30 junho 2011

A ARTE SOBRE A PONTE DAS ARTES

O fotógrafo Robert Doisneau aproveitou a antiga Pont des Arts em Paris (há uma nova ponte no mesmo local respeitando a traça da original, que foi inaugurada em 1984) para pretexto de um encadeamento de fotografias dos quais apenas se mostram aqui as duas mais conhecidas (1953).
Numa delas aparece um transeunte que passeia um cão (Doisneau classificou-o de Fox-Terrier, mas a mim parece-me um vulgar rafeiro) que se mostra de uma cuscuvilhice simultaneamente envergonhada e descarada sobre o tema do quadro que um pintor está a pintar na ponte…
Mais ousado que o dono do cão, o fotógrafo aproxima-se e na fotografia seguinte vemos o quadro em toda a imaginação do pintor que consegue expor a nudez de um modelo que está envolto num grosso sobretudo. É a fotografia perfeita para enfeitar muitas análises políticas que por aí leio…

29 junho 2011

CHIPRE «A MOTOR»

Nem que seja por aparecer na sua bandeira nacional (acima) os contornos geográficos da ilha de Chipre são reconhecíveis. A acidentada História da ilha é uma consequência da sua localização na extremidade oriental do Mediterrâneo, a 75 km de distância da Turquia, a 105 da Síria, 110 do Líbano, 200 de Israel, 380 do Egipto, 400 da Grécia insular (de Rhodes) e 800 da Grécia continental (abaixo). Parte dessa História, incluindo a divisão política de Chipre entre as comunidades grega e turca já foi por mim contada num outro poste.
Mas se observarmos a ilha do Espaço, como ela nos aparece na fotografia abaixo, todas essas convulsões políticas parecem desaparecer. A não ser por um pormenor… Mesmo na extremidade da Península de Karpas (a que está virada para nós), no Cabo do Apóstolo André, detecta-se uma formação triangular que não se distingue se será de nuvens ou de agitação marítima… A imaginação fez-nos pensar se os cipriotas não instalaram ali um gigantesco motor fora de bordo, para levar a ilha para outras paragens menos perigosas do Mediterrâneo…

28 junho 2011

UMA HISTÓRIA FOTOGRAFADA ATÉ AO FIM

Já aqui tinha tido oportunidade de publicar uma famosa fotografia de Henri Cartier-Bresson sobre o instante da exposição de uma colaboracionista durante a Segunda Guerra Mundial (acima). Mais recentemente deparei-me com uma outra fotografia com um tema muito semelhante mas de autor desconhecido. Terá sido tirada a 14 de Abril de 1945 por ocasião da libertação do campo de concentração de Buchenwald pelas tropas norte-americanas.
Trata-se do instante em que um prisioneiro soviético identifica um dos antigos guardas, onde o jogo de olhares da fotografia nos sugere que o acusado seria de um dos piores guardas do campo: não só o olhar do alemão do centro da fotografia se distancia do seu camarada como este último evita encarar directamente o acusador, admissão evidente de culpa. As fotos do que se seguia têm menos qualidade estética mas não é por isso que raramente são publicadas…
A fotografia acima é mesmo um instantâneo, quando um dos prisioneiros se virou de surpresa contra um dos seus antigos guardas, nesta cena que teve lugar noutro famoso campo de concentração acabado de libertar: o de Dachau. O militar norte-americano ao centro parece nem saber que atitude deve adoptar. Contudo, na maioria dos casos os libertadores acabavam por deixar os reclusos vingarem-se: abaixo, o cadáver de uma guarda do campo de Ohrdruf

27 junho 2011

MULTAS POR DANIFICAR O PORTUGUÊS

Hoje apareceu um comentário num poste que aqui publiquei há já quase três anos que se intitula Duas Despedidas sobre duas canções de tema semelhante de Chico Buarque e de Ivan Lins. O comentário era assim:

Sobre:" É que..sempre as considerei mais concebidas..na perspectiva feminina"
A razão disso é por que tú és luso, ora pois pois pois.

Apaguei-o. Mas acho que ele merece ser publicitado com uma visibilidade superior à que teria na caixa de comentários. Pior do que a estupidez, que costuma ser congénita, é a ignorância, que deve ser corrigida e que não é lusa nem brasileira nem africana, ataca em todos os continentes.

Num Mundo mais justo quem escrevesse disparates como os lá de cima refinando-os com erros gramaticais (não saber contar os pontos das reticências, não saber distinguir a locução por que da palavra porque, acentuar a palavra para que ela soe certamente como um apito de comboio, esquecer-se das vírgulas para separar os pois…) devia ser severamente multado por assassinato ao nosso idioma comum…

O REFRESCO DO LEGIONÁRIO

Entre os clássicos da Antiguidade, há uma famosa passagem da biografia que Arriano escreveu sobre Alexandre Magno em que ele, no meio do deserto, em vez de beber a água de um capacete que lhe haviam desencantado, a joga para a areia, colocando-se em situação de rigorosa igualdade com as soldados que comandava e pretendia motivar.

