30 setembro 2018

DUAS BELAS «FIGURAS DE PARVO» SEPARADAS POR OITENTA ANOS


30 de Setembro de 1938. Acabado de aterrar em Londres, vindo de Munique, o primeiro-ministro Neville Chamberlain fez uma bela figura de parvo numa tentativa de parafrasear um seu antecessor. Passados oitenta anos e sobre política internacional comprova-se que, para se fazer figura de parvo, basta ser-se parvo, como acabou de o demonstrar Donald Trump com as suas fanfarronadas diante de uma assembleia que, ao contrário da de cima, não estava ali a fazer de grupo coral. A História costuma ser implacável para com os fanfarrões...

Adenda: ...e já agora compare-se a coreografia da cena abaixo (1 de Outubro) e a coincidência das palmas entusiásticas da claque ali assemblada, com a cena inicial da chegada de Chamberlain. Depois do excesso da gabarolice acima, aquilo que Trump está a antecipar como resultados do acordo comercial tanto pode ser verdade... como pode ser a maior patranha.

A PRIMEIRA EXIBIÇÃO PÚBLICA DO BOEING 747

30 de Setembro de 1968. Apresentação pública do Boeing 747, um novo conceito de transporte aéreo, com uma capacidade para transportar várias centenas de passageiros. Enquanto a aposta europeia no Concorde se focava na qualidade do transporte, tornando-o mais rápido e supersónico, os americanos orientavam-se para a quantidade. Apesar dos contrastes, havia um pormenor que qualquer dos dois projectos compartilhava quando destas cerimónias: como aqui já se explicou, quando se evocou o cinquentenário da apresentação do Concorde em Dezembro de 1967, não se requeria que estas cerimónias de apresentação se realizassem com um protótipo de aeronave que já tivesse sido testado, bastava que eles rolassem pelas pistas. Já acontecera com o Concorde e aconteceu com o Boeing 747 da fotografia acima que, apesar do que se sugere com as imagens do vídeo abaixo, só virá a voar realmente e pela primeira vez dali por quatro meses, em Fevereiro de 1969.

29 setembro 2018

MAS A VOCALISTA DOS «JEFFERSON AIRPLANE» NÃO ERA A GRACE SLICK?...

Entre a geração dos baby-boomers (de que apenas faço parte por ter nascido nos anos terminais, já de transição), sempre se prezou saber mais do que um mínimo de rock n´roll. E não ter bandas de referência era tão mal compreendido como em Portugal não se ter clube de futebol. A idade e a caturrice não lhes (nos) deve ter feito nada bem quanto à razoabilidade como se aceitam as opiniões musicais alheias mas, quando nos deparamos com uma notícia como a acima, de que morreu o fundador e vocalista dos Jefferson Airplane, a reacção não pode senão deixar de ser a de surpresa.
- Quê?! Mas então a vocalista dos Jefferson Airplane não era a Grace Slick? Quer dizer, pode-se ir à wikipedia e descobrir aí que a banda teve uma paleta infindável de vocalistas durante a meia dúzia de anos em que esteve activa. Agora, quem é que não sabe que qualquer dos seus dois maiores sucessos - Somebody to Love e White Rabbit (ambos já com mais de 50 anos) -, aqueles que os catapultaram para o sucesso de serem hoje recordados, se deviam, e em mais do que no sentido interpretativo, a Grace Slick?

E qual é o drama dos tempos modernos? É que, quando os velhinhos do asilo lá de cima aprenderam esses pormenores irrelevantes, eles apareciam publicados nas revistas da especialidade. Hoje essa especialização dilui-se, e o «autor» da notícia do óbito não percebe nada sobre o tópico sobre o qual escreveu: limitou-se a traduzir a notícia. Nem vale a pena confrontá-lo com o que escreveu - ele não tem opinião, nem se garante até que saiba quem foram os Jefferson Airplane. A fotografia abaixo é de Jim Marshall.

OS (MAUS) IMITADORES DE DE GAULLE

Se, como se viu ontem, em 1958 o general de Gaulle havia mostrado em França que se podia utilizar o instrumento do referendo para contornar as resistências da classe política e apelar directamente à expressão da vontade popular, outros militares houve que, do exemplo, apenas retiraram as lições de como se procederia formalmente para conferir uma aparência de legalidade sufragada aos regimes de força. Dez anos depois, quase contados dia a dia, a 29 de Setembro de 1968, a Junta Militar dos coronéis, que tomara o poder na Grécia, organizou também um referendo à «sua» constituição. A atender aos resultados do escrutínio, apurados no dia seguinte, os coronéis haviam arrebatado os gregos: 94,9% dos votos haviam sido favoráveis à nova constituição! Pormenor não despiciendo: os doze primeiros artigos (aqueles que tradicionalmente abordam os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos) ficariam, para já, suspensos por tempo indeterminado... Ao mesmo tempo que anunciava esse pequeno senão, o primeiro ministro (e a cara mais visível da junta), o coronel Georgios Papadopoulos (1919-1999), procurava compensá-lo com o anúncio que a nova constituição entraria imediatamente em vigor. A ideia que se procurava vender naquela época era que os militares no poder eram muito práticos, não perdiam tempo com detalhes... Uma outra característica da época era que, ao contrário do que hoje acontece, os referendos não metiam medo a ninguém: não havia pudor em forjar o resultado.

28 setembro 2018

OS PRIMÓRDIOS DO «FLASHBACK» E DA «QUADRATURA DO CÍRCULO»

