31 janeiro 2012

«(ONLY THE) DIAMONDS ARE FOREVER»



A fotografia data de 1999, a autora é Brigite Lacombe, e reúne num tête-à-tête literal duas modelos britânicas de sucesso embora separadas por uma geração. À esquerda Twiggy já mostrava os 50 anos que então tinha enquanto Kate Moss se ficava por metade disso... Como cantava Shirley Bassey num sucesso musical de um filme de 007, no auge dos anos de sucesso de Twiggy (1971), só os diamantes é que são eternos

30 janeiro 2012

OS SOFISTICADOS

António Mega Ferreira é uma das pessoas que, tendo uma boa imprensa, têm-na tão boa que se chega a tornar ridícula. Para exemplo, houve um artigo recente do Público, assinado por Cláudia Carvalho, em que o despropósito nos chega a fazer rilhar os dentes. Descreve a transição da presidência da Fundação Cultural de Belém de Mega Ferreira para Vasco Graça Moura, mas, aquilo que não parece passar de uma cortesia como qualquer outra em circunstâncias idênticas, é descrito em termos tais – para não mencionar já o acompanhamento fotográfico (acima)... – que a cena vira uma cerimónia, um paradigma da sofisticação cultural dos dois intervenientes…

29 janeiro 2012

A EUROPA DAS AUTO-ESTRADAS

O mapa abaixo mostra-nos as velocidades a que é permitido circular em auto-estrada nos diversos países europeus. As diferenças não são significativas e distribuem-se por aqueles países mais vagarosos, como o Montenegro, Chipre ou a Noruega, onde apenas se pode circular a 100 km/hora até aos países mais acelerados como a Polónia onde esse limite atinge os 140 km/hora. Note-se ainda o detalhe dos incorrigíveis britânicos que continuam a fazer as contas em milhas (70) correspondentes aos 112 km/hora.

Mais curiosa ainda é a cor convencionada para assinalar as auto-estradas – azul ou verde – que dividem a Europa em dois blocos geograficamente homogéneos que definem fronteiras passando por locais onde não estamos habituados a vê-las. Assim, a cor azul da Europa ocidental estende-se até à Bielorrússia, região que está tradicionalmente na esfera de Moscovo, enquanto o verde oriental envolve o seu rival azul pelos dois flancos marítimos do Mediterrâneo (Itália e Suíça) e do Báltico (Suécia e Dinamarca)…

PARA O QUE IA PREPARADO JOSÉ MANUEL BARROSO…

Lembramo-nos que Furão, o boneco de Durão Barroso no Contra Informação, era conhecido por dizer repetidamente: – Oh diacho, acho que não vim preparado para isto! Recentemente (2010), saiu um livro de memórias, The New Machiavelli, da autoria de Jonathan Powell, que desempenhou o papel de chefe de gabinete de Tony Blair entre 1994 e 2007. Leia-se abaixo, a narrativa do que terá então acontecido em Junho de 2004 que levou o primeiro-ministro português de então, preparado ou não, a fazer as malas e a deixar-nos – com a conivência de Jorge Sampaioaos cuidados dessa figura inolvidável que é Pedro Santana Lopes:
O Eixo Franco-Alemão, quando funciona, é o motor que impulsiona a União Europeia e quando os líderes dos dois países se decidem quanto a alguma coisa parece impossível alterar o curso dos acontecimentos. Todavia, Tony (Blair) conseguiu fazê-lo na Cimeira Europeia do Verão de 2004 a respeito da escolha de um novo presidente da Comissão. Chirac e Schroeder tinham passado todo o ano de 2003 a persuadir Tony e o resto da Europa a aceitar Guy Verhofstadt. O próprio Verhofstadt telefonou a Tony a pedir-lhe o seu apoio e foi apanhado de surpresa quando este lhe respondeu que nós não o poderíamos fazer porque já nos comprometêramos a apoiar um outro candidato, o português António Vitorino. Tony falou entretanto com Angela Merkel, que era então a líder da oposição alemã mas que também presidia ao Partido Popular Europeu. Ela anunciou-lhe que estava empenhada em bloquear a candidatura de Verhofstadt. Um dia depois, foi Anders Fogh Rasmussen, o primeiro-ministro dinamarquês, um liberal, que também nos telefonou incentivando-nos a bloquear aquela candidatura. Gradualmente, foi-se construindo uma minoria de bloqueio formada pelos pequenos países, que, coordenados, conseguiam impedir franceses e alemães de levarem a sua avante. Face a essa posição concertada, Schroeder telefonou a Tony para o sondar se ele poderia vir a aceitar Jean-Claude Juncker, o primeiro-ministro do Luxemburgo, em vez de Verhofstadt. Foi pior a emenda que o soneto. Ocorreram-nos visões de uma repetição do que acontecera a John Major que, depois de ter bloqueado uma primeira candidatura a presidente da Comissão de um primeiro-ministro belga, federalista mas capaz¹, acabara por transigir com a de um luxemburguês, Jacques Santer, outro federalista mas muito menos capaz.

