15 agosto 2016

ARTES OLÍMPICAS

É um facto quase completamente desconhecido que houve várias edições dos Jogos Olímpicos (mais precisamente os que se realizaram entre 1912 e 1948) onde, simultaneamente com as competições desportivas, decorreram competições artísticas em que o tema era obrigatoriamente o desporto. As categorias desdobravam-se pela arquitectura, literatura, música, pintura e escultura. Na fotografia acima podemos apreciar, conjuntamente com as crianças apreciadoras, a pintura que valeu a medalha de ouro para a Suécia e para o pintor David Wallin (1876-1957) na edição dos Jogos Olímpicos de 1932, que decorreram em Los Angeles. Intitulava-se Vid Arilds strand (pela beira-mar de Arild - as praias da Suécia são horríveis, a temperatura das águas torná-las-á insuportáveis, mas inspirarão pinturas belíssimas). Na edição dos jogos de 1912 (Estocolmo), havia sido o próprio barão Pierre de Coubertin (1863-1937), considerado o fundador dos modernos Jogos Olímpicos, que ganhara a medalha de ouro na categoria de literatura (embora concorrendo incógnito, segundo se diz) com uma Ode ao Desporto escrita em dois idiomas: francês e alemão. Tudo isso para descambar cem anos depois na intelectualidade não muito aprofundada de Michael Phelps...
Esses tempos ingénuos foram depois, na segunda metade do Século XX, cuidadosamente esquecidos. As competições artísticas deixaram de ser consideradas como eventos olímpicos pelo próprio Comité Olímpico Internacional e as medalhas então atribuídas deixaram de ser contabilizadas para as estatísticas. Renegar ainda mais essa parte do passado olímpico seria, não apenas mais difícil, como se tornaria mesmo indecoroso. Mas ontem, diante da transmissão televisiva das provas de atletismo dos Jogos do Rio, surpreendi-me a pensar se as artes olímpicas não terão subsistido desde sempre e agora estão de retorno, mais pujantes que nunca, embora noutras categorias mais conformes aos nossos tempos, como a interpretação cénica. É que tecnicamente a grande proeza atlética da jornada de ontem foi - a grande distância! - o record do mundo nos 400 metros que foi alcançado pelo sul-africano van Niekerk com 43,03 (acima). E contudo, o vencedor mediático da jornada, já que correu a seguir a Niekerk, foi indiscutivelmente o jamaicano Usain Bolt (abaixo), vencedor dos 100 metros mas com um resultado desapontante (para ele) de 9,81 (abaixo). Bolt venceu, e nesse aspecto merecerá uma outra medalha de ouro suplementar em expressão dramática, não só por causa da exuberância histriónica como celebrou a vitória como também por causa da cor dourada das sapatilhas...

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