderem passar-se por portugueses. A experiência, que teria tido um custo apreciável nas finanças municipais se implementada, veio a revelar-se um tremendo fiasco: à excepção das notícias da época, não encontrei outras referências a ela na internet. A gratuitidade dos transportes públicos não incentivava um significativo número de pessoas a prescindir de usar o seu automóvel quando das suas deslocações dentro da cidade.

29 dezembro 2017

«THE GOOD, THE BAD AND THE UGLY»


29 de Dezembro de 1967. Embora a versão falada em italiano do filme tivesse sido estreada em Dezembro de 1966, foi só um ano depois, há precisamente cinquenta anos, que a outra versão, falada em inglês, foi estreada nos Estados Unidos. E foi essa estreia que possibilitou que o filme alcançasse toda uma outra visibilidade e popularidade. Tanto assim que o famoso tema uivante que o identifica só se veio a tornar conhecido (alcançando inclusive os tops de vendas) a partir do Verão e Outono de 1968.

NINGUÉM SEGURA MARCELO! - O HOMEM ATÉ ESTEVE EM BELÉM (da GALILEIA) E NINGUÉM DEU POR NADA!

A verdade é que a classificação como Monumento Nacional da Paisagem Cultural do Sistelo em Arcos de Valdevez era tão urgente que nem podia esperar pelo recobro do presidente...

A GRANDE FARSA DAS INDIGNAÇÕES COM OS SALÁRIOS MILIONÁRIOS

O Correio da Manhã publicou anteontem uma notícia comparando os ordenados de alguns jogadores do Benfica. Embora a sua intenção seja nitidamente outra (acirrar a rivalidade entre jogadores acentuando a discrepância entre o que ganham e o seu rendimento em campo), vale reconhecer que a notícia não foi entretanto desmentida e que, embora os valores não tenham sido apresentados dessa forma, haverá jogadores do plantel do Benfica como Luisão e Salvio que ganham 3 milhões por ano. Pelas reacções, isso não incomodará sobremaneira os leitores do Correio da Manhã (vejam-se as setas acima - há 55% que não gostam mas 40% que dizem gostar dos ordenados anunciados), mas a verdade é que tais valores se comparam favoravelmente com aquilo que tem sido anunciado como a (controversa) remuneração de António Mexia na EDP (abaixo). Ou seja, o capitão do Benfica ganha melhor (+15%) do que o CEO da EDP. Sendo escandaloso (pelos padrões do que ganha o português médio) qualquer daqueles dois ordenados, o que eu estranho é a diferença das reacções públicas. O enorme silêncio como são acolhidos os valores abusivos dos ordenados dos jogadores benfiquistas parece-me induzido pela forma profundamente diferente como as duas situações são noticiadas. Tomemos o exemplo imediatamente abaixo do Jornal de Negócios e a sua chamada de atenção para quanto custa anualmente a totalidade do conselho de administração da EDP (14 milhões). Estamos a imaginar algum jornalista a fazer o mesmo com a totalidade dos ordenados dos 11 jogadores titulares do Benfica? A que valores chegaríamos? E quanto à notícia seguinte da esquerda.net, que calcula o ordenado diário de Mexia em 7 mil euros, porque é que os activistas de tal publicação não se dedicam a calcular por quanto fica cada hora de jogo efectivo de um jogador com o ordenado de Luisão? É que, feitas as contas, Luisão ganhou 70 mil euros por cada hora que jogou, 100 mil euros no fim de um jogo de hora e meia. Quantos anos precisarão de trabalhar os que estão na bancada para ganhar o mesmo? E isso não incomoda a esquerda.net?

RISCOS DE RECESSÃO EM 88

Há precisamente 30 anos o Diário de Lisboa escudava-se num relatório semestral da OCDE para alertar os seus (e)leitores para a existência de riscos de recessão para o ano seguinte. Os registos do Pordata mostram, contudo, que a economia portuguesa veio a registar nesse ano um crescimento de 5,34%, o que está bem longe de poder ser considerado recessivo. Para quem editava e lia o Diário de Lisboa era uma chatice ser o PSD de Cavaco Silva a ocupar então o poder (com maioria absoluta) e a aproveitar-se da conjuntura económica favorável. Eram outros tempos em que eram eles e não os outros a desejar a vinda do Diabo...

28 dezembro 2017

A UNDÉCIMA QUESTÃO

Sinopse: Em As 10 Questões do Colapso, o Prof. João César das Neves ajuda-nos a enfrentar o que aí vem (viria...), respondendo às seguintes perguntas:
O colapso é inevitável?
O mundo vive uma mudança de época?
Porque temos taxas de juro negativas?
Porque se agrava a desigualdade?
O extremismo vai vencer?
O que se passa no orçamento?
Porque está a banca assim?
Porque não cresce a economia?
Que vai acontecer?
Que devemos fazer?

Estando a aproximar-se o fim de 2017 e do período previsto para A provável derrocada financeira de Portugal, a undécima questão que me ocorre a respeito do livro acima nem sequer é a previsível pergunta, sobre a inexistência da tal derrocada provável que comprovadamente não se deu (pelo menos no período previsto...). A pergunta que me ocorre é outra, sobre o que passará pela cabeça de tão distintos economistas como é o caso deste Prof. João César das Neves, para se quererem projectar politicamente recorrendo a disciplinas tão distintas das suas áreas de especialização quanto a astrologia e a adivinhação? É que depois corre(u) mal, a profecia do áugure não se cumpre e fica-se com a impressão que, mais do que as qualificações académicas, é a própria disciplina que não serve para nada...
Simultaneamente com a Geringonça, mas muito menos falada do que ela, nestes dois últimos anos acabou por cair um profundo descrédito sobre as cabeças pensantes da Economia cá do burgo que, na sua esmagadora maioria e desde quase sempre (e mesmo depois do 25 de Abril) pertenceram à Direita política. Sobre finanças públicas, de que Cavaco Silva é até um emérito professor, melhor que ele apareceu finalmente um Mário Centeno que, mesmo com um sorriso desconcertante de apatetado e que, mais do que os bitaites de tanta sumidade que costumam aparecer na televisão, apresenta resultados!

AS «PARÓDIAS DE GUERRA» E AS PARÓDIAS DE FIM DA GUERRA...

28 de Dezembro de 2014. Com pompa e circunstância os Estados Unidos e os aliados que os tinham acompanhado na aventura afegã (incluindo Portugal) anunciavam pôr fim às suas missões de combate naquele país, tal qual se pode ler acima pelo artigo em que a revista Time se faz eco do facto. Foi há precisamente três anos e é engraçado perceber como os tempos mudaram radicalmente desde os meados do século XX. Há precisamente 78 anos, por ocasião da época das Festas de 1939, havia uma guerra na Europa ocidental entre os exércitos franco-britânicos de um lado e alemães do outro, que era uma guerra que fora declarada mas que não se travava no terreno e que por isso veio a ser baptizada ironicamente de «Paródia de guerra» (drôle de guerre, phoney war, Sitzkrieg). 75 anos depois desses meses militarmente caricatos, apresentava-se-nos uma reviravolta de 180º daquela atitude, no que será uma espécie de «Paródia de Paz», quando se pretendia que um anúncio formal ds cessação do envolvimento directo pusesse um fim unilateral a um conflito. Ainda há seis dias foi notícia - na mesma Time - a visita do vice-presidente norte-americano ao Afeganistão, a esse país sempre em vias de pacificação e de onde os Estados Unidos se haviam desengajado militarmente. Nem de propósito, as notícias de hoje, terceiro aniversário da cerimónia acima e ainda na mesma revista Time, são de um assalto a um centro cultural xiita de Cabul que provocou 35 mortos. Tem sido notório pela multiplicação destes episódios quanto, depois de 13 anos de operações* (2001-2014), os Estados Unidos e os seus aliados deixaram uma situação militar perfeitamente controlada atrás de si...
* Sensivelmente a mesma duração das operações militares portuguesas em Angola (1961-1974).

27 dezembro 2017

O SATÉLITE ESTAVA COM MUITO MAU ASPECTO DA ÚLTIMA VEZ QUE FOI VISTO...

Havia uma anedota clássica, a respeito do problema de não anunciar as más notícias de supetão às pessoas de quem se gosta, que colocava um namorado a cuidar do cãozinho de estimação da namorada quando um qualquer acidente imprevisto matava o pobre bicho. Sem saber como anunciar a infelicidade à dona, a «punchline» da anedota era a forma indirecta e ao mesmo tempo grosseira como o namorado procurava preparar o terreno para o anúncio da desdita: - A última vez que vi o teu cão ele estava com muito mau aspecto... Pois bem, este último desmentido do secretário de Estado angolano é do que de mais parecido haverá com o comentário sobre o estado de saúde do satélite da última vez que foi visto. Se se ler o detalhe da notícia, as suas declarações - O satélite fez o seu percurso normal, está na órbita para o qual foi planificadoe temos sob controlo o satélite - não desmentem a ausência de contacto que fora previamente anunciada a partir da Rússia (na verdade, quem acompanha estas coisa sabe que o programa espacial russo também tem tido os seus episódios menos felizes). Claro que é tremendamente ingrato assumir a expedição de 270 milhões de euros de tecnologia para o lixo... cósmico, e é preferível fazer-se de optimista e ir dando a má notícia aos bocadinhos. Não se tratando disso, então há alguém que detesta o actual regime angolano e que tem o péssimo mau gosto de lançar boatos não substanciados sobre as realizações técnicas do país.

Adenda: Dois dias depois, o construtor russo anunciou que, felizmente, as comunicações haviam sido restabelecidas com o satélite. Quanto à hipótese rebuscada que apresentei no fim do parágrafo precedente, um texto como o abaixo, de um humor estranho a parodiar as populações das regiões remotas de Angola, é indicativo do quanto a hipótese é bem capaz de não ser assim tão descabida.

EM ÉPOCA DE PRENDAS,...

...para oferecer àquele contestatário anti-globalização que já tenha tudo, nada como um cocktail Molotov com garrafa estilizada e lenço requintado, adequado para ser arremessado na abertura das cerimónias com a polícia de choque, por ocasião da próxima cimeira de qualquer coisa que se realize no mais remoto local do Mundo.

O CENTENÁRIO DA NACIONALIZAÇÃO DE TODA A BANCA RUSSA

«No interesse de uma organização adequada da economia nacional, a erradicação decisiva da especulação bancária e a emancipação completa dos trabalhadores, camponeses e de toda a população oprimida pela exploração do capital bancário, com o objectivo de criar um só Banco do Estado unificado para toda a República da Rússia que deverá servir os interesses do povo e das classes mais pobres, o Comité Central Executivo decreta que:
1) A actividade bancária é considerada um monopólio do Estado.
2) Todos os estabelecimentos bancários existentes são absorvidos pelo Banco do Estado.
3) Os activos e responsabilidades dos bancos absorvidos serão assumidos pelo Banco do Estado.
4) O detalhe do processo da fusão dos bancos privados com o Benco do Estado será regulamentado por um decreto especial.
5) A administração temporária dos bancos privados será confiada ao Conselho do Banco do Estado.
6) Os interesses dos pequenos depositantes serão totalmente protegidos

27 de Dezembro de 1917. Os bolcheviques, chegados ao poder ainda não há dois meses, procedem à nacionalização dos 18 bancos então existentes na Rússia. Para se avaliar da importância atribuída a esta iniciativa (longínqua predecessora e inspiradora das nacionalizações portuguesas de 14 de Março de 1975), realce-se que ela teve lugar apenas doze dias depois da nova Rússia revolucionária ter assinado um armistício com os Impérios Centrais que, para efeitos práticos, a excluía da Primeira Guerra Mundial. Curiosos tempos esses em que se introduzia uma nova prática política que nos queria fazer crer que as nacionalizações seriam a solução estandardizada para todos os problemas económicos e sociais. Nestes cem anos que entretanto decorreram, tivemos o privilégio de assistir não apenas à ascensão dessa tese como a uma posterior reviravolta de 180º e à ascensão de outras práticas políticas que nos quiseram induzir a acreditar que, pelo contrário, as privatizações é que eram a solução estandardizada para todos os problemas. A controvérsia parece sair de agenda. Em História, o tempo costuma demonstrar como todos os exageros tendem a mostrar-se... exagerados.

26 dezembro 2017

A MATRACA «SUECA»

Esta fotografia data de 1961 e o seu autor é Eduardo Gageiro. Pela identificação do estabelecimento do lado esquerdo o local terá sido São Domingos na Baixa lisboeta. A síntese da imagem é, não só de violência, mas de uma violência déspota, com a desproporção entre o número de polícias e de quem se lhes opõe(?), para mais jazendo no chão. Mas o que me fascina no instantâneo - e que me induziu ao título oficioso da fotografia - é aquela ligação entre a matraca assestada para bater e a sofisticação do cartaz de esquina que a encima, promovendo aparelhos suecos de grande classe... A associação é pessoal e deve-se apenas à perspectiva de como a fotografia foi captada, mas é um excelente preâmbulo para devaneios entre aquilo que era Portugal em 1961 e o que o distinguia da Suécia dessa mesma época - a começar pela dificuldade de obter fotografias equivalentes àquela em Estocolmo...

«MAGICAL MYSTERY TOUR» - O FILME


26 de Dezembro de 1967. Numa pouco habitual estreia televisiva, a BBC1 britânica transmite em estreia mundial o filme «Magical Mystery Tour» dos The Beatles. Como as emissões ainda eram a preto e branco, foi assim que os ingleses puderam assistir ao filme no dia seguinte ao Natal que, não fora a celebridade dos autores, dificilmente teria merecido essa distinção de ser transmitido durante as quadras festivas.

25 dezembro 2017

RELEMBRAR PARA QUE SERVEM AS MAIORIAS QUALIFICADAS

O presidente peruano Pedro Pablo Kuczynski acabou de sobreviver a uma moção promovendo a sua destituição. A acusação é de corrupção e a votação foi cerrada: houve mais de metade (79) dos 130 congressistas a votarem favoravelmente a destituição. Porém, apesar da fragilidade como o presidente peruano sai da situação (a maioria do Congresso votou contra si), a moção não chegou a atingir a maioria de ⅔ (87 congressistas) para produzir efeito. É nestas ocasiões que vale a pena recordar, já que o Brasil está nesta jogada e por muito desagradável que seja o gesto, que Dilma Rousseff possuía também essa salvaguarda de se necessitar de uma maioria qualificada de ⅔ para a sua destituição em qualquer das duas câmaras: a Câmara de Deputados e o Senado. Foi uma esmagadora maioria de parlamentares votou a destituição de Dilma Rousseff. O resto, e porque o tempo reduz tudo às suas devidas proporções, foi tudo propaganda.

COMO UM REGRESSO À INFÂNCIA

Capas das edições da semana de Natal da revista Tintin belga de 1956 a 1973. Algumas dessas capas vieram a ser reaproveitadas pela revista Tintin portuguesa (de memória, as capas das edições de 1959, 1961, 1968, 1970, 1971 e 1973).

A MORTE TRANQUILA DE CHARLOT

25 de Dezembro de 1977. Na noite de Natal e numa paisagem mediática desprovida de outras grandes notícias concorrentes, morria Charlie Chaplin durante o sono na sua residência de Vevey na Suíça. Tinha então 88 anos.

24 dezembro 2017

«STILLE NACHT, HEILIGE NACHT» (NOITE FELIZ)


24 de Dezembro de 1818. Há precisamente 199 anos. aquela que será a mais popular canção de Natal da actualidade tinha a sua estreia mundial na Missa do Galo de uma capela de uma remota paróquia austríaca, situada na fronteira com a Baviera. A todos os que vão acompanhando estas evocações diárias, mas descompassadas em tema, de acontecimentos mais ou menos históricos, endereço os meus votos de um Natal Feliz.