Quando chegámos a Bruxelas para a Cimeira de Junho de 2004 o ambiente estava pesado. Schroeder adoptou uma postura intimidatória. Ele e Chirac haviam decidido tentar forçar a sua escolha no Conselho apesar da oposição. Ao jantar, José Manuel Barroso e Costas Simitis², os primeiros-ministros de Portugal e da Grécia, aliaram-se a Tony nas críticas à atitude de Chirac e Schroeder.

Depois do jantar, reunimo-nos com uma assembleia de dirigentes europeus de centro-direita no gabinete de (Silvio) Berlusconi, reunião essa onde se incluíam os líderes da Estónia, Malta, Espanha, Portugal, Eslováquia, Áustria e Grécia. Parecia uma reunião de conspiradores. Todos concordámos que não se podia concorrer contra alguém sem propor ninguém e começámos à procura à volta da mesa de alguém que pudesse ser esse candidato alternativo. O chanceler (Wolfgang) Schussel da Áustria seria uma possibilidade mas isso seria um anátema para a França depois de ele ter formado uma coligação com o neo-nazi Jörg Haider. Em vez disso optámos por Barroso e ele tornou-se o candidato do bloco anti-franco-germânico. Ainda nos preocupámos que Schroeder e Chirac pudessem bloquear Barroso e insistir num terceiro candidato mas eles, do outro lado, pensaram que nós estávamos, insidiosamente, a trabalhar para poder colocar a hipótese de Chris Patten à mesa das negociações. Eles estavam exaustos e acabaram por desistir. Viu-se que o rei ia nu. Nenhum dos dois homens recuperou o ascendente que tivera na Europa.

The New Machiavelli, pp. 247-248

Registe-se como o nacionalismo prevalece sobre a ideologia nas fracturas internas da União: o Eixo franco-alemão é formado por um político de direita (Chirac) e outro de esquerda (Schroeder), o seu candidato é de direita (Verhofstadt) mas a conspiração dos líderes europeus de centro direita que se lhe opõem é apadrinhada por Tony Blair, um político trabalhista (esquerda). A aceitar-se a veracidade desta narrativa distanciada – distanciada em relação aos interesses particulares da política portuguesa, entenda-se – conclui-se que a nomeação de Barroso para a presidência da Comissão terá sido parcialmente circunstancial. Mas registe-se como, na busca de um candidato à volta da mesa, ela se cingiu aos dirigentes políticos daqueles países que Powell qualificou como pequenos: Áustria, Portugal, Bélgica, Luxemburgo. Por exemplo, José Maria Aznar, que então dirigia o governo espanhol e que seria considerada certamente uma candidatura de peso, nem sequer terá sido uma hipótese a equacionar. Possivelmente porque se trataria de um retrocesso a sua promoção para a presidência da Comissão. Tais eram (e tais são) as realidades europeias…

¹ Está a referir-se a Jean-Luc Dehaene.
² Na verdade tratava-se de Kostas Karamanlis, que substituíra Simitis três meses antes.

28 janeiro 2012

BARCO NEGRO

Ontem, pela noitinha, quando lá fui, cantava-se o Barco Negro na FNAC do Colombo. Uma versão moderna. Não tomei nota dos autores mas faziam-no com um empolgamento de Zumba na Caneca solicitando a participação entusiasmada do público: - Agora só elas! - Palmas para a melhor primeira fila de sempre!

Deixei-me estar. O Barco Negro é, como se percebe pela letra na sua versão original de 1955, uma canção trágica cuja beleza se manifesta através da sua tristeza dissimulada e para mim há limites para a inventividade musical. Há versões que se limitam a desvirtuar a intenção dos criadores: aquela era uma delas.