Nas páginas do Diário de Lisboa de 26 e 27 de Setembro de 1988 travava-se uma polémica entre os deputados José Magalhães (comunista) e José Pacheco Pereira (social-democrata). Vivia-se então sob o cavaquismo e sob a maioria esmagadoramente absoluta do PSD, mas algo terá a polémica revelado em relação às personalidades dos dois intervenientes que despertou o interesse dos promotores da (então embrionária) informação-espectáculo - nomeadamente Emídio Rangel e a «sua» TSF. Menos de dois anos depois, podemos ouvi-los aos dois nessa rádio, e com o mesmo Rangel como anfitrião, a contracenarem com o perpetuamente chique Vasco Pulido Valente num programa de comentário político denominado «Flashback». Quis a ironia que os dois sustentassem e robustecem o prestígio do programa, apesar do abandono daquele - Vasco Pulido Valente - que fora claramente o pensado por Rangel para ser a sua estrela. Simultaneamente, José Magalhães respeitabilizara-se, transferindo-se dos comunistas para os socialistas (1990-91) enquanto o Muro se desmoronava. Melhor sob o cavaquismo, pior sob Guterres (Magalhães era muito mais dogmático e canhestro do que Pacheco Pereira a defender o «seu» governo), o programa perpetuou-se ao longo de mais de uma década na TSF. Depois foi ressuscitado em formato televisivo com o nome de «Quadratura do Circulo» na SIC em 2004 onde se mantém catorze anos depois. O único membro original que permanece é José Pacheco Pereira, que acabou por se tornar na estrela que teria sido - mas não foi - Vasco Pulido Valente. Já aqui escrevi no blogue que o comportamento de José Pacheco Pereira no programa me faz lembrar o Garfield - hirsuto, mal disposto, cor de laranja... mas fofinho. A subsistência de José Pacheco Pereira na ribalta mediática nestes últimos 30 anos tem sido uma demonstração continuada de que se pode ter uma carreira política independente dos partidos - desde que não se ambicione desempenhar funções executivas... E uma demonstração também que há muitos por aí com um percurso semelhante a que falta a sinceridade de, nos momentos cruciais (as eleições) assumirem onde votam, e fora deles, confessarem ao que vêm.

OS SESSENTA ANOS DA LEGITIMAÇÃO DEMOCRÁTICA DA QUINTA REPÚBLICA FRANCESA


28 de Setembro de 1958. Através de um referendo que foi realizado não apenas em França mas também na Argélia e nas restantes colónias francesas, os eleitores aprovavam por uma maioria significativa a Constituição da V República Francesa. Mais uma vez, De Gaulle recorreu ao sistema referendário para legitimar democraticamente a sua concepção de uma França que fosse dirigida por um Chefe de Estado forte, assessorado por um primeiro-ministro administrativo.
Foi um modelo concebido por ele e para si próprio que, nestes últimos 60 anos se mostrou funcional, apesar de ser filosoficamente diferente do de todos os seus parceiros europeus, mas que também revelou as suas fragilidades, pela exigência requerida ao desempenho da chefia do Estado, de que um exemplo flagrante foi a infeliz passagem pelo cargo de François Hollande (2012-2017).
Vale a pena ainda, dar uma vista de olhos por alguns jornais da altura, para apreciar como foram noticiados os resultados, o contraste entre o France-Soir acima, que vibrava com os resultados, e o Le Petit Varois (abaixo, jornal de obediência comunista), que o digeria, indigestamente. E todavia, o mapa que o France-Soir exibe destacadamente em primeira página restringe-se à França hexagonal mais a Córsega, esquecendo-se de incluir as Argélias e outros territórios exóticos que a constituição então aprovada pretenderia integrar...
Quanto ao Le Petit Varois, o que o torna interessante é a paixão colocada na redacção dos títulos, a constatação da derrota não é um momento de aceitação do veredito democrático, é oportunidade para a manifestação de uma apaixonada profissão de fé na vitória final. Quem comprava aquele jornal não queria saber notícias, queria confortar a alma. 60 anos depois, aquele encadeado de capas será o que se pode designar modernamente por um verdadeiro momento Observador...

27 setembro 2018

O «FILIBUSTER» PARA IMPEDIR A NOMEAÇÃO DO JUIZ ABE FORTAS

A tradição parlamentar anglo-saxónica usa uma palavra - «filibuster» - para designar a prática, por parte dos membros de uma minoria, em dificultarem por todos os meios os trabalhos regulares da câmara, com o intuito de impedirem a aprovação de legislação a que se oponham veementemente. A expressão correspondente usada pela wikipedia em português é obstrucionismo, mas costumar usar-se a expressão original quando o fenómeno ocorre num parlamento de um país de língua inglesa. Era o que acontecia no Senado norte-americano a 27 de Setembro de 1968, quando os senadores da então minoria republicana iniciaram um procedimento daquele género para dificultar a nomeação do juiz Abe Fortas (1910-1982) para presidir ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos. Abe Fortas fora uma escolha do presidente democrata Lyndon Johnson, de quem havia sido conselheiro próximo. E os senadores republicanos consideravam-no demasiado liberal para ocupar aquele cargo. Como se pode ler na notícia da época, o expediente de ir bloqueando os trabalhos era então uma novidade. Depois terá deixado de ser... novidade. Algumas audições parlamentares para nomeações para altos cargos políticos não foram nada bonitas de se ver. Mas o que é importante no filibuster é a mise-en-scène , não o desfecho: Abe Fortas acabou nomeado, assim como tantos outros depois dele, cuja nomeação foi raivosamente disputada para depois exercerem mandatos esquecidos. Actualmente há uma outra nomeação em curso, de um juiz considerado ultraconservador de nome Brett Kavanaugh (1965- ) e os dados inverteram-se: o proponente é um presidente republicano (Donald Trump) e quem está a fazer trinta por uma linha são os senadores democratas. O que não vale a pena é fazer figura de parvo, como se os golpes ora aplicados pelos democratas fossem alguma novidade.

O EMIRATO ISLÂMICO DO AFEGANISTÃO

27 de Setembro de 1996. Depois de uma Guerra Civil continuada, que apenas se havia parcialmente amenizado com a retirada dos soviéticos em 1989, neste dia de há 22 anos, os talibãs entravam em Cabul, proclamando a transformação do Afeganistão num Emirato Islâmico. Apesar de controlarem já a maior parte do país (as áreas esverdeadas do mapa abaixo), foi só com a conquista da capital que as atenções mediáticas se concentraram nalgumas características menos usuais daquele movimento radical. Alguns dias depois, num artigo enviado da capital recém conquistada, uma correspondente da CNN tentava explicar à audiência mais curiosa daquela estação televisiva quem eram e o que caracterizava os talibãs. A descrição não arrebatava e os americanos que se interessavam por aqueles assuntos, que sempre tinham ficado convencidos que, por causa da dinâmica da política externa dos anos de Reagan, se tinham desforrado no Afeganistão da derrota do Vietname, recolhiam os primeiros indícios que os conflitos da Guerra Fria não eram para avaliar com a simplicidade dos resultados de uma competição desportiva. Cinco anos depois, os Estados Unidos envolveram-se no assunto e mantêm-se por lá há dezassete anos - apesar da promessa da retirada ter sido mais uma daquelas coisas que Trump dizia antes de ser eleito...

