31 março 2009

OBSCENIDADES

Aqui há coisa de um mês foi notícia e pretexto para indignações exuberantes aqui na blogosfera(*) a apreensão de cinco exemplares de um livro que tinha por capa o quadro abaixo durante a realização de uma Feira do Livro em Braga. A história seguiu o seu curso, a Direcção Nacional da PSP assumiu embaraçada a faceta de broncos dos seus quadros bracarenses, assim como a promessa da devolução dos livros ao proprietário, e o assunto desapareceu do interesse público e publicado.
Hoje, mais de um mês passado, no Correio da Manhã leio uma notícia que me informa que, afinal, os cinco livros ainda não foram devolvidos ao proprietário… Dando esta notícia por verdadeira, confesso-vos que é nestes momentos que me faltam palavras, em que se consegue perceber, de uma penada, o que é ser-se Incompetente com I maiúsculo, em que se me dá uma profunda vergonha de ser português, e esta última é coisa de tal forma sentida que nem a evocação de Cristiano Ronaldo a consegue diminuir

(*) – Houve 137 ligações de blogues só à notícia do Público

CONVERSAS SOBRE ECONOMIA E SOBRE ENFEITES DE NATAL

Foi interessante ouvir o encadeamento noticioso dado ontem por uma das televisões portuguesas aos acontecimentos associados às tentativas de recuperação financeira da GM. Em primeiro lugar, falou-se da pressão da Administração Obama para afastar o CEO da GM, Rick Wagoner, como condição indispensável para a injecção de liquidez na GM, que só foi concretizada após a sua demissão. Para logo de imediato, numa associação não pode ser inocente, se passar para uma notícia com a interpretação do comportamento da cotação do valor das acções da GM na Bolsa de Nova Iorque: o Mercado não havia gostado da notícia da demissão de Wagoner e as acções da GM haviam baixado 20%...
Este último, é o tipo de comentário que, além de risível, me levaria a ir buscar a fonte original pois não creio que uma redacção típica de uma televisão portuguesa consiga ter a densidade e a ideologia para conseguir pensar aquilo tudo sozinha… Mas também não deixa de ser engraçado constatar como, mesmo nesses outros sítios que produzem aquelas notícias originais, lhes custa perderem os hábitos velhos de anos, daquela época que acabou há pouco mais de seis meses atrás, em que se estava convencido que o emprego da expressão o Mercado parecia constituir um argumento económico e político decisivo, que punha término a qualquer discussão. Onde é que isso já vai! O que o Mercado acha parece já ter saído de moda...
Tomemos precisamente este exemplo da GM e, se o Mercado quisesse dizer alguma coisa, já o devia ter dito anteriormente, porque bem poderiam ter sido o Mercado a financiar as tais dezenas de milhares de milhões de dólares que a GM necessita desesperadamente para a sua tesouraria… Se tais milhões não apareceram até agora, então é improvável que apareçam e o destino da GM e o dos seus accionistas, entregue ao Mercado, estaria traçado… Seria bom que quem escreveu aquele disparate (e quem o trauteia como seu…) se aperceba que a relevância do valor das acções da GM para a sobrevivência da empresa nesta conjuntura é quase idêntica à do colorido das bolas para a sobrevivência do pinheiro depois do Natal…

30 março 2009

AS IMAGENS DE UMA VIDA EM 8 MM


Existe a música (premiada) de Bruce Springsteen, Streets of Philadelphia (acima), que constitui a banda sonora das cenas iniciais do (também premiado) filme Philadelphia de Jonathan Demme (1993), protagonizado por Tom Hanks e Denzel Washington. Mas a minha preferência para a música que melhor representará o espírito do filme é uma outra, também intitulada Philadelphia, mas da autoria de Neil Young, e que constitui a banda sonora das cenas finais do filme (abaixo).

Se considero que exista alguma falha no argumento do filme, ela é a coesão imaculada demonstrada pela família de Andrew Beckett (Tom Hanks, o protagonista que vem a morrer de SIDA). É tão excessiva que se torna numa verdadeira família Von Trapp... Mas, mesmo essa faceta mais inacreditável, acaba por se desvanecer naquela cena final perante o poder da música de Young acompanhando as imagens dos filmes de 8 mm da infância de Andrew, numa síntese ímpar da faceta mais inocente da sua vida…

