31 outubro 2010

O CASO DO «WHISKEY ON THE ROCKS»

Ainda a propósito de um acontecimento de há uns dias atrás a que aqui me referi no fim-de- semana passado e que foi noticiado nalguns sítios com toda a incompetência imaginativa de descrever um submarino inglês a dedicar-se a uma abordagem – ainda que involuntária – de terras escocesas, lembrei-me de um outro incidente semelhante, mas muito mais sério, quando há 29 anos e também por esta época, um submarino soviético apareceu subitamente encalhado nas costas suecas, a cerca de dois quilómetros apenas da mais importante base naval daquele país
Sendo a Suécia totalmente banhada pelo Mar Báltico, convém relembrar como era a situação estratégica naquela região marítima em 1981, em plena Guerra-Fria. Dos oito países ribeirinhos, havia três que pertenciam à NATO (Noruega, Alemanha Ocidental e Dinamarca), outros três pertenciam ao Pacto de Varsóvia (Alemanha de Leste, Polónia e União Soviética) e mais dois assumiam-se como neutrais (Finlândia e Suécia). Ora um submarino de uma das facções a ser apanhado em flagrante a espiar um dos neutros não projectaria decerto uma imagem simpática dessa facção
Mas, por outro lado, o episódio também não enaltecia a eficácia militar dos suecos, porque o submarino estivera encalhado durante 18 horas a tentar sair da situação pelos próprios meios antes de alguns pescadores civis – apesar da proximidade da base… – terem dado por ele. Mas o aspecto ridículo e cómico da situação desapareceu subitamente quando uma frota de navios da Marinha Soviética acompanhando rebocadores se apresentou ao largo das águas territoriais da Suécia, mostrando a intenção de resgatar, eventualmente pela força, a unidade acidentada e a sua tripulação.
A intenção demonstrada pelos suecos de ripostar proporcionadamente a essa demonstração de força fez os soviéticos recuar perante um conflito militar que a sua diplomacia sabia que se tornaria num desastre de relações públicas à escala Mundial. Seguiu-se depois uma fase de intensas negociações entre as partes. Eliminadas as possibilidades de conseguir resgatar o submarino de surpresa ou à força, as vantagens estariam agora todas do lado sueco: era a parte ofendida e o passar do tempo corria a seu favor. Um dispositivo de segurança foi montado à volta do local do incidente…
Pertencendo o submarino a uma classe que na NATO fora baptizada com o código de Whiskey (baseada na letra W do seu alfabeto fonético), o episódio acabou por ganhar na rede noticiosa mundial a alcunha de Whiskey on the Rocks por trocadilho com a popular bebida de whisky simples com gelo. Depois da situação se arrastar por dez dias, a Suécia acabou por autorizar que o submarino fosse desencalhado do local onde ficara para depois ser rebocado para alto mar sob sua supervisão. A data era 7 de Novembro de 1981 e os soviéticos festejavam o 64º aniversário da sua Revolução...

MANHÃ DE DOMINGO

Ainda na mesma onda de ontem inspirada nos Supertramp, parece apropriado para esta manhã de Domingo ouvir-se It's Raining Again (Está a chover outra vez) de 1982.

30 outubro 2010

A VIDA DE GERBERTO DE AURILLAC

Gerberto de Aurillac foi muito possivelmente a figura intelectualmente mais proeminente da Europa do Século X. Nasceu entre 940 e 950, muito provavelmente de uma família de origens humildes mas conseguiu ser educado no Mosteiro beneditino de São Geraldo em Aurillac, próximo do local onde nascera, na região do Auvergne, no Centro-Sul de França. Terá sido em 967 que Borrell II, o Conde de Barcelona, de passagem pela Abadia descobriu aquele jovem promissor e integrou-o na sua comitiva.

Durante os dois ou três anos seguintes, Gerberto aproveitou a sua estadia no Mosteiro (também beneditino) de Santa Maria de Ripoll na Catalunha para estudar algumas das disciplinas técnicas como a matemática e a astronomia que, na cultura árabe, estavam então mais avançadas do que as suas congéneres no mundo cristão ocidental. Em 970 Gerberto partiu com Borrell II em visita a Roma, onde acabou por impressionar e ficar, primeiro integrado na corte do Papa João XIII, depois na do Imperador Otão I.

Já então com uma reputação firmada como professor de matemática, astronomia, lógica e retórica e próximo dos poderosos do Ocidente, Gerberto mudou-se em 972 para Reims, na região da Champanhe, no Norte da França, onde continuou a ensinar, acumulando com as funções de secretário de Adalbero, o poderoso Arcebispo local. Daí, até à data da morte deste em 989, Gerberto foi um dos especialistas em manobras políticas da época, incluindo a eleição em 987 de Hugo Capeto como Rei de França¹.

