10 abril 2006

UM ZACATRÁS POR ITÁLIA!



Eu não me canso de aqui agradecer o papel extremamente positivo desempenhado pelos nossos irmãos italianos em nos moralizar por não parecermos o povo mais rasca de toda a Europa ocidental. Claro que há os outros todos, mas ninguém quer saber a taxa de acidentes rodoviários da Bulgária, se não servir para nos fazer baixar mais um lugar e confirmar o discurso um pouco enrabado da cauda da Europa.

Eu bem sei que a malta cá em Portugal só fica satisfeita quando se martiriza e se deprime como deve ser – um diálogo entre utentes na sala de espera num centro de saúde pode servir de amostra perfeita daquilo que estou a descrever – mas a campanha eleitoral italiana tem dado mostras de proezas de, pelo menos no que respeita à política, ofuscar um Pedro Santana Lopes ou um Jorge Coelho. Mesmo figuras como um Alberto João Jardim ou um Narciso Miranda passariam por lá desapercebidos*.

Até os emblemas dos partidos concorrentes (em cima os dois principais) têm um aspecto ainda mais pimba que a maioria dos nossos – mesmo com a pomba da Nova Democracia do Manuel Monteiro incluída.

Por isso, como diríamos no Colégio Militar, faço um apelo para um enorme Zacatrás de agradecimento pelo povo italiano que, além de nos ter colonizado aqui há uns dois mil anos, nos restitui, quotidianamente, a nossa autoestima!

* Só Fátima Felgueiras é que permanece um fenómeno tipicamente lusitano. Mesmo em Itália, quando os juízes mandam prender, é mesmo a sério, é mesmo para prender.

Portugal bebe 2,8 milhões de litros de álcool por dia


Portugal bebe 2,8 milhões de litros de álcool por dia

O Diário de Notícias abrilhantou ontem, dia 9, as suas notícias com este cabeçalho em destaque. Sempre tive uma especial predilecção por peças jornalísticas em que é visível a manipulação dos dados além de serem infantilmente transparentes as intenções com que são publicadas.

Aparecendo imediatamente depois do (quase) debate sobre a taxa de alcoolemia, esta notícia, fazendo dos portugueses uns beberrões, tem todos os ingredientes para ser considerada como de origem suspeita. Viessem cá os inspectores de sanidade e fechariam o DN como fecharam anteriormente os restaurantes chineses ou as roullotes.

Um outro aspecto engraçado é a grosseria da manipulação dos números para robustecer o impacto da notícia. Contando os dados em litros, os valores disparam sempre para a casa dos milhões; se fossem mililitros seriam mesmo milhares de milhões, ou biliões, na terminologia americana. Não soará ainda melhor? Portugal bebe 2,8 biliões de mililitros de álcool!

E depois, o leitor nem sequer tem referências para situar o número exposto. Parece-lhe grande, mas eu aposto que consigo dar-lhe uma proporção para se poder orientar. Lembre-se apenas o leitor que em Portugal não se bebe apenas álcool, mas também se bebem outras bebidas incluindo água.

Se se bebesse tanto de outras bebidas como de álcool, e sabendo que as bebidas não ficam cá no organismo a descansar, poderíamos produzir um título do género: Portugal mija 5,6 milhões de litros de urina por dia ou, usando um raciocínio próximo, Portugal caga 2 milhões de quilos de merda por dia!

Neste último caso estamos a referir-nos a merda propriamente dita e não, figurativamente, a cabeçalhos de artigos de jornal como este do DN…

09 abril 2006

IR POR AÍ

De repente, como que saída por causas desconhecidas do Cântico Negro de José Régio, esta expressão, ir por aí, anda, como outrora acontecia com a saudosa pasta medicinal Couto, na boca de (quase) toda a gente.

E normalmente é empregue não para ir, mas precisamente para não ir, como se comprova nas expressões eu não quero ir por aí ou eu gostava de não ir por aí. Eu não sei se estarei a cometer alguma injustiça, terá sido talvez coincidência, mas costumo associar a popularização desta expressão a Pedro Santana Lopes que, não gostando de ir por aí, gosta de andar por aí.

Mas, um dos maiores encantos do poema de Régio (que insiro no fim) é a capacidade de resistir ao apelo insidioso para que ele venha por ali. Não me parece que Santana Lopes ou quem mais a expressão emprega o façam numa situação em que estejam sujeitos à sedução argumentativa dos oponentes, que justificam, aliás, os brados dos versos finais do Cântico Negro.

