31 janeiro 2018

ISTO ERA SÓ O JEAN-LUC GODARD A ARMAR-SE, PORQUE AINDA NÃO TINHAM APARECIDO AS REDES SOCIAIS

Na parede lê-se: É PRECISO CONFRONTAR AS IDEIAS VAGAS COM IMAGENS CLARAS. O filme de Jean-Luc Godard de onde a imagem foi colhida é O Maoista (La Chinoise no original - 1967). Naquela década (e depois disso, os seus saudosistas) disseram-se e escreveram-se imensas coisas das quais a esmagadora maioria, percebe-se agora, não eram para preservar. Uma qualquer ideia que vingue hoje em dia tem que ser necessariamente vaga, para que todo o agente activo numa rede social o possa interpretar à sua maneira - se não fosse assim, e só para citar a última cruzada da moda, não se confundiria assédio sexual com prostituição, por exemplo.

A COLOCAÇÃO DO PRIMEIRO SATÉLITE AMERICANO EM ÓRBITA

31 de Janeiro de 1958. Há sessenta anos os Estados Unidos lançavam o seu primeiro satélite artificial, baptizado de Explorer-1. Na fotografia acima e da esquerda para a direita, William Pickering (1910-2004), James van Allen (1914-2006) e Wernher von Braun (1912-1977). O carácter cosmopolita da pesquisa espacial norte-americana de então é realçado pelo facto de apenas o segundo ter nascido nos Estados Unidos: o primeiro era neo-zelandês e o último era alemão. Mas é precisamente a esse segundo que se deve a descoberta que justificará a exuberância das celebrações acima, com o trio segurando uma réplica do pequeno objecto (pesava apenas 14 kg) que acabara de ser colocado em órbita. A descoberta fora uma cintura de radiações que rodeava a Terra e que foi baptizada com o nome do cientista que instalara o dispositivo para a detectar no Explorer: a Cintura de Van Allen, de cuja descoberta se celebra também hoje o sexagésimo aniversário. O feito científico - que, noutras circunstâncias, teria passado desapercebido - serviu de catalisador efusivo para disfarçar o facto de que os Estados Unidos se haviam atrasado na corrida espacial e que a proeza científica que realmente interessava - a colocação do satélite em órbita - apenas tinha lugar quatro meses depois da União Soviética ter feito o mesmo, para mais com um fiasco de permeio.

A RENDIÇÃO DE FRIEDRICH PAULUS EM ESTALINEGRADO

31 de Janeiro de 1943. Há 75 anos o comandante do VI exército alemão cercado em Estalinegrado rendia-se. Tenho o episódio como a demonstração canónica daquela frase de Ortega y Gasset de que o homem é o homem e a sua circunstância. Toda a batalha de Estalinegrado foi estudada até ao pormenor e as circunstâncias militares não propiciavam que houvesse um desfecho muito diferente para as armas alemãs, mas é ao homem - Friedrich Paulus, e a sua compulsão para obedecer até ao fim - que se deve o facto da derrota se ter revestido de um aspecto tão devastador.

30 janeiro 2018

ANO NOVO, VIDA NOVA

Ainda 2018 não completou o seu primeiro mês e já João César das Neves regressa ao seu tema predilecto, o colapso, a crise, a provável derrocada financeira que era para já se ter realizado e não se realizou mas de que «ainda existe esse risco». O homem é tão insistente que se arrisca a ter razão um dia destes. Não por ser um arguto académico de Economia, um daqueles valores seguros da nossa intelligentsia, mas apenas por ser teimoso: se ele continuar a insistir que vai sair um duque, e porque é sabido que há quatro cartas dessas no baralho, há-de haver finalmente uma vez em que sai um! Mas um dos pormenores verdadeiramente engraçados destas suas mais recentes declarações são as reconstruções retroactivas que o vemos fazer ao passado mais recente, onde se descobre afinal que a recuperação actual é «bastante boa», enquanto a «recuperação verificada nos anos da troika (2010-2014)» foi uma «desgraça».* Proverbial conclusão essa sua, que lhe chegou demasiado depois dos factos, já que quando se viviam aqueles anos, só ocorreu a João César das Neves colocar questões - As 10 Questões da Recuperação (um livro publicado em 2013). Quem sou para lhe sugerir títulos para uma próxima publicação sua, mas, no mesmo registo humorístico que as suas previsões passadas induzem, que tal 10 Questões porque não tenho dado uma para a caixa? (Uma pista: ando a misturar ideologia com ciência).
* Uma desgraça é um eufemismo. Aliás, é a própria palavra recuperação que é o eufemismo: entre 2010 e 2014 o PIB português diminuiu em 6% (dados Pordata). Aliás, em 2016, o valor do PIB ainda se encontrava 4% abaixo do valor máximo que alcançara em 2008.

«ONDE É QUE EU JÁ LI ISTO?...»


O filme O Pátio das Cantigas original tem uma cena onde, Vasco Santana, perdido de bêbado, tem um diálogo (monólogo) com um candeeiro de iluminação pública a quem ele pede lume. Perante a impassibilidade do candeeiro, Vasco Santana encrespa-se e ralha-lhe, em modos e termos que estarão muito para além do que se esperaria da cultura de um canalizador - a sua personagem, Narciso Fino. É ao terminar a sua arenga que surge a punchline do monólogo que é também uma das consagradas do filme: surpreendido com a sua própria erudição, Vasco Santana pergunta-se a si mesmo: Onde é que eu já li isto?... (ao 1:22). Hoje de manhã, não era eu que monologava, mas tive uma branca algo parecida à de Vasco Santana ao ler um dos parágrafos do artigo de opinião de Nuno Garoupa no Diário de Notícias: Onde é que eu já lera aquilo? Aquilo é um parágrafo do artigo em que se procura demarcar Passos do passismo. Passos (Coelho) é o homem político, passismo é "esse movimento orgânico (...) que ocupou o partido, as redes sociais e muita opinião publicada". De Passos exumam-se virtudes - liberal, corajoso e decidido, fair play e elegância - e é um azar dos Távoras que entre os seus seguidores do tal movimento orgânico só se consigam encontrar defeitos - conservador, mesmo reaccionário, fundamentalista e radical, truculento, caceteiro, insultuoso, quando não mesmo boçal. Em que circunstâncias do passado já eu encontrara alguém que fora também uma inspiração para que os seus seguidores tivessem adoptado o reverso dos seus predicados?... Cavaco (Silva) e o cavaquismo. Este era precisamente o mesmo discurso a respeito de Cavaco por volta de 1996, há precisamente 22 anos, quando, encerrado com uma derrota nas presidenciais esse seu primeiro ciclo de ambições, era preciso dar uns retoques ao passado recente, para que o homem tivesse ainda um futuro político: os méritos dos dez anos anteriores pertenciam-lhe, os excessos deviam-se a quem o rodeara, os cavaquistas. Enfim, creio que aos 26 anos - a idade então de Nuno Garoupa - já se devia prestar a estas coisas para depois não as repetir. É engraçado que seja um estrangeirado como Nuno Garoupa, que, como tantos outros estrangeirados desde Eça, até costuma evocar esse estatuto para nos criticar - tantas vezes com razão - por causa de algumas das nossas idiossincrasias colectivas, agora se tenha rendido ele a esta outra idiossincrasia típica de evitar culpabilizar o responsável, diluindo a responsabilidade de um período político da história recente por um colectivo cujos membros, além de receberem com as culpas do líder, não são para ser nomeados: Não se aponta que é feio. Mas tentar dissociar Passos Coelho dos quatro anos e meio em que conduziu o país também o é (feio).

