12 outubro 2010

A PROPÓSITO DE MAIS ESTE NOBEL

O Mundo ficou a saber que Professor Peter A. Diamond é um dos três galardoados com o Prémio Nobel da Economia de 2010 (acima) e, subitamente, tornou-se um absurdo descobrir que o recém-galardoado aguarda há uns meses que a sua nomeação para se tornar num dos Governadores da Reserva Federal norte-americana seja confirmada pelo Senado… A proeza (que bem arrependido agora deve estar dela…) é de um Senador republicano eleito pelo Alabama chamado Richard Shelby, que acabou de adquirir uma brusca notoriedade à Bernardino Soares, quando se relembrou a opinião que emitiu há cerca de dois meses sobre Peter Diamond: era um «economista qualificado» mas que podia não estar devidamente habilitado para tomar decisões sobre política monetária…
Eu bem sei como são raras e preciosas as ocasiões em que um imbecil é exposto assim de uma forma tão flagrante (abaixo relembra-se a inesquecível cena de Annie Hall em que Marshall McLuhan se materializa para concordar com Woody Allen durante a discussão com o pretensioso opinador que perorava atrás de si na fila…), mas o tema para reflexão deste meu poste é o facto de, como se comprova por este episódio que narrei, o Prémio Nobel parece ter-se tornado numa fonte de autoridade científica incontroversa. Talvez demasiado incontroversa. Entre a sucessão de notícias que todos os princípios de Outono se repetem anunciando a bateria de galardoados nas diversas disciplinas, raros são os casos em que se explicam os detalhes sobre o processo de escolha dos premiados.
Por exemplo, ao referir-se que os Prémios receberam o nome em homenagem a Alfred Nobel que legou em testamento a sua fortuna a uma Fundação que os atribuiria, não se costumam referir os outros pormenores mais confusos da redacção do testamento. Numa única folha de papel, Nobel escreveu que os juros resultantes da aplicação da sua fortuna deveriam ser distribuídos anualmente entre aqueles que no ano precedente tivessem realizado os maiores benefícios para a Humanidade. E mais adiante especificava que haveria cinco prémios – Literatura, trabalhos dedicados a assegurar a Paz Mundial, e descobertas nos campos da Física, Medicina ou Fisiologia e Química. Mas foram os executores testamentários que tiveram que concretizar estas vagas instruções.
Foi uma tarefa complexa: Nobel morreu em 1896 mas os primeiros Prémios com o seu nome só foram atribuídos em 1901, iniciando assim um processo que veio acumulando prestígio nos 110 anos seguintes. Mas que também mostrou algumas limitações. Aqui no blogue já escrevi sobre a distribuição desequilibrada dos laureados com o Prémio da Literatura ou sobre o carácter politicamente controverso de alguns distinguidos com o Prémio da Paz. Mas também os Prémios das categorias tidas por científicas terão os seus problemas. Já aqui escrevi sobre uma provável asneira numa atribuição do Prémio da Física de 1917 pela descoberta de uns raios J que mais ninguém encontrou. O que nos leva ao tópico do que pode ser escrutinável sobre a atribuição dos Prémios Nobel.
As reuniões da atribuição dos Prémios são secretas, os processos de decisão que levam à escolha dos vencedores não são conhecidos, tal como é discretíssima a divulgação das identidades dos membros que compõem os júris de cada prémio. Para regressar ao nosso assunto inicial, políticos, jornalistas e o grande público podem passar a achar a partir de hoje que a categoria de Peter Diamond é inequívoca porque recebeu o Prémio Nobel. Mas também deviam questionar quem lhes deu essa certeza… Afinal o Comité Nobel bem pode ser composto de um punhado de académicos suecos resmungões, versões nórdicas de Medina Carreira... Afinal, outro dia descobri que Estela Barbot é conselheira do FMI… Em vez disso, teria preferido Isabel Stilwell no Comité Nobel da Literatura.

3 comentários:

  1. Se eu estivesse no Júri proporia o Herdeiro Aécio para o Prémio Nobel da Literatura - já que o Churchill não deveria lever a mal.

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  2. O que posso dizer é que, enquanto a Maria do Sol me "estraga" com sorrisos (e conselhos...), o João Moutinho me estraga com elogios.

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