31 julho 2008

O OURO POR DETRÁS DO CAVALO DE FERRO

Todos estamos habituados a identificar, entre a enorme iconografia associada à conquista do Oeste americano, os episódios épicos da expansão do caminho-de-ferro, envolvendo a construção do mesmo, as lutas contra os índios, os operários chineses que o construíram, o extermínio dos bisontes, etc. Serão muito menos os que conhecem o outro lado da história, aquele mais sórdido que nunca passou a filme nem foi escolhido para tema de inesquecíveis pranchas de BD (abaixo)…
É que por detrás da exploração do negócio de transporte escondia-se, normalmente, um descomunal negócio imobiliário. Por exemplo, as duas companhias a quem havia sido atribuída a construção da linha que ligaria o centro dos Estados Unidos ao Oceano Pacífico* tiveram direito à posse das áreas imediatamente adjacentes à da ferrovia construída numa proporção próxima dos 16 km² de território por cada quilómetro de via que a companhia viesse a construir. Como a extensão do Transcontinental ronda os 2.850 km, é... fazer as contas, como diria Guterres.

Estas condições leoninas eram obtidas à custa de uma cuidadosa política de gestão. A construtora a quem fora atribuída a concessão normalmente possuía uma subsidiária a quem subcontratava algumas empreitadas a preços convenientes, além de lhe entregar a valorização imobiliária das regiões adjacentes à via. A Union Pacific Railroad podia (e aconteceu) passar por dificuldades económicas, mas a sua subsidiária, a Crédit Mobilier, chegou a pagar dividendos de 248% aos seus accionistas…
Claro que, quando o escândalo da Crédit Mobilier se veio a descobrir – exposto, como é sempre costume, por um comparsa traído, e não por uma daquelas almas honradas e honestas… – verificou-se uma daquelas terríveis coincidências, dado que entre os accionistas de referência da Crédit Mobilier se contavam uma trintena de senadores e representantes norte-americanos, alguns membros da própria administração norte-americana (US Grant era o presidente) e mesmo o próprio vice-presidente Schuyler Colfax.

Recupero este episódio velho de 135 anos para lembrar como os episódios de corrupção podem acontecer em todos os países, muito embora os causados pelo enriquecimento resultante da especulação imobiliária costumem ter um pico histórico que parece estar sempre associado aos grandes empreendimentos internos**. Depois da Expo 98 e de se encher o país com auto-estradas, parece que as grandes construtoras nacionais voltaram à carga, agora com um novo aeroporto, com linhas de TGV e uma nova travessia do Tejo.
Ora, ao contrário do mítico cavalo de ferro, que, para além de reduzir substancialmente a duração das viagens entre as costas atlântica e pacífica dos Estados Unidos, também serviu para escoar a produção agro-pecuária do Oeste para as regiões consumidoras dos estados costeiros, no caso das auto-estradas portuguesas, para além da diminuição da duração das viagens, estas parecem não ter tido grande impacto económico na distribuição das produções originárias das regiões que servem…

Nitidamente, embora se suspeite cada vez mais que os programas de obras públicas acabem por vir a beneficiar as tesourarias dos partidos, parece ser mais do que tempo de se abandonar o mito de que as grandes empreitadas de obras públicas são um propulsionador do crescimento económico. Na opinião das construtoras, suponho que se poderia continuar a construir até ao infinito; também no Oeste do Século XIX, algumas vezes, companhias rivais chegaram a construir ramais paralelos até o governo se recusar a pagar as obras…
Tudo isso teve um fim e, no interesse do bom senso (coisa que Mário Lino parece não ter) creio que é tempo de também o fazer entre nós.

* Union Pacific Railroad e Central Pacific Railroad.
** É supimpamente ridículo que quem tutelou pastas ministeriais associadas às grandes obras públicas nesses anos dourados, sem que se houvesse destacado particularmente pela sua acção executiva contra a corrupção (é o caso de João Cravinho, recordemos o episódio da Junta Autónoma das Estradas), queira aparecer agora em lugar de destaque pela produção legislativa sobre o mesmo tema. Entenda-se esta distinção: o tema é sério, o protagonista é que nem pode ser levado a sério.

30 julho 2008

O QUE É REALMENTE IMPORTANTE

No seguimento de uma notícia posta ontem a correr sobre a intenção do Ministério da Saúde vir a exigir futuramente a exclusividade aos médicos que trabalhem para o Serviço Nacional de Saúde, o Público dedicou-se hoje a um desenvolvimento sobre o tema nas suas duas páginas, onde publica um interessantíssimo gráfico (que o próprio jornal não chega a aproveitar devidamente) sobre o número de vagas disponíveis para frequência de cursos de Medicina nas Universidades portuguesas desde 1977 até à actualidade.

O gráfico encontra-se reproduzido acima e para quem o saiba interpretar (só em 2001 é que voltou a haver o mesmo número de vagas - 800 - que havia em... 1980) é a expressão clara de um daqueles enormes e inequívocos disparates, que abrangeu vários governos e teve vários responsáveis políticos e técnicos. Não serve por isso de arma de arremesso político, porque as responsabilidades se repartem entre o PS e o PSD, mas o fiasco não deixa de ser menos clamoroso por causa disso, tendo começado ainda no tempo em que o Ministério se designava por dos Assuntos Sociais (passou a ser da Saúde em 1983, com Maldonado Gonelha).

