01 maio 2018

«MISSION ACCOMPLISHED»

1 de Maio de 2003. Há quinze anos, George W. Bush foi ao porta-aviões USS Abraham Lincoln pronunciar um discurso que foi televisionado para todo um país (a gozar o feriado do dia do trabalhador) onde ele não proferiu a hoje famosa expressão «Mission Accomplished» - na verdade, deixou que a enorme faixa atrás de si, devidamente enquadrada pelas câmaras de televisão, transmitisse essa ideia por si. A Guerra do Iraque tinha acabado... mas não tinha bem acabado. Ou não tinha acabado... mas tinha acabado. Uma delas. Mas o que mais impressionou em todo o episódio não foi o erro de comunicação cometido pela equipa da Casa Branca - tantos erros do mesmo género houve anteriormente e tantos mais haverá, confira-se com o que está a acontecer, potenciado por ser Donald Trump a ocupar o cargo. Impressionante foi a, inédita até aí, resistência manifestada pela equipa de assessores de W. Bush em assumir as suas responsabilidades: segundo eles, Bush não dissera aquilo (argumento numa primeira fase), um argumento rapidamente rebatido pela pergunta «o que é que estava então a fazer a expressão em cima da cabeça dele durante o discurso?»; depois, numa fase posterior, as culpas foram transferidas para a Marinha, já que, nessa segunda versão, fora a tripulação do Abraham Lincoln que promovera a afixação da famigerada faixa, pretendo assim fazer-nos crer que os detalhes da produção e supervisão de todo o espectáculo (o presidente aterrara num avião S-3, vestido de piloto e tudo, distribuíra autógrafos à tripulação), alguma vez tivessem escapado à Casa Branca. A exibição da faixa foi explorada pelos adversários políticos de Bush como mais uma demonstração do irrealismo de como as operações militares no estrangeiro foram montadas pela sua administração: a verdade é que o número de baixas americanas no Iraque foi muito superior após o discurso do que o fora até então... Mas o interessante do incidente tem a ver com um marco que foi franqueado no que concerne à comunicação política. Até aí existira uma regra não escrita que, nas Democracias, quando as justificações falhavam e não pegavam na opinião pública, eram deixadas cair. Só as ditaduras é que continuavam a insistir nas versões oficiais, mesmo que os factos entretanto conhecidos as tornassem desesperadamente inverosímeis - acontecia com a propaganda nazi ou com os comunicados soviéticos da TASS. Por aqui se descobriu que, sob a administração Bush, a mentira em defesa de uma causa ganhou uma nova latitude. (Agora com Trump a coisa ainda vai mais longe.) Resta dizer que, depois de anos de um corrupio de acusações e de desculpas, ao terminar os seus mandatos em 2008, George W. Bush fez o óbvio, lamentando a presença da faixa.

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