Ir ou não vir por aqui, ou por ali, usado na expressão oral e fora do seu contexto é um refinamento desnecessaria e despropositadamente rebuscado. Ali mesmo, sem precisar de ir a lado nenhum, por nenhum caminho em especial.

Cântico Negro
"Vem por aqui" – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou, Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

MEMÓRIAS DA RTP MEMÓRIA


Há programas, transmitidos pela RTP Memória, que já não me representam memórias de tempos longínquos. Talvez por isso os veja com um distanciamento que se torna impossível quando a componente emocional está envolvida.

Datando sensivelmente do mesmo ano (1959), os programas de João Villaret e os Concertos para Jovens de Leonard Bernstein, ambos programas muito gabados na altura e desde aí, serviram-me para comprovar, comparativamente, o enorme atraso do Portugal daquela época.

Tenho dificuldade em compreender, hoje, os encómios da época e posteriores a respeito do programa de Villaret, em que este declama poesia, acompanhado pelo irmão ao piano, num formato de sarau literário que se torna mais insuportável à medida que os programas se sucedem. Talvez boa parte dos elogios da época se devessem à novidade que constituía a existência da televisão e da consequente falta de referência de quem apreciava.

O Concerto para Jovens suporta galhardamente a prova do tempo e o preto e branco (que não o granulado da imagem) só lhe conferem ainda um pouco mais de charme numa época propensa a isso (confirme-se, por exemplo, no filme recente Good Night and Good Luck). As virtudes comunicacionais de Bernstein resistem ao embate do tempo e ainda são credíveis os seus elogios sedutores ao comportamento do auditório, composto por jovens - embora de uma classe social localizada.

Melhor do que o qualificativo qualidade prefiro o com categoria. Quando as coisas têm categoria, como é o caso de Bernstein a apresentar e explicar o “La Mer” de Debussy à assistência, tornam-se intemporais.

08 abril 2006

OS BOMBEIROS E O MILÍCIAS

Se os bombeiros têm tido bastante tempo de atenção na comunicação social não tem sido por apagarem fogos, pela prevenção contra fogos ou pela planificação realizada sobre a forma como actuarão durante o próximo período estival.

O teor das notícias tem-se parecido mais com o de um conflito entre dirigentes sindicais contra uma entidade patronal designada por governo que, entre outras maldades, designa para dirigir um Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil gente de que não gostam, nomeadamente generais.

Só assim, à primeira vista, parecem-me disputas a mais para um discurso contendo tanta (se calhar, demasiada) abnegação, desinteresse e voluntariado. É triste, mas é da própria natureza humana que a culpa morra sempre solteira e que os fretes se suportem sozinhos.

Curiosamente, quando há bombeiros e por detrás das notícias, aparece o Milícias. Lá reapareceu ele, hoje, na TV, o padre Vitor Milícias com o seu eterno sorriso melífluo a lembrar o Joker do Batman, a presidir a uma reunião de bombeiros, onde me pareceu que se constituiu uma estrutura paralela qualquer, em ruptura com as estruturas governamentais.

Não sei se terá sido um passo assisado, visto ser o estado o responsável exclusivo pelas adjudicações duma boa parte dos serviços prestados pelos bombeiros. À primeira vista, aquilo pode parecer um gesto parecido com o de morder a mão que lhes dá de comer e pode acabar mal.

Mas, por outro lado, o padre Milícias, por detrás da sua postura de modéstia franciscana, tem a fama de nunca dar ponto sem o nó… Embora, reconheçamos, também já não se dedique a outras actividades extra-curriculares, como o aconselhamento espiritual do primeiro ministro…

Sintetizando, havia um ditado popular que dizia que já não havia rapazes maus porque o padre Américo os tinha tomado sob a sua protecção… Desconfio que já não haja bombeiros bons, porque o padre Milícias lhes fez precisamente a mesma coisa…

SCRATCH MY BACK, I´LL SCRATCH YOURS


(esfrega-me as costas que eu também te esfrego as tuas)

Se é uma atitude bonita de se ver na natureza também não deixa de ser engraçado observá-la (como aqui e aqui) na blogosfera...

DO PÚLPITO ATÉ AO CINZEIRO

Esta é uma história antiga, adaptada, de um padre que foi transferido para uma paróquia remota do interior, onde uma pequena agricultura se misturava com pequenas indústrias, quase rudimentares.