O HOMEM DE PALHA… E DE AVENTAL

Ainda a propósito do poste anterior: afinal, João Cravinho veio a assumir-se como membro de uma loja maçónica desde há 15 anos. Não me surpreendeu. O que me vinha a surpreender e bastante de há 15 anos para cá e que me levou a exprimi-lo por várias vezes neste blogue¹, era a condescendência generalizada como a actuação de João Cravinho vinha a ser avaliada pela opinião publicada. A ponto de desconfiar que teria de haver uma outra explicação para o fenómeno. Certo dia, criticando-o aqui na internet, houve um colega de blogues, insuspeito de simpatia por aquelas cores políticas, que saiu em defesa de João Cravinho com o argumento algo simplista que ele nem era dos piores
De facto, ainda agora, tudo o que rodeia Cravinho parece ser de um simplismo primário. A fábula, tantas vezes repetida, que faz dele um paladino da luta contra a corrupção que forças ocultas exilaram para um exílio dourado em Londres estará ao mesmo nível de imaginação – mas não de densidade de personagens... – de um Feiticeiro do Oz (acima). Só que a falta de densidade dos argumentos que o defendem – qual homem de palha – fazem-no estar à mercê daqueles exercícios básicos de manipulação: apreciem-no aqui em baixo a presidir a uma cerimónia com Fátima Felgueiras, num exercício maledicente de que apenas se estranha que nenhum órgão de comunicação se tivesse lembrado antes...
De toda a maneira, só há que saudar este outing de maçons que tem vindo a ter lugar desde Dezembro passado. Possibilitou-me descobrir que o colega de blogue que outrora defendera João Cravinho – Paulo Gorjão no Bloguítica – admite também já ter sido membro da Maçonaria… E é isso mesmo que me chateia nos maçons (mesmo abordando este assunto atrasado em relação à vaga mediática que sacudiu o país informativo): no caso que referi acima, eu estava a expressar a minha opinião (feroz mas) descomprometida sobre João Cravinho; que garantias me poderá dar Paulo Gorjão que estaria a fazer o mesmo? Não estaria ele condicionado pelo facto de se estar a criticar severamente um irmão?...
¹ Aqui, aqui, aqui ou aqui.

27 janeiro 2012

AUTOBAHN

Quando, em 1974, os Kraftwerk (grupo alemão de rock progressivo) nos punha em guarda, profética mas genericamente, para um Mundo que viesse a ser simbolizado pelas Autobahn, não se chegava a especificar que tipo de disfuncionalidades poderiam dali surgir. Foram precisos 25 anos mais a imaginação de João Cravinho – que não se sabe se apreciará os Kraftwerk… – para que as aberrações tivessem uma expressão concreta em Portugal, com a criação das SCUT

PEQUENA HISTÓRIA ILUSTRADA SOBRE A IMPORTÂNCIA CRESCENTE DA ORTODÔNCIA NA PROMOÇÃO POLÍTICA

Thomas Woodrow Wilson (1856-1924) foi eleito o 24º presidente dos Estados Unidos em 1912, há precisamente 100 anos. Mas, observando a fotografia acima, atendendo à sua dentição, não nos restam dúvidas que actualmente nem conseguiria ser eleito para chefe de turma. A querer prosseguir uma carreira política, Wilson teria hoje que fazer como faz Miguel Relvas, colando-se a alguém que transmita a imagem que não tem…
Cerca de cinquenta anos passados, a fotografia é de outro Wilson, este agora do outro lado do Atlântico, Harold Wilson (1916-1995), que foi primeiro-ministro britânico de 1964 a 1970. E, conforme se pode apreciar pela combinação de fotografias com o antes e o depois, a época já se mostrava suficientemente atenta às ciências que despontavam para que se investisse tanto no hardware – a dentição – quanto no software – o discurso.
Aquele processo veio a ser repetido por milhares de políticos depois disso, incluindo Paulo Portas. Não sei se os actuais especialistas de imagem já deduziram uma fórmula algébrica que calcule o valor eleitoral de cada dente imaculadamente brilhante, mas a evidência mostra-nos que qualquer candidato moderno de sucesso tem que exibir uma compostura dentária igual à de um modelo de campanha publicitária de um dentífrico…

26 janeiro 2012

ESCÓCIA

Sem grande alarde, Alex Salmond, o chefe do governo e também dirigente nacionalista escocês, anunciou a intenção de marcar um referendo sobre a independência da Escócia para o Outono de 2014. As reacções de Londres, não sendo do primarismo exuberante das de Madrid, também não são propriamente cordiais a respeito da iniciativa (como seria de resto de esperar). Para os menos informados, acima trata-se da Bandeira de Santo André e do Hino Flower of Scotland, símbolos nacionais escoceses.

25 janeiro 2012

A «ESPONTANEIDADE» E A INOCUIDADE DAS INDIGNAÇÕES

Como outrora na Atenas clássica se adulterou o uso do ostracismo (acima, um boletim de voto para esse fim que se chamava ostrakon) para o exílio dos dirigentes políticos da facção rival, actualmente em Portugal, quando vivemos momentos difíceis, nervosos, propensos a manifestações de indignação que me parecem mais exuberantes do que reflectidas (mais abaixo), parece que se está a fazer algo de muito semelhante com as Petições Públicas, usando-as (e desgastando-as) como arma de puro arremesso político.

