27 julho 2017

OS INCIDENTES DE VILA ALICE (LUANDA)

Luanda, 27 de Julho de 1975. A notícia acima é de um jornal da época mas prefere-se a transcrição quase que presencial do incidente tal como ela é feita pelo general Gonçalves Ribeiro no seu livro de memórias de 2002, A Vertigem da Descolonização (pp. 316-7).

«Em 25 de Julho, ao fim da tarde um jeep do exército português deslocava-se do Campo Militar do Grafanil para Luanda, conduzido por um soldado e transportando um sargento, ambos uniformizados. Ao circular próximo do Comando Militar das FAPLA (organização militar do MPLA), na Vila Alice, a viatura foi interceptada e mandada parar. O sargento identificou-se, o jeep arrancou. Percorridos escassos metros, ouviu-se um tiro. Aquele graduado acabara de ser gravemente ferido pelas costas por um dos militares do MPLA que guarnecia a barreira de controlo.
As consequências imediatas e o perigoso precedente determinaram que o caso não passaria impune. O culpado tinha que ser detido e entregue às autoridades portuguesas para julgamento nos termos do Código de Justiça Miliar. Esta foi a conclusão a que se chegou em sucessivas reuniões que, ainda naquele dia e no dia seguinte, ocorreram na presença do Alto-Comissário e em que participaram comandantes militares, o tenente-coronel Heitor Almendra, eu próprio (Gonçalves Ribeiro) e elementos da comissão coordenadora do MFA.
O MPLA recebeu conhecimento formal dos resultados ali apurados.
A reacção foi inconsistente. Praticamente nula.
O TCor. Almendra contactou pessoalmente o dirigente daquele movimento, Dr. Henrique Santos, mais conhecido por Onambwé. Dotado de grande sensatez, encontrava-se numa situação difícil que não teve forma de ultrapassar. Mas a decisão era irreversível. Foi estabelecido um prazo, até às 8 horas de 27 de Julho, para entrega do autor do disparo. Caso contrário, o comando militar do MPLA de Vila Alice seria atacado.
A operação militar foi imediatamente delineada pelo TCor. Almendra que ficou com o comando operacional de todas as forças disponíveis, incluindo o batalhão de paraquedistas, reserva do Comando Chefe.
A missão da maior parte das unidades era a de fixar o dispositivo militar das FAPLA, onde este era mais numeroso, impedindo o reforço do objectivo a atacar.
A responsabilidade do assalto ficou a cargo do agrupamento blindado do major Moreira Dias, acrescido de uma fracção da companhia de "comandos" do capitão Afonso Lourenço (...).
Na madrugada de 27 de Julho, houve nova reunião entre o TCor. Almendra e o Dr. Henrique Santos. Respostas evasivas. Estava-se tentando descobrir o autor do disparo. A Hora H foi deferida para as 10 da manhã, mas ficou registado o aviso solene de que algo de mau aconteceria ao pessoal e às instalações da Vila Alice se, até lá, não fosse entregue o presumível delinquente.
A ordem para o início da operação foi dada a poucos minutos da hora limite, com a recomendação expressa, aliás cumprida, de se aconselhar a rendição de todos os que se encontrassem no interior do comando militar do MPLA.
A intimação, feita por megafone, não resultou.
O ataque foi desencadeado. Apoiados pelo fogo dos blindados os "comandos" lançaram-se ao assalto. Alguns minutos depois, entre mortos e feridos dos combatentes das FAPLA que ali se encontravam, atingia-se a total ocupação do edifício. Um alferes "comando" ficou ferido num pulso.
As forças portuguesas empenhadas na operação, tinham convivido (ou estavam vivendo) num clima insuportável de provocações permanentes, dominadas por raiva contida e sujeitas aos maiores vexames.
Receberam ordens para executar uma operação militar de combate.
E cumpriram-na.»