Com o intuito de causar boa impressão, na missa principal do seu primeiro Domingo arranca com uma homília condenatória do vício da falta de temperança, da amizade imoderada pela bebida. Alguém lhe recomendou contenção, a esmagadora maioria dos seus paroquianos que tinham terras, possuíam vinhas e produziam vinho, de que a região até era afamada.

No Domingo seguinte o objecto da sua homília desviou-se para a condenação do vício do jogo e das suas consequências para a estabilidade familiar. Alguém lhe fez ver que, sendo uma fábrica de cartas de jogar uma das raras indústrias da região, empregando até algumas dezenas dos seus paroquianos, o conteúdo da dita homília podia vir a ser mal acolhido.

Ao terceiro Domingo, o padre já não quis correr riscos mas deixou-se de homílias e atreveu-se mesmo a um sermão. Estando no interior, proferiu o seu sermão mais veemente, prometendo os piores castigos do inferno para aqueles que se dedicavam à pesca clandestina usando malhagem considerada ilegal!

Fosse esta história actual e a culpa iria toda para os fumadores – provavelmente também não haveria plantações de tabaco na região... Sendo ex-fumador, cada vez me aborrece mais este unanimismo condenatório à volta do tabaco.

Pertenço à geração que assistiu aos primeiros debates sobre os malefícios do tabaco e, gradualmente, ao estabelecimento das primeiras medidas restritivas à venda de tabaco até esta perseguição final encarniçada aos fumadores, que assume foros de patética e pateta.

Assim como o padre invectivava quem não estava, também aqui parece haver algo de muito cobarde na forma como, recorrentemente, se reforçam cada vez mais as sanções exclusivamente sobre os fumadores – agora são as proibições (na prática) de fumar nos cafés, depois disso ter acontecido nas escolas, depois dos tradicionais aumentos de impostos ao consumidor do princípio do ano.

É que, em tudo isto, como com o padre, parece-me haver uma grande hipocrisia e um grande cuidado em evitar certos aspectos do problema. Alguém ouviu falar em impostos sobre lucros, especialmente direccionados para as empresas que se dediquem ao comércio do tabaco?

Noutro dia tive oportunidade de analisar as demonstrações financeiras da Tabaqueira e essas, ao menos, vendiam saúde! E não consta que as multinacionais do sector tenham desenvolvido cancros de pulmão…

07 abril 2006

DO CÉU CAIU UMA ESTRELA


Este filme (It´s a Wonderful Life), realizado por Frank Capra em 1946, e onde James Stewart é um bom de fazer doer o coração, teve uma época em que a sua transmissão fazia parte da rotina de Natal tão certa como um Bolo-Rei.

Estavam Villepin e Sarkozy entretidos em Paris a guerrearem-se sob os altos auspícios de Jacques Chirac, quando, da província francesa (Poitou-Charentes), aparece uma nova estrela da política francesa, de seu nome Ségolène Royal.

Socialista, com um marido também barão do mesmo partido, François Hollande (os dois aparecem na fotografia da esquerda), os seus índices de simpatia (53% à esquerda e entre 40 a 45% entre os simpatizantes dos partidos de direita) colocam-na numa situação invejável quanto à questão da sucessão de Chirac em 2007.

Talvez muitos franceses se tenham aborrecido das vicissitudes da disputa à direita entre Villepin e Sarkozy, em que os dois parecem caçadores a tentar esfolar a mesma peça de caça antes mesmo dela ter sido caçada.

A hipotética eleição de Ségolène – há órgãos dos média que, em antecipação, já deram em tratar a senhora por Madame Royal – poderá desembocar na representação futura do eixo franco-alemão a ser constituído por duas mulheres: Ângela Merkel e Ségolène Royal. É uma ideia com piada – e sem quotas.

Há só um óbice, grande, à futura carreira política de Ségolène: nasceu em Dakar, no Senegal, e os franceses, desde Napoleão, têm, historicamente, uma grande relutância em entregar os destinos do seu país a quem tenha nascido fora do seu querido hexágono.

06 abril 2006

DONALD RUMSFELD

Arriscando-me a fazer futurologia, é muito possível que a fotografia deste post - não, ele não está a fazer aquele gesto - venha a constituir uma das imagens de marca dos anos da administração deste Bush.
Não a imagem principal, evidentemente reservada para o presidente, mas a de um secundário incontornável, sem a qual a dinâmica do funcionamento da administração se torna pouco compreensível.

