22 junho 2017

MOSSUL: A BATALHA URBANA QUE DURA HÁ MAIS TEMPO DO QUE ESTALINEGRADO


Já não é a primeira vez que falo do tema, mas a verdade é que nada aconteceu depois disso. Os meses passam, as proclamações da libertação de Mossul do controle das forças do Estado Islâmico sucedem-se com tal regularidade que se pode dizer mesmo que se acumulam, quais peças num cesto da roupa suja. Os órgãos de comunicação social de todo o Mundo continuam a retransmitir aquelas proclamações acriticamente como se os jornalistas não possuíssem cérebro nem memória. Se calhar não possuem mesmo, e é para ser mesmo assim, uma extensão da propaganda ocidental. Não o fosse e essa e tantas outras questões impertinentes pôr-se-iam a respeito de muitos outros assuntos que não somente o de Mossul. Por exemplo: que é feito, onde andam e que têm feito os dois porta-aviões que os Estados Unidos mobilizaram para as águas coreanas, ostensivamente para intimidar a Coreia do Norte? A verdade é que a intimidação não parece estar a dar efeito: mesmo com os dois porta-aviões à porta(?), os norte-coreanos devolveram um prisioneiro americano mesmo a tempo para que ele não lhes morresse nos braços. E aí, onde Donald Trump tinha razões para urrar de indignação, já havia gasto os seus estados de alma em tweets precedentes provocados por razões de lana caprina. Mas retornemos à Batalha de Mossul, a tal cidade do Iraque que anda a ser libertada há oito meses(!). Vai-se aos números publicitados e os atacantes dispõem de uma vantagem de efectivos de 10 para 1. Quanto a meios militares, é melhor nem falar. Mas quanto às promessas e proclamações elas já passaram do ridículo para o outro lado. Para comparação, a famosa Batalha de Estalinegrado da Segunda Guerra Mundial durou uns meros cinco meses e meio. Só que aí, sabe-se, havia raiva de um lado e outro, de atacar mas também de resistir, mesmo quando os papéis se inverteram. Neste caso, a suspeita é que, perante um tal arrastar dos acontecimentos, não esteja a haver grande vontade de atacar. Quando as televisões vão à «frente de combate» para captar imagens para a notícia que anunciará a próxima queda de Mossul para os iraquianos, dão-se uns tiros para o outro lado para que os repórteres filmem, mas dá toda a impressão que a ideia é que se está à espera que os gajos do Estado Islâmico se chateiem e vão mesmo embora sem que os soldados iraquianos tenham que combater. É essa a impressão, a de que do lado iraquiano ninguém está com vontade de se deixar matar por Mossul. A força do Estado Islâmico não será própria, advém é da fraqueza daqueles que o combatem. Mas, se a impressão estiver errada, aí convém que os jornalistas, em vez de ainda mais proclamações, comecem a filmar a ferocidade de combates que, pela duração da Batalha, ofuscarão decerto em ferocidade os que se desenrolaram em Estalinegrado.

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