04 maio 2018

O ACIDENTE DO SENHOR DIRECTOR

A edição de 4 de Maio de 1943 do Diário de Lisboa distinguia-se pelo destaque dado a um acontecimento inusitado, noticiado em primeira página, logo abaixo dos 63 navios mercantes aliados que os alemães reclamavam ter afundado no mês de Abril findo. Mas, sob o título do nome do director do jornal, é melhor deixarmos a notícia falar por si:

O nosso querido director sr. dr. Joaquim Manso foi, ontem, vítima dum acidente que, apesar de se ter revestido de certa gravidade, não assumiu, felizmente, consequências de maior. Ao passar na rua Nova do Almada, escorregou, caindo, desamparado, pelo que recebeu uma funda incisão na região superciliar. Foi imediatamente socorrido pelo sr. Calvet Cardoso e por outras pessoas, que o acompanharam ao posto da Cruz Vermelha, no Terreiro do Paço, onde o enfermeiro Nogueira lhe fez o primeiro curativo. O sr. dr. Joaquim Manso recolheu depois a casa, onde está entregue aos cuidados do srs. drs. Ernesto Roma e Ribeiro da Silva. O seu estado, como dissemos, não inspira cuidados, mas obriga-o a um certo repouso.
Durante a noite e o dia de hoje, tanto para casa do sr. dr. Joaquim Manso, como para o «Diário de Lisboa», centenas de pessoas, de todas as categorias sociais, telefonaram a saber do seu estado. Em virtude do seu elevado número, não nos é possível registar nomes, mas o sr. dr. Joaquim Manso e os seus redactores agradecem, profundamente sensibilizados, o interesse demonstrado.
Agradecemos também, a todos os nossos colegas da Imprensa o cuidado e carinho que lhes mereceu o nosso querido director.

Ou seja, combatia-se ferozmente na Tunísia, mas a atenção da publicação repartia-se equitativamente entre aquela região de África e a «região superciliar» do sr. dr. Joaquim Manso - com vantagem para esta última no que concerne à reacção dos leitores e demais sociedade. Trinta e seis anos antes desta comoção que terá afectado sobremaneira a intelectualidade lisboeta, já em 1907, Eça de Queirós publicara um pequeno texto alusivo ao fenómeno ao que verdadeiramente incomodará os leitores de um jornal - no caso o pé «desmanchado» da Luisinha Carneiro (abaixo). O texto é bastante conhecido e regularmente citado, mas tem sempre outro gosto - embora menos valor literário - apreciar a exibição do mesmo ridículo, mas sem ser em ficção.

Ah, esta abominável influência da distância sobre o nosso imperfeito coração! Bem recordo uma noite em que, numa vila de Portugal, uma senhora lia, à luz do candeeiro, que dourava mais radiantemente os seus cabelos já dourados, um jornal da tarde. Em torno da mesa, outras senhoras costuravam. Espalhados pelas cadeiras e no divã, três ou quatro homens fumavam, na doce indolência do tépido serão de Maio. E pelas janelas abertas sobre o jardim entrava, com o sussurro das fontes, o aroma das roseiras. No jornal que o criado trouxera e ela nos lia, abundavam as calamidades. Era uma dessas semanas também em que pela violência da natureza e pela cólera dos homens se desencadeia o mal sobre a terra. Ela lia as catástrofes, lentamente, com a serenidade que tão bem convinha ao seu sereno e puro perfil latino. «Na ilha de Java, um terramoto destruíra vinte aldeias, matara duas mil pessoas …». As agulhas atentas picavam os estrofos ligeiros; o fumo dos cigarros rolava docemente na aragem mansa; e ninguém comentou, sequer se interessou pela imensa desventura de Java. Java é tão remota, tão vaga no mapa! Depois, mais perto, na Hungria, «um rio transbordara, destruindo vilas, searas, os homens e os gados…». Alguém murmurou, através de um lânguido bocejo: «Que desgraça!». A delicada senhora continuava, sem curiosidade, muito calma, aureolada pelo oiro da luz. Na Bélgica, numa greve desesperada de operários que as tropas tinham atacado, houvera entre os mortos quatro mulheres, duas criancinhas…
Então, aqui e além, na aconchegada sala, vozes já mais interessadas exclamaram brandamente: «Que horror!... Estas greves!... Pobre gente!...» De novo o bafo suave, vindo de entre as rosas, nos envolveu, enquanto a nossa loura amiga percorria o jornal atulhado de males. E ela mesma então teve um oh de dolorida surpresa. No sul da França, «junto à fronteira, um trem descarrilado causara três mortes, onze ferimentos…». Uma curta emoção, já sentida, já sincera, passou através de nós com aquela desgraça quase próxima, na fronteira da nossa península, num comboio que desce a Portugal, onde viajam portugueses… Todos lamentámos, com expressões já vivas, estendidos nas poltronas, gozando a nossa segurança.
A leitora, tão cheia da graça, virou a página do jornal doloroso e procurava noutra coluna, com um sorriso que lhe voltara, claro e sereno… E, de repente, solta um grito e leva as mãos à cabeça:
– Santo Deus!...
Todos nos erguemos num sobressalto. E ela, no seu espanto e terror, balbuciando:
– Foi a Luísa Carneiro, da Bela-Vista… Esta manhã! Desmanchou um pé!
Então a sala inteira se alvoroçou num tumulto de surpresa e desgosto.
As senhoras arremessaram a costura; os homens esqueceram charutos e poltronas; e todos se debruçaram, reliam a notícia no jornal amargo, se repastavam da dor que ela exalava!... A Luisinha Carneiro! Desmanchara um pé! Já um criado correra, furiosamente, para a Bela-Vista, buscar notícias por que ansiávamos. Sobre a mesa, aberto, batido da larga luz, o jornal parecia todo negro, com aquela notícia que o enchia todo, o enegrecia. Dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes e guerras, tudo desaparecera – era sombra ligeira e remota. Mas o pé desmanchado da Luísa Carneiro esmagava os nossos corações… Pudera! Todos nós conhecíamos a Luisinha – e ela morava adiante, no começo da Bela-Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava do muro dando à rua sombra e perfume.

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