Esclareço desde já a minha opinião quanto ao caso que actualmente está a ter maior visibilidade mediática: Cavaco Silva espalhou-se ao comprido com as suas declarações sobre os rendimentos. Agravando a situação, a benignidade como as suas declarações foram tratadas pelos comentadores mediáticos (casos de Marcelo Rebelo de Sousa ou de Daniel Bessa) concluído pelo desastre final do esclarecimento presidencial que a Lusa se apressou a publicar e que era dispensável – já todos haviam percebido à primeira…
Agora, qual o sentido de uma Petição Pública que para aí corre que pretende que o presidente se demita por causa das suas declarações?... Há exemplos de presidentes forçados à demissão mas por actos que praticaram: Richard Nixon nos Estados Unidos em 1974 ou Collor de Melo no Brasil em 1992. Mais: quando essas mesmas notícias atribuem significado ao número de assinaturas que a Petição Pública já reuniu (cerca de 33.000 até agora) esquecem-se de as comparar com os 2.230.000 votos que reelegeram Cavaco Silva há um ano

Mas para aqueles entusiastas que nem assim vêm o argueiro no seu olho, termino como comecei, relembrando que, como armas de arremesso político, as Petições Públicas são como os chapéus do Vasco Santana: há muitas… Ainda anda por aí uma outra reunindo cerca de 37.500 assinaturas e que tem por alvo José Sócrates, para o julgar por gestão danosa dos dinheiros públicos. Estão bem uma para a outra. É que, qualquer disparate, só por ter dezenas de milhares de pessoas a apoiá-lo, não deixa de ser disparate por isso…

24 janeiro 2012

DESCULPE, MAS O SENHOR JÁ ME VIU A MIJAR?

Já não me lembro em que circunstâncias é que utilizei a frase acima pela primeira vez, mas ela permanece insubstituível, atirada a seco, quando o interlocutor, um estranho, está a tomar abusivamente os ares de alguém que nos é íntimo e/ou julga gozar sobre nós de um ascendente que não lhe reconhecemos. É algo que é endémico entre nós, de que um subproduto é o emprego excessivo e despropositado da expressão o meu amigo. Ainda que crua, a pergunta é retórica: acima vemos uma fotografia com Kiefer Sutherland e Ray Liotta em funções mas não será por os termos visto precisamente a mijar que nos tornará mais íntimos dos dois actores…

PARTIDO REGENERADOR

O Partido Regenerador foi um dos dois principais partidos políticos durante a fase constitucional da monarquia portuguesa. Formou-se em consequência do Movimento Cartista e veio a representar a ala conservadora do espectro político português de então. Foi o partido que esteve na área do poder durante mais tempo desde 1851, data da sua fundação, até à sua extinção em consequência da Revolução republicana de Outubro de 1910. Durante esse período, as formações políticas que com ele alternavam foram o Partido Histórico e (que mais tarde se veio a converter n)o Partido Progressista.
Os regeneradores ocuparam o poder de 1851 a 1856, 1859-60, de 1871 a 1877, 1878-79, de 1881 a 1886, de 1893 a 1897, de 1900 a 1904 e por alguns meses em 1906. Para além disso os regeneradores ocuparam ainda o poder numa coligação alargada com os seus grandes rivais da altura, os históricos, entre 1865 e 1868. Presidentes do Conselho da fase terminal da monarquia como João Franco ou Teixeira de Sousa (que presidia ao governo em Outubro de 1910) haviam sido também originalmente regeneradores, mas nessa época, o partido, enquanto tal, parecia não se ter adaptado à evolução social entretanto registada.
As imagens referem-se a três bustos existentes na Assembleia da República: do Duque de Saldanha, fundador do partido, de Fontes Pereira de Melo, provavelmente o seu líder mais carismático e de Hintze Ribeiro, o seu último grande dirigente, a quem me referi num poste recente, o que foi um pretexto para este pequeno resumo da história do partido regenerador, lembrando que as organizações políticas também podem vir a desaparecer quando se fecham sobre si mesmas e não se adaptam às evoluções da sociedade que as cerca. Exemplo à atenção dos praticantes actuais que tenham leitura política…

23 janeiro 2012

A CAPACIDADE DE CONTÁGIO DO RISO REPRIMIDO

The Carol Burnett Show foi uma série televisiva cómica de variedades que se prolongou por 11 anos (1967-1978) na televisão norte-americana (CBS). Nunca terá tido uma especial popularidade fora do país de origem (significativamente, além da naturalmente escrita em inglês, há apenas mais uma entrada na Wikipedia em holandês a respeito da série), mas o processo como o programa era gravado tornou-o uma verdadeira mina daquilo que se costuma designar por bloopers: erros técnicos ou artísticos que acabam por estragar a gravação da cena… ou torná-la cómica. Esses inúmeros bloopers tornaram a série popular posteriormente, mas de uma forma completamente distinta da original.

