31 julho 2017

O CENTENÁRIO DO INÍCIO DA BATALHA DE PASSCHENDAELE

31 de Julho de 1917. Os exércitos britânicos e do seu império dão início à que oficialmente foi dado o nome de Terceira Batalha de Ypres. Em frentes estáticas como as da Primeira Guerra Mundial as batalhas tendiam a travar-se nos mesmos sítios. Situada na Flandres belga, quase no extremo oeste da Frente Ocidental, a data escolhida para esta ofensiva tomara em conta a meteorologia e o facto do mês de Agosto ser o mais seco numa região tradicionalmente pluviosa. Mas nesse ano a meteorologia não colaborou e as chuvas precoces rapidamente tornaram intransitáveis os terrenos escolhidos para as operações. Operações essas que, mesmo naquelas condições, prosseguiram.
As imagens da Batalha de Passchendaele (designação alternativa) tornaram-se assim características e simbólicas, pintadas ou fotografadas (acima): tocos de árvores destruídas pelas explosões das granadas de artilharia, crateras das explosões dessa mesma artilharia que se haviam enchido de água pelos aguaceiros prematuros e lama por toda a parte, dificultando até a construção das trincheiras e dos abrigos que se haviam tornado nos ex-libris das frentes de combate daquele conflito. Mas também as retaguardas haviam mudado, que a imprensa britânica (abaixo) havia deixado de acreditar piamente nas proclamações vitoriosas oficiais, como acontecera no ano anterior no Somme...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (40)

30 julho 2017

...E SE O DOMINGO ESTIVER CHATO, HÁ SEMPRE A OPINIÃO SURREAL DE JOÃO MARQUES DE ALMEIDA...

Costa está portanto colocado «numa posição de fraqueza em relação a Marcelo, eleito pela maioria dos portugueses.» Eleito pela maioria dos portugueses? Como é que Marcelo acaba eleito pela maioria dos portugueses se ele nem sequer se candidatava? E, se o fizesse, perdia? E agora é esse mesmo Marcelo que não era homem de acção nem de poder que protagoniza a presidencialização do regime? Se lidos encadeados, estes textos são de um humor surreal, verdadeiramente pythonescos. No domínio da gargalhada e por ser um profissional assumido, Ricardo Araújo Pereira ainda terá o seu público cativo à esquerda, mas no domínio do humor puro nonsense à direita, prefiro João Marques de Almeida ao muito mais gabado Alberto Gonçalves...

EM VEZ DE «APRESENTAR ARMA!», O «ARROCHAR» ARMA DO GUARDA DE HONRA

30 de Julho de 1987. Mesmo nos momentos mais tensos das relações bilaterais entre estados, o que se espera de qualquer país anfitrião é que ele acautele a integridade física de todo o chefe de estado (ou de governo) que o visite. Mais do que uma questão protocolar, é uma questão de reciprocidade e de princípio. Se a antipatia for tanta que não dá para assegurar a segurança do visitante, então a solução é simples: cancele-se a visita. Imagine-se por isso a surpresa como foram recebidas estas imagens que há trinta anos começaram a correr mundo. Uma banal revista a uma guarda de honra, uma cerimónia bocejantemente previsível, que se tornara... imprevisível e nada honrosa. O primeiro-ministro indiano, Rajiv Gandhi, acabara levando uma arrochada assestada por um marinheiro do Sri Lanka, o cabo Silva (logo um apelido daqueles, para mal da reputação da nossa presença por aquelas paragens...). Se este blogue prosseguisse com a sobriedade e o rigor informativo que foi o seu durante anos, seguir-se-ia uma explicação das razões para que o cabo Silva quisesse tanto mal ao primeiro-ministro indiano. Mas isso já se constatou ser uma opção que não cativa audiências, por isso vamos adoptar o estilo moderno e fazer como no Malomil, dando relevo ao lado humano da história, que é como quem diz, contar o que é que aconteceu ao gajo chanfrado, o responsável pelo exotismo do episódio - afinal ele há milhares de revistas a guardas de honra por mês e muitos participantes a cumpri-las de má vontade e de mau humor. Como se imagina, o cabo Silva acabou julgado num severo e muito publicitado Tribunal Marcial, condenado a seis anos de prisão dos quais cumpriu dois e meio, tendo recebido um perdão presidencial. Mudando o nome para Vijitha Rohana e falhada uma incursão na política, veio-se a especializar como astrólogo, o que não deixa de ser uma ironia. Para quem se crê vocacionado a adivinhar os destinos alheios como as cartas da Maya, Wijemuni Vijitha Rohana de Silva falhou desnecessariamente na previsão daquele que estaria destinado a Rajiv Gandhi: morrer assassinado num atentado suicida no seu próprio país, menos de quatro anos depois de lhe ter arreado com a espingarda. A verdade é que, se ele tivesse sido mais paciente ou presciente, ter-se-ia poupado a muitos aborrecimentos. Mesmo assim, e como é conhecido o seu empreendedorismo, as autoridades não brincam com as suas previsões: quando no principio deste ano o astrólogo Vijitha Rohana de Silva anunciou a previsão da morte do presidente Sirisena para um dia preciso (26 de Janeiro), por via das dúvidas prenderam-no, não se lembrasse ele de fazer qualquer coisa para que a previsão se concretizasse...

29 julho 2017

O PALERMA DO FMI QUE SE VAI EMBORA

Nos quatro anos em que liderou a missão para Portugal do FMI, o indiano Subir Lall destacou-se dos seus parceiros da troica pelas bocas controversas que não se cansava de mandar. A última boca que me recordo dele, simbólica e proverbial, foi emitida há menos de um ano, quando ainda a três meses do fim de 2016: já era tarde para corrigir o défice daquele ano (acima). A frase só aparentemente era neutra. Só que, como sabemos, o tal défice que se apresentava incorrigível veio-se a cifrar, no fim do exercício e surpreendentemente, em 2,0%...

Reconheçamos: para essa actividade de opinar politicamente, escondendo-se por detrás de um falso comentário económico, já cá andamos bem servidos com a prata da casa: há o Camilo Lourenço, a Helena Garrido, o José Gomes Ferreira, o Nicolau Santos (do outro lado da trincheira), e até o José Manuel Fernandes que, através do Observador, se guindou a um estatuto de Super Nuno Rogeiro - o HOMEM que tem habilitações para falar de TUDO, até de ciganos(!). Ao lado de tal elenco, um estrangeiro era supérfluo... a não ser para falar com jornais estrangeiros.

Devemos aprender com o que nos aconteceu nestes últimos anos. Na altura em que este palerma se vai embora sem deixar saudades, convém continuar a desconfiar do que valem realmente os membros desta confraria internacional de tecnocratas (permitam-me recordar mais uma vez, entre eles, e porque a experiência foi dolorosa, o completo fiasco que foi a prestação doméstica de Vítor Gaspar), tanto mais que se assiste a esta habilidade de os rodar regularmente, escondendo-lhes as incompetências, como se de uma maçonaria se tratasse.