Salvaguardadas algumas distâncias, Rumsfeld aparecerá nas fotografias de conjunto como uma espécie de Himmler*, afastado dos holofotes, mas vagueando sempre por perto, sempre determinado, consciente e persistente na obtenção daquilo que é o poder real.

Rumsfeld é agora como um dos últimos Mohicanos** na defesa do modo como os Estados Unidos realizaram a sua intervenção no Iraque. Nem mesmo à sua colega Condoleezza Rice é permitida a ousadia de meio acto de contrição.

Claro que o desfecho final do incidente – a retirada das forças norte americanas do Iraque - já passa por cima do voluntarismo de Rumsfeld e que as maiores questões agora em discussão são a oportunidade e o decoro desse desfecho.

Fica a ironia de, como nota final, poder pôr com propriedade na boca de Rumsfeld a letra de uma canção da francesa Édith Piaf, gente de quem ele não deve guardar boas recordações enquanto governante: “Non, rien de rien/Non, je ne regrette rien***…

*Heinrich Himmler (1900-45) era o chefe supremo das SS, entre outros cargos, a segunda ou terceira pessoa mais poderosa na Alemanha do III Reich.
** “O Último Mohicano foi um romance (1826) da autoria de James Fenimore Cooper, descrevendo a extinção de uma tribo índia.
*** Não, nada de nada/ Não, não me arrependo de nada…

O PINGUINHAS

Nos idos tempos do fascismo, para empregar uma expressão dos idos tempos do PREC, Raul Solnado tinha uma rábula numa revista do Parque Mayer, em que passava por um bêbado simplório, o Pinguinhas, que comentava a situação política com a latitude que a censura, mas também a (fraca) sofisticação da audiência daquela época permitiam.

A rábula terminava com uma música, cantada – declamada, é o verbo mais apropriado no caso das músicas interpretadas por Solnado – pelo Pinguinhas que terminava, salvo erro com estes versos: que há muita coisa para aí que a gente não percebe.

Entre os bêbados pretensamente simplórios de há 40 anos e a actualidade a diferença é imensa, mas continua a haver muita coisa para aí que a gente não percebe. Uma delas é a forma como é constituído uma coisa designada por Índice de Confiança.

Deve ser algo importante, porque serviu de notícia de abertura dos telejornais das 20H00 de ontem, tanto da SIC, como da TVI – mas não nos precipitemos. Eu sei, por exemplo, a forma como se calcula a variação do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), embora a fórmula pela qual é calculado possa variar ao longo do tempo.

Contudo, quando se apresentam nas televisões os valores da inflação, refinando a apresentação da notícia com a menção da inflação homóloga, o pivot que a noticia demonstra, normalmente, um grau de compreensão daquilo que está a transmitir idêntico ao de uma catatua do Amazonas.

Suspeito que o mesmo se passe em relação ao tal Índice de Confiança dos portugueses. Nunca tive oportunidade que me explicassem se era obtido por sondagem aleatória ou por amostra, ou por consulta de um painel fixo. Serão talvez preciosismos meus…

Sei que há um que mede a confiança dos consumidores – o povo – e outro mede a confiança dos empresários – a elite. E que ontem, apareceu como fresca e importante, nos dois canais mencionados, a notícia que, em Março, a confiança do povo tinha subido e a da elite tinha baixado.

Nem falando da surpresa de ouvir como nova uma notícia que escutara havia uns três ou quatro dias, quero apontar a coincidência de ela ter sido solta, e aproveitada, num dia em que a maralha estava, naquela hora, amarrada à RTP a ver o Benfica…

Desconfio que estas, nem mesmo sóbrio, o Pinguinhas perceberia... Ou então, até perceberia bem demais...

ASCENSO SIMÕES

Ascenso Simões, a nova estrela em ascensão da constelação socialista, ainda mais catapultada para a celebridade depois do recente episódio do apelo à mobilização do sector vitivinícola – descansai cervejeiras e importadores de espirituosos – é um rapaz que vai longe, ou melhor, vai para longe…

Para o Parlamento de Estrasburgo, nas próximas eleições europeias, a fazer fé em exemplos anteriores de quem não sabe estar calado, como aconteceu com Carlos Pimenta ou com Ana Gomes.