26 setembro 2018

MARCELLO (COM DOIS ELES)

26 de Setembro de 1968. Ao fim de dez dias de crise política, o nome da solução era Marcelo, mas escrevia-se com dois eles e nem se imaginava na altura o que fosse uma «selfie»...

A FALSA «MASKIROVKA» ESPACIAL ou O «DISCO VOADOR» QUE NEM OS RUSSOS PRETENDERAM QUE O FOSSE

A Zond-5 foi uma missão espacial soviética de uma semana que, entre 14 e 21 de Septembro de 1968, realizou o primeiro voo circumlunar complementado com o regresso e a amaragem posterior da nave na Terra. Foi um feito pioneiro que, à época, reavivou o entusiasmo com que então se acompanhava a corrida espacial entre norte-americanos e soviéticos e a façanha última de se ser o primeiro a chegar à Lua. Mas a questão que me importa lembrar aqui tem mais a ver com a forma como se noticiava o feito do que com o feito propriamente dito. A edição de 26 de Setembro de 1968 do jornal acima informava os seus leitores que "A forma da «Zond 5» lembra(va) um «disco»". Ora, se os responsáveis do programa espacial soviético se costumam mostrar sempre muito mais «opacos» do que os seus homólogos americanos a respeito das informações que disponibilizavam sobre as suas actividades, pode dizer-se hoje com toda a segurança que o formato da Zond 5 não fora mais um dos inúmeros segredos do programa espacial soviético.
Como exemplo contrastante, pode assegurar-se que, nem sobre tortura, a agência TASS confessaria que o local da amaragem da Zond em pleno Oceano Índico resultara de um plano de contingência, já que a aterragem em território soviético (como estivera previsto e como era, de resto, tradicional em todos os retornos à Terra das naves espaciais soviéticas) se tornara impossível devido a desvios na rota circunlunar que fora originalmente concebida. Nunca se assumiam complicações de navegação porque, naquela corrida, era tabu assumir erros que pudessem ser mascarados. Porém, é seguro que, entre as maskirovkas espaciais dos soviéticos, não se contava transformar a Zond 5 num «disco voador» (por esta vez de concepção humana...). Detecta-se, aliás, neste episódio de há precisamente cinquenta anos uma criatividade verdadeiramente capitalista ocidental, posteriormente desmentida pelas fotografias da assemblagem da Zond 5 (acima) e da sua recuperação em pleno Oceano Índico (abaixo). É muito difícil confundir aquela cápsula com um «disco»...

BOLETIM DE UM DIA COM DUAS HORAS E MEIA DE EMISSÃO TELEVISIVA

Página das trivialidades de um vespertino lisboeta de 26 de Setembro de 1960. Entre as farmácias de serviço e o horário das marés, as programações dos lazeres, teatros e cinemas, rádio e televisão. Se prestarmos mais atenção ao que esta última propunha, lê-se que a programação começava às 20H30 e que encerrava por volta das 23H00. Duas horas e meia de emissão total diária ao serão. Evoluiu-se muito nestes últimos 58 anos.

25 setembro 2018

QUANDO DONALD TRUMP ABANDONA A SUA ZONA DE CONFORTO...

Por uma vez, Donald Trump foi à assembleia geral da ONU proferir um discurso diante de plateia que não estava preventivamente encenada para endossar o que diz e foi o que se viu...

O MEU «AMIGO» QUE «ORGANIZA» O TRÂNSITO NA CÂMARA DE OEIRAS

Não o conheço pessoalmente mas reconheço-o na fotografia acima pela assinatura da obra e pela sensibilidade prática. No meu caso concreto, conseguiu que, para ir de automóvel da porta de minha casa à porta da minha garagem (que, não surpreendentemente, se encontram no mesmo edifício...), eu tenha que percorrer 850 metros de ruas e estradas, incluindo um semáforo. Explique-se que, na origem, a distância era apenas de 40 metros. Depois houve uma organização e colocaram-se uns sinais como os da foto acima, entupindo a lógica por 5 metros que têm de se (não) fazer em sentido proibido...

O GRÃO TURISTA

O Grão-Duque Aleixo Alexandrovich Romanov (1850-1908) foi o quarto filho do czar Alexandre II da Rússia. Desde tenra idade que o destinaram à carreira naval e, por causa disso, também ao papel colateral de embaixador e representante do monarca (primeiro o pai, depois o irmão, e depois ainda o sobrinho) quando das viagens navais que percorreu à volta do Mundo. Em 1868, ainda com 18 anos, o jovem Grão-Duque cumpriu mais uma dessas viagens de instrução e diplomáticas, que o levou a embarcar em Poti (porto do Mar Negro) na moderna fragata Alexander Nevsky, para depois escalar Constantinopla, Atenas e, já em pleno Atlântico, o arquipélago português dos Açores.
Foi na viagem de regresso do Grão-Duque e da fragata a São Petersburgo que se registou o desastre de que hoje comemoro a efeméride: a 25 de Setembro de 1868, cumprem-se hoje precisamente 150 anos, e quando se preparava para entrar no Mar Báltico, a fragata acabou por encalhar num baixio, à vista de terra, por causa de um clamoroso erro de navegação. Os habitantes da vila piscatória dinamarquesa próxima apressaram-se a acorrer, as vítimas mortais do naufrágio foram mínimas (5 marinheiros), mas as consequências para a reputação da marinha russa foram desastrosas. A bordo, e para além do capitão do navio, seguia o almirante responsável pela formação naval do Grão Duque...
Na verdade, a reputação histórica do Grão-Duque Aleixo consolidou-se foi como turista e não como marinheiro. Três anos depois do incidente, uma outra viagem levou-o aos Estados Unidos e foi no Faroeste, bem longe do mar, que deixou memória por causa de uma furiosa caçada aos búfalos em que participou (acima). Outro momento memorável da sua visita aos Estados Unidos terá sido a sua passagem por Nova Orleães. O carácter galanteador e bizarro deste Grão-Turista terá deixado uma marca indelével nos locais por onde passou. Tanto assim que, cem anos depois, Goscinny e Morris o tornaram o protagonista caricaturado de uma das melhores aventuras de Lucky Luke.

24 setembro 2018

COMO UM VELHO DISCO DE VINIL RISCADO...