29 março 2009

AS VÍTIMAS DA CHALLENGER

Já aconteceu há 23 anos mas ainda há quem se recorde do desastre da nave Challenger, que ocorreu ainda na fase de lançamento, a 28 de Janeiro de 1986. O acidente pode ser observado no vídeo acima. Nele, representativo daquilo em que se transformou o jornalismo televisivo moderno, perdido o script do que era esperado, a câmara fixa-se (1:50) no que produz mais efeito visual – um dos foguetes auxiliares que prossegue, mas numa trajectória descontrolada – em vez de se concentrar no que devia ser naquele momento mais importante: a cabine onde seguia a tripulação de sete astronautas...
As análises sobre as causas do acidente que se seguiram foram relativamente sóbrias quanto ao que acontecera à tripulação. A explosão, que ocorreu quando a nave já se encontrava a 14,5 km de altitude foi apenas uma deflagração (subsónica) e não uma detonação (supersónica) do tanque de combustível principal, o que limitou os danos sobre a nave (Orbiter) e possibilitou que, embora desagregando-se, o compartimento onde seguia a tripulação permanecesse intacto – como é observável nas fotografias. Dada a inércia, a maioria desses destroços continuaram em ascensão até uma altitude próxima dos 20 km. Quanto ao que aconteceu à tripulação, a redacção da comissão que investigou o acidente contem constatações, deduções e especulações. Entre as primeiras, a que a cabine sobreviveu à deflagração assim como muito provavelmente todos os tripulantes que nela viajavam. Ao desagregar-se, a cabine perdeu as fontes primitivas de oxigénio e de electricidade. Mas havia dispositivos de emergência de oxigénio, dos quais três vieram a ser accionados. Contudo, eles só teriam sido úteis se a cabine tivesse permanecido pressurizada. A tal altitude (seria o dobro do topo do Everest!) perde-se rapidamente a consciência... Esta última observação foi também um desejo da comissão, pois qualquer membro da tripulação estava automaticamente condenado ao cair em queda livre desde os quase 20 km de altitude… O impacto com a água seria a uma velocidade de cerca de 335 km/h o que provocaria uma desaceleração mortal, como se viria a comprovar, também em frente das câmaras de TV, 8 anos depois, com o piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna… A cabine, contendo os restos mortais dos sete tripulantes (abaixo), só veio a ser encontrada no fundo do mar a 7 de Março de 1986, mais de cinco semanas depois do acidente. A redacção das conclusões da comissão da NASA sobre a sorte da tripulação permanece um exemplo da fronteira entre o que é a objectividade dos factos e a subjectividade do desejo: a) a causa de morte dos astronautas da Challenger não pôde ser definitivamente estabelecida b) as forças a que a tripulação esteve exposta durante o acidente não foram provavelmente suficientes para lhes terem causado a morte ou lesões graves e c) a tripulação, possivelmente, mas não garantidamente, perdeu a consciência nos segundos que se seguiram ao acidente, devido à perda de pressão na cabine

28 março 2009

REFLEXÕES TEÓRICAS SOBRE FUNERAIS

Abaixo poderemos ver um pequeno filme montado por ocasião do funeral de Estaline, em Março de 1953. O figurino da cerimónia parece assemelhar-se com o de todos aqueles líderes que morreram em funções – e o pormenor é que nas Ditaduras os líderes tendem a morrer EM funções, lembremo-nos dos casos de Salazar (1970*) e de Franco (1975).

No entanto, estou plenamente convencido que não haverá comunista ocidental, por muito que comungue do internacionalismo proletário, que não reaja de uma forma instintiva de estranheza às reacções exuberantemente carpidas que passaram na televisão norte-coreana por ocasião do funeral do seu Grande Líder, Kim Il-Sung, em Julho de 1994 (abaixo).

Trata-se de um daqueles casos em que se constata que nem todo o reconhecido carácter científico do marxismo-leninismo conseguiu expurgar devidamente os desvios de direita e o culto de personalidade das sociedades socialistas do extremo oriente. Um caso de reflexão óbvio para o contínuo aprofundamento do socialismo naquele país democrático

* - Na realidade, Salazar já não estava em funções, embora permanecesse como tal de uma forma honorífica e ele nem desse pela diferença…

27 março 2009

A CAVALARIA

A minha gaffe desta semana foi cometida quando me pronunciei em termos, digamos, bastante longe de elogiosos sobre as capacidades intelectuais de um típico oficial de cavalaria, esquecendo-me que fora precisamente com aquela categoria e naquela arma que o meu interlocutor – um amigo meu – cumprira o seu serviço militar… Enfim, estava a falar-se de tanta coisa que eu bem podia ter evitado enveredar a conversa precisamente para aquele lado…

