27 fevereiro 2017

OS DONOS DA BOLA (OVAL)

Para os que não se interessam por rugby isto não terá interesse nenhum, mas uma certa Inglaterra está em estado de ultraje por causa do que aconteceu ontem durante a primeira parte do jogo Inglaterra - Itália do Torneio das Seis Nações. Os italianos apresentaram uma inovação táctica, com a qual tentaram contrariar a, mais do que previsível, superioridade dos ingleses. E foram momentaneamente bem sucedidos: no final da primeira parte a Itália vencia surpreendentemente por 10-5. Depois de os ingleses rectificarem posições ao intervalo, adaptando-se ao novo estilo de jogo dos italianos, deram a volta ao resultado e vieram a vencer por 36-15. Para os mais interessados e simplificadamente, a inovação italiana consistiu em, depois da realização de uma placagem bem sucedida ao adversário, não contribuir para a formação espontânea que se lhe costuma suceder, atitude que altera a localização da linha de fora de jogo e possibilita que os seus jogadores possam interferir nas linhas de passe da bola do adversário. Mas o mais interessante de todo o episódio foram as reacções ultrajadas dos ingleses no fim do jogo de que a imprensa - até mesmo uma revista tão respeitável e fleumática quanto a The Economist - se fez eco (acima). Claro que aquele padrão dramático se cinge aos ingleses. Quando se consulta a imprensa irlandesa a esse respeito - um bom exemplo, por ser redigida na mesma língua - o tom é diferente, entre o trocista e o irónico, realçando a atitude desconcertada dos jogadores ingleses durante a primeira parte do jogo, as impressões que eles trocaram com o árbitro francês e a resposta sibilina deste último a um pedido desesperado de instruções: «Não sei dizer. Sou um árbitro, não um treinador Claro que os ingleses têm total razão quando dizem que o expediente italiano nasceu da exploração de um vazio legal nas regras do jogo. Mas o que é verdadeiramente antipático é a arrogância despeitada dos ingleses quando profetizam para reforço do argumento o matar do jogo e apelam à rápida alteração das regras do mesmo, como se a legislação sobre as regras do rugby se tratasse de um assunto de propriedade própria. E mais do que isso, nem é óbvio que possam ter razão, recorde-se como alguns aspectos mais espectaculares de algumas modalidades nasceram originalmente da exploração desses vazios legais: é o caso evidente do jogo de cabeça no futebol...

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