Desde aí, esse tema do capacete e da água tem sido muito usado, como acontece acima, com um trecho de BD da história de Alix, O Túmulo Etrusco, da autoria de Jacques Martin. O que será inédito, tanto quanto anacrónico, é a fotografia abaixo de um dos vários milhares de figurantes de Quo Vadis refrescando-se numa barraca de gelados da Cinecittá (1950).

26 junho 2011

OPERAÇÃO BARBAROSSA – 2

Uma imagem frequente desses primeiros meses quentes e poeirentos de 1941 em que a esmagadora maioria dos soldados da Wehrmacht calcorreavam as estradas soviéticas em terra batida da União Soviética era a dos comités de recepção, que costumavam postar-se antes das localidades para acolher os vencedores, oferecer-lhes algumas prendas (o pão e o sal são tradicionais entre os ucranianos) mas também sondar-lhes as intenções…
Vezes sem fim, po causa do ritmo era imposto pelo comando às unidades alemãs, as recepções nem se realizassem, uma decepção para quem se havia afadigado a organizá-las, como aconteceu no caso da fotografia acima, onde se vê um arco dedicado, a fazer lembrar os dos nossos santos populares. Porém, passados esses momentos iniciais, entre os dignitários locais esses dias de Verão foram sobretudo de expectativa sobre o que se seguiria.
Atrás das tropas combatentes e depois do vácuo de poder que se lhe seguiu só semanas depois começaram a surgir os primeiros sinais da administração civil que iria substituir a dos soviéticos: os Comissariados do Reich para a Ucrânia e Ostland, à frente dos quais o regime nazi havia infelizmente escolhido aquilo que de mais moralmente desqualificado havia entre as suas fileiras como Hinrich Lohse (1896-1964) ou Erich Koch (1896-1986).

QUANDO 9 EM 10 ESTRELAS DE CINEMA USAVAM LUX

Aceita-se que actores e actrizes mudem significativamente de aparência conforme mudem as personagens que interpretam. Apesar disso confesso que ontem fiquei surpreendido quando descobri Kelli Williams, que conhecia por desempenhar um papel simpático na série televisiva Lie to Me* (acima, à esquerda), a desempenhar um papel de criminosa num episódio duma outra série concorrente: Criminal Minds (acima, à direita).

A minha surpresa não teve a ver com as transformações com o desempenho das duas personagens distintas, mas antes com a influência que a cosmética sempre conseguira ter na sua aparência, a ponto de só agora, depois de a ver como , me ter apercebido da sua aparência normal. Depois, descobri que a actriz tem 41 anos e como vão longe os tempos em que fazia sentido publicitar apenas que 9 de cada 10 estrelas usavam Lux

25 junho 2011

A SOLIDÃO DE UMA PROSTITUTA

Estas duas fotografias estão muito distanciadas pelo espaço, a de cima é parisiense, da autoria do fotógrafo Robert Doisneau, enquanto a debaixo é havanesa e foi tirada pela norte-americana Eve Arnold. Mas ambas datam da mesma época (respectivamente 1951 e 1954) e, sobretudo, ao destacar as expressões contristadas de duas prostitutas (e a prostituição é sempre tópico delicado de fotografar), vêm a tratar de um mesmo assunto: a Solidão.

A fotografia de Doisneau até tem título, o do nome da protagonista: Mademoiselle Anita, uma dançarina do cabaret La Boule Rouge enquanto na de Havana se dispensam essas subtilezas que atenuam a crueza do negócio do sexo. Para as musicar, optei por uma canção italiana 40 anos mais nova que não sei se alguma delas chegou a conhecer, mas em que, sem dúvida, qualquer das duas protagonistas se reconheceria – La Solitudine (Laura Pausini).