O INCÊNDIO NO PORTA AVIÕES FORRESTAL

29 de Julho de 1967. Irrompe um enorme incêndio a bordo do porta aviões norte americano USS Forrestal quando este navegava ao largo do Vietname, engajado nos bombardeamento da Operação Rolling Thunder sobre o Vietname do Norte. Segundo se veio a apurar posteriormente, um curto circuito terá accionado um míssil que já fora aplicado sob a asa de um avião que estava a ser preparado para descolar. Esse míssil atingiu e incendiou um avião contiguo. O incêndio depois propagou-se com grande rapidez e ferocidade, já que no convés se estava a proceder a uma operação de abastecimento (combustível) e de municiamento (munições) de aeronaves, em preparação para uma nova sortida. As explosões acabaram por vitimar membros das próprias equipas que estavam a combater o incêndio. A sua violência fez com que se tivesse demorado 24 horas até poder ser controlado. Provocou 134 mortos e 161 feridos entre a tripulação - ironicamente, talvez mais vítimas do que aquelas que o bombardeamento teria provocado aos norte-vietnamitas... A US Navy perdeu 21 aparelhos de combate (alguns deles atirados borda fora, para impedir a propagação do incêndio, como se pode ver no vídeo abaixo). O próprio navio teve que sofrer reparações que o imobilizaram por oito meses. De referir que, entre os presentes no convés na altura do desastre, se encontrava o piloto (hoje senador) John McCain (...com a popularidade muito reforçada nestes dias que correm) aos comandos de um A-4 Skyhawk. A sorte que McCain ali tivera - escapou do incidente apenas com ferimentos ligeiros - perdeu-a escassos três meses depois, quando, a 26 de Outubro de 1967, foi abatido quando de uma missão sobre o Vietname do Norte. Iria passar os próximos cinco anos e meio como prisioneiro de guerra.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (39)

28 julho 2017

HISTÓRIAS SEM HERÓIS

O comentário irónico abaixo de hoje de Nicolau Santos sobre o desemprego fez-me lembrar um outro artigo de há uns dias, referente ao mesmo tema, os bons números do desemprego, mas os registados no Reino Unido, onde a taxa é metade da nossa (4,5%) e isso apesar de todas aquelas profecias consequentes do Brexit que se têm produzido de há um ano para cá. O que é aborrecido e incomum é que o problema que é levantado pelo jornal inglês se mostra estrutural: segundo o autor, como as estatísticas do emprego têm vindo a ser progressivamente tão adulteradas, agora atingem-se números que a teoria consideraria de pleno emprego e a realidade desmente-os: não há qualquer falta de mão de obra no Reino Unido, é tudo uma grande vigarice. Há uma interessante polémica nas páginas da publicação britânica em reacção a essa conclusão, mas isso parece-me o tipo de assunto que não interessa nada, nem a Nicolau Santos, nem aos seus adversários do outro lado da barricada. Como a nossa taxa baixou para 9% então é bom para Nicolau Santos, e como é bom para ele, os seus adversários do outro lado da trincheira ignoram-na. Mas se observarmos o assunto adicionando-lhe a perspectiva da notícia em inglês - os números serão fiáveis? - a história perde a piada: não tem herói nem tem vilão, os números serão uma fraude, a culpa não será exclusivamente do Costa nem do Passos Coelho. Martelar números do desemprego até os desacreditar e perderem o significado teve que resultar dos esforço continuado do aparelho do Estado por décadas, independentemente de quem ocupou sucessivamente o poder. É o tipo de tema que nem interessa discutir. Aliás, quando alguém sai da cenografia convencionada e faz uma crítica assim tão abrangente é porque é populista...

A EXECUÇÃO DE ROBESPIERRE

10 do Termidor do Ano II. Há precisamente 223 anos e após uma crise política que, apesar de muito intensa, durou menos de 48 horas, Maximilien de Robespierre e os seus aliados eram executados na guilhotina (note-se o desenho contemporâneo abaixo, num traço quase juvenil, do acontecimento). Eram tempos cruéis, em que perder um combate político equivalia a perder literalmente a cabeça. Com a sua morte terminava a fase mais cruel da Revolução Francesa que ficou conhecida por O Terror. Quem conhece estes detalhes da História de França (e/ou então outros como a Comuna de Paris de 1871) não se arrisca a assumir o pressuposto que os franceses são sempre um povo civilizado...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (38)

Lembro-me da impressão que me provocou a desdita do legionário que, projectado por um soco de Astérix, acaba aterrando em cima do pedregulho da catapulta, para ser arremessado de imediato para muito mais longe pela implacável máquina de guerra dos romanos. Por esta vez, a tradução dos comentários dos seus camaradas respeitam o espírito original:
– Il est parti comme il est venu... (Partiu como veio)
– Il ne faisait que passer... (Estava só de passagem)

27 julho 2017

VER O FILME AO CONTRÁRIO


Alguém me chamou a atenção para o artigo que hoje Helena Garrido assina no Observador. Normalmente costumo sugerir quem me lê que leia também o artigo que comento. Neste caso, eu obviamente li-o, mas vou abrir uma excepção: o artigo é quase todo um desinteressante tratado de traulitada política pura e dura (quem é que ainda se recorda que Helena Garrido foi promovida pela sua especialização em economia ?...), como se percebe logo pelo antetítulo adoptado: Maioria de Esquerda. O que importa comentar (e que até vou transcrever aqui para o próprio blogue) é o penúltimo e o último parágrafos, o momento em que, parecendo partir de uma perspectiva distanciada e filosófica, se chega às (previsíveis) lamentações e à exibição do corporativismo da classe dos jornalistas. Escreve Helena Garrido e (comento eu):

