10 Junho 2007

GUERRAS ESQUECIDAS (3): A GUERRA DO BIAFRA (1967-70)

Sir Abubakar Tafawa Balewa. Serão poucos os que hoje se recordam de quem era, mas lembro-me de ler um artigo extremamente elogioso a seu respeito publicado na Reader´s Digest*. Ao contrário do imprevisível Kwame Nkrumah**, Sir Abubakar aparecia como um líder de um futuro país africano em que, tanto a potência colonial britânica, como a própria superpotência norte-americana, depositavam confiadas esperanças para o futuro. Tanto parecia ser assim, que a imprensa o designava usando o título britânico Sir (genuíno: resultante de uma condecoração britânica que recebera) acrescentado ao seu nome… O país era a Nigéria, o mais populoso país africano, situado no Golfo da Guiné e o ano 1960.
A Guerra do Biafra (1967-70) foi uma – e é também designada por – Guerra Civil Nigeriana e é por isso conveniente dar uma explicação, ainda que simplificada, da complexidade do enorme país que Sir Abubakar iria dirigir. Como se pode observar no mapa acima a rede dos dois rios principais da Nigéria (o Níger, que lhe dá o nome, e o Benué, o seu afluente, que vem de Leste) desenha uma figura que faz lembrar um gigantesco Y. A organização da Nigéria colonial estruturava-se em três grandes regiões separadas pelas pernas desse hipotético Y: na de Sudoeste predominavam os Yoruba, na de Sudeste os Ibo e na do Norte os Hausa.

Mas a história das três regiões era completamente distinta: enquanto as duas primeiras já tinham tido contacto com os europeus (a começar pelos portugueses) desde o século XV, tendo-se desenvolvido um intenso comércio com eles desde aí (sobretudo de escravos…), o protectorado que estabelecera a supremacia britânica no Norte da Nigéria datava de 1901… O Norte era maioritariamente muçulmano mas no Sul predominavam os cristãos. Mas o historial dos estados dos Yoruba (como o do Benin***), que habitavam junto àquela que os portugueses designavam por Costa dos Escravos, era muito mais evoluído e distinto dos Ibo, que dominavam as zonas da Costa da Pimenta.

E há que ter em conta que esta descrição apenas pretende dar organização a uma realidade muito mais complexa: na verdade, a Nigéria tem mais de 250 grupos étnicos distintos e sensivelmente o dobro desse número em idiomas e dialectos e a indicação das suas regiões de origem não pode fazer esquecer como as etnias se acabam por misturar nas regiões mais férteis e nas grandes cidades, como acontece em quase todos os países africanos. A maior complexidade nigeriana advém apenas do facto de ser o mais populoso país do continente. E para a gerir, os britânicos tinham criado para o novo país uma Constituição cuidadosamente cheia de equilíbrios políticos regionais, para ajudar Sir Abubakar.

Sir Abubakar era um nortista. Por imperativos demográficos (a região continha cerca de metade da população nigeriana), o primeiro-ministro nigeriano teria de o ser. Mas o funcionamento das instituições obrigaria a que o partido predominante entre os Hausa se coligasse com outra organização de outra região. Assim se fez: durante os primeiros cinco anos o país foi governado por uma coligação entre o NPC (Congresso Popular da Nigéria) dos Hausa e o NCNC (Convenção Nacional dos Cidadãos Nigerianos) dos Ibo. A oposição era composta pelo AG (Grupo de Acção) dos Yoruba. Depois, toda essa estrutura não resistiu a uma mudança de alianças no governo federal e tudo explodiu...

O exército imiscuiu-se na política e a situação começou a degradar-se por causa de um golpe de estado dado por um grupo de oficiais, onde predominavam oficiais de origem Ibo, que derrubou o governo federal, assassinando o primeiro-ministro, Sir Abubakar, em Janeiro de 1966. Houve um contra golpe, seis meses depois, onde predominavam os oficiais nortistas, que foi acompanhado de manifestações populares e de perseguições contra os Ibo residentes fora da sua região. O exército acabou por se fracturar etnicamente, considerando os Ibo que podiam declarar a secessão da sua região da Nigéria, contando com a riqueza das jazidas petrolíferas que entretanto haviam sido descobertas no delta do rio Níger.
Foi o que veio a acontecer em Maio de 1967, com a proclamação da independência da República do Biafra. O governo federal nigeriano opôs-se e começou a Guerra do Biafra (1967-70). Em sentido estrito não se trata de uma guerra esquecida; pelo contrário, terá sido uma das guerras mais vistas, com as suas emblemáticas fotografias de crianças de ventre inchado pela fome. Mas isso não era a guerra propriamente dita, antes uma consequência do bloqueio que os federais haviam instalado à volta do Biafra. E a sua divulgação mundial, a suscitar simpatia e comiseração pela causa biafrense, era uma excelente manobra mediática até então inédita.

Só que já serão poucos os que conhecem o que podia vir a estar em causa com o sucesso da secessão do Biafra e quem apoiava, de forma aberta ou encapotada, cada um dos lados então em conflito. É que os apoios cortavam transversalmente o bloco Ocidental, escavacando a lógica da Guerra-Fria e isso era coisa difícil de explicar. Os apoios ao governo federal nigeriano eram assumidos, enquanto o apoio à secessão do Biafra era muito mais discreta. E quase tudo se podia explicar através da questão do petróleo: começando pelos britânicos e pelas suas companhias petrolíferas que, reforçados pelas norte-americanas e pelos norte-americanos, apoiavam o governo federal da Nigéria.
Mas os fornecimentos de material militar de origem ocidental eram cuidadosamente ponderados por aquelas duas potências para que servissem para a supressão da insurreição do Biafra sem que pudessem colateralmente pôr em causa o equilíbrio militar de toda aquela região para insatisfação do governo federal da Nigéria. Foi essa brecha que a União Soviética se apressou a suprir, fornecendo os nigerianos com material sofisticado para os padrões da época como o Mig-17 e o Il-28 fotografados acima. A esmagadora maioria dos países africanos também apoiavam politicamente os federais, dado que o precedente da secessão do Biafra poria em causa a coesão de todos eles.

Do outro lado estavam, descaradamente, aqueles países que questionavam o status quo africano da época da pós descolonização, como eram os casos da África do Sul e de Portugal (apoio logístico a partir de São Tomé) e, de forma encapotada, os interesses das petrolíferas francesas e, de forma mais genérica, um bloco que se pode identificar como o eixo franco-alemão que prosseguia em África uma estratégia frequentemente distinta da das duas potências anglo-saxónicas. Essa distinção é visível no apoio material que aqueles dois países davam ao equipamento do exército português em África: a G-3, os helicópteros Allouette III, os Fiat G-91, as Berliets e os Unimogs…

O peso dos números e dos apoios, no entanto, estava do lado federal e o auxílio que chegava ao lado biafrense tinha de ser dissimulado, como os mercenários que instruíam e enquadravam as forças rebeldes ou os voos clandestinos que as reabasteciam em artigos vitais. Pelo contrário, os novos aparelhos fornecidos pelos soviéticos à Força Aérea Nigeriana eram pilotados por egípcios destacados por Nasser para esse efeito. Mesmo assim, entre os federais não havia capacidade de pôr fim directamente à rebelião e houve que esperar que os efeitos do bloqueio se fizessem sentir. Por outro lado, sendo certa a vitória federal no desfecho da Guerra, o seu prolongamento perdia todo o sentido.
A Guerra do Biafra terminou em Janeiro de 1970. Parecia haver, de facto, uma vontade genuína entre os Ibo em criar uma nação separada, uma causa mais aproveitada do que fomentada por quem os apoiou na criação da República do Biafra. Como acontece com os Confederados da Guerra Civil Americana (1861-65), o estatuto de parte mais fraca no conflito granjeou ao Biafra a simpatia natural de certa parte da opinião pública que gosta de torcer por ela. Essa predisposição foi muito bem aproveitada nas manobras montadas na comunicação social expondo na comunicação social mundial as consequências do bloqueio provocado pelos federais. A causa do Biafra ainda tem defensores românticos – fora da Nigéria…

Só que o problema das consequências do hipotético êxito da secessão do Biafra seria a abertura de uma verdadeira Caixa de Pandora à escala continental: além da implosão imediata da Nigéria, o efeito multiplicado de múltiplas secessões que poderiam acontecer em quase todos os países africanos é arrepiante de imaginar… A Nigéria é hoje uma federação de 36 estados, suficientemente pequenos para que a secessão de um deles não seja levada a sério. A presença dos militares na vida política nigeriana faz parecê-la uma espécie de Turquia africana: em caricatura, ou eles estão no poder, ou acabaram de estar, ou preparam-se para dar um golpe de estado para o recuperar...

* Selecções do Reader´s Digest: revista generalista norte-americana, publicada em vários idiomas, e que se alinha normalmente com as posições republicanas.
** Kwame Nkrumah (1909-72): primeiro dirigente político do primeiro estado africano a tornar-se independente do domínio britânico (Ghana em 1957), com um passado de luta política contra a tutela colonial.
*** O Benin histórico data do século XV, fica na Nigéria actual e não tem nada a ver com o país que tem hoje com a mesma designação, que fica na região que era conhecida pelo nome de Daomé (colónia francesa).

1 comentário:

Lobito disse...

No livro Dembos- A Floresta do Medo, (Angola - 1969 a 1971),Editado pela Terramar/2007, o autor, no 1º capítulo cujo título é «Jesus Cristo Airways», dá a conhecer uma das intervenções portuguesas na guerra do Biafra. A partir de São Tomé, como protagonista,o autor descreve uma operação efectuada em Setembro de 1969,da qual resultou um dos contributos do nosso país: armamento, munições e alimentos.