29 abril 2009

O QUE O TEMPO TORNA IMPORTANTE E O QUE O TEMPO ESQUECE

No filme Jonas, que terá 25 anos no ano 2000 (1976) da autoria do suíço Alain Tanner, há uma cena em que um Professor de História tenta dar aos seus alunos uma explicação imaginativa do tempo, vincando-a com o batuque compassado no tampo da sua secretária e incentivando os alunos a fazer o mesmo – pode ver-se a cena descrita no vídeo acima, a partir dos 7:45. Evidentemente que ninguém percebeu patavina da explicação metafísica e demasiado hermética do Professor, mas aquela história de batucar o tampo da carteira até parecia baril e até se prestava a que houvesse um certo chavasco na aula…
Se o Jonas viria a ter 25 anos no ano 2000 e se estivesse estado presente naquela sala de aula, então actualmente teria ou estaria a fazer agora 34 anos mas continuaria sem perceber raspas da explicação que então recebera da relatividade da importância do tempo que passa. Ou da verdadeira importância que o tempo confere aos acontecimentos. Ainda ontem tive oportunidade de ler um poste – por sinal, excelente – num blogue a respeito dos hossanas recentemente dedicados a Jorge Nuno Pinto da Costa e o que do comentário que lá deixei mais parece ter impressionado foi o facto de ter qualificado o futebol de actividade acessória
O passado não teve muitos períodos em que se conjugassem níveis de concentração urbana com períodos de lazer das grandes massas populacionais para que pudessem dar origem a fenómenos sociais que se tivessem assemelhado àquilo que são os actuais clubes de futebol. Ou então, no caso dos espectáculos do famoso Coliseu de Roma, eles tendiam a ser dos que davam mais destaque às proezas individuais. Na Antiguidade, o facciosismo de equipa era coisa do Hipódromo, onde as quadrigas eram identificadas por quatro cores tradicionais a que, pelas mesmas razões inexplicáveis de hoje, os adeptos se afeiçoavam.
A história das corridas de quadrigas romanas, incluindo depois as bizantinas, perdurou por vários séculos. Mas hoje não se sabe quase nada delas. A única excepção foi a Revolta de Nika, que ocorreu em Janeiro de 532 em Constantinopla, durante o início do reinado do Imperador Justiniano (abaixo), quando os dirigentes dos dois clubes principais, os verdes e os azuis, que são descritos como uns líderes de gang, se coligaram e tiveram um pequeno delírio político contra o poder instituído que foi rapidamente esmagado. As fontes contemporâneas mencionam – o que é provavelmente um exagero – que cerca de 30.000 adeptos foram executados.
Artefactos como filmes – os dos golos do Eusébio no Mundial de 1966, por exemplo (abaixo) – poderão dificultar a compreensão aos adeptos, antigos alunos das aulas de História de que nada perceberam, do quanto o que aconteceu no estádio pôde ter de efémero e de irrelevante. Mas a realidade incontornável é que, apesar do interesse de muitos milhões, de se ter tornado um negócio que movimenta outros milhões e de ser pretexto para outras actividades que movimentam outros milhões, o futebol continua a não passar de um mero espectáculo…
As três gravuras acima são de Albert Uderzo e foram retiradas de Astérix e o Caldeirão.

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