05 abril 2006

OCORREU-ME…

Há dias em que, por motivos que desconheço, o número de visitas a este blogue baixa súbita e significativamente.

Por associação de ideias, cresce-me uma súbita solidariedade empática com aqueles funcionários tristes que, na Feira do Livro, estão de serviço aos stands daquelas editoras como as Edições Paulistas ou a Editora Novas de Alegria

A FILHA DO PRESIDENTE


A África sempre foi terra de faunas exóticas, de onde vieram animais raros e nunca vistos no velho continente como girafas, rinocerontes, hipopótamos ou zebras. Com o colonialismo europeu a dominar todo o continente, nos inícios do século XX, terminou o período das descobertas de novos espécimes.

Reiniciou-se o exotismo depois das independências dos novos países africanos, agora nas pessoas dos estadistas que os novos países foram produzindo, desde os exemplares mais benignos, e até dignos do maior respeito, como as camisas garridas de Nelson Mandela da África do Sul ou o espanta-moscas cerimonial que acompanhava Hastings Banda do Malawi, para todo o lado, até casos bem menos engraçados, como as fardas e medalhas de Idi Amin do Uganda, os adereços de imperador napoleónico de Jean-Bedel Bokassa da República Centro Africana, ou os de Mobutu Sese Seko (na fotografia da direita) do antigo Zaire, de quem, para além dos adereços alusivos ao leopardo, se diz que amassou uma fortuna pessoal de fazer inveja a muitos, apesar da pobreza do país que governou.

É com algum orgulho que se constata a contribuição de um país africano de expressão portuguesa, precisamente Angola, para a galeria de exotismos notáveis. Não é que o país tem uma multimilionária precoce, uma espécie de Bill Gates no feminino, Isabel dos Santos de seu nome, que, por acaso, até é filha do presidente local?

Eu concordo absolutamente que José Sócrates vá a Luanda, e até convide a senhora (na fotografia da esquerda) a vir a Portugal ministrar-nos uma conferência sobre dinamismo empresarial… Sem grã-cruz, mas uma comenda sempre se podia arranjar…

O PENALTI

Às vezes, em Portugal, temos o privilégio de assistir a discussões e debates que não desmerecem o enredo de Guerras de Alecrim e Manjerona de António José da Silva, o Judeu. Recentemente, reacendeu-se a polémica sobre os limites da alcoolemia dos condutores.
A propósito disso, entramos num jornal on-line e o conteúdo de um texto sobre o assunto levanta-nos a suspeita de o irmos descobrir assinado no fim por Ricardo Araújo Pereira ou outro Gato Fedorento. Mas não, é mesmo a sério.
Reflectindo sobre o tema e começando por recuperar um slogan usado – falaciosamente – pela Associação (NRA) que faz lóbi pela liberdade absoluta do porte de armas na América: As armas não matam pessoas; são as pessoas que matam as outras pessoas.
Embora eu não conceba muito mais coisas para as pessoas fazerem com armas, a não ser atirar em alvos, animais ou pessoas – daí a falácia do argumento – consigo descrever uma profusão de actividades que se podem desenvolver depois de ingerir bebidas alcoólicas, sem ser a de conduzir automóveis.
Isso para não mencionar a opção de escala que está disponível para quem ingere bebidas alcoólicas: ou se bebe mais, ou se bebe menos. Mas, numa arma, ou se dá um tiro, ou não. Podemos, por isso, adaptar com muito mais propriedade a frase da NRA ao caso das bebidas: As bebidas alcoólicas não se fazem à estrada, as pessoas é que conduzem embriagadas.
Regressando ao texto humorístico, tudo parece ter sido desencadeado pelas declarações ao Diário de Notícias do secretário de estado da Administração Interna, Ascenso Simões, que, perante a evolução dos valores registados da sinistralidade fez um ultimato: Se o sector vitivinícola não se mobilizar para contrariar esta tendência, a taxa actual (0,49 gramas por litro de sangue) será revista.
Ora este ultimato é um portento de imaginação porque não consigo acompanhar de que forma o secretário de estado quer que a mobilização dos produtores e comerciantes de vinho se concretize. Fornecendo um balãozinho teste de bónus por cada caixa de 12 garrafas? E os importadores de outras bebidas espirituosas não se podem associar, ou a mobilização fica reservada apenas ao sector vitivinícola?
Fase seguinte: o ministro da Agricultura fica compreensivelmete aborrecido, já tem chatices que cheguem com os subsídios e com os lóbis dos agricultores, não precisa que um secretário de estado qualquer, que nem depende da sua tutela, ainda os venha irritar mais.
Benignamente, considera as declarações como um desabafo. Não seria surpreendente que, off record, se tivesse congratulado por não terem feito o teste de alcoolemia ao secretário de estado quando ele proferiu as declarações porque teria chumbado, qualquer que fosse a taxa…
Na terceira fase, o secretário de estado vem esclarecer as suas declarações anteriores, corroborando a regra estabelecida nesse grande manual de prática política disfarçado em série de televisão sob o nome de Yes, Minister: Se se esclarece uma declaração prévia, é porque ela já foi bem percebida demais…
Estava o disparate confinado ao governo quando entra em cena a CAP e logo de forma ribombante: Para a Confederação de Agricultores de Portugal (CAP), o vinho não é responsável pelos acidentes mas sim as bebidas brancas.
É uma declaração que, além de... imoderada, nem sequer é patriótica: então os importadores do Johnnie Walker ou do Jameson escapam impolutos? E os do Remy Martin e Napoleon franceses também?
Ou então, como li aqui, tenho que me render às evidências: tudo vai bem até aquele penalti final… Mas, pelo sim, pelo não, iria sugerir que, sobre este tema, mais ninguém prestasse declarações ou emitisse mais comunicados sem antes passar pelo teste de alcoolemia - mesmo à taxa vigente…