Observado a esta distância, mesmo assim custa perceber como um conjunto alargado de técnicos superiores da nossa administração, durante um período tão alargado de tempo (como se pode observar pelo gráfico, ter-se-á prolongado por mais de vinte anos), se terá conseguido enganar de uma maneira tão grosseira (e curiosamente, por defeito...) quanto às projecções das necessidades nacionais futuras quanto ao número de técnicos qualificados de saúde (porque, pelas indicações, suponho que o problema da falta de enfermeiros será semelhante, embora não tão excessivo).

Maior motivo de perplexidade é a constatação que durante esse extenso período se manteve em Portugal tanto uma capacidade formativa instalada capaz de dar resposta a exigências quantitativas mais elevadas de formação desse técnicos de saúde qualificados como também sempre existiu uma população estudantil devidamente pré-formada e, mais do que isso, interessada em enveredar por essa via profissional. Ou seja, à incompetência, há que adicionar ainda alguma obtusidade social. Foi preciso apenas deixar o tempo evidenciá-la…

É que a medida actual de todo o fiasco poderá ser, por um lado, quantificada pelo número de técnicos de saúde estrangeiros (das mais diversas proveniências), qualificados em estabelecimentos estrangeiros e que são actualmente empregues pelo Serviço Nacional de Saúde português, porque este último tem falta deles. E, ironia suprema de todo este enorme disparate, ainda há que adicionar os portugueses que, porque têm capacidade económica para contornar este sistema absurdo, entretanto regressam ao nosso Serviço Nacional de Saúde depois de se qualificarem no estrangeiro…

Quanto a responsabilidades, é preciso ver para lá da acusação fácil aos interesses corporativos. É evidente que Pedro Nunes, como todos os bastonários da Ordem dos Médicos antes dele, a começar por Gentil Martins (1977-86) são eleitos para defender os interesses corporativos da classe, e aqui esses interesses exprimiam-se pela redução do número de membros. Mas o poder político tem que estar preparado para lidar com essas situações, mesmo que se sofistiquem, como é o caso da Ordem dos Médicos que hoje até possui um Sindicato (SIM) para contornar as suas limitações legais na defesa da classe.

Mas, uma Ordem não tem responsabilidades executivas, a não ser aquelas lhes sejam concedidas pelo respectivo poder, que resulta de eleições. Se os organismos corporativos da classe puderam durante anos a fio influenciar as condições de acesso à profissão em benefício dos profissionais, mas em detrimento do colectivo, então há que chamar à responsabilidade nomeando ao menos aqueles que exerceram os cargos políticos mais em evidência, como será o caso dos titulares das pastas dos Assuntos Sociais e da Saúde durante o longo período que vai de 1980 até 2000*.

Claro que, mais do que a interpretação de um gráfico, os efeitos desastrosos de tudo o que se deixou fazer se constatam no título da notícia imediatamente abaixo do gráfico no artigo do Público acima referido: (segundo previsões de um estudo) Falta de médicos de família vai agravar-se. Também vamos encontrar esses efeitos por detrás de uma boa parte das polémicas que envolveram a reconfiguração da rede de urgências nacional que acabaram por provocar a demissão do anterior ministro da Saúde, Correia de Campos, no princípio deste ano.

Na prática, já não será exequível exigir responsabilidades políticas ou profissionais a quem terá cometido aquelas enormes asneiras, cujo início terá começado vai para uns 30 anos. Mas que ao menos, ao interpretar-se a atitude dos protagonistas, fique a lição, do quanto costumam ser falaciosos os discursos assumidos pelos representantes da Ordem dos Médicos (e, claro, pelos do respectivo Sindicato acoplado) quando, invocando normalmente nebulosas razões de ordem técnica, pretendem passar por defender o interesse do público.

Neste caso, em que se procura traçar uma clara separação profissional entre o sector público e o sector privado, a encenação torna a repetir-se. É que se houvesse alguma consistência na ameaça de que, nessa eventualidade, a nata da profissão se mudaria para o sector privado, era lógico que ouviríamos de imediato os grupos privados do sector da Saúde que exploram hospitais a apoiar a medida. Ora, sobre esse assunto eles permanecem sabiamente silenciosos. O privado que se sente ameaçado e que Pedro Nunes parece defender nem sequer é o privado, será o artesanato das pequenas clínicas...

* Morais Leitão, Carlos Macedo, Luís Barbosa como titulares da pasta dos Assuntos Sociais. Os restantes já com a pasta da Saúde: Maldonado Gonelha, Leonor Beleza, Arlindo de Carvalho, Paulo Mendo, Maria de Belém e Manuela Arcanjo.

27 julho 2008

O PODER "SILLY" DA "SILLY SEASON"

Impressionou-me o poder silly da silly season que até arrastou um bastião do no-nonsense como José Pacheco Pereira até ao telhado do edifício do Diário de Notícias para tirar fotografias que ilustrassem a sua entrevista de hoje àquele jornal. De útil fiquei com a certeza, por confissão do próprio, sempre muito relutante a falar do seu período M-L, que o bom do autor do Abrupto, que já escreveu mais de 1.000 páginas da biografia de uma pessoa que confessa nem sequer o fascinar (...Álvaro Cunhal), até chegou a militar num PCP..., mas no M-L.

NA CONTINUIDADE...

O mundo continua a girar e alguns que nele vivem continuam a produzir inanidades bastantes mas sem prestar atenção nenhuma como eu abdiquei temporariamente de os vigiar e recriminar aqui no blogue. Nem sequer se pode dizer que, sempre tontos, por estes dias andam mais felizes...

