01 março 2018

O TESTE «CASTLE BRAVO»

1 de Março de 1954. Os Estados Unidos procediam a um teste de um novo dispositivo nuclear no atol de Bikini, no Pacífico. Baptizaram-no de Castle Bravo. O engenho era um dispositivo de quatro metros e meio de comprimento e com mais de dez toneladas de peso. Mas os aspectos técnicos e as consequências do ensaio já foram por mim aqui descritos, ainda que sucintamente, no Herdeiro de Aécio. O que nos importa acompanhar desta vez, em jeito de efeméride pelos seus 64 anos, foi a perspectiva daqueles que activaram e acompanharam o ensaio no bunker de detonação, que fora construído na ilha de Enyu a mais de 30 km do local da explosão. Foi a equipa que para ali fora destacada para monitorizar a explosão que primeiro se apercebeu que algo não estava a correr conforme o previsto. Enquanto esperava pelo impacto, o cientista que dirigia a equipa, Bernard O'Keefe, ficou gradualmente mais apreensivo. O'Keefe era, não apenas um veterano, como também o género de veterano difícil de impressionar. Na noite da véspera de Nagasaki fora ele que, violando as regras de segurança, substituíra a tomada do cabo de detonação do engenho que iria tornar-se célebre no dia seguinte com o nome de Fat Man. Em 1953, na Área de Testes do Nevada e depois de um dispositivo de implosão ter misteriosamente falhado, fora ele que se dispusera a subir até ao topo da torre onde o dispositivo estava instalado, para arrancar os fios de detonação.
Mas, desta vez, parecia diferente. Dez segundos depois da detonação, o bunker enterrado onde estavam pareceu começar a mover-se, o que não fazia sentido: o bunker estava agarrado ao solo e tinha paredes de um metro de espessura...
- É isto que se está a mexer ou sou que estou tonto? - perguntou um outro cientista
- Meu Deus, é verdade. - respondeu O'Keefe - Está-se mesmo a mexer.
O'Keefe começou a sentir-se enjoado como se estivesse num navio em alto mar e agarrou-se a alguma coisa enquanto os objectos à sua volta caiam das bancadas. O bunker comportava-se, como ele depois veio a descrever, «como se estivesse assente em gelatina». A onda de choque da explosão que viajara através do solo havia-os alcançado antes da que viajava pelo ar. Com o equivalente a 15 milhões de toneladas de TNT, a potência do engenho acabado de detonar viera a revelar-se duas vezes e meia superior às previsões. Mesmo considerando todas as margens de segurança antevistas para estas operações, os cientistas haviam tido a sua dose de sorte. E iriam precisar de continuar a tê-la...

A bola de fogo da detonação inicial alcançara um diâmetro de 6,5 km e a característica nuvem em forma de cogumelo das explosões atómicas estendeu-se até aos 40 km de altitude em menos de dez minutos. Quinze minutos depois da explosão, O'Keefe e mais oito homens da sua equipa saíram para observar o que acontecera à superfície. Enyu estava rodeada de um nevoeiro opaco e cinzento. As árvores haviam sido todas derrubadas, havia ramos de palmeiras espalhados por todo o lado, os pássaros haviam desaparecido completamente. E aquela era a paisagem a mais de 30 km do centro da explosão... Começara a cair uma estranha cinza branca, a fazer lembrar neve e os contadores Geiger estavam a registar cada vez mais radioactividade. Voltaram para o bunker e encerraram-se, não sem antes se decidirem a desligar o ar condicionado, que já começara a trazer a radioactividade para dentro do próprio bunker. Os cientistas ali permaneceram por horas, sob um calor cada vez mais opressivo e só saíram dali completamente cobertos por lençóis (a que recorreram para se protegerem da queda do material radioactivo) para correrem para helicópteros enviados de urgência para os evacuar. Apesar de tudo, Bernard O'Keefe só veio a falecer em 1989 com 69 anos de idade, o detalhe da narrativa acima deve-se a um dos seus livros de memórias. A cratera lá continua, numa evocação (para quem a saiba interpretar) do que pode ser o poder da teoria: afinal, fora apenas alguém que se enganara nos cálculos...

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