30 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (14)

A NOITE DAS «FACAS LONGAS»

30 de Junho de 1934. Depois de 17 meses no poder, Adolf Hitler procede a um ajuste de contas com aqueles que, dentro do próprio aparelho do partido e mesmo das áreas ideológicas que lhe são adjacentes, ele considera ainda passiveis de o desafiar. Para ilustrar a vaga de execuções que então teve lugar, o cabeça de cartaz costuma ser Ernst Röhm (acima vemo-lo ao lado de Adolf Hitler e na foto abaixo, autoconfiante, aparece acompanhado de um Heinrich Himmler que parece escutá-lo atentamente). A entrada da Wikipedia em alemão relativa aos acontecimentos, em vez da referência às facas longas comuns a todos os outros idiomas, tem até o título de «Röhm-Putsch», como que a validar a versão oficial de que houvera uma tentativa de golpe a justificar a violência que se seguiria. A identidade dos executados caracterizou-se afinal pela sua heterogeneidade, porque para além de Röhm e outros que lhe eram considerados próximos, incluiu pessoas de perfis tão díspares quanto um antecessor do próprio Hitler como chanceler (chefe de governo), dissidentes da ala esquerda do partido nazi e políticos bávaros com quem os dirigentes nazis tinham contas pessoais a ajustar. Quanto ao número de assassinados, cerca de uma centena, talvez menos, ele pode afinal ser considerado pequeno, considerando tudo aquilo que o III Reich virá a fazer, mas convém não perder de vista a forma intimidatória como os acontecimentos foram apreciados na época, ao assistir-se ao próprio regime que está no poder a permitir-se recorrer a execuções extrajudiciais para regular as suas disputas políticas internas, qual gangue de mafiosos. Esta última comparação até faria sentido se na Alemanha houvesse mafiosos; ora na Alemanha não há mafiosos: os alemães são um povo muito organizado em tudo, menos no crime - o crime organizado que exista na Alemanha deve-se às mafias italianas, turcas, russas, etc. Alemãs, não há nem nunca ninguém ouviu falar.
 

29 junho 2017

5,6% de Taxa de Resposta às reclamações ou ESTOU-ME A CAGAR PARA VOCÊS, SEUS CHATOS!

Recebi hoje uma encomenda da Amazon e aprendi que há um novo processo ainda mais expedito de entrega das mesmas. Funciona assim: quando o distribuidor - no caso a SEUR - se aproxima do local de entrega telefona ao destinatário e pede-lhe para que este venha até à porta da rua para apanhar a encomenda que lhe é destinada. Surpreso, mas como sou pessoa cordata acedi ao pedido, saí, apanhei o elevador, cheguei à porta da rua à espera de uma explicação... que não veio, o que me provocou a pergunta inspirada de quanto é que era o desconto no frete pelos meus serviços. A pergunta pareceu surpreender o meu interlocutor, o que me levou a decidir que aquela fora a primeira, mas também a última, vez em que colaborara voluntariamente para incrementar a produtividade do ritmo de distribuição de encomendas da SEUR. Na dúvida de que o novo processo fosse uma directiva devidamente emanada da entidade patronal para o aumento da produtividade dos trabalhadores, ou de que se tratasse apenas do expediente de um trabalhador mais experto mas também mais preguiçoso, decidi-me a reclamar a bizarra ocorrência à SEUR quando me deparei com o magnífico quadro acima: dali fica a impressão de que 203 reclamações será até um número bem reduzido atendendo ao volume de distribuições que a companhia registará por dia mas, mesmo desse número tão escasso, responder apenas a 5,6% dos que se queixam é uma outra forma de dizer estou-me a cagar para vocês, seus chatos! Mesmo quando é antipático, é sempre bom constatarmos que existe esta relação aberta entre a empresa e o cliente!

AS PETIÇÕES PÚBLICAS E AS BOAS IDEIAS

Tem-se revelado um excelente gesto de relações públicas a decisão da TAP de pintar um dos seus mais recentes aviões com a pintura retro que fora a da transportadora aérea nacional de há 40/50/60 anos (acima e abaixo). Menos conhecido porém, é o facto de que já há três anos circulava nas redes sociais uma petição pública pedindo precisamente isso. Talvez por ser uma boa ideia, recuperando de resto algo que já se fizera noutras companhias congéneres, houve alguém na TAP que veio a atender os 1.200 subscritores do pedido, apesar do atraso, que o pretexto acabou por ser o 72º aniversário da companhia aérea e não o 70º como aparecia originalmente mencionado na petição. Constata-se (mais uma vez!) que não há grande correspondência entre a bondade e a exequibilidade das petições on-line e o número de assinaturas que arrebatam.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (13)

Se os "calembours" são muito frequentemente intraduzíveis de um idioma para outro, a sua própria designação podia ter sido traduzida acima para trocadilho ou, numa designação mais rebuscada, paranomásia.