A PROPÓSITO DE ENCENAÇÕES AÉREAS

O Major Yakov Antonov foi um piloto-aviador soviético que se notabilizou durante a Segunda Guerra Mundial. Tornou-se num dos Heróis da União Soviética naquela época em que mais se necessitava deles, durante o primeiro ano da Guerra (1941-42), quando maiores eram as necessidades morais perante as consecutivas derrotas sofridas pelo Exército Vermelho. Vemo-lo na fotografia abaixo exibindo orgulhosamente as três mais elevadas condecorações soviéticas de então: da esquerda para a direita, a de Herói da União Soviética, a Ordem de Lenine e a Ordem da Bandeira Vermelha.
Mas a sorte que protege os audazes pode também tornar-se madrasta… A 25 de Agosto de 1942 Antonov foi capturado ferido pelos alemães e tornou-se por sua vez um activo de propaganda destes últimos. Vemo-lo abaixo, na fotografia em que ele está rodeado dos seus adversários directos, pessoal da Luftwaffe (vê-se pelas fardas), naquilo que poderá ser uma manifestação de respeito pelo ilustre prisioneiro. Como a fotografia terá sido tirada num aeródromo de campanha (note-se a paisagem), parece um pouco pretensioso que um dos pilotos alemães apareça de condecoração (Cruz de Ferro) pendurada ao pescoço…
Mais inacreditável porém, é o caso do uniforme de Yakov Antonov onde se exibem as mesmas condecorações que na fotografia de gala, como se fosse normal voar missões de combate com elas ou mesmo, se tal absurdo fosse razoável, como se elas não fossem logo os primeiros souvenirs roubados pelos captores do prisioneiro… Apesar do bom acolhimento que acima se observa sabe-se que Yakov Antonov morreu ainda nesse ano (1908-1942). A relação poderá parecer remota, mas lembrei-me desta história para lembrar que, muito anos antes de Pedro Passos Coelho, já as encenações aéreas tinham estado na moda

24 junho 2011

OPERAÇÃO BARBAROSSA – 1

A invasão da União Soviética pela Alemanha iniciou-se a 22 de Junho de 1941. Assim se abriu a frente de guerra decisiva da Segunda Guerra Mundial. Foi preciso esperar entre três a três anos e meio para que os exércitos soviéticos regressassem às posições que ocupavam originalmente no caminho que depois os levou até Berlim. A história desta invasão é um épico tão monumental que aqui convém contá-lo apenas em fracções. Uma dessas fracções é representada pelos três primeiros meses da invasão, quando os combates se travavam sob uma esmagadora superioridade táctica alemã debaixo de um daqueles calores opressivos de Verão, típicos dos climas continentais. A rede rodoviária soviética praticamente não existia, a esmagadora maioria do transporte era feito por via ferroviária. Mas isso também nem era importante para a grande maioria dos soldados alemães...
As imagens da guerra, especialmente as da propaganda alemã vitoriosa desse Verão, preferiram escolher temas mais gloriosos e esquecer quão arcaicos os seus exércitos ainda podiam ser, nomeadamente o facto de apenas ⅛ das suas divisões de infantaria serem motorizadas, obrigando os restantes ⅞ a seguir as gloriosas divisões panzer a pé! – literalmente como se pode apreciar pelas fotografias que aqui se incluem.
Todos os que aqui se vêm nestas fotografias, a começar pelo pouco marcial sargento de óculos que conduz a carroça na fotografia inicial, não se sentiriam deslocados no Grande Exército de Napoleão que ali os precedera 129 anos antes. Começando pela decisão de se ter feito um pequeno desvio na interminável caminhada para apanhar umas saborosas (e hidratantes) talhadas de melancia conforme se pode observar nesta última fotografia…

ONDE ESTÁ O ADOLFO?

Creio que todos se lembrarão de Onde Está o Wally?, uma série de livros infantis que eram simultaneamente um jogo para que as crianças se dedicassem a encontrar o Wally no meio das multidões. O que já nem todos saberão é que cerca de cinquenta anos antes já se havia jogado um jogo parecido. A fotografia abaixo data de 2 de Agosto de 1914, quando uma multidão se reuniu diante do Feldherrenhalle em Munique ao saber-se da notícia da declaração de Guerra da Alemanha à Rússia nos preâmbulos da Primeira Guerra Mundial. Entre essa multidão estava um desconhecido jovem austríaco de 25 anos que usava ainda um bigode convencional e que dava pelo nome de Adolf Hitler...
É evidente que o episódio terá sido rapidamente esquecido. O Feldherrenhalle e a praça adjacente só viriam a adquirir um novo significado para o próprio Hitler nove anos depois (1923), por ocasião do seu fracassado Putsch de Munique (a 9 de Novembro). Aquele mesmo local foi testemunha da morte dos 4 polícias e dos 16 militantes nazis provocados pelos incidentes. Passada outra década e chegados aos anos 1930, já Adolf Hitler passara de ilustre desconhecido e de dirigente político derrotado a chanceler da Alemanha. Foi só então que Heinrich Hoffmann, que se tornara no fotógrafo de Hitler e do regime, encontrou o Adolfo na fotografia que o próprio tirara 20 anos antes…

23 junho 2011

…E ENTÃO SEM ALGUÉM PARA COORDENAR DEVIDAMENTE AS AJURAMENTAÇÕES?...

António Galamba (acima) é o homem do momento e destinado a continuar a sê-lo. É o homem do momento por, como Governador Civil de Lisboa, ter encabeçado a contestação que ele e os seus homólogos dos outros distritos fizeram ao governo central quando o 1º Ministro manifestou a intenção de extinguir os seus cargos. Está destinado a ser o homem do momento por ser também o Director da Campanha de António José Seguro a Secretário-Geral do PS, uma actividade que ele até agora desenvolvera como hobby, certamente, e à custa de enorme sacrifício pessoal tanto tempo o cargo oficial lhe levaria...