24 julho 2008

A VENDA DA JUSTIÇA

Para lá das quezílias partidárias, do facto do assunto ter ressuscitado hoje também pela mão inevitável do Público, a verdade é que, num mundo idealmente justo, a corresponsabilidade política de Fernando Teixeira dos Santos e de Vítor Constâncio a respeito do assunto das irregularidades no BCP que se têm vindo a descobrir nunca deveria poder ser escamoteada numa votação parlamentar em que o PS impõe o peso da sua maioria. Para todos os efeitos aqueles dois eram os polícias de plantão à porta da moradia enquanto algo de comprovadamente ilegal lá se passou.
E, por muito que custe ao PS, há alguma razão para que a estátua da justiça seja representada com uma venda nos olhos.

21 julho 2008

MARX, ENGELS, LENIN, STALINE E… MANDELA?

A propósito de um poste que aqui inseri no passado dia 18 e de vários comentários a ele entretanto feitos, achei que seria preferível condensar tudo o que se me oferece dizer sobre o assunto num poste:
Não sei qual será a data do aniversário de Vítor Dias, mas suponho que os leitores achariam datado e despropositado que eu começasse por ilustrar um eventual voto de felicitações que lhe dedicasse com a fotografia de um cartaz do MDP/CDE de 1974 ou 75 (acima), daqueles tempos em que, segundo creio, o hipotético aniversariante, então jovem quadro do PCP, teria estado em comissão de serviço a desempenhar funções de dirigente nacional daquela organização, tarefa então vulgarmente designada pelos adversários políticos com o desprestigiante epíteto de submarino. Não só porque o episódio retratado terá um efeito redutor de todo o percurso político posterior de Vítor Dias, mas também porque ele está definitivamente datado, de uma fase da sua vida.
Peço-lhe desculpa por esta maldade que lhe fiz, mas talvez assim Vítor Dias consiga perceber qual será a importância da escolha da imagem inicial que se adopte para encimar um texto sobre um determinado assunto. Foi assim que considero que ele fez com Mandela. Talvez para me penitenciar, inseri esta segunda fotografia, com Winnie e Nelson Mandela e Joe Slovo (que era à época o secretário-geral do SACP*), todos de punho erguido, mais a estrela, a foice e o martelo em fundo. Embora o ar dos Mandelas pudesse ser um pouco mais entusiasmado, até a mim me apeteceria partir daquela fotografia para dissertar sobre as enormes contribuições – se elas tivessem existido – de Mandela para o marxismo-leninismo, emparelhando-o com os quatro heróis do costume** e justificando o titulo do poste
Quanto ao conteúdo do pretenso comentário-resposta que Vítor Dias inseriu no seu poste em resposta ao que aqui escrevi, tem efeitos especiais de mais e matéria de facto de menos para que mereça uma resposta no corpo principal do poste***. Muito pelo contrário, vale a pena ler a argumentação apresentada por António Vilarigues (ou por alguém que usará o mesmo pseudónimo) na caixa de comentários (é o 11º) do meu poste, sobre a questão da associação entre o ANC e o SACP. Factos e só factos, escreveu (e bem) António Vilarigues. No direito anglo-saxónico fazem-se as testemunhas jurar em tribunal que contem a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. Aqui também, convém que sejam os factos, só os factos, mas todos os factos e nada mais que os factos…
Além da presença, correctamente referida por António Vilarigues, do SACP nas áreas do poder, convém analisar de forma objectiva quais têm sido as consequências e os benefícios para a esquerda resultantes dessa presença do partido na área do poder na África do Sul desde 1994… Onde é que se poderão encontrar as influências ideológicas do marxismo-leninismo da Constituição sul-africana de 1996? A África do Sul não continua a ser um país capitalista? Em suma, a relevância ideológica do SACP na África do Sul de hoje parece-me ser diminuta e, perdoem-me a conclusão, mas isto das simpatias comunistas sem qualquer afinidade ideológica está a tornar o internacionalismo proletário perigosamente parecido com o Rotary Club
* South African Communist Party (Partido Comunista Sul-Africano).
** Para os camaradas maoistas seriam os cinco heróis do costume...
*** Vítor Dias parece não reparar que há diferença entre implicar com uma fotografia e implicar com quem teve o critério de a escolher para encimar um texto.
Parece não saber encimar significa apenas isso, colocar em cima, dar destaque. Se, segundo a sua acusação, eu pretendesse escamotear que Vítor Dias tinha utilizado outras fotografias para o ilustrar porque teria feito directamente uma ligação para que o leitor fosse ver o seu poste?
Quanto ao assunto da importância da libertação de Mandela lembro a Vítor Dias que muita gente foi libertada depois de décadas de prisão por delitos de opinião (dissidentes soviéticos também…) e não possuem nem uma fracção da popularidade de Mandela. Ao contrário, Ghandi não precisou dos 27 anos de prisão para adquirir a sua.
Será que Vítor Dias não percebeu mesmo que a técnica de apagar das fotografias os caídos em desgraça é apenas o exemplo mais cretino de tentar reconstruir o passado que se tornou tão típico daqelas organizações: quererá o Vítor Dias apostar comigo que, sem ser por descuido, não encontrará nenhuma menção na documentação oficial do seu partido ao nome de um militante destacado que entretanto o tenha abandonado?
E, claro, suspeito nem pela sua cabeça lhe passará pôr a hipótese que o fim da guerra-fria e a verdadeira pressão política e económica das potências ocidentais sobre o regime do apartheid fizeram aquilo que o que classifica de 27 anos de solidariedade da esquerda não puderam fazer.