Há quatro anos, João César das Neves era taxativo: «Subir o salário mínimo teria consequências dramáticas sobre os pobres». O impacto da sua subida já fora «estudado por vários economistas e podia ter consequências negativas». Criminoso, enfatizava até o conhecido economista nas suas declarações, enquanto que, pelo seu lado, a Comissão Europeia, já dois anos depois (2016), se mostrava mais comedida (embora obviamente mais poderosa), e punha todo o seu peso na não concretização desse aumento (abaixo). Mas ele acabou mesmo por acontecer, para desagrado de João César das Neves e descontentamento de Bruxelas: em finais de Dezembro de 2016, Marcelo promulgava um novo valor para o salário mínimo para o ano seguinte (2017): 557 €. 
E o que é que se podia dizer um ano depois, em Janeiro deste ano? Como se pode ler no artigo acima, concluía-se que, ao contrário do que havia sido «estudado pelos vários economistas» que João César das Neves conhecia», o salário mínimo aumentara, mas a taxa de desemprego diminuíra. A explicação é rebuscada, o significado de monopsónio ainda mais, mas o resultado concreto traduziu-se num banho de realidade que desmentia a doutrina. Em Maio passado, a comissão europeia dava o braço a torcer, contrariada. E qual foi o impacto de tudo isso na opinião de João César das Neves? Nenhum. Este Domingo tornou a dar uma entrevista onde mantém que subir o salário mínimo vai ser mau para os pobres, precisamente tal qual o fizera há quatro anos. Como opinião, não tem mal nenhum. Mas do ponto de vista científico e académico, é a constatação da mediocridade.
E porque é que há órgãos de comunicação que insistem em promover estes medíocres?...

QUANDO AS PARADAS CORREM MAL...

Há qualquer coisa nas imagens da parada militar recentemente atacada no Irão que mas faz associar às cenas de uma outra parada militar acidentada, realizada também no Médio Oriente, no Egipto em 6 de Outubro de 1981 e que culminou com o assassinato de Anwar Sadat (fotografia abaixo, a preto e branco). Porém, na parada do Cairo de há 37 anos, o que se subverteu não foi a demonstração do poder militar. O ataque incidiu sobre as personalidades do palanque, a imagem forte é a das cadeiras derrubadas por aquelas quando da sua fuga, e o que se retém é a ideia da insubmissão de uma facção militar radical ao poder institucional. Mas no caso recente das imagens de Ahvaz, aquilo que ocorreu no palanque é secundário, a força da imagem advém dos soldados estendidos no chão, e é a própria demonstração do poder militar iraniano que se pretendia reforçar com aquela parada que se vê lesada - soldados armados mas sem munições e por isso impotentes para reagir aos atacantes.

23 setembro 2018

O TERRITÓRIO DE MORESNET

23 de Setembro de 1818. As autoridades dos reinos dos Países Baixos e da Prússia procedem à delimitação precisa do pequeníssimo território de Moresnet. Tratava-se do corolário e do subproduto bizarro do gigantesco processo do retraçar das fronteiras da Europa que tivera lugar no Congresso de Viena em 1815, após o fim das Guerra Napoleónicas. Por toda a Europa, as fronteiras que haviam sido redesenhadas continuamente durante vinte anos, à mercê do sucesso das armas napoleónicas, mas a partir de 1815 iriam receber uma configuração que, em grande medida, se iria perpetuar por um século, até 1918. Apesar da pequenez de Moresnet, com uma área total de 3,5 km², aquele pequeno território de formato vagamente triangular a 8 Km a Sudoeste de Aachen (assinalado a vermelho no mapa acima), havia despertado o interesse dos dois países por causa da mina de zinco que ali se localizava. As pretensões sobre a mina haviam levado a que se tivesse de encontrar uma solução criativa, neutralizando o território. Ele seria administrado conjuntamente pelos dois países, embora não pertencendo a nenhum. Há precisamente duzentos anos, a comissão conjunta dos dois países terminava os seus trabalhos de delimitação do polígono, configuração que ficava assegurada pela afixação de 60 marcos no terreno.
Nem de propósito, e para tornar mais complexa um traçado de fronteiras heterodoxo, uma dúzia de anos depois, as províncias do Sul do reino dos Países Baixos tornaram-se independentes sob o nome de Bélgica (1830). O traçado de fronteiras entre os dois novos países (Bélgica e Países Baixos) fazia com que a Bélgica passasse a ser o país adjacente ao território de Moresnet e que assim a relação de administração conjunta que existia com a Prússia fosse transferida dos Países Baixos para a Bélgica. Mesmo assim, o vértice norte do território, passava a constituir o local onde se concentrava a nova fronteira entre os três países (a Alemanha, que sucedeu à Prússia em 1871, a Bélgica e os Países Baixos, foto acima e mapa abaixo). Por causa da mina e sobretudo à conta dela, a economia do território prosperou ao longo de quase todo o século XIX: a população daqueles 344 hectares, que era apenas de 256 pessoas em 1815, dobrara para 500 em 1830, quintuplicara para 2.570 em 1858 e era de 4.670 em 1914, no ano em que começou a Primeira Guerra Mundial. Destes últimos, apenas 484 (ou seja 10% do total) é que descendiam daquela que fora a população original do território.
Contudo, desde 1885, que aquela que fora a mais importante mina de zinco da Europa se esgotara. E a sustentação económica do território tivera que ser repensada. Houve algumas tentativas nesse sentido, nomeadamente a abertura de um casino que as autoridades alemãs bloquearam. A proposta mais interessante foi a do aproveitamento do território (bandeira abaixo) para que ele se tornasse o primeiro estado do Mundo que tivesse o esperanto como sua língua oficial (o esperanto é um idioma artificial aparecido nos finais do século XIX cujo criador e promotores esperavam que se tornasse na língua franca). A ideia não teve grande prosseguimento. Menos visionários e mais pragmáticos, os alemães aproveitaram a invasão da Bélgica em 1914 para anexaram formalmente o território de Moresnet no ano seguinte. E na revanche, os belgas receberam-no conjuntamente com os cantões do Leste, como compensações territoriais no quadro do Tratado de Versalhes (1919). Actualmente, as terras do antigo território - já só resta uma sobrevivente centenária do período em que ele existiu - fazem parte da região belga de língua alemã. E assinale-se que a página em português da wikipedia sobre o assunto vale a visita.

22 setembro 2018

«...ELEIÇÕES TÃO LIVRES COMO NA LIVRE INGLATERRA.»