O ASSASSINATO DE MOHAMED BOUDIAF

29 de Junho de 1992. Há 25 anos e também diante das câmaras de TV como acontecera com Sadat do Egipto, o presidente argelino é assassinado. A Argélia daquela época é um país visivelmente bastante mais dilacerado do que o fora o Egipto depois da assinatura dos Acordos de Camp David. Sem se ter tornado num país comunista depois de 1962, o desmoronamento da União Soviética deixara a Argélia numa posição tão desamparada quanto muitos antigos satélites soviéticos. Os trinta anos precedentes tinham decorrido sob a égide de um regime militar autoritário dirigido por uma clique abrigada sob a sigla daquela que fora a Frente de Libertação Nacional (FLN) que travara a guerra de independência contra a França. A FLN da década de 1980 era uma organização decrépita e caduca como um partido comunista do Leste europeu. Quando o «ar do tempo» forçou a realização de eleições finalmente livres em Dezembro de 1991, o desagrado popular consolidou-se na votação maioritária numa Frente Islâmica de Salvação (FIS). Era conferir legitimidade democrática a uma organização que prometia que o não seria (democrática) depois de chegar ao poder. Contudo, como as eleições haviam sido organizadas à francesa (i.e., em dois turnos), o regime - agora designado ironicamente por os militares, quase como se se tratasse de uma ditadura latino-americana ou aqueles protagonistas que conduziram o nosso PREC - ainda foi a tempo de se salvar, adiando a segunda volta sine die. E é nessa fase que os militares vão buscar Mohamed Boudiaf (1919-1992) para conferir respeitabilidade a um regime em degradação. Mohamed Boudiaf fora um dos dirigentes históricos da FLN da guerra (1954-1962) e que perdera depois quando das guerras que se haviam sucedido à paz. Preso e condenado à morte em 1964, exilara-se. O que o tornava precioso para os militares em 1992 é que fora um dirigente histórico do FLN, continuara vivo e, por ter vivido afastado dos círculos do poder, não podia ser associado à corrupção que maculava o regime. O preço a pagar por este último (e importante) predicado é que Mohamed Boudiaf, ausente desde 1964, era uma pessoa desconhecida entre a esmagadora maioria dos argelinos (⅔ dos argelinos ainda não haviam nascido quando Boudiaf se exilara). Outro problema, e esse era um risco corrido por quem, por detrás das cortinas, montara a manobra, era se Boudiaf alinharia com o papel protocolar que lhe havia sido conferido, presidindo sim, mas a um Alto Conselho de Estado acabado de criar, formado por cinco pessoas. Os cinco meses e meio que decorreram entre a posse de Mohamed Boudiaf e o seu assassinato parecem indiciar que a sua conduta não decorreu de acordo com o esperado. Significativamente, o seu assassinato teve lugar durante uma reunião de quadros (vídeo abaixo), acções em que Boudiaf estaria à procura de uma via própria entre a guerra civil que se anunciava entre militares e militantes islâmicos. A acusação oficial de que terão sido estes últimos os seus assassinos resvala num certo cepticismo indiferente, conhecidas as iniciativas de Boudiaf em mostrar alguma pedagogia no combate contra a corrupção da FLN, nomeadamente tentando pegar no exemplo do seu antecessor militar Chadli Bendjedid - o que provocou um grande mau estar! O peso das suspeitas é tão grande de um lado quanto doutro. Personagem interessante, pela brevidade da sua passagem pelo poder quando conjugada com a sua falta de contemporização para com o papel que esperavam dele, Mohamed Boudiaf bem podia ter-se tornado num daqueles mitos históricos, um belo protagonista para a História Contrafactual.

28 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (12)

Fazer greve para exigir uma diminuição de chicotadas em vez de, como é convencional, um aumento de salário, é um daqueles momentos que fazem de René Goscinny um portento do pensamento económico.

«FARM HALL»: A HISTÓRIA DE UMA FÁBULA ALEMÃ ORIGINALMENTE CONCEBIDA NUMA QUINTA INGLESA

Primavera de 1945. Com a invasão da Alemanha e o aproximar-se do fim da Guerra, desencadeou-se a busca pelos cientistas alemães, em que os países ocidentais, encabeçados pelos Estados Unidos, competiam com a União Soviética. A cada um dos campos de pesquisa em que os norte-americanos estavam interessados em saber aquilo que fora desenvolvido pelos cientistas alemães foi atribuído um nome de código. A Operação Alsos envolvia a descoberta das instalações e a busca e captura dos cientistas que tinham estado associados às pesquisas no campo da física nuclear. Já depois da Guerra ter terminado, no começo do Verão, os dez cientistas alemães capturados acabaram transferidos para uma quinta de Inglaterra denominada Farm Hall, onde ficaram por meses em interrogatórios formais descrevendo aos interrogadores o que haviam feito pelo desenvolvimento do projecto nuclear durante os anos do III Reich. A esta fase deu-se o nome específico de Operação Epsilon. Compunham o grupo (por ordem alfabética): Erich Bagge (33 anos), Kurt Diebner (40), Walther Gerlach (55), Otto Hahn (o decano com 66 anos), Paul Harteck (42), Werner Heisenberg (43), Horst Korsching (42), Max von Laue (65), Carl von Weizsäcker (33) e Karl Wirtz (35). Deixando para trás uma Alemanha que colapsara, o facto de se ter sido selecionado para ali estar e para os propósitos confessos de os interrogar não deixava de ser lisonjeiro para os que ali estavam, e eles eram demasiado inteligentes para não perceber isso. Contudo, mais do que os interrogatórios formais, haviam também sido instalados microfones escondidos para captar as conversas entre o grupo, e aí eles eram demasiado ingénuos para se aperceber dessa possibilidade. A atitude inicial do colectivo, depois de instalado em Farm Hall (acima) em princípios de Julho de 1945, era de uma certa sobranceria diante do assédio dos anglo-saxónicos por querer saber em detalhe dos trabalhos para a criação de uma bomba atómica alemã (recorde-se, que os trabalhos equivalentes nos Estados Unidos, o Projecto Manhattan, ainda eram um segredo ultraprotegido). Nas transcrições de 21 de Julho Erich Bagge ainda se mostrava «convencido que (os anglo-americanos) haviam aproveitado os últimos três meses para replicar as nossas experiências»... Na realidade, cinco dias antes os americanos haviam detonado em segredo o primeiro engenho nuclear no Novo México, as pesquisas alemãs estavam anos atrasadas ao que fora conseguido do outro lado do Atlântico. O fim das ilusões dos cientistas alemães só chegou no dia 6 de Agosto às 9 da noite, quando o noticiário da BBC anunciou a detonação da bomba em Hiroxima. Na verdade, havia um interesse mínimo no que os cientistas alemães tinham para ensinar, o que era importante fora impedir que eles caíssem nas mãos dos soviéticos, que haviam desenvolvido a sua própria "contra-Operação Alsos". As conversas dos dias seguintes em Farm Hall estiveram recheadas de conjecturas quanto aos processos que haviam conduzido os anglo-americanos ao sucesso, antes de se focarem nos erros próprios (alguns deles importantes) até que, com o decorrer dos dias e após a contricção, se começou a consolidar uma fábula (lesart no alemão original): a de que as pesquisas dos cientistas alemães não haviam alcançado resultados substanciais por falta de empenho dos próprios. É uma versão inverosímil mas que ainda hoje se impinge. Ninguém gosta de perder e os alemães, se calhar, ainda menos que todos os outros e também não se acanham de inventar histórias para camuflar uma derrota clamorosa. Na verdade e quanto a empenho, tirando os dois cientistas da geração mais velha (Otto Hanh e Max von Laue), a atitude dos restantes cientistas daquele grupo sob o III Reich fora sempre mais do equívoca, e fora precisamente por causa das intenções equívocas da Alemanha que, em Agosto de 1939, Léo Szilárd e Albert Einstein haviam enviado uma carta ao presidente norte-americano (Franklin D. Roosevelt) incentivando-o a desenvolver as pesquisas nucleares com receio que os alemães se antecipassem.