Apesar das enormes ambições de Gerberto de Aurillac, o sucessor de Adalbero como titular da arquidiocese de Reims acabou por ser Arnulfo que, como filho ilegítimo de Lotário IV, possuía ascendência real. Contudo, Arnulfo veio a ser deposto através de um Sínodo de Bispos, organizado por Gerberto em 991 que, sem surpresa, acabou por recomendar este último para o substituir no cargo. O Papa João XV envolveu-se na disputa, promovendo um outro Sínodo que anulou as manobras de Gerberto.

Despojado do cargo, Gerberto resolveu aproximar-se da corte imperial, cujo titular era então o jovem Otão III (nascido em 980) de quem se tornou um dos professores. E depois daquele Imperador ter forçado a eleição do seu primo direito Bruno de Kärnthen como Papa, Gregório V (996-999), e depois deste ter morrido de uma forma misteriosa(...), Gerberto de Aurillac viu-se finalmente eleito em Abril de 999 como o primeiro Papa francês, com o nome de Silvestre II. Veio a falecer em Maio de 1003.
Se contei a história da vida de Gerberto de Aurillac desta forma e escolhi o título que lhe dei, foi para distinguir duas formas, uma muito mais correcta que outra, de estruturar uma biografia. É a da carreira de alguém de origem modesta mas muito inteligente, ambicioso e sem escrúpulos que chegou a ser Papa. Mas se a perspectiva fosse apresentada como a biografia de Silvestre II, a história tenderia a ser regressiva e justificativa de uma carreira que sabíamos de antemão culminaria com o seu Pontificado...

¹ Iniciando uma dinastia que iria reinar ininterruptamente em França até 1789.

... É A CRISE


Crisis? What Crisis? (Crise? Qual Crise?) foi um disco dos Supertramp editado em finais de 1975. Enquanto escrevo, a cerimónia da assinatura formal do Acordo do Orçamento com Teixeira dos Santos e Eduardo Catroga, que foi marcada para as 11H00 de hoje, encontra-se ligeiramente atrasada em quase uma hora. Tanto pior, quando creio ser importante para aqueles dois protagonistas transmitirem publicamente - tanto para a opinião pública portuguesa como para os mercados!... - uma imagem de rigor... a começar pela pontualidade. Apropriadamente, a música daquele disco que seleccionei intitula-se A Soapbox Opera (Uma Novela)...

29 outubro 2010

OS RESULTADOS DO TOTOBOLA ou SE O ENGENHO FOSSE METADE DA ESTUPIDEZ HUMANA

Se calhar, muitos dos que lêem este blogue não sabem que outrora houve um jogo muito popular conhecido por Totobola (acima). Eram treze jogos e assinalava-se com um 1, um X ou um 2 as nossas previsões daquilo que seriam os resultados da próxima jornada futebolística do fim-de-semana. O 1 era o código para a vitória da equipa que jogava em casa, X para o empate, 2 para a vitória da equipa forasteira. Lembro-me de há muitos anos ter discutido as probabilidades de conseguir zero resultados certos, que alguém dizia ser tão difícil quanto acertar todos os jogos, o que é matematicamente falso. Havendo três respostas possíveis para cada jogo, a probabilidade de errar é sempre dupla da de acertar.

Contudo, os resultados práticos não se distribuíam assim (i.e. numa proporção dupla de zeros por cada treze) porque, embora o português médio não saiba nada de Cálculo de Probabilidades, percebe sempre de futebol o que o faz acertar um ou outro joguito… De qualquer modo e pela vida fora, sempre fiquei com aquela proporção de referência: que felicidade se ao menos o nosso engenho e inteligência representasse metade daquilo que por aí vemos como expressões da estupidez humana… Tomemos o exemplo da fotografia de baixo e perguntemo-nos o que terá pensado quem concebeu e executou a obra. Para quem se destinam aqueles mictórios? Para utilizadores que tenham duas pilas?