Permitam-me agora aproveitar-me dessa minha gaffe a respeito da reputação de quem comanda a cavalaria como pretexto para falar de uma música já antiga que a evoca (Stop the Cavalry, de 1980, no vídeo acima) e de uma época ainda mais antiga (1914) em que a Cavalaria, a original, com os cavalos e tudo, partiu para a Guerra (a Primeira Guerra Mundial) apenas para descobrir que não tinha préstimo para o novo tipo de Guerra que se estava a travar…
As indumentárias tradicionais dos cavaleiros que partiam para a Guerra no Verão de 1914 (acima, a cavalaria pesada francesa de quépi napoleónico e couraça…) eram apenas simbólicas do seu desajustamento quanto ao tipo de combates que se iriam travar entre as enormes massas de soldados de infantaria (abaixo, a infantaria alemã usando o seu famoso capacete encimado com um pico), submetidas a um terrível poder de fogo, quer da artilharia, quer das metralhadoras.
Os meses de 1914 passaram sem que se criassem condições para que aparecesse a tal batalha decisiva onde a cavalaria teria a oportunidade de se mostrar. E o inesperado prolongamento da Guerra pôs à prova as capacidades logísticas dos exércitos, com a volumosa alimentação (em fardos) dos cavalos a atrapalhar não só a alimentação dos milhões de soldados já então concentrados nas trincheiras como o reabastecimento de munições para o seu armamento.
Colmatando as baixas, os cavaleiros foram sendo apeados e promovidos a infantes enquanto os cavalos eram desviados de uma utilidade militar incerta para uma utilidade logística garantida… Quando chegou o Natal, que o autor de Stop the Cavalry tanto desejava que já fosse passado em casa, em vez da namorada, Mary Bradley, o convívio foi feito com o inimigo do outro lado das trincheiras (abaixo). Quanto à Cavalaria, reapareceu dali a três anos, mas já sem cavalos…

26 março 2009

A GUERRA… E A PROPAGANDA

Há cerca de uns 25 anos, talvez mais, por ocasião da exibição do filme numa ocasião especial, salvo erro na Cinemateca, fiquei a saber que O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens) de 1935 e da autoria da realizadora alemã Leni Riefenstahl, era um filme de exibição restrita por causa do seu conteúdo. O tema do filme, que é um documentário com quase duas horas, foi a cobertura do Congresso de Nuremberga do NSDAP em 1934, filmado através de umas lentes ideologicamente muito favoráveis para os nazis e as restrições postas à exibição do filme eram justificadas pelo efeito que aquela propaganda (tecnicamente bem feita) poderia ter sobre as audiências…
O que me incomodou – para não dizer que indignou – foi o tratamento condescendente ao auditório que estava implícito naquela justificação. Que o tempo e a evolução das tecnologias se encarregaram de tornar ridícula: hoje, o tal filme restrito porque glorificava o nazismo, está disponível no Youtube à distância de um clique… Mas essas facilidades não querem dizer que a escola daqueles que preferem proteger a audiência da influência nociva da propaganda adversa tenha desaparecido. Agora, logo depois da propaganda adversa aparecer, ela sofre um processo de interpretação. Nunca terá havido tantos comentadores na imprensa para nos explicar aquilo que devemos pensar…
É por mais isso que há que elogiar a forma independente como a equipa associada à produção do documentário A Guerra fez terminar o episódio que foi ontem transmitido na RTP, onde usou uma compilação de imagens das cerimónias do 10 de Junho, mais a imposição de condecorações a título póstumo. Como peça de propaganda esteve lá tudo, desde os olhares dos familiares que receberam as medalhas pelos que morreram até à lágrima que cai na lapela ao lado da condecoração acabada de receber (abaixo). Passaram as cenas em bruto, tal qual foram transmitidas na altura, sem manual de instruções por cima das imagens, e foi reconfortante sermos tratados como pessoas inteligentes…

25 março 2009

A ODE NECESSÁRIA!!!

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamento, políticas, relatores de orçamentos;
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta.)


(trecho de A Ode Triunfal, de Álvaro de Campos)

Hoje é um daqueles dias em que se sente que há necessidade de poesia, quando se vai proceder à inauguração do hemiciclo renovado da Assembleia, depois de penosos episódios de flagelação pelo frio vindo do ar condicionado (veja-se o vídeo abaixo...), qual bafo gélido de um moderno Adamastor!

E se ao poeta faltar o engenho para escrever uma nova Ode Triunfal a propósito daquele faustoso acontecimento, que lhe reste ao menos a inspiração para compor uma Ode que mesmo não triunfe, seja a Ode Necessária, porque ele teve um milhão de votos e as pessoas na rua vêm ter consigo!...