De facto, por imperativos de produção todas as cenas eram gravadas duas e apenas duas vezes. Se uma fala tivesse saído mal ao actor nas duas gravações, optava-se pela menos má… A contrapartida era que os actores, se sentissem que a primeira gravação fora satisfatória, se sentiam descontraídos para adicionar buchas e apartes à segunda, o que podia ter efeitos arrasadores… Abaixo, nem valerá a pena perceber a história que Tim Conway está a tentar contar, um disparate sobre um par de elefantes siameses que trabalhavam num circo e que estavam ligados pela tromba… O que se torna contagioso e ultrapassa idiomas é a repressão do riso dos seus companheiros de cena até à explosão final…

MONDLANE COM SAMORA

Regressando ainda a Samora Machel e ao culto da sua personalidade, aprecie-se a forma como era retratada a sua relação com aquele que foi o seu antecessor como líder da FRELIMO: Eduardo Mondlane. Constate-se como um daqueles bons retratos à chinesa (abaixo) pode criar o ambiente esclarecedor que nem a fotografia mais benigna consegue reproduzir (acima): nesta, embora se consiga captar que não existirão fricções entre os dois líderes, não restarão dúvidas sobre quem era o mestre (Mondlane) e quem era o discípulo (Machel); no quadro abaixo porém, a iniciativa de lançar o brado de guerra é de Machel e Mondlane (que tinha 48 anos apenas quando morreu assassinado) parece acompanhá-lo como um patriarca idoso desgastado pelos acontecimentos…

22 janeiro 2012

A PONTE DANÇARINA

Tacoma é uma quase ignorada cidade do Estado de Washington no extremo noroeste dos Estados Unidos. Encostada ao Estreito do mesmo nome, um dos motivos de orgulho da cidade é a sua ponte pênsil. Ou melhor, as suas duas pontes pênseis que o progresso tem destas coisas: a partir de Julho de 2007 e por causa do aumento do tráfego rodoviário houve que construir uma ponte paralela à que já lá existia desde Outubro de 1950, utilizando-se a partir daí cada uma delas para o trânsito num só sentido (acima). Contudo, motivo de embaraço de Tacoma, tinha havido uma outra ponte original…

Essa fora inaugurada em Julho de 1940 e era, à época e naquele tipo, a terceira ponte mais extensa do Mundo (853 metros), mas que desde a construção se mostrara de uma estabilidade muito peculiar em caso de soprarem ventos fortes, a ponto de os próprios operários a terem baptizado de Galloping Gertie (não me parece necessária tradução). Essa ponte original durou um pouco mais de quatro meses, até um dia mais ventoso de Novembro em que o impensável aconteceu (veja-se abaixo). O facto do Mundo viver então em plena Segunda Guerra Mundial fez com que o episódio seja hoje relativamente desconhecido.

21 janeiro 2012

«AQUI É PORTUGAL»

Enquanto procurava fotografias a respeito do poste anterior, deparei-me com esta acima, ainda do período colonial (década de 60), quando a estátua que dominava a praça era a equestre de Mouzinho de Albuquerque (ao centro, com o rabo do cavalo virado para nós). Mas o mais engraçado são os dizeres do chão que se podem ler facilmente ainda que estejam invertidos: Aqui é Portugal. Questionando subtilmente essa proclamação política, a legenda da fotografia que lhe aparece imediatamente abaixo (clicar na fotografia para a ampliar) é bilingue, incluindo a informação que o autor da fotografia - muito provavelmente laurentino - responderia pelo nome muito pouco lusitano de Lu Shih Tung…

A INFLUÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL NOS PAÍSES DA ORLA AFRICANA DO ÍNDICO

Depois da estátua equestre de Mouzinho de Albuquerque e depois de 36 anos vazia, de há três meses para cá a praça principal de Maputo voltou a ter uma estátua no seu centro, a de Samora Machel (1933-1986), o primeiro presidente moçambicano (1975-1986). Como se pode apreciar, mesmo inaugurada recentemente, não se pode deixar de lhe atribuir o estilo Grande Timoneiro que está hoje esteticamente marcado, característica a que não será estranho o facto da estátua ter sido construída na Coreia do Norte.
Quando o Mundo se vem a aperceber do crescendo de influência que os países da Ásia Oriental (especialmente a China) vêm exercendo nas mais variadas regiões do Mundo, importa relembrar que essa influência (política e económica mas também cultural) nos países da orla africana do Índico já tem décadas, como se pode constatar por este quadro mais antigo, outra evocação da história moçambicana recorrendo ao mesmo acentuado culto de personalidade que caracteriza a concepção estético-política da estátua acima.

