17 julho 2017

O MITO DO PARAÍSO ANDALUZ

«Córdova, que conta actualmente 326 600 habitantes (2016), tinha na Idade Média, a acreditar-se na tradição árabe, meio milhão. Ainda que toda a população da actual Península Ibérica não ultrapassasse 40 milhões de habitantes, só a Andaluzia, no tempo do califado, contava 34 milhões. Com as suas 600 mesquitas, numerosos banhos públicos, bibliotecas (sendo a do califa, com as suas 500 000 obras, a mais importante). Córdova era a Damasco do Ocidente. De noite a cidade era iluminada com lanternas. Setecentos anos mais tarde, o londrino que circulasse de noite precisaria de transportar a sua própria luz. As ruas de Córdova estavam pavimentadas. Séculos mais tarde, o mais pequeno aguaceiro ainda transformava as ruas de Paris num lamaçal. A Mesquita de Córdova, com a sua floresta sem fim de pilares de mármore e de jaspe, ultrapassava, em importância e magnificência, todos os templos muçulmanos do Oriente.»

Carl Grimberg. História Universal, Vol. 6, p. 114
O Al-Andalus, o estado muçulmano edificado na Hispânia europeia desde o Século VIII até aos finais do Século XV, sempre gozou de um estatuto especial benigno na forma como os historiadores ocidentais o descreviam quando em comparação com os outros estados islâmicos daquela e de épocas posteriores. Aprecie-se esta descrição acima de Córdoba, feita nos anos imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial por um historiador sueco. Mesmo para um historiador vindo do extremo boreal da Europa, o califado andaluz, cujo apogeu terá sido alcançado sob Abderramão III (912-961), representaria a versão mais europeia e mais sincrética do islão. Daí a transformá-lo num modelo de convivência entre comunidades religiosas seria apenas um passo mas também uma necessidade de coerência discursiva para a historiografia europeia. O Al-Andalus era tomado como um exemplo de tolerância religiosa, o que pôde levar a excessos interpretativos quando não se tiveram cuidados com o entendimento a atribuir à palavra “tolerância”, indispensáveis quando num contexto medieval. As tendências de há 80 anos agudizaram-se com o alargamento das ciências sociais do após-guerra e o alvo primordial de Os Mitos do Paraíso Andaluz são as descrições descabeladas mais elaboradas de uma sociedade andaluza que acabou descrita tão cosmopolita que até há quem lhe consiga encontrar analogias com a Califórnia do século XXI, nomeadamente no que se refere à emancipação das mulheres e à assunção pública da homossexualidade masculina! É giro, até pode dar um bons artigos de imprensa, mas é um disparate e quando Darío Fernández-Morera desmonta tais ideias disparatadas fá-lo com propriedade porque é ele que ocupa o lado da razoabilidade argumentativa.
Mas se a razão assistirá à tese central de Os Mitos do Paraíso Andaluz, de que “La Convivencia” não se reveste de todos aqueles aspectos benignos de como essa tese costuma ser apresentada, também fiquei com a impressão que o formato escolhido, combativo e recriminador, para a rebater deixou imenso a desejar. Por causa de erros factuais clamorosos cometidos pelo autor quando, por exemplo, dá para exemplo correlativo da mudança da toponímia local pelos conquistadores árabes o caso de Istambul, cidade que mudou de nome mas apenas 350 anos depois da sua conquista pelos turcos e, mesmo aí, por iniciativa de Kemal Ataturk, que é o paradigma do laicismo de todo o mundo islâmico. Ou então quando baralha as classificações das línguas e aparenta os góticos que seriam o idioma dos visigodos com os neo-latinos praticados pelas populações hispânicas durante o processo de formação do estado visigótico na Península (século V). Também por causa de flagrantes erros de omissão: um português consegue acabar de ler aquele livro sem ocupar os dedos de uma mão com referências ao seu país ou então encontrando relatos referentes ao território que veio a ser ocupado por Portugal. Numa das poucas referências e como é quase tradição nos livros anglos, os nossos reis Afonsos tornam-se... Alfonsos. E esta constatação é tanto mais irónica quando se descobre