08 novembro 2015

MUITA CONVERGÊNCIA E MUITO CEPTICISMO

A aprovação do programa de governo pela Comissão Nacional do PS com 94,7% dos votos (163 votos a favor, 7 contra, 2 abstenções) é episódio que, confesso, não me impressiona, pelas lições do passado do quanto pode ser irrelevante. Será inoportuno mas conveniente recordar a votação esmagadora do Conselho Nacional do PSD que, em Julho de 2004, endossou a indicação de Pedro Santana Lopes como sucessor de Durão Barroso à frente do partido (e do governo). Nos dois casos, as vozes que se exprimiram na reunião contra a opinião dominante foram mínimas (não sei é se a divulgação mediática delas se terá equivalido...) e aqueles que tinham e têm ambições para o futuro, casos de Manuela Ferreira Leite no passado do PSD e agora de Sérgio Sousa Pinto e Francisco Assis no PS, precaveram-se por uma ausência que teria e terá o seu valor futuro. O caminho escolhido por António Costa é manifestamente arriscado. Mesmo esquecendo as vicissitudes que o esperam até eventualmente chegar ao poder (se chegar!), há que perceber que os governos de genuína coligação ao estilo centro e norte europeu, como o que propõe, têm um historial cheio de incidentes: ainda esta semana a coligação finlandesa no poder (de direita) esteve em vias de se desagregar. Ora o nosso historial de coligações tem um registo muito mais benigno: ainda hoje se debate a irreversibilidade do episódio Portas, resolvido com uma certa venalidade e vaidade pessoal com a promoção do dito ao cargo de vice-primeiro-ministro e mais uma pasta governamental. Ora acredito que não há-de ser isso que estará em causa nos problemas que atrapalharão o (hipotético) governo cujo programa acaba de ser agora maciçamente aprovado. Estarão os nossos protagonistas políticos e, sobretudo, mediáticos preparados para lidar com essa provável diferença de estilo? Ou vai logo tudo o que é direita do teclado e da opinião pedir demissões em simetria ao que costumavam fazer Ana Avoila, Mário Nogueira e os restantes acólitos da CGTP? Uma nota final, à cenografia destas cerimónias onde também há um protocolo a respeitar e por isso se percebe que há que dar um lugar de relevo ao presidente honorário do PS, António Almeida Santos (o PS tem um presidente em funções: Carlos César que tem aparecido frequentemente junto a António Costa); mas, quando os assuntos são sérios, a imagem de venerabilidade dos seus quase 90 anos acabam por ser neutralizadas pelas nossas memórias de declarações mais antigas e um pouco passadas, como aqueles hipotéticos atentados terroristas nas pontes do Tejo que aconselhariam a construção do aeroporto na Ota...

1 comentário:

  1. Um e outro, velho e novo, têm uma especial atracção por desmoronamentos e afundamentos. Há figurantes particularmente bem colocados para explicar essas suas vertentes: bastará ouvir desabafos de quem tenha vindo da Beira, ou de quem tenha trabalhado nos ENVC. Essa experiência acumulada poderá ser muito útil nas aventuras dos nigromantes com ligações ao topónimo Abade Faria.

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