A CRIAÇÃO DA MILÍCIA FRANCESA

30 de Janeiro de 1943. Dois meses e meio antes, o governo de Vichy acabara de sofrer mais uma humilhação, com a ocupação pelos alemães da que fora até aí designada por Zona Livre. O governo cambaleara, mas, à custa de humilhações suplementares, não caíra. E há precisamente 75 anos, o colaboracionismo procurava superar-se criando uma organização paramilitar, a milícia francesa, com o objectivo de combater internamente as expressões de resistência à ordem imposta: tanto as acções armadas quanto aqueles que, requisitados, se recusavam a ir trabalhar para a Alemanha. À frente da nova organização Joseph Darnand (1897-1945), um devoto do marechal Pétain, e uma demonstração de que muitas das personagens da França destes anos de chumbo (que vão de 1940 a 1944) raramente são para analisar a preto e branco, antes gradientes de cinzento. Darnand já então era um herói de guerra, a maioria das condecorações que acima se lhe vêem no peito são por bravura, alcançadas na Primeira mas também na Segunda Guerra Mundial - em combate contra os alemães... São as suas simpatias políticas de sempre pela extrema-direita que o fazem agora prestar-se a ser usado para dar a cara por uma organização destinada a auxiliar os seus antigos inimigos de estimação. A importância da milícia foi muito mais política do que militar - mesmo que os seus efectivos tenham chegado a atingir os 35.000 homens, trata-se de um número ridículo quando comparado com os milhões que evoluíam simultaneamente noutros Teatros de Operações da Segunda Guerra Mundial. E mesmo essa importância política circunscreve-se à França. Mas a conduta da milícia também funciona como um exemplo universal daquilo que pode acontecer aos simpatizantes da direita quando se impregnam em excesso da ideologia, a ponto de perderem de vista a sua matriz nacionalista. Como escreve Pierre Giolitto na contra capa desta sua História da Milícia:
«Pretendia-se que a Milícia francesa fosse uma cavalaria que trouxesse consigo um novo desabrochar em força. Tornou-se numa falange maldita. Mais frequentemente evocada que estudada, acabou por ser considerada como uma espécie de Gestapo francesa ao serviço do inimigo. A Milícia é um testemunho extremo dos estragos que se podem exercer nos homens de acção, patriotas mas de vistas limitadas, a começar por um marechalismo excessivo e pela fobia anti-republicana, depois por um anti-comunismo obsessivo e finalmente pelas prédicas dos ultra-colaboracionistas.» Se Giolitto está hoje disposto a compreender a obtusidade que atacou os "homens de acção", a época que então se vivia não era de molde a mostras de tal tolerância: por muito valorosos que tivessem sido os serviços prestados à França nos campos de batalha, Joseph Darnand foi fuzilado por traição em 10 de Outubro de 1945, cinco meses depois do fim da guerra (na Europa).

29 janeiro 2018

SERÁ QUE SE PODE EVOCAR QUE O IKEA DO RECÉM FALECIDO INGVAR KAMPRAD TAMBÉM É UM GRANDE PRATICANTE DA EVASÃO FISCAL?

O falecimento do fundador do Ikea é pretexto para evocar a sua conhecida personalidade exótica - somítica. Mas, ao fazê-lo, ao menos que os tópicos não pareçam ter saído de um press release que houvesse sido preparado pelo próprio gabinete de relações públicas do Ikea. Tomemos a primeira curiosidade da lista abaixo, publicada pelo jornal do costume. Aparentemente intrusiva, a admissão de que Ingvar Kamprad militara no partido nazi sueco dissipa-se substancialmente fazendo contas: é que em 1942 ele tinha apenas 16 anos. Sabendo disso, nós desculpamo-lo mesmo que ele não tivesse pedido desculpa. Em contraste, teria uma outra idade, bem mais madura, quando, através de um acordo envolvendo o fisco da Holanda, do Luxemburgo e do Liechtenstein, a sua empresa se terá furtado ao pagamento de, pelo menos, mil milhões de euros em impostos. É uma notícia do mês passado, mais actual e mais interessante do que uma qualquer crise de adolescência com mais de 75 anos. E também mais difícil de desculpar. O que é estranho é que o jornalista do Observador não tivesse achado curiosa a esta sexta curiosidade da evasão fiscal...

