15 junho 2015

SOBRE O ABANDONO DAS SIGLAS PARA DESIGNAR OS PARTIDOS POLÍTICOS

Confesso a minha vetustez por não me ter ainda adaptado a esta nova moda de designar as novas formações políticas. Ele é o Podemos, o Queremos, o Caímos, o Protestamos em vez dos tradicionais PDPs, PTPs, PQPs que se havia convencionado desde o 25 de Abril até há um par de anos. Quem queria fundar um partido, e para além de arranjar as indispensáveis 5.000 assinaturas, fundava-o e designava-o por aquilo que era: um partido. Quanto ao resto podia ser Humanista, dos Animais, Trabalhista, Liberal ou outra coisa qualquer, mas o que quer que fosse era designada pelas iniciais. Mesmo num gag humorístico como este abaixo do Herman Enciclopédia (1997), a piada era elaborada à volta do conteúdo malandro das siglas: PENIS ou PEIDA. Mas malandrices todas a começar por P. Divergência a esta norma só mesmo a destinada aos outros mais chiques: havia quem fundasse partidos a que se dava o nome de Movimento, um belo pretexto para aparecer a explicar porque é que o seu partido era um movimento: lembro os exemplos – transversais ao espectro político mas todos chiques – do MRPP, do MES ou do MIRN. Mas o emprego das siglas sempre foi de rigor. A expressão os comunas não é sinónima de PCP e jotas é um estado de irreverência irresponsável que designa todas ou uma juventude partidária em particular, mas não é o mesmo que, por exemplo, a JSD. Consequência de todas essas décadas de habituação, uma sigla tem a virtude de embotar o meu espírito crítico sobre uma formação política mesmo que a sigla do partido em causa seja PQP (que também pode significar puta que o pariu...) e onde o seu dirigente nacional seja José Manuel Coelho. Diz-me a habituação que é um partido canónico. Delirante mas canónico.

A modernidade está a alterar isso tudo. Com o aparecimento de uma formação política com o nome de LIVRE nas últimas eleições europeias, sem que o LIVRE de Rui Tavares resultasse da mesma lógica do PENIS de Miguel Guilherme ou da PEIDA de Herman José (no vídeo acima), abandonou-se essa convenção e partiu-se para uma largesse poétique na designação das organizações políticas a que eu não me consigo acomodar e que receio bem não saber onde irá parar. Com uma propensão a cindirem-se e juntarem-se com grande desenvoltura, o LIVRE associou-se entretanto à candidatura cidadã Tempo de Avançar donde resultou uma coisa chamada LIVRE/Tempo de Avançar enquanto, em contraste, um outro grupo de amigos que se auto-designava por Juntos Podemos deu em separar-se para que, em não podendo juntos, só alguns pudessem criar um novo grupo com a designação de AGIR, ou mais imaginativamente AG!R. Passados à acção, ei-los que reaparecem nas notícias anunciando uma coligação eleitoral com partidos convencionais como o PTP e o PDA e mais outras formações de designação mais moderna e imaginativa como Nova Governação, Somos Santa Maria da Feira, Somos Lamas, Instituto dos Bairros Sociais, Movimento contra as SCUT, Movimento dos Brasileiros votantes em Portugal e, como convidados (até parece a ficha de uma série de televisão...), o Nós Cidadãos e o Partido Unido dos Reformados e Pensionistas. Em suma, considerando que ainda estamos a quatro meses das eleições e com esta dinâmica, quando dos tempos de antena da campanha eleitoral, mais do que anunciada, esta coligação vai ser declamada como um poema de poesia moderna e o boletim de voto deste ano vai certamente precisar de um desdobrável...

2 comentários:

  1. Quando apareceu o "Livre"... fiquei à espera do "Pénalti", o que daria um impulso maior às cervejeiras mas, até agora, NADA!

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