31 julho 2019

FUNDAÇÃO DA ETA

31 de Julho de 1959. Fundação da organização terrorista basca ETA. Ainda que a contragosto, aceita-se a existência de organizações políticas deste cariz quando os regimes das sociedades onde aparecem se revestem de características ditatoriais e autoritárias. Era o que acontecia há 60 anos com a Espanha franquista, e que acontecia também com Portugal e com mais alguns países europeus, incluindo todos aqueles que ficavam para lá da Cortina de Ferro (de onde, misteriosamente, nunca chegaram notícias de acções político-militares deste género). Só que em Espanha, a partir de 1977 tudo mudou, e a ETA manteve a sua conduta terrorista, como se lhe fosse indiferente operar em democracia ou em ditadura. O que a esvaziou de toda a moralidade e simpatia relutante. Mesmo assim, a ETA perpetuou-se por mais quarenta anos, mostrando o quanto, pela sua própria inércia, estas organizações acabam por se tornar viveiros de delinquentes que se aproveitam para se esconderem por detrás de ideais políticos. Quando a ETA anunciou a sua "dissolução" no ano passado, o acontecimento decorreu perante o desinteresse céptico: é que estas organizações não foram criadas por registo notarial e a experiência mostra que basta um punhado de marginais para adiante repegarem na sigla e voltarem à actividade. Por exemplo, o IRA irlandês foi criado há cem anos, tornou-se mundialmente famoso há cinquenta, já se anunciou a sua conversão cívica por milhentas vezes, mas ainda ontem o clima de terror que impõe em Derry foi notícia na BBC. São estruturas que não são para levar a sério a não ser que o demonstrem e que, por causa dessa sua natureza, não se extinguem só porque alguém anunciou que sim.

«FALA COM CALMA, MAS LEVA UM GRANDE CAJADO...»

No original, «speak softly and carry a big stick» foi a expressão cunhada por Theodore Roosevelt para definir a sua política externa durante os anos da sua presidência dos Estados Unidos (1901-09). Este seu longínquo sucessor Donald Trump parece estar a encaminhá-la, à política externa dos Estados Unidos, precisamente para o corolário oposto: «berra e insulta toda a gente, mas não te metas a sério com ninguém...»

30 julho 2019

A ESTRADA SOLAR FOI UM FRACASSO TOTAL

Mandaria a razoabilidade que a constatação do fracasso da estrada solar fosse noticiado agora com igual destaque ao que fora empregue na inauguração há dois anos e meio, tanto mais que o projecto fora apresentado desde o início como um teste que iria ser avaliado durante os seus dois primeiros anos. Mas não. E estes exemplos servem para demonstrar para além de qualquer dúvida, e por muito que os protagonistas defendam a sua corporação, que o negócio de informar é muito mais uma questão dos jornalistas nos darem aquilo que eles acham que o público gosta, do que uma questão estrita de compromisso com o rigor. Neste caso, e porque a tecnologia é sempre tida por coisa boa, eles acham que não vale a pena noticiar quando ela fracassa.

29 julho 2019

PARIS A CORES SOB NUVENS PRENUNCIANDO AGUACEIROS

Sabe-se que esta fotografia foi tirada em Julho de 1939 pelo foto-jornalista norte-americano William Vandivert, embora não se saiba em que data precisa. O dia de hoje, 29 de Julho, que corresponde à data oficial da inauguração do Arco do Triunfo em 1836, será portanto um dia tão bom, senão mesmo melhor do que outro, para a publicar no blogue em jeito de efeméride. Não apenas com esse intuito mas também com o simbolismo de mostrar uma Paris de Verão sob um céu composto por nuvens em vários graus de cinzento, prenunciadoras de aguaceiros, mas também prenunciadoras - sabemos hoje - do fim de uma época: dali por pouco mais de um mês, a Alemanha invadiria a Polónia e a Europa voltaria a mergulhar numa Guerra.

A HISTERIA ESPACIAL

Há cinquenta anos e na sequência do sucesso mediático que fora a cobertura do voo da Apollo XI, a comunicação social era dominada por um daqueles seus frenesins, o da exploração espacial. A edição de 29 de Julho de 1969 do Diário de Lisboa era uma demonstração de como era o estado de espírito do momento, com um grande destaque logo na primeira página para imagens de Marte que iriam ser recolhidas por uma das sondas gémeas (Mariner 6 e 7) e ser transmitidas pela televisão (por sinal, a programação da RTP inserta no mesmo jornal não apresentava nenhum programa especial para o efeito...). Mas o arrebatamento não se ficava por aí, pois a página 14 daquela mesma edição era toda dedicada a um desenvolvido artigo técnico (traduzido do Le Monde), explicativo dos próximos passos do programa espacial norte-americano, onde agora se pode reconhecer o desenho daquela que viria a ser a estação espacial Skylab. Ora, não fora o sucesso do passeio lunar de Armstrong e nada daquele assunto - pelo menos, com tal detalhe e desenvolvimento - teria cabimento nas páginas de um vespertino vulgar. E reconheça-se que o público de há muito se habituou a consumir os assuntos desta maneira errática e que a prática se transpôs actualmente para as redes sociais.

28 julho 2019

COMO É QUE O GAJO SE CHAMA MESMO?

Isto até parece mal estar para aqui a contar uma história em que um dos protagonistas até é autor de um blogue que se especializou nelas, nas histórias. Mas o que as histórias de Francisco Seixas da Costa têm de característico (pois é dele que estou a falar), é que têm um estilo diplomático, vício de forma profissional. E nesse estilo, a história que aqui quero contar perde a piada, pois a identidade da pessoa que com ele vai contracenar é importante para que se extraia todo o ridículo da cena. E a cena é até por sinal, assaz pública, decorre num estúdio de televisão de um canal que já não posso precisar qual foi, mas foi em directo, que o tema em debate nessa noite de Abril de 2017 era a primeira volta das próximas eleições presidenciais francesas. Presentes, como convidados, o já referido Francisco Seixas da Costa, um habitué naquelas andanças comentadoras, presença neste caso (bem) sustentada pelo facto de ter sido embaixador em França entre 2009 e 2013. Presença muito menos sustentada, a não ser pelo exercício do usucapião, era a de José Manuel Fernandes, que está lá sempre. Variando o tema do cocó à bomba atómica (na inesquecível expressão de Jô Soares), o publisher do Observador é considerado pessoa possuidora de opinião válida sobre tudo. Para mim, essa reputação trata-se de um dos grandes mistérios da comunicação social portuguesa, mas, como diria a Teresa Guilherme, isso agora não interessa nada. O que interessa é que, nessa celebrada noite de análise política sobre os vários candidatos presidenciais franceses, se notava uma acentuada implicância de José Manuel Fernandes com o nome do candidato da esquerda maçónica Jean-Luc Mélenchon. Umas vezes ele era tratado por Mélanchon, quiçá por parecença com o nome de Melâncton, reformador religioso alemão do século XVI, que aquela coisa de José Manuel Fernandes andar a conviver assiduamente com dois depositários de cultura erudita como Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto, pode acabar por ser contagioso. Outras vezes, o mesmo candidato era tratado por José Manuel Fernandes pelo nome de Mélonchon, no que podia passar por ser uma corruptela mais prosaica e vegetal de melocotón, a palavra espanhola para pêssego. Do outro lado da mesa, a expressão de Francisco Seixas da Costa cada vez menos conseguia esconder aquilo que lhe ia na alma em consequência das diatribes do seu companheiro de programa, que nem o nome do candidato das esquerdas das suas antipatias (das antipatias de Fernandes, entenda-se) sabia pronunciar correctamente. Até que não se conteve: e, por muito diplomata profissional que ele tivesse sido habituado a ser, ao tropeçar da enésima menção distorcida do nome do candidato da França Insubmissa, insubmeteu-se ele também e, interrompendo-o, corrigiu a calinada do orador de uma forma ao mesmo tempo ácida, sibilina, impaciente e saturada: Mélenchon! É sempre digno de nota ver um diplomata perder a compostura, especialmente se for para ver alguém de dentro expor em que alicerces assentam os predicados de um dos maiores expoentes do comentarismo televisivo doméstico.

