03 dezembro 2013

NAMOROS DE PRAIA E PROFECIAS TELEVISIVAS

Ainda a propósito de ditados populares costumava dizer-se que os namoros de praia se enterram na areia. Algo de parecido se deveria poder fazer com as participações em directos televisivos: deviam ser apagadas mal as câmaras se desligassem, esquecidas, para que não fossem depois levadas a sério. Infelizmente para os protagonistas, não. Um programa como o Prós e Contras, transmitido a de 6 de Maio deste ano (dedicado a debater a relação entre Portugal e a União Europeia) perpetua-se ainda hoje, com uma determinada intervenção tão prospectiva quão desastrada de Luís Amado, numa sessão que não lhe correu nada bem, convencido e altaneiro, a profetizar para dali a meses certezas da inflexão do comportamento da Alemanha:

A Alemanha está a chegar à hora da verdade. A Alemanha tem que dar, e depois das eleições seguramente o fará, um sinal claro de responsabilidade, de liderança que tem no projecto europeu. E tem que definir um mecanismo de solidariedade sem o qual o projecto europeu não se constrói (cerca dos 30 minutos de programa).

Se fixei e se agora recupero as afirmações de Luís Amado foi porque, discordando delas, as levei ainda assim a sério, para consideração futura. Só que agora que já transcorreram sete meses após tais certezas proféticas, depois da CDU e do SPD alemães terem dado por terminado um arrastado processo de negociações de dois meses sem que dos resultados se vislumbre tal sinal claro de assunção de responsabilidade, de liderança e de solidariedade, e vendo-o, como suspeitava, completamente errado, confesso quanto me apetecia assistir ao regresso dos mesmos protagonistas (Luís Amado, Miguel Poiares Maduro, Pedro Lains e Pedro Pitta Barros) para rediscutirem o mesmo tema, só pelo prazer de ver o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros confrontado com as suas certezas pretéritas e para ver se ele torna a pontapear o seu wishfull thinking para qualquer outra nova data longínqua no futuro.

Nota Final: Sabe-se hoje que os dias em que decorreu o programa foram de intensas negociações para o encerramento da 7ª avaliação da troika, algo que era então importantíssimo mas que nele não transpareceu de forma alguma. Para rematar ainda com um ditado popular, tal como comecei, vale a pena acrescentar que o antigo ditado do quem sabe, sabe e quem não sabe, ensina, pode ter aqui um corolário: quem detém o poder tem de decidir e quem não o detém, pode dar opiniões na televisão.

1 comentário:

  1. Tenho uma versão diferente do ditado: "Quem sabe, faz e quem não sabe, ensina!" que aprendi num curso técnico, há mais de 50 anos...
    Pelo que ouço por aí, continua actual.

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