O MORAL DAS TROPAS E A SEGURANÇA DO MINISTRO

É interessante apreciar o ponto de vista do Observador no que concerne à forma como interpreta as deslocações dos titulares da pasta da Defesa. Há o moral das tropas e, por outro lado, haverá a segurança do ministro (acima), que se apresenta como coisa distinta da segurança das tropas. E a coragem pessoal é apresentada como um defeito enquanto galvanizar os subordinados pelo exemplo se torna um disparate. O que é assisado é proceder como Aguiar-Branco (abaixo, há dois anos), não se publique o que esses mesmo subordinados lhe chama(va)m em surdina...

O DIA EM QUE A REPUTAÇÃO DO BOXE BATEU NO FUNDO

28 de Junho de 1997. Como modalidade desportiva, o boxe terá os seus praticantes e os seus adeptos mas o conjunto é apreciado do exterior com indisfarçáveis sentimentos de muito pouca estima senão desprezo. Mas há 20 anos essa reputação conseguiu a proeza de se afundar ainda mais por ocasião de um dos importantes combates pelo título mundial, em que se enfrentavam Evander Holyfield e Mike Tyson por uma segunda vez. Ao terceiro assalto a assistência presencia um dos mais sórdidos golpes sujos duma modalidade famosa por eles, quando Mike Tyson morde a orelha do adversário com tal violência que lhe arranca um bocado de cartilagem. Apesar do golpe ser completamente à margem das regras, dos protestos de Holyfield e de, para evidência, o ferimento ter começado a sangrar abundantemente, o combate não foi interrompido. Foi preciso Mike Tyson ter tentado repetir o golpe para que isso acontecesse... E foi só depois, quando o episódio captou pelo insólito e pelo sórdido o interesse de toda a comunicação social mundial, que as autoridades do boxe avançaram para sanções mais severas para Tyson.

27 junho 2017

O CALOTE SAUDITA

Os sauditas bem gostam de passar por imensamente ricos mas, quando lhes dá para o calote, tornam-se tão bons como qualquer país pelintra de terceiro mundo. Como se percebe pelos cabeçalhos, esta história dos salários atrasados já se arrasta há bastante mais de um ano (por cá, ainda o primeiro-ministro era Pedro Passos Coelho, imagine-se!) e, o que o assunto tem feito correr em demasia em tinta é compensado pelo que lhe falta em vergonha, pelo menos se contarmos por bons os compromissos que foram sucessivamente assumidos pelas autoridades sauditas. Repare-se que a última notícia da série é de hoje e já envolve Santos Silva, o ministro dos Negócios Estrangeiros e o dinheiro parece ainda à distância de um canudo. E anda Donald Trump a gabar-se de ter realizado com estes mesmos tipos a maior venda de armas na história dos Estados Unidos? Fiem-lhes, fiem-lhes...

O CONTRADITÓRIO

Até mesmo fora da política há quem pretenda fazer do exercício do contraditório um modo de vida. Na política, contudo, e mais do que um modo de vida é um exercício indispensável, embora haja quem por vezes tenha dificuldades em o identificar.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (11)

Costuma falar-se da antiguidade das profissões e esta passagem da aventura mostra que os agitadores sindicais, aqueles que promovem as justas lutas dos trabalhadores, já existirão desde tempos muito antigos - a sério, a documentação mais antiga referente a uma greve no Egipto data mesmo do século XII a.C. E o facto de a greve (esta, a figurada e não a que ocorreu no reinado do faraó Ramsés III) ter sido promovida por Amonbofis, o inimigo e rival de Numerobis, consagra a impressão que: a) é relativamente fácil manipular algumas classes de trabalhadores; b) o interesse dos trabalhadores é o que, no fundo, menos interessa ao promotor da agitação laboral.