Finalmente, mas não menos importante, temos assistido nos últimos tempos a um crescendo de agressividade contra o jornalismo e os jornalistas. (Declaração de interesses: sou jornalista). Sim, os jornalistas cometem erros como todos os profissionais. (Mais do que isso: os jornalistas vivem em alguma parte dos erros cometidos pelos outros profissionais, desde um maquinista que descarrila o comboio até aos juízes que se saem com uma sentença disparatada. Os políticos, então, podem agradecer inteiramente a reputação de que a classe goza aos jornalistas). O número de erros cometidos hoje é maior do que no passado? É provável. A velocidade imposta pela informação em tempo real, a concorrência e a crise financeira em que se encontram os media levam a admitir que se cometam mais erros. (Tudo isso são balelas; é o mesmo género de argumento que serviria para defender que, por exemplo, como cada vez há mais tráfego aéreo, se justificaria que houvesse cada vez mais acidentes de aviação para noticiar, quando se verifica precisamente o contrário). Mas é o jornalismo em geral menos rigoroso do que no passado? Em alguns temas que até estariam ausentes dos media no passado é provável – o recente caso do vídeo de Paco Bandeira é exemplo disso. (Também exemplo de transformar em informação aquilo que não o é, e de desprezar o que o é, porque, a par do vídeo com sete anos de Paco Bandeira, não se encontram simultaneamente muitas análises prévias ao que poderia vir a ser o resultado das eleições em Timor-Leste, num exemplo do que é informação séria tradicional). Mas nas matérias importantes, o rigor da informação transmitida é até superior, quer pelas ferramentas que hoje se tem para cruzar fontes, quer pela possibilidade de disponibilizar nos sites algumas fontes dessa informação. (É bem verdade, mas conviria acrescentar que a pressão para a qualidade também vem de fora: aquilo que antigamente desencadeava algumas cartas críticas ao director - a que se podia, ou não, dar seguimento - hoje pode transformar-se no escárnio das redes sociais em poucos minutos) Claro que esse poder de informar melhor – como por exemplo, o de saber quase de imediato que um site espanhol divulgou a lista das armas roubadas em Tancos – incomoda muito mais o poder. (Ao contrário do que Helena Garrido opina, aqui não há nada de novo e este é mesmo o lado para onde "o poder" dorme melhor. "O poder" tem e sempre teve os seus jornais e sempre comprou quase todos os jornalistas que lhe apeteceu. E "o poder" não é só o da "Maioria de esquerda" - ou "de direita" - que ela escolheu para antetítulo. Há esse tipo de poder e há os outros tipos de poderes de que Helena Garrido parece não se dar conta. Ou ela pensa que o Luís Amaral mantém o jornal onde ela escreve apenas como hobby e para exercer a sua vasta benemerência? Ou não sabe que é algo de muito semelhante que acontece com a Sonae e o Público e com os outros órgãos de comunicação social? Ou pensará que Nicolau Santos está à vontade para escrever o que lhe apeteça sobre as dificuldades actuais da Impresa em financiar-se?)

Estamos a olhar para sintomas na nossa sociedade que nos deviam preocupar. (aos jornalistas ou aos leitores?) Porque, para agora citar livremente uma frase atribuída a Bertolt Brecht (que não é dele), hoje o que se passa pode estar a ter efeitos negativos na outra tribo ou partido que não é o nosso. Ou pode estar a condicionar a opinião de pessoas de quem discordamos. Amanhã pode começar a acontecer com os nossos amigos. Um dia estará a acontecer connosco. E já pode ser tarde de mais. (Ao contrário desta espécie de bravata ao invés - em que se finge ser ameaçado em vez de ameaçar - a invocação da frase atribuída a Brecht parece-me um exagero. O que se vê é que há cada vez mais gente a expressar-se e isso inclui os que querem condicionar a opinião alheia. Se calhar não são as pessoas que Helena Garrido consideraria dignas de o fazer. Mas isso é um problema dela. Imaginem que eu, a princípio, até pensava que o que ela percebia mesmo era de economia...).

OS INCIDENTES DE VILA ALICE (LUANDA)

Luanda, 27 de Julho de 1975. A notícia acima é de um jornal da época mas prefere-se a transcrição quase que presencial do incidente tal como ela é feita pelo general Gonçalves Ribeiro no seu livro de memórias de 2002, A Vertigem da Descolonização (pp. 316-7).

«Em 25 de Julho, ao fim da tarde um jeep do exército português deslocava-se do Campo Militar do Grafanil para Luanda, conduzido por um soldado e transportando um sargento, ambos uniformizados. Ao circular próximo do Comando Militar das FAPLA (organização militar do MPLA), na Vila Alice, a viatura foi interceptada e mandada parar. O sargento identificou-se, o jeep arrancou. Percorridos escassos metros, ouviu-se um tiro. Aquele graduado acabara de ser gravemente ferido pelas costas por um dos militares do MPLA que guarnecia a barreira de controlo.
As consequências imediatas e o perigoso precedente determinaram que o caso não passaria impune. O culpado tinha que ser detido e entregue às autoridades portuguesas para julgamento nos termos do Código de Justiça Miliar. Esta foi a conclusão a que se chegou em sucessivas reuniões que, ainda naquele dia e no dia seguinte, ocorreram na presença do Alto-Comissário e em que participaram comandantes militares, o tenente-coronel Heitor Almendra, eu próprio (Gonçalves Ribeiro) e elementos da comissão coordenadora do MFA.
O MPLA recebeu conhecimento formal dos resultados ali apurados.
A reacção foi inconsistente. Praticamente nula.
O TCor. Almendra contactou pessoalmente o dirigente daquele movimento, Dr. Henrique Santos, mais conhecido por Onambwé. Dotado de grande sensatez, encontrava-se numa situação difícil que não teve forma de ultrapassar. Mas a decisão era irreversível. Foi estabelecido um prazo, até às 8 horas de 27 de Julho, para entrega do autor do disparo. Caso contrário, o comando militar do MPLA de Vila Alice seria atacado.
A operação militar foi imediatamente delineada pelo TCor. Almendra que ficou com o comando operacional de todas as forças disponíveis, incluindo o batalhão de paraquedistas, reserva do Comando Chefe.
A missão da maior parte das unidades era a de fixar o dispositivo militar das FAPLA, onde este era mais numeroso, impedindo o reforço do objectivo a atacar.
A responsabilidade do assalto ficou a cargo do agrupamento blindado do major Moreira Dias, acrescido de uma fracção da companhia de "comandos" do capitão Afonso Lourenço (...).
Na madrugada de 27 de Julho, houve nova reunião entre o TCor. Almendra e o Dr. Henrique Santos. Respostas evasivas. Estava-se tentando descobrir o autor do disparo. A Hora H foi deferida para as 10 da manhã, mas ficou registado o aviso solene de que algo de mau aconteceria ao pessoal e às instalações da Vila Alice se, até lá, não fosse entregue o presumível delinquente.
A ordem para o início da operação foi dada a poucos minutos da hora limite, com a recomendação expressa, aliás cumprida, de se aconselhar a rendição de todos os que se encontrassem no interior do comando militar do MPLA.
A intimação, feita por megafone, não resultou.
O ataque foi desencadeado. Apoiados pelo fogo dos blindados os "comandos" lançaram-se ao assalto. Alguns minutos depois, entre mortos e feridos dos combatentes das FAPLA que ali se encontravam, atingia-se a total ocupação do edifício. Um alferes "comando" ficou ferido num pulso.
As forças portuguesas empenhadas na operação, tinham convivido (ou estavam vivendo) num clima insuportável de provocações permanentes, dominadas por raiva contida e sujeitas aos maiores vexames.
Receberam ordens para executar uma operação militar de combate.
E cumpriram-na.»

