15 junho 2017

AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES LIVRES ESPANHOLAS

15 de Junho de 1977. Dois anos e dois meses depois de Portugal e mesmo tratando-se de um dia de semana (Quarta-Feira), em Espanha realizavam-se as primeiras eleições livres. Acima e ao centro vêem-se alguns cartazes dos partidos concorrentes e dos lados as capas nesse dia dos dois jornais mais significativos do país, o El País de esquerda e o ABC de direita. Venceu a União do Centro Democrático (UCD), a organização política (mais geracional do que propriamente ideológica) que estava a promover a transição do regime franquista para uma democracia que estivesse ajustada aos padrões de abertura e liberdade da Europa ocidental. A dimensão da vitória foi mais expressiva na representação parlamentar (165 lugares em 350) do que na votação popular (34,4%), mas esse resultado menor era compensado pela identidade da alternativa, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, 29,3%), um partido da esquerda, mas da esquerda democrática. Diluídos na expressão popular da vontade de todo os espanhóis, até a expressão dos nacionalismos catalão e basco se pareceu diluir alguma coisa. A Transição Espanhola foi, naquela época, considerada uma benesse por causa do fantasma da Guerra Civil (1936-39). Mas a mais longo prazo é capaz de se ter tornado em algo de muito menos positivo, porque os vencidos do conflito continuaram vencidos e os vencedores nunca foram confrontados com a forma arrogante como venceram. Nada me dissuade da convicção de que o facto de nunca ter havido em Espanha qualquer coisa que se assemelhasse a um PREC como o português, ou mesmo qualquer outra manifestação colectiva que tivesse abalado mais profundamente os alicerces da sociedade espanhola, acabou por conferir à evolução da sociedade espanhola características muito distintas da sua vizinha portuguesa. É que, por exemplo e ao contrário do que aconteceu em Portugal, a Constituição do novo regime espanhol foi elaborada à porta fechada, sendo só depois referendada. Também muitas instituições do franquismo foram só superficialmente reformadas. Tudo isso fez com que, em mais do que um aspecto, a direita espanhola permanecesse a mais reacionária e retrógrada de toda a Europa ocidental, hoje capaz de ombrear apenas com as homólogas polaca ou húngara - que vêm de percursos históricos radicalmente distintos.

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