24 março 2009

O CANTO DOS PARTISANS

O Canto dos Partisans, do qual se chegou a pensar fazer em 1945 o Hino Nacional de França (em substituição d´A Marselhesa), mas que está hoje praticamente esquecido, foi uma canção criada em 1943, a partir de outra originalmente concebida para uma letra russa, mas com uma letra em francês que se relacionasse com a actividade da Resistência. Paradoxalmente, e apesar da autora e cantora da música (Anna Marly) ser de origem russa, cujo pai até fora fuzilado na sequência da Revolução de 1917, o Canto, na sua versão francesa, pela terminologia e simbologia marxista, era um aceno directo aos comunistas, que constituíam a maioria dos grupos engajados na resistência francesa.
Até ao Verão de 1944, quando as tropas Aliadas desembarcaram em França, a história da concertação dos diversos movimentos autónomos que compunham a resistência francesa sempre esteve repleta de peripécias. Embora em 1944 já tivesse sido adoptada a designação abrangente de FFI para as designar (Forças Francesas do Interior, teoricamente dependentes do general Koenig), continuava a usar-se muito a designação FTP (Franco-Atiradores Partisans em francês), como se se tratasse de uma espécie de facção organizada de origem comunista dentro das FFI. E os FTP não perdiam ocasião de fazer sentir como a sua influência era maioritária dentro das FFI…
Num livro como Paris já está a arder? (acima), que cobre os acontecimentos que levaram à libertação de Paris em Agosto de 1944, percebe-se como os objectivos de um dirigente das FFI, facção FTP, no caso o coronel Rol-Tanguy, podiam não ter nada a ver com as intenções do Quartel-General Aliado, nem com o cumprimento das instruções que eram enviadas de Londres. Para Rol-Tanguy (abaixo, de braçadeira) havia sido estabelecido um objectivo político: o de criar um movimento insurreccional em Paris e foi isso que ele fez, independentemente da conveniência dessa insurreição para a manobra geral dos exércitos aliados em território francês naquele momento.
Felizmente para a História de Paris, a superioridade dos Aliados era já tão esmagadora que, mesmo perante a insurreição inesperada e apesar do improviso, conseguiram mobilizar duas grandes unidades(*) em apoio dos insurrectos que, de outro modo, se arriscavam a ser esmagados pelos alemães, como o estavam a ser os seus homólogos insurrectos de Varsóvia, também naquele mesmo mês de Agosto de 44. Da parte dos insurrectos, a falta de qualquer equipamento pesado típico de um exército convencional (como peças de artilharia ou blindados), transformava os poucos recontros prolongados entre os dois contendores em verdadeiras carnificinas para o lado mais fraco…
Em contrapartida, apesar dessa sua ineficácia em termos militares, há que reconhecer que os combatentes improvisados conseguem produzir fotografias de guerra que são de um romantismo inigualável, como é o caso acima… Mas, embora de aparência muito menos romântica, foram os blindados M-4 Sherman do general Leclerc (que aparecem e aparece de quépi na fotografia abaixo) os verdadeiros responsáveis pela libertação de Paris. Mas, na acta de rendição da guarnição alemã de Paris, que foi assinada a 25 de Agosto, o politicamente ingénuo Leclerc ainda permitiu que ela fosse também co-assinada por Rol-Tanguy, em nome dos insurrectos das FFI.
Quando De Gaulle chegou e soube, deu uma descasca a Leclerc... O resto da história da libertação de Paris já não é propriamente a da sua libertação, mas a da disputa política pura e dura, sem ingenuidades, entre de Gaulle e os comunistas para ocupar rapidamente o vazio de poder que se formara na capital francesa. Daquela vez, De Gaulle acabou por ganhar em toda a linha. Ficou com tudo. Ficou com o Canto dos Partisans, apesar do seu vocabulário marxista, e ficou também com a última frase, proferida por De Gaulle com a sua habitual ironia corrosiva, quando lhe apresentaram os oficiais das FFI/FTP da região de Paris: - Parece-me que eles têm coronéis demais…
(*) – A 2ª Divisão Blindada francesa e a 4ª Divisão de Infantaria norte-americana.

23 março 2009

OS RUSSOS VÊM AÍ!

Numa situação de emergência, como a do vídeo acima, na eminência de que o avião – no caso trata-se um Sea Harrier – se venha a despenhar, o piloto deve ejectar-se accionando o respectivo dispositivo. Mas o que é que acontece quando o piloto acredita que o avião está prestes a despenhar-se, se ejecta e afinal o avião continua a voar?... Poder-se-ia dizer que o protagonista da nossa história foi o Coronel Skurigin, um oficial da Força Aérea soviética que estava colocado na Base Aérea polaca de Kołobrzeg, cidade do noroeste da Polónia, junto ao Mar Báltico…