Esta é uma versão da história dos incidentes de Vila Alice - que acabaram custando cerca de 15 mortos e de 22 feridos ao MPLA. Mas depois há uma outra história, a história de como esses incidentes vieram a ser vistos em Portugal, nomeadamente através de uma reportagem televisiva protagonizada por Adelino Gomes (nesses dias presente em Luanda) e que foi transmitida pela RTP. Tanto mais importante quanto mesmo em 1975 as reportagens de televisão realizadas em territórios africanos (ainda) sob soberania portuguesa eram raras. Foi com grande satisfação que recuperei no Youtube este trecho dela, de uma duração inferior a um minuto. Apesar de truncada, ainda permite transmitir completamente o facciosismo e a falsa ingenuidade do trabalho de Adelino Gomes:

- Estamos em plena Vila Alice, há segundos... novo tiroteio se fez sentir aqui. Quando chegaram dois carros carregados de “comandos” do exército português. Não sabemos exactamente o que é que se passa... as pessoas estavam aqui...ah... ah... discutindo... comentando os últimos acontecimentos... há aqui portanto uma situação de certa confusão... procuram-se inclusivamente os responsáveis do MPLA que estão a dizer para ninguém empunhar armas precisamente para não haver possibilidades de confrontação entre... os “comandos” portugueses e os combatentes do MPLA. Entretanto uma situação de completa desorientação... ninguém está a entender exactamente o que é que se passa...

As (poucas) imagens não mostram a operação militar a decorrer com a quase solenidade como o general Gonçalves Ribeiro a descreve na primeira parte. Mas também não podem ser a confusão ignorante que Adelino Gomes procura transmitir. O assalto resultara de um ultimato, que até fora prorrogado. Os militares portugueses haviam sido mais do que explícitos quanto ao teor das consequências. Foi precisa uma enorme dose de descaramento para Adelino Gomes ir para a frente das câmaras pretendendo não saber o que estava a acontecer e porque é que estava a acontecer. Sem isso, tudo o que se mostrava em Portugal é que fora obra do acaso e, de toda a cidade de Luanda, calhava mesmo que Adelino Gomes e a equipa da RTP estivesse precisamente em Vila Alice à hora em que expirava o ultimato dado pelos militares portugueses ao MPLA! No que sobra da descrição feita, Adelino Gomes transforma os militantes do MPLA em vítimas inocentes da ferocidade dos nossos militares. Ainda por cima respondida com uma contenção estoica. Há bons e maus naquela reportagem: os maus são os militares portugueses e os bons os angolanos do MPLA. Eram anos interessantes esses, em que o facciosismo ideológico de jornalistas como Adelino Gomes era militantemente internacionalista, não desenvolvendo sequer qualquer empatia para com os soldados que eram seus compatriotas!

De facto, a Adelino Gomes, nem lhe terá ocorrido tentar perceber o que teria motivado os seus compatriotas a correr os riscos de uma última intervenção numa guerra que já não era sua e de que, decerto, apenas não quereriam ser vítimas. Porém, o incidente com o sargento que estivera na origem de tudo e, pior, a reacção atrapalhada, mas ineficaz, de Onambwé, mostrara que as cúpulas políticas do MPLA haviam perdido o controle sobre os gangs urbanos de Luanda que entretanto armara em seu nome. Gangs urbanos esses que só entenderiam uma mensagem de força. Que lhes foi aplicada, mais aos gangs do que propriamente às cúpulas políticas do MPLA. A mensagem terá sido tão bem compreendida por essas cúpulas políticas que foram elas a antecipar-se e, conforme se lê na notícia inicial, a considerarem de imediato que «os incidentes (estavam) politicamente sanados». Quanto ao seu aspecto militar, os rufias de Luanda não seriam propriamente grandes combatentes e, por outro lado, não lhes interessaria comprar uma briga por um meses com o exército português quando tinham uma outra com a FNLA em vista. No seu entusiasmo ideológico que não tinha o pragmatismo de quem está no terreno, os amigos portugueses do MPLA (como Adelino Gomes) foram (e são) mais obtusos: ainda agora, numa página da RTP intitulada Memórias da Revolução há quem (ainda) defenda a teoria do "agente provocador": escreve-se «Os comandos atacaram as FAPLA porque pensaram que um soldado português havia sido atacado por essas forças. No entanto, o soldado terá sido atacado por forças infiltradas nas FAPLA.» Como se fossem tempos em que fosse tema alguém infiltrar as FAPLA... É de quem, não esquecendo nada, não aprendeu nada e não se arrepende de nada.

CENTENÁRIO DE UM FALSO BALANÇO SOBRE QUEM ESTAVA A GANHAR A GRANDE GUERRA

27 de Julho de 1917. Num cartaz de propaganda alemão faz-se um balanço de quem está a vencer a Grande Guerra: Wer ist Sieger? (quem é o vencedor?) A resposta, quando medida pela área dos territórios já conquistados ao inimigo, parece inequívoca: os 548.700 km² conquistados e ocupados pelos Impérios Centrais esmagam os 9.400 km² da Entente (é curioso o pormenor dos alemães terem representado a Entente optando por um soldado inglês). E no entanto, os próprios factos do futuro virão a provar que o tema a que os alemães dão tanto destaque, o da ocupação de território inimigo é irrelevante para o impasse em que a Guerra caíra. A situação estratégica é favorável à Entente depois da entrada dos Estados Unidos na guerra (6 de Abril de 1917). Aqui tornado óbvio pelo desfecho dos acontecimentos, vejo este equívoco acontecer frequentemente: cria-se uma perspectiva supérflua de um problema que é completamente irrelevante para o futuro do mesmo e é ela que acaba por saltar para os cabeçalhos da informação porque as pessoas acreditam que possa fazer algum sentido para a compreensão do desfecho do problema. Depois percebe-se nitidamente que não faz, nunca fez. Dali por cerca de um ano os alemães estavam a recuar e a perder os milhares de km² orgulhosamente conquistados. Foram eles que pediram o armistício em Novembro de 1918.

26 julho 2017

A PRIMEIRA «TROIKA» REVOLUCIONÁRIA

26 de Julho de 1975. Há quarenta e dois anos o país acorda para um fim de semana de Verão que se pretendia retemperador e de uma certa acalmia política com a notícia de que passara a ser dirigido por uma troika revolucionária: Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Gonçalves e Costa Gomes. Quanto à comunicação social que notícia o facto, a primeira página da edição abaixo do Diário de Lisboa desse Sábado é emblemática do ambiente e da atitude como os acontecimentos são acompanhados e noticiados - se, sob Salazar o mote fora "Tudo pela Nação, nada contra a Nação", o jornalismo e os jornalistas típicos do PREC só lhe mudaram uma palavra e em 180º a atitude: "Tudo pela Revolução, nada contra a Revolução".
Uma leitura dos cabeçalhos da primeira página é eloquente: além dos Três generais no topo do poder, haviam sido aprovados os estatutos da Intersindical (única central sindical autorizada); o V Governo (provisório dirigido por Vasco Gonçalves anunciava-se) praticamente constituído (na verdade só tomaria posse dali por mais duas semanas...); em Angola o MPLA proclama resistência popular ...e, resistindo, expulsava os movimentos rivais de Luanda; e, em antecipação dos contornos do que seria a nova justiça popular, José Diogo era libertado (julgado por assassinato, descobria-se que a culpa afinal era do morto por ser um latifundiário parasita).