04 abril 2006

A INTIF(OLH)ADA

Quotidianamente, perto de nossas casas, anda a travar-se uma guerra de guerrilha, discreta, oculta, desapercebida, longe dos olhares da comunicação social mas não menos atribulada por isso.

As vítimas são as triviais caixas de correio do humilde cidadão que, para além do vulgar correio ordinário – o registado tem que se ir buscar normalmente à estação – estão sujeitas ao bombardeamento sucessivo e consecutivo de prospectos, promoções, participações, pseudo jornais, boletim municipais, folhetos de campanha eleitoral e um sem fim de outros adereços que as entopem até sufocar.

Há já quem tenha feito um inventário, ao fim de um ano, de toda a … que lhe foi despejada ranhura abaixo. Eu, que li o artigo e não gostei da descrição, tenho um daqueles autocolantes que pedem, com muito bons modos, para não porem ali lixo: “Publicidade não endereçada: aqui não obrigado!”

O truque consiste em fazer a distribuição recorrendo a analfabetos funcionais, pouco sensíveis a cortesias, ou então a contra argumentar que o que estão a distribuir não é publicidade, mas sim um jornal (que não estou interessado e nunca pedi para ler): A Dica da Semana.

Tenho sob esse aspecto a postura muito conservadora de que compete ao consumidor informar-se sobre o que lhe interessa consumir. Tenho uma relutância imediata a quem me aborda pessoalmente, por telefone ou por escrito, alertando-me para uma promoção que me deve interessar, de certeza, mas que eu desconhecia.

Não concebendo o mundo como um sítio intrinsecamente mau, acho razoável desconfiar de tanto altruísmo e de tanta preocupação com a minha pessoa. Que é que eles podem saber mais das minhas necessidades que eu não saiba?

Permanece e permanecerá para mim sempre um mistério aquela pessoa que, assistindo a um TV Shop, descobriu, subitamente, a necessidade daquele aspirador-que-descaroça-mangas-e-também-trata-das-unhas-dos-pés. E eles existem, de certeza, senão os programas não iam para o ar…

Mais uma sugestão apenas: porque não obrigar os promotores dessa publicidade papeleira a reciclarem, obrigatoriamente e por sua conta, um volume de papel usado equivalente ao da campanha que nos despejam na caixa do correio?

A ideia é razoável, é implementável, e é amiga do ambiente. Ou isso, apesar da amizade ao ambiente, não é uma medida do tipo de amizade que a Quercus goste de cultivar?

03 abril 2006

O JORNALISTA QUE COSTUMAVA ESTAR ALI POR ACASO

Hoje, entre os obituários por ocasião da morte do coronel Carlos Fabião, aparece um, a justo título, assinado pelo jornalista Adelino Gomes. Gomes, enquanto jornalista de televisão, saltou, de microfