07 agosto 2014

OS SAPATOS DO TABI

Permitam-me descrever-vos previamente o Tabi, sujeito baixote com um ar (defensivamente) convencido, professor de inglês (medíocre), a quem todos nós adorávamos atormentar numa tradição que ainda hoje é evocada por respeitáveis ex-alunos do Colégio Militar. Se estiverem mesmo interessados peçam, por exemplo, a este comentador que, na sua próxima aparição televisiva, substitua a sua mais do que previsível análise política por algumas histórias divertidas – ele é um bom narrador – dos gozos de que o Tabi foi vítima e de que ele foi tanto testemunha quanto protagonista. Enfim, para o que interessa, certo dia o Tabi apareceu para dar aulas com uns sapatos novos. E não uns sapatos quaisquer: lindos, mas não discretos, numa cor amarela esverdeada biliosa que os franceses designam por caca d’oie (ou seja, caca de ganso – o que nós teríamos dado para saber isso na altura!…). Sendo o Tabi o Tabi e os tempos os do PREC, ali estava um pretexto excelente para que a aula viesse a ser sistematicamente boicotada, com sucessivos comentários ironicamente apreciativos e perguntas a respeito da beleza, qualidade, proveniência ou preço dos referidos sapatos, a ponto de o Tabi ter explodido indignado a meio do interrogatório intempestivo: Oh meninos! Que é isto?! Que é que vocês têm a ver com a minha vida? Infelizmente, sem que o desabafo tivesse conseguido atenuar sequer o massacre inquisidor que tinha por alvo os preciosos sapatos. Desnecessário dizer que tais sapatos nunca mais foram vistos, nem naquela sala de aula, nem nas contíguas das outras turmas a que o Tabi dava aulas, nem em qualquer outra sala das milhentas que existem por todo o Colégio Militar. Sendo este último uma excelente escola formadora de caracteres, retirei – e ainda hoje guardo – do episódio a lição de vida de que muito mal irá a coisa para alguém quando a sua reputação gira à volta da discussão de um par de sapatos…
Foi isso mesmo que eu considerei aqui há coisa de cinco meses, quando, por ocasião de uma visita a uma feira internacional de calçado, o ministro da economia Pires de Lima foi metaforicamente apanhado descalço: depois de elogiar amplamente a qualidade da produção nacional, numa daquelas perguntas casuais (mortíferas: lembram-se da colocada por Ricardo Costa a Guterres a respeito da quantificação das despesas com a saúde?) veio a reconhecer que estava a usar sapatos estrangeiros. Obviamente devia ter mentido. Ao contrário de nós, que nunca mais deixámos de vigiar o calçado do pobre Tabi, não estou a imaginar nenhum jornalista a cometer a indelicadeza de ir puxar as calças ao ministro para verificação de uma asneira tão irrelevante, mas de palmatória: calçar sapatos importados enquanto se elogia a indústria nacional. Muito se fala de Frei Tomás, mas esquece-se que o frade não era político nem precisava de dar o exemplo a paroquianos, mas as reputações de quem precisa da imagem tendem a sofrer com cenas destas. Para mais, quando os assessores a ressuscitaram – à cena – mês e meio depois para lhe tentar dar um twist cómico: acho que ninguém riu, quem se esquecera recordou e quem ainda se lembrava da cena, não ia esquecer por causa do sorriso - falhado, ainda por cima... A pasta continua ingrata e caricata mesmo depois da partida do Álvaro (Santos Pereira) e a reputação de Pires de Lima andará de companhia com os sapatos (não interessa a nacionalidade…): junto ao chão. E é por isso que, quando vejo artigos de jornal dando destaque às ilusões do ministro (abaixo), me permito o trocadilho fácil mas apropriado de que artigos daqueles, conhecendo-lhe a agenda, parecem ter sido plantados de calçadeira
Adenda: A demissão de Henrique Granadeiro, o objectivo mais evidente desta expressão pública dos seus estados de alma já Pires de Lima conseguiu. O que nos desconforta é a ignorância a respeito de quais serão os outros objectivos deste ministro tradicionalmente considerado tão próximo de Paulo Portas.

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