O ASSASSINATO DO ALMIRANTE DARLAN


24 de Dezembro de 1942. O vídeo de propaganda da época, apesar do primarismo que os costumava caracterizar, nem sequer tenta disfarçar o incómodo que representava para os comandantes aliados (identificam-se nas imagens os Generais note-americanos Dwight D. Eisenhower e Mark W. Clark) a pessoa do Almirante Darlan que, tendo sido a segunda figura da hierarquia da França de Vichy, se transferira para os aliados por ocasião dos desembarques aliados no Norte de África, que haviam tido lugar mês e meio antes. Concorria para denegrir a imagem do homem que viera de Vichy, agora com o título da «Alto-Comissário de França em África» uma ampla coligação que envolvia os liberais americanos, os gaullistas e os comunistas franceses e quase todos os britânicos, que apresentavam o almirante como a negação viva dos ideais pelo qual a coligação dos Aliados se dizia bater. Pelas 15 horas de há 75 anos, apresenta-se um jovem no Palácio de Verão em Argel que deseja ver Darlan por uma questão urgente, explica. Deixam-no esperar no salão de espera. Passado uns momentos, quando Darlan regressa do almoço, o jovem dispara três tiros à queima-roupa. Apesar de se tratar de uma pistola de calibre 6,35 mm e de apenas dois dos três tiros o terem atingido, o Almirante Darlan morre passadas duas horas no Hospital de Argel para onde foi levado de imediato. O assassino chamava-se Fernand Bonnier de La Chapelle, tinha apenas 20 anos e descobriu-se ter simpatias monárquicas. Mas a investigação sobre até onde iria a conspiração foi cortada cerce com um julgamento sumário de tribunal marcial em pleno dia de Natal que durou apenas esse dia, tomando por boa a confissão do réu de que não tivera cúmplices: «não é necessário sermos muitos para abater um traidor». A sentença - fuzilamento - foi executada logo pela madrugada do dia imediatamente seguinte, 26 de Dezembro de 1942. Todos gostamos de uma justiça expedita mas quando ela é assim tão expedita é caso para se desencadearem as maiores especulações...

PRESUNÇÃO E ÁGUA BENTA SÃO PRENDAS DE NATAL QUE CADA UM OFERECE A SI PRÓPRIO

Isto acima, copiado do blogue Blasfémias, fez-me rir tanto que, atendendo à quadra, será o que de mais parecido haverá, considerada a diferença de maturidades, com a saudosa aparição dos palhaços dos circos de Natal da minha infância. Quanto à visibilidade de Cristina Miranda, só lhe falta mesmo é a televisiva, como foi propiciada um certo dia ao príncipe da Fuzeta por Herman José (abaixo). O que é verdadeiramente cómico nestas situações é muito mais o convencimento e a presunção, do que os formatos de que essa presunção se reveste.

23 dezembro 2017

O NATAL DOS HOSPITAIS

Há precisamente 50 e 40 anos o Natal dos Hospitais era noticiado nas edições do Diário de Lisboa da forma como se pode apreciar acima. Entre as duas notícias ocorrera o 25 de Abril e o conteúdo do tema reforçara-se na preocupação social. Manuela Eanes aparecia muito mais proactiva do que Gertrudes Thomaz. Pormenor não despiciendo: nesses dez anos o espectáculo televisionado duplicara a sua duração de umas razoáveis duas horas e meia para uma versão estendida de cinco horas! Dali por mais uns anos atingiriam o exagero do programa ser transmitido mais de uma semana antes do dia de Natal e com as maratonas televisivas a começarem desde a manhã, transmissões longas para as quais acabava por faltar a pachorra do telespectador...

A «NOTICIABILIDADE» DA FELISBELA

Todos os Sábados, aí por volta das 9H15 e sempre que me lembro, não perco a revista de imprensa de Felisbela Lopes na RTP3. Não é tanto eu gostar do conteúdo, é mais deleitar-me com o estilo, toda a secretária pejada de publicações cuidadosamente dispersas para aqui e ali se notarem títulos e passagens assinaladas por diligentes canetas fosforescentes (a várias cores!) e o emprego de um calão abundante em neologismos, indicativos de que se trata de uma nova ciência em expansão. Aprecio sobremaneira a volúpia e insistência como certos vocábulos são pronunciados. É o caso de «Noticiabilidade», palavra que aprendi da professora Felisbela e que não tenho oportunidade de ouvir em mais lado algum, mas que transmite um cunho assaz iniciático à sua revista de imprensa. A repetição exaustiva de palavras elaboradas a partir sempre do mesmo étimo (notícia), dão uma sonoridade única àquele programa matinal.

22 dezembro 2017

A PROCLAMAÇÃO DE UMA INDEPENDÊNCIA DA FLANDRES

22 de Dezembro de 1917. Há precisamente cem anos o Conselho da Flandres (Raad van Vlaanderen) proclamava a independência de uma Flandres que poucas hipóteses teria de o ser na prática, ocupada militarmente como estava pelos alemães. Embora o colaboracionismo dos autores da iniciativa seja evidente (e condenável), é difícil não simpatizar com as queixas dos flamengos em relação à forma como a sua língua e cultura eram subalternizadas em relação ao francês na Bélgica de então (para não ir mais longe, e estando-se em plena Primeira Guerra Mundial, importa deixar o exemplo que a única língua do exército belga era o francês, quando pelo menos metade dos recrutas eram flamengos).