27 julho 2019

«ELES SÃO UM PÊSSEGO...»

Por aquilo que eu o vejo por aí a fazer, toda aquela malta que saiu do PSD atrás de Santana Lopes e a que não saindo, foi à mesma atrás dele, à espera de não sei o quê, se deixaram de ser laranjas, tornaram-se em pêssegos. Dos que não servem sequer para néctar.

A LONGA SENTENÇA DA SRA. CHAMOY THIPYASO

A melhor forma de explicar sucintamente quem foi a sra. Chamoy Thipyaso (acima) é descrevê-la como a dona Branca da Tailândia. Se bem que os esquemas fraudulentos protagonizados pelas duas senhoras não sejam idênticos, há vários aspectos paralelos, nomeadamente o facto de que o colapso das respectivas organizações ocorreu na década de 80, com apenas alguns anos de intervalo. Mas se a dona Branca é apenas um fenómeno nacional, a sra. Chamoy alcançou a reputação mundial quando, a 27 de Julho de 1989, cumprem-se hoje precisamente trinta anos, foi condenada a 141.078 anos de prisão, uma pena que constitui um record mundial absoluto das sentenças mais extensas. Por uma vez, pareceu que a justiça tailandesa se inspirou no milagre multiplicador a que estes esquemas Ponzi costumam obedecer, e aplicou-lhe uma sanção que parecia reproduzir os ganhos futuros que haviam sido prometidos aos incautos aderentes ao esquema que a ré encabeçara. (Para comparação, diga-se que a justiça portuguesa, leniente, condenou dona Branca apenas a um ano de prisão) O Supremo Tribunal tailandês refreou contudo a especulação condenatória, e reduziu-a a um máximo decente de 20 anos, dos quais a sra. Chamoy não chegou a cumprir 8. Mas de uma fama de record Guiness não se livrou: é que, condenada a 11 anos do fim do século XX, só acabaria de cumprir pena em pleno século MCDXXXI!

26 julho 2019

O FIM OFICIAL DA GUERRA DE KARGIL

26 de Julho de 1999. Término oficial da Guerra de Kargil. Opôs a Índia e o Paquistão durante quase três meses. O objectivo da operação inicialmente desencadeada pelos paquistaneses era a ocupação de várias posições tacticamente vantajosas em elevações situadas do lado indiano da Caxemira. A infiltração foi inicialmente atribuída pelos paquistaneses a guerrilheiros seus apaniguados, mas os factos subjacentes vieram a desmentir essa ficção. Tratava-se realmente de um desses raros conflitos militares tradicionais entre dois estados, com a agravante de se tratar de dois países com capacidade nuclear. Mas a iniciativa fora do Paquistão, faltava-lhe o lado Moral da guerra, ainda para mais quando a sua história inicial dos guerrilheiros se desmoronou, através de uma habilidosa intercepção pelos indianos de uma conversa telefónica entre o comandante-em-chefe do exército paquistanês e o seu chefe de Estado Maior, que provava a dimensão da mentira. Com a publicitação da conversa, o Paquistão ficou politicamente isolado: nenhum dos seus dois grandes aliados tradicionais, os Estados Unidos e a China, se dispuseram a apoiá-lo. No terreno, o contra-ataque indiano para recuperar as posições entretanto ocupadas pelos paquistaneses  foi mais demorado e sobretudo mais custoso em termos de vidas humanas: apesar da tradicional discrepância entre os números admitidos e atribuídos pelas duas partes, o número de mortos cifra-se nas largas centenas dos dois lados (500-700), o que é muito significativo se se tomar em consideração a escassa duração do conflito e o facto de se ter tratado de uma guerra de montanha, que envolve comparativamente poucos efectivos. Militarmente a Índia limitou-se a restabelecer o "statu quo" na linha de demarcação que a separa do Paquistão. Mas politicamente teve uma vitória retumbante ao desacreditar internacionalmente o seu inimigo de sempre. Nomeadamente, a política externa norte-americana passou a ser muito mais equilibrada do que fora até aí.
Dois anos depois do fim da Guerra de Kargil, este livro acima - que é nitidamente pró-indiano - para além de fazer uma recapitulação do conflito interminável entre a Índia e o Paquistão, não escondia as esperanças do resultado da inflexão gerada por aquele último episódio. E mesmo depois de 2001, com a invasão e presença norte-americana do vizinho Afeganistão, consolidou-se uma impressão entre quem se preocupa com estes assuntos nos Estados Unidos, que o Paquistão possui uma agenda muito própria quanto a assuntos que nos próprios Estados Unidos eles qualificam de enorme prioridade. O clímax dessa impressão, que não é propriamente de uma grande melhoria das relações entre os Estados Unidos e a Índia, mas antes de um azedamento progressivo e assumido nas relações com o Paquistão, o clímax, escrevia, pode ser facilmente identificado pelo dia em que teve lugar a execução de Osama bin Laden (2 de Maio de 2011), que teve lugar no Paquistão, mas ao arrepio do conhecimento das autoridades daquele país. Isto é um resumo compacto do que havia a dizer a respeito da questão de Caxemira até à Segunda-Feira passada, quando Donald Trump recebeu o primeiro-ministro paquistanês Imran Khan e, como contrapartida do auxílio paquistanês para que os Estados Unidos se desengajem do Afeganistão, se propôs mediar o conflito da Caxemira entre a Índia e o Paquistão. A política externa da administração Trump, especialmente quando protagonizada pelo próprio, tornou-se de uma imprevisibilidade previsível: adopta uma atitude absolutamente contrária à dos seus antecessores. E é tão ignara quanto bem-intencionada, aldrabona e maledicente a respeito do trabalho dos que a precederam. Normalmente dá bronca porque não faz(em) a mínima ideia de onde é que se vai meter: neste caso, para agradar aos paquistaneses, irritou os indianos com as suas mentirolas, o que é um péssimo começo para qualquer aspirante a mediador.

25 julho 2019

OPERAÇÃO GAFF(E)

Na história dos grandes conflitos, as pequenas operações bem sucedidas podem tornar-se em sucessos de  propaganda. Mas as pequenas operações que, pelo contrário, tenham sido mal sucedidas têm o destino traçado para o oblívio, a não ser que alguém, a bem da verdade, as pretenda depois recuperar. É o que se faz aqui com uma Operação que recebeu o nome de Gaff, e cujo desfecho, como iremos ver, a presta ao trocadilho mais do que evidente com gaffe. Regressemos a 25 de Julho de 1944, completam-se hoje 75 anos. Os exércitos aliados ainda tentavam romper a resistência que os alemães lhes opunham na Normandia mas, nesse dia e por detrás das linhas alemãs, um comando especial do SAS britânico foi lançado clandestinamente em pára-quedas nos arredores de Orleães. A missão dos seis homens que o compunham era (como se pode ler no documento acima): «Matar, ou raptar e levar para Inglaterra, o Marechal de Campo ROMMEL, ou qualquer dos membros mais importantes do seu estado-maior». Com tanto azar que, desconhecido do comando e dos aliados, o alvo (Rommel) já fora neutralizado dias antes (17 de Julho), quando a sua viatura fora atacada por aviões da RAF, num episódio de onde ele saíra ferido com gravidade. Quando o comando descobriu isto, três dias depois da chegada, já há muito que Rommel fora hospitalizado e evacuado para a Alemanha. O comando de potenciais assassinos/raptores regressou assim às linhas aliadas, aonde chegou dia 12 de Agosto, conforme o relatório abaixo. Rico em detalhes insignificantes de acções onde se engajou em apoio da resistência francesa, o que é omisso em toda a documentação, é o detalhe do teor das comunicações trocadas entre Londres e o comando, sem responder à pergunta se se chegou a colocar a hipótese de remontar toda a operação, agora tendo como alvo alternativo o Marechal de Campo von Kluge, que era o sucessor de Rommel nas funções.