22 de Setembro de 1945. A nova lei para o próximo acto eleitoral restabelecia as eleições por círculos mas excluía a representação proporcional das minorias. Com esse expediente técnico, a lista que recebesse mais votos elegeria todos os deputados do círculo e, na prática, obrigaria as listas da oposição a terem que vencer num qualquer círculo eleitoral, caso quisessem alcançar representação entre os 120 membros que comporiam a próxima Assembleia Nacional. Mais do que difícil e atendendo às circunstâncias, era um feito impossível, dado que a União Nacional, a organização governamental, contava em todo o país com o suporte do aparelho do Estado e a oposição não. Era impossível, mas também era o desejável, já que ideia do regime era a de realizar eleições legislativas satisfazendo a pressão das democracias anglo-saxónicas, mas impedir que, depois delas, a oposição se pudesse continuar a manifestar através de uma representação, ainda que diminuta, nos trabalhos parlamentares. Daí a menos de dois meses, Salazar dará uma alargada entrevista institucional a António Ferro, onde considerará, numa expressão depois tornada famosa, que as eleições que se iriam realizar seriam «tão livres como na livre Inglaterra». Hipocrisias à parte, vale a pena acrescentar que o método expediente eleitoral vigorou até às últimas eleições do Estado Novo em 1973, impedindo que a oposição alguma vez conseguisse representação parlamentar, mesmo quando compareceu nas urnas, como foi o caso das eleições de 1969, caso em que, não existisse aquela cláusula, a oposição teria tido uma pequena representação de 4 lugares (3 da CDE e 1 da CEUD). Ironicamente, foi nessa legislatura (1969-73)que os trabalhos parlamentares ganharam novo interesse, não por causa dos deputados da oposição mas por causa de um conjunto de eleitos nas listas governamentais que se mostraram dissonantes com o regime: a ala liberal.

QUE NEM VASOS DE FLORES...

Confesso que, quando me encontro diante de bibliotecas alheias, dedico quase tanta atenção aos livros que as compõem, quanto à usura das lombadas das obras - nem todas! - expostas. Descobri que era tão instrutiva a composição quanto a utilização de uma biblioteca. Copiei a fotografia da esquerda de um facebook de alguém que arrogantemente a usou como ilustração de uma entrada a que deu o título «A arrumar o Marcelo numa prateleira». O pretexto próximo terá sido a traição que Marcelo terá cometido a uma certa facção da direita política que encanitou que a salvação do regime passava pela manutenção de Joana Marques Vidal como procuradora. Os livros arrumados e acima exibidos serão portanto do próprio traído, mas o que me chamou a atenção foi o aspecto de quase flor de cunho das lombadas dos dois exemplares de «A Revolução e o Nascimento do PPD» (2000). Pelo menos, a comparar com os exemplares cá de casa (acima, do lado direito), onde se notam os vincos das leituras e sucessivas consultas destes últimos dezoito anos. Uma utilização normal para uma obra em que Marcelo Rebelo de Sousa contava as suas experiências e que ainda hoje permanece uma referência de consulta para aquele período histórico revolucionário (1974-75) em que o PSD ainda se chamava PPD. (Nem de propósito, o enfâse dado à antiga sigla do partido realçava colateralmente que Pedro Santana Lopes, que era o rival de Marcelo na altura e que passava o tempo a encher a boca com a denominação PPD/PSD, nunca militara no partido quando ele se denominava PPD...) Refira-se aliás, quanto obras como a de Marcelo são importantes, quanto o período dos primeiros dez anos de vida do PSD, até à ascensão de Cavaco Silva, permanecem - propositadamente? - nebulosos ainda nos dias que correm. Ainda esta semana precisei de auxílio recapitulativo sobre esse mesmo período, quando apareceu um artigo no Observador que se socorria da história do PSD e que, conforme desconfiava, a respeito dos acontecimentos dessa década inicial do PSD, continha a sua basta quantidade de asneiras... Mas, para voltarmos aos livros e aos proprietários que conseguem preservar as suas lombadas da forma mais imaculada, feito que só se consegue estimando particularmente os livros ou nem sequer os lendo, importa confessar que o aspecto daqueles livros só me surpreendeu pela circunstância de o seu proprietário ter construído uma reputação nas redes sociais dedicando-se à traulitada política... E eu julgava que as condições propedêuticas de acesso a tal actividade, haviam sido, no caso em apreço e dada a pose, mais exigentes. Só que isto de ver os livros expostos para enfeitar e sem uso, quais vasos de flores, é indício que, diz-me a experiência, nunca me enganou: uma biblioteca que exibe livros com lombadas tão imaculadas quanto aquelas é porque o proprietário a tem para a exibir.

21 setembro 2018

POR INDECENTE E MÁ FIGURA...

Se o Observador e os seus concorrentes ((1),(2),(3),(4),(5)) querem dar tanto enfâse à desfiliação do ex-ministro Martins da Cruz do PSD e aos termos que usa na carta em que anuncia essa desfiliação, nunca perdendo de vista o emprego da expressão «pacóvios», então também teria vindo a propósito relembrarem-nos em que circunstâncias há quinze anos ele passou de ministro a ex-ministro (dos Negócios Estrangeiros), demitido do governo à força, chutado borda fora por indecente e má figura. Mesmo depois de Pedro Lynce de Faria, seu colega de governo e de escândalo, se ter demitido, a atitude de Martins da Cruz era a de assobiar para o lado, pretendendo que o que causara o escândalo - a concessão de um favor ilegal à sua filha na admissão à faculdade - nada tivera a ver com ele próprio. Como o Correio da Manhã de então destacava, horas antes de se demitir ainda Martins da Cruz «divulgava um comunicado garantindo que não se demitia». Desconheço quantos dos jornalistas que assinam a notícia de hoje já o eram há quinze anos, mas a falta de vergonha não se esquece por esses quinze anos se terem passado, nem se esbate com tiradas de pretensa superioridade que soam agora como um coro afinado em todos os artigos que assinalam a desfiliação de Martins da Cruz. Quanto à ética, porque é que não me surpreende que o proponente da filiação de Martins da Cruz em 2007 houvesse sido Luís Filipe Menezes?... Desdenha quem pode, não desdenha quem quer.

A UM MINUTO DA «LEGALIDADE»

A TRADUTORA DE IMPÉRIOS AO SOL

Já havia perdido a esperança que qualquer um destes livros que trata do período colonial de África seja razoavelmente equilibrado (e, convém deixar desde já assente, não foi este Impérios ao Sol que a ressuscitou). Os autores ingleses escrevem quase só sobre a África colonial britânica e os franceses, por sua vez, fazem-no sobre a África francófona. O que não é surpreendente, não se pusesse o caso de depois escolherem títulos falsamente abrangentes para os seus livros como A Corrida para África ou História da Descolonização (ou este Impérios ao Sol). Quem comprar um destes livros e se puser à procura do que se passou nos países do lado (nomeadamente as antigas colónias portuguesas) descobre que os autores pouco referem, quase nada, sobre esses assuntos periféricos, seja a história das antigas colónias alemãs, a forma como se processou a descolonização belga ou a espanhola e, sobretudo importante para nós, a maneira como eles analisam o processo colonial português. Não analisam, não se econtra lá praticamente nada disso - e vale a pena recordar que o conjunto das colónias portuguesas em África somavam mais de 2 milhões de Km² e concentravam 11% da população africana. Lawrence James, o autor do livro acima e que eu já conhecia pela autoria de Raj - A construção e desconstrução da Índia Britânica, não é excepção ao padrão acima descrito. Por ele, a história da penetração europeia em África só começa em meados do século XIX (mais precisamente 1830), descartando de uma penada tudo o que portugueses e holandeses (os africânderes do Cabo) já haviam feito nos século precedentes. Não é apenas nem sobretudo a distorção que esta abordagem ao assunto causa; é a preguiça intelectual subjacente ao gesto de selecionar apenas uns impérios em detrimento de outros. Se os ingleses só se começaram a interessar seriamente por África nessa altura, então é por aí que começa o livro. Nessa época, e isso não é um pormenor de somenos, a questão da escravatura perdera para o Reino Unido o seu carácter economicamente controverso: com a independência dos Estados Unidos e com as suas possessões antilhanas superpovoadas de mão de obra de origem africana, o tráfico de escravos podia ser agora encarado apenas na sua vertente moral. Concebido para ser um livro que agrade ao público anglo-saxónico e por isso centrado na história das possessões britânicas, o arremedo de cosmopolitismo consiste em complementá-la com referências ao rivais franceses. Mas um título mais justo para este livro seria, à semelhança daquele que Lawrence James escreveu sobre a Índia Britânica*, apenas o de História da África Colonial Britânica (e um bocadinho da francesa). Mas a grande surpresa agradável do livro, a que justifica que eu preste este destaque, é a contribuição da tradutora, Susana Sousa e Silva. Ela acrescenta valor ao livro, quando explica em notas de rodapé quem é Golliwog (p.200), o que é uma mince pie (p.214) ou o que significa a sigla MBE (p.268). Um tradutor tem aquela tarefa inglória que é a mesma de um árbitro num jogo de futebol: o melhor elogio que se lhe pode fazer no fim é o confessar nem se ter dado por ele. Confesso que foi preciso ter estado atento para destrinçar entre as notas que eram do autor e as notas que eram da tradutora mas eu, que já aqui destrocei trabalhos medíocres de tradução, acho que vale a pena atribuir o mesmo empenho aos elogios quando de um trabalho assaz bem feito.
 
* Livro onde a omissão a qualquer referência às pequenas possessões portuguesas e francesas no subcontinente era, pelo contrário, perfeitamente compreensível, dada a sua irrelevância para a história do conjunto.

20 setembro 2018

O ATAQUE DOS HUSSARDOS A NAZARÉ

«Cerca das 05H30 da manhã de 20 de Setembro de 1918, os Hussardos de Gloucestershire, a guarda avançada da 13ª brigada da 5ª divisão de Cavalaria cavalgou os quilómetros finais da estrada de El Afule e reagrupou-se na crista dos montes que rodeavam Nazaré.
Cidade modernizada, com 15.000 habitantes, Nazaré localiza-se no fundo de um vale fértil de forma circular pontificado por olivais e searas. Os montes à volta erguem-se de forma tão abrupta que, à distância, as açoteias das casas parecem, em alguns locais, serem degraus de escadas. Fora Nazaré que o general Otto Liman von Sanders, o alemão que comandava os exércitos turcos na Palestina, escolhera para instalar o seu Quartel General.
À medida que o Sol subia nos céus aquecendo o dia, os hussardos a cavalo trotaram aceleradamente para o centro da cidade, onde acabaram por chegar às 06H30, à procura de von Sanders, com a esperança de o capturar. O inimigo, ainda adormecido, nem os suspeitava ali, e foi completamente apanhado de surpresa.
Os cavaleiros tinham permanecido em sela, durante as últimas 24 horas, descontando os períodos de repouso e dar de beber aos animais. Mas a oportunidade que se lhes apresentava era suficientemente boa para lhes mobilizar as últimas forças.
Apesar da vantagem da surpresa, o combate de rua que se iria desenrolar não costuma ser vantajoso para as tropas montadas. Mas os homens de Gloucester estavam equipados com espadas para além das versões curtas de cavalaria da espingarda Lee-Enfield, arma de outras épocas mas que, tanto eles quanto a cavalaria australiana, haviam copiado dos lanceiros indianos quando os viram a usá-las.
Os serventes das metralhadoras dispostas nas varandas e açoteias começaram a abrir fogo enquanto os soldados turcos e alemães oriundos, na sua grande maioria, das unidades de retaguarda e de serviços, acordavam com os tiros e ripostavam com o armamento que tinham à mão a partir das janelas. O combate rapidamente se tornou uma confusão, sem uma frente definida.
Soldados que estavam aboletados no Mosteiro Latino (5) rapidamente se começaram a render e por toda a cidade os assaltantes iam reunindo os prisioneiros, muitos deles ainda de pijama.
Mais acima, a rua principal de Nazaré estava engarrafada com uma coluna de camiões alemães (2) cujos condutores queriam desesperadamente inverter a marcha para fugirem pelo saída do Norte, que os britânicos ainda não haviam selado.
Os homens de Gloucester esquadrinhavam a cidade à procura de von Sanders, mas sem se aperceberem que Casa Nuovo (1), um antigo hospício, era o seu Quartel General. Mal o ataque começara, o general Sanders, apesar de estar ainda em pijama, fugira no seu carro rua acima, passando pela mesquita (3), para apanhar a estrada de montanha que o conduzisse para Tiberíades (4).
Cerca das 08H30, outras unidades da 13ª brigada juntaram-se aos hussardos. Mas o cansaço e a falta de efectivos fez com que os atacantes não dispusessem dos meios necessários para controlar a cidade e guardar simultaneamente os 1.500 prisioneiros que fizera. A meio da manhã, retiraram, levando os prisioneiros consigo.
Haviam apreendido variadíssimos documentos importantes mas havia-lhes escapado a importância de Casa Nuovo. Documentação muito mais importante veio posteriormente a ser recuperada e queimada pelos turcos.
A acção custara 13 baixas aos Hussardos de Gloucestershire e 28 cavalos haviam sido abatidos. Uma outra unidade da brigada reocupou a cidade, dessa vez permanentemente, no dia seguinte.»
 
