31 agosto 2017

...A CARAVANA PASSA (2)


Não vejo razão para tanta indignação com o recente discurso de Cavaco Silva sobre o presidente e a governação. Vale a pena recordar que a etiqueta dos antigos presidentes não se pronunciarem sobre o desempenho dos seus sucessores, que esteve durante décadas em vigor, foi destruída por Mário Soares já há uns bons anos, tendo por alvo precisamente Cavaco Silva e o governo de Pedro Passos Coelho. E o que então foi dito, e o enfâse como foi dito (recorde-se acima), supera nitidamente o que agora se ouviu ao ex-presidente diante dos jotas do seu partido. Mas os arquivos também preservaram qual foi a reacção do então presidente Cavaco Silva:
 
 
Ou seja, uma declaração que se assemelha na intenção ao comentário de Marcelo Rebelo de Sousa, divulgado ao fim desta tarde:
 
 
O que me intriga, e quiçá me poderá indignar, é o que terá passado pela cabeça de Cavaco Silva a ponto de mudar tão diametralmente de opinião nestes quatro anos. Logo ele, que nunca se engana e raramente tem dúvidas!

...A CARAVANA PASSA (1)

Ouça-se o que se ouvir, há que reconhecer que Marcelo é uma grande cabeça! E o resto são invejas de cães de mau aspecto e má conduta. Claro que a política não tem esta unidimensionalidade caricata mas, para o alvo de que se trata, bacalhau basta.

UM ANO DEPOIS DO GOLPE QUE NÃO IA TER...

31 de Agosto de 2016. Aqui deste lado do Atlântico aprendi mais alguma coisa sobre política brasileira neste último ano. Em primeiro lugar, aprendi a deixar de me impressionar com a assertividade das proclamações, que ela não conta para nada naquele país. «Não Vai Ter Golpe» foi um excelente slogan, mas revelou ser apenas um bluff. Em segundo lugar, a prometida retaliação dissuasora na pessoa do sucessor Michel Temer conta agora com 17 meses de curso e não se vê fim à vista. Finalmente, estou curioso por descobrir se a destituição de Dilma Rousseff se processou realmente tão ao arrepio da vontade popular, como então se fez crer. Qual será a intensidade da renovação a que o eleitorado brasileiro vai proceder nas próximas eleições para o Senado e Câmara que destituíram a presidente? Recorde-se abaixo que a votação do Senado exigia uma maioria qualificada de ⅔ e que a superou com ¾ dos votos dos senadores.

30 agosto 2017

MAIS UM DIA DE CONTROVÉRSIAS NAS REDES SOCIAIS

A imagem pode ser acusada de ser misógina. Talvez essa seja uma das controvérsias de amanhã...

O REFERENDO SOBRE A AUTO-DETERMINAÇÃO DE TIMOR LESTE


30 de Agosto de 1999. Realiza-se finalmente um referendo aos timorenses sobre a auto-determinação do seu território. O acto eleitoral foi organizado e realizado sob a supervisão de uma organização da ONU especialmente montada em Timor para o efeito, a UNAMET, garantindo aos cerca de 450.000 potenciais participantes perspectivas de idoneidade, transparência no escrutínio e de respeito pelos resultados que viessem a ser apurados. Enfim, pode reconhecer-se, sem hesitação, que os timorenses votaram em liberdade. Os resultados demoraram cinco dias a serem conhecidos. Abaixo, vêmo-los a ser anunciados por Kofi Annam, o secretário-geral da ONU: 78,5% dos timorenses pronunciaram-se pela independência, numa proporção inequívoca de quase 4 para 1. O facto de o governo indonésio ter demorado um mês e meio a reconhecer os resultados e a violência que grassou em Timor durante esse período, praticada pelos activistas armados da facção que fora derrotada, são hoje apenas notas de rodapé da História. Mas a derrota dessa última insurreição e daqueles que não souberam aceitar o veredito das urnas, transformou este processo de transição para a independência numa vitória não apenas dos timorenses, mas de todos aqueles Democratas que, por princípio, privilegiam a expressão livre da vontade política das maiorias em detrimento do activismo das minorias, por muito vanguardistas, por muito esclarecidas que estas sejam.

29 agosto 2017

OS LOUROS DE CÉSAR (21)

Não tenho a certeza se saberei porquê, mas a choldra feita pelos gauleses e o efeito de arrastamento que provocaram no resto da casa faz-me lembrar aquele opinion makers que têm o condão de gerir os assuntos capazes de incendiar as redes sociais. Quem é que, aqui há duas semanas, se arriscaria profetizar a importância que iria ser atribuída ao recatado assunto da feitura de manuais escolares? Será assim tão dissidente manifestar a opinião de que se trata de um assunto de merda? Faz falta quem se destaque pelo siso de que Obélix acima dá mostras: - Ouve lá, e se nós os revendêssemos a eles?

FRANCAMENTE, O QUE É QUE ISSO INTERESSA?

Mais importante que os clãs, que nestes dois exemplos até serão antagónicos, o que é importante é o método (ou melhor, a ausência dele) como eles se digladiam. A superficialidade completa. Os factos ou ter tido os cadernos na mão revelam-se pormenores de somenos importância para a formação da opinião. E o que parece premente transforma-se, com o escoar natural do tempo, numa irrelevância que ridiculariza a assertividade momentânea mas permanentemente renovada. Se quem me está a ler aperceber-se-á facilmente de qual o assunto que preocupa (por estes dias...) Fernanda Câncio, vai precisar de ajuda para que recorde os tais factos que ilibavam o ministro da Educação mas o punham, ainda assim, a descer...

A PRIMEIRA BOMBA ATÓMICA SOVIÉTICA


29 de Agosto de 1949. No polígono de testes de Semipalatinsk, localizado no Cazaquistão, na Ásia Central, a União Soviética procede ao ensaio da sua primeira arma nuclear. Por imposições políticas, para que se corressem menos riscos e se iniciasse mais cedo a recuperação em armamento nuclear em relação aos Estados Unidos, o engenho testado possuía uma configuração idêntica às duas bombas que os Estados Unidos haviam detonado em Alamogordo, no Novo México, e sobre Nagasáqui, no Japão em 1945. A potência registada pela explosão de Semipalatinsk foi semelhante à daqueles dois engenhos: a equivalente a 22 mil toneladas de TNT (22 ktons). Sabe-se hoje que não era intenção do poder soviético anunciar de imediato a realização do feito, por receio que esse anúncio incentivasse as pesquisas realizadas pelos norte-americanos. Contudo, as actividades de espionagem científica que eram rotineiramente realizadas pelos norte-americanos ao longo das fronteiras soviéticas descobriram em poucos dias que o teste se realizara, por causa da assinatura radioactiva na atmosfera. Foi uma surpresa para os norte-americanos, que estimavam, pela sua experiência, que as pesquisas soviéticas ainda lhes iriam tomar mais uns quatro anos até à construção de um engenho nuclear como o que acabara de detonar. Uma parte deste erro de avaliação dos americanos dever-se-á à espionagem soviética, que transmitiu segredos essenciais permitindo-lhes grandes economias de tempo, mas, percebe-se hoje, outra parte não desprezível do erro de avaliação ter-se-á devido a uma enorme subestimação das capacidades e inventividade dos físicos soviéticos. Foi só por imperativos políticos (e militares), para obter resultados seguros mais rapidamente, que a primeira bomba atómica soviética (RDS-1) foi uma cópia da americana; os físicos soviéticos haviam trabalhado simultaneamente num outro design já evoluído em relação àquele que os espiões lhe haviam feito chegar que, quando pôde vir a ser testado dali por dois anos (RDS-2), se revelou ser 75% mais potente do que o engenho inicial. Regressando a 1949, o presidente Harry Truman esperou até 23 de Setembro para anunciar o segredo soviético a todo o Mundo. Aí terão sido os soviéticos a ser colhidos de surpresa, pois não desconfiavam estar a ser monitorizados com tal rigor. Os cabeçalhos dos jornais do dia seguinte eram unânimes no tema para reflexão...

28 agosto 2017

OS LOUROS DE CÉSAR (20)

Todos estes esforços ingénuos de Astérix fazem pensar quanto ele desconhece que mais vale cair em graça do que ser engraçado (no seu caso, não ser engraçado).

«I HAVE A DREAM»


28 de Agosto de 1963. Há 54 anos o pastor Martin Luther King proferia em Washington aquele que viria a ser o seu mais famoso discurso: «I have a dream». Sobre a concretização desse sonho de King (que viria a morrer assassinado quatro anos e meio depois), uma sondagem realizada pela Gallup há seis anos mostrou os norte-americanos muito divididos: 51% diziam que sim, 49% achavam que não. Mas, quanto às opiniões a respeito do orador, elas passaram de uns controversos 41% a favor - 37% contra numa sondagem realizada três meses antes deste discurso acima (em Maio de 1963), para uns hagiográficos 94% - 4% quando da sondagem mencionada de Agosto de 2011. Este assunto das relações raciais parecia ter adquirido uma moral relativamente consensual entre os americanos, até às recentes declarações de Donald Trump a respeito dos incidentes de Charlottesville.