24 julho 2019

A ENTRADA EM VIGOR DO PACTO KELLOG-BRIAND

24 de Julho de 1929. Entrada em vigor do Pacto Kellogg-Briand. O pacto, que ia buscar o nome ao secretário de Estado americano da altura, Frank Billings Kellogg, e ao ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Aristide Briand, fora firmado em Paris quase um ano antes, em Agosto de 1928. Aos dois patrocinadores juntaram-se, na ocasião da assinatura, mais treze países e, na altura da sua entrada em vigor, há precisamente noventa anos, já eram quarenta e seis os países (entre os quais, Portugal e todas as potências de vulto) que «condenavam o recurso à guerra para a regulação dos diferendos internacionais e que a ela renunciam como instrumento de política nacional nas suas relações com os outros países». Nesse ano, Frank Kellogg foi distinguido com o Prémio Nobel da Paz. A expectativas eram altas mas o que o futuro reservava às boas intenções políticas para a ordem internacional foi aquilo que hoje sabemos. Dez anos depois, o Mundo voltava a entrar em guerra. Actualmente, já ninguém se lembra de nada: nem do pacto, nem do prémio, nem do premiado.

23 julho 2019

TUDO PREPARADO PARA UMA EVENTUAL «INTERPELAÇÃO» POR PARTE DA ASSISTÊNCIA...

Comecemos pelo que desconheço: quem foi o autor da fotografia, a data e o local precisos em que ela foi tirada. Mas o que se pode saber a seu respeito compensa. A começar pela identidade da figura em destaque, Bülent Ecevit (1925-2006), que foi primeiro-ministro da Turquia por quatro vezes (1974, 1977, 1978-79 e 1999-2002), nunca por muito tempo, que a política turca sempre teve idiossincrasias. O que dá valor à fotografia é evidenciá-las: um instantâneo de foto-jornalismo mostra Ecevit a subir para um estrado sobreelevado onde irá ser a figura de relevo de um comício eleitoral. Porém, o autor da foto preferiu eleger uma outra figura, sobrepondo-se ao orador, ainda ele não começou a falar: a pistola-metralhadora MP5 que é empunhada por um dos membros da sua segurança, dedo encostado ao gatilho, não se dê o caso de haver uma «interpelação» mais «veemente» da assistência. Sem ser preciso mais nada, apenas pelo poder da imagem, fica a sugestão que a política turca, que vai buscar muitas das suas características à herança helenística, não deve neste caso concreto grande coisa a Demóstenes. Erdoğan comprova-o.

22 julho 2019

QUANDO MAIS É DE MENOS... ESFORÇOS PARA TENTAR LEVAR OS PORCOS A CANTAR

Se o jornal Público (acima, à esquerda) dedicou recursos a desmontar quatro teorias da conspiração, o seu concorrente Observador esmagou-o, porque arruinou onze teorias. Eu não sei se deva felicitar o Observador por ter excedido de muito em pedagogia o seu rival. A imaginação pode ser prodigiosa mas a estupidez também pode ser infinita. Em dias de cinquentenário da viagem à Lua, o que me parece distingui-lo de outras comemorações do passado foi esta atenção absurda que vejo dedicada a refutar os conspiracionistas. Em função de toda a informação que está amplamente disponível por todo o lado, parece-me que um conspiracionista escolhe sê-lo. Porque se julga mais arguto que os restantes ou por uma outra qualquer causa, é uma atitude, mais do que uma conclusão, a que o leva a opinar (o que é diferente de concluir) que o Homem não foi à Lua e que aquilo que vemos foi tudo forjado. E tentar tirar-lhe isso (a opinião) parece-me ser um exercício inútil: desmontar racionalmente as dúvidas (que ele não tem) será como se alguém tentasse ensinar um porco a cantar. Mais do que inútil, duplamente inútil: um porco não consegue cantar e, por outro lado, nem tem gosto para apreciar a estética musical. Quem explica, perde tempo. E o porco costuma acabar chateado.

ENCERRAMENTO DA CONFERÊNCIA DE BRETTON WOODS

22 de Julho de 1944. Encerramento da Conferência de Bretton Woods, uma remota localidade do estado de New Hampshire. Longe das atenções da guerra, os Estados Unidos preparavam a nova ordem mundial sobre a qual pretendiam predominar. Neste caso, a reunião envolvia 44 países beligerantes (do lado dos Aliados) e o que se organizava era o formato das relações comerciais e cambiais depois do fim do conflito em curso. As coisas estavam pensadas de antemão. Tudo se organizaria à volta do dólar norte-americano (veja-se o esquema abaixo), reflectindo a hegemonia da economia americana, que representava à época cerca de metade, talvez um pouco mais, de toda a  produção mundial.
Excluídos dos trabalhos estiveram, naturalmente, os países do Eixo (Alemanha, Japão), mas também, menos naturalmente, os países ainda neutrais, como a Espanha, a Irlanda, Portugal, a Suécia, a Suíça ou a Turquia. Suécia e Suíça e também, na sua pequena escala, Portugal, financeiramente mais autónomos do que os restantes, teriam sido vozes independentes num esquema organizativo destinado a beneficiar a potência hegemónica, num campo onde a União Soviética não se atrevia a ter sequer pretensões. E só o alinhamento desta última nesta nova ordem financeira mundial foi razão para dar visibilidade ao acontecimento numa pequena notícia do Diário de Lisboa do dia seguinte (abaixo). O sistema iria subsistir até Agosto de 1971.

O MAIOR ORÇAMENTO DE DEFESA DO MUNDO

Sem o grande estadão que tem acompanhado ultimamente toda a política americana, discretamente mesmo, na semana passada, a Câmara de Representantes dos Estados Unidos, onde os democratas têm a maioria e com essa maioria dominada pela sua facção radical-socialista (na opinião dos seus opositores republicanos...), os 435 membros da Câmara aprovaram mesmo assim a alocação de 733 mil milhões de dólares para o orçamento de defesa para o ano fiscal de 2020. A disputa pode ter sido exuberante na aparência mas foi mínima em concreto: a administração e os republicanos pediam 750 mil milhões; os democratas reduziram a "coisa" em 17 mil milhões, um corte significativo em valor mas proporcionalmente mínimo: 2,3%. De há muito que aquilo que é gasto com a Defesa é, de longe, a maior parcela do orçamento federal dos Estados Unidos e isso torna os outros assuntos (ou deveria torná-los...) em irrelevâncias: exemplo, a famosa guerra do Muro que Trump quer construir e que o opôs ao congresso no principio do ano foi uma disputa por uns míseros 5,7 mil milhões de dólares. Ora convenhamos que, em proporção, se trata de trocos.

