06 janeiro 2016

O PONTO DE VISTA DE UM DIRECTOR DE JORNAL

A respeito de uma das mais importantes notícias do dia, o ensaio nuclear realizado pela Coreia do Norte, surpreendi-me a ler a seguinte passagem de Ricardo Costa no Expresso:

Para quem pense que isto tem pouco a ver com o resto do mundo, aconselho estas pequenas contas:

a) Uma bomba de hidrogénio (ou Bomba H) é uma bomba termonuclear incrivelmente superior (até 4000 vezes) à bomba de Hiroshima e a tudo o que já foi usado em qualquer guerra.

b) A Coreia do Norte está a tentar construir uma ogiva que consiga ser colocada no míssil balístico Taepedong-2, que tem um alcance potencial de 6700 km, atingindo o Alasca, o Canadá ou a Costa Leste dos EUA…
 
Mesmo passando por cima do detalhe de quem, não percebendo nada do assunto e desenhando, por assim dizer, à vista, até transcreve mal o nome do ameaçador míssil balístico (é Taepodong-2 e não Taepedong...), registe-se a selecção que Ricardo Costa faz dos alvos passíveis de ser atingidos com essa arma do arsenal norte-coreano (Alasca, Canadá e até a Costa Leste dos EUA). Comparemo-la com a informação do mapa acima, onde, entre tantas outras metrópoles ameaçadas, identificamos cidades como Moscovo, Nova Deli ou Jacarta. Não ficarão dúvidas de quais serão as fontes de inspiração exclusivas do pensamento estratégico de Ricardo Costa (se existir...). E de que, quando ele se refere ao resto do mundo, se está a referir específica e (também) limitadamente à perspectiva dos Estados Unidos. Um engajamento que, não sendo um predicado em quem pretenda fazer qualquer análise estratégica global, torna-se num defeito em quem a faz, como neste caso, em nome de um jornal.

Acrescentar informação à informação disponível implicaria os conhecimentos técnicos que Ricardo Costa não tem - ele é um dos campeões das generalidades. Importaria esclarecer que a dimensão do terremoto artificial gerado pela detonação (4,9 a 5,1 na escala de Richter) torna improvável que a bomba fosse um engenho termonuclear como proclamado. O efeito relativamente limitado situará a potência estimada do engenho nuclear entre os 6 a 9 kton de TNT, potências equivalentes à registadas pelo testes já realizados pela mesma Coreia do Norte em 2009 e 2013, onde se registaram abalos sísmicos equivalentes. Trata-se de potências que, apesar de respeitáveis em absoluto, são pequenas em termos de armamento nuclear: por exemplo, trata-se de uma potência equivalente a 50/75% da da bomba detonada em Hiroxima em 1945. Na verdade, por detrás da retórica, avaliando exclusivamente pelos resultados, a pesquisa norte-coreana parece ter estagnado, sem conseguir ultrapassar os problemas técnicos para a construção de armamento nuclear mais poderoso. Escrever isso não ajuda a alarmar mais as pessoas e a vender mais jornais, reconheço.

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