27 agosto 2017

A ADMINISTRAÇÃO PORTUGUESA DE TIMOR ABANDONA DILI

27 de Agosto de 1975. O governador Lemos Pires e os restantes membros da administração colonial portuguesa em Timor Leste vêm-se na contingência de abandonar a capital, Dili, e a refugiarem-se na ilha de Ataúro, a 25 km ao largo. No território e desde meados desse mês de Agosto havia-se desencadeado uma guerra civil entre a Fretilin e a UDT, a que as autoridades portuguesas se haviam visto impotentes para pôr cobro. A grande maioria dos militares, de recrutamento local, haviam aderido a uma ou outra facção. Em circunstâncias normais, esta situação seria um escândalo, um vexame as autoridades coloniais não disporem de meios para exercerem a sua autoridade sequer e a terem de abandonar a sede do poder. Mas não no Portugal revolucionário do Verão Quente de 1975, tão completamente absorvido pelas prioridades do combate político que se travava na metrópole. Num vespertino típico de então, a notícia era remetida para a última página (abaixo) sendo redigida de uma forma muito mitigada.
«O Governo de Timor transferiu-se à uma hora local de hoje de Dili para a ilha de Ataúro, situada a cerca de 20 km da capital. Esta decisão, de acordo com um comunicado da Presidência da República, deve-se "à necessidade localmente sentida, de garantir a segurança do Governo, que constitui o sinal da autoridade portuguesa em Timor". Para Ataúro embarcou também um contingente militar constituído por 12 elementos do Exército, 27 da Armada e 64 paraquedistas. Esta transferência foi efectuada a bordo no navio "macDili", no qual embarcou também a totalidade dos refugiados metropolitanos. Antes de sair de Dili, o governador de Timor tomou ainda a decisão de retirar dos hospitais da cidade os poucos médicos que ali trabalhavam por razões de falta de segurança, dado que a Fretilin não concordou em que aquela unidade hospitalar fosse considerada zona neutra.
Estas medidas ocorreram no momento em que prosseguiam os bombardeamentos ao porto de Dili, levados a cabo pela Fretilin, que continua envolvida em acesa confrontação armada com a UDT
O texto prossegue, referindo-se à partida de Almeida Santos, não como membro do governo (do qual não fazia parte) mas apenas como «enviado especial do presidente Costa Gomes» para negociar com os movimentos desavindos, referindo-se finalmente a um apelo de Kurt Waldheim, o secretário-geral da ONU, que, como acontece com 99,9% dos apelos daquele género, era para ser olimpicamente ignorado. Quanto às questões substantivas, aos meios que o governador se desesperaria de pedir, para reforçar a parca centena (ou pouco mais) de militares metropolitanos em que se poderia apoiar para reequilibrar a situação no território, aí o comunicado da Presidência da República (quiçá por causa da personalidade do presidente da República...) destaca-se por não se comprometer absolutamente com nada.
E a razão para tal perceber-se-á quando se olha para a página oposta (a primeira) daquela mesma edição do Diário de Lisboa, onde os destaques vão todos para a confrontação político-militar na metrópole. Há um braço de ferro intenso entre as três facções político militares (Alterações Importantes nas Estruturas do Poder são prometidas para breve). O sector comunista gonçalvista tivera que sacrificar uma das suas pontas de lança da doutrinação das massas, a 5ª Divisão, os elementos desta resistiram, e a aplicação da medida foi realizada a toque de caixa ("Comandos" ocupam a 5ª Divisão). A esquerda comunista (PCP e satélites) e alguma extrema esquerda (MES, PRP-BR, LUAR) dispõem-se a vir para a rua apoiar as respectivas facções político-militares que parecem estar a perder o poder nos bastidores (Frente de Esquerda mostra a sua força). E porque uma revolução também se faz com intelectuais, o jornal prometia para o dia seguinte uma dissertação do ministro Macaísta Malheiros: "Revolução cultural para acabar com os padrões de consumo das sociedades capitalistas". Perante este cenário e o axioma Nem mais um soldado para as colónias que tipo de auxílio poderia o governador Lemos Pires receber?

OS ALEMÃES E AS RAÇAS

Fotografia de uma aula de educação sobre raças na Alemanha de 1943. A moça estará a aprender a distinguir entre a raça báltica oriental (ostbaltische rasse - estónios, letões e lituanos), a raça oriental (ostische rasse - polacos, russos e ucranianos) e a raça dinárica (dinarische rasse - eslovenos, croatas e sérvios). O método de aprendizagem aparenta ser o do reconhecimento dos espécimes. Nota-se que existem outros quadros mais para a direita com outras raças. Nos dias que correm a fotografia é um embaraço. Depois do fim da guerra procurou-se enterrar o assunto, atribuindo ao nazismo este zelo pelas questões raciais na Alemanha.
Ora os nazis ter-se-ão limitado a encorajar aquilo que há muitos anos já se tornara uma tradição académica alemã como tópico de investigação: as raças. Este mapa etnográfico (ethnographische karte) até poderia não ser muito distinto de muitos outros que foram publicados noutros idiomas por esses mesmos anos iniciais do século XX, mas vale pela simbologia da vanguarda que as ciências alemãs consideravam possuir em todo aquele vasto campo que é muito mais do que etnográfico. Quem, senão um deles (por sinal, austríaco) para estabelecer uma escala cromática para a classificação das cores de pele, a escala de Von Luschan?
Quer dizer: os brasileiros ou os norte-americanos é que poderiam possuir, nos seus países, concidadãos com cores de pele que chegassem para preencher as 36 opções(!) da escala, mas foi preciso aparecer um senhor do meio da Europa (mitteleuropa) para se preocupar com a sistematização do tema nos finais do século XIX! É, pelo menos, esquisito...