Aquilo que os Estados Unidos alocam à defesa é, não apenas muito, como continua a aumentar a um ritmo incompreensível. O mapa acima, com comparações internacionais entre o que cada país gasta em defesa, refere-se ao ano fiscal de 2018, e o valor consagrado à defesa pelos Estados Unidos nesse ano foi de 643 mil milhões de dólares; neste ano em curso, passou para 693 mil milhões de dólares (+7,8%) e a previsão para o próximo ano são mais 40 mil milhões de dólares (+5,8%). Ou seja, o aumento deste ano representa quase tanto quanto todo o orçamento da defesa da Alemanha de 2018 (45,7 mil milhões). E o aumento dos dois últimos anos (50 + 40 mil milhões) é superior em 43% ao orçamento da defesa da Rússia (63,1 mil milhões) de 2018. O quadro acima e comparações deste género, com os números em cima da mesa, subvertem o discurso norte-americano de que os seus aliados da NATO gastam de menos com a defesa: os Estados Unidos é que gastam demais. Alguns exercícios com os números acima demonstram-no: os Estados Unidos gastam tanto com a defesa como os 10 países somados que se seguem na lista, da China até ao Brasil; e na Europa, os quatro maiores aliados dos Estados Unidos (Reino Unido, França, Alemanha e Itália) despendem em conjunto mais do que a China e quase o triplo daquilo que é despendido pela Rússia. Outrora, quando a Royal Navy se pretendia hegemónica no mar (século XIX), ela precavia-se adoptando a política de ter um potencial de combate que se equivalesse ao do somatório das duas mais poderosas marinhas que existissem. Pela mesma lógica, os militares norte-americanos estarão preparados para combater uma ampla coligação de dez inimigos em todos os continentes! É ridículo!

Para além disso, do que se gasta, há o produto que se obtém com isso. As forças armadas dos Estados Unidos tem um historial grandioso de recursos malbaratados, para grande inveja e desespero dos seus aliados. Mais do que isso, como é comum na instituição militar, não apenas ali mas em todo o resto do Mundo, não existe uma tradição de prestação de contas, mesmo em tempo de paz. Uma auditoria gigantesca promovida há uns anos pelo Pentágono culminou num grande fiasco: custou 400 milhões de dólares e concluiu que não se podia comprovar o destino de biliões de dólares. Tipicamente, há um programa de Reconstrução do Afeganistão onde já se gastaram 126 mil milhões de dólares desde o início da invasão em 2001; a auditoria veio mostrar que não se faz nem ideia do que aconteceu a 15,5 mil milhões para lá encaminhados. É apenas uma enorme ironia que já se tenha enterrado muito mais dinheiro no Afeganistão do que na Europa ao abrigo do Plano Marshall e não haja resultados. Outra forma de apreciar o desperdício de dinheiro do Pentágono é a profusão de descoordenações e detalhes caricatos que persistem. A história das 136 bandas de música agrupando 6.500 músicos profissionais, é uma dessas histórias caricatas que se perpetua mas que parece irreformável. Para uns efectivos de 1.360.000, o número afigura-se certo para que haja uma banda de música para cada 10.000 militares!

Tão somente pelos enormes valores envolvidos os gastos com a defesa, também pela multiplicação de exemplos de má aplicação de recursos, teriam condições para ser um tema infindável da política americana. Mas não são. E é isso que é estranhíssimo, quando em comparação com o zelo como, em contraste, as propostas de índole social costuma ser escrutinadas quanto a custos e ao seu financiamento. O aumento das despesas sociais, caso daquelas com saúde e educação, são apresentadas sempre como saindo directamente do bolso do contribuinte e quem proponha aumento de despesas nesse âmbito tem que se explicar. Neste vídeo acima vemos Bernie Sanders a ser confrontado na CNN com a explicação de como é que ele financiará os planos de saúde que propõe; estaria certo, se fosse sempre assim com toda a despesa pública. Só que aqui há uns anos, o próprio secretário da Defesa (Robert Gates), perguntou pela pertinência de que os Estados Unidos possuíssem 11 grandes porta aviões, quando todos os outros grandes países não possuíam mais do que 1. A resposta do almirante da US Navy demorou poucos dias, revestida de uma certa insolência: sim, precisava dos 11 e o assunto morreu ali. Ainda hoje continuam a ser necessários os 11 porta aviões. Cada um deles custa em média 11 mil milhões de dólares, o que representa um total de 120 mil milhões de dólares em equipamento (sem contar os navios de escolta e os custos de exploração)... Mas aqui a mensagem é que os contribuintes americanos compreendem a necessidade que o seu país possua toda aquela parafernália: uns 6 porta-aviões não bastariam para assegurar a superioridade naval dos Estados Unidos por todo o Mundo? Eu confesso que não compreendo, mas eu também não sou americano.

21 julho 2019

POR OCASIÃO DO CINQUENTENÁRIO DA CHEGADA DO HOMEM À LUA*

De há cinquenta anos para cá, a Lua afastou-se ainda mais dois metros da Terra, mas os problemas técnicos que se colocam a quem queira realizar um regresso ao nosso satélite com uma missão tripulada permanecem essencialmente os mesmos que a NASA teve de resolver até chegar a Julho de 1969. O que mudou imenso no entretanto foi o resto, o acessório, os protocolos do informar e da cobertura do reagir, conforme evoca este pequeno vídeo acima, simulando em jeito de caricatura que a chegada à Lua ocorrera já neste século XXI. Feito já há dez anos não conta, portanto, ainda com o poderoso impacto do Efeito Trump na América, em que tudo se transformou em entretenimento e a Verdade constitui um mero adereço de um enredo elaborado para captar o lado límbico do espectador. Em que uma missão real pode ser substituída (com vantagem, como se pode apreciar abaixo) por uma peça teatral coreografada numa sala da Casa Branca!
* Uma nota adicional sobre o dia em que se deve assinalar o cinquentenário: a chegada do módulo lunar à Lua teve lugar a 20 de Julho de 1969 mas o passeio de Neil Armstrong (lembrar-se-ão os que a ele assistiram em directo pela televisão...) teve lugar na madrugada de 21 de Julho de 1969, por volta das 03H00 da manhã. Nos Estados Unidos estava-se ainda no serão do dia anterior (23H00 em Nova Iorque e 20H00 em Los Angeles). Aliás, a hora do passeio de Armstrong foi propositadamente escolhida por causa disso mesmo, para apanhar a hora de maior audiência televisiva. Daí a ocasional discrepância de datas: 20 de Julho para os americanos, mas 21 de Julho para os europeus.

20 julho 2019

EM QUEM É QUE VOCÊ VAI ACREDITAR: EM MIM OU NOS SEUS PRÓPRIOS OLHOS?...


Em 1933, a cena e a famosa frase absurda estreava-se no filme Duck Soup, que passou em Portugal com o nome de Os Grandes Aldrabões. Tratava-se de uma comédia e não era para todos, que o humor dos irmãos Marx não é assim tão digerível. Mas agora em 2019 vemos a mesma frase a ser reaproveitada como explicação de um episódio infeliz da política americana, na TV e pelo grande aldrabão. Há o que ele conta e há as imagens na televisão que mostram que aconteceu o contrário do que ele conta. Só que desta vez não é uma comédia, não é para rir. Donald Trump compara-se em sério a Groucho Marx a gozar, que os americanos têm um presidente como eu nunca sonhei. Nem acho que Groucho Marx tenha sonhado... e ele que faz cá tanta falta para dizer qualquer coisa sobre Donald Trump!

O ATENTADO

20 de Julho de 1944. Atentado contra Adolfo Hitler. Uma pasta carregada de explosivos é deixada por um dos conspiradores na sala de conferências onde este recebia os seus generais. Quatro destes morrem, mas não o principal visado. O atentado era para ser acompanhado de um pronunciamento militar, que foi facilmente desmantelado a partir do momento em que os conspiradores constaram que o objectivo principal - a morte de Hitler - falhara. Mas o acontecimento não pôde ser abafado e desfez a imagem de uma Alemanha unida, que a propaganda alemã (mas também a dos aliados) forjara para efeitos de propaganda de guerra. O fracasso da conspiração foi mau para a saúde dos conspiradores mas foi bom para a sua reputação histórica porque não tiveram que se confrontar com a realidade da consequência do seu acto. Golpes político-militares como estes, a antecipar o colapso iminente de regimes em guerra, raramente têm impacto significativo no desfecho final dos conflitos (lembre-se do golpe de Casado a precipitar o fim da guerra civil espanhola), além de não melhorarem a capacidade negocial dos novos poderes junto dos inimigos. Numa especulação contrafactual o sucesso do putsch poderia ter encurtado a Segunda Guerra Mundial de alguns meses, mas não teria evitado a divisão da Europa nas mesmas duas grandes esferas de influência do pós-guerra. Acontecendo como aconteceu, o episódio veio a revelar-se mais importante depois do fim da guerra do que durante a mesma, para uma utilização política que dissociasse os alemães em geral e o regime do III Reich: ao contrário do que a propaganda de guerra fizera crer, nem todos os alemães haviam sido nazis...

19 julho 2019

A SEGUNDA PRIMEIRA MINISTRA NA EUROPA, A SEXTA EM TODO O MUNDO

19 de Julho de 1979. Maria de Lurdes Pintassilgo (1930-2004) é nomeada primeira-ministra. À época era um facto bastante raro, o de uma mulher assumir a direcção de um governo. Antecessoras na mesma função só houvera Sirimavo Bandaranaike no Ceilão/Sri Lanka em 1960, Indira Gandhi na Índia em 1966, Golda Meir em Israel em 1969, Elisabeth Domitien na República Centro Africana em 1975 e, já em 1979 e uns escassos dois meses e meio antes, Margaret Thatcher no Reino Unido. Não é que Portugal fosse exemplo a exibir naquilo que naquela altura se designava por «condição feminina», mas é sempre interessante aparecer nestas listas com alguma prioridade.

18 julho 2019

EM CASO DE AZAR...

18 de Julho de 1969. Com a Apollo XI em voo para a Lua, Bob Haldeman, o chefe de gabinete do presidente Nixon, recebe um memorando alertando-o para que se adoptasse preventivamente um plano de contingência para a eventualidade do voo dos astronautas fracassar. Intitulado «In Event of Moon Disaster» (na eventualidade de desastre na Lua), o documento chamava a atenção que várias fases do voo se realizariam pela primeira vez e que havia uma possibilidade não negligenciável que as coisas corressem mal e que havia que preparar esse cenário. Só trinta anos depois se veio a descobrir a existência desse memorando, que felizmente não foi preciso e que incluía um hipotético discurso de Richard Nixon (escrito por William Safire) para aquela eventualidade. Numa das suas passagens ter-se-ia ouvido: «O Destino determinou que os homens que foram à Lua, para a explorar em paz, ficarão na Lua, descansando em Paz. Esses bravos homens, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, sabem que não há Esperança para a sua recuperação. Mas eles também sabem que sempre fica a Esperança para a Humanidade através do seu Sacrifício.» Bob Haldeman, que foi um dos assessores que caiu mais depressa e mais fundo na defesa de Nixon no caso Watergate, não era flor que se cheirasse, mas, como se constata, até era bastante competente. A história também é feita destes discretos preparativos, de que não se dá pela existência quando não são precisos, mas que se tornam em faltas clamorosas quando não existem.

Mas para chegarmos a uma Casa Branca em que se combine a incompetência com a escroqueria em volumes nunca antes encontrados, só mesmo a actual de Donald Trump. Sobre esse assunto, e para quem gosta de se rir com os disparates que se dizem por aí, convido-o a visitar um poste meu de há dois anos em que Márcia Rodrigues, correspondente da RTP em Washington, nos impingia uma história da carochinha a pretexto da chegada do general John Kelly à Casa Branca para disciplinar o caos que por lá reinava (caos que resultava do próprio Donald Trump). Kelly que, recorde-se, já abandonou o cargo dezassete meses depois... A história de Trump na Casa Branca vai ser muito diferente de todas as outras precedentes.

HÁ CERTOS ASSUNTOS QUE PARECE QUE NUNCA MAIS NOS VEMOS LIVRES DELES

O teste do tempo parece-me, mais do que revelador, decisivo: quando as promessas eleitorais são cumpridas, mas mal paridas, perpetuam-se por resolver. Paulo Portas passou ao lado de uma grande carreira: se tivesse chegado mais tarde à política, agora ainda iria a tempo de se tornar num Boris Johnson à portuguesa.

17 julho 2019

OS GRANDES NÚMEROS DOS GRANDES DEVEDORES, UMA ESPÉCIE DE NOVO GRANDE CONCURSO DA RTP

É sem a mínima malícia que eu confesso admitir que existe uma incompatibilidade entre o desejo de divulgar as listas dos grandes devedores à banca e as restrições impostas pela ética da preservação do sigilo bancário. Assim como admito que a solução a que acima se chegou seja o melhor compromisso possível entre a satisfação do primeiro sem abdicar da segunda. Mas os negociadores da solução também têm que ter a empatia de perceberem como é que terceiros, a opinião pública em benefício da qual a divulgação é feita, tendem a apreciar a lista que acabou por ser publicada, que afinal não (nos) esclarece quase nada, são apenas uns números de que desconhecemos a identidade. Sem investigação jornalística, sem inconfidências, aquele "012" da CGD, o "041" do BES e o "130" do Novo Banco têm para nós, leitores, uma personalidade tão rica quanto as bolas do sorteio do Totoloto. Embora o slogan do concurso se aplique aqui com toda a propriedade: foi fácil, foi barato, deu milhões!

Aliás, ainda a propósito de analogias, vem a propósito relembrar que os sorteios do Totoloto foram em geral momentos discretos, que, como na regulação bancária, só se tornavam memoráveis no caso das intervenções, muito escassas, das autoridades reguladoras do governo civil. O Banco de Portugal foi muito assim... Neste vídeo abaixo, aguardem pela saída do número suplementar, que me parece simbólico do grau de responsabilidades que se apuraram até agora em todo este assunto.

QUANDO A AMEAÇA DE UMA GUERRA ENTRE A RÚSSIA E A CHINA ERA UMA NOTÍCIA SECUNDÁRIA

17 de Julho de 1929. Por causa das crescentes disputas quanto à administração do caminho de ferro transmachuriano, a Rússia (na sua versão União Soviética) e a China encontravam-se à beira de um conflito militar. A primeira endereçara um ultimato à segunda, esta respondera apresentando algumas exigências da sua parte, a resposta parecia não ter agradado a Moscovo, que rompera as suas relações diplomáticas com a China. E contudo, por cá a questão de uma potencial guerra no Extremo Oriente não parecia inquietante, atente-se ao tratamento informativo que era dado ao assunto: somente no dia seguinte, colocado na última página, em jeito de últimas notícias, a que era dedicada uma coluna. Ao lado, a chegada de quatro aviões franceses à base de Sintra merecia maior destaque do que um conflito sino-soviético. O Mundo de 1929 era muito maior do que o actual e aquilo que acontecia do outro lado não nos interessava nada. Valha a verdade que ele há coisas que acontecem do outro lado do Mundo que não nos deviam interessar nada...