26 junho 2017

INFORMAÇÕES QUE NÃO PÕEM AS REDES SOCIAIS "AO RUBRO": A DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO DA GRONELÂNDIA

A Gronelândia tem uma área de 2.166.000 km² (24 X a área de Portugal) mas é povoada apenas por uns 56.000 habitantes (menos de ¼ da população da Madeira), o que a torna o território menos densamente povoado do Mundo. Esta informação estatística perfeitamente supérflua é complementada com a da sua distribuição, que se concentra predominantemente na costa ocidental, a costa que está orientada para o continente americano, conforme se pode perceber pelo mapa acima. É uma informação que, não inflamando as redes sociais, não deixa de ser surpreendente, já que a quase totalidade das referências históricas à Gronelândia a conectam com a sua descoberta e tentativa de colonização pelos povos nórdicos entre os séculos X e XV, uma história trágica, já que a colonização veio a fracassar ao fim de 500 anos por causas ainda hoje discutidas, só vindo a ser retomada num outro fôlego e com melhores meios materiais a partir do século XVIII. Na actualidade, ao contrário do que aconteceu na Islândia (que era deserta e onde a população moderna é de ascendência nórdica) e apesar do território continuar a ser uma dependência da Dinamarca, cerca de ⅞ da população da Gronelândia é de ascendência inuíte.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (10)

Porque é que houve toque para mudança de turno se daí a poucos instantes iria haver outro toque para o almoço?

OS FOGOS FLORESTAIS

A edição de 26 de Junho de 1987 do Diário de Lisboa incluía um dossier de quase duas páginas sobre os fogos florestais. Independentemente do conteúdo da análise e das soluções ali preconizadas (o jornal estava fortemente conotado com os comunistas), trinta anos depois, ou se admite que há certas perspectivas do assunto que são insolúveis, ou, se o não são e mais do que apenas a dos políticos, existe uma responsabilidade social colectiva pelo assunto parecer continuar por resolver. Como o notou Almada Negreiros, temos a pecha de confundir as frases que hão de salvar o Mundo com a sua própria salvação.

25 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (9)

«OUR WORLD»

25 de Junho de 1967. Com o impulso inicial da BBC tomara forma um projecto de uma emissão global de um mesmo programa de televisão a ser emitido em simultâneo para todo o Mundo. Dera-se-lhe o nome de «Our World». Associaram-se ao projecto 14 países de todos os continentes: Alemanha Federal, Austrália, Áustria, Canadá, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, Japão, México, Reino Unido, Suécia e Tunísia. Outros países haviam-se associado à sua transmissão, entre os quais Portugal que o incluiu na programação da RTP desse Domingo (mais abaixo). Contava-se com uma audiência na ordem das várias centenas de milhões de telespectadores. A poucos dias da transmissão, o número foi revisto em baixa porque a União Soviética e os seus aliados (Alemanha Oriental, Checoslováquia, Hungria e Polónia) decidiram retirar-se do projecto invocando como causa o apoio ocidental a Israel na Guerra dos Seis Dias que se travara no início daquele mês.

Porque a transmissão era em simultâneo para todo o Mundo, foram mobilizados simultaneamente quatro satélites de comunicações ao redor do planeta, o que era praticamente todo o arsenal de telecomunicações espaciais disponível na época. Casos houve que a emissão teve lugar de madrugada, o que aconteceu tanto no Japão como na Austrália. O programa teria (e teve) uma duração rondando as duas horas, em que cada uma das 14 televisões associadas colaborou com a feitura de uma pequena reportagem que, de acordo com as regras previamente acordadas, não poderia versar tópicos políticos e teria de ser obrigatoriamente em directo (acima um pequeno trecho com 20 minutos - note-se a ausência do português entre as 16 línguas na apresentação inicial do programa).
Como é costume, a comunicação social qualificou na altura o acontecimento de histórico. E como também é costume toda a transmissão estaria hoje, 50 anos depois, completa e totalmente esquecida não fosse a transmissão britânica: uma nova canção dos The Beatles composta especialmente para a ocasião e intitulada All you need is love...

24 junho 2017

...FICA NA EUROPA


Depois de há 35 anos Ronald Reagan ter terminado um discurso de agradecimento num banquete brindando "ao povo da Bolívia", no Brasil (que era onde ele estava e o povo a quem deveria ter sido feito o brinde) passou-se a prestar muita atenção às gaffes presidenciais - às alheias, mas também às próprias. Pois ontem foi ocasião de Michel Temer se agigantar nessa actividade ao nomear enfaticamente "sua majestade, o rei da Suécia" quando estava de visita à... Noruega.

Quem tem um Marcelo tem tudo... quem não tem Marcelo não tem nada!

OS «HAPPY ENDS» DOS ESCÂNDALOS JÁ ESQUECIDOS

(...) «a "Lista VIP" consistia, recorde-se, num programa informático para "proteger" o acesso aos processos de determinados contribuintes, com relevância política. Sempre que eram consultados os registos financeiros do Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, do Vice-Primeiro-Ministro, Paulo Portas e do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, disparava um alarme e o responsável do serviço era notificado por email.» (...) é concluído no inquérito que não existia de facto uma "lista VIP", uma vez que se tratava de um sistema experimental, limitado apenas a controlar as pesquisas sem justificação feitas nos processos de quatro figuras públicas.»

E é assim que todos estes pretensos escândalos costumam acabar cá em Portugal. Águas de bacalhau é a expressão apropriada. Paulo Núncio não se demitiu e os funcionários também não levaram uma porrada, porque "não existia uma lista VIP" (para efeitos políticos, as listas com menos de #4 itens deixaram de ser designadas como tal). Entretanto já se passaram mais de dois anos sobre os acontecimentos. E, porque há por aí alguns memorialistas que costumam evocar a falta de memória dos outros (como é o caso de José Pacheco Pereira), permitam-me recuperar o que na altura foi dito pelos intervenientes do programa Quadratura do Círculo, a destacar António Lobo Xavier. Não será de ele voltar ao assunto, recordando o que o seu colega dissera?...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (8)

A postura do escriba Misenplis (o tal que fala todas as línguas vivas: o latim, o grego, o celta, etc.) é inspirada nas esculturas como são tradicionalmente representados os escribas egípcios. A prancha termina com uma paródia à (então novidade da) publicidade agressiva (mas exagerada nos resultados) das escolas de línguas e dos seus cursos por correspondência.