…mas será mais realista dizer que o verdadeiro protagonista da história foi um Mig-23, semelhante ao que aparece no vídeo acima, com o qual o Coronel Skurigin descolou para mais um voo de treino nessa manhã de 4 de Julho de 1989. Como acontece no vídeo, também o Coronel estava a fazer manobras a muito baixa altitude, quando o motor do aparelho começou a acusar problemas e, estando a voar muito próximo do solo (a uma altitude de 130 a 150 metros), preferiu não se arriscar a que ele acabasse por falhar total e subitamente, decidindo ejectar-se.
Só que, contrariamente às suas expectativas, o motor manteve-se a trabalhar, e o piloto automático levou o Mig-23 naquela baixa altitude no sentido para onde estava então apontado: para Ocidente… Foi assim que o Mig-23 soviético cruzou a fronteira polaca, internou-se na então Alemanha Democrática, atravessou a fronteira dos dois blocos da Guerra-Fria (ainda em vigor) passando para a Alemanha Federal, depois sobrevoou a Holanda, vindo a despenhar-se junto a uma cidade da Bélgica ocidental, Kortrijk, a uns escassos quilómetros de entrar no espaço aéreo francês.
Foi a falta de combustível, e não o motor, que fez com que o Mig-23 se despenhasse a 900 km da base onde começara o voo. Infelizmente, o incidente acabou por provocar uma vítima mortal, um jovem belga que estava dentro da casa sobre a qual o avião se despenhou. Fora precisamente a densidade populacional das zonas que sobrevoara que impedira a aviação ocidental de abater previamente o Mig-23, com receio das vítimas que provocaria no solo… A Bélgica protestou, o assunto foi abafado, mas aposto que a carreira militar do Coronel Skurigin terminou naquele dia…

22 março 2009

EXPLOSÃO DE ALEGRIA

Explosão de Alegria (Burst of Joy, no original) foi o título dado a uma fotografia premiada, tirada em 17 de Março de 1973 numa Base Aérea da Califórnia, por ocasião do retorno a casa dos pilotos que haviam sido aprisionados pelos norte-vietnamitas durante a Guerra do Vietname. Nela vê-se uma família americana típica de classe média (com a esposa e mais quatro filhos) correndo para abraçar o pai/marido acabado de chegar e que, visto de costas, ali parece personificar simbolicamente todos os militares naquela mesma situação, simultaneamente pondo um ponto final ao envolvimento norte-americano no Vietname.
Ao contrário de outros casos, a versão editada da fotografia (a que se vê no inicio do poste) não difere muito da que foi originalmente tirada pelo fotógrafo Sal Veder (imediatamente acima). Apenas uns retoques, fazendo desaparecer uma parte do lado esquerdo da fotografia, mas sem que se fizesse perder o lugar central a Lorrie Stirm, então com 15 anos, a filha mais velha do regressado Tenente-Coronel Robert L. Stirm (que tinha então 39) e, visivelmente, a que se mostrava mais entusiasmada a acolher o pai que já não via há 6. Só depois vêm os irmãos Bo (Robert Jr.) e Cindy, a esposa Loretta e por fim o irmão Roger.
Robert L. Stirm era um oficial piloto-aviador da USAF que havia sido abatido sobre o Vietname do Norte em 27 de Outubro de 1967. O avião que pilotava, um F-105 como o da fotografia acima, é um daqueles casos em que ainda hoje permanece controversa a razoabilidade do seu emprego nas situações de combate em que foi usado. Concebido para ser extremamente rápido e para operar a baixas altitudes, comprovou-se repetidamente que era uma presa fácil para as defesas anti-aéreas norte-vietnamitas. No global, perderam-se 320 F-105 em situações de combate nos céus do Vietname, o que representa 38% de todos os F-105 construídos!
Stirm foi mais um desses pilotos abatidos que, tendo tido a sorte de se conseguir ejectar a tempo, não teve a sorte de conseguir ser resgatado pelos helicópteros enviados para o efeito, vindo a ser capturado pelos norte-vietnamitas no solo. Permaneceu 1965 dias como prisioneiro de guerra e veio a ser libertado no dia 14 de Março de 1973, ou seja, três dias antes daquela fotografia ter sido tirada. E, como prova que estas fotografias famosas raramente são aquilo que mostram, juntamente com a alegria da libertação chegou-lhe também uma carta da sua mulher, Loretta, a comunicar-lhe a intenção de pedir o divórcio…
Sabendo isto, um dos enigmas da fotografia (que ficará para sempre por resolver) será saber se a expressão de Robert L. Stirm seria tão sorridente como a que aqui aparece, naquele momento em que Sal Veder o apanhou de costas e fez dele o exemplo do soldado americano desconhecido, de regresso (finalmente) a casa…