26 agosto 2017

A POLÍTICA EM FÉRIAS

Cartoon da edição de 26 de Agosto de 1977 do semanário O País. Aquela história da Festa do Pontal ter criado a tradição de dar por terminado o período de férias políticas, marcando a rentrée laranja é uma fábula que tem vindo a ser reescrita à medida que o tempo passa... A 26 de Agosto de há 40 anos, as caricaturas de Freitas do Amaral, Medina Carreira, Jorge Campinos, Mário Soares e Sá Carneiro (frente) e de Manuel Alegre, Álvaro Cunhal, Pinheiro de Azevedo (Manuela Morgado) e Kaúlza de Arriaga (em fundo) parecem dizer-nos que até ao fim de Agosto o período é de férias/tréguas.

OS LOUROS DE CÉSAR (19)

O cozinhado dos gauleses revela ter umas inesperadas virtudes terapêuticas que lhes conquistam a simpatia do mais inesperado dos habitantes da Domus. Mas, mais uma vez, é Obélix que fica com a última linha, depois de apreciar devidamente o cozinhado, numa das cenas mais marcantes do livro: fade, no original em francês abaixo, pode ser traduzido, como foi, por insípido, mas também pode significar insosso, desenxabido ou sem chama ou alma (uma cor fade, uma beleza fade), uma ironia quando se observa o efeito que o cozinhado provoca nos que o provam - com excepção de Obélix...

25 agosto 2017

O PADRE DO KKK... E OUTRAS HISTÓRIAS ENGRAÇADAS TAMBÉM COM 40 ANOS

A edição do telejornal da hora de almoço da SIC esta Sexta-Feira incluiu uma notícia que já viera pré-cozinhada da CNN, onde se falava de um padre que, há 40 anos, militara no KKK e que agora se mostrava muito arrependido. A televisão clássica, sem a indignação das redes sociais a matizá-la, tem destas coisas: dizem-se uns disparates colossais e a audiência não tem direito a retorquir: Há 40 anos? E depois? Se voltarmos ao passado e virmos como era Portugal em 1977, teríamos que obrigar não sei quantas figuras públicas a penitenciarem-se de forma ainda mais sentida do que este padre que ontem ninguém sabia quem era. Lá pelos mesmos domínios das extremas direitas que tanto penalizam agora o sacerdote, podemos ir buscar o exemplo de Nuno Rogeiro, que pertencia a uma coisa pouco recomendável chamada Movimento Nacionalista, ou então José Miguel Júdice, de convívio próximo com uma outra organização clandestina de direita denominada MDLP que se notabilizava por, de quando em vez, recorrer ao argumento das bombas; e, do lado oposto das extremas esquerdas, podemos evocar os exemplos de António Vitorino, co-autor de um interessante texto de análise política de uma organização desconhecidíssima que tive oportunidade de reproduzir aqui há uns dias neste mesmo blogue, ou então José Manuel Fernandes (que viagem de circum-navegação!), que por esses anos se afadigava com as edições de A Voz do Povo, que era o jornal do partido político mais à esquerda do parlamento da altura, a UDP.

A sério: imaginam qualquer uma daquelas quatro figuras (ou figurões?) públicas a penitenciarem-se publicamente por aquilo que defenderam há quarenta anos? Não, pois não? Então o que é que nos interessa agora a conversa arrependida do padre, ainda por cima, lá na América?...

SOBRE O COLÉGIO MILITAR E A MODÉSTIA REPUBLICANA

Quis o acaso que tivesse encontrado esquecidas na rede duas fotografias de uma ignorada romagem de saudade de antigos alunos do Colégio Militar. As fotografias têm uma data - 8 de Novembro de 1938, ou seja, há quase 79 anos! - e também uma legenda: tratar-se-ia do curso de saída do ano lectivo de 1887/88. Comemorar-se-á portanto o cinquentenário dessa saída. O que o arquivista já não terá conseguido fazer foi identificar os doze antigos alunos. Ora eu penso ter conseguido assinalar um deles, aquele que aparece nas duas fotografias marcado pelas pequenas setas azuis. Curiosamente e como alguém me observou, é o único que, em qualquer das fotos, não olha directamente para a objectiva. A pessoa em causa identificar-se-á porque era uma pessoa mediática, mesmo para aquele tempo: trata-se do general António Óscar de Fragoso Carmona, antigo aluno 24/1882. É o Presidente da República que ali aparece trajando civilmente numa visita de carácter pessoal onde, se atentarem, os seus antigos camaradas nem destaque lhe deram na mesa do refeitório!
Trata-se de um contraste gritante com a proeminência que, na actualidade e às vezes, tenho assistido a ser conferida a certos antigos alunos (se calhar, malgrado eles...) à custa do Colégio Militar que frequentaram. Como o mostra privilegiadamente Óscar Carmona, a relação de um antigo aluno com a instituição é uma questão do foro pessoal, não deve ser para ser aproveitada por Causas e outros movimentos políticos. E é ainda pior quando esse aproveitamento subverte uma deontologia de igualdade e remete para uma tradição que, como as fotos acima o demonstram à evidência, jamais existiu.