O PROGNÓSTICO "À JOÃO PINTO" E A DESCOBERTA DE UM SISTEMA ELEITORAL HÁ MUITO ENVIESADO

«Se fosse um referendo...» Se o artigo de opinião tivesse sido escrito antes do acto eleitoral, sem que se soubesse qual seria o seu desfecho, ainda a opinião do articulista teria algum valor, assim é um comentário baseado num prognóstico à João Pinto. Mas é sobre outro aspecto da lógica futebolística que este artigo de Rui Ramos me despertou a atenção, atentemos àquela passagem que destaquei sobre a sua aparente descoberta dos defeitos do enviesamento do sistema eleitoral. Se o sistema eleitoral espanhol é enviesado, esclareça-se que assim nasceu e tem permanecido assim desde que se realizaram as primeiras eleições democráticas em Espanha (1977). O que é maravilhoso é que Rui Ramos e outros tantos como ele tenham demorado 40 anos a descobrir isso. Em Espanha o sistema de distribuição do número de deputados que virão a ser eleitos pelos círculos eleitorais (as 50 províncias) não é absolutamente proporcional: cada província tem direito a um mínimo de dois deputados (2 x 50 = 100) e só os restantes 250 do Congresso de 350 deputados são distribuídos proporcionalmente à respectivas populações de cada província. A consequência é que as províncias mais subpovoadas estão sobre representadas*. Há assim uma vantagem comparativa do peso do voto rural sobre o voto urbano, sabendo-se que o primeiro é tradicionalmente mais conservador enquanto o segundo é mais esquerdista. As consequências subtis desse enviesamento que Rui Ramos só agora descobriu podem ser apreciadas no quadro abaixo, que nos mostra uma síntese das oito eleições legislativas espanholas que tiveram lugar de há 25 anos para cá. Do lado esquerdo aparece a votação nacional do PSOE, o número de deputados que elegeu, e o coeficiente que resulta da divisão do primeiro valor pelo segundo, quanto custou, em votos, eleger cada deputado do PSOE. Do lado direito, em sentido inverso, estão precisamente as mesmas contas feitas para o PP. E a conclusão que aparece no quadro central é inequívoca: com excepção das eleições de 1993 e independentemente de quem tenha sido o vencedor do acto eleitoral, os deputados do PP têm sido eleitos consistentemente de forma mais económica do que os do PSOE. Ou seja, o tal «sistema eleitoral enviesado» tem beneficiado a direita espanhola.
A metodologia que acima foi descrita é a mesma que é empregue para as eleições autonómicas. E o efeito distorcido nas representações parlamentares será do mesmo género. Só que neste caso concreto da Catalunha e para visível incómodo de Rui Ramos, o voto rural é não apenas conservador como também acentuadamente nacionalista catalão. É assim que, fazendo a comparação entre os três partidos mais bem colocados de quando custou em votos em média eleger um deputado nas eleições de ontem, a formação que os conseguiu mais baratos foi a direita nacionalista catalã de Puigdemont (27.660), seguida da esquerda nacionalista catalã de Oriol Junqueras (29.030) e só depois a direita constitucionalista espanhola de Inés Arrimadas (29.770). Será portanto a diferença deste coeficiente de 2.110 votos que terá causado todo este incómodo e mau perder a Rui Ramos, como se ele fosse um daqueles facciosos comentadores de futebol que, assume uma postura muito distanciada das emoções, mas depois só fala dos erros da arbitragem nos jogos em que acha que eles prejudicaram a sua equipa.

* Ao contrário do que acontece em Portugal, em que o eleitor do distrito de Portalegre e do distrito de Lisboa têm aritmeticamente a representação o mais aproximada que for possível.

21 dezembro 2017

«BUENU, POS MOLT BÉ, POS ADIÓS»


Vale a pena, hoje que se realizam eleições na Catalunha para eleger um novo parlamento local, evocar um episódio com precisamente quatro meses, por ocasião de um conferência de imprensa em que participava Josep Lluís Trapero, o comandante da força policial catalã dos Mossos d'Esquadra. Perante os protestos e o abandono da sala por um dos jornalistas presentes porque Trapero lhe estaria a responder em catalão, a famosa tirada ficou registada com um significado muito mais amplo do que aquele que se supõe que o autor lhe terá querido dar naquela circunstância: - «Buenu, pues mol bé, pues adiós». (A transliteração do comentário de Trapero tem mais do que uma versão, entre as mais catalãs e as mais acastelhanadas).
Vale também a pena recordar que o tema da conferência de imprensa era o hoje quase completamente esquecido atentado terrorista de Barcelona de 17 de Agosto deste ano. A ocasião fora precedida de um braço-de-ferro linguístico muito tradicional naquelas paragens, com os órgãos de comunicação social nacionais a pretenderem que as autoridades usassem como língua de trabalho o castelhano em precedência ao catalão e com aquelas escudando-se nos seus procedimentos de rotina de sempre, que dão natural primazia ao idioma local. Claro que Trapero fala fluentemente castelhano mas este foi mais um daqueles pequenos incidentes que só os espanhóis e outros países com problemas linguísticos semelhantes conseguirão entender em toda a sua subtileza.

EM QUE CONSISTE A POPULARIDADE NO MUNDO GLOBALIZADO DO SÉCULO XXI


21 de Dezembro de 2012. Há cinco anos, um vídeo postado no You Tube ultrapassou pela primeira vez as mil milhões de visualizações (1.000.000.000). O feito foi alcançado depois de cinco meses de publicação, a uma média de 200 milhões de visualizações mensais. O contador de visitas original do You Tube teve que ser reconfigurado. O tema responsável por tal incomensurável sucesso é uma canção de um rapper sul-coreano que se auto-designa por Psy. A canção é sobre «a namorada perfeita que sabe quando ser refinada e quando se tornar selvagem» - pelo menos, é essa a descrição sintética que, sobre ela, se pode ler na Wikipedia. Gangnam é um bairro chique de Seul. Outra surpresa é que o fenómeno se originara fora dos Estados Unidos. Mas nunca antes o pueril transmitira assim toda a força do seu gigantismo, quando avaliado a esta escala. Mau grado o desenvolvimento crescente dos índices de educação das populações, a sociedade global do século XXI arrisca-se a manter-se assustadoramente frívola. Nestes últimos cinco anos o número de visualizações de Gangnam Style triplicou em relação à já impressionante marca de há cinco anos, com 3.023.221.615 visualizações no momento em que escrevo estas linhas.

20 dezembro 2017

O ASSASSINATO DE CARRERO BLANCO


20 de Dezembro de 1973. Excluindo a proximidade do Natal, teria sido uma quinta-feira como tantas outras em Madrid, não tivesse sido a brutal explosão ocorrida na discreta rua Claudio Coello (um pintor espanhol do século XVII de ascendência portuguesa). A explosão, que ocorreu por volta das 9H30 da manhã, foi subterrânea e deu-se precisamente à passagem de um automóvel, um Dodge 3700 GT, uma daquelas banheiras de concepção americana (mas, no caso, de construção espanhola), uma sorvedora de combustível, que a crise do petróleo desencadeada pela OPEP naquele Outono tornaria subitamente obsoleta. A explosão foi tão violenta que elevou os 1.600 kg do Dodge 3700 GT com os seus três ocupantes mais acima do que os quatro andares do prédio fronteiriço, fazendo com que a viatura rodasse por cima do telhado, vindo a cair na varanda das suas traseiras (o vídeo acima é uma reconstituição). Dentro do automóvel jaziam moribundos o presidente do governo espanhol, o almirante Luis Carrero Blanco, o seu motorista e, já morto, o polícia que estaria encarregado da sua segurança próxima. A organização terrorista basca ETA não tardou a reivindicar o atentado.

A TRANSFERÊNCIA DA SOBERANIA DE MACAU


20 de Dezembro de 1999. O estatuto de Macau como Região Administrativa Especial da República Popular da China atinge hoje a maioridade. Sobre estas imagens acima da cerimónia de transferência de poderes, ocorreu-me fazer um pequeno comentário a respeito do contraste entre a atitude dos portugueses, que entoam o seu hino (até um contrariado Jorge Sampaio), e a dos chineses, a começar pelo seu presidente de então, Jiang Zemin, que se mostram bastante mais reservados quando da execução do seu. Afinal era uma questão de moda, que estava a tardar a chegar à China, como se pode apreciar pelo vídeo abaixo, que vistoria um leque histórico de cerimónias oficiais chinesas desde 1949 até 2009: se, nos primeiros 50 anos o hino era apenas escutado, a partir do século XXI também na China o hino passou a ser entoado, incluindo o mesmo Jiang Zemin que se mostrara tão discreto em Macau em 1999.

19 dezembro 2017

ILUMINAÇÕES DE NATAL DE ANTANHO PARA DESPERTAR A NOSTALGIA

 Rua Garrett
Rua do Ouro
Avenida Guerra Junqueiro
Rua do Carmo
 Rua Garrett
 Rua Garrett
Rua do Ouro

A TOMADA DE POSSE DE NELSON ROCKEFELLER

19 de Dezembro de 1974. Tem lugar a cerimónia de ajuramentação do novo vice-presidente dos Estados Unidos, Nelson Rockefeller (abaixo e na fotografia acima, à esquerda). Tratava-se da segunda vez que aquele cargo era provido de uma forma indirecta, cumprindo os procedimentos que haviam sido estabelecidos pela 25ª Emenda Constitucional aprovada em 1967. A primeira vez tivera lugar quase um ano antes, e o empossado dessa outra vez havia sido Gerald Ford, que agora ocupava o cargo presidencial (acima, à direita), depois da resignação de Richard Nixon em Agosto de 1974. Por uma primeira vez e pelos próximos dois anos que faltava cumprir do mandato, o poder executivo dos Estados Unidos, que se encontra tradicionalmente corporizado na função presidencial, era protagonizado por uma equipa de dois titulares que não haviam passado pelo veredicto das urnas populares, mas apenas pela apreciação do Congresso. As votações pela nomeação de Nelson Rockefeller foram, ainda assim, robustas, embora ligeiramente menos consensuais do que as alcançadas por Gerald Ford: 90-7 entre os 100 membros do Senado (quando Ford havia recebido 92-3) e 287-128 (387-35) entre os 435 membros da Câmara dos Representantes.

O distanciamento histórico teve o efeito de tornar a personalidade do vice-presidente, que há 43 anos tomava posse, mais interessante do que a do presidente. Além de incomensuravelmente rico, como o seu apelido deixa antever, Nelson Rockefeller representava uma facção dentro do partido republicano que entretanto se extinguiu como os dinossáurios. Era um republicano liberal progressista, que fora o governador do estado de Nova Iorque durante quase 15 anos (1959-1973), período ao longo do qual se tornara um potencial candidato dos republicanos, representando a sua ala esquerda, às sucessivas eleições presidenciais de 1960, 1964 e 1968. Ao aceitar o cargo sob Gerald Ford, Rockefeller saberia decerto que comprometeria as suas ambições para as futuras eleições de 1976. Ter-lhe-ão prometido muito até aceitar a nomeação, mas depois terão cumprido muito pouco. O que justificará um estilo de exercício da vice-presidência bastante descontraído, como o demonstra a fotografia abaixo, tirada em Setembro de 1976 em resposta àquelas pessoas impertinentes que aparecem na assistência a mandar bocas. Terá sido a ocasião em que o vice-presidente terá tido uma das maiores coberturas mediáticas. Quando instado a retractar-se, Rockefeller recusou-se a fazê-lo, explicando que estava a responder proporcionadamente. Ainda hoje teria sido uma atitude corajosa; muito mais há 40 anos.

18 dezembro 2017

COMO A ANTIGA POLÍCIA DE COSTUMES ATRÁS DAS PROSTITUTAS...

O que causa estranheza na denúncia destes acordos fiscais ilegais é a razão pela qual não se sanciona também o outro parceiro do acordo, o estado-membro - neste caso a Holanda - que o concedeu. É que, por muito que as empresas que costumam sacar estes benefícios não mereçam (de todo!) a nossa simpatia, toda esta hipocrisia moral faz lembrar aquilo que acontecia antigamente quando dos raids da polícia de costumes aos locais de prostituição, em que se prendiam as putas mas se deixavam os clientes em liberdade. Para mais a crítica amplia-se quando, na continuação da analogia, não ajuda ao espírito de isenção lembrar que o Luxemburgo, na pessoa do seu antigo primeiro-ministro Jean-Claude Juncker, também já se mostrou um entusiasmado frequentador do bordel, com um fraquinho por uma puta chamada Amazon...

A INVASÃO DE GOA, DAMÃO E DIU

18 de Dezembro de 1961. As forças armadas indianas procedem à invasão e posterior anexação das três possessões coloniais que Portugal possuía naquele subcontinente: Goa, Damão e Diu. Embora se tenha tornado pacífico admitir, depois do 25 de Abril, o quanto a situação portuguesa na Índia era militar e politicamente insustentável a longo prazo, dessa admissão não costuma constar o quanto a situação estava eivada de hipocrisia, não apenas da parte portuguesa, mas por parte de todos os grandes actores. O plano português resumia-se a ir aguentando e, na eventualidade da situação escalar militarmente, o que se esperava da guarnição local é que se batesse sem esperança mas que produzisse um bom punhado de mártires para conferir ainda mais peso mediático aos protestos diplomáticos como Portugal iria tentar reverter a situação. No terreno, a esmagadora maioria da guarnição não se prestou a esse papel, não se registaram muitos episódios heroicos de defesa da Pátria e a diferença da primeira página das duas edições do Diário de Lisboa daquele dia mostram que isso depressa se soube em Lisboa (acima). A posição tutelar dos Estados Unidos era outro monumento à hipocrisia, refreando os indianos para que encontrassem uma solução pacífica para a questão das possessões portuguesas. Ora, como muito bem saberia a Adminstração Kennedy depois da Abrilada, qualquer inflexão da política externa portuguesa, e assim qualquer solução pacífica para o problema, só se processaria com a remoção de Salazar e isso acabara de fracassar. A Índia também não se livraria das acusações de hipocrisia pois, para tomar a iniciativa da invasão, dera um grande pontapé em todo o seu discurso oficial associado ao pacifismo como fora a imagem de marca do combate político de Mahatma Gandhi, o fundador espiritual do país. Descobria-se para a ocasião que a Índia era um país que se reclamava muito pacífico, mas que não o era a todo o transe, acontecia-lhe tomar a iniciativa de invadir territórios adjacentes. No ano seguinte, talvez embriagados pela vitória, os indianos irão tentar repetir o método brusco na resolução de um diferendo fronteiriço com os chineses e, merecidamente, vão levar um enxerto de porrada.

O último figurante da tetralogia das hipocrisias foi o nosso mais antigo aliado, o Reino Unido. Aquilo que se possa dizer sobre o comportamento britânico na época sintetiza-se bem com este vídeo que está disponível no You Tube: nele aparece primeiro o secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros indiano de então, Triloki Nath Kaul (o titular da pasta era o primeiro-ministro Nehru), a explicar a posição indiana e depois aparece o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Alberto Franco Nogueira, a defender a parte portuguesa. Havendo lógica e imparcialidade e a ordem deveria ter sido a inversa: começa-se tradicionalmente a ouvir o queixoso. Mas isso será o menos porque, dos cerca de seis minutos que o vídeo tem de duração, cinco são dedicados aos argumentos dos indianos e um (apenas) à perspectiva portuguesa - por muito errada que estivesse, a equidade de tratamento das duas partes parece coisa que não passa por ali. É curiosa a junção destas duas personalidades neste vídeo. Se Franco Nogueira é hoje considerado aquele que teria sido o mais lídimo continuador do salazarismo depois de Salazar, T.N. Kaul já então era tomado de ponta pela diplomacia norte-americana e considerado um dos membros mais pró-soviéticos da equipa dos Negócios Estrangeiros da Índia.

DESTA NÃO SE LEMBROU A JOANA VASCONCELOS - 1

O Fumador Casual

17 dezembro 2017

O PRIMEIRO-MINISTRO DESAPARECIDO

17 de Dezembro de 1967 foi um Domingo como o de hoje e também um dia de Verão no Hemisfério Sul. O primeiro-ministro australiano Harold Holt de 59 anos, que era um praticante entusiasmado de natação e de mergulho (abaixo), desapareceu subitamente da vista dos acompanhantes numa praia de Melbourne… Apesar da maior busca que fora até então efectuada pela Marinha e pela Força Aérea australianas, o corpo de Holt jamais veio a ser encontrado. Oficialmente, dois dias depois do desaparecimento o Primeiro-Ministro veio a ser declarado morto e realizou-se uma cerimónia oficial religiosa a 22 de Dezembro, em substituição do funeral canónico. Objectivamente, considerada a categoria do desaparecido, todo o episódio veio a ser considerado tanto inédito quanto insólito - fosse hoje e as malhas muito mais apertadas da segurança pessoal de tais figuras torná-lo-ia praticamente impossível. Apareceram depois algumas teorias engraçadas, a mais imaginativa das quais é que Harold Holt teria sido raptado por um submarino chinês. Se, em vez da Austrália, tivesse acontecido em Portugal (na Costa da Caparica, por exemplo), teria havido para aí uma dúzia de comissões parlamentares de inquérito, como aconteceu com Camarate...