16 julho 2019

O IMPACTO EM JÚPITER DO PRIMEIRO FRAGMENTO DO COMETA SHOEMAKER-LEVY 9

16 de Julho de 1994. O primeiro de vários fragmentos em que se desagregara o cometa Shoemaker-Levy 9 colidiu com o planeta Júpiter. Ao longo dos seis dias seguintes mais vinte fragmentos viriam a embater com o planeta, sempre no hemisfério meridional, deixando observar, à laia de "cicatrizes", as marcas dos violentos impactos, cada um deles libertando quantidades de energia capaz de desafiar a nossa imaginação. Com o maior deles, o G (cada um dos impactos foi designado pelas letras encadeadas do alfabeto), ocorrido em 18 de Julho, estima-se que terá sido libertada uma energia equivalente a seis teratoneladas de TNT (milhão de milhões de toneladas). Impressionante que seja, trata-se de um valor dezasseis vezes inferior ao que se estima que terá sido libertado há 67 milhões de anos na Terra, com o impacto do corpo celeste que pôs fim ao Cretáceo, muito embora aquilo que presenciámos em Júpiter há 25 anos se tenha multiplicado por vinte fragmentos o que aproximará a dimensão dos dois fenómenos. As cicatrizes dos impactos permanecerem visíveis em Júpiter por meses, criando um novo respeito por tudo aquilo que anda por aí a vogar pelo espaço próximo.

15 julho 2019

A GRANDE GREVE DOS TRABALHADORES SIDERÚRGICOS NA AMÉRICA

15 de Julho de 1959. A greve dos trabalhadores siderúrgicos que então começava nos Estados Unidos era uma grande greve, envolvendo meio milhão de operários e ameaçando reduzir substancialmente a produção de aço norte-americana. Como se pode perceber pelo desenvolvimento da notícia acima, os grandes conflitos sindicais ocorridos nos outros países podiam não ser afinal problema que justificasse a intervenção da censura, que só se preocuparia em cortar as notícias daqueles que ocorriam cá em Portugal. Pelo contrário, se houve quem sempre se preocupasse em minimizar a importância daquilo que acontecia do outro lado do Atlântico, por muito "amplas e justas" que fossem as "lutas dos trabalhadores", foram os militantes comunistas que trabalhavam infiltrados no activismo sindical (ilegal e legalmente depois do 25 de Abril). O paradoxo não é assim tão difícil de compreender: na concepção dos comunistas, os interesses sindicais dos trabalhadores subordinam-se aos interesses políticos, ao contrário do que acontece no verdadeiro sindicalismo, de que este foi um caso emblemático pela sua dimensão. Estas notícias mostravam que na América também havia quem se opusesse ao capitalismo em prol dos trabalhadores, embora não da única forma que os comunistas preconizavam. A greve durou 116 dias, até 7 de Novembro de 1959 e o efeito combinado da duração e do número de trabalhadores em greve faz dela a segunda maior greve da História dos Estados Unidos, mas não imagino Arménio Carlos, caso a conheça, a dar-lhe a mínima importância. Quanto à avaliação das suas consequências, permanece controversa (leia-se aqui). Uma das consequências imediatas e de implicação mais longínqua da greve foi, para os Estados Unidos, o começo da importação de aço do exterior e a substituição progressiva da produção doméstica pela do estrangeiro, aquilo que Donald Trump tentou reverter o ano passado com a imposição de uma taxa de 25% sobre o aço importado.

14 julho 2019

O ESTÚPIDO QUE ESCREVE, OS ESTÚPIDOS QUE O PUBLICAM E AINDA NÓS TODOS, ESTÚPIDOS, QUE O LEMOS E COMENTAMOS

Aqui há uns cinco anos, quase contadinhos dia por dia, João Marques de Almeida prevera O fim do Bloco de Esquerda. E explicava: havia uma «incapacidade da coexistência entre a ala radical e marxista e a ala socialista e moderada». Dentro do próprio Bloco (deduzir-se-ia), «as duas grandes famílias da esquerda portuguesa nunca se entenderão». Consequência: «para todos os efeitos, o projecto político do Bloco de Esquerda, acab(ara)». Esqueçamos quatro anos de geringonça. No seu artigo de hoje, o "fantasma" desse tal Bloco de Esquerda aparece como um dos parceiros de uma «combinação» para Tratar os portugueses como estúpidos. E prossegue: «Muitos políticos portugueses gostam de tratar os portugueses como se fossem estúpidos». De facto, João, a palavra chave aqui é mesmo estúpido. Você, os gajos que lhe dão cobertura publicado-o, e nós, que ainda nos indignamos com a sua estupidez! 

O «CONSTRUTOR DA DEMOCRACIA» QUE, A 25 DE NOVEMBRO DE 1975, ANDOU DE CAMARTELO NA MÃO A TENTAR DESTRUÍ-LA

Mário Tomé evocado como «construtor da democracia» é só para quem não se lembre dele no 25 de Novembro no Regimento de Polícia Militar da Calçada da Ajuda, a «combater pela Paz»: três mortos. Naquela data, Mário Tomé representou para a edificação da Democracia em Portugal o mesmo que um malho, um camartelo, ou mesmo uma bola de demolição. A Democracia, magnânima, é que o englobou depois a ele, que até a quisera destruir. Lá pelo Bloco e sobre Democracia não brinquem com a palavra, não distorçam o conceito, não queiram reescrever a História, como, aliás, é costume por aquelas paragens ideológicas. Tivesse o «revolucionário e feminista» Mário Tomé triunfado naquele dia e há quem tenha dito que a História de um Portugal anti-democrático teria sido muito diferente.

PELO CINQUENTENÁRIO DE UMA (DAS) GUERRA(S) DO FUTEBOL

14 de Julho de 1969. Com a invasão das Honduras, El Salvador desencadeava aquela que viria a ser conhecida como a Guerra do Futebol ou Guerra das Cem Horas. Já por aqui publiquei uma versão sintética do que aconteceu, as verdadeiras razões para a hostilidade entre aqueles dois países centro-americanos. Acolhido à época com um abanar de cabeça repreensivo pela comunidade intenacional e as respectivas opiniões públicas, desde essa época para cá despontaram razões poderosas para que o futebol passasse a ser um casus belli doméstico, detonador de verdadeiras guerras civis que se travam exuberantemente em todos os nossos canais de televisão.

13 julho 2019

«HAT TRICK» E O RESTO

Apercebi-me que, para o explicar, teria que escrever aqui uma espécie de crónica a dizer mal das crónicas dos outros, o que seria ridículo. Para não ser assim, aqui fica a minha sugestão para que as vão ler ao Público, uma fiada de opiniões fazendo eco das lutas geracionais e do ensimesmamento do meio em que compartilham tópicos (o artigo racista de Fátima Bonifácio) e alvos (os outros cronistas). Mas como um fim de semana é precioso demais para se estragar com artigos de opinião circunscritos, ainda resta um outro artigo, ainda sobre o tema do momento, da autoria de Miguel Poiares Maduro, esse com pedagogia, embora com demasiada candura, que isto de esperar que a expulsão de Bruno de Carvalho seja o «fecho de um ciclo» no Sporting ou que «a capacidade intelectual que lhe é reconhecida» (a Fátima Bonifácio) não seja posta em causa precisamente pelo que escreveu, são opiniões-desejos do autor muito para além do que me parece razoável. Nem tanto ao mar nem tanto a terra.