O INCÊNDIO DO CHIADO


25 de Agosto de 1988. Há 29 anos ardia uma parte da baixa lisboeta. O vídeo é apenas uma parcela de pouco mais de 5 minutos da cobertura televisiva então realizada pela RTP, que era então a única televisão. Atente-se à intervenção de Mário Crespo, especialmente à sua segunda parte, veja-se como não seria precisa a concorrência de outras televisões (ainda inexistentes) para fazer o repórter querer provocar polémicas e respostas indignadas da parte de quem ele está entrevistar. Uma das indignações que se ouve a ser induzida por Mário Crespo (aos 4:15 do vídeo acima), mas com relativo insucesso, é o da decoração central da Rua do Carmo com os seus elementos arquitectónicos que dificultariam o acesso das viaturas de bombeiros no combate às chamas (na fotografia abaixo à esquerda). Na configuração que a Rua recebeu depois da reconstrução (à direita), quiçá por causa disso, todos esses elementos foram radicalmente removidos. A Rua do Carmo foi desprovida de obstáculos, está perfeitamente preparada para uma emergência de incêndio, mas também se tornou agora, ironicamente e 29 anos passados, num alvo mais do que evidente para um ataque terrorista copiando o método daqueles que tiveram lugar em Nice ou, mais recentemente, em Barcelona. E quase que aposto que o Mário Crespo também está muito indignado por causa disso...

OS LOUROS DE CÉSAR (18)

Aparentemente os gauleses não deitaram todos os ingredientes que encontraram para o panelão, dado que Obélix está a tasquinhar qualquer coisa, enquanto desmonta a verborreia do companheiro, supostamente mais inteligente que ele: como é que se pode vender cara uma vida que já foi vendida?

24 agosto 2017

A BOMBA H FRANCESA

24 de Agosto de 1968. A França procede ao ensaio da sua primeira arma termonuclear (Bomba H). Se um ensaio nuclear é sempre um acontecimento digno de nota, este, realizado pelos franceses nas suas possessões da Polinésia, do outro lado do Mundo, sugere duas. A primeira nota vai para o local da realização dos ensaios: se Estados Unidos, União Soviética ou China são suficientemente vastos para ensaiar as suas armas em áreas remotas dentro das suas fronteiras, a França está condicionada nesse aspecto, o seu território europeu é todo habitado. Depois de ter usado o deserto argelino até à independência desse país em 1962, houve que mudar de casa, e os ensaios transferiram-se para o arquipélago da Polinésia, uma região porosa e delicada pela sua própria natureza, onde se torna praticamente impossível trabalhar discretamente. A outra nota vai para o facto de, com este teste, se confirmar que a França se tinha deixado ultrapassar pela China na corrida nuclear: tendo sido a França a quarta potência mundial a ensaiar uma arma nuclear (1960) antes da China (1964), é esta última que veio a bater a França na corrida à arma termonuclear (1967 versus 1968). Quanto à imagem inicial, de uma das aventuras de BD de Tanguy e Laverdure, nada tem a ver directamente com o teste Canopus, apenas inspirado nele, mas, datada de 1969, sempre a considerei uma capa espectacular.

O SUICÍDIO DE GETÚLIO VARGAS

24 de Agosto de 1954. Há 67 anos Getúlio Vargas suicidava-se em resposta às pressões para que se demitisse (acima). Durante a crise que precedera o suicídio, o presidente brasileiro ameaçara fazê-lo, mas a ameaça teria sido levada na mesma conta que muitas daquelas tiradas retumbantes de que a política brasileira é tão pródiga. Repare-se como o jornal acima (Folha da Tarde), apesar de gaúcho como o próprio presidente, não lhe é particularmente simpático. Não o era na edição do dia anterior e o cabeçalho da edição do jornal de 24 de Agosto pode ser considerada sóbria quando comparada com o que aconteceu com a imprensa brasileira em geral, que se apressou a explorar o lado emotivo do acontecimento e se bandeou para o lado da vitimização do presidente defunto (abaixo).

23 agosto 2017

QUEM?

23 de Agosto de 1926. Há 91 anos morria Rudolfo Valentino com 31 (acima, com a colega Sophie Tucker). Raras vezes se pôde combinar tanto empolgamento em vida com tão rápido esquecimento na morte.

OS LOUROS DE CÉSAR (17)

Está registado nos anais da BD e da arte da prova culinária aquelas sucessivas cores que o mordomo vai adoptando à medida que as suas papilas gustativas se vão impregnando dos paladares da receita de Astérix. Note-se que esta capacidade dos preparados se refletirem na coloração de quem os prova é um tópico que já fora aflorado previamente em O Combate dos Chefes, só que aí tratava-se de poções preparadas por druidas. Registe-se, por último, o brio profissional de Obélix que não queria deixar seguir o caldeirão para a sala sem o provar.