16 dezembro 2017

A ÚLTIMA SONDAGEM DO «ESTADO DE GRAÇA»

16 de Junho de 2017. Há seis meses a Aximage realizava uma sondagem para o Correio da Manhã em que o primeiro-ministro registava uma vantagem de 47% nos índices de confiança sobre o líder da oposição. Eloquente sobre qual seria a intenção principal da mensagem, a notícia era ilustrada com uma fotografia de um Pedro Passos Coelho acabrunhado, não de um António Costa triunfador como seria de esperar. Desconhecido dos dois (e também dos autores da notícia), o incêndio de Pedrogão Grande do dia seguinte iria inverter a dinâmica de que nada de mau parecia acontecer ao governo da Geringonça.

UM EPISÓDIO POUCO EDIFICANTE DA HISTÓRIA DA POLÓNIA

16 de Dezembro de 1922. Um escassos cinco dias após a sua tomada de posse, o primeiro presidente da Polónia era assassinado quando de uma visita a uma exposição de pintura. Se a História da Polónia costuma ser sempre narrada enquadrada pelo seu carácter trágico, de que as sucessivas partições do país pelos seus poderosos vizinhos são o expoente, o outro lado da Verdade também demonstra que a luta política naquele país quando independente sempre se caracterizou por um gangsterismo que lhe tinge essa outra imagem de vítima. Embora seja muito menos conhecido. Esta história do assassinato do presidente Gabriel Narutowicz (1865-1922) deve ser contada, mesmo que sucintamente. A eleição para o cargo presidencial polaco naquela época processava-se através da realização de eleições sucessivas entre os membros da Assembleia Nacional até que um candidato obtivesse a maioria absoluta de votos. Era um processo bastante comum - acontecia o mesmo em Portugal. Ora Gabriel Narutowicz foi um candidato improvável, apresentado à última da hora por um partido menor, cuja virtude principal havia sido a capacidade de congregar os votos dos deputados de todas as formações que se opunham à eleição do candidato da formação nacionalista de direita que dispunha da maioria (relativa) da representação parlamentar, a Narodowa Demokracja (ND). A evolução do resultado das eleições poderá explicar o que aconteceu: na primeira votação, o candidato da ND, conde Zamoyski, recebeu 222 votos e Narutowicz apenas 62, enquanto na votação decisiva Zamoyski recebeu 227 votos enquanto Narutowicz o ultrapassou com 289 votos. Enfim, ao aproveitar-se mais do que seriam as antipatias do oponente do que propriamente das simpatias próprias, ter-se-á estado na presença de um verdadeiro fenómeno geringonçico bem precoce, embora sem o privilégio do contributo de Vasco Pulido Valente para o descrever e baptizar. A reacção da ND é que foi bastante mais exuberante do que a do PàF. No livro «A Concise History of Poland», cuja referência ao episódio também se pode qualificar de um pouco concisa em excesso (abaixo), a expressão adoptada é fúria. Talvez peque por defeito: nos cinco dias do seu mandato houve constantes manifestações de rua a acompanhar as deslocação do recém-empossado presidente. Activas: atiravam pedras à passagem da comitiva. Até à vernissage de há 95 anos, em que um pintor de nome Eligiusz Niewiadomski (1869-1923) assassinou o presidente, atingindo-o com três tiros. O que vale é que, em termos de justiça, também tudo se passava a um outro ritmo: o assassino foi fuzilado mês e meio depois. Houve quem o considerasse um herói. No fanatismo isso não mudou: ainda hoje há quem considere que Pedro Passos Coelho devia ter continuado a ser o primeiro-ministro, mesmo sem apoio parlamentar.

15 dezembro 2017

TÍTULOS ESTÚPIDOS

E os vivos ainda não se pronunciaram por estarem em estado de choque...

A ORELHA CORTADA DE JOHN PAUL GETTY III

15 de Dezembro de 1973. John Paul Getty III (1956-2011) era, não só um adolescente endiabrado, mas sobretudo o neto de um daqueles multimilionários norte-americanos, o original Jean Paul Getty (1892-1976). Na madrugada de 10 de Julho de 1973 ele fora raptado em Roma por um grupo de mafiosos da máfia calabresa (a 'Ndrangheta) que exigiram um resgate de 17 milhões de dólares pela sua libertação. Seguiu-se um período de porfiadas negociações entre os raptores e um avô que, apesar de rico, se mostrou particularmente pouco empenhado na conclusão do negócio nas condições impostas pelos raptores. Tanto assim que as negociações se arrastaram por meses. Em Novembro e em desespero de causa e perante a avareza - que era proverbial! - do patriarca dos Getty, os raptores trouxeram o caso descaradamente para os holofotes da opinião pública, enviando uma das orelhas em embrulho postal para um jornal italiano. O gesto provocou ondas de choque mas o recado não podia ser mais claro: o refém arriscava-se a ser resgatado... mas aos bocados (abaixo). E isso iria ser um desgaste horrível em termos de relações públicas para a Getty Oil. Há precisamente 44 anos, a notícia do dia era que o resto de John Paul Getty III fora libertado. A quantia acordada fora de 2,9 milhões de dólares, soube-se depois. O avô entrara com tudo, mas só suportara 2,2 milhões, o máximo que era fiscalmente dedutível, e o pai (Getty II) ficara responsável por reembolsar o avô dos 700 mil da diferença, que venceriam juros a 4% ao ano. Quando o ex-refém foi instruído pela mãe a telefonar ao avô para lhe agradecer, este não o quis atender. Mas, mais do que a miséria moral, o que as redacções de há 44 anos procuravam eram mesmo as imagens acima de um John Paul Getty III com a falta da orelha...