Lendo o detalhe, aquilo que fora dito pelas 23H30 do dia anterior pelo capitão Duran Clemente como porta-voz da Assembleia do MFA, constava do seguinte:

«A Assembleia do Movimento das Forças Armadas, reunida extraordinariamente no dia 25 de Julho de 1975, iniciou-se com uma exposição do presidente da República que apresentou questões e pontos de reflexão sobre a actual crise política.
Iniciando-se a ordem dos trabalhos pelo momento político nacional, o primeiro-ministro fez uma análise sobre a situação politica.
A Assembleia pronunciou-se sobre autoridade e segurança da Revolução, tendo concluído pela necessidade de uma forte direcção política. Nesse sentido, foi aprovado o seguinte:
1º Concentração do poder político-militar nos seguintes membros do Conselho da Revolução: presidente da República, general Costa Gomes; primeiro-ministro, general Vasco Gonçalves; comandante do COPCON, general Otelo Saraiva de Carvalho.
2º O plenário do Conselho da Revolução passa a constituir um órgão de conselho dos três membros elementos referidos no número anterior.
3º Qualquer eventual alteração à composição do Conselho da Revolução far-se-á nos termos da Lei nº 5/75 por decisão da Assembleia do Movimento das Forças Armadas.
A Assembleia debateu, demoradamente, a questão da disciplina revolucionária em toda a sua amplitude, e no próprio seio do Movimento das Forças Armadas. Decidiu pela actuação com firmeza, contra elementos que, com intenção contra-revolucionária, criem um clima de agitação popular e dificultem as tarefas de construção do Socialismo.
Por último, foram feitas exposições sobre a situação nos Açores e apreciadas as recentes medidas tomadas e em curso para a solução dos respectivos problemas no arquipélago.»

Quarenta anos depois de Duran Clemente, pudemos apreciar mais recentemente (em 2015) com outra troika revolucionária e com um outro PREC, desta vez pela pena de João Miguel Tavares uma reedição do mesmo raciocínio. Embora tratando-se de duas alternativas francamente antagónicas, unia-as a perspectiva de ambos de que não havia alternativas às respectivas alternativas. Pessoalmente eles até se podem odiar, mas são tão feitos da mesma massa...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (37)

Se fosse hoje, dir-se-ia que a discussão se desenvolve à volta das skills de Ideiafix...

25 julho 2017

A ILUSÃO DE (QUASE) TODA A HUMANIDADE

25 de Julho de 1992. Há 25 anos tinha lugar a abertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona. A cerimónia foi dominada pela forma verdadeiramente espectacular como a pira olímpica foi acesa, com uma flecha em fogo disparada por um archeiro de dentro do estádio. Tomando em consideração a colocação da câmara de televisão, fica a impressão para quase toda a Humanidade que seguiu o acontecimento à distância (impressão essa que perdurou, porque ninguém a desmentiu nos dias que se seguiram), que o arqueiro conseguira colocar a flecha precisamente dentro da pira, incendiando-a.

Na verdade, deve ter sido o truque de magia que alcançou a maior audiência de sempre até aquela data - uma audiência verdadeiramente planetária! Como se compreende, a organização não se poderia permitir correr o risco de que houvesse um fiasco numa situação tão delicada. E assim os arqueiros foram submetidos a intensos ensaios, mas apenas a direccionar o tiro, a pira seria acesa quando a seta lhe passasse por cima e competiria ao posicionamento da câmara de televisão criar o resto da ilusão. Ilusão essa que não foi compartilhada pelos milhares presentes no estádio, como se depreende pela fotografia abaixo.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (36)

Mais um exemplo de um trocadilho que se perdeu na tradução.

24 julho 2017

AQUILO QUE O TINTIN JÁ TINHA DESCOBERTO HÁ MUITO...

...o que não é propriamente uma novidade para quem conhecer as aventuras de Tintin quando esteve na Lua.

É MAIS DO QUE APENAS DISCORDÂNCIA...

Depois de ter passado 2015 a profetizar repetidamente as maiores desgraças para a Grécia (acima), é preciso ter o maior dos descaramentos para agora assobiar para o lado e deixar escoar os dias sem um comentário sequer à notícia abaixo - já lá vão doze dias! - sobre a saída da Grécia do procedimento por défice excessivo. Sobre a natureza conturbada do caminho trilhado por eles até aqui, Alexis Tsipras, ao menos, penitencia-se, confessando que cometeu enormes erros - e até isso se pode ler no próprio jornal onde José Manuel Fernandes escreve! Mas o publisher do Observador não cometeu erros de análise. A realidade é que se enganou.
São episódios como este que fazem de José Manuel Fernandes, no âmbito da opinião publicada e da honestidade intelectual, no equivalente daquilo que representa Isaltino de Morais para a gestão autárquica e a ética da causa pública. Passeiam-se ambos por aí, impunes e aparentemente absolvidos pela opinião pública, com a adicional de que a Fernandes nem sequer há razões para o sancionar com o equivalente à estadia no hotel da Carregueira de Isaltino Morais, visto que é só um aldrabão consumado, não roubou nada a ninguém. Mas isso será motivo para convidá-lo para opinar em tudo o que é programa de televisão?...

«VIVE LE QUÉBEC LIBRE!»


24 de Julho de 1967. Charles de Gaulle está em Montreal numa visita oficial ao Canadá e resolve cometer uma das maiores gaffes diplomáticas do Século XX, apelando descaradamente ao separatismo de uma parcela do país que o acolhe. A visita acabou bruscamente. Já tive oportunidade de contar uma síntese do episódio aqui no blogue vai para 10 anos e, se a recupero para efeméride de hoje (pelo seu cinquentenário), é só para recordar que, mau grado a completa falta de jeito que já demonstrou ter nas relações com o exterior, Donald Trump ainda nada fez de verdadeiramente grave nesse panteão das colossais gaffes diplomáticas.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (35)

Déployer é traduzível nas circunstâncias do penúltimo quadradinho por desdobrar. E égorger (à letra, degolar) é empregue no sentido figurado de derrota. Ora, a expressão égorge déployé reinventada pelo terceiro legionário remete para a expressão típica do francês «rire à gorge déployée», que será o equivalente ao nosso rir a bandeiras despregadas. O tradutor não conseguiu dar a volta à situação, o que torna incompreensível a referência do último legionário a um jogo de palavras.