20 janeiro 2012

O CONTENTAMENTO DO «DROOPY» E OS MERCADOS: PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO

Vítor Gaspar teve recentemente uma reunião à porta fechada com elementos da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional para apreciar a actual situação portuguesa. Informativamente, as portas da reunião depois escancararam-se e toda a comunicação social teve acesso à sua intervenção, embora se reconheça que passagens entorpecentes como A incerteza sobre o sucesso do processo de ajustamento português foi já substancialmente reduzida não constituirão da melhor matéria-prima para o nosso jornalismo moderno. Mas é para isso que há spin doctors

Muito provavelmente, terão sido eles a pegarem na expressão ponto de viragem para servir de soundbite da notícia, que se aproveitou também do sucesso da operação de colocação da dívida pública portuguesa no mercado primário, no passado dia 18. Com tanto azar que, nos dias seguintes e como se pode ler no título da capa do Público abaixo, a evolução das yields dos títulos da nossa dívida pública, agora no mercado secundário, atingiram máximos históricos. Eu endosso aquela atitude céptica quando se vê retroactivamente a diferença entre os discursos oficiais e as opiniões pessoais dos ministros das Finanças

Apesar disso, nota-se falta de uma atitude pedagógica da comunicação social, explicando à maioria dos leitores leigos, por exemplo, o que poderá estar por detrás daquelas diferenças dos valores dos juros alcançados nos mercados primário e secundário. É que aos sucessos evocados pelo governo no primeiro desses mercados não será estranho a intervenção discreta do Banco Central Europeu… Mas relembre-se que o segundo daqueles mercados é um verdadeiro faroeste especulativo. Num exemplo compreensível pelos leigos: a cotação actual da yield da dívida pública grega a 2 anos equipara-se às taxas de juro praticadas pela célebre Dona Branca

19 janeiro 2012

«GET OFF OF MY CLOUD»

Na pequena história de cima (clicar em cima para a ampliar), o pequeno Gregório que já aqui me fartei de elogiar, mostra-se uma criança não apenas imaginativa – é estupenda aquela ideia de usar a caixa de cartão na cabeça para imitar a sensação de claustrofobia de um submarino! – mas também ciosa de preservar a esfera de privacidade das suas aventuras: nos rigores da vida a bordo de um submarino não se comem torradas! Mas o requinte da sofisticação final consiste em fazer com que os adultos – a avó – quando querem intervir na (sua) história o façam, ainda que involuntariamente, como figurantes!

A história datará do final dos anos 60. Não muitos anos antes, num estado de espírito muito semelhante, os Rolling Stones haviam reagido com a edição de Get Off of My Cloud (1965). E eu percebo os expedientes do Gregório e os lamentos dos Stones porque frequentemente o mundo a sério é um embaraço. Ao longo deste dia, por exemplo, esse mundo tentou-nos convencer como era importante o ambiente de quase confronto entre os responsáveis das duas centrais sindicais (CGTP e UGT) após umas declarações de João Proença à rádio. Afinal estará tudo bem, qual era mesmo o problema?...

O PÓ DO TEMPO

Já serão muito poucos os que saberão ainda quem foi Ernesto Hintze Ribeiro (1849-1907, acima, à esquerda) ou José Luciano de Castro (1834-1914, à direita). Contudo, ambos foram Presidentes do Conselho e chefes do Governo por três vezes no período terminal da Monarquia, alternando-se no poder entre 1893 e 1906. Estou convencido que, mesmo entre a minoria que sabe quem foram, nem todos conseguirão apontar quem dirigia o partido regenerador, quem liderava o partido progressista. Na época, porém, a rivalidade pessoal entre os dois devia ser do mais escaldante da actividade política…
Mas o tempo terá por missão depositar pó em cima dos grandes acontecimentos para os reduzir às devidas proporções. Apresentei o exemplo acima porque me deparei com uma fotografia com Kaúlza de Arriaga (1915-2004) celebrando o sucesso da Operação Nó Górdio (1970, acima), e me deitei a especular se, a esta distância temporal, não se conseguirá perceber já que aquilo que então o separaria do seu grande rival António de Spínola (1910-1996, abaixo) era muito mais circunstancial do que substancial, e que os dois não passariam afinal de dois procônsules de um Império prestes a implodir?...

18 janeiro 2012

ONDE É QUE ESTÁ O LEITE?