O número quase insignificante de baixas britânicas (13), ainda para mais incorridas num Teatro de Operações periférico (a Frente da Palestina), mostra-nos a pequeníssima importância que terá tido esta acção no contexto global da Primeira Guerra Mundial. A importância em a publicitar deve-se ao facto de ter tido por protagonista uma unidade de cavalaria. Em Setembro de 1918, a Primeira Guerra Mundial já contava quatro anos, mas as características da guerra de trincheiras haviam feito que a arma de cavalaria tivesse praticamente desaparecido dos relatos de guerra. Como forma de compensação, e porque o comandante britânico, o general Edmund Allenby, era um cavaleiro, qualquer acção em que a utilidade da cavalaria pudesse ser invocada (neste caso era a superior mobilidade das tropas montadas que haviam permitido surpreender o inimigo), era saudada com a exuberância desmesurada que a descrição acima mostra. Na verdade, a cavalo e antes da motorização, o ritmo da guerra processava-se ainda a um ritmo que hoje nos faria sorrir: o general von Sanders fugiu para uma povoação que ficava a uns meros 30 km de Nazaré. E considerava-se em segurança aí...

VOO 950 PARA HAVANA

20 de Setembro de 1968. Um Boeing 720 da Eastern Airlines (como o da fotografia acima), que fazia a ligação entre San Juan de Porto Rico e Miami nos Estados Unidos, levando 53 pessoas a bordo, é desviado por um dos passageiros para Havana em Cuba. Se observarmos o mapa das Caraíbas e o trajecto do voo (a azul) constatar-se-á como o pirata do ar foi consciencioso, escolhendo uma ligação cujo desvio (a vermelho) provocasse o menor incómodo aos seus companheiros de viagem. A prática de desviar um avião para ir para Cuba parecia estar a banalizar-se. Depois de apenas três episódios em 1967, o desvio do voo 950 da Eastern Airlines já era o 13º desvio do género que ocorria em 1968, contando apenas aqueles em que o destino escolhido pelos sequestradores fora a capital cubana. Se já se percebera qual era a tendência da moda para a temporada daquele Outono/Inverno, ainda não se sabia que, até ao final daquele ano de 1968, registar-se-á um total de 24 desvios para Cuba, a uma média de dois por mês, e que, no ano seguinte (1969), essa média mensal subirá ainda para os três desvios (34 no total). Se as jovens gerações posteriores passaram a sublimar a sua busca pelo prazer da adrenalina em práticas como a do «bungee jumping», a geração jovem de há cinquenta anos misturava a coisa com uma capa diáfana de militância política. Não era difícil viajar para Cuba mas desviar um avião comercial para o fazer era toda uma outra emoção, uma afirmação política para uma audiência de milhões. Numa época em que também se tornara moda inventar slogans turísticos irónicos - Visite a União Soviética antes que a União Soviética o venha visitar a si!, em homenagem à invasão da Checoslováquia que acabara de ter lugar - esta outra prática de sequestrar aviões para chegar a um destino que era perfeitamente acessível também era passível do seu slogan irónico: «Conheça Cuba de uma forma radical: desvie o seu avião para lá chegar!»

19 setembro 2018

«... À LAGARDÈRE»


Tomo conhecimento pelo Le Monde da morte aos 93 anos, do actor francês Jean Piat. Para mim, Jean Piat foi, em Dezembro de 1971, o Lagardère, folhetim televisivo protagonizado por ele no papel de um espadachim destemido que se desenrascava sempre das situações mais complicadas, por muitos e muito ferozes que fossem os adversários. Terá sido o responsável pela subida da cotação das espadas como prenda para aquele Natal de 1971. A mais longo prazo, terá sido também Jean Piat e o estilo da personagem que interpretava os responsáveis pela importação da expressão para a língua portuguesa: «...à Lagardère». Quase cinquenta anos depois, a expressão mantém-se, mas a sua origem e significado precisam, de quando em vez, de ser explicados nas Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Mas é preciso assumir uma certa veterania para se ter estado , quando a série passou originalmente no ecrã, quando o Lagardère original entrava pela cena dentro (à Lagardère...) e, melhor que qualquer D'Artagnan rival, derrotava uma meia dúzia de adversários com a sua famosa estocada mortal na testa...

ELE HÁ PEQUENAS EFEMERIDES QUE TAMBÉM CONVÉM NÃO DEIXAR CAIR NO ESQUECIMENTO

«No 19º dia de Setembro de 1984, o antigo presidente dos Estados Unidos Gerald R. Ford ficou temporariamente preso neste elevador». É por causa de pequenos incidentes assim que há elevadores que se tornam históricos e outros não.

18 setembro 2018

A ADMISSÃO DAS DUAS ALEMANHAS NA ONU

18 de Setembro de 1973. Foi já há 45 anos que os dois estados alemães vieram a ser admitidos simultaneamente na Organização das Nações Unidas. Passaram-se já 45 anos mas convém acrescentar que as duas Alemanhas tiveram que esperar 28 anos pela sua entrada na ONU. O problema não era apenas nem sobretudo o de se tratar de um dos países vencidos da Segunda Guerra Mundial: refira-se que o Japão se encontrava precisamente nessa mesma situação, mas já fora admitido 17 anos antes. A questão primordial que atrasara a admissão das duas Alemanhas era a da divisão do país. Aliás, o mesmo problema impedia ainda naquela altura a admissão das duas Coreias e dos dois Vietnames. Mas, por fim, os dois blocos da Guerra Fria haviam chegado a um acordo que possibilitara a admissão simultânea pelo menos das duas Alemanhas, a de Leste e a de Oeste, conjuntamente e em contraste com a das Bahamas, um pequeno país de 180.000 habitantes que acabara de receber a independência do Reino Unido há apenas dois meses. As fotografias assinalam a cerimónia simbólica do içar das bandeiras dos três novos estados membros em Nova Iorque. Há uma carregada ironia no facto do secretário-geral da ONU de então ser o austríaco Kurt Waldheim, que acima vemos a discursar. Ironia pelo facto de posteriormente se ter vindo a descobrir que Waldheim tinha um passado militar controverso na Wehrmacht quando ele também havia sido alemão (1938-1945), por força da anexação forçada da Áustria à Alemanha.