UM VÍDEO (IM)PERTINENTE


Eis um vídeo de um outro grande incêndio, que é importante publicar para mostrar que o incêndio de Pedrógão Grande não foi o primeiro nem é o superlativo dos desastres do mesmo género. E é também importante vê-lo para recordar que houve outrora um estilo que era trágico, porque se tratava de narrar uma tragédia, sem que isso tivesse que ser o estilo exagerado que alguém até designou recentemente por masturbação da dor. E finalmente porque as circunstâncias do incêndio a que o vídeo se refere contradizem algumas das ideias fixadas sobre o assunto. Em primeiro lugar porque se trata de imagens de um grande incêndio que se propagou naqueles tempos míticos (1949) em que ainda havia as tais populações rurais em que, segundo o que se ouve agora na televisão, os fogos não se espalhavam com tanta facilidade; em segundo lugar porque foi um incêndio que ocorreu naqueles sítios míticos (no caso, as Landes francesas) onde a cobertura florestal era (e é) diferente da nossa (maculada pela predominância de eucaliptos e pinheiros), onde, por isso e ainda de acordo com o que se ouve na televisão, o fogo teria tido muito mais dificuldade em progredir. Mesmo assim, o incêndio tomou seis dias a ser dominado (de 19 a 25 de Agosto de 1949), e quando o foi, haviam ardido 52.000 hectares (dos quais cerca de metade eram florestas), mas, muito pior, haviam morrido 82 pessoas. Uma súbita inflexão do sentido em que soprava o vento apanhara desprevenidos toda uma frente de combatentes do incêndio; entre as vítimas contavam-se funcionários das florestas, bombeiros, militares e populares. É considerado o mais mortífero incêndio florestal na Europa Ocidental nos tempos modernos.

E, mesmo que os meios para os combater sejam hoje muito mais possantes do que há 68 anos, porque parece, pelo discurso, ser indispensável apurar responsabilidades políticas em incêndios com estas consequências, esclareça-se que o chefe do governo de então era o radical Henri Queille, o ministro do Interior o socialista Jules Moch e o da Agricultura o republicano popular (de direita) Pierre Pflimlin (De pessoas que integrassem o elenco governamental que ainda digam alguma coisa ao leitor, destaque-se o secretário de Estado da Presidência do Conselho, o (então ainda) centrista François Mitterrand). O governo veio a cair a 5 de Outubro de 1949, mas «em virtude da atitude dos ministros socialistas» conforme se pode ler no título do Diário de Lisboa daquele dia.

23 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (7)

Suponho que a história da preferência de Cleópatra por pérolas dissolvidas em vinagre seja tão conhecida que dispense explicação. Contudo, menos conhecida será a realidade por detrás dela: o ritmo a que as pérolas verdadeiramente se dissolvem estragaria o enredo original assim como as paródias que se fazem à sua volta.

HÁ 35 ANOS, SOARES CONTRA ZENHA, NÃO HÁ QUEM O DETENHA

23 de Junho de 1982. A reunião da Comissão Política do PS da noite anterior tivera um só propósito e um só alvo: Francisco Salgado Zenha, que fora até aí, e desde as eleições de Outubro de 1980, o presidente do Grupo Parlamentar dos socialistas. Desde 1980 e da controvérsia que envolvera o partido por causa do apoio dispensado à reeleição do presidente Eanes no final desse mesmo ano, Mário Soares recuperara entretanto o controlo do partido no seu III Congresso em Maio de 1981. Mas, para o fazer, Soares tivera que substituir quase toda a equipa dirigente do PS enquanto o seu Grupo Parlamentar, porque fora escolhido (e eleito) em 1980, ficara-lhe (um pouco) fora do alcance. Mas, como se costuma dizer, as vinganças servem-se frias. Demorara mais de um ano, mas a notícia de há 35 anos, que, pelo conteúdo, se percebia ter sido indubitavelmente soprada por uma fonte próxima de Soares, continha passagens de uma certa volúpia vingativa:

«(Zenha) Foi depois veementemente defendido por alguns dos mais proeminentes elementos do grupo conhecido como do ex-Secretariado, nomeadamente por António Arnaut, António Guterres e Vítor Constâncio que, nas suas intervenções, colocaram a questão muito em termos pessoais. Realçaram as qualidades de Salgado Zenha e os serviços prestados ao partido para condenarem a proposta da direcção. Do mesmo modo qualificaram de antiestatutária a decisão da Comissão Nacional e a proposta da Comissão Política.
Mário Soares respondeu imediatamente a António Guterres, acusando-o de ser o principal responsável por uma conspiração visando a desestabilização interna do PS e, nomeadamente, o agudizar das divergências entre ele próprio e Zenha. Guterres em cuja casa se têm realizado, segundo informações já vindas a público, reuniões do grupo do ex-Secretariado, contestou estas afirmações e disse estar disposto a esclarecer as suas posições em conversa pessoal com Mário Soares, que estaria mal informado

Imagine-se! O actual Secretário-Geral da ONU a ser acusado de intriguista e a tentar dar a volta ao acusador com um expediente de treta, propondo-lhe uma conversa pessoal. Porque é que nunca se lembram destes episódios quando da elaboração dos obituários?...

UM BOM GRÁFICO EXPLICA MUITA COISA

Mas tanto há bons gráficos para as explicar como os há para as dissimular. Repare-se acima como o gráfico circular permite dar uma aparência quase idêntica às distribuições das situações A e C. Uma revista que dá gosto ver os gráficos para detectar a habilidade como alguns são trabalhados é a The Economist.

22 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (6)

O farol de Alexandria era uma das sete maravilhas do Mundo e também a mais recente de todas elas. Mesmo assim, quando Astérix chegou ao Egipto, já existia há 200 anos.