O PREÂMBULO DA OFENSIVA DO TET

29 de Janeiro de 1968. Naquele dia ainda não se sabia, mas estava-se na véspera da Ofensiva do Tết que os historiadores hoje consideram o acontecimento decisivo para a mudança de atitude da opinião pública norte-americana a respeito da guerra do Vietname. Vale a pena esclarecer que aquela guerra também se travava ao ritmo das efemérides religiosas: na notícia acima pode ler-se um desses interregnos, que havia sido estabelecido em princípios de Dezembro para o Natal de 1965. No caso de há cinquenta anos, a efeméride desse final de Janeiro de 1968 era a celebração do Ano Novo lunar da tradição budista, que era conhecido pelo festival do Tết.
Também naquele ano se estabelecera que as duas partes iriam respeitar a data. O que não veio a acontecer, antes pelo contrário: no dia feriado de 30 de Janeiro, os guerrilheiros do vietcong, previamente infiltrados, romperão unilateralmente as tréguas, desencadeando uma ofensiva urbana simultânea em 35 capitais provinciais (mapa cima), incluindo Saigão, onde um dos alvos militares veio a ser a própria embaixada dos Estados Unidos - não por acaso um dos aspectos cujas imagens televisivas mais virão a impressionar o telespectador americano. As causas para o significativo sucesso da ofensiva foram a sua simultaneidade e o factor surpresa que terá apanhado as tropas norte-americanas e sul-vietnamitas completamente desprevenidas.

Foi assim que os acontecimentos vieram a ser apresentados posteriormente e com essa explicação simplista se consolidaram na História. Porém, a edição do Diário de Lisboa deste dia de há cinquenta anos, contém uma notícia que, por ter sido publicada antes dos acontecimentos, pode muito bem questionar essa narrativa tradicional. Ao noticiar-se numa discreta página 13, quiçá para efeitos de propaganda, que, antes mesmo da ofensiva, já Saigão cancelara as tréguas no Norte do país (o Vietname do Sul), torna-se mais difícil compreender a falta de prevenção dos atacados em antecipar que as intenções do inimigo podiam ser bem mais vastas.

28 janeiro 2018

ADOLFO E ANGELA

Preste-se atenção ao contraste das duas fotografias acima, às reacções distintas como Adolfo Hitler e Angela Merkel reagem aos arianos em uniformes pretos que os rodeiam. Há que reconhecer que por muito esforço que se faça, por muito que as intenções estratégicas alemãs permaneçam essencialmente as mesmas, que só os métodos tenham mudado, as analogias entre a Alemanha de Adolfo Hitler e de Angela Merkel se chocam na imagem pública que é projectada pela segunda . Depois do episódio televisivo com uma refugiada há cerca de uns dois anos (abaixo), para além das críticas mais instantâneas e primárias, a chanceler alemã conseguiu adquirir com ele uma imagem de franqueza e veracidade no seu discurso político, por ter defendido algo em que acredita por muito impopular que o parecesse naquelas circunstâncias. É algo que se tem tornado cada vez mais escasso no panorama político europeu - faça-se o contraste de Angela Merkel com, por exemplo, Theresa May que, a respeito do Brexit e devido às vacilações de discurso e conduta, não se compreende o que diz, porque também não saberá o que quer.

A PATENTE DO TIJOLO DE LEGO

28 de Janeiro de 1958. Há sessenta anos a empresa dinamarquesa Lego depositava a patente dos seus famosos tijolos de acrilonitrila butadieno estireno que se encaixavam (e se desencaixavam...) uns nos outros. Acima, a evolução subtil do logotipo da empresa ao longo desse tempo todo e também a oportunidade para recuperar um texto publicado aqui neste blogue já há mais de nove anos.

27 janeiro 2018

A EXPEDIÇÃO DO CORONEL DUNSTERVILLE

27 de Janeiro de 1918. Depois dos britânicos terem conquistado Bagdade dez meses e meio antes, há cem anos partia dessa cidade uma coluna motorizada comandada pelo coronel Lionel Dunsterville que estava encarregue de, internando-se pela Pérsia (apesar de o actual Irão ter sido neutral durante a Primeira Guerra Mundial), alcançar os campos petrolíferos de Baku, então pertencentes a um Império Russo que colapsara e que agora se encontravam à mercê de serem conquistados por um golpe de mão da Turquia otomana. Composta à origem de 12 oficiais e 41 soldados, a expedição foi recebendo o reforço de 210 homens, vindos do Canadá, da Austrália e da África do Sul, ao mesmo tempo que se deparava com dificuldade crescentes, quer as colocadas pelas condições geográficas como se percebe pela fotografia acima, quer por uma hostilidade tanto oficial, quanto informal, das populações das regiões da Pérsia que a coluna ia atravessando. Tanto assim que, prova de uma guerra que se travava a um ritmo hoje difícil de compreender, a coluna motorizada só veio a chegar a Baku em Agosto de 1918, demorando sete meses a cumprir os cerca de 1.300 km que separam as duas cidades.

26 janeiro 2018

RECORDANDO A ANTIGUIDADE DO «CLICKBAIT»

O exemplo acima é do Expresso de hoje, mas o de baixo tem cinquenta anos. O processo podia não se concretizar, como agora, no recurso a um clique para ir ler a notícia, mas a filosofia que presidia à sua redacção era a mesma: conferir ao título a controvérsia necessária para despertar artificialmente a atenção dos leitores. Valerá a pena explicar àqueles mais ignorantes que os «Beatles» em 1967 eram considerados insuperáveis. Os outros saberão quem eles foram, embora estejam dispensados de conheceram quem terão sido os «Monkees» - uma banda totalmente artificial. Quanto ao relógio do Juízo Final, na verdade isso é uma história ainda mais antiga, já com 70 anos, em que as notícias só são notícias quando os ponteiros se aproximam da meia noite (ou seja: más notícias)... A beleza do jornalismo de encher chouriços é precisamente essa: a de nos querer entreter com algo em que nunca estivemos verdadeiramente interessados. Se agora querem dar ao exercício o nome de «clickbait», pois muito bem.

O CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE NICOLAE CEAUSESCU

26 de Janeiro de 1918. Data do nascimento de Nicolae Ceausescu numa Roménia que estava então completamente ocupada pelos alemães. Se, quando dos seus grandes dias no poder, a data de hoje era assinalada com toda a solenidade (acima, um selo postal emitido em 1988 por ocasião dos seus 70 anos), é pertinente perguntarmo-nos o que o actual governo romeno terá previsto para assinalar o centenário daquele antigo ditador do país... Se calhar, será precisamente o mesmo que (não) terá feito o governo de Cavaco Silva quando do centenário do nascimento de Salazar a 28 de Abril de 1989. Nada. Sobre esse aspecto a consistência da demarcação dos poderes actuais a respeito dessas ditaduras do passado não parece criticável. Pelo contrário, para os comunistas e muitas vezes tratando-se também de uma questão de gratidão (abaixo), há sempre dois pesos e duas medidas, há aqueles ditadores que, com as suas ditaduras reprimiram, prenderam, julgaram e encarceraram, mas fizeram-no melhor do que as outras ditaduras...