23 julho 2017

UMA INUSITADA «CONVERSA EM FAMÍLIA» NO ESTIO DE 1971

23 de Julho de 1971. Ao serão de há 46 anos tinha lugar na RTP uma singular, talvez a mais atípica, conversa em família de Marcello Caetano. Como se percebe escutando-a, o processo de revisão constitucional atrasara-se, obrigara a uma sessão extraordinária da Assembleia Nacional que se iniciara a partir de meados de Junho de 1971 entrando pelo mês seguinte, o que tornara o Verão de 1971 anormalmente tépido para o que era costume num regime já muito habituado a certos rituais, a suscitar a presença do presidente do Conselho nos ecrãs quase a meio de um Estio tradicionalmente plácido. Recomenda-se a quem não o conheça, a assistir a um pouco da conversa em família para lhe apreciar o estilo, de uma outra época, de um outro século. Com a duração de uma meia hora e preenchida completamente por um monólogo de Marcello Caetano a fazer valer os seus dotes didáticos de professor académico, o conteúdo da conversa que se pretendia íntima com o espectador, a complexidade de algumas passagens do que é explicado, ao nível de uma aula de faculdade de Direito, justificaria muito mais as explicações ulteriores dos Paulos Baldaia ou dos Ricardos Costa da actualidade. Mas nesse tempo não havia tais explicações mesmo quando pertinentes, já que não se pressupunha que a audiência fosse estúpida por defeito, muito menos havia estrelas do comentário televisivo. Mas, mais do que proceder a uma análise comparativa sumária dos procedimentos regimentais entre alguns parlamentos da Europa ocidental, o que terá tornado memorável esta conversa em família em particular, para além da altura do ano em que foi emitida, foi o seu alvo político: a denominada ala liberal. É que, para além do projecto canónico com o patrocínio governamental, houvera mais dois outros projectos de revisão da Constituição em discussão, de origens das franjas reformistas do regime. E, por essa vez, um parlamento que era conhecido pelo seu monolitismo e pelo carácter rígido da coreografia das suas sessões ter-se-á animado com os underdogs a granjearem as simpatias decorrentes do capital de queixa de quem joga as regras do jogo e o perde porque elas estavam viciadas desde o começo. A condescendência e menorização de que Marcello Caetano dá mostras nesta conversa em família em relação àquilo que seria a oposição possível no quadro da abertura do regime (a denominada a Primavera Marcelista), acabou por lhe assentar muito mal. Marcello Caetano não estava a ser gracioso na forma como vencera um desafio que as elites de uma outra geração (hoje octogenários) não concebera para ser assumido pessoalmente pelo chefe do governo. Para muitos daqueles que acompanharam e perceberam aquela pequena meia hora de conversa do presidente do Conselho, a Primavera terminara naquela noite quente de Verão...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (34)

Na última linha da prancha cada intervenção é precedida de uma invocação aos deuses do antigo panteão: Por Toutatis! Por Júpiter! Por Isis! Por Belenos! Por Belizama! Por acaso...

O MUNDO DO PODERIA-TER-SIDO

Fui buscar à infância as memórias de uma imaginativa história que se intitulava A Bola do Faz de Conta (uma tradução traiçoeira, como se comprova acima, porque a expressão original francesa é um pouco mais contundente: se-fosse-verdade). Em quase cinquenta anos, o exercício de tomar o fantasioso por sério terá galgado os terrenos da BD juvenil para se instalar na imprensa adulta, na de referência mesmo, ao encontrarmos nas páginas da The Economist exercícios como o de especular como teria sido o resultado do referendo do Brexit se todos os britânicos tivessem participado no acto eleitoral do ano passado (abaixo). No The Economist querem-nos convencer que o resultado seria coincidente mas a pergunta pertinente é: que é que interessa isso? Quem quis votar, votou e quem não o fez, foi porque decidiu não o fazer. Qual a importância que poderá representar um exercício de especulação e contabilização das intenções de quem voluntariamente não o quis fazer? Isto não tem nada de semelhante com as sondagens em que se pedem opiniões informalmente numa ocasião em que isso não acontece formalmente, ou então em que se pedem, também informalmente, opiniões específicas sobre assuntos sobre os quais não está prevista fazer uma pergunta formal. Não foi nada disso que se passou com o Brexit. A cobertura da actividade política deve ser sóbria e assente na realidade mas parece cada vez mais diáfana a fronteira entre a ficção e a não ficção política.

22 julho 2017

...PORQUE A VERDADE ACABA QUASE SEMPRE POR ULTRAPASSAR A FICÇÃO

Até mesmo a Stanley Kubrick, quando filmou Dr. Strangelove em 1964, lhe faltou imaginação para conceber (e antecipar) que dali por uns 50 anos o mais chanfrado dos presentes no War Room pudesse ser o próprio presidente!

O CENTENÁRIO DE UMAS TRINCHEIRAS QUAISQUER

Dá-se a curiosidade de o original desta fotografia aérea acima ter uma data: 22 de Julho de 1917. Aos Domingos a guerra prosseguia e faziam-se voos de reconhecimento sobre as frentes de combate que, lá de cima, se identificavam pelo traçado ziguezagueante das trincheiras. Fotografavam-nas para as analisar, tanto com propósitos ofensivos como defensivos. Do lado direito um desenho esquemático ajuda-nos a interpretar a paisagem. O que se perde com a altitude é a identidade dos milhões que dos dois lados as guarneciam.

ISTO DE TRABALHAR PARA VENDER UM LIVRO...

...tem muito esforço envolvido. Não fosse esse esforço e não se compreenderia esta última pulsão de António Barreto para dar entrevistas encadeadas a falar de si e dos seus pensamentos mas sobretudo dos tempos de reforma agrária. Ele foi ao Expresso e depois à Visão ainda no mês passado, depois, já este mês, ao Observador e ainda hoje o podemos apreciar em mais uma entrevista dada agora à Lusa e reproduzida pelo Diário de Notícias e outros órgãos de comunicação, incluindo a página do Sapo24 onde o vemos exibindo nas mãos a muito provável causa de tanto frenesim: o livro Anatomia de uma Revolução, acabado de reeditar (a edição original é de há 30 anos), mas agora com prefácio mais modernizado de Maria de Fátima Bonifácio. Acabado de sair, cá tenho o livro ainda por ler, à espera de tempo, mas gostaria de assinalar que eu costumo estar atento às opiniões de António Barreto mas prefiro quando ele tem novas ideias para nos expor, não quando tem um livro antigo para nos vender... Tanto mais que, se em 1987, a questão política da posse da terra já interessava pouco, hoje a agricultura é um sector tão marginal da economia que não interessa mesmo nada.