28 outubro 2010

TAKA TAKATA

Os postes também podem ser como as cerejas. O de ontem, a respeito do desaparecimento da marcialidade das Forças Armadas japonesas depois da Segunda Guerra Mundial, torna-se hoje o pretexto para a apresentação de um dos seus membros mais conhecidos (muito embora o seja muito mais na Europa do que propriamente no seu país natal…): o soldado Taka Takata (acima).
Taka Takata é uma criação do desenhador belga Jo-El Azara. Já aqui me referira a ele há coisa de dois anos, quando escrevera sobre a sua compatriota Yoko Tsuno. Míope, desajeitado e ingénuo, Taka Takata é a negação do que se deseja num recruta. Nascido na década de 60, as suas histórias iniciais bem poderiam passar pelas desventuras de um hippie japonês que tivesse assentado praça…
Concebido originalmente para aparecer sobretudo em gags de uma página (os do poste podem ser aumentados), os temas foram evoluindo de um ambiente estritamente castrense onde o Coronel Rata Hôsoja representava a encarnação do espírito militar (o gag inicial), para uma questão filosoficamente mais vasta: a relação de Taka Takata (e a de todos nós…) com as novas tecnologias…
O efeito cómico dos incidentes acentuava-se porque naqueles anos o Japão orgulhava-se de representar a vanguarda tecnológica do Mundo… Depois os autores resolveram estender as proezas de Taka Takata para histórias mais complexas de várias pranchas, com um conteúdo mais fantástico. Também este leitor também terá evoluído... A minha relação com o herói esfriou substancialmente.

27 outubro 2010

BANZAI!!! ou O ESQUECIMENTO DO ESPÍRITO DE SACRÍFICIO

À letra, 万歳 (Banzai!!!) quer dizer dez mil anos. Esses dez mil anos era, implicitamente, a duração que se desejava que fosse o reinado do Soberano, naquelas formulações de votos de cariz reconhecivelmente asiático pelo seu excesso, voto que hoje está indissociavelmente associado ao Japão, especialmente ao período da Segunda Guerra Mundial (acima e abaixo), mas que afinal se descobre ser de origem chinesa e milenar
E a carga negativa adquirida por aquela saudação, entretanto tornada um grito de guerra, tem a ver com o facto do grito ser usado pelos soldados japoneses quando carregavam em ataques frontais nas fases finais dos combates, quando a sua derrota era iminente, e quando, para os seus inimigos naquele conflito, já não fazia qualquer sentido táctico prolongar a resistência, e só aumentava as baixas dos dois lados.
Dez anos depois do fim da Guerra (1955), reencontramos abaixo recrutas da mesma extracção dos de cima, mas agora equipados com uniformes e armamento norte-americano (como a M-1 Garand) em exercícios no quadro da preparação das Forças Terrestres de Auto Defesa do Japão. No entretanto, algo se perdera, pois os próprios comandantes se queixavam da falta de espírito combativo destes novos recrutas…

26 outubro 2010

OUTRA NOVIDADE...

Ele há coisas na política portuguesa que continuam a ser tão imprevisíveis quanto as rotinas dos passeios higiénicos do Dick, o tal cão-lulu da minha vizinha… Se outro dia me referi ao voto inesperado de Louçã contra o Orçamento; hoje calha a vez a Cavaco Silva que, depois de ter reflectido muuuito, dispõe-se a cumprir mais um mandato presidencial…
Escrevendo agora a sério e referindo também a sério a Revisão da Constituição vale a pena evocar a última vez que um Presidente se apresentou à reeleição e houve uma disputa eleitoral a sério: foi em Dezembro de 1980, há quase 30 anos atrás... Valerá a pena manter este regime de duração e renovação de mandatos para a função presidencial?