20 julho 2008

AS VÁRIAS MANEIRAS DE FRACTURAR O BENELUX

O nome Benelux é recente (data de 1944), mas a região geográfica e cultural a que ele se refere é uma das regiões históricas mais antigas da Europa, conhecida colectivamente pelo nome de Países Baixos. Os habitantes podem ir buscar a primeira manifestação histórica da sua identidade à revolta de Civilis contra o Império Romano nos anos 69/70 da nossa era, e embora o episódio depois se tenha estendido a toda a Gália, ele é muito mais acarinhado pelos flamengos do que pelos francófonos, basta compararem-se, pelas respectivas ligações, a diferença do detalhe do tratamento dado ao assunto em cada um dos idiomas.
No entanto, foi apenas por um período curto entre 1815 e 1830, na sequência do traçado das novas fronteiras provocado pelo fim das Guerras Napoleónicas que os três países actuais que designamos por Benelux (Bélgica, Países Baixos – Nederland no original – e Luxemburgo) pertenceram à mesma entidade política: era o Reino Unido dos Países Baixos. Tratava-se de um país complexo, pois havia que acautelar problemas criados por factores linguísticos com outros criados por factores religiosos. Ao contrário do que hoje acontece, naquela época os Países Baixos do Sul eram mais povoados do que os do Norte, numa proporção de 3:2.
Os Países do Norte eram homogéneos em termos linguísticos (o mapa acima assinala os dialectos, não os idiomas), mas nos do Sul, a maioria que falava flamengo superava os francófonos numa proporção de 3:2. Em contrapartida, não havia ali minorias religiosas significativas (a população era esmagadoramente católica), enquanto que a Norte os Protestantes superavam os Católicos na proporção aproximada (também) de 3:2. Aparentemente, apesar disso, o Reino Unido teria um idioma e cultura dominantes, o flamengo (falado por 75% da população) e também uma religião dominante, o catolicismo (professado por cerca de 75% da população*).
Geográfica e sociologicamente, aquela que devia ser a região e a população nuclear do novo Reino até coincidiam: era a maioria (51%) de flamengos católicos que predominava no Sul dos Países Baixos do Norte e no Norte dos Países Baixos do Sul. A escolha da capital desse reino oscilaria entre as cidades portuárias de Roterdão ou de Antuérpia (actualmente são o maior e o terceiro maior porto da Europa). Podia ou devia ter sido, não foi assim que as acontecimentos evoluíram, nomeadamente porque o poder político do novo Reino Unido esteve sempre demasiado personalizado na pessoa do Rei Guilherme I de Orange, que era um flamengo protestante.
Por tudo o que foi descrito, haveria duas maneiras previsíveis como o Reino Unido dos Países Baixos se pudesse fracturar: ou perder o extremo norte flamengo, mas protestante; ou então perder o extremo sul católico, mas francófono. As fronteiras que se encontraram em 1839, patrocinadas especialmente pelos britânicos, foram diferentes, uma fractura científica, porque mantinham algum poder ao Reino dos Orange, bloqueavam a anexação da região meridional pela França e dividiam o antigo Reino Unido quase ao meio, deixando províncias a compartilhar a mesma designação dos dois lados da fronteira (Brabante, Limburgo).
Há que reconhecer os méritos da solução então encontrada: sempre se manteve por 170 anos! O problema é que tudo aponta, porque os elementos de fractura lá permaneceram, para que o seu prazo de validade tenha expirado e a Bélgica se venha a dividir no futuro. O que não cessa de me surpreender, a pontos de se tornar incómodo, é como todo este grave problema, que se desenrola literalmente à porta do Berlaymont**, tem sido cuidadosamente evitado pela poderosíssima máquina mediática da União Europeia. Quando e como será abordado? Com uma discreta nota de imprensa comunicando que a União passou a ter 28 membros?...

* Não deixa de ser curioso (e incorrecto) que, na página flamenga da Wikipedia referente ao Reino, a religião protestante venha mencionada antes da católica...
** Edifício de Bruxelas que alberga a Comissão Europeia.

19 julho 2008

JORNALISMO DE MERDA

Este é um daqueles postes instintivos, que é provocado por uma daquelas conclusões banais, que me parecem ser do mais elementar bom senso e que apenas me intrigam as razões para que não haja mais pessoas que partilhem a mesma opinião. Acabei de ver uma reportagem da SIC com um dos proprietários de uma casa na Quinta da Fonte, daqueles que se mantêm acampados à frente da Câmara de Loures até que lhe dêem outra habitação…
Ele foi o protagonista da reportagem, que estava nitidamente concebida para que nos condoêssemos da sua desdita, quando regressou à sua casa assaltada, enumerando-nos tudo o que ali fora destruído e dali fora roubado: a televisão, o leitor de dvds, as play-stations dos miúdos, a televisão do quarto dos miúdos, as máquinas de lavar, o frigorifico… enfim, não faltou mencionar qualquer apetrecho de uma casa típica de classe média.
Ora sendo as casas da Quinta da Fonte publicitados casos de habitação social, serei eu o único a estar desconfiado ao perguntar-me se, antes do roubo do recheio, não parece ter havido ali um outro roubo, mas esse feito a todos nós, contribuintes, ao terem concedido assim uma habitação social suportada pelos impostos a quem dá mostras de tais sinais exteriores de prosperidade? Que critérios presidiram às concessões daquelas casas? Que género de jornalismo é aquele?