MOSSUL: A BATALHA URBANA QUE DURA HÁ MAIS TEMPO DO QUE ESTALINEGRADO


Já não é a primeira vez que falo do tema, mas a verdade é que nada aconteceu depois disso. Os meses passam, as proclamações da libertação de Mossul do controle das forças do Estado Islâmico sucedem-se com tal regularidade que se pode dizer mesmo que se acumulam, quais peças num cesto da roupa suja. Os órgãos de comunicação social de todo o Mundo continuam a retransmitir aquelas proclamações acriticamente como se os jornalistas não possuíssem cérebro nem memória. Se calhar não possuem mesmo, e é para ser mesmo assim, uma extensão da propaganda ocidental. Não o fosse e essa e tantas outras questões impertinentes pôr-se-iam a respeito de muitos outros assuntos que não somente o de Mossul. Por exemplo: que é feito, onde andam e que têm feito os dois porta-aviões que os Estados Unidos mobilizaram para as águas coreanas, ostensivamente para intimidar a Coreia do Norte? A verdade é que a intimidação não parece estar a dar efeito: mesmo com os dois porta-aviões à porta(?), os norte-coreanos devolveram um prisioneiro americano mesmo a tempo para que ele não lhes morresse nos braços. E aí, onde Donald Trump tinha razões para urrar de indignação, já havia gasto os seus estados de alma em tweets precedentes provocados por razões de lana caprina. Mas retornemos à Batalha de Mossul, a tal cidade do Iraque que anda a ser libertada há oito meses(!). Vai-se aos números publicitados e os atacantes dispõem de uma vantagem de efectivos de 10 para 1. Quanto a meios militares, é melhor nem falar. Mas quanto às promessas e proclamações elas já passaram do ridículo para o outro lado. Para comparação, a famosa Batalha de Estalinegrado da Segunda Guerra Mundial durou uns meros cinco meses e meio. Só que aí, sabe-se, havia raiva de um lado e outro, de atacar mas também de resistir, mesmo quando os papéis se inverteram. Neste caso, a suspeita é que, perante um tal arrastar dos acontecimentos, não esteja a haver grande vontade de atacar. Quando as televisões vão à «frente de combate» para captar imagens para a notícia que anunciará a próxima queda de Mossul para os iraquianos, dão-se uns tiros para o outro lado para que os repórteres filmem, mas dá toda a impressão que a ideia é que se está à espera que os gajos do Estado Islâmico se chateiem e vão mesmo embora sem que os soldados iraquianos tenham que combater. É essa a impressão, a de que do lado iraquiano ninguém está com vontade de se deixar matar por Mossul. A força do Estado Islâmico não será própria, advém é da fraqueza daqueles que o combatem. Mas, se a impressão estiver errada, aí convém que os jornalistas, em vez de ainda mais proclamações, comecem a filmar a ferocidade de combates que, pela duração da Batalha, ofuscarão decerto em ferocidade os que se desenrolaram em Estalinegrado.

A REMOÇÃO DO «CHECKPOINT CHARLIE»

Berlim, 22 de Junho de 1990. Sem cerimónia, uma grua removia aquele que se tornara num dos mais famosos casinhotos fronteiriços de todo o Mundo, indispensável de figurar em qualquer bom filme de espiões. Num mau filme de espiões também... O casinhoto foi para um Museu mas deixou saudades. Tantas que lá edificaram uma réplica e o local que o rodeava, para recuperar uma expressão do vídeo abaixo, tornou-se numa espécie de Disneylândia da Guerra-Fria.

21 junho 2017

AS ELEIÇÕES E A TELEVISÃO

As duas imagens são de coberturas televisivas de actos eleitorais. Propositadamente, os momentos referem-se a resultados referentes ao mesmo círculo eleitoral, o do distrito de Viana do Castelo. E existem cinco anos e meio a separar as duas transmissões televisivas. Mas, atenção, não se trata de uma evolução na continuidade: entre Outubro de 1969 (acima) e Abril de 1975 (abaixo) houve um golpe de Estado (25 de Abril de 1974) e uma revolução em curso (o famigerado PREC). E é por isso que vale a pena apreciar e comparar o conteúdo dos quadros que eram exibidos aos telespectadores. Afinal, cinco anos é a duração de um mandato presidencial. Em 1969 as candidaturas eram poucas (4) e no caso concreto do círculo de Viana do Castelo, houvera apenas a concorrência entre o regime (a UN, União Nacional) e uma oposição (a da CDE, Comissão Democrática Eleitoral). Naquele momento o escrutínio já estava encerrado, e os um pouco menos de 40 mil votos haviam resultado numa maioria esmagadora (de 88%, os quadros ainda não mostravam percentagens) à situação. No quadro não está também contemplada a informação respeitante aos mandatos, mas também seria uma informação supérflua, pois, das regras, a lista vencedora ficaria com todos os mandatos (4 - para os mais curiosos sobre estes assuntos vale a pena dar uma espreitada a esta simulação).
Em 1975 as candidaturas à escala nacional haviam-se multiplicado de 4 para 12, das quais havia 9 que se apresentavam pelo círculo de Viana do Castelo. Note-se que neste quadro, apresentado tarde na noite (03H00-04H00 da manhã?), mostrava-se ainda apenas os resultados parciais recolhidos até aí para o distrito. Um dos resultados do 25 de Abril fora a facilitação da capacidade do voto. Como se se tratasse de uma penada, o eleitorado de Viana do Castelo passou dos menos de 40 mil votos de 1969 para o quádruplo disso em 1975: 157 mil eleitores. Eram muito mais votos para contar e o mesmo problema se colocava por todo o país. Como se pode perceber lendo os números de baixo do quadro, mesmo àquela hora, só um pouco menos de ⅓ dos votos haviam sido contados (uns 50 dos 157 mil potenciais eleitores). Mas o número de votos já contados já superava a votação total de 1969. Única organização repetente, a CDE (agora designada MDP/CDE) totalizava 2.324 votos e 5,2%, que eram valores absolutamente superiores mas relativamente inferiores aos que obtivera em 1969. Naquele círculo, o escrutínio afigurava-se prometedor para o PPD, o PS e o CDS (por esta ordem), que iriam repartir entre si os seis mandatos de deputados que o distrito passou a eleger, conforme se pode ver no quadro com os resultados definitivos abaixo. Era toda uma outra legitimidade democrática, a que era conferida pelos 140 mil eleitores de 1975, quando comparada com os 40 mil de 1969.