Mas foi o pundonor com que António Galamba defendeu a importância da função que desempenhava que me leva a escrever este poste onde ele chegou aos extremos de mostrar a relevância dos serviços do Governo Civil que dirigia para situações em que os cidadãos estão confrontados com um risco sísmico… Sim, que havemos de fazer quando nos confrontamos, não com um sismo, mas com o risco de um sismo? Preocupado, fui à página da Internet do Governo Civil de Lisboa mas, quanto a serviços, nada descobri a respeito de riscos de terramotos. Há por lá:


- Passaportes
- Concursos publicitários, sorteios, tômbolas ou rifas
- Estabelecimentos com espaço de dança
- Alarmes sonoros
- Segurança privada
- Leilões de penhores
- Direito de reunião, manifestação e desfiles
- Peditórios de âmbito distrital
- Contra-ordenações rodoviárias
- Ajuramentações


Embora eu não perceba lá muito bem o que são estas últimas ajuramentações, convenci-me. Olhando apenas para todos os outros serviços prestados e mesmo sem ter encontrado o tal do risco dos terramotos, não tenho dúvidas em considerar que sem alguém com o perfil de um António Galamba a coordenar aquilo tudo corremos o risco de descambar abruptamente num caos social irrecuperável…

O SILÊNCIO DOS INOCENTES

As fotografias do holocausto não servem para informar, servem somente para ilustrar. Não é possível transpor para uma ou um conjunto de imagens o que se terá passado que culminou com a eliminação daqueles milhões. Uma fotografia do holocausto destina-se mais a contribuir para nos esclarecer o como do que a explicar-nos o que aconteceu.
O que é mais perturbador em algumas fotografias dos acontecimentos é aquele carácter ordeiro, organizado mesmo, como tudo parece ter-se passado. As vítimas eram primeiro arrebanhadas e depois devidamente expedidas até aos locais de extermínio onde, mesmo diante do seu destino, continuavam a mostrar a mesma docilidade que as levara até ali.
Esta fotografia acima, que foi tirada em Outubro de 1942, com as judias nuas do gueto de Mizocz (algumas delas estão acompanhadas pelos filhos) aguardando pela sua execução são uma evocação quase perfeita do silêncio assustado dos borregos destinados ao matadouro que se tornara o pesadelo de Clarice Starling em O Silêncio dos Inocentes

22 junho 2011

O PERFIL DE UM AGORA EX-PRIMEIRO MINISTRO

Há assuntos a que vale a pena regressar acalmados os ânimos, nem que seja para verificar se as opiniões que então se ouviram se mantêm consequentemente. Certamente ainda quase todos se lembrarão de um pequeno episódio de há mais de dois meses atrás em que, por ocasião da transmissão televisiva da comunicação do pedido de auxílio ao FMI então feita por José Sócrates, este último foi apanhado num blooper enquanto acertava com um dos seus adjuntos qual seria o seu melhor perfil: - Aaah, oh Luís, vê lá na… como é que fico a olhar para os… Assim fica melhor… ou fica melhor assim?

Muito gozado pelo seu aspecto caricato, o episódio suscitou mesmo assim uma opinião em contra-corrente de José Pacheco Pereira no seu programa Ponto Contraponto (abaixo, só interessa ver os primeiros dois minutos). O comentador, que sempre mostrou odiar o antigo primeiro-ministro com todas as suas vísceras a ponto de quase fazer dele a incorporação da maldade, não só menosprezou ali as reacções dos observadores (classificando-as de excitações) como as atribuiu à época pré-eleitoral que então se vivia. Aquilo seria um episódio natural de uma cenografia natural que todos os políticos fazem – e Sócrates particularmente bem!
Pois bem, agora que Sócrates já saiu de cena tenho que dizer que a minha excitação continua... Eu sei que José Pacheco Pereira faz parte do elenco daquela espécie de companhia teatral que é constituída pelos políticos que dão na televisão, onde aquelas cenas serão banalíssimas. Mas o que ele não pode esquecer é que a esmagadora maioria das pessoas não conhece ou, conhecendo-o, esquece-se ou quer esquecer-se desse lado encenado do espectáculo/política em televisão. Não vale tudo e nem tudo é válido (lembrem-se dos sikhs...) e se os políticos estão a fingir comunicar directamente com o povo têm que o fazer da forma como as pessoas se relacionam em geral.
Suponho que nem numa entrevista de emprego o entrevistado se porá a apontar o nariz para lhe sair o seu melhor perfil. Arrisca-se a fazer figura de parvo. E os gestos estudados, como os vendedores que nos cumprimentam segurando o braço (e não são só eles, veja-se acima…), costumam ser, quando exibidos, repudiados como manipuladores. As pessoas a quem José Sócrates se pretendia dirigir são assim. Atribuem o valor facial ao que se vê em televisão e não apreciarão descobri-lo forjado. Quem serei eu para alertar José Pacheco Pereira quanto conviria que ele percebesse isso... Mas estou certo que os que ele qualifica por excitados se excitariam novamente se, por exemplo, depois dele e António Costa se terem destratado violentamente numa qualquer edição da Quadratura do Círculo, os descobrissem horas depois em amena cavaqueira num restaurante…