A ENTREVISTA FATAL

Serão muitos os casos em que um político danifica irremediavelmente a sua carreira numa aparição televisiva. Contudo, quando acontece, é muito mais frequente que o episódio se registe num qualquer país desenvolvido e só muito raramente num dos países do Terceiro Mundo. Em 1963 então, creio que uma situação dessas entre estes segundos seria mesmo inédita. E, a acrescer a isso tudo, é ainda mais estranho quando a causadora dos estragos não se trata de um dos responsáveis políticos do regime mas apenas de um dos membros da sua entourage social: a primeira-dama. É completamente bizarro, mas o regime sul-vietnamita dos irmãos Ngô (1955-63, acima o Presidente Ngô Đình Diệm) era mesmo assim…
Um nacionalista conservador, oriundo de uma das famílias das elites vietnamitas, Ngô Đình Diệm havia-se tornado na aposta norte-americana para a construção de um regime adequado para o Vietname do Sul, depois da divisão do país resultante da assinatura dos Acordos de Genebra de 1954. Os Ngô funcionavam como um clã de irmãos. Ngô Đình Thục, um dos irmãos, era Arcebispo de Hué, porque os Ngô professavam o catolicismo num país que era maioritariamente budista. O cristianismo aparecera no Vietname no Século XVI, portanto muito antes do domínio colonial francês (Século XIX). Era uma religião minoritária mas sem o estigma da origem colonial e, sobretudo, era uma religião socialmente selectiva…
Era por ser um católico devoto que Ngô Đình Diệm nunca se casara e que as funções de primeira-dama do Palácio em Saigão foram entregues a uma cunhada, Trần Lệ Xuân, a esposa de Ngô Đình Nhu, o irmão encarregue de gerir a ala política e os pretorianos do regime. Como se percebe pelas fotografias do poste, a primeira-dama (que ganhou a designação – e incorrecta¹ – de Madame Nhu) era uma daquelas personalidades riquíssimas em termos mediáticos, com aquela capacidade de se tornarem notícia por causa nenhuma, como – para quem ainda se lembra – a colecção de milhares de sapatos de Imelda Marcos ou, actualmente, as aparições a pretexto de não-sei-bem-o-quê de Paris Hilton.
A partir de Maio de 1963, o regime dos Ngô entrou em choque (talvez com o incentivo dos próprios norte-americanos...) com a comunidade religiosa budista. A propósito desses confrontos, produziu-se uma das fotografias mais impressionantes da Guerra do Vietname com o monge Thích Quảng Đức a imolar-se (veja-se aqui). Foi a ocasião escolhida para a opinativa Madame Nhu enterrar definitivamente a imagem do regime do marido e cunhados junto da opinião pública norte-americana ao comparar o gesto a um churrasco (barbecue) ainda por cima feito com gasolina que tivera de ser importada! Quando o regime foi derrubado e os Ngô assassinados (em Novembro de 1963), a América já fora preparada...
Comprovando o ditado popular que diz que só quem não presta é que é feito para durar, hoje com 86 anos, Madame Nhu continua por aí…

¹ O nome de família do marido é Ngô, portanto correctamente deveria ser Madame Ngô.

25 outubro 2010

UM ESCÂNDALO NA CASA REAL DO SÉCULO IX

Ainda na embalagem das vicissitudes que acompanharam as opções matrimoniais de Carlos de Windsor (1947- ), Príncipe de Gales (acima), e que transformaram Diana, a primeira mulher, na boazinha de uma complicada história que só na aparência era de fadas e Camilla, a segunda, referida no poste anterior pelo seu notório azar, na megera desse enredo, aproveito para recordar como, em matérias de escândalos reais, os que conhecemos dos jornais por estarem associados ao folhetim referido, acabam por ser trocados se comparados com alguns outros do passado.

Escolhi um protagonista um tanto obscuro, um soberano do Século IX com o nome incomum (quem gostar deles vai ficar bem servido com esta história…) de Lotário II (abaixo, 835-869) que, por sua vez, era um dos bisnetos do Imperador Carlos Magno (742-814). Como Carlos de Windsor, também Lotário teve na juventude uma eleita do seu coração chamada Waldrada (de quem teve aliás um filho: Hugo) mas, por razões de estado, casou com Teutberga do clã dos Bosónidas. O problema que se pôs a Lotário é que Teutberga não lhe dava a descendência de que ele necessitava…
Assim sendo, o soberano resolveu anular o seu casamento com Teutberga para se casar com Waldrada, legitimando retrospectivamente Hugo. O episódio tem interesse histórico porque se trata de uma das primeiras ocasiões em que o poder espiritual em ascenção do Papado – no caso representado por Nicolau I – se consegue opor com sucesso às intenções de um monarca. Mas o que nos interessa aqui é pegar no assunto pelo mesmo lado com que os tablóides (caso eles existissem na altura…) o fariam: as justificações de Lotário II para fundamentar o seu pedido de anulação.

Segundo essas acusações, Teutberga havia praticado sexo anal com o próprio irmão Huberto (o Abade – laico – de uma das famosas abadias carolíngias, a de Saint-Maurice-en-Valais), em consequência disso tinha engravidado (através de feitiçaria, precisava a acusação…) para posteriormente vir a abortar o feto daí resultante. Ou seja, cometera logo três pecados mortais: incesto, sodomia e infanticídio! Estão a imaginar como seria a primeira página do Correio da Manhã desse dia de 863?... Que poderia valer um banal caso de adultério quando comparado com isso?

24 outubro 2010

PÉ-FRIO

Uma das notícias do momento é a do mais moderno submarino nuclear britânico que encalhou embaraçosamente quando recolhia de forma rotineira à sua base naval na Escócia depois de ter participado no desfile naval com que todos os anos a 21 de Outubro os britânicos celebram a sua Vitória de Trafalgar há 205 anos atrás… E, embora não o tivesse visto ainda noticiado (que os tablóides pouco ligam a estes incidentes), há que concluir como há pessoas que têm mesmo azar, são aquilo que os brasileiros chamam de pé-frio… Não é que a madrinha do submarino azarado, o HMS Astute, que entrou ao serviço da Royal Navy¹ a 27 de Agosto passado, é a controversa Camilla, Duquesa da Cornualha (abaixo)?
¹ Por ignorância, o i noticia que o submarino foi lançado ao mar em Agosto (de 2010). Mas esses são apenas um par de erros menores no ror de disparates que encontrei escritos a propósito desta notícia. Qualquer coisa de fazer orgulhar a classe dos jornalistas!