Afinal, parece que a qualidade e o estilo das reportagens se repetem, mas felizmente há quem na profissão também ache o mesmo que eu…

O QUE NÃO É NATURAL…

Havia um famoso anúncio televisivo a um Restaurador chamado Olex (assim designado porque anunciava restaurar a cor primitiva dos nossos cabelos…) que era fantástico pela rusticidade da sua introdução: Dizia uma voz em offUm preto de cabeleira loura (e aparecia um de peruca) ou um branco de carapinha (e aparecia o respectivo também de peruca) não é natural… O que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu…
Pois bem, realizar eleições gerais e demorar nove meses até se constituir um governo também não é natural… E que esse governo esteja demissionário ao fim de apenas quatro meses de constituição ainda é menos natural… Já aqui me referi por algumas vezes ao problema da Bélgica, o problema já aqui foi discutido com a amável participação de um belga flamengo e sinto-me numa de duas situações antagónicas: ou já percebi tudo ou então não percebi nada.
No primeiro caso, parece-me um daqueles casos de um casal que já se decidiu pelo divórcio e estarão apenas a manobrar cuidadosamente de forma a maximizarem para o seu lado a divisão do espólio e é esse espólio (concretamente, a região neutral de Bruxelas) que está ainda em disputa; no segundo caso, as duas comunidades belgas estarão ligadas por profundas conexões que não se deixam ver à superfície, nem compreender por quem esteja de fora…

18 julho 2008

NELSON E WINNIE

Entre as mais variadas referências ao aniversário dos 90 anos de Nelson Mandela que encontrei espalhadas pela blogosfera, tenho de destacar a que consta do blogue O Tempo das Cerejas, talvez saudosista de outros tempos, talvez um pouco revisionista (mas no sentido mais neutral do termo), mas sobretudo por, em vez de conter uma fotografia recente, ser encimada por uma daquelas fotografias canónicas da cerimónia da libertação de Nelson Mandela em Fevereiro de 1990, onde se vê o próprio Nelson e a mulher Winnie de mãos dadas e punho cerrado, numa verdadeira estética de companheiros revolucionários, que suponho seja a gosto do autor. Se sim, são gostos e não se discutem...
Mas não deixa de ser irónico que, vigorasse na África do Sul o tal regime revolucionário que os tais punhos cerrados da fotografia parecem sugerir, e haveria uma séria possibilidade que as fotografias daquele acontecimento tivessem desaparecido ou então sofressem alguns retoques. Com o embaraçoso percurso subsequente de Winnie Mandela, envolvida num escândalo de homicídio em 1991, demitida do governo em 1995, divorciada de Nelson em 1996 e condenada por fraude em 2003, ela reúne todos os ingredientes para ser considerada como tendo caído em desgraça, tal qual aconteceu com Trotsky e Kamenev, que retocadamente desapareceram da companhia de Lenine na fotografia da direita, abaixo…

NELSON MANDELA – 90 ANOS

Mesmo pouco dado a efemérides e a personalidades consensuais, gostava hoje de assinalar neste blogue o dia em que se cumprem os 90 anos de Nelson Mandela, nem que seja para que esse assunto seja um bom pretexto para que eu realce aquilo que me parece uma confusão muito comum na sociedade portuguesa entre o que deve ser o respeito e a veneração por uma figura e uma apreciação objectiva sobre quais são as suas reais capacidades.
Ainda ontem li uma opinião que classificava o professor Adriano Moreira (a caminho dos 86 anos) como o nosso melhor especialista em relações internacionais. Poder-se-ia tratar de um caso excepcional de longevidade, não pudesse eu juntar outros casos, como o do nosso melhor cineasta Manoel de Oliveira (a caminho dos 100) ou o nosso melhor futebolista Luís Figo (a caminho dos 36), mais a falta que ele faz à selecção
Poderia aqui multiplicar os exemplos, que costumam ser normalmente acompanhados da alusão à melhoria da qualidade com o tempo, como o Vinho do Porto… Só que os ciclos da vida são implacáveis e as grandes figuras não estão destinadas a envelhecer em cascos de carvalho: nascimento, crescimento, maturidade, decadência e morte. É uma inércia, muito nacional, aquela que nos leva a recorrer sempre os mesmos nomes...
Os problemas da África do Sul podem servir de exemplo daquilo que nos distingue do resto do Mundo. É que ali existe um potencial problema político enorme entre as duas alas do partido dominante, o ANC*, chefiadas respectivamente por Thabo Mbeki (acima) e por Jacob Zuma (abaixo). E suponho que também haverá sul-africanos que se terão lembrado do regresso da figura veneranda de Nelson Mandela para atenuar essas tensões…
A diferença entre a África do Sul e Portugal (lembram-se da candidatura de Mário Soares - a caminho dos 84 - à presidência?...) é que, entre nós, os proponentes de tais soluções que apenas pretendem congelar a evolução dos acontecimentos costumam ser levados a sério e os que são propostos também se costumam levar a sério… Agora a sério: as figuras venerandas (como o aniversariante Nelson Mandela) são para venerar; mantenhamo-las no pedestal...
* African National Congress (Congresso Nacional Africano), o partido no poder na África do Sul.

17 julho 2008

A TORRE DE PISA

A Torre de Pisa é um dos monumentos mais conhecidos de Itália, precisamente por causa do seu defeito, a sua inclinação de quase 4º que a torna única no Mundo. Foram apresentadas milhares de soluções de engenharia para corrigir essa inclinação. Mas as soluções ideais têm que ser sempre de compromisso, pois ao mesmo tempo que travam o aumento da inclinação da torre (que se chegou a verificar ao ritmo de 1 mm por ano), também têm que a fazer permanecer inclinada e uma descomunal fonte de receitas de turismo para a cidade. Que interesse teria uma Torre de Pisa endireitada?