MUITO DEPOIS DE SACADO O SACA ROLHAS

Ainda a propósito do poema-canção do poste imediatamente abaixo, é um gosto recordar como foi a evolução daquela geração ali evocada que ia para a praia de mota e de garrafão pendurado. Os namorados casaram e tiveram filhos e filhas a que deram nomes exóticos como Cátia e Tatiana. Hoje a devoção dele ao Benfica é maior do que nunca e ela ocupa um lugar no quadro como auxiliar mas onde está de baixa há uns seis ou oito anos «derivado a ser muito duente e sofrer muito com a espandilose».

Manuel Carvalho da Silva não a refere e até prefere esquecer-se dela, nas suas queixas a respeito das contínuas ofensivas governamentais contra os direitos dos trabalhadores. Do outro lado do espectro político, Paulo Portas, que é sempre pródigo em arranjar slogans eleitorais que cativem um certo tipo de eleitorado, como é exemplo o castiço Com esta agricultura não vamos lá, prefere não nos elucidar até onde é que vamos com todas aquelas duentes em baixa continuada mas não aposentadas…

21 junho 2011

HÁ SEMPRE UM MOMENTO GENUINAMENTE PIMBA NUMA GRANDE E LONGA CARREIRA

Pendurados nas motos com o freio nos dentes
Como cavalos de aço de raça
De escape livre e muito contentes
Guiando como loucos na brasa
Respeitável gente assustada a gritar
(Olha o maluquinho!)
Saltando sobre as pedras do chão
Passávamos semáforos sem nunca parar
Berrando p'rá cidade a canção:

Saca o saca-rolhas, abre o garrafão
Viver sem vinho não presta.
Saca o saca-rolhas, abre o garrafão
E vem fazer uma festa.
(2 X)

A praia estava cheia até à beira do mar
De malta escanhoada e barbuda
(Dá-me licença, dá-me licença?)
Mal a gente chegou foi um toca a nadar
Cada um com a sua miúda
Mas cedo se acabou o que se queria beber
Nem cola, nem cerveja à pressão
(ÁGUA!)
A lei seca na praia não pode acontecer
Oh, lá sai de mergulho a canção:

Saca o saca-rolhas, abre o garrafão
Viver sem vinho não presta.
Saca o saca-rolhas, abre o garrafão
E vem fazer uma festa.
(2 X)

Ficamos sobre a areia a ver a cor do sol-pôr
Falando do que nos dava na gana
(Sabes que a Manuela é uma cusca...)
Entre copos de vinho e palavras de amor
(Filha!)
Que duram só um fim-de-semana
(Tira-me a mão daí, filha!)
Voltamos à cidade em motocross feliz
Cada um com a sua pendura
Ninguém se magoou mas este por um triz
Acabar o Domingo com tintura.

Saca o saca-rolhas, abre o garrafão
Viver sem vinho não presta.
Saca o saca-rolhas, abre o garrafão
E vem fazer uma festa.
(2 X)

20 junho 2011

EUROPA: PERSPECTIVAS DE UM VERÃO A LEMBRAR O DE 1914

Aqueles que tiverem lido um livro como The Guns of August (Prémio Pulitzer de 1962) da autoria de Barbara W. Tuchman ou então conhecerem os detalhes do processo que acabaram por conduzir ao desencadear da Primeira Guerra Mundial em Agosto de 1914 poderão perceber as minhas preocupações com aquilo que se estará a passar ao nível das Finanças na Europa, que se arriscam a culminar num outro Verão que poderá ser tão quente (embora provável e felizmente menos sangrento...) quanto o foi o de há 97 anos atrás…
Os livros de História dizem-nos que a causa inicial para o desencadear da Guerra foi o assassinato em Sarajevo do Arquiduque Francisco Fernando (acima). Por acaso e como hoje, também então era um problema das periferias da Europa envolvendo a Bósnia e a Sérvia. O que é frequentemente esquecido é que esse incidente teve lugar a 28 de Junho de 1914 mas que a Guerra só eclodiu mais de um mês depois disso, no início de Agosto. Só depois da Guerra, é que os analistas propuseram razões por que o conflito não pudera ser evitado…
Na opinião de A.J.P. Taylor (acima), entre outros, fora a rigidez dos calendários de mobilização adoptados pelos exércitos das potências que acabara por retirar a flexibilidade e o tempo necessário para que os aparelhos diplomáticos pudessem trabalhar soluções para a crise. Ora é precisamente esse mesmo género de rigidez idêntica à de 1914 – neste caso não está a ser provocado pelos militares mas sim pelos financeiros – que poderá, como então, precipitar um desfecho da actual crise que será indesejável para todas as partes intervenientes…
É verdade que nem tudo é semelhante e comparável numa situação e noutra: é uma felicidade que desta vez não se registem os oito milhões de mortos que a Grande Guerra provocou. Mas, do ponto de vista estratégico, com este acumular de tensões, a Europa parece estar a caminhar a passos acelerados para uma possível convulsão interna que a poderá vir a transformar tanto ou mais do que aquilo que mudou no nosso continente entre 1914 e 1918… Onde serão tantos os Tratados porreiros, pá, porreiros que serão jogados para o lixo da História...

19 junho 2011

DONS DIVINATÓRIOS

A 9 de Abril passado o Expresso dedicou um punhado de páginas da sua revista a Estela Barbot (acima), qualificando-a de economista de sucesso e como a única conselheira portuguesa do FMI. Entre os comentários da respectiva página da notícia na internet, aparece um comentador registado (o oitavo) que, adoptando o pseudónimo de vassili zaitsev, adianta prescientemente: Ao ver a foto da Estela Barbot na CARAS continuo a acreditar que o Sr. STRAUSS KHAN tem bom gosto e fama de gostar de belas senhoras… Palavras proféticas a pouco mais de um mês antes de rebentar o escândalo Strauss-Kahn (abaixo)…
Além de conter uma insinuação potente sobre os critérios de selecção e recrutamento do FMI, o comentário chega a ser grosseiro com as suas dúvidas implícitas quanto à competência de Estela Barbot para ocupar aquele cargo. Seja como for, vassili zaitsev tem o crédito de ter antecipado os acontecimentos que vieram a abalar aquela organização. Ficará por saber se isso torna o anónimo vassili zaitsev num analista a ter em conta quanto ao que poderá acontecer ao FMI no futuro. Tomando por mim, a quem aconteceu algo de parecido, suponho que não. O meu caso começou com um poste há um mês atrás dedicado a Assunção Cristas (abaixo).
Entre o brincalhão e o simpático lá profetizei que, com aquele seu estilo muito próprio de ferocidade no feminino ela se arriscava a ir longe… E um mês depois ei-la em vias de ser empossada como ministra. Nos últimos dias este blogue tem sido muito visitado à conta do seu nome mas juro que não tive nada a ver com a escolha… Para isso, suponho que terão que falar com o Paulo Portas. Quanto a antever o sucedido, tratou-se de uma mera coincidência e não serei eu a alimentar aquela necessidade social, vinda desde a Antiguidade, de adivinhos, oráculos, profetas, arúspices, áugures e outros intérpretes do futuro (abaixo).
Essa necessidade de desvendar o futuro continua viva por aí, com os adivinhos promovidos a gurus da economia e das finanças. De súbito, aparecido não sei de onde e promovido por não se sabe bem por quem, o novo homem da situação que nos decifra como irá evoluir a situação financeira mundial chama-se Nouriel Roubini (abaixo). Há mais quem pense como ele? Há, mas ele é diferente. O que é que o destaca da concorrência? Foi ele que adivinhou o aparecimento da anterior crise financeira nos Estados Unidos. O que é que isso tem a ver com a eclosão da próxima crise? Não façam perguntas estúpidas, isto já está estúpido q.b. sem elas…

SE CALHAR, COMPREENDERAM. E OS RESULTADOS ELEITORAIS MOSTRAM A FORMA COMO REAGIRAM…

Eu, que tantas vezes aqui critico os jornalistas, gostava de saudar o rigor como foram sintetizadas as afirmações proferidas por Francisco Louçã, numa entrevista que deu à TSF, a respeito dos últimos desenvolvimentos políticos: o coordenador do Bloco de Esquerda admite que a atitude do partido não foi compreendida pelos portugueses.

Se mais provas forem necessárias que o BE é estruturalmente tão vetusto quanto o PCP elas estão aqui, nesta demonstração do leninismo trotskista de Louçã: é o partido que dirige o povo e quando há fiascos a culpa é sempre dos problemas de compreensão deste último… Que tal ser-se dialecticamente marxista e trabalhar internamente a hipótese que os portugueses se calhar compreenderam muito bem a atitude do partido? Tão bem que o sancionaram eleitoralmente retirando-lhe metade dos votos recebidos na eleição anterior?…

18 junho 2011

O QUE É REALMENTE NOVO ENTRE AS CÁBULAS DO CEJ

Muitas das reacções à história dos exames cabulados do CEJ parecem-me não ser mais do que uma daquelas indignações hipócritas, a pretender negar que os estudantes daquela instituição, pelas características do ensino ali ministrado, não se possam comportar com as fraquezas com que a natureza humana nos dotou a todos. Já conheci histórias bem similares e/ou assimiláveis, anunciadas com estrondo e indignação equivalentes na comunicação social, que se haviam passado em estabelecimentos, por exemplo, de ensino militar ou religioso.
Mas de estudos judiciários, que me recorde, esta é a primeira vez. É isso que me parece o mais importante desta história. É um sinal dos tempos que, tanto ou mais do que o poder militar ou de que o poder religioso, agora tenda a ser cada vez mais o poder judicial a estar sob o escrutínio crítico da comunicação social nem que seja a pretexto de práticas que, sendo condenáveis e desejavelmente sancionáveis, são de sempre e de todo o tipo de estabelecimentos de ensino – embora nem sempre com o mesmo nível de notoriedade mediática!...

MARIA DA LUZ

Às vezes, a qualidade de uma fotografia percebe-se logo nas primeiras fracções de segundo em que a vemos. Neste caso, Edi Weitz, um fotógrafo alemão de Hamburgo, consegue captar-nos num relance, ao nosso país e à nossa gente, onde reconhecemos instintivamente a nossa luz, a nossa organização (os barcos espalhados caoticamente pela praia) e o nosso lazer (a sesta do cão na areia). É um alemão que mostra compreender-nos e que, ao contrário de Fräulein Merkel, não se preocupará com os dias de férias a que teremos direito… E Maria da Luz acaba por se tornar num título porque tem de haver um, roubado do nome do primeiro bote à vista, que bem pode ter servido ou vir a servir de urinol do cão preguiçoso em lhe dando a vontade…

17 junho 2011

A VIDA INTELIGENTE ALGURES

A Vida Inteligente no Universo (acima), publicado originalmente em 1966, mas só traduzido para português vários anos mais tarde (1985), é um livro feito em colaboração entre o astrofísico ucraniano I.S. Chklovski (1916-1985) e o seu homólogo norte-americano Carl Sagan (1934-1996). Originalmente escrito totalmente por Chklovski, a que depois se adicionou a colaboração de Sagan, o livro foi à época um sucesso editorial, provavelmente não apenas pelo tema, mas também pelo carácter inédito de se tratar de uma colaboração entre dois cientistas dos dois eternos rivais da Guerra-Fria. Ao contrário de outras parecerias, a autoria do texto está sempre assinalada, com as colaborações de Sagan precedidas e sucedidas por um sinal (Δ) . Encontram-se no livro várias e engraçadas passagens entremeadas de sinais, no que parece ser fruto de uma feliz complementaridade de opinião entre os dois autores.

Será uma enorme presunção minha, certamente, mas lembrei-me de fazer algo de semelhante com o texto do artigo de hoje do Público de Vasco Pulido Valente, embora não propriamente no quadro de um’A Vida Inteligente no Universo, apenas de um’A Vida Inteligente em Portugal, numa transcrição do texto original daquele excelso comentador, a que adicionei as minhas pobres contribuições assinaladas numa cor distinta:
«Nas grandes crises aparece sempre em Portugal uma série de personagens típicas, para completar o melodrama e animar o povo. Com pequenas diferenças de estilo e de assunto, não mudaram muito de 1820 para cá. A primeira personagem da peça costuma ser o "patriota". Não custa a perceber porquê. O patriotismo não pede muito: nem saber, nem racionalidade, nem pretexto. Pede só fervor. O patriota sente, ou acha que sente: não precisa para nada de pensar. Basta que lhe venham à cabeça e à boca meia dúzia de eflúvios sentimentais como lhe poderiam vir sobre uma equipa de futebol ou uma pop star. Pode pôr um emblema na lapela, com uma bandeira de Portugal, para proclamar o seu orgulho na Pátria. Pode declarar, como declaravam operaticamente as divas românticas, que a desgraça provoca o seu amor e o seu heroísmo. E até pode exercitar a sua veia lírica, com uma ode ou discurso ao torrãozinho que o viu nascer. O indígena gosta destas cenas. Depois do patriota, vem o especialista. O especialista é do género lúcido ou do género "indignado". O especialista do género lúcido explica ao povo ignaro e surpreendido como tudo se fez mal, ou correu mal, neste infausto país, porque nunca ninguém teve o bom senso de lhe obedecer. Mas não deixa, por isso, de insinuar que este nosso pobre Portugal ainda vai muito a tempo de se corrigir, ouvindo com atenção os conselhos que ele generosamente não hesitará em lhe oferecer. O especialista de género "indignado" acusa, barafusta, protesta e ameaça; e também ele avisa que, sem a sua visão e clarividência, o abismo se aproxima. De qualquer maneira, cada especialista tem uma marotte: a pesca ou o círculo uninominal, o ensino ou o "emagrecimento do Estado", a saúde ou a exportação. Receitas não faltam, para qualquer gosto e para qualquer espécie de loucura. E finalmente, depois do especialista vem o turista. O turista comporta-se como se fosse um observador que analisa casualmente a cena de fora, que ele nem sequer parece ser de cá, está por aqui apenas de passagem. Anuncia-se fadado, lá do seu outro virtual país de origem, a mais altos voos. Entretanto, como se fosse um exercício preliminar, se calhar para nem levar totalmente a sério, malbarata algum do seu incontestável génio entre os indígenas mas, atenção, apenas entre os mais pretensiosos da espécie, que a sua prosa é exigente. É essa distinção entre a qualidade dos indígenas que lhes dão atenção que faz com que o turista se sinta personagem superior às outras (o patriota e o especialista), a ponto de se esquecer de se autonomear quando descreve o elenco das personagens típicas das grandes crises. Infelizmente, no meio desta trapalhada e deste poço de ciência, "patriotismo" e “clarividência”, os melhores cérebros do país passaram a semana inteira a tentar adivinhar se Pedro Passos Coelho ficava mesmo pelos dez ministros, como prometera, ou se por acaso (sob pressão do CDS) se atrevia a ir para além dessa fronteira mágica, perversamente arruinando o futuro de Portugal. Esta discussão, que esclareceu muito o espírito do indigenato, não adianta, nem atrasa. E, por muito que indigenato superior concorde e louve, como é costume, o que aqui se escreveu, há que reconhecer que este texto também não…»

Os meus agradecimentos pela segunda imagem e pela transcrição do texto
a João Gonçalves.

O OBSERVATÓRIO, OS OBSERVADORES E O TRATAMENTO JORNALÍSTICO «ISENTO» QUE TEM VINDO A SER DADO AO QUE É OBSERVADO

Por vezes surpreendo-me quando descubro o quanto este blogue envelheceu a ponto de começar a ter um arquivo. Quase precisamente há cinco anos atrás escrevia aqui sobre um Relatório de Primavera (para o ano de 2006) de um organismo intitulado Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) e passado um ano voltava a fazê-lo para a edição do mesmo documento de 2007. Em qualquer dos dois casos, eu chamava a atenção para como a controvérsia associada à publicitação mediática de alguns conteúdos de tais relatórios, que parecendo mostrar-se extremamente críticos quanto à actuação do titular da pasta da Saúde (à época Correia de Campos), podia ser facciosa, dado que por detrás dos Relatórios do tal Observatório, se descobria Constantino Sakellarides (abaixo), desde há muito um inimigo de estimação de Correia de Campos para a área da Saúde dentro das facções do Partido Socialista.
Valerá a pena adiantar que, em qualquer das duas Primaveras, os órgãos de comunicação social copiavam-se, papagueando uma súmula praticamente idêntica das críticas do Relatório sem por um instante aflorarem aquele pequeno pormenor que eu mencionara?... O que vale é que existe a História comprovando factos e incompetências jornalísticas. Neste caso foi rapidamente: em Janeiro de 2008 Correia de Campos demitiu-se do cargo sendo substituído por Ana Jorge. Será que alguém adivinha qual foi o empolamento mediático do Relatório aparecido seis meses depois, na Primavera de 2008? E qual a notoriedade consagrada pela comunicação social aos Relatórios editados em 2009 e 2010?... É isso: ou os relatórios perderam conteúdo ou o interesse da comunicação social pelo que continha esmoreceu subitamente por causas incógnitas – não terá sido certamente por uma melhoria abrupta da situação da saúde em Portugal!
Se Jesus Cristo ressuscitou ao terceiro dia, a atenção mediática (e a faceta crítica) socorrendo-se dos conteúdos dos Relatórios da OPSS ressuscitou ao quarto ano (2011). Em Junho deste ano, derrubado o governo socialista de José Sócrates e eleita uma nova maioria nas eleições do passado dia 5, a pretexto do Relatório do Observatório de 2011, as notícias da comunicação social aparecem de novo dotadas de um recuperado preciosismo de detalhes (e cabeçalhos!) muito pouco abonatórios para o SNS, como os 1288 dias de espera por uma consulta de urologia – e não outra especialidade qualquer… – num dos hospitais algarvios. Há quem responda e quem pretenda reagir. Muito bem! Se necessidade houvesse de comprovar o contínuo e descarado objectivo político (camuflado) da divulgação de tais Relatórios, repare-se que, desta vez, nas notícias não se faz mencão a Ana Jorge, por acaso a titular da pasta já há uns três anos e meio…