Assim, para o jornalista do Sol um submarino nuclear da marinha inglesa está envolvido num acidente na costa da Escócia, descrevendo o que poderia ser interpretado como um potencial caso de Guerra entre as marinhas inglesa e... escocesa. O que escreveu a notícia para a TVI24 também não sabe a distinção entre inglês, escocês e britânico e preferiu até dar destaque a essa possibilidade de guerra civil escolhendo para título Submarino nuclear inglês encalha na Escócia. Mais: pela descrição que fez, tratar-se-á de um submarino bizarro, com o formato de um cabo metálico grosso com cerca de 7,8 toneladas (7.800 na realidade...) e 100 metros de comprimento. Quem redigiu a notícia para a Euronews também se destacou pelos sua ignorância técnica: Um submarino nuclear da marinha inglesa, idêntico ao que vemos nas imagens, encalhou no noroeste da Escócia (o HMS Astute é o único submarino da sua classe, não existe nenhum idêntico…) ou então o submarino HMS Astute pertence à nova frota de submarinos britânicos com reactor nuclear (a Royal Navy têm submarinos movidos a energia nuclear desde 1963...).

Voltando aos erros iniciais cometidos pelo jornal i, o HMS Astute foi lançado à água (e não ao mar…) em Junho de 2007 e não em Agosto de 2010, altura em que entrou ao serviço da Royal Navy. Mas, comparado com o panorama acima, será que podemos exigir ao jornalista Gonçalo Venâncio que ele tenha que saber que qualquer navio de guerra, entre o lançamento e a entrada ao serviço, é submetido a um prolongado conjunto de testes que se podem prolongar por anos? Eu creio firmemente que sim, mas como parece haver por aí tanta condescendência por aqueles jornalistas medíocres mas aplicados

O HOMÍCIDIO INDUSTRIALIZADO

Não é coincidência que, nas respectivas cenas, Sonny Corleone em O Padrinho de 1972 (acima) morra de maneira idêntica à de Bonnie e Clyde no filme homónimo de 1967 (abaixo): metralhados e totalmente crivados de balas conjuntamente com os automóveis em que se deslocavam. É uma forma porventura ritualizada de representar a América daquela época, tão desenvolvida e industrializada nos meios de locomoção como nos de homicídio, que parecia dispensar venenos, punhais ou até mesmo revolveres e caçadeiras de dois tiros...

23 outubro 2010

SOUL BOSSA NOVA


Composta no longínquo ano de 1962 por Quincy Jones, esta música intitula-se Soul Bossa Nova mas não deve nada à verdadeira Bossa Nova. Tem, porém, um ritmo castiço e uma orquestração estruturada num diálogo entre instrumentos (que, pelo seu tipo, parecem ser um interlocutor masculino e outro feminino) o que torna a música cativante. Mas nunca terá a força necessária para se tornar numa música simbólica da década de 60, mais uma das razões, de resto, para, ao ser escolhida como a banda sonora identificativa dos filmes de Austin Powers, estes nunca terem sido o sucesso que deles se esperou.

22 outubro 2010

TRINTA MESES CRUCIAIS

Hoje, os Sinais de Fernando Alves na TSF foram dedicados a Guillermo Fariñas, o dissidente cubano recentemente galardoado com o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu. Vale a pena ouvi-las, a esses Sinais e às críticas nele contidas. Mas vale a pena ouvi-los com memória. A memória de uma outra crónica do mesmo autor, também transmitida naquela mesma emissora em 18 de Abril de 2008 que me impressionou pela maneira ingénua como desculpabilizava o regime cubano, a ponto de me ter motivado a escrever um poste a esse respeito.

É de registar positivamente esta inflexão na opinião de Fernando Alves e é importante referir que nunca é tarde demais para se mudar de opinião e que este será um dos casos em que apenas os idiotas é que não o fazem. Contudo, o que gostaria que Fernando Alves me explicasse, caso leia este texto, é o que considera que aconteceu em Cuba desde Abril de 2008, i.e. de há trinta meses para cá, que fosse assim tão importante e que não tivesse acontecido nos quarenta e nove anos anteriores que já levava então o regime cubano quando da crónica original?...
Ou então, terá havido Sinais que lhe terão então escapado?...