22 agosto 2017

A DECLARAÇÃO DE GUERRA DO BRASIL

22 de Agosto de 1942. Há 75 anos o Brasil declarava guerra simultaneamente à Alemanha e à Itália. Mas haveria que esperar dois anos, pelo Verão de 1944, para que as tropas brasileiras se engajassem em Itália na guerra contra a Alemanha.

OS LOUROS DE CÉSAR (16)

Fixem-se os ingredientes da receita pois esta vai tornar-se importante para a evolução da história. Num registo mais sério e para quem quiser saber mais sobre o modo como os romanos cozinhavam - e tentar reproduzi-lo em casa - há vários livros.

21 agosto 2017

«WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS»


21 de Agosto de 1940. Como alguém hoje me recordou, foi há 77 anos que Lev Trotsky morreu assassinado no México - morreu mas com uma pequena ajuda dos seus amigos (with a little help from (his) friends). Como se se tratasse de uma resposta ao primeiro verso da canção (What would you do if I sang out of tune?), é sabido que entre os comunistas sempre se teve pouca paciência para os que cantavam desafinados (...sang out of tune...). E 21 de Agosto, mas de 1968, é também o dia em que a União Soviética e outros países do Pacto de Varsóvia invadiram a Checoslováquia. Neste outro caso foram os amigos russos e polacos e húngaros e alemães e búlgaros que foram todos dar uma pequena ajuda aos checos e aos eslovacos. 21 de Agosto é uma data repleta de exemplos de amizade dialéctica, a merecer a evocação desta imortal canção dos Beatles.

OS LOUROS DE CÉSAR (15)

Aquela piada a respeito de pôr os dois gauleses a cozinhar como alternativa ao cozinheiro bretão (inglês) Autodidax só se perceberá se tomarmos em conta que, na época em que a história foi concebida, a habilidade dos ingleses para a cozinha era considerada nula. Hoje, já não é bem assim. Há uma data de figuras mediáticas inglesas que escrevem livros e têm programas de televisão a respeito do assunto, como é o caso do Jamie Oliver. O que não quer dizer que os ingleses tenham necessariamente aprendido a cozinhar. A receita de paella de Jamie Oliver, é célebre pelos maus motivos:

O NADADOR QUE FEZ O SEU MINUTO DE SILÊNCIO SOZINHO


Conta-se nos jornais: «O nadador espanhol Fernando Álvarez pediu à organização do Mundial de Masters de Budapeste, em que está a participar, que fosse feito um minuto de silêncio antes da realização das provas em homenagem às vítimas do atentado de Barcelona. A organização recusou. “Não se pode perder nem um minuto”, foi a resposta da organização da prova de veteranos ao nadador espanhol. Álvarez não se conformou e, quando chegou a sua vez de competir, na prova dos 200 metros bruços, quando todos os outros nadadores partiram, o espanhol ficou quieto e em silêncio durante um minuto na prancha, e só depois partiu, acabando por perder a prova.»

É uma história daquelas que apetece mesmo contar, com uma boa causa e um David bem intencionado contra uma organização insensível, mas despersonalizada, que acaba sancionada no fim - acabou obrigada a perder o tal minuto que alegadamente "não se podia perder". O que esta história em particular tem de diferente em relação a centenas de histórias parecidas precedentes, figurantes que subvertem a cenografia de que faziam parte, é que a colaboração do realizador de TV com a organização tornou-se actualmente num detalhe irrelevante: há não sei quantas câmaras opcionais a captar as imagens de uma perspectiva inconveniente para quem quereria que o assunto fosse abafado. Não se tratou apenas de fazer o minuto de silêncio, foi sobretudo a particularidade de o ter feito ao arrepio da organização e, sobretudo, as imagens do gesto.

20 agosto 2017

O ECLIPSE AMERICANO

Neste anúncio de um MacDonalds algures nos Estados Unidos profundos, o gerente precavido avisa os seus clientes que os seus empregados irão interromper as suas funções amanhã entre a 1H17 e a 1H20 da tarde, para verem o eclipse solar. Retomarão o trabalho à 1H21. É que amanhã (21 de Agosto) vai haver um eclipse solar sobre os Estados Unidos. E desconfio que amanhã, todos aqueles que consultam a informação, vamos descobrir facilmente isso...
E contudo, um eclipse do Sol é um fenómeno relativamente comum. Costuma haver pelo menos dois eclipses por ano. Há quase precisamente um ano (a 1 de Setembro de 2016, acima), houve um sobre África, enquanto há coisa de meio ano (26 de Fevereiro de 2017) houve um outro atravessando desde a América do Sul até África passando pelo Atlântico Sul (abaixo). E os próximos dois eclipses (em Fevereiro e Julho de 2018) ocorrerão sobre a Antártida.
O que é curioso é apercebermo-nos da repercussão noticiosa que um destes fenómenos pode receber. É expectável que aqueles que têm lugar na Antártida ou sobre o Polo Norte (daqui por um ano, em Agosto de 2018) a tenham muito pouco, por falta de espectadores. Mas, quando o eclipse ocorre nas regiões mais densamente habitadas, é natural que a comunicação social dessas regiões dê relevo ao fenómeno, tanto mais que existirá uma curiosidade natural, nunca saciada, do público.
O que é menos expectável é que as regiões não afectadas pelo eclipse - é o caso da Europa em geral e de Portugal, em particular - possam atribuir um relevo noticioso distinto ao mesmo fenómeno celeste, conforme o local onde ocorre. Alguém ainda se lembra das repercussões noticiosas do eclipse de há seis meses, tanto mais que ele até ocorreu sobre Angola? Pois bem, preparemo-nos para amanhã tirar as dúvidas, se, até nisto, a comunicação social portuguesa (e europeia) não está acriticamente engodada com o que se publica nos Estados Unidos...
PS para os leitores que não consultam os links: Será que a Radio Comercial vai repetir o seu cabeçalho de há seis meses: «Hoje há eclipse solar mas Portugal nem vai dar por isso»?