Esta é uma versão da história dos incidentes de Vila Alice - que acabaram custando cerca de 15 mortos e de 22 feridos ao MPLA. Mas depois há uma outra história, a história de como esses incidentes vieram a ser vistos em Portugal, nomeadamente através de uma reportagem televisiva protagonizada por Adelino Gomes (nesses dias presente em Luanda) e que foi transmitida pela RTP. Tanto mais importante quanto mesmo em 1975 as reportagens de televisão realizadas em territórios africanos (ainda) sob soberania portuguesa eram raras. Foi com grande satisfação que recuperei no Youtube este trecho dela, de uma duração inferior a um minuto. Apesar de truncada, ainda permite transmitir completamente o facciosismo e a falsa ingenuidade do trabalho de Adelino Gomes:

- Estamos em plena Vila Alice, há segundos... novo tiroteio se fez sentir aqui. Quando chegaram dois carros carregados de “comandos” do exército português. Não sabemos exactamente o que é que se passa... as pessoas estavam aqui...ah... ah... discutindo... comentando os últimos acontecimentos... há aqui portanto uma situação de certa confusão... procuram-se inclusivamente os responsáveis do MPLA que estão a dizer para ninguém empunhar armas precisamente para não haver possibilidades de confrontação entre... os “comandos” portugueses e os combatentes do MPLA. Entretanto uma situação de completa desorientação... ninguém está a entender exactamente o que é que se passa...

As (poucas) imagens não mostram a operação militar a decorrer com a quase solenidade como o general Gonçalves Ribeiro a descreve na primeira parte. Mas também não podem ser a confusão ignorante que Adelino Gomes procura transmitir. O assalto resultara de um ultimato, que até fora prorrogado. Os militares portugueses haviam sido mais do que explícitos quanto ao teor das consequências. Foi precisa uma enorme dose de descaramento para Adelino Gomes ir para a frente das câmaras pretendendo não saber o que estava a acontecer e porque é que estava a acontecer. Sem isso, tudo o que se mostrava em Portugal é que fora obra do acaso e, de toda a cidade de Luanda, calhava mesmo que Adelino Gomes e a equipa da RTP estivesse precisamente em Vila Alice à hora em que expirava o ultimato dado pelos militares portugueses ao MPLA! No que sobra da descrição feita, Adelino Gomes transforma os militantes do MPLA em vítimas inocentes da ferocidade dos nossos militares. Ainda por cima respondida com uma contenção estoica. Há bons e maus naquela reportagem: os maus são os militares portugueses e os bons os angolanos do MPLA. Eram anos interessantes esses, em que o facciosismo ideológico de jornalistas como Adelino Gomes era militantemente internacionalista, não desenvolvendo sequer qualquer empatia para com os soldados que eram seus compatriotas!

De facto, a Adelino Gomes, nem lhe terá ocorrido tentar perceber o que teria motivado os seus compatriotas a correr os riscos de uma última intervenção numa guerra que já não era sua e de que, decerto, apenas não quereriam ser vítimas. Porém, o incidente com o sargento que estivera na origem de tudo e, pior, a reacção atrapalhada, mas ineficaz, de Onambwé, mostrara que as cúpulas políticas do MPLA haviam perdido o controle sobre os gangs urbanos de Luanda que entretanto armara em seu nome. Gangs urbanos esses que só entenderiam uma mensagem de força. Que lhes foi aplicada, mais aos gangs do que propriamente às cúpulas políticas do MPLA. A mensagem terá sido tão bem compreendida por essas cúpulas políticas que foram elas a antecipar-se e, conforme se lê na notícia inicial, a considerarem de imediato que «os incidentes (estavam) politicamente sanados». Quanto ao seu aspecto militar, os rufias de Luanda não seriam propriamente grandes combatentes e, por outro lado, não lhes interessaria comprar uma briga por um meses com o exército português quando tinham uma outra com a FNLA em vista. No seu entusiasmo ideológico que não tinha o pragmatismo de quem está no terreno, os amigos portugueses do MPLA (como Adelino Gomes) foram (e são) mais obtusos: ainda agora, numa página da RTP intitulada Memórias da Revolução há quem (ainda) defenda a teoria do "agente provocador": escreve-se «Os comandos atacaram as FAPLA porque pensaram que um soldado português havia sido atacado por essas forças. No entanto, o soldado terá sido atacado por forças infiltradas nas FAPLA.» Como se fossem tempos em que fosse tema alguém infiltrar as FAPLA... É de quem, não esquecendo nada, não aprendeu nada e não se arrepende de nada.

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