21 março 2009

OS PORTA-AVIÕES JAPONESES

Os porta-aviões que estamos acostumados a reconhecer, mesmo nas fotografias mais antigas, são os da marinha norte-americana ou britânica, como será exemplo o caso do Yorktown acima, fotografado neste caso em 1942, mesmo antes da Batalha Aeronaval de Midway, onde, de resto, viria a ser afundado.
Contudo, a primeira grande operação aeronaval foi o ataque perpetrado pela Marinha Imperial Japonesa sobre Pearl Harbor, em 7 de Dezembro de 1941. Nelas participaram 6 porta-aviões japoneses: de cima para baixo, o Akagi, o Kaga, o Hiryu, o Soryu, o Zuikaku e o Shokaku.
Como se nota, a configuração dos porta-aviões japoneses era, mesmo para leigos, distinta da dos norte-americanos. A ilha (designa-se por ilha aquela estrutura elevada lateral à pista) de um navio japonês era bastante mais pequena do que a de um equivalente norte-americano.
Por outro lado, como se pode observar nitidamente na fotografia do porta-aviões Kaga (é a terceira), ao contrário do que é tradicional, as chaminés do navio estavam orientadas para baixo, para que a emissão do fumo não viesse a interferir com as operações de voo.
E, ao contrário dos norte-americanos, a quem até interessava exibir o seu poderio naval aos potenciais inimigos, os japoneses levavam as questões de segurança muito a sério e as fotografias que existem dos seus porta-aviões são normalmente de fraca qualidade, como se pode apreciar.
Veteranos de Pearl Harbor, nenhum destes seis porta-aviões sobreviveu ao fim da Segunda Guerra Mundial. Os primeiros quatro afundaram-se na mesma Batalha de Midway que provocou o fim do Yorktown da fotografia inicial e os outros dois vieram a afundar-se em 1944.
Esse desaparecimento de toda a frota aeronaval japonesa em 1945, veio a tornar-se um grande problema futuro para os produtores de filmes de reconstituição sobre a Guerra do Pacífico. Têm que usar porta-aviões norte-americanos e isso limita-lhes a liberdade de filmar, sob pena de se multiplicarem os anacronismos…

20 março 2009

MOMENTOS INESQUECÍVEIS

Se há um golo que creio que marca a carreira de Luís Figo e se há um golo que deveria merecer uma nota artística que o fizesse ser contabilizado a dobrar, foi o golo marcado por aquele jogador à Inglaterra no primeiro jogo do Europeu de 2000, colocando na altura Portugal a perder por 2-1. Foi um golo com tanta alma que terá virado o ânimo das duas selecções e onde, ao contrário do que diz o ditado popular para estas ocasiões (… e vai buscar!), Luís Figo copiou o Eusébio do Mundial de 1966 (*), indo buscar a bola ao fundo da baliza inglesa… Os ingleses tinham que perceber que aquilo era mesmo a sério!

Para os indesculpavelmente esquecidos, Portugal acabou por ganhar por 3-2.

(*) Contra a Coreia do Norte, onde Portugal virou o resultado de 0-3 para 5-3.