O LANÇAMENTO DA VOYAGER 2


20 de Agosto de 1977. Foi há precisamente quarenta anos que foi lançado de Cabo Canaveral um foguetão Titan IIIE transportando a sonda Voyager 2. Paradoxalmente, considerando a numeração, a sua irmã gémea Voyager 1 só viria a partir 16 dias depois, a 5 de Setembro. Mas a diferença entre as missões de ambas iria fazer com que a Voyager 1, justificando o número, assumisse uma trajectória mais curta e alcançasse primeiro Júpiter dali por 18 meses (Março de 1979) e Saturno 20 meses depois disso (Novembro de 1980).
Todavia, numa espécie de reedição da corrida da lebre e da tartaruga, embora numa escala sideral, a Voyager 2 só chegou a Júpiter 4 meses depois (Julho de 1979) e a Saturno 9 meses depois (Agosto de 1981) da sua irmã. Mas veio a desforrar-se depois, porque foi a primeira - e até agora única - missão a explorar os dois planetas seguintes do Sistema Solar: Úrano (Janeiro de 1986) e Neptuno (Agosto de 1989). As boas imagens existentes daqueles dois gigantes gasosos (abaixo) e dos seus satélites devem-se à Voyager 2.
Depois dos 12 anos de uma missão complexa que a levou a passar pelos 4 maiores planetas do nosso Sistema Solar (1977-1989), a Voyager 2, já semi retirada mas ainda activa, prossegue ainda hoje a sua viagem já nos confins do sistema, distanciando-se do Sol a uma velocidade de 55.570 km/h. A sua distância actual para o planeta donde partiu é mais de 100 vezes superior à distância que separa a Terra do Sol (150 milhões de km). O hiato das comunicações com a sonda é actualmente superior às 15 horas mas espera-se que a Voyager 2 nos vá dando notícias pelo menos até 2025.

DEZANOVE VALORES!

Grande Marcelo!
Ao deslocar-se a Barcelona para apresentar os seus pêsames no local à família portuguesa enlutada, teve um gesto que não imaginamos a qualquer dos seus predecessores. Já se sabia mas convém repeti-lo: Marcelo é um estilo! Ao decidir-se a comparecer à missa de hoje acabou por "arrastar" António Costa a atravessar toda a península a um Domingo de madrugada para estar de manhãzinha em Barcelona. A presença dos dois na cerimónia religiosa deu um relevo particular, pela importância da representação, à solidariedade portuguesa, criando uma situação a que os espanhóis deram o natural destaque protocolar (acima). Mais nenhum país correspondeu da mesma forma, nem aproximadamente. Como país vizinho, Portugal tem que se esmerar nestas ocasiões, mas desta vez, esmerou-se Mesmo! Menos óbvio e um bocadinho mais rebuscado: os agradecimentos de Mariano Rajoy a António Costa em directo na TV não escondem que, para um círculo político restrito mas importante, a própria pessoa do primeiro-ministro português a circular em Espanha é uma bandeira a uma solução política ("geringonçal") que não é nada conveniente para o presidente do governo espanhol.

Adenda: Menos bem: a notícia de que os dois teriam regressado de Barcelona no mesmo avião. Se for assim, não se deve brincar com a segurança.

OS LOUROS DE CÉSAR (14)

Cláudio Qualquerius, o pater familias, não se ensaia nada de tratar em voz bem alta o seu filho, Graco, por imbecil. Mas isso eram os romanos (e Goscinny), que ainda não haviam ouvido falar dos pedopsicólogos...

19 agosto 2017

OS VISIONÁRIOS E OS REALISTAS

Embora frequentemente se antagonizem, há muitas coisas nesta vida que resultam da síntese dos visionários e dos realistas. No caso da fotografia acima, por exemplo, se há quem antecipe o futuro traçado da via e a imagine já cheia de trânsito, também pode ter sido alguém que tenha encontrado em armazém algum excesso daquela tinta branca para pavimentação e tenha logo feito a passadeira...