17 setembro 2018

OS BOMBARDEAMENTOS QUE É MELHOR ESQUECER

Ainda 16 e 17 de Setembro de 1943. Um tema delicado que é recorrentemente esquecido quando das evocações da Segunda Guerra Mundial é o dos bombardeamentos aliados a cidades francesas. Por uma vez, e esquecendo o seu efeito como propaganda, as notícias do dia seguinte que acima se lêem, são extremamente comedidas quanto aos seus efeitos. O maior ataque dos registados naquele dia, que teve lugar sobre a cidade de Nantes pelas 16H05 da tarde, envolvendo um total de 147 B-17 norte-americanos, que largaram 1.450 bombas sobre a cidade, havia causado muitas centenas de mortos, muitos mais do que os 250 até ali reconhecidos. Milhares haviam sido feridos e ainda mais milhares haviam ficado desalojados. Por seu lado, o comunicado de Londres é cruelmente sóbrio na avaliação das consequências. Quando às deambulações de Pétain, a manifestar a sua simpatia às populações afectadas, só podem ser entendidos como uma manifestação da sua completa impotência.

OS MOTINS DE QUE NUNCA NINGUÉM FALA

16 e 17 de Setembro de 1943. Há assuntos em que todos os exércitos do mundo compartilham a mesma compulsão para os abafar. Os motins são um deles. Soldados que subvertem a ordem estabelecida é algo de que a hierarquia militar dispensa. Os motins são abafados quando eclodem e são abafados dos registos. Normalmente estes últimos, indispensáveis para as sanções, desaparecem depois dos arquivos. Mas é por isso mesmo que vale a pena destacar a coincidência temporal destes dois, ocorridos há precisamente 75 anos, um de cada lado da Segunda Guerra Mundial que então se travava. O primeiro caso envolveu um grupo de 300 veteranos da 50ª e 51ª divisões britânicas (VIII Exército), que haviam sido originalmente transportados do norte de África para se reunirem com as suas unidades então colocadas na Sicília, quando foram realocados inesperadamente (e em trânsito) como reforços das muito menos prestigiadas 46ª e 56ª divisões (V Exército), que estavam então engajadas em combate em Salerno, na própria península italiana. O livro acima, publicado em 2005, defende a sua causa: alguém os havia aldrabado, o que não invalidou que os cerca de 200 amotinados viessem a ser julgados em tribunal militar e condenados. Ao mesmo tempo e a algumas centenas de quilómetros dali, na 13ª divisão SS (Cimitarra), estacionada em Aveyron na França, desencadeou-se um outro motim. Aqui, as razões eram outras. Apesar de pertencente às SS, a unidade era composta de uma esmagadora maioria de muçulmanos bósnios, embora os oficiais fossem todos de origem germânica. Obviamente, a adesão à causa alemã era, por isso, algo hesitante. A recente rendição de Itália tornara a situação militar na Jugoslávia assaz periclitante, obrigando o dispositivo militar germânico a ter que se desdobrar para suprir o desaparecimento das unidades italianas que com eles ocupavam a Jugoslávia. As guerrilhas nacionalistas e comunistas aproveitaram esse momento de fraqueza e entre os soldados bósnios houve quem pensasse que a sua unidade pudesse desempenhar um papel autónomo do preconizado pelos alemães. O motim assinalou-se pelo assassinato de cinco oficiais alemães. Os números diferem substancialmente quanto ao número de amotinados mortos e sancionados pela repressão alemã - de 14 a 141 mortos. Várias centenas foram expulsos das fileiras e mandados para organizações de trabalho forçado ou para campos de concentração. Estas são as pequenas histórias da Segunda Guerra Mundial que não se costumam contar.

O TERRORISMO «SIMPÁTICO»


17 de Setembro de 1948. Um grupo terrorista radical sionista assassinava o enviado especial da ONU para a resolução do problema israelo-árabe, quando este se encontrava numa visita de trabalho à Palestina, para propor uma solução que acomodasse a hostilidade árabe e a recente proclamação do estado de Israel. Folke Bernadotte (1895-1948) era um diplomata sueco pertencente à família real sueca (era neto do rei Óscar II), que já se distinguira por negociações para o resgate de prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial e que casara nos Estados Unidos com uma herdeira de um grande empório industrial local ligado ao amianto. Mas, nem mesmo o facto de Bernadotte ser nobre, de abraçar causas nobres, de ser rico e de, além disso, possuir uma bela figura, induzirá a comunicação social americana (e a mundial, por arrasto) a indignar-se retumbantemente com o seu assassinato, como seria de esperar tivessem sido outros os autores do atentado. Nos Estados Unidos, onde se iriam disputar eleições presidenciais em Novembro próximo, alguém criara a convicção generalizada que o voto judaico seria decisivo para o seu desfecho. A ideia prevalecente era cortejar os judeus, Israel e a causa sionista mesmo que alguns dos seus membros mais radicais cometessem estes actos hediondos.
O teor da notícia acima no New York Times é de destacar, mas pela sua excepcionalidade. Veja-se o contraste com a primeira página do Diário de Lisboa desse mesmo dia, que corresponde muito mais à cobertura noticiosa que o acontecimento recebeu. Nota-se na notícia abaixo a ausência de uma fotografia do assassinado (que seria muito mais pertinente do que a do avião que lá aparece...) e um vocabulário redutor: Bernadotte morreu, não foi assassinado. Quanto ao teor da notícia, nada se diz dos detalhes do atentado (que se podem ler acima, no cabeçalho do NYT, do lado direito: o carro foi emboscado, a autoria foi estabelecida). Quanto ao corpo da notícia, ela não passa uma reflexão vaga e (propositadamente?) genérica sobre as implicações da sua morte para a paz mundial... Neste clima, não surpreenderá saber que as investigações das autoridades israelitas para a captura dos responsáveis foram absolutamente negligentes. Tanto que Israel foi condenado em tribunal internacional a pagar à ONU uma indemnização de 54 mil dólares. E excepcionalmente neste caso, foi depois possível avaliar qual o apoio popular que esta organização terrorista gozava junto da população. Nas eleições de Janeiro de 1949, a sua fachada política legal conquistou 1 lugar de deputado entre os 120 com que contava o Knesset... Em nome de quem é que aquela gente adoptava àquela conduta?