AINDA A «CRISE DOS SINOS» E UMA REFLEXÃO POR TERMOS TROCADO OS GENERAIS PELOS JUÍZES

Se a Crise dos Sinos fora ultrapassada com a remodelação governamental que aqui evocámos há dias, o ambiente que se viveria entre alguns comandantes militares da facção derrotada não se apresentava de molde a tranquilizar o poder. Elemento chave no controle da potencial contestação era o ministro da Guerra do novo governo acabado de empossar, o (então) coronel Amílcar Barcínio Pinto, que substituíra naquele cargo o general Júlio Morais Sarmento, que fora o protagonista da facção derrotada pela crise. E, para o ajudar, na edição do Diário de Lisboa de há precisamente 90 anos, essa novel figura da hierarquia político-militar tinha direito não a uma mas a duas notícias que o destacavam (o que, contando com a publicidade, num jornal com oito páginas é notável). Uma breve entrevista (acima) em que confessava não ter ideia alguma para a condução da pasta mas em que (por acaso...) o líamos numa passagem a elogiar Salazar («...respeitando inteiramente a grande política financeira do sr. ministro das Finanças...») e, menos dissimuladamente, a presidir a uma cerimónia de apresentação de cumprimentos (vulgarmente designada por beija mão) por parte da «oficialidade da guarnição militar de Lisboa». Tempos longínquos em que não se podia descartar a hipótese que uma facção militar derrotada na política produzisse um pronunciamento militar. Agora, esses tempos estão esquecidos. Os cuidados da Constituição portuguesa de 1976 obstaram - e bem - a que esses tempos ressurgissem.
Infelizmente, o que surge cada vez com mais crueza e à luz do dia é que a luta política agora se trava nos tribunais, com os juízes conotados com uma ou outra facção.  

12 julho 2019

BILL CLINTON DE VISITA A BERLIM REUNIFICADA

12 de Julho de 1994. Numa visita, que os jornalistas classificaram (como de costume...) de histórica, Bill Clinton tornou-se no primeiro presidente norte-americano a visitar Berlim Leste em quase 50 anos. O último antecessor de Clinton que estivera do outro lado fora Harry Truman em Julho de 1945, quando comparecera na Conferência de Potsdam com Stalin e Churchill e Attlee. Depois disso, quase todos os presidentes americanos haviam ido a Berlim, alguns haviam-se até celebrizado a dizer palavras famosas diante do Muro que separava a cidade, casos de Kennedy e de Reagan, mas haviam-se ficado todos pela metade ocidental. Clinton visitava uma Berlim reunificada mas, olhando para as imagens de há 25 anos, não é o que então diziam que era histórico que agora nos parece histórico. O que é significativo, provavelmente histórico, naquelas imagens é a presença e o destaque conferido durante as cerimónias a Jacques Delors, o então presidente da Comissão Europeia. Reeditar a mesma cena agora, 25 anos passados, não seria bizarro apenas pela vinda de Donald Trump à Europa, pelo convívio que se imaginará entre ele e Angela Merkel, culminaria ainda com a improbabilidade desta última convidar sequer Jean-Claude Juncker para estar presente...

O ORDENADO DO EUSÉBIO... PARA COMPARAR COM O DO JOÃO FÉLIX

12 de Julho de 1969. Enterrado na página desportiva da edição desse dia do Diário de Lisboa (e em minha opinião, no local certo para a importância que estes assuntos merecerão), aparece a notícia da posição negocial de Eusébio na ocasião de renovar o seu contrato com o Benfica. Recorde-se que na época Eusébio tinha 27 anos, fora a revelação da selecção portuguesa no Mundial de 1966, cobiçado por clubes estrangeiros, ainda era a estrela principal da equipa. E, se se ler o que consta da notícia, uma parte significativa das reivindicações que fazia estavam indexadas a resultados, individuais e colectivos. Mas o sentido geral da notícia não era propriamente aprovador para as pretensões do jogador. Em contraste, João Félix tem 19 anos, ainda não fez nada que se comparasse com Eusébio a não ser alimentar a imprensa que se alimenta do assunto e fazer com essa imprensa saturasse o panorama informativo (numa altura de defeso) com a notícia dos muitos milhões que a sua transferência já vinha a custar de há muito. Tudo isto é uma palhaçada que nem sequer terá os benefícios de audiência que nos querem fazer crer. E quem é que quer apostar quantos saberão quem terá sido João Félix daqui por cinquenta anos?...

11 julho 2019

O «REGRESSO» DA «SKYLAB» À TERRA

11 de Julho de 1979. Já aqui contei neste blogue o que foi o projecto Skylab. Também assinalei o seu lançamento para o espaço em Maio de 1973. O espírito como foi encarado o seu retorno à Terra foi contudo um pouco mais ligeiro, para não dizer mesmo trocista, como se percebe pelo teor da notícia acima. O acontecimento apresentava-se como um fracasso do programa espacial americano. Como acontece com todos os objectos prestes a reentrar na atmosfera, o momento e o local preciso onde isso vai acontecer são muito difíceis de antecipar, e a indefinição foi pretexto para várias chalaças. A antiga estação espacial acabou por se vir a desintegrar sobre o Oceano Índico com as peças a cair (substancialmente) sobre o território da Austrália Ocidental. De então para cá, aprendeu-se a colocar os especialistas em relações públicas das agências espaciais a gerir mediática e antecipadamente estes acontecimentos: os russos em 2001 e os chineses o ano passado também tiveram que lidar com o mesmo problema, mas até pareceu que esteve sempre tudo sob controle...

10 julho 2019

A CONDENAÇÃO DE JULIÁN BESTEIRO

A edição de há oitenta anos do Diário de Lisboa até dedicava todo um quarto de página à situação em Espanha, três meses depois do fim da guerra civil (1936-39). O âmbito das notícias variava desde o que dissera o conde Ciano (ministro dos Estrangeiro italianos) até um estranho enxerto de porrada sofrido pelo cônsul de França em Madrid, enquanto frequentava um «dancing». Mas a notícia que eu quero destacar não é nenhuma daquelas: o Diário de Lisboa não a publicou, embora o assunto estivesse a ser acompanhado pela imprensa britânica (leia-se abaixo). O Julián Besteiro (1870-1940) cujo desfecho do julgamento interessava os jornais ingleses era um catedrático e político espanhol, antigo presidente do PSOE e do parlamento espanhol durante a república (1931-33). Representava a ala mais moderada dos socialistas espanhóis e desempenhara um papel discreto e ponderado do lado dos republicanos ao longo do conflito que acabara de terminar. O caso de Besteiro seria importante para perceber como seria a atitude do regime franquista para com os vencidos. O que o jornal português não podia dizer (e que se soubera em Londres) era que o colectivo dos generais do conselho de guerra que julgara Julián Besteiro o condenara à prisão perpétua pelo delito de «rebelião militar», comutada de imediato em trinta anos de prisão. Um insulto cínico desnecessário, esta última benevolência, quando se sabe que Julián Besteiro iria completar 69 anos daí a dois meses... E cumpriu pouco mais de um ano, pois faleceu em Setembro de 1940. Estava dado o sinal de como o regime franquista pretendia não cicatrizar as feridas que haviam sido deixadas pela guerra. Da próxima vez que se voltar a falar da exumação de Franco, lembrem-se deste episódio.

AS CAMBALHOTAS DE 180º...

...não são um exclusivo da nossa imprensa. No El País, Em duas semanas, o cargo de responsável europeu pela política externa, que o jornal considerava ser um cargo menor que ninguém cobiçava, passou a ser a demonstração que «a Espanha voltava à primeira fila», só pelo facto de ter sido um espanhol a ficar com o cargo. Ridículo! O mundo digital tornou estas incongruências muito fáceis de detectar.