que o departamento onde Darío Fernández-Morera lecciona na Northwestern University é o Department of Spanish & Portuguese... Mas onde a gravidade dos erros se destaca é naqueles que ele assume por descontextualização. Só muito relutantemente o autor vai admitindo que ao longo dos quase 800 anos abrangidos pelo livro se multiplicaram exemplos de dhimmis (cristãos e judeus) a serem chamados pelos monarcas para ocuparem os postos mais importantes da governação. O próprio Darío Fernández-Morera explica que a causa para tal nada teria a ver com a tolerância, antes uma forma de neutralizar o poder das facções em que normalmente se desdobravam as sociedades árabes (e berberes). Mas a verdade é que, apesar dos protestos das elites religiosas e das reacções negativas que se adivinham das camadas inferiores dessa própria população muçulmana, os monarcas hispânicos recorriam a esse género de solução com uma frequência que era desconhecida na Síria, no Egipto, no Iraque, em todos esses sítios onde houve outras cortes califais contemporâneas.
Porém, o processo escolhido por Darío Fernández-Morera é o de dar preferência à documentação e aí, toda aquela que sobrevive acaba por estabelecer a predominância da produção intelectual, sobretudo religiosa. E a sociedade que os ulemás queriam estabelecer não se orientava (como seria de esperar) pelas regras da tolerância religiosa e do pragmatismo político. Um exemplo interessantíssimo é o de Averróis (que o autor não se esquece de designar pelo seu nome árabe - Ibn Rushd – sempre que a ele se refere), que foi um filósofo muito estudado e acarinhado a Ocidente nesse segundo papel, mas que também foi um ulemá zeloso e aí bastante distinto da impressão causada pelo filósofo – no livro faz-se um ferino acompanhamento dos seus comentários sobre variados temas: a jihad (p.26), a apostasia (p.100), o roubo (p.103), as bebidas alcoólicas (p.105), o adultério (p.145), (a condição d)as mulheres (p.156). Defender a tolerância durante “La Convivencia” torna-se um exercício bastante ingrato, para mais quando o leitor tem como referência as democracias ocidentais do século XX. O que se preservou escrito para a posterioridade foram um conjunto de regras do que os seus autores achavam que devia ser a sociedade islâmica ideal, subordinada aos ensinamentos de Alá, e não aquilo que a sociedade islâmica da Hispânia terá sido de facto, nos seus compromissos. É como tentar aferir da razoabilidade das políticas financeiras de Portugal nos últimos 20 anos a partir dos programas de televisão do professor Medina Carreira... E, no entanto, estas revisões em baixa dos valores integradores da civilização islâmica têm-se acentuado a partir dos inícios do século XXI. Mesmo descontando a propensão para a polémica de Darío Fernández-Morera, há aspectos por ele mencionados no livro que só se estranha que só agora estejam a ser investigados com mais rigor. Por exemplo, a tese de que muito do conhecimento da Antiguidade só chegou até nós por ter sido preservado pelos árabes era algo que sempre foi, pelo menos, controverso. Como ali se demonstra num caso em particular, muitas e as melhores traduções que terão chegado ao Ocidente dos clássicos, se não haviam permanecido por cá preservadas durante toda Idade Média, terão chegado depois, no tempo das cruzadas e traduzidas directamente do grego para o latim pela via do Império Romano do Oriente.
 
Os Mitos do Paraíso Andaluz é um livro polémico no sentido académico. É demasiado curto (240 páginas) para aquilo que ambiciona: analisar com profundidade 800 anos de presença muçulmana na Hispânia e desmontar um discurso edulcorado a respeito desse período. Está apresentado de uma maneira demasiado assertiva para não o considerar trendy no revisionismo de tudo o que tenha a ver com o Islão. Será esse revisionismo oportuno? Eu quando ouço o Xeque Munir a esgueirar-se como uma enguia besuntada de manteiga para não condenar os atentados feitos em nome da sua religião, tendo a concordar que sim, apesar de todas as suas limitações.

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