MENAHEM BEGIN COMO PRIMEIRO-MINISTRO DE ISRAEL

Há quarenta anos, Menachem Begin tornava-se primeiro-ministro de Israel. Era o sexto a ocupar o cargo em 29 anos de história do Estado, mas o seu executivo era o primeiro que não contava com o apoio da esquerda israelita. Por um lado, a presença da esquerda no poder em Israel durante essas três primeiras décadas (que fora muito bem promovida, de resto: não havia nada de mais igualitário do que os kibutzim, verdadeiros kolkhozes do deserto!) refreara um pouco o alinhamento que se conferia a Israel no quadro da Guerra-Fria. (Ainda outro dia li alguém a confessar aqui numa rede social que, mesmo sendo daquele esquerda que não pode ser outra coisa senão de esquerda, simpatizava com o lado dos israelitas em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias). Contudo, por outro lado, e para a concretização de negociações de paz, essa mesma esquerda sempre vivera sob a sombra das acusações de brandura no tratamento com os inimigos árabes por parte desta mesma direita mais radical que em 1977 chegava finalmente de forma isolada ao poder. Menachem Begin fora um dirigente terrorista durante o período colonial britânico (como a notícia do Diário de Lisboa de há 40 anos faz acima questão de frisar). O seu inimigo haviam sido não apenas os árabes mas também os britânicos. E como político do novo Estado de Israel, Begin era daqueles que não se mostrava "nada modesto no pedir": veja-se a configuração de Israel que consta no mapa da foto abaixo, onde o vemos a discursar num comício - inclui não só Israel mas também toda a Jordânia! Porém, o facto de não ter (quase) ninguém a criticá-lo por moderação iria ajudá-lo a conseguir um Tratado de paz com o Egipto dali por dois anos. Pareceu o início de um ciclo em que Israel iria conseguir firmar progressivamente acordos separados com todos os seus vizinhos árabes, trocando a posição militar vantajosa que alcançara em 1967 e 1973 por segurança dentro das fronteiras que a ONU lhe reconhecera. Parecia, mas não foi assim. Os contornos do conflito alteraram-se mas, feitas as contas, Begin já teve seis sucessores no cargo depois de o ter abandonado em 1983 e, com excepção do caso do Egipto e também o da Jordânia (mas trocando-os com os da Cisjordânia e da Faixa de Gaza), a situação de (in)segurança permanece essencialmente a mesma da que existia há quarenta anos.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (5)

Repare-se que, se os marinheiros egípcios tiritam sob o frio, não foram essas mesmas condições agrestes que fizeram com que Obélix vestisse uma camisolinha...

20 junho 2017

AS IMAGENS DO PASSADO TELEVISIVO DE ANTÓNIO BARRETO E MEDINA CARREIRA

Foram apenas razões logísticas as que me levaram a optar pelo facebook para colocar duas publicações contendo interessantes peças da memória da RTP. Uma de há 40 anos, com António Barreto como ministro da Agricultura de visita a uma exposição da actividade e outra de há 28 anos, em que aquele que fora o seu colega de governo na pasta das Finanças, Medina Carreira, se apresenta como candidato à eleição para bastonário da ordem dos advogados. Nos dois casos, as reportagens fazem-nos lembrar aquele comentário bíblico que «quem vive pela espada, morrerá pela espada», embora não no seu sentido estrito, porque as "mortes" que aqui são causadas pela "espada televisiva" até são "retroactivas". Mas é cómico confrontar as imagens televisivas daquelas épocas com quem agora usa o mesmo meio para se passear impoluto e venerando pelo mundo do comentário televisivo. O mundo de que eles às vezes falam é que pura e simplesmente não existiu...

20 DE JUNHO DE 1942: O JAPÃO ATACA... O CANADÁ

Há 75 anos um submarino japonês, o I-26, atacava o farol de Estevan Point na ilha de Vancouver, na costa canadiana do Pacífico. Não era a primeira vez que um submarino japonês atacava o continente americano. Só que era a primeira vez que o fazia no Canadá. O Japão, de resto, destacara-se pela ousadia como atacava alvos em terra nos países em que, pela distância, havia uma sensação entre as populações de se sentirem aparentemente afastadas directamente do conflito, como eram os casos dos Estados Unidos continentais ou da Austrália. Neste caso concreto (de que hoje se celebram as bodas de diamante), a intenção era mais moral do que material e ela foi indiscutivelmente alcançada, veja-se o destaque dado ao episódio pelo jornal The Vancouver Sun na sua edição de 22 de Junho (acima e abaixo). Repare-se que do lado esquerdo dessa primeira página se destaca a queda de Tobruk na Líbia (ocorrida a 21 de Junho), 25.000 prisioneiros, um colossal fiasco britânico (e, por arrasto, canadiano), mas quem é que na cidade de Vancouver se queria preocupar com isso quando andava por aí à solta um submarino japonês a atacar as costas canadianas?...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (4)

Refira-se que, sendo esta aventura a que sucede à Volta à Gália, a presença de Ideiafix é recente, assim como a ideia de ele acompanhar os protagonistas na sua viagem ao Egipto.