Mas a lição que quero tirar da história da Torre de Pisa é a da sua construção, iniciada em 1173. Quando a torre havia atingido o terceiro piso (1178) é que ela se começou a inclinar, por causa das condições do solo e da pouca profundidade das fundações. Os trabalhos foram suspensos, reatados 90 anos mais tarde, a Torre foi finalmente concluída em 1350 (177 depois de iniciada), mas todos os trabalhos realizados a partir de 1178 foram dominados pelas tentativas de correcção da inclinação então adquirida – nota-se, aliás, que a Torre é subtilmente torta no sentido inverso ao da inclinação.

O problema da Torre de Pisa é assim uma coisa basilar, estrutural, defeito que também costumo associar a certas tipos de argumentos que, mau grado os desenvolvimentos, por vezes excelentes, são coisas que, como diz o nosso ditado popular, tarde ou nunca se endireitam. É o caso de um senhor que dá pelo nome de José Albergaria e tem um blogue com o sóbrio nome de Aqueduto Livre e que, pelo que escreveu num seu poste, não gostou particularmente da apreciação que fiz do programa Câmara Clara, num poste que aqui havia escrito há uns três dias atrás, conforme me vim a aperceber por acaso.

Não me agrada particularmente que num poste em que José Albergaria chega a interpelar-me formalmente (com expressões como recorda-se, agradeço-lhe, aceite…) não tenha tido a atenção (para não falar da educação…) de fazer uma ligação ao poste do blogue de que discordava, ou de ali deixar um comentário discordante, ou de ali deixar um comentário chamando a atenção para o texto discordante que publicara, ou enviando uma mensagem para o meu e-mail… Enfim, o acaso corrigiu o erro, mas preferiria estar a falar de alguém de quem tivesse a certeza que agira para que eu o lesse…

Faça-se também notar a José Albergaria, se lhe tiver escapado, que o meu nome consta em lugar visível no blogue (A.Teixeira) e que o recurso a trocadilhos, no caso tratando-me por Aécio ou por o “general” Aécio, geralmente não costumam melhorar a qualidade da argumentação de quem os emprega. Será que ele pretende que eu o venha a tratar de maneira simétrica por Senhor Aqueduto Livre? A propósito de nomes de blogues, deverei felicitar José Albergaria, pois é o primeiro caso que presenciei em três anos de blogosfera em que a descortesia começa logo pela crítica ao nome do blogue do interlocutor.

Porque, sobre frontalidade e sobre pomposidade, concordando totalmente com a crítica recebida (Herdeiro de Aécio é, de facto, um título pomposo), deixem-me realçar alguns momentos felizes que tive a oportunidade de ler graças ao poste de José Albergaria, com menções e citações (de memória!) de Marc Bloch sobre a batalha de Borodino… São momentos de onde se exuma a modéstia!... Noutro momento de sobriedade, a cumplicidade que me exigem (Sabe-o tanto quanto eu…) sobre os nomes dos enormes especialistas nessa matéria é grandiloquente e chega a ser lisonjeira, mas terei de o desapontar…

Mas estes foram apenas os aspectos acessórios, porque o essencial da crítica assenta no lamentável relato do programa da Paula Moura Pinheiro feito pelo "general" Aécio. Ora eu não fiz, nem me propus fazer, nenhum relato do programa Câmara Clara. O bom do José Albergaria resolveu interpretar o texto à sua vontade e com toda a sua boa vontade: se escrevi que apreciara a prestação do professor Dias Diogo, na opinião dele há outros muito melhores; se escrevi que a prestação do professor Medeiros Ferreira tivera momentos muito ridículos, na opinião dele, ele é o (segundo) melhor…

Até os melhores têm dias, e é possível que aquele não tivesse sido um bom dia para José Medeiros Ferreira, e se calhar anteontem, quando escrevi aquele poste, também não fosse um bom dia para mim, que nem sequer sou dos melhores... Eu bem quereria desejar que ontem também tivesse sido um mau dia do José Albergaria, mas fica-me a suspeita que, tal como a Torre de Pisa que está torta desde o terceiro piso, no caso dele as coisas estejam entortadas desde os andares iniciais, pois conseguiu extrapolar da apreciação dos convidados de um programa para as lacunas de uma hipotética apreciação que eu deveria ter feito de todo o programa!

Regressando à forma, quanto aos salamaleques colocados no fim do poste de José Albergaria que me são dedicados – Aceite os protestos da minha critica, não do meu julgamento (quem sou eu para julgar?!...) ao conteúdo do seu blog e, particularmente, do seu poste "O Ego de César". – que contrastam escandalosamente com o teor todo em estilo casca mais grossa do resto do texto que escreveu, resta-me concluir que nem aqueles salamaleques finais têm qualquer jeito, nem o José Albergaria terá qualquer jeito para a cortesia ou para a ironia fina.

16 julho 2008

O ACTO INSTITUCIONAL Nº 1

Já terá ficado esquecido que os generais brasileiros também chamaram Revolução ao seu Golpe Militar de 31 de Março de 1964. O preâmbulo do Ato Institucional nº1 (houve 5) com que se apresentaram e legitimaram, redigido por dois eminentes juristas da época (Carlos Medeiros da Silva e Francisco Campos), contém um dos mais interessantes textos escritos na língua portuguesa sobre a questão da legitimidade do poder político:
A revolução vitoriosa, como o Poder Constituinte, se legitima por si mesma. Ela destitui o Governo anterior e tem a capacidade de constituir novo Governo. Nela se contém a força normativa, inerente ao Poder Constituinte. Ela edita normas jurídicas, sem que nisto seja limitada pela normatividade anterior à sua vitória. Já Mao Zedong, mais poético mas menos jurídico, dissera que o poder político nasce do cano das espingardas.
Hoje, lêem-se demasiadas opiniões que assentam no pressuposto precisamente contrário ao do parágrafo acima: parece que é o Direito que se legitima por si mesmo, esquecendo-se de verificar se existem condições para o impor com legitimidade... É o que acontece regularmente com o Direito Internacional e que depois se costuma concretizar em ridículas operações de Relações Públicas, como aconteceu com a recente acusação do TPI ao presidente sudanês.