...COM TODOS OS DENTES QUE TEM NA BOCA...


26 de Janeiro de 1998.« - ...But I want to say one thing to the American people. I want you to listen to me. I'm going to say this again: I did not have sexual relations with that woman, Miss Lewinsky. I never told anybody to lie, not a single time; never. These allegations are false. And I need to go back to work for the American people. Thank you.» (Mas eu quero dizer uma coisa ao povo americano. Quero que me ouçam. Vou dizê-lo mais uma vez: eu não tive relações sexuais com aquela mulher, Miss Lewinsky. Nunca disse a ninguém para mentir, por uma vez que fosse; nunca. Essas alegações são falsas. E eu preciso de regressar ao trabalho em prol do povo americano. Obrigado.) Há circunstâncias em que não interessa ouvir o que as pessoas tenham para dizer. Elas só podem dizer uma coisa, seja verdade ou não. Se é assim, porque é que, quando as vemos nessas circunstâncias, se perde tempo a prestar-lhes atenção?

25 janeiro 2018

UMA PEQUENA HISTÓRIA DE ESPIONAGEM

Em princípios de Abril de 1942, haviam-se passado apenas cinco meses depois de os Estados Unidos se verem envolvidos directamente na Segunda Guerra Mundial, e já em Washington se discutia entusiasmadamente a reabertura de uma Segunda Frente na Europa Ocidental. Foi a 2 de Abril que Winston Churchill recebeu uma carta de Roosevelt anunciando-lhe a chegada próxima a Londres do seu conselheiro especial Harry Hopkins (acima, ao centro) e do general George Marshall (à direita), para lhe apresentarem um plano para um desembarque em França ainda para aquele ano de 1942. Embora as reuniões, que ocorreram a partir de 8 de Abril no número 10 de Downing Street, tenha sido ocasião para um dos mais interessantes debates estratégicos, quando se enfrentaram duas das cabeças mais lúcidas que aquele conflito revelou (o próprio Marshall de um lado e, a contradizê-lo, o marechal Alan Brooke), a história deste texto não tem a ver directamente com o que ali foi discutido mas antes, com a inesperada intervenção no debate de uma terceira parte: a rádio alemã! Embora tendo viajado sob os pseudónimos de M.A.H. Jones e M.C.G. Mell, tornava-se evidente que os serviços do Abwehr pareciam conhecer perfeitamente não apenas as identidades dos viajantes como também a agenda que os levara a Londres. «Sabemos» - ouvia-se a voz do inimigo nas suas emissões em língua inglesa - «que o bolchevizante Hopkins e o general Marshall estão em Londres para discutir uma invasão da Europa. Apenas podemos repetir-lhes a proposta do Führer: a Alemanha está pronta a evacuar a parte do continente que mais convier aos ingleses, para que eles aí desembarquem em número tão elevado quanto possível...» Tanto como com estas, jocosas, mas sobretudo com as propostas americanas, os britânicos não foram daí abaixo. Hopkins e Marshall foram-se embora a 15 de Abril com um acordo de princípio que se assemelhava a um punhado de areia na mão: quando se apertasse a mão, a areia desapareceria! Desde há 75 anos que já se escreveram bibliotecas a respeito de todos os assuntos possíveis da Segunda Guerra Mundial, mas, sobre a questão da espionagem e do incidente que permitiu que os serviços de informações alemães tivessem ali marcado pontos, nunca encontrei nada onde se tivesse explicado o que terá falhado para que tivesse ocorrido aquela evidente brecha de segurança.

A RÚSSIA ALGUMA VEZ FEZ PARTE DA EUROPA?

Álvaro Cunhal bem pode ter dedicado a sua vida a tentar convencer-nos de que não era assim, mas a verdade é que, diante de fotografias como esta acima, torna-se patente que a Rússia pós leninista se mostra um país ainda imerso numa certa barbárie antropológica que quase 75 anos de socialismo científico nunca conseguiram erradicar. Pelo gesto em si, de Vladimir Putin ir tomar banho em água gelada à noite, pelo patrocínio religioso mais toda aquela parafernália em madeira (que, por exemplo, o nosso Marcelo nos seus banhos de mar, por muito católico que seja, dispensa...), mas sobretudo pela - inexplicável, pelos padrões europeus - promoção institucional do gesto, simbolizada pelos holofotes que iluminam a cena. Afinal, trata-se da recuperação do tradicional mergulho da Epifânia. É que, imaginemos que a moda de mostrar este género de coragem pegava no resto da Europa civilizada: ainda haveríamos de ver um dia destes um Mariano Rajoy em perda de popularidade, em traje de luces, armado em diestro, numa plaza de toros... a ter que lidar com um bicho daqueles.

O CALOTE FESTIVO DOS PINGUINS PARALÍTICOS

25 de Janeiro de 2015. As eleições legislativas na Grécia dão, como as sondagens previam, a vitória ao Syriza. Mas esta efeméride não é para incidir sobre o acontecimento em si, é para ser dedicada à reacção histérica dos órgãos de informação da direita radical liberal cá do burgo, de que são casos exemplares estes artigos acima do Observador. É essa cobertura noticiosa que dá ao assunto, que afinal não passou de umas eleições legislativas num outro país da União Europeia (e quantas dessas eleições decorrem desapercebidas por cá?), umas eleições, dizia, que se revestiram da enormidade de uma verdadeira cruzada ideológica do século XXI, tendo os gregos como inimigo por não respeitarem a ordem financeira europeia estabelecida. Valeu tudo, até reportagens televisivas de uma parcialidade que não pensaríamos possíveis noutros conflitos mais propensos ao engajamento, como o israelo-palestiniano. Para perceber o significado do título e dos pinguins paralíticos é preciso ver a reportagem de José Rodrigues dos Santos para a RTP feita na véspera das eleições.

24 janeiro 2018

NOMEAÇÕES PARA OS ÓSCARES 2018

Tanto se fala de Óscares® por esta altura do ano que também nós cá por casa resolvemos criar um prémio com esse nome para 2018, só que dedicado à categoria do cronista mais cretino que escreva regularmente na imprensa e que mantenha o estatuto com misteriosa impunidade. Desta primeira conversa ao jantar, saímos com dois nomeados muito fortes: João Lemos Esteves, pela sua colaboração no i, e o incontornável João Marques de Almeida do Observador.