19 junho 2017

O FUZILAMENTO DO IMPERADOR MAXIMILIANO

Neste mesmo dia de há 150 anos o imperador Maximiliano I de Habsburgo (1832-1867) era fuzilado no México. Não chegou a completar 35 anos. Terminava dessa foram trágica uma aventura que já aqui contei neste blogue há uns dez anos. Para a relembrar sem me repetir, eis essa mesma história, agora recontada em quatro pranchas de Banda Desenhada.
O fuzilamento de Maximiliano foi tema de um interessante quadro do pintor francês Édouard Manet (1832-1883) que se pode apreciar abaixo. Mais do que pelo rigor, a pintura destaca-se pelo seu simbolismo, o soldado que fica para trás recarregando a sua espingarda tens as feições e o bigode de Napoleão III que Manet considera o responsável por aquele desfecho trágico.
E como que a corroborar que a aventura mexicana havia sido quase exclusivamente uma questão francesa, embora protagonizada por um príncipe austríaco demasiado ingénuo, até mesmo a única fotografia do fuzilamento é da autoria de François Aubert (1829-1906), outro francês. Nela percebe-se que Maximiliano estava do lado direito do paredão e não ao centro como acima o representam.

PONTES E FERIADOS

Depois do usufruto de uma semana de férias que parecia no calendário idealmente concebida para uma ponte das compridas, com os dois feriados idealmente intercalados à 3ª e à 5ª Feira, quais pilares da travessia, ocorreu-me visitar o passado em busca de relembrar quem dera a cara pela famosíssima decisão da abolição de quatro feriados, já que com ela em vigor, e porque um dos feriados então abolidos fora o do Corpo de Deus, esta apetecida ponte ter-se-ia ficado pelo meio do curso do rio... E encontrei alguns episódios (abaixo) protagonizados pelo nosso ex-primeiro-ministro. Era tudo uma questão de produtividade dos portugueses e, como se vê, ainda em finais de 2014 ele avisava o seu parceiro de coligação que a coisa estava para durar, «repor feriados» só em 2019. Só estranho que Pedro Passos Coelho (que adora um pretexto para aparecer a dizer-nos coisas) não tenha aproveitado este episódio colectivo de madraçisse para reafirmar os seus princípios e a força das suas convicções... Ou ele é um daqueles políticos que diz uma coisa no governo que já não diz depois quando passa para a oposição?...
É mais uma daquelas coisas que «eu não me esqueço»...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (3)

Talvez para contrastar com o clima ameno do Egipto, a acção decorre explicitamente no Inverno e a aldeia gaulesa é desenhada sob um nevão. Quanto ao trocadilho, ele faz sentido no original (abaixo), porque alexandrino designa simultaneamente um natural de Alexandria e um verso clássico de doze sílabas, precisamente as contidas na saudação de Numerobis. O tradutor português limitou-se a traduzir o sentido da frase sem atender à métrica, o que torna o trocadilho (para quem perceber a sua sugestão...) anacrónico.

18 junho 2017

«...IO NUN MO SCORDO...»


«...Eu não me esqueço...», como dizia Vito Corleone. Apesar de todos os comentários pacificadores a celebrar a saída de Portugal do procedimento por défice excessivo, eu não me esqueço nem quero esquecer como a liderança deste país pareceu incapaz de monitorizar devidamente quais estavam a ser as consequências financeiras (e sociais...) da política de austeridade que implementava. Em Novembro de 2012, a mês e meio do fim do ano, Vítor Gaspar continuava a jurar que o défice orçamental seria de 5% (abaixo). E dois meses depois disso, já com o exercício encerrado, a jura, agora perante os seus pares europeus, continuava a ser a mesma: 5%. Na verdade, o valor do défice daquele ano veio a ser algo superior às juras de Gaspar: 5,7% em 2012 (como hoje se constatará em qualquer gráfico com o histórico dos défices em Portugal, até mesmo num gráfico martelado por José Gomes Ferreira). Se Vítor Gaspar passou à história como o ministro que nunca acertava nas previsões, é importante reter que o caso deste (colossal) desvio de 1.200 milhões € não se tratou de nenhuma previsão: era uma estimativa porque o ano já havia sido encerrado quando Vítor Gaspar transmitia em Bruxelas aquela sua convicção. Ou seja, Vítor Gaspar nem sequer parecia acertar na bola mas, ainda assim, isso parecia não incomodar sobremaneira a figura tutelar do seu homólogo alemão Wolfgang Schäuble, que por essa altura ainda andava pouco propenso a empregar metáforas futebolísticas e a descobrir Ronaldos.
«...Eu não me esqueço...» Deve-se preservar a memória daqueles tempos difíceis e dos ensinamentos úteis que me lembro - também! - de ter ouvido ao primeiro ministro Pedro Passos Coelho. Podêmo-lo ouvir mais abaixo, numa das suas intervenções mais polémicas, ao empregar a expressão piegas para se referir ao nosso comportamento colectivo. Como costuma acontecer com as grandes indignações, também esta simplificou em demasia as palavras que foram então proferidas: «...as pessoas percebem que o que estamos a fazer está bem feito (...) então devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas, se encontrarmos sempre desculpas para o coitadinho que não teve tempo de estudar e fazer os trabalhos, se encontrarmos sempre uma explicação para os maus resultados, (...), não vamos lá...» Bom, para o que interessa e apesar da retórica aqui exibida pelo primeiro ministro, não fomos lá: Vítor Gaspar demitiu-se ao fim de dois anos no cargo. O tempo e os resultados vieram a provar que aquilo que eles estavam a fazer estaria afinal a ser mal feito. E o que houve, e ironicamente vindo das bandas do mesmo Pedro Passos Coelho que abaixo discursa, foram variadas "explicações para os maus resultados" e "desculpas para o coitadinho". E o que nos resta, numa outra ironia inversa, é persistir em contradizê-los, ser exigentes, não sermos piegas e insistir que reconheçam que Vítor Gaspar foi um dos piores titulares que passou pela pasta das Finanças...