09 julho 2019

O REGRESSO DE MÁRIO SOARES A LISBOA

Em lugar discreto (última página), mas mesmo assim destacado para o que havia para noticiar (nada), a edição de há cinquenta anos do Diário de Lisboa dava conta que «regressara naquela manhã a Lisboa o conhecido advogado e homem público e nosso (do jornal) distinto colaborador, dr. Mário Soares.» Não se especificava de onde viera, mas a novidade de 1969, consistia no fenómeno de Mário Soares andar pelas páginas dos jornais, fruto da Primavera Marcelista, que permitia que se noticiasse que os dirigentes oposicionistas andavam por aí. Convém relembrar que por aqueles anos o Diário de Lisboa de Ruella Ramos era um vespertino lisboeta conotado com a oposição e, nesse aspecto, detentor de muito mais prestígio que A República, dirigida por Raul Rego. Este último era um jornal trauliteiro de tanto engajamento. O que lhes aconteceu depois do 25 de Abril, nomeadamente a captura do primeiro pelos comunistas e a guerra que se travou à volta do segundo entre comunistas e socialistas é que veio a reescrever a história do que os dois haviam representado antes do 25 de Abril. A Fundação Mário Soares penitenciar-se-á de tal falta, preservando on-line o arquivo do Diário de Lisboa, uma preciosidade que me tem sido de tanta utilidade.

08 julho 2019

SALAZAR VENCE A «CRISE DOS SINOS»

8 de Julho de 1929. No mês anterior, uma portaria do ministro da Justiça, Mário de Figueiredo, passara a permitir a realização de procissões e outros actos religiosos que haviam sido proibidos com a implantação da República. O documento, que veio a receber a designação simplista mas jocosa de portaria dos sinos, provocou uma reacção negativa de uma ala do governo conservadora mas anti-clerical que foi encabeçada pelo ministro da Guerra, Júlio Morais Sarmento. Do embate interno resultou uma crise governamental, que principiou com a demissão de Mário de Figueiredo, mas que encalhou na demissão solidária de Salazar, titular das Finanças que, por sinal, na altura estava internado no hospital com uma perna partida. Óscar Carmona, o presidente da República, que visitou Salazar no hospital, não a aceitou, forçando, em vez disso, a demissão colectiva do governo. Há precisamente noventa anos era notícia a resolução da crise política com a constituição de um novo governo da Ditadura (o VI), em que o presidente do ministério passava a ser o general Ivens Ferraz (na foto, acima), mas onde o destaque inteirinho do cabeçalho da notícia ia para a continuidade do titular da pasta das Finanças. Salazar ganhara o braço de ferro com o que os observadores mais imaginativos consideravam ser os poderes sempre discretos mas sempre presentes da maçonaria.

07 julho 2019

CÂMBIOS PARALELOS

Em Madrid, a marcha do orgulho gay assinalou-se pela hostilidade como o corpo de manifestantes acolheu a delegação dos Ciudadanos, que acabou expulsa sob apupos. Pelos vistos, a causa da inclusão das minorias sente-se já tão forte que deixou, ela mesma, de praticar a inclusão. Como acontece com outras causas (referi-me à do feminismo ainda ontem, a propósito de ninguém se congratular com a ascensão de duas mulheres ao topo da hierarquia da União Europeia), a coerência de quem se exibe abraçando uma destas causas célebres e da moda, colapsa fragorosamente com o seu silêncio cúmplice diante de episódios deste género. Fazem-me lembrar aquelas moedas daqueles países de economia dirigida que praticavam um câmbio oficial (limitado) nos bancos, mas cujo câmbio paralelo que se praticava nas ruas era por uma fracção do valor anunciado. Só que aqui não se está a falar do valor da moeda, mas da ética e dos princípios. E, só para acrescentar mais um caso, o das indignações pela ilegalidade das escutas a Sócrates e Lula, que agora são complementadas por silêncios significativos quando as revelações vêm de escutas a Sérgio Moro, que está do outro lado da barricada. Estas últimas escutas já são boas... E eu concluo que a força do marxismo deste século XXI é o de Groucho: «Estes são os meus princípios, e se vocês não gostarem deles... bem, tenho outros».

CANADÁ VERDADEIRAMENTE BILINGUE

7 de Julho de 1969. Foi apenas há cinquenta anos, através das aprovação da Lei sobre as línguas oficiais que o Canadá se tornou um país oficial e completamente bilingue, com os idiomas inglês e francês a serem reconhecidos com um mesmo estatuto equivalente. Sendo então um país já centenário (fundado em 1867), o Canadá andava ainda em busca da sua identidade simbólica: a bandeira nacional canadiana, por exemplo, tinha apenas quatro anos. E quanto ao hino, ainda havia que aguardar mais onze anos até ele ser oficialmente adoptado (com duas letras!). E vale a pena evocar este fenómeno porque há um paralelo interessante entre o que acontece com o Canadá, o Quebec e os francófonos e o que acontece aqui ao lado com a Espanha, a Catalunha e os catalães. Estão muito iludidos os castelhanos que pensam que o problema se consegue varrer para debaixo do tapete...

O DISCURSO DOS «RIOS DE SANGUE»

Lembrei-me do discurso dos «Rios de Sangue» de Enoch Powell por causa do artigo de opinião (Podemos? Não, não podemos) de Fátima Bonifácio, este Sábado, no Público. Enoch Powell era um deputado conservador britânico que se celebrizou por há cerca de cinquenta anos ter proferido um discurso numa reunião política do seu partido em Birmingham em que se mostrava particularmente crítico e alarmista para com as consequências da imigrações negra e indiana que então começavam a fazer sentir significativamente o seu peso na sociedade britânica. A expressão que lhe granjeou o título não é expressamente usada no discurso, mas Erich Powell, que fora um erudito, antigo professor de grego clássico (e, nesse aspecto, não muito diferente de Fátima Bonifácio...), socorre-se de uma passagem da Eneida de Virgílio, numa passagem em que este descreve o Tibre espumando com o sangue em consequência das guerras civis. O discurso de Powell é extenso, bem mais extenso do que o artigo de Fátima Bonifácio, mas os dois compartilham a mesma presunção arrogante de que há comunidades que não são assimiláveis, e ambos o dizem com uma crueza que induz a uma reacção proporcionada da parte de quem lê/ouve e discorda do conteúdo. O estilo é bruto e predispõe a uma reacção também bruta. Não sei se a reacção ao texto de Fátima Bonifácio terá uma repercussão maior, mais significativa e mais duradoura do que as tradicionais ressonâncias das redes sociais. Até pode ser que, depois da animação de fim de semana, tudo já esteja esquecido lá pela quarta-feira de cinzas.
Mas, porque o discurso dos Rios de Sangue teve uma continuação, vale a pena contá-la. O líder (Edward Heath) e a direcção dos conservadores da época ostracizaram ostensivamente Enoch Powell, muito embora sondagens lhe dessem uma grande popularidade. Em 1974, não o deixaram apresentar-se pelo seu círculo tradicional de Wolverhampton South West. Mas Powell acabou por ser eleito por um círculo unionista da Irlanda do Norte. Entretanto, com a entrada da década de 80, aproximaram-se os prazos de 15 a 20 anos em que ele previra a existência de uma ingerível massa de três milhões e meio de imigrantes vindos de países da Commonwealth que iria fazer desmoronar a sociedade do Reino Unido. Houve muitas outras convulsões sociais naquele país (as greves dos mineiros), mas não as de cariz racial que ele previra. Perdeu a eleição em 1987 e não voltou a apresentar-se. Morreu em 1998. Num retoque final de ironia, e na primeira vez que aquele que fora o seu círculo tradicional de Wolverhampton South West foi recuperado pelos conservadores, em 2010, o candidato conservador eleito para o lugar que fora de Powell chamava-se Paul Singh Uppal, um sique cuja família imigrara da África Oriental britânica. Os siques haviam sido uma das comunidades visadas expressamente por Enoch Powell no seu famoso discurso: «'The Sikh communities' campaign to maintain customs inappropriate in Britain is much to be regretted.» Não sei se o artigo de Fátima Bonifácio chega a merecer ser esquecido com esta mesma pompa...