10 fevereiro 2018

A PONTE DOS ESPIÕES


10 de Fevereiro de 1962. Nos arredores de Berlim, numa ponte conhecida por Ponte Glienicke sobre o rio Havel, procede-se à troca de Rudolph Abel, que fora capturado a espiar nos Estados Unidos, por Gary Powers, que fora capturado a espiar sobre a União Soviética. Os documentários da época são parcos em detalhes sobre o percurso dos permutados (acima), apenas se destaca o lamento de que, depois de regressado, Gary Powers, não havia estado disponível para fotografias... Mas o episódio foi recuperado para a memória colectiva mais recentemente quando, mais de cinquenta anos depois, foi objecto de um filme intitulado A Ponte dos Espiões (Bridge of Spies).

Não se comprometendo em procurar ser rigoroso, o filme adopta aquela fórmula hollywoodesca de se assumir baseado em factos reais, a expressão em que o importante não é os factos serem reais, o que é importante é ser baseado e ser-se baseado dá para muita mentira. É assim que nos comentários finais do filme se afirma que a União Soviética nunca admitiu que Rudolf Abel fora um espião, o que é uma mentira descarada: Rudolf Abel foi objecto de uma homenagem numa série postal soviética emitida em 1990, dedicada aos seus espiões*; mais, na sua campa, onde está enterrado sob o seu verdadeiro nome de William Fisher (ФИШЕР), é reconhecível o emblema do KGB.
* Talvez Frederico Carvalhão Gil também venha a ter direito a figurar num selo postal russo, quem sabe?

1 comentário:

  1. É uma história interessante, um filme muito bom. Ponte dos Espiões marca o retorno de Steven Spielberg à boa forma e ao modo mais gostoso de se fazer cinema: com criatividade e amor pela arte. Como sempre, Hanks traz sutilezas em sua atuação. O personagem nos cativa, provoca empatia imediata graças a naturalidade do talento do ator para trazer Donovan à vida. Mark Rylance (do óptimo Novo Filme Dunkirk ) faz um Rudolf Abel que não se permite em momento algum sair da personagem ambígua que lhe é proposta, ocasionando uma performance magistral, à prova de qualquer aforismo sentimental que pudesse atrapalhá- lo em seu trabalho, sem deixar de lado um comportamento espirituoso e muito carismático. O trabalho de cores, em que predominam o cinza e o grafite, salienta a dubiedade do caráter geral do mundo. Ponte dos Espiões levanta uma questão muito importante: a necessidade de se fazer a coisa certa, mesmo sabendo que isso vai contra interesses políticos ou de algum grupo dominante. A história aqui contada é baseada em fatos reais, mas remete também ao caso recente do ex-administrador de sistemas da CIA que denunciou o esquema de espionagem do governo americano em 2013 e foi tratado como um traidor, mesmo que tenha tido a atitude correta. É uma crítica clara à hipocrisia norte-americana, que trabalha sempre com dois pesos e duas medidas em se tratando de assuntos como esse.

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