O «RAID» DE DIEPPE

19 de Agosto de 1942. Neste dia de há 75 anos, uma força britânica, mas maioritariamente composta por canadianos, realiza um raid sobre a vila costeira francesa de Dieppe. O plano de operações original dos atacantes era o de derrotar as defesas alemãs instaladas nas praias e ocupar a vila por algumas horas, destruindo as infraestruturas que pudessem aproveitar aos alemães, antes de reembarcar. No fundo, tratava-se de uma exibição de força e ousadia. Entre as unidades que iriam participar no assalto contava-se um regimento blindado, equipado com mais de 50 tanques Churchill e viaturas de reconhecimento Dingo. Por seu lado, a Royal Navy agrupava oito destroyers para apoiar a força de desembarque anfíbia, que incluía mais de duzentas embarcações, e a Royal Air Force mobilizava 74 esquadrões para lhes propiciar uma cobertura aérea adequada. Um esforço agregado, quando considerados todos os ramos, de cerca de 10.500 homens, dos quais 6.000 (5.000 canadianos e 1.000 britânicos) desembarcariam em terras francesas logo pelas 05H00 da manhã.
Do outro lado (e entenda-se a expressão com mais do que um sentido, porque Hitler estava do outro lado da Europa, em Vinnytsia na Ucrânia, de visita à Frente Leste), o susto foi grande, mas passou depressa. Para além da 302ª divisão, que guarnecia a região, o general Adolf Kuntzen, comandante do 81º Corpo de Exército, apressou-se a accionar em resposta as divisões móveis existentes em reserva, a divisão Leibstandarte SS Adolf Hitler e a 10ª divisão panzer. Mas nem chegaram a ser precisas. O desembarque veio a ser um fracasso completo para os atacantes, detido apenas pelos meios locais - 1.500 homens. A lista das perdas dos atacantes impressiona: perderam 33 das embarcações envolvidas no desembarque, para além de um dos oito destroyers que as apoiava; a RAF perdeu 106 aviões, o dobro das perdas sofridas pela Luftwaffe (48); mas o pior para a moral dos assaltantes foram, não apenas os mortos (900 contra 300 alemães), mas sobretudo os que tiveram de ficar para trás, aprisionados, por impossibilidade de os reembarcar - cerca de 2.000 homens (acima e abaixo).
Em suma, uma hecatombe militar, a que há que acrescentar o adicional de ter durado pouco tempo: às 9H00 da manhã já os assaltantes se tinham apercebido da inutilidade dos seus esforços e dado ordens para o reembarque. O pior era cumprir essas ordens debaixo do fogo nutrido que varria as praias. O tenente-coronel Dollard Ménard (abaixo), por exemplo, que comandava os Fuzileiros de Mont-Royal (uma unidade francófona), acabou sendo evacuado pelos seus homens mas depois de ter sido ferido por cinco(!) vezes. Contudo, 60% dos seus 900 fuzileiros ficaram para trás. Lê-se nos relatórios dos alemães que às 16H00 todo o comércio de Dieppe reabrira como se se tratasse de um dia normal. O comportamento dos habitantes locais fora irrepreensível, tendo inclusive havido casos de auxílio à captura de soldados britânicos transfugidos. Como gesto de retribuição, Adolf Hitler mandou libertar os prisioneiros de guerra franceses de 1940 que fossem oriundos de Dieppe - cerca de 1.500. A moral e a confiança dos alemães atingiu um novo patamar.
Do outro lado do Canal, travou-se uma outra batalha para reinventar a operação militar e a História, em busca de um paradigma diferente do verdadeiro fiasco total em que ela se tornara. O almirante Louis Mountbatten (abaixo), que, à frente das Operações Combinadas, mostrara ser o maior apoiante e entusiasta da iniciativa, bem podia ser um militar imprudente e medíocre, mas também se mostrava um cuidadoso gestor da sua imagem numa época em que o conceito era novo e conseguiu escapulir-se das consequências. A explicação e justificação que no QG de Mountbatten se foi desencantar para a debacle era, entre outras (para além da inexperiência das tropas canadianas*), que as insuficiências detectadas pelo desembarque de Dieppe vieram a ser apreendidas e solucionadas, para que se poupassem milhares de vidas naquele que veio a ser o desembarque da Normandia. Uma tese ridícula que só não foi mais ostensivamente contestada por causa das necessidades de guerra. Mas os canadianos nunca perdoaram o sacrifício de tantos a Mountbatten, que sempre foi considerado naquele país uma persona non grata.
Mas o melhor comentário a respeito daquela desculpa disparatada inventada pelos britânicos para justificar este seu triste desastre militar (que lhes custou mais de 900 mortos), é o comentário que atribui - ironicamente - a Louis Mountbatten um conceito inovador na «doutrina de instrução» das suas tropas: a realização de manobras onde, para além do emprego de fogos reais, se envolveria a participação de inimigos reais. E rematava-se sarcasticamente: as tropas ficavam muito bem instruídas, veteranas mesmo, os custos humanos e materiais é que se assemelhavam aos das batalhas a sério...

* Tão inexperientes quanto todas as unidades que vieram a desembarcar nas praias da Normandia...