AS MÃOS LAVADAS DE PILATOS

O meu Reino não é deste Mundo. Dada alegadamente por Jesus Cristo a Pôncio Pilatos há 2000 anos atrás, não parece que esta explicação possa fazer parte de qualquer Manual da Ciência Política. E, pela mesma lógica, as afirmações prestadas por Francisco Lopes ao jornal i de hoje também não deveriam ser: País comunista não há nenhum no mundo. Nem nunca houve. (…) o que tem havido são experiências e processos de construção de socialismo. Tenho uma concepção muito clara do que é o ideal comunista.

Pelos vistos, depois de mais de 70 anos em que ele, Francisco Lopes, e os seus camaradas se mostraram apoiantes incondicionais e acríticos do modelo russo dessas experiências e processos de construção de socialismo, podemos assistir agora a um retrocesso na sua argumentação, que é digno de se comparar com a dos antigos padres de paróquias rurais, onde o Comunismo, tal qual as descrições do Paraíso desses padres, se transformou numa daquelas sociedades etéreas ideais… É uma bela forma de, como Pôncio Pilatos, lavar as mãos de algum passado

A EVOLUÇÃO

Encontrei no You Tube este vídeo da primeira metade dos anos 70, com um trecho de uma reportagem feita provavelmente ainda antes do 25 de Abril e protagonizada pela jornalista Maria Margarida a respeito do trânsito caótico e diabólico de Lisboa. Perguntadas a algumas pessoas qual, na opinião delas, seria a medida a adoptar para a melhoria do trânsito na cidade, somos surpreendidos pela reacção de alguns dos entrevistados que confessam, pura e simplesmente, que não sabem… E à primeira vista, como também me aconteceu, é-se levado a pensar: como a sociedade evoluiu!…

Mas depois, vale a pena reflectir e perguntarmo-nos se a nossa sociedade terá evoluído assim tanto, a ponto daqueles que não têm uma opinião sobre um assunto tenderem a ter desaparecido de todo... Ou será que foi a evolução, mas a do jornalismo e da informação, que os fez desaparecer da imagem que os órgãos de comunicação dão da sociedade actual? Aplicado àquele caso em concreto, hoje, as entrevistas com pessoas sem opinião não se perderiam todas na mesa de montagem? E a Maria Margarida não seria mandada outra vez para a rua entrevistar mais pessoas que achassem?...

21 outubro 2010

O CARUNCHO NA MADEIRA


O vídeo acima é um trecho de um episódio da série Yes, Prime Minister intitulado O Patrono das Artes. Depois daqueles jogos de subentendidos entre gressinos e dotações orçamentais que ali vemos, o sempre dúplice Sir Humphrey Appleby municia o interlocutor com um bom punhado de histórias aquelas despesas absurdas que são (infelizmente) inerentes a qualquer grande máquina burocrática:

(…) o Governo gastou cinco milhões em equipamentos de radar para um projecto de um avião de combate que já fora abandonado (…) deu(-se) ao luxo de armazenar etiquetas que dão para mil anos de consumo (…) tem em armazém um milhão de embalagens de Vim (…) para não falar nos mil milhões de libras despendidos no sistema de patrulha e alerta aéreo imediato Nimrod.

Como acontece com os preços concertados das gasolinas em Portugal, também há notícias onde, apesar de ser óbvio perceber como se formam (resultam de fugas de quem de dentro tem acesso a informação privilegiada), se não houver flagrante delito nada se consegue provar quanto à origem. Foi o caso de uma notícia do Diário de Notícias sobre a extinção de organismos anunciada há uns dias pelo Governo.

Como o fez Sir Humphrey mais acima, quem forneceu os dados da notícia ao jornalista Rui Pedro Antunes (que é quem aparece a assinar a notícia) mostra nitidamente saber do que está a falar. Tal qual está redigida, realçando as suas contradições e absurdos, a notícia arrasa o anúncio governamental e também quem o protagonizou (Teixeira dos Santos). Parece um daqueles preocupantes casos de caruncho dentro da madeira. Mau sinal...

A DIALÉCTICA DA MOTORIZAÇÂO AUTOMÓVEL

Em 1908, ao mesmo tempo que Henry Ford começava a produzir na sua fábrica o seu famoso Ford Modelo T, Vladimir Lenine estava no exílio a escrever a sua obra Materialismo e Empririocriticismo. E enquanto o primeiro passou a década seguinte a reduzir os custos de produção do seu produto, reduzindo-lhe o preço e assim popularizando o seu consumo, o segundo dedicava-se a explicar as razões para a ausência do fracasso do primeiro (conforme Marx previra...) em obras como O Imperialismo, fase superior do Capitalismo (1916).