21 julho 2017

AS DECLARAÇÕES DESVALORIZADAS DE UM PRESIDENTE SEM VALOR


21 de Julho de 2014. De visita à Coreia do Sul, o presidente Cavaco Silva reafirma a confiança no Banco Espirito Santo a escassos dias do seu colapso. A bizantinisse da fórmula como exprime essa confiança, escondendo-se por detrás das opiniões do Banco de Portugal, não foi interpretada assim na época, e não virá a ter grande acolhimento quando Cavaco Silva se tiver de defender debaixo de fogo, conforme se percebe das imagens do vídeo abaixo. Se a opinião sobre o BES não era a dele, se ele se limitava a papaguear o que o BP já dissera, e não queria assumir consequências do que reproduzia, porque não se calara? Porque não remetera simplesmente os jornalistas para as declarações do mesmo teor já emitidas pelo BP? Ou então, e isto já em jeito de chalaça, que é o que merece um presidente que não tem tomates para assumir as responsabilidades do que diz, porque não os alertara para a opinião sempre presciente do seu colega José Gomes Ferreira?...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (33)

Há cinquenta anos, aquela cena em que o militar possante mas falho de cérebro entra e sai de cena com o mesmo riso idiota (Hi!Hi!Hi!Hi!Hi!) era uma piada. Hoje tenho dúvidas que a compreendam...
Para me socorrer apenas de uma cena do quotidiano bem recente, temos um réu que acaba o seu julgamento condenado a quatro anos e dois meses de prisão com pena suspensa, e que vem proclamar-se vitorioso diante de uma chusma de câmaras e microfones acéfalos que nem o contestaram. É que a condenação por três crimes de falsificação de documentos e um de fraude fiscal qualificada não é a mesma coisa do que uma absolvição.

Há a conjuntura e há o protagonista, e mesmo se este último continuar a rir mesmo quando levado em braços pelos camaradas (como acima) então é porque não está tudo bem...

20 julho 2017

CHEGADA À LUA

20 de Julho de 1969. Pela primeira vez, uma nave tripulada pousava na Lua. Os Estados Unidos haviam vencido a corrida espacial, mas havia que esperar mais um dia (21 de Julho) para a saída dos astronautas Armstrong e Aldrin, para o primeiro passeio na superfície lunar e para a consagração.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (32)

19 julho 2017

NEM SEMPRE O EMPREENDEDORISMO RESULTA...

Esta coisa das expressões da moda nem sempre corresponde à realidade. O jóquei da direita, por exemplo, até accionou o turbo (uma expressão que foi moda há trinta anos) mas, mesmo assim, teve que se contentar com o segundo lugar...

PINTASSILGO ACEITOU

19 de Julho de 1979. Maria de Lourdes Pintassilgo aceita o convite do presidente Ramalho Eanes para encabeçar um terceiro governo de iniciativa presidencial. Questões políticas à parte (o executivo iria passar dali por um mês numa votação em que recebeu mais votos contra do que a favor, mas que não perdeu porque a maioria... se absteve), o que importa realçar no episódio é a questão do género. Como chefe de governo, a nova primeira-ministra portuguesa iria ser a segunda mulher na Europa (a britânica Margaret Thatcher tomara posse há dois meses e meio, em Maio desse mesmo ano) e a sétima em todo o Mundo.

PS - É engraçado inserir o cabeçalho do Diário de Lisboa desse dia, para perceber pelos cabeçalhos colaterais como a comunicação social estava também bandeada... mas nesse tempo para a esquerda. À direita da notícia principal, inquire-se as opiniões de Cunhal e Soares (por essa ordem, presume-se a alfabética, e não a da representatividade dos respectivos partidos...), mas esquece-se Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Celebra-se o fim do regime nicaraguano, o presidente interino já fugiu e as tropas sandinistas rebeldes entraram na capital, no que pretendia ser uma completa reedição do que acontecera quatro anos antes no Vietname. E havia ainda imagens actuais da URSS, não nos fôssemos esquecer dela...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (31)

De todas as aventuras de Astérix onde ele se cruza com Júlio César, esta será aquela em que o romano aparece pior retratado em termos morais.

18 julho 2017

«AGARREM-ME, SENÃO DENUNCIOS-OS A TODOS!»

Exemplo acabado do comentador «Agarrem-me, senão denuncio-os a todos!». Ninguém agarra e a denúncia concreta fica sempre para o próximo programa. Se levássemos Tiago Caiado Guerreiro a sério, então a "paisagem" estaria repleta de "malandros". Contudo, esses malandros têm o benefício de o bom do Tiago nunca chegar a identificá-los, nem sequer a sugerir vagamente de quem se trata. Ao fim de tantos anos e de tantos programas de televisão iguais, a sua presença e o seu estilo marcante mas um pouco já repetitivo tornou-se numa rábula familiar, ao jeito do José Freixo e do seu boneco Donaltim... só que lhe falta o Donaltim. E é pena porque talvez o pato Donaltim concretizasse as suas insinuações...

A PERFEIÇÃO

18 de Julho de 1976. Nas competições de ginástica feminina dos Jogos Olímpicos que se estavam a disputar em Montreal no Canadá, e por uma primeira vez há uma ginasta que alcança a pontuação máxima possível num exercício (de paralelas assimétricas): 10 pontos, a perfeição. O feito foi alcançado por uma atleta romena de 14 anos, Nadia Comăneci. Embora muito mais conhecida pela sua vertente desportiva, a ocasião foi também um momento de afirmação da superioridade da inteligência humana sobre a máquina: como os marcadores que afixavam os resultados só haviam sido concebidos para um algarismo seguido das centésimas, o comissário responsável teve que improvisar aquando da afixação da nota. O resultado pode apreciar-se na fotografia acima: 1,00, aparentemente uma nota miserável e injusta para a prestação da jovem romena que terá causado alguma perplexidade inicial na assistência, até à compreensão do que se tratava e ao romper dos aplausos e aos encómios dos comentadores televisivos. Nem todos os humanos chegaram lá sozinhos mas um computador é que nunca teria lá chegado...

A posterior alteração das regras de pontuação dos jurados, com critérios mais exigentes, tornou estas notas mais difíceis de repetir. A perfeição também é um conceito relativo...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (30)

Admire-se a sabedoria da confissão de Parafusis que poupou a história a mais algumas pranchas de violência desnecessária.

17 julho 2017

O MITO DO PARAÍSO ANDALUZ

«Córdova, que conta actualmente 326 600 habitantes (2016), tinha na Idade Média, a acreditar-se na tradição árabe, meio milhão. Ainda que toda a população da actual Península Ibérica não ultrapassasse 40 milhões de habitantes, só a Andaluzia, no tempo do califado, contava 34 milhões. Com as suas 600 mesquitas, numerosos banhos públicos, bibliotecas (sendo a do califa, com as suas 500 000 obras, a mais importante). Córdova era a Damasco do Ocidente. De noite a cidade era iluminada com lanternas. Setecentos anos mais tarde, o londrino que circulasse de noite precisaria de transportar a sua própria luz. As ruas de Córdova estavam pavimentadas. Séculos mais tarde, o mais pequeno aguaceiro ainda transformava as ruas de Paris num lamaçal. A Mesquita de Córdova, com a sua floresta sem fim de pilares de mármore e de jaspe, ultrapassava, em importância e magnificência, todos os templos muçulmanos do Oriente.»