15 julho 2008

O PAR

Hoje, muito discretamente, o Ministério da Defesa emitiu uma nota a respeito da cerimónia do lançamento à água nos estaleiros em Kiel, na Alemanha, do primeiro dos dois novos submarinos da classe U-214. Segundo ela, no elenco presente na cerimónia contava-se o Ministro da Defesa, os Chefes do Estado-Maior General das Forças Armadas e da Armada, três deputados (do PS, PSD e CDS/PP), membros da Comissão Parlamentar de Defesa, o Presidente da Assembleia da República e a esposa, que foi a madrinha do navio. Só lá faltou Paulo Portas, a pessoa que mais instintivamente associamos àqueles submarinos e que, não fossem as tradições sexistas, mais directamente conceberíamos como um merecido padrinho de um deles.
Em contraste, o governo actual tem mostrado um entusiasmo muito diminuto com a aquisição daqueles magníficos equipamentos de defesa, especialmente depois da descoberta que a contabilização para o deficit orçamental dos 800 milhões de euros que eles irão custar terá que ser feita globalmente no ano de aquisição (2010) e não poderá ser diluída ao longo do período de pagamento da operação de locação financeira, como inicialmente se pensara. Conforme se lê nas notícias, do gabinete ministerial informa-se que está actualmente em estudo o modelo de financiamento da aquisição com o Ministério das Finanças, explicação que, depois de descodificada, poderá corresponder à expressão à procura da quadratura do círculo

A OPINIÃO DE...

Depois do Espaço Público ter sido ontem ocupado por um artigo de opinião de Miguel Graça Moura em ele que se mostrava favorável à constituição do Bloco Central, o jornal devia ter aproveitado a embalagem e, em vez de Vital Moreira (que já se sabe estar sempre do lado onde estiver o governo), podia ter publicado um outro artigo, provavelmente contrário a essa constituição, desta vez assinado por essa grande figura intelectual que dá pelo nome de Fátima Felgueiras. Amanhã ficaríamos a saber o que Valentim Loureiro pensará sobre esse assunto e o dia seguinte estaria reservado para a opinião de João Vale e Azevedo. E na Sexta-Feira apareceria o Inimigo Público a reclamar com a concorrência...

MIGUEL SERVETO - UM ESQUECIMENTO CONSENSUAL

Miguel Serveto foi um cientista e teólogo seiscentista (1511-1553) de origem aragonesa relativamente desconhecido. Todavia, vale a pena conhecer, ainda que resumidamente, a história da sua vida. Os seus interesses intelectuais eram variadíssimos, estendendo-se pela astronomia, meteorologia, geografia, matemática, farmacologia, anatomia e teologia. A penúltima trar-lhe-ia a fama póstuma de ter sido o primeiro ocidental a descrever a pequena circulação – embora a descrição tivesse aparecido num tratado de teologia… Quanto ao gosto por esta última disciplina custar-lhe-ia a vida.

Numa época em que Reformistas e Contra-Reformistas se defrontavam ideológica e militarmente por toda a Europa, Miguel Serveto foi um daqueles infelizes que resolve escolher uma terceira via, resultado dos seus próprios estudos bíblicos. No seu tratado De Trinitatis erroribus (sobre os erros da Trindade), que até pode ser considerada uma obra arrojada da juventude (foi publicada em 1531, quando o autor tinha 20 anos), Miguel Serveto acaba por elaborar uma doutrina anti-trinitária que consegue desagradar a todas as grandes correntes político-religiosas em confronto.

Preso pela Inquisição em França, consegue fugir, mas não consegue evitar a condenação da sua pessoa e das suas teses pela Igreja Católica. Os seus livros e uma efígie sua vêm a ser queimados numa cerimónia pública. Refugiado em Genebra (Suíça), que era então um importante bastião protestante (calvinista), acabou por ser também ali julgado por heresia e foram os representantes dessa confissão os responsáveis pelo julgamento e pela execução na fogueira de Miguel Serveto. Hoje, dir-se-ia que à sua volta se gerou um certo consenso, e é esse consenso que faz dele, hoje, figura desconhecida…

14 julho 2008

QUAL É O PROBLEMA??

Para os mais esquecidos ou distraídos, Miguel Graça Moura é um maestro que aqui há uns três anos se tornou nacionalmente famoso, não propriamente pelas peças musicais que tenha dirigido, mas pelas clamorosas irregularidades financeiras que uma auditoria detectou à sua actuação enquanto dirigente da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Ficaram notáveis as notícias relacionadas com a liberalidade das despesas que o maestro fazia usando o cartão de crédito que lhe fora dado a título institucional (comprando os mais variados artigos para sua casa, vestuário, jóias e viagens), até às rocambolescas peripécias do seu despedimento, que envolveram mesmo um sequestro do maestro ao bom estilo do PREC.
Insatisfeito, no ano passado, Miguel Graça Moura voltou a ser notícia, agora porque colocou uma acção contra o Estado onde reclama cerca de dois milhões de euros. Nas suas próprias palavras: O autor era figura pública, com uma carreira fulgurante reconhecida nacional e internacionalmente (…). Deve ser para recuperar algum desse fulgor que hoje tempos oportunidade de o ler num artigo de opinião do Público (p.33) intitulado O tabu do Bloco Central: qual é o problema?. Ora quando uma pergunta destas é colocada por alguém que considerou normal ter gasto pessoalmente 350 000 euros num ano numa organização falida, creio estarmos diante de alguém que têm um enorme problema em identificar problemas… Não sei se a opção do Público foi a mais feliz...