Há pouco mais de uns dez anos havia um anúncio televisivo onde o apresentador não conseguia dizer a fala dele ao abrir um frigorífico: em vez de perguntar pelo leite, como combinado, perguntava pelo pão, pelas tostas, etc. Ia-se a ver e a culpa era de uma margarina que lá ficara esquecida… Não sendo espectacular, era um anúncio inteligente e que ficava na memória. Assim também o considero ao anúncio publicitário de que a Irlanda não está em dificuldades. Já aqui me referira a essa campanha, que, nesse caso excepcional, é inversa e consiste em esconder o produto das listas dos países enrascados da zona Euro. Hoje, mais uma vez, o Público cai que nem um patinho e publica um quadro da Reuters (abaixo) com a evolução das yields das OTs a 10 anos nos últimos 30 dias. Da Grécia, Portugal, Itália e Espanha. Mas da Irlanda, nada…
Claro que há os mais limitados que só conseguem perceber a utilidade destes gráficos como armas de arremesso de política interna. Mas os profissionais da informação em Portugal têm que se compenetrar que aqueles gráficos maneirinhos e já trabalhados pelas agências noticiosas, quando lhes chegam às mãos só podem ser para servir objectivos específicos, que não só apenas o aumento de tiragens e audiências. Também aqui, para empregar uma expressão cara aos economistas, não haverá almoços grátis. E se a fome poderá eventualmente servir para justificar a propensão do actor do anúncio inicial para pedir repetidamente pão e tostas, há que perceber que a ignorância e a ingenuidade não são atributos idênticos que possam desculpar a distracção como a Irlanda é constantemente ocultada da lista dos países da zona euro em dificuldades…
Este último gráfico está disponível no site da Bloomberg e mostra-nos como o yield suportado pelas OTs da Irlanda (neste caso a 9 anos) nos últimos 30 dias tem descido dos 8,5 para os 7,5% mas, mesmo assim, são superiores aos valores registados acima para Itália e Espanha.

NUM MUNDO CADA VEZ MAIS DO FAZ-DE-CONTA

Há certamente muito mais gente que saberá quem foi Zsa Zsa Gabor por causa das colunas mundanas do que por causa da sua actividade profissional. Já aqui a mencionara no blogue por causa dos seus oito casamentos mas não seria justo se me esquecesse de destacar o seu papel como actriz. Faço-o hoje. A fotografia e o trailer mais abaixo são de um filme que foi estrelado por ela em 1958, intitulado Queen of Outer Space.
Não o vi mas, segundo um resumo, há três astronautas que partem para a primeira missão tripulada a Vénus, onde descobrem que o planeta é habitado apenas por mulheres, mas daquelas que concorrem a concursos de beleza, usam vestidos curtos e sapatos de salto alto… Há uma rainha que odeia homens, que os aprisiona e que, para se vingar, quer destruir a Terra – acessoriamente essa rainha fala um inglês com um sotaque carregado…

Nos tempos de Zsa Zsa, antes de Lili Caneças, havia um protocolo que obrigava a que alguém tivesse sido qualquer coisa previamente antes de se ser uma outra: ser-se actriz ou estar-se casada com alguém importante para se ser colunável. É um princípio ainda em prática, por exemplo, na actividade sindical: Mário Nogueira tem que fingir ser um professor para se legitimar como sindicalista da classe. Mas é um protocolo que está a sair de moda...

17 janeiro 2012

EMISSÕES E CAPTAÇÕES DE SONHOS

Ainda a pretexto da extinção da nossa rede analógica de televisão e do consequente desaparecimento das tradicionais antenas de TV, vale a pena apreciar nesse contexto esta fotografia de Junku Nishimura. Numa varanda duas crianças entretêm-se enquanto uma delas sopra bolas de sabão. Por cima delas, no telhado, está a discreta antena de UHF da televisão lá de casa...

O «DESPEJO» DOS INQUILINOS POBRES

Neste nosso Portugal onde a nossa natural negligência nos conduz a uma tradicional – mas pitoresca, reconheça-se acima o eterno carrinho das castanhas e o elevador do princípio do século passado… – obsolescência tecnológica, este zelo célere como se está a pretender desligar a velha rede de emissores de televisão (abaixo) – para mais com os problemas sociais que o processo entretanto parece suscitar – parece ser qualquer coisa de profundamente desajustada da nossa mentalidade tradicional.
A explicação para esse zelo, quando existe, só aparece no fim das notícias: o Estado já vendeu as frequências em uso à PT, à Sonaecom ou à Vodafone e vendeu-as desocupadas. Isto é portanto uma operação tecnológica de despejo dos inquilinos pobres. Só isso pode justificar esta atitude tão antinatural – já que estamos a falar a respeito da televisão do antigamente – como um preto de cabeleira loura ou um branco de carapinha, para usar os exemplos inesquecíveis de naturalidade dados pelo anúncio do Restaurador Olex

16 janeiro 2012

TV NOSTALGIA – 64

Para contraste com a minha última entrada nostálgico-televisiva (Battlestar Galactica, uma série norte-americana que era tão rica em efeitos especiais quanto desprovida de argumentos imaginativos e de qualidade), a série britânica The Tomorrow People (1973, acima), era paupérrima, senão mesmo patética no que concerne àqueles efeitos, mas podia, em contrapartida, apresentar argumentos surpreendentemente bons e sofisticados.