19 março 2009

QUESTÕES CARREGADAS

Caríssimo, discorda que seja "repreensivo" sobre os negócios com a Alemanha nazi (sobretudo volfrâmio e conservas para os militares alemães) que eram pagos à ditadura portuguesa, em grande parte, com o ouro roubado aos judeus do Holocausto?
Esta foi uma pergunta que me foi colocada pelo João Tunes na caixa de comentários de um poste do seu blogue. É uma pergunta a que não me quero furtar a responder, mas necessito, antes de tudo, de lhe retirar a carga que contém antes de lhe responder, porque se trata de um caso extremamente engraçado, mesmo pedagógico, daquela falácia lógica que se costuma designar por questão carregada. Diz-se que uma questão está carregada quando inclui um ou vários pressupostos que quem pergunta quer induzir naquele a quem a pergunta é dirigida. O exemplo da Antiguidade Clássica deste tipo de questões é a pergunta: - Então, já deixaste de bater na tua mãe? Qualquer resposta linear que se adopte comprometerá sempre quem responde, porque ou se está a reconhecer que ainda se bate na própria mãe, ou então que já se bateu nela
Perguntas com as características que descrevi abundam no discurso político. Quando, por uns meses, fiz parte de um painel fixo a quem um instituto de sondagem colocava questões sobre actualidade política, num trabalho que a referida empresa fazia para o então ministro Jorge Coelho (acima), as perguntas que me colocavam eram todas daquele género carregado, condicionando a resposta (*). Em termos científicos e históricos convém ter mais cuidado. A redacção dada pelo João Tunes naquela pergunta faz com que se assuma que as transacções comerciais se fizessem com a ditadura portuguesa – ora o Banco de Portugal não pertence a um regime; e que se subentenda que o ouro usado pelos alemães para pagamento dessas transacções tivesse sido roubado aos judeus do Holocausto fosse coisa já do conhecimento geral, o que não é verdade.
Ora convém esclarecer que, com a Alemanha nazi, negociaram todos os países europeus que conseguiram permanecer neutrais durante a Segunda Guerra Mundial, desde Portugal e da ditadura portuguesa até à Suécia e à social-democracia sueca. E todos eles, ditaduras e democracias, receberam, entre outras formas de pagamento, ouro alemão, que os tempos eram incertos, e eram poucos os países que se dispunham a vender fiado (**). Foram transacções legítimas, feitas de boa fé – pelo menos da parte dos neutrais – e limitavam-se a seguir uma tendência da História da Europa que faz com que os países que permanecem neutrais são aqueles que mais beneficiam comercialmente durante os Grandes Conflitos. Veja-se o mapa abaixo (***) com o que os países neutrais da Primeira Guerra Mundial enriqueceram (em padrão-ouro)…
Caríssimo João Tunes, mais do que provavelmente discordará da condução da política externa que Salazar escolheu para o país durante a Segunda Guerra Mundial. Achará talvez – e é uma posição argumentável – que Portugal devia ter assumido na época uma posição claramente pró-Aliada. Seguindo por essa via, percebe-se naturalmente por que será crítico quanto aos negócios com a Alemanha nazi. Mas isso não será bem História, é outra coisa. Porque nas circunstâncias do que de facto aconteceu, e o que aconteceu foi a neutralidade portuguesa, dificilmente poderei condenar as transacções comerciais que tiveram lugar com a Alemanha, apenas porque ela foi a parte condenável do conflito. Ou, já agora, questionar a propriedade do ouro que foi recebido como resultado de uma transacção legítima e que foi feita de boa fé pela parte portuguesa.

(*) Eram-no de uma forma tão evidente que me cheguei a perguntar se o objectivo daquele estudo para Jorge Coelho seria mesmo para auscultar a opinião da opinião pública (como me tinham dito) ou seria antes testar a eficácia da argumentação usada pelo governo e pelo PS para os assuntos mais mediáticos da governação.
(**) Por acaso, uma excepção era… Portugal, que fiava… mas aos britânicos.
(***) Reprodução parcial de The Routledge Atlas of the First World War, p. 143.

18 março 2009

CHAPÉU COMO AQUELE, NEM OS DA GERTRUDES…

As notícias são, mais uma vez, as recomendações do Papa contra o uso do preservativo, mas, novidade mesmo, e literalmente a personagem central da fotografia que enfeita a capa do Público, é a esposa do presidente camaronês e, sobretudo, o seu imponente chapéu, nem de propósito decorado com aquelas cruzes de inspiração cristã, embora o seu formato hexagonal seja desapropriadamente evocativo de uma cúpula de Catedral Ortodoxa (abaixo), e não de uma tradicional Católica Romana, denominação a que pertence o Papa.
Permitam-me esta graçola final, destinada àqueles que podem responder à pergunta onde é que estavam no 25 de Abril: Chapéu como aquele, nem mesmo os famosíssimos da Gertrudes Thomaz…

UMA HISTÓRIA SAUDOSISTA SOBRE A ABERTURA DE LATAS DE CONSERVA E AS IMPLICAÇÕES DISSO PARA A ANÁLISE POLÍTICA

Esta é uma história saudosista, quase reaccionária, sobre as técnicas de abertura das latas de conserva. Há quem me leia que se lembra como as tradicionais latas de conserva se apresentavam normalmente acompanhadas da respectiva chave para as abrir. Não havia falsas promessas. Nada de garantias que a abertura seria fácil. Na verdade, na maioria das vezes tínhamos que batalhar com todas as nossas forças para que a folha-de-flandres se enrolasse numa extensão razoável que possibilitasse o acesso às sardinhas. Só profissionais conseguiam performances tão asseadas como a da fotografia acima…

Os tempos estão muito mudados… Os produtores anunciam agora que pretendem facilitar a vida aos consumidores e anunciam que as latas têm uma Abertura Fácil… E quem é que não acreditou nisso e ficou já com uma daquelas argolas solta no dedo, perguntando-se o que fará a seguir para abrir o raio da lata? E é aí que ficamos decepcionados e a querer mandar aqueles gajos todos à merda, não por não nos facilitarem o acesso ao conteúdo de uma mísera lata de conservas, que foi coisa a que nunca tínhamos estado habituados, mas por nos terem prometido uma abertura fácil, coisa que não conseguem cumprir…
Suponho que se passa uma coisa semelhante com os políticos. Há os normais, de rotina, o equivalente aos de abertura de chave de antigamente, com muito paleio, promessas, mas não para se levarem seriamente a sério. E depois há os outros que querem passar por serem moralmente diferentes (superiores) dos demais… Tinha sido o caso dos membros do PRD eanista e é o caso mais recente dos do Bloco de Esquerda e, sobretudo, do seu líder Francisco Louçã que, talvez não por culpa dele, costuma assumir aquele seu estilo discursivo em que se tem dificuldade em separar o místico do político…