A OPERAÇÃO "IMPENSÁVEL"

Muito menos conhecida que a sua Cortina de Ferro, a Operação Impensável (Unthinkable) tem também a marca indelével da forma característica como o Primeiro-Ministro Winston Churchill sempre viu a repartição das esferas de influência na Europa no imediato pós-guerra. Tendo sido guardada em segredo durante décadas, a génese dos estudos para a Operação (acima) começaram nos últimos meses em que ainda se travava a Segunda Guerra Mundial na Europa e os planos foram concluídos e entregues a Churchill uns 15 dias depois da vitória sobre o III Reich, em 22 de Maio de 1945.
O objectivo principal confesso de tal Operação seria o de impor à Rússia a vontade dos Estados Unidos e do Império Britânico, numa eventual situação em que as três potências não chegassem a atingir um acordo satisfatório sobre otraçado das novas fronteiras das esferas de influência na Europa. Antes dos Estados Unidos começarem a transferir a maior parte das suas melhores unidades do exército para o Extremo Oriente, em preparação da invasão do Japão, os britânicos teriam que beneficiar da última oportunidade da sua presença para o processo negocial no tabuleiro europeu.
Além das razões mais intangíveis – nomeadamente a completa falta de motivação para um novo conflito, tão imediato ao término de outro – as realidades materiais das forças presentes no continente desaconselhavam a implementação de qualquer Operação ofensiva: a superioridade do exercito soviético (acima o QG em Berlim) era teoricamente muito clara, contando com 264 Divisões* (das quais 36 eram blindadas) contra as 103 Divisões ocidentais (23 blindadas)** das quais 2/3 eram norte-americanas. Além disso, a superioridade aérea dos ocidentais era questionável e a superioridade naval era esmagadora, mas pouco importante.
Sobretudo, o que incomodava o Comité de Chefes de Estado-Maior britânico (CSC - acima) era a impossibilidade de se elegerem objectivos tácticos cuja satisfação assegurasse o alcance do objectivo estratégico – como se poderia impor a Estaline a vontade das potências ocidentais? Em princípios de Junho de 1945, Alan Brooke, Cunningham e Portal haviam respondido a Churchill e este vira-se obrigado a desistir da ideia. E em Julho de 1945, durante a Conferência de Potsdam, os britânicos fizeram tudo o que puderam (diplomaticamente) para extrair um compromisso dos soviéticos quanto às eleições na Polónia...
Os soviéticos não cumpriram e Winston Churchill, entretanto afastado do poder em Julho de 1945, dedicou-se aos seus discursos

* Uma Divisão é a designação de uma unidade militar combinada, resultante da junção de outras unidades mais pequenas das várias armas (infantaria, artilharia, cavalaria, engenharia). O número dos seus efectivos é variável, entre os 10 a 20 mil.
** As Divisões blindadas, pela sua mobilidade e protecção, eram as unidades mais importantes, tanto no ataque como na defesa.

O EGO DE CÉSAR

Nunca perceberei se é uma semelhança natural, ou se ela será cultivada, a que torna Paula Moura Pinheiro (acima) uma quase sósia de Morticia Addams (abaixo), personagem de uma famosa série televisiva sobre o bizarro e o sobrenatural que se intitulava A Família Addams. Sendo uma série onde predominavam os tons escuros, assim como a roupa que Paula Moura Pinheiro usa, não deixa de ser um paradoxo que o seu programa se chame Câmara Clara (passa no Domingo à noite na RTP2).
O programa de ontem tratou de um tema interessantíssimo, o das possíveis analogias e diferenças entre o Império Romano da Antiguidade e a União Europeia da actualidade. Os convidados de Paula Moura Pinheiro foram o mediático professor José Medeiros Ferreira e o muito menos mediático professor António Manuel Dias Diogo. Este último era tão menos mediático, que o próprio colega de programa (Medeiros Ferreira) acabou, a certa altura, por lhe trocar o nome para Dias Agudo…
Mas durante o programa os conhecimentos demonstrados por ambos sobre o tema estiveram na proporção inversa da sua notoriedade mediática e, enquanto fiquei com a impressão que Dias Diogo era um excelente especialista em História Romana, com predilecção pelo período do apogeu dessa civilização (Século I a.C. e I d.C.), constatei que Medeiros Ferreira passou por ser um especialista mais treinado em comunicação televisiva que, para aquele programa, nem fizera revisões na matéria de facto.
Como pormenor significativo, quando solicitados a indicar dois livros da sua predilecção sobre o tema, Medeiros Ferreira, teve um dos momentos altos do programa, quando começou por indicar e até citar de cor uma das passagens do Júlio César de Shakespeare. Será interessante para mostrar o que na Inglaterra do Século XVI se pensaria sobre Roma mas não terá grande coisa a ver com Roma. Melhor, só a sua segunda sugestão, porque se tratou do último livro que publicou, cuja associação com Roma ele nem tentou estabelecer…
Se, como realçou José Medeiros Ferreira, o ego do Júlio César literário de Shakespeare era incomensurável, poucas certezas poderá haver quanto à dimensão do ego do verdadeiro Júlio César histórico. Mas, por todas estas pequenas coisas, parece-me que não existem dúvidas quanto à dimensão do ego do próprio José Medeiros Ferreira…