Numa das histórias, intitulada The Blue and the Green, o argumento baseava-se na rivalidade (verídica) entre os azuis e os verdes que estiveram por detrás da Revolta de Nika em Constantinopla em 532. Numa outra história (A Rift in Time), havia uma disputa em pleno Século XX com um universo paralelo resultante de uma História Alternativa, onde a Revolução Industrial se desencadeara em pleno Império Romano

Um dos episódios desta última história pode ser visto parcelado no You Tube: (1), (2) e (3). Note-se que os meus elogios foram para a imaginação demonstrada na composição de alguns argumentos, não para outros aspectos igulamente importantes de uma série televisiva como, por exemplo, a interpretação dos actores… que, como os efeitos especiais, é lastimável.

15 janeiro 2012

A MORTE DE OLHOS NOS OLHOS

Ao longo do filme O Padrinho podemos assistir directa ou indirectamente ao assassinato de 17 pessoas (além de um cavalo…). Alguns deles com um particular requinte de malvadez como acontece a Sonny Corleone (James Caan) que é crivado com várias dúzias de balas para no fim ser pontapeado na cabeça… Mas suponho que nenhum deles superará em frontalidade o assassinato de Luca Brasi (Lenny Montana) cujos olhos fixam directamente os espectadores enquanto está a ser estrangulado de surpresa por alguém que aparece por detrás que nem chegamos a ver bem.

Os olhos vão perdendo progressivamente a vivacidade. Já terei visto a cena umas boas dezenas de vezes mas nunca fiquei com a certeza do que seria aquela saliência que assoma por debaixo da sua bochecha do lado esquerdo. Além da língua será o cigarro que lhe tinha acabado de acender e que rolou acidentalmente aceso para dentro da boca? Se sim, seria o cúmulo do azar!... Por outro lado, também não me consigo decidir sobre qual a mão do infeliz Luca que foi espetada no balcão: inicialmente parece-me ter sido a esquerda, mas nas cenas finais identifica-se claramente a mão direita…

SE BEBER…

Ainda haverá quem se lembre por aí daquelas campanhas da Prevenção Rodoviária Portuguesa cujos dizeres eram Se Conduzir, Não Beba e o seu simétrico Se Beber, Não Conduza. Porém, a acreditar numa notícia recente do Público, do ponto de vista da sinistralidade rodoviária será quase tão importante moderar a alcoolemia dos condutores quanto a dos peões em geral: 26% dos condutores autopsiados e falecidos em acidentes rodoviários em 2010 registavam-na em excesso, mas o mesmo também acontecia com 19% dos peões nessas mesmas condições.
Assim, extrapolando da saudosa campanha da PRP poder-se-ia adoptar novos slogans como Se Sair À Rua, Não Beba ou então Se Beber, Não Saia À Rua, num convite a que se coza a bebedeira no próprio local onde teve lugar o enfrascanço – para desgraça dos proprietários de bares, restaurantes e outros estabelecimentos similares mais uma vez obrigados a novas obras para acolher as instalações apropriadas... No limite, nestes tempos de fundamentalismos (vide o caso do tabaco), ainda poderemos chegar a um higienicamente puro Se Beber… Não Beba.

14 janeiro 2012

«CAR TRACK»

Algures nos arredores de uma não designada cidade norte-americana, a paisagem, de tão artificial e de tão impessoal, assemelha-se a um cenário de pistas de automóveis com todos os detalhes, como se tivesse sido montada por um meticuloso modelista gigante. A autora da fotografia foi Evelyn Hofer (1922-2009).

SURTSEY – A MAIS JOVEM ILHA DO ATLÂNTICO

Em 14 de Novembro de 1963, um navio pesqueiro que navegava a algumas milhas ao largo da Costa sudoeste da Islândia (mapa acima) deparou-se com uma enorme coluna de fumo que resultava da erupção de um vulcão submarino.
Com o cume do vulcão situado originalmente a uma profundidade de 130 metros, dada a potência da erupção, veio-se a assistir então, pela primeira vez depois do aparecimento da vulcanologia, ao nascimento de uma ilha em pleno Oceano.
Mais do que uma explicação geológica sumária do fenómeno, este poste pretende ser uma pequena compilação de fotografias sempre espectaculares da gigantesca luta ali travada entre os elementos primitivos da água e do fogo.
A erupção prolongou-se por cerca de três anos e meio até cessar. Nessa altura, Junho de 1967, a nova ilha, que havia sido baptizada Surtsey, atingira uma área de 270 hectares e uma altitude máxima de 173 metros (abaixo).
De então para cá, apenas a água e o ar têm permanecido activos e a ilha, enquanto é colonizada por flora e fauna (focas, aves e insectos), tem também vindo a diminuir por causa disso: a sua área actual já está reduzida a metade da original.
Esclareça-se ainda que esta última referência à inexorabilidade das forças abrasivas da Natureza não é uma alusão indirecta a outros desgastes em episódios vulcânicos ocorridos noutras ilhas Atlânticas…