Ora, quanto à moral de Francisco Louçã, a sua argola da abertura fácil ficou-me na mão logo em 1991, ainda ele dirigia o Partido Socialista Revolucionário (trotskista), por ocasião das eleições legislativas desse ano. Deu-se o caso dos habitantes de uma localidade de Sintra (Dona Maria), cerca de 1.200 eleitores (*), terem boicotado o acto eleitoral por causa de promessas não cumpridas de autarcas em eleições anteriores. Deu-se também o caso de Francisco Louçã ter sido o primeiro candidato a ficar fora do Parlamento e que isso podia ser alterado se aqueles constestatários votassem maciçamente nele.
A oportunidade colocar-se-ia por ocasião da repetição obrigatória do acto eleitoral na freguesia, uma semana depois. Os habitantes haviam explicado as suas razões, que se mantinham. Mandava a prudência e o bom senso – para ser eleito, ele precisaria de mais de 1/6 daqueles votos… ­– já para não falar do respeito pelas atitudes contestatárias alheias, que Francisco Louçã se limitasse a respeitar a decisão do boicote. Mas não. No momento decisivo e perante o que estava em jogo, a moralidade foi mandada às urtigas, pondo-se a prometer tudo o que não estava em condições de satisfazer. A bem da Moralidade, o boicote manteve-se…

Por muito cuidada que seja a publicidade, aquela coisa da abertura fácil é uma treta e aqueloutra da esquerda plural que faz toda a diferença é outra…

(*) – Com os meus agradecimentos a um leitor/colega particularmente atento e de boa memória.

17 março 2009

DEPENDENDO DO PONTO DE VISTA…

Ainda na continuação de comparações entre Salazar e Ceausescu (conforme fiz no poste abaixo) vale a pena atentar às duas capas da famosa revista norte-americana Time em que eles apareceram. São edições separadas por 20 anos (a da capa com Salazar é de 1946, a da capa com Ceausescu de 1966) mas, não tendo evoluído o cenário geoestratégico de uma data para outra, faz sentido que se comparem aquelas duas edições.
Assim, na capa de 1946, Salazar aparece acompanhado de uma maçã bichada (algo que está escondido debaixo das aparências) e sobre uma legenda que diz Salazar, o deão dos ditadores. Na de 1966, por detrás de Ceausescu aparecem manifestantes com um cartaz em pano com o seu nome (apoio popular), enquanto na legenda se pode ler Europa Oriental: vida sob um comunismo descontraído. Que contraste!
O meu propósito não é o de vitimizar, muito menos desculpar, o ditador português, mas o de evidenciar para que servem revistas como a Time. No primeiro caso os Estados Unidos estão a repreender um dos seus aliados ideologicamente desalinhado. No segundo caso, estão a acarinhar um aliado tacticamente (que não na ideologia...) desalinhado, mas do adversário soviético… Onde é que entram preocupações com valores morais nesta história? Não entram...

A BEM DA NAÇÃO ou 20 ANOS DE VIDA NOVA

É uma felicidade histórica do nosso povo o facto de, nesta encruzilhada de séculos e de milénios, estar à frente da nossa nação uma personalidade com a vossa estatura que, dotada de um genial sentido visionário, movido por um amor sem limites ao povo e ao país, compreendeu de uma maneira profunda, com o espírito e a alma, os grandes interesses da nação
Para quem estiver a reconhecer o estilo e a fraseologia típica de um daqueles discursos de um dos panegiristas da União Nacional (*), dirigido, claro está, ao Senhor Presidente do Conselho, lamento desapontá-lo com a informação que se trata de um discurso proferido a 1 de Agosto de 1989, e tendo como destinatário o insigne dirigente socialista romeno Nicolae Ceausescu (abaixo)…
Vale a pena manter a recordação como as Ditaduras se assemelham, por muito que se auto-designem por Corporativas, Socialistas, Populares ou Democráticas… É sempre bem vindo quem se junta a manter essa recordação, sobretudo organizações herdeiras de outras que têm um passado onde se pensava de forma muuito diferente. Convirá que os bloquistas não o façam com a sobranceria de veteranos da democracia…

(*) - Escola que se prolongou depois durante o período democrático, e que tem actualmente grandes figuras como Vasco Graça Moura, pelo PSD, e Vital Moreira, pelo PS.