08 fevereiro 2022

COMO SE NOTICIAVA UM «IMPORTANTE LEILÃO DE OBRAS CAMILIANAS»

A 8 de Fevereiro de 1922 noticiava-se que, numa outra «Universidade Livre, à Praça de Camões», os dois dias precedentes haviam sido «o centro de atracção dos nossos camilianos, que são muitos e bons.» Havia-se tratado do «leilão de livros de Camilo, promovido pelo livreiro Morais». O jornalista descrevia o que fora a cena: «pelas carteiras escolares, com o ar inocente de alunos que temem ser reprovados, vêem-e camilianistas já consagrados como tal e camilianistas, novos ricos do camilianismo». Não valerá a pena reproduzir aqui inteiramente a notícia, mas valerá a pena, contudo, chamar a atenção para que o jornalista que a redigiu, esse não parece temer qualquer reprovação. Talvez porque, em vez de escrever em lugar destacado sobre o que foi a leilão - os livros - as suas liberdades levaram-no a dedicar-se com mais interesse a quem licitava (ou não) no leilão - à assistência. Ora o tema nuclear de uma notícia sobre um leilão de livros raros deveria ser os próprios livros e a cotação que haviam alcançado. Mesmo que o assunto interessasse a poucos. Aliás, também não serão muitos os que se mostram interessados nos câmbios e nas cotações da bolsa que quotidianamente se publicam. E que continuam a publicar-se apesar do desinteresse geral... Mas o jornalista encarregue da cobertura deste leilão centenário de obras camilianas não foi por aí... Ir por ali teria implicado algum conhecimento mínimo, tanto da obra quanto do espólio do escritor Camilo Castelo Branco. Se calhar, se possuísse alguns conhecimentos sólidos sobre o assunto não seria um mero jornalista. Aliás, o seu remate da notícia é de sociólogo, nem sequer de bibliófilo: «Deve dizer-se que os principais compradores estavam entre os novos ricos, perdão, novos camilianistas...» De uma sociologia um bom bocado pedante, acrescente-se. Como se comprova, é muito antiga o prática do jornalismo do quando-não-percebes-nada-de-concreto-sobre-um-assunto-escreve-sobre-outra-coisa-qualquer-desde-que-seja-com-muita-convicção... O que se evoluiu nestes cem anos é que agora dispensa-se estes preâmbulos de noticiar a existência de um leilão - o jornalista ultrapassa a notícia, directamente para a opinião.

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