A PRETENSA RECONCILIAÇÃO FRANCO-FRANCESA DE CASABLANCA

24 de Janeiro de 1943. Há 75 anos decorria o último dia da Conferência de Casablanca e, no final das negociações entre britânicos e norte-americanos, entre Churchill e Roosevelt, vinha interpor-se a questão francesa. Era uma questão que tinha o condão de enervar Roosevelt. A sua administração negociara com Vichy até à entrada na Guerra em Dezembro de 1941, atraíra para a órbita dos Estados Unidos personalidades francesas que eram dedicadas ao marechal e todavia as inclinações pessoais do presidente apartavam-no daquilo que o Estado Francês representava. Por outro lado, em relação a de Gaulle, a antipatia de Roosevelt era visceral, detectava-lhe no estilo veleidades totalitárias e uma pose negocial que as circunstâncias apenas tornavam ridícula. A um e outro lado Roosevelt criticava o facto de representarem uma França imperialista e colonialista, a que não antevia grande futuro na formatação que concebia para o Mundo depois do fim da Guerra. Quanto à forma como as diferentes facções francesas se procuravam entender entre si, depois do assassinato de Darlan no mês anterior, de Gaulle telegrafara a Giraud propondo que se encontrassem. Giraud porém, desconfiado de que os gaulistas estivessem por detrás da autoria do atentado que vitimara o predecessor, ignorara o contacto. Porque o percurso de cada uma das facções - os franceses de Argel e os de Londres - fora completamente distinto entre 1940 e 1942 (com os primeiros a permanecerem nesses dois anos fiéis a Pétain e a Vichy), de Gaulle continuava banido de entrar na África colonial francesa do Magrebe.
Mas, embora sempre difícil de controlar, de Gaulle era também o francês dos britânicos. Como justificava Harold MacMillan (que virá a ser um futuro primeiro-ministro britânico, mas nesta altura estava apenas encarregue da tarefa - sempre - ingrata de controlar le Grand Charles), «é um homem difícil, mas custou-nos setenta milhões de libras e não podemos esquecer que esteve ao nosso lado nas horas mais negras. É uma questão de interesse, de prestígio e honra apoiá-lo nas suas aspirações políticas". A Conferência de Casablanca, albergando a presença simultânea de Churchill e Roosevelt, apadrinhando cada um o seu francês, parecia o local ideal para a criação uma solução de compromisso entre os dois Comités de Libertação sedeados cada um na sua capital (Argel e Londres). Convidado, o general Giraud, que representava Argel mais a ruptura recente com Pétain e Vichy, chegou sem demoras e sem malícia. Mas o general de Gaulle recusou-se a vir. Churchill insistiu, precisando que o convite era conjunto, dele e do presidente dos Estados Unidos. De Gaulle manteve a recusa, alegando que as suas questões com Giraud eram um assunto exclusivamente francês. Por essa vez, quem se terá divertido com o ridículo da situação terá sido Roosevelt, mas Churchill ter-se-á enfurecido e mandou-lhe um telegrama em forma de ultimato: «Se persistir em rejeitar esta última oportunidade que lhe é oferecida, arranjar-nos-emos para passar sem si».
Com um sentido cénico impar, de Gaulle percebeu quando era a sua deixa e a 22 de Janeiro, nono dia da Conferência, lá chegava ele, transportado por um bombardeiro da RAF. É verdade que cedera mas, ao fazer-se esperar, ganhara alguns pontos antes de se sentar sequer à mesa das negociações. Sentou-se, mas continuou intratável. Lançou alguns comentários deselegantes sobre o facto de se encontrar numa terra francesa (não era bem assim, Marrocos era apenas um protectorado francês...), mas rodeado de um dispositivo de segurança formado por exércitos estrangeiros. E quanto à substância do que se pretendia dele, algum género de associação entre os dois Comités nada se lhe conseguiu arrancar. Nem as ameaças de Churchill, nem o encanto de Roosevelt surtiram efeito. De Gaulle explicava-lhes que viera porque haviam insistido para que viesse (é o mínimo que se pode dizer!), mas tencionava partir livre de qualquer compromisso que lhe quisessem impor. É assim que chegamos a este último dia da Conferência, um domingo, há precisamente 75 anos. O dia começou por uma última pega monumental entre Churchill e de Gaulle. Os dois foram depois encontrar-se com Roosevelt, junto de quem estava Giraud. Registou-se ainda um último fracasso para a redacção de um comunicado conjunto dizendo as trivialidades que se escrevem quando não há nada para dizer. Foi então aí que Roosevelt, em último recurso, ainda perguntou a de Gaulle se consentiria em deixar-se fotografar com Giraud ao lado do primeiro-ministro e de si próprio.
A isso de Gaulle disse que sim. E, não perdendo a embalagem, prosseguiu Roosevelt «Iria ao ponto de apertar a mão do general Giraud em frente aos fotógrafos?» E de Gaulle respondeu-lhe, usando o inglês por cortesia: «I shall do that for you» (fá-lo-ei por si). Foi assim que foi montado o cenário com o pátio soalheiro e as quatro cadeiras que se pode apreciar nesta sequência de fotografias feitas diante um colectivo de fotógrafos de guerra. Não tendo o 1,93 de Charles de Gaulle (que o favorecia naturalmente nas fotografias), Henri Giraud também era muito alto (Eisenhower descreve-o nas suas memórias como tendo bem mais de 1,80) e suporta bem o embate visual cumprimentando o seu rival, mas a linguagem corporal dos dois franceses afigura-se inequívoca do quanto o gesto é forçado (veja-se mais abaixo o vídeo com os diversos encores em que isso ainda se torna mais evidente). Na verdade e apesar de parecer internamente que nada cedera e externamente que tudo parecia estar como se eles se dessem como Deus com os Anjos, de Gaulle acabara por consentir em permutar representantes com o Comité de Argel, assim se estabelecendo uma ligação funcional com os rivais. Mas o último comentário à ocasião, de Gaulle guardou-o para as suas memórias como legenda da fotografia da ocasião: «Os quatro actores mostram o seus sorriso. Adoptaram-se as atitudes convencionais, Tudo corria bem. A América do Norte dava-se por satisfeita, julgando ver, nas fotografias, que o problema francês encontrava o seu «deus ex machina» na pessoa do presidente.» Foi há 75 anos e bem pode continuar a ser hoje.