Carl Grimberg. História Universal, Vol. 6, p. 114
O Al-Andalus, o estado muçulmano edificado na Hispânia europeia desde o Século VIII até aos finais do Século XV, sempre gozou de um estatuto especial benigno na forma como os historiadores ocidentais o descreviam quando em comparação com os outros estados islâmicos daquela e de épocas posteriores. Aprecie-se esta descrição acima de Córdoba, feita nos anos imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial por um historiador sueco. Mesmo para um historiador vindo do extremo boreal da Europa, o califado andaluz, cujo apogeu terá sido alcançado sob Abderramão III (912-961), representaria a versão mais europeia e mais sincrética do islão. Daí a transformá-lo num modelo de convivência entre comunidades religiosas seria apenas um passo mas também uma necessidade de coerência discursiva para a historiografia europeia. O Al-Andalus era tomado como um exemplo de tolerância religiosa, o que pôde levar a excessos interpretativos quando não se tiveram cuidados com o entendimento a atribuir à palavra “tolerância”, indispensáveis quando num contexto medieval. As tendências de há 80 anos agudizaram-se com o alargamento das ciências sociais do após-guerra e o alvo primordial de Os Mitos do Paraíso Andaluz são as descrições descabeladas mais elaboradas de uma sociedade andaluza que acabou descrita tão cosmopolita que até há quem lhe consiga encontrar analogias com a Califórnia do século XXI, nomeadamente no que se refere à emancipação das mulheres e à assunção pública da homossexualidade masculina! É giro, até pode dar um bons artigos de imprensa, mas é um disparate e quando Darío Fernández-Morera desmonta tais ideias disparatadas fá-lo com propriedade porque é ele que ocupa o lado da razoabilidade argumentativa.
Mas se a razão assistirá à tese central de Os Mitos do Paraíso Andaluz, de que “La Convivencia” não se reveste de todos aqueles aspectos benignos de como essa tese costuma ser apresentada, também fiquei com a impressão que o formato escolhido, combativo e recriminador, para a rebater deixou imenso a desejar. Por causa de erros factuais clamorosos cometidos pelo autor quando, por exemplo, dá para exemplo correlativo da mudança da toponímia local pelos conquistadores árabes o caso de Istambul, cidade que mudou de nome mas apenas 350 anos depois da sua conquista pelos turcos e, mesmo aí, por iniciativa de Kemal Ataturk, que é o paradigma do laicismo de todo o mundo islâmico. Ou então quando baralha as classificações das línguas e aparenta os góticos que seriam o idioma dos visigodos com os neo-latinos praticados pelas populações hispânicas durante o processo de formação do estado visigótico na Península (século V). Também por causa de flagrantes erros de omissão: um português consegue acabar de ler aquele livro sem ocupar os dedos de uma mão com referências ao seu país ou então encontrando relatos referentes ao território que veio a ser ocupado por Portugal. Numa das poucas referências e como é quase tradição nos livros anglos, os nossos reis Afonsos tornam-se... Alfonsos. E esta constatação é tanto mais irónica quando se descobre que o departamento onde Darío Fernández-Morera lecciona na Northwestern University é o Department of Spanish & Portuguese... Mas onde a gravidade dos erros se destaca é naqueles que ele assume por descontextualização. Só muito relutantemente o autor vai admitindo que ao longo dos quase 800 anos abrangidos pelo livro se multiplicaram exemplos de dhimmis (cristãos e judeus) a serem chamados pelos monarcas para ocuparem os postos mais importantes da governação. O próprio Darío Fernández-Morera explica que a causa para tal nada teria a ver com a tolerância, antes uma forma de neutralizar o poder das facções em que normalmente se desdobravam as sociedades árabes (e berberes). Mas a verdade é que, apesar dos protestos das elites religiosas e das reacções negativas que se adivinham das camadas inferiores dessa própria população muçulmana, os monarcas hispânicos recorriam a esse género de solução com uma frequência que era desconhecida na Síria, no Egipto, no Iraque, em todos esses sítios onde houve outras cortes califais contemporâneas.
Porém, o processo escolhido por Darío Fernández-Morera é o de dar preferência à documentação e aí, toda aquela que sobrevive acaba por estabelecer a predominância da produção intelectual, sobretudo religiosa. E a sociedade que os ulemás queriam estabelecer não se orientava (como seria de esperar) pelas regras da tolerância religiosa e do pragmatismo político. Um exemplo interessantíssimo é o de Averróis (que o autor não se esquece de designar pelo seu nome árabe - Ibn Rushd – sempre que a ele se refere), que foi um filósofo muito estudado e acarinhado a Ocidente nesse segundo papel, mas que também foi um ulemá zeloso e aí bastante distinto da impressão causada pelo filósofo – no livro faz-se um ferino acompanhamento dos seus comentários sobre variados temas: a jihad (p.26), a apostasia (p.100), o roubo (p.103), as bebidas alcoólicas (p.105), o adultério (p.145), (a condição d)as mulheres (p.156). Defender a tolerância durante “La Convivencia” torna-se um exercício bastante ingrato, para mais quando o leitor tem como referência as democracias ocidentais do século XX. O que se preservou escrito para a posterioridade foram um conjunto de regras do que os seus autores achavam que devia ser a sociedade islâmica ideal, subordinada aos ensinamentos de Alá, e não aquilo que a sociedade islâmica da Hispânia terá sido de facto, nos seus compromissos. É como tentar aferir da razoabilidade das políticas financeiras de Portugal nos últimos 20 anos a partir dos programas de televisão do professor Medina Carreira... E, no entanto, estas revisões em baixa dos valores integradores da civilização islâmica têm-se acentuado a partir dos inícios do século XXI. Mesmo descontando a propensão para a polémica de Darío Fernández-Morera, há aspectos por ele mencionados no livro que só se estranha que só agora estejam a ser investigados com mais rigor. Por exemplo, a tese de que muito do conhecimento da Antiguidade só chegou até nós por ter sido preservado pelos árabes era algo que sempre foi, pelo menos, controverso. Como ali se demonstra num caso em particular, muitas e as melhores traduções que terão chegado ao Ocidente dos clássicos, se não haviam permanecido por cá preservadas durante toda Idade Média, terão chegado depois, no tempo das cruzadas e traduzidas directamente do grego para o latim pela via do Império Romano do Oriente.
 
Os Mitos do Paraíso Andaluz é um livro polémico no sentido académico. É demasiado curto (240 páginas) para aquilo que ambiciona: analisar com profundidade 800 anos de presença muçulmana na Hispânia e desmontar um discurso edulcorado a respeito desse período. Está apresentado de uma maneira demasiado assertiva para não o considerar trendy no revisionismo de tudo o que tenha a ver com o Islão. Será esse revisionismo oportuno? Eu quando ouço o Xeque Munir a esgueirar-se como uma enguia besuntada de manteiga para não condenar os atentados feitos em nome da sua religião, tendo a concordar que sim, apesar de todas as suas limitações.