09 janeiro 2008

A REVOLUÇÃO DE PARIS DE FEVEREIRO DE 1848

A História da França do Século XIX parece ser a de uma sociedade que, volta e meia, se aborrece e resolve mudar de vida numa Revolução. Depois da segunda deposição de Napoleão e dos 100 dias (1815), seguiu-se 15 anos de um período legitimista (1815-30), com Luís XVIII (1815-24) e Carlos X (1824-30), 18 anos de um período orleanista (1830-1848), com Luís Filipe I e 22 anos de um período bonapartista (1848-70), primeiro sob a forma de república (1848-52), depois com um monarca imperador – Napoleão III, aqui já abordado num poste anterior.
Quanto à importância estratégica da França na Europa, no início desse período de 55 anos (que vai de 1815 a 1870), foi necessário coligar quase todos os países do continente para derrotar a hegemonia francesa, mas no fim dele (1870), a França descobriu que o papel que lhe competia agora era o de liderar a coligação dos restantes países para contestar a ascendente hegemonia germânica… Em população, a proporção de franceses para alemães, que era de 29 para 24 milhões de habitantes em 1800, passou a 35 para 33 em 1845 e atingia os 40 para 68 em 1914*

Mas, de entre as várias Revoluções que os franceses produziram durante aquele período, o que a Revolução Francesa de Fevereiro de 1848 tem de notável é que parece haver pouca coisa que a consiga explicar satisfatoriamente. Há as explicações sociológicas e económicas que a enquadram em crises sucessivas, desde a praga da batata na Irlanda de 1845, passando para más colheitas em 1846, culminando numa depressão económica em 1847 e numa crise de desemprego em Paris nesse Inverno de 1848.
Um dos protagonistas dos acontecimentos, Alphonse de Lamartine (acima), um político, escritor e poeta romântico, veio a criticar mais tarde o seu discurso de 20 de Fevereiro, quando de uma reunião dos grupos da oposição ao regime de Luís Filipe, por acreditar que a sua eloquência apaixonada da altura o tinham tornado responsável pela luta fratricida e pelo sangue derramado que se seguiu. Uma tese que diz muito mais sobre os excessos disparatados do romantismo e da descomunal vaidade do autor do que sobre a realidade do que aconteceu…
As explicações teóricas de um outro contemporâneo ainda mais famoso, Karl Marx, então a residir em Bruxelas, e que acabara de publicar (mas em Londres e em alemão) o Manifesto Comunista, poder-se-iam enquadrar de forma macro nos acontecimentos que então se produziram, mas não se destinavam a responder às perguntas sobre os aspectos micro do que acontecera: Porquê naquela altura? Porquê daquela forma? E ainda se estava muito longe dos seus discípulos leninistas que sabem bem que as massas populares precisam sempre de orientação para desencadearem aqueles acontecimentos…
Contudo, mesmo um outro contemporâneo, também teórico ilustre e também habituado a analisar as sociedades em toda a vastidão de um verdadeiro visionário, Alexis de Tocqueville, também conseguia sentir as turbulências do mau estar social que precedeu a Revolução: Estamos dormindo à beira de um vulcão (…) Sopra um vento de revolução, há tempestade no horizonte. Mas, mesmo assim antecipada, a cronologia dos acontecimentos da Revolução de Fevereiro de 1848 em Paris acaba por se tornar numa coisa simples…

Depois do discurso de 20 de Fevereiro mencionado acima, no dia seguinte, os dois jornais da oposição ao regime, Le National (moderados/liberais) e La Réforme (radicais/socialistas) convocaram uma manifestação conjunta que foi prontamente proibida pelo governo. As direcções políticas acataram a proibição mas foram ultrapassadas pelos acontecimentos: na tarde de dia 22 havia barricadas nas ruas de Paris e na manhã do dia seguinte, quando o governo mandou sair a Guarda Nacional para reprimir a revolta, esta sublevou-se…
Estava tudo perdido para o regime de Luís Filipe I, Rei dos Franceses, que abdicou no seu neto, mas os revolucionários proclamaram a Segunda República. Apesar do radicalismo do discurso político de alguns dos protagonistas, a capacidade eleitoral restringia-se a pouco mais de 1% de toda a população francesa**. Foram essas elites que, nesses dias de Fevereiro, no meio dos seus jogos de poder, perderam momentaneamente o controle dos acontecimentos e que tiveram que o ir recuperar mais adiante… Neste caso conseguiram, noutros falharam

Mas quem circunscreve o jogo político às elites corre esses riscos…

*Atlas of World Population History, McEvedy and Jones.
**Actualmente, com o sufrágio universal, ela abrange 60 a 70%...

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