45 ANOS DE UMA GRANDE ALDRABICE

Edição de 24 de Janeiro de 1973 do Diário de Lisboa onde o destaque vai, inteirinho, para o anúncio do Cessar-Fogo no Vietname. A História virá demonstrar que se trata de uma gigantesca fraude de onde qualquer uma das três partes envolvidas não se sai bem. O Vietname do Norte que intimamente não tem intenção de cumprir o acordo. Os Estados Unidos que, sabendo disso, estão-se marimbando para que o Vietname do Norte queira prosseguir a sua guerra em data posterior, desde que, para já, possam sair de um conflito a que hajam dado a aparência de ter terminado, para que se cumprisse a promessa eleitoral que Richard Nixon fizera em 1968. E o Vietname do Sul que, sabendo de uma coisa e de outra, e que em vez de procurar meios para conseguir subsistir autonomamente frente à agressão do seu vizinho, apenas se queixa da duplicidade de inimigos e de aliados, feito um Calimero (então na moda). Clímax de toda a encenação: no final desse ano de 1973, o Comité Nobel Norueguês atribuiu o Prémio Nobel da Paz aos dois negociadores principais que aparecem na fotografia acima, o norte-vietnamita Lê Đức Thọ e o norte-americano Henry Kissinger. Fossem quais fossem as razões que invocou, o primeiro teve a decência de o recusar enquanto o segundo, mesmo tido como o brilhante analista estratégico do Ocidente, ao aceitar o prémio, acabou por fazer figura de cínico, sem escrúpulos, ou de ingénuo, desmentido a sua craveira intelectual.

23 janeiro 2018

O ASSALTO AO SANTA MARIA


23 de Janeiro de 1961. Henrique Galvão com 24 homens sequestram o navio de passageiros Santa Maria em pleno Mar das Caraíbas. A história do assalto ao Santa Maria está mais do que contada, foi até objecto de um filme. O episódio foi um grande golpe de propaganda anti-regime, com o regime a organizar um grande golpe de contra-propaganda aquando do retorno do navio a Lisboa. Mas depois da versão oficial de 1961 (que vigorou até 1974), a versão que vigora desde aí é de uma indulgência para com as acções de Henrique Galvão e do seu comando que me incomoda, para não dizer que me irrita. A começar pela pomposidade de lhe conferir uma designação de Operação Dulcineia, um dos aspectos que nunca se vê bem esclarecido é o da composição do comando que tomou o navio: dos 25 homens que assaltaram o navio, quantos é que eram portugueses? Pela omissão, desconfia-se que seriam uma minoria. Que história é aquela de uma organização vagamente ibérica para justificar o contributo de mercenários espanhóis numa operação político-militar com objectivos predominantemente portugueses num navio português? Denominaram essa organização de Directório Revolucionário Ibérico de Libertação, mas nunca mais se deu por cá pela actuação de tal directório (para não dizer que a denominação me faz lembrar uma daquelas organizações inventadas pelo Artur Baptista da Silva...). Por que é quase nunca se menciona o morto e os dois feridos entre os membros da tripulação que resistiram ao assalto? E a que exército pertencerão aqueles rutilantes galões que Henrique Galvão enverga? (recorde-se que ele era apenas capitão do exército) Há em todas estes detalhes indícios de uma megalomania disparatada e inconsequente (esperavam desencadear a revolução só por aparecerem com o Santa Maria na baía de Luanda?...), que não podem ser ignorados apenas pelas simpatias políticas de quem hoje evoca os acontecimentos. Significativamente, existindo em outros idiomas, não existe página da wikipedia em português especificamente dedicada ao sequestro do Santa Maria.

O CENTENÁRIO DA BEATIFICAÇÃO DE NUNO ÁLVARES PEREIRA

23 de Janeiro de 1918. Intercalado no meio dos acontecimentos dominantes da Grande Guerra, o papa Bento XV (abaixo, à esquerda) beatifica Nuno Álvares Pereira. O reconhecimento das virtudes do novo beato, especialmente nos seus últimos anos de vida, depois de aos 63 anos se ter tornado monge carmelita, foi particularmente moroso. Falecido em 1431, o processo da beatificação de Frei Nuno só se concluiu quase 500 anos após a sua morte. O Portugal que recebia a notícia assistia em simultâneo à experiência do presidencialismo conservador de Sidónio Pais. Por coincidência e daí por um mês, o governo português irá proceder à revisão da Lei de Separação do Estado das Igrejas, promovendo a reaproximação e o restabelecimento das relações diplomáticas de Portugal com o Vaticano, rompidas desde 1911. Mas o interesse dos conservadores portugueses não se irá ficar por ali, incentivando a partir de meados da década seguinte (1920) a causa da canonização do beato Nuno Álvares Pereira que, com a implantação do Estado Novo, recebeu a designação simpática (ainda que prematura) de Santo Condestável. Como acontecera em França com Joana d'Arc que, por coincidência, também morrera em 1431, e que fora beatificada em 1909, depois canonizada em 1920, pelo mesmo Bento XV, também por cá o Estado Novo queria arranjar um guerreiro-místico português e o precedente de França (11 anos!) mostrava-lhe que uma pressão discreta sobre o Vaticano não seria descabida para encurtar prazos para a canonização de Nuno Álvares Pereira, a tempo do novo Santo poder figurar em destaque nas cerimónias do regime de 1940, celebrando o duplo centenário da Fundação (1140) e da Restauração (1640). Por muito boas que tivessem sido, de reputação, as relações entre Portugal e a Santa Sé nessa altura, a verdade é que alguém no Vaticano se deve ter chateado com tanta insistência da parte portuguesa. E o dossier foi para debaixo da pilha e passaram-se décadas sem ouvir falar dele. Houve que esperar quase outro século (91 anos!), até 2009, sob o pontificado de Bento XVI, para que Nuno Álvares Pereira se tornasse canonicamente Santo, numa época em que o assunto já se tornara politicamente irrelevante.

22 janeiro 2018

HÁ CEM ANOS A GRÉCIA DECRETAVA FINALMENTE A MOBILIZAÇÃO GERAL

22 de Janeiro de 1918. Há cem anos, o primeiro-ministro grego Elefthérios Venizélos fazia com que o jovem rei Alexandre I (24 anos) assinasse o decreto de mobilização geral. Na leitura estratégica do primeiro-ministro da situação da Europa então envolvida em plena Guerra Mundial, esta seria a única solução para a Grécia e para o seu governo: havia que assumir um engajamento claro em favor dos dois países da Entente Cordiale. Fora para ganhar alguma coisa com isso que o primeiro-ministro grego visitara primeiro Lloyd George no Reino Unido e depois Clemenceau em França no Outono de 1917. Saíra de lá com um empréstimo de 750 milhões de francos-ouro e o compromisso de que a Grécia iria mobilizar 300.000 homens para combater os vizinhos búlgaros e os seus inimigos de estimação, os turcos, ambos aliados da Alemanha. Depois de três anos e meio de hesitações, este último golpe de rins vai permitir à Grécia aparecer daí por dez meses, quando da cessação das hostilidades, claramente do lado dos vencedores da Primeira Guerra Mundial (abaixo).
Visto à distância de cem anos este continua a ser o mesmo padrão da política externa grega: armam-se em caros, esmifram tudo o que puderem dos aliados, mas no fim, realisticamente, adequam-se à sua condição de parceiros menores do xadrez europeu. Era o que acontecia com Venizélos e é o que está a acontecer também com Aléxis Tsípras, mesmo que o partido deste seja o (supostamente radical) Syriza, como se comprova pelo que lá se passa, uma austeridade que continua mesmo agora que os holofotes mediáticos abandonaram a Grécia e o Orelhas já não se preocupa com a evasão fiscal das piscinas. Em retrospectiva, agora que tudo voltou à normalidade, vale a pena perguntarmo-nos se a manobra deliberada de pressão da Europa (das potências) sobre a Grécia não acabou por se vir a revelar excessiva, se não se teria apertado o torniquete do discurso moral do despesismo em demasia, chegando com isso a desencadear o aparecimento de fenómenos populistas como Varoufakis. Se este último foi - e continua a ser - um excesso inconsequente, Dijsselbloem foi outro.

A CHEGADA DA CORTE PORTUGUESA AO BRASIL

22 de Janeiro de 1808. Há 210 anos a esquadra transportando a família real portuguesa acompanhada da sua corte chegava a Salvador da Bahia, Brasil. O quadro acima, mostrando João, o príncipe regente, passeando pela cidade é de Cândido Portinari e muito posterior à data dos acontecimentos (1952), mas é bem evocativa da ocasião histórica em que toda uma corte europeia se transfere para uma colónia extra continental. Aliás, convêm esclarecer que a cerimónia que é retratada só terá tido lugar a 24 de Janeiro, dois dias depois de os navios terem fundeado no porto. Era uma época em que tudo acontecia a um outro ritmo: tendo a esquadra saído de Lisboa a 29 de Novembro do ano anterior, já com o exército invasor francês a ocupar Santarém, a viagem tomara-lhes 55 dias, ou seja, praticamente oito semanas. É interessante comparar os ritmos de então com os actuais, em que essa mesma viagem transatlântica, em vez das oito semanas, demora umas aborrecidíssimas oito horas e meia...

21 janeiro 2018

O «SKETCH» DO PAPAGAIO MORTO


O «Sketch do Papagaio Morto» tem quase 50 anos. E durante os primeiros 40 anos foi apenas um dos mais memoráveis exemplos do humor absurdo dos Monty Python. Escrito originalmente por Michael Palin, o episódio inspirava-se em algo que lhe acontecera pessoalmente enquanto reclamava com um vendedor de carros usados, que lhe vendera um em estado catastrófico. Enquanto o chaço se descompunha à vista dos dois, o vendedor arranjava uma desculpa, por mais implausível que fosse, para os problemas que Palin apontava no carro. A versão televisiva do sketch - e esse é o segredo do génio da equipa - é muito mais delirante. Aí é o próprio Michael Palin a responder às reclamações de John Cleese com não importa o quê, faça ou não faça sentido, tanto mais que o pomo da discórdia é muito simples e incontroverso: o papagaio morto foi vendido como estando vivo. Nos últimos anos, com a afirmação das redes sociais, tenho assistido a uma reemergência das discussões com um figurino que se inspira neste formato Dead Parrot. São muitas as trocas de impressões a que se assistem por aí em que um dos lados conversa enquanto o outro apenas desconversa. Costuma ser imbecil, mas ao mesmo tempo acaba por se tornar cómico, pelo absurdo, quando alguém, nos frequentes confrontos de opiniões, apresenta aquele argumento que é - deveria ser - o decisivo mas do outro lado se responde só para ter mais qualquer coisa para dizer. Como acima se reproduz: - Este papagaio está morto! - Não está nada, está só a descansar e, além disso, tem uma linda plumagem azul. Quando a conversa assume estas características, não há mesmo mais nada a dizer. Mas acontece tantas vezes!

OS 45 ANOS DO ASSASSINATO DE AMÍLCAR CABRAL

Se foi a 20 de Janeiro de 1973 que Amílcar Cabral foi assassinado em Conakry, foi só dois dias depois que o acontecimento veio a ser noticiado em Lisboa (acima). Evocando-o nesta data intermédia, diga-se que o problema do seu assassinato é que, como o jornalista português José Pedro Castanheira veio a explicar mais de 20 anos depois (abaixo), o líder do PAIGC possuiria muitos mais inimigos do que apenas as autoridades coloniais portuguesas que combatia e tornou-se depois praticamente impossível identificar com segurança quem teria estado por detrás dos autores materiais do assassinato, autores esses que foram dissidentes internos do próprio PAIGC. Por causa disso, sucedeu-se uma sangrenta - mas duvidosamente eficaz - purga interna dentro da organização, com um número indeterminado de executados, e o que de melhor se faz nos dias que correm é falar o mínimo a respeito desse assunto - como acontece com a página da wikipedia em português que lhe diz respeito.

A EXECUÇÃO DE LUÍS XVI E A JANELA DE GUILHOTINA DE VASCO SANTANA

21 de Janeiro de 1793. Mas também dia 2 do Pluvioso do Ano I, de acordo com o Calendário Revolucionário então em vigor em França. Em qualquer dos formatos completam-se hoje 225 anos sobre a execução de Luís XVI. Embora a Revolução Francesa contasse três anos e meio (desde a data da tomada da Bastilha a 14 de Julho de 1789), fora só há escassos quatro meses que a monarquia fora abolida. E finalmente calhou a vez ao próprio monarca ser executado. É um acontecimento raro na cultura Ocidental, os monarcas serem executados perante revoluções triunfantes. Após os tempos medievais e com a modernidade, quando a pessoa do monarca se veio a revestir de um valor também simbólico, só me estão a ocorrer outros três exemplos, ao ritmo de um por século: Carlos I na Grã-Bretanha no século XVII, Maximiliano no México no século XIX e Nicolau II na Rússia já no século XX. E, no entanto, nenhum destes três exemplos mencionados se reveste do carácter ligeiro como a execução do monarca francês pôde por vezes assumir, aprecie-se esta piada em jeito de trocadilho de um filme português já com 85 anos.

19 janeiro 2018

SUBITAMENTE NO VERÃO PASSADO...

Subitamente, as redes sociais puseram-se a difundir o divertidíssimo aviso acima, publicado no Verão passado, em que os utentes de um qualquer serviço burocrático em Lisboa eram informados que, a partir de uma data próxima, os pedidos de visto teriam de ser obrigatoriamente acompanhados de uma cópia do passaporte e, sobretudo, de duas fotografias. A estética da fotografia era objecto de uma especificação ulterior, quiçá mal redigida, pois a exibição das duas orelhas presta-se a confusão com a posse das mesmas... O aviso circula por aí, em jeito de anedota portuguesa, superficial e sem identificar o responsável. O que aqui se faz. O Dr. Geraldo Saranga, que abaixo vemos a assinar o AVISO (assim se responsabilizando pela exigências das duas orelhas), é o Cônsul Geral de Moçambique em Portugal. É ele que quer as duas orelhas e, nem de propósito, na melhor fotografia que dele encontrámos na Net, aparece só com uma...

O 75º ANIVERSÁRIO VIRTUAL DE JANIS JOPLIN

Se fosse viva, Janis Joplin completaria hoje 75 anos. Apesar de ter sido um dos ídolos dessa geração no apogeu da sua afirmação, Janis não era tecnicamente uma baby-boomer (nascidos entre 1946 e 1964).

O PROBLEMA DO ANO 2038

19 de Janeiro de 2038. Todos os outros postes desta série têm-se destinado a assinalar efemérides passadas, mas este excepcionalmente destina-se a assinalar um acontecimento futuro, que ocorrerá neste dia 19 de Janeiro daqui a vinte anos. Assim como na transição de 1999 para 2000, com o bug Y2K, se punha o problema a alguns computadores para reconhecerem que 00 era um número maior do que (e uma data posterior a) 99, neste caso o sistema de contagem do tempo que é utilizado pelos computadores que usem o sistema Unix vai atingir a saturação. Como se pode perceber pelo quadro acima, às 03:14:07 da madrugada desse dia, a representação binária da data vai corresponder a um conjunto de 32 uns. No segundo seguinte, e como aconteceu em vários locais no caso do Y2K (veja-se abaixo), os relógios que ainda não estiverem modificados vão reiniciar a contagem a 13 de Dezembro de 1901. Por analogia, deram ao problema a designação de Y2K38.

18 janeiro 2018

O PRIMEIRO CONCERTO PARA JOVENS


18 de Janeiro de 1958. Nos Estados Unidos, a CBS transmite o primeiro dos Concertos para Jovens, um programa pedagógico sobre música protagonizado pelo maestro Leonard Bernstein dirigindo a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque. Este primeiro programa teve por título "O que é que significa a Música?" (acima, a primeira parte) A cadeia de televisão vai manter o programa em exibição pelos próximos quatorze anos com uma periodicidade irregular (mas próxima da trimestral: 53 programas em 14 anos) e uma popularidade crescente, tanto doméstica quanto internacional (transmitidos em quarenta países), uma popularidade quer do formato pedagógico do programa, quer das capacidades comunicativas do protagonista - Leonard Bernstein foi provavelmente o maestro mais popular à escala mundial na década de 60. Sessenta anos depois e reconhecendo que a popularidade de programas de televisão com esta matriz educativa não são repetíveis, é pertinente perguntar o que terá acontecido para tal. A adesão de outrora era mais posada do que genuína? Assumiu-se que a erudição é só para os que querem ser eruditos? E que as massas prescindem da educação ao primeiro sinal de entretenimento puro?

A ASSEMBLEIA CONSTITUINTE RUSSA QUE OS COMUNISTAS NÃO DEIXARAM QUE EXISTISSE

18 de Janeiro de 1918. Hoje poderíamos estar a assinalar o centenário do início dos trabalhos da Assembleia Constituinte russa, se acaso os seus trabalhos tivessem prosseguido até a conclusão de uma nova Constituição. Mas não. Reunidos no Palácio Tauride de Petrogrado, numa jornada que se mostrou cheia de incidentes - a começar por uma manifestação de apoio à Assembleia Constituinte que foi dispersa a tiro pelos bolcheviques - os trabalhos dos deputados constituintes foram dados por encerrados logo no dia seguinte, 19 de Janeiro. Não houve mais sessões e a efeméride é hoje um assunto esquecido. Esclareça-se que nesta Assembleia, para a qual os 700 deputados haviam sido eleitos em eleições mais ou menos livres em Novembro de 1917, os bolcheviques estavam em franca minoria, representando apenas cerca de ¼ dos deputados (abaixo). Uma outra Constituição russa veio a ser adoptada daí por seis meses pelo Quinto Congresso dos Sovietes de todas as Rússias. Os trabalhos do Congresso duraram uma semana! Claro que este último organismo já estava totalmente controlado pelos bolcheviques.

17 janeiro 2018

«CONHECE-TE A TI MESMO»

Confesso que nunca equacionaria o famoso aforismo grego na perspectiva que é sugerida pela fotografia acima. Mas sai muito bem, sobretudo se, ainda por cima, virmos nela um piscar de olho irónico a este modismo da inteligência artificial - esta inteligência, parca mas esforçada que seja, é natural... À fotografia encontrei-a sem identificação do autor no site Kültür Tava.