Essa pode ser a razão, fundada nesta análise marxisma-leninista científica, para que a União Soviética nunca se tenha aplicado seriamente em investigação num sector industrial tão importante quanto o da construção automóvel. A consequência é que, durante décadas e décadas, e conforme se pode observar pelas imagens abaixo (clicar para as ampliar - elas podem analisar-se dialecticamente entre o original da esquerda e a versão socialista da direita), o socialismo limitou-se a copiar aquilo que o capitalismo concebera…

20 outubro 2010

BOOKENDS


Time it was, and what a time it was, it was

A time of innocence, a time of confidences

Long ago, it must be, I have a photograph

Preserve your memories, they're all that's left you

A canção dura menos de minuto e meio mas são noventa segundos memoráveis…

19 outubro 2010

A NOVIDADE

Há uma vizinha minha que tem um daqueles cães formato lulu com um daqueles nomes inglesados. O cão tem por norma, sempre que sai à rua, mijar na base do candeeiro que fica em frente de minha casa. E esse hábito não deveria constituir notícia local, não só porque a mijadela de um cão não é notícia, mas sobretudo porque o cão mija sempre naquele sítio quando por lá passa. Pela mesma lógica, haverá alguma outra razão especial para se dar tanto destaque (56 notícias!) e desenvolvimento ao anúncio do futuro voto contra o Orçamento 2011 por parte do Bloco de Esquerda, decisão que é tão previsível quanto uma mijadinha do Dick?...

A FICÇÃO E A REALIDADE (OUTRA VEZ)

Para não me repetir, remeto quem me leia para um poste que aqui escrevi há uns três anos descrevendo o enredo de A Caçada, um álbum que é uma obra-prima da BD da autoria de Enki Bilal e Pierre Christin. E em baixo aprecie-se uma fotografia real em que, como na história de A Caçada, se reúnem os líderes comunistas numa estância de férias, neste caso em Sóchi junto às costas do Mar Negro, em Junho de 1973:

Da esquerda para a direita pode-se identificar (clicar para ampliar) Todor Jivkov (Bulgária), Nicolae Ceauşescu (Roménia), Edward Gierek (Polónia), János Kádár (Hungria), Gustáv Husák (Checoslováquia), encoberto não identificado, Leonid Brejnev (União Soviética), Erich Honecker (Alemanha Democrática), Yumjaagiin Tsedenbal (Mongólia) e Andrei Gromiko (Ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética)

18 outubro 2010

A FICÇÃO E A REALIDADE

Por causa de um episódio recente, lembrei-me de um serão no princípio da década de 70 em que a RTP transmitiu um filme israelita. O que inicialmente me prendeu a atenção foi o genérico e o exotismo do alfabeto hebraico (acima) com as letras dispostas ao contrário – lê-se da direita para a esquerda. Depois, a história do filme, que tive de ir agora investigar como se chamava (O Canal Blaumich - תעלת בלאומילך ) envolveu-me. Tratava-se de uma comédia, embora sóbria e de um humor subtil. Um internado com uma compulsão para escavações escapa de um asilo de Tel-Aviv e, apoderando-se de uma perfuradora hidráulica, começa a fazer um enorme buraco bem no meio de uma das avenidas mais movimentadas da cidade.

O buraco foi aumentando em pleno dia no meio de um vazio de responsabilidades das autoridades municipais sobre a quem se devia atribuir a responsabilidade daquela obra (legal pois claro!, não estava a ser feita à frente de todos?) até que, contando já com o auxílio da polícia para gerir o caos no trânsito e aumentado com os próprios meios municipais, ele acaba por se transformar num enorme canal depois de ser invadido pelas águas do Mediterrâneo. No final da história, estando-se em ano de eleições municipais, a edilidade prefere não se dar por achada e acaba por inaugurar o buraco que está agora cheio de água proclamando ter transformado Tel-Aviv na nova Veneza do Médio Oriente!…
Por causa daquele filme, passei a prestar uma outra atenção àqueles buracos que, entre nós, se cavam casualmente pelas ruas ou à beira da estrada para instalar nunca se sabe muito bem o quê, assim como à razoabilidade dos vários sinais de trânsito que ali se costumam colocar limitando a velocidade a uns ridículos 20 ou 30 km/h (que ninguém cumpre) ou então aos gradeamentos condicionando os acessos dos peões e automóveis a espaços públicos num ambiente auto-gestionário. É uma actividade que se adivinha regulamentada por toneladas de legislação mas onde as evidências nos mostram que o poder caiu literalmente à rua – ou mesmo para debaixo dela no caso das escavações mais profundas…

O episódio recente a que me referi acima foi o de uma expedição clandestina de um grupo que a EMELessa inimiga pública da sociedade!... – denominou de vândalos, que marcaram numa noite todos os lugares de estacionamento dum parque da baixa de Lisboa como reservados para deficientes (abaixo). O gang pecou por excesso e exuberância. Porque ninguém tem dúvidas que, se lá tivessem ido de dia, com uns papéis forjados, com um engenheiro (i.e., alguém de fato e gravata e um capacete industrial na cabeça…) a chefiá-los e se tivessem limitado a pintar umas três ou quatro cadeirinhas, ninguém teria dado por nada e, se instada, ainda poderíamos ter o bónus da EMEL se orgulhar da sua atenção para com os deficientes…

17 outubro 2010

A HISTÓRIA ALTERNATIVA DA GUERRA DO VIETNAME

Datada dos inícios da década de 60, a fotografia acima mostra-nos um Vice-Presidente Lyndon Baines Johnson (LBJ) gesticuladamente irritado com alguém enquanto o próprio Presidente John Fitzgerald Kennedy (JFK) o tenta acalmar. Ao contrário da História propriamente dita, a especulação a ela associada não tem regras e é por isso que me permito usar esse instantâneo para me arriscar concluir que, se o atentado de Dallas em 22 de Novembro de 1963 não tivesse sido bem sucedido e o primeiro (LBJ) não tivesse assumido as funções do segundo (JFK, abaixo), o envolvimento norte-americano no Vietname¹ bem poderia ter tido uma evolução completamente diferente…
¹ Veja-se neste blogue a série DO VIETNAME PARA A ÁFRICA PORTUGUESA: (1), (2), (3), (4), (5), (6) e (7) e Anexos (1), (2) e (3)

16 outubro 2010

TV NOSTALGIA – 53

Aí por meados dos anos 70 a RTP apareceu a transmitir esta série sobre magia que se intitulava Trick and Treat with the Magic Hands. Num mini-episódio de duração inferior a cinco minutos, além de se apresentar um truque de magia, depois explicava-se como é que ele era feito. Mas o que mais atraía na série era, não só a cantilena infantil do genérico, mas também o facto da apresentação ser feita por um par de mãos gesticulantes – as tais mãos mágicas (acima).

Este meu poste ficar-se-ia por aqui, mais um da extensa série que tenho dedicado a estas nostalgias televisivas, não se tivesse dado o caso de ter assistido hoje à conferência de imprensa da apresentação do Orçamento feita por Teixeira dos Santos. Pelo que se tem vindo a passar e pelo que lá se passou, e independentemente da dureza das medidas que há que aceitar, eu tenho mais confiança nas mãos mágicas do que nos truques explicativos de Teixeira dos Santos…

SETE MARES


De vez em quanto aquela malta das bandas acertava – embora não me esteja a referir neste caso preciso ao vocalista… – e saíam músicas cheias de alma – apesar da interpretação… Sete Mares, os Sétima Legião.

15 outubro 2010

SINAIS DOS TEMPOS

Marina Costa Lobo esteve na plateia do Prós e Contras desta semana. E escreveu sobre essa estadia. Como a certa altura se lembrou de ter pensado «que se Portugal sobreviveu a oito anos daquele senhor como Presidente da República (Ramalho Eanes) numa altura tão conturbada então tem mais capacidade de resistência do que» ela pensaria. Apetece confrontá-la com as opções disponíveis nas eleições presidenciais de 1976 – teria então a Marina quatro anos… Abaixo, numa imagem do debate televisivo algo esborratada podemos adivinhar, da esquerda para a direita, Otelo Saraiva de Carvalho, Octávio Pato, o moderador Joaquim Letria, Ramalho Eanes e Pinheiro de Azevedo...
Em contrapartida, e continuando a seguir a opinião da politóloga, «Jorge Sampaio foi talvez quem esteve melhor nas suas intervenções». Permitam-me o aparte de comentar como é bom que Jorge Sampaio se continue a esmerar nas suas intervenções depois de abandonar a presidência, porque a análise dos anos em que a exerceu é mesmo para dar graças por não ter sido preciso testar seriamente a capacidade de resistência do país… Em retrospectiva, eu consigo encontrar uma panóplia de argumentos racionais que ainda justificam hoje o voto em Ramalho Eanes em 1976. Mas o que consigo encontrar são sobretudo causas emocionais para que Jorge Sampaio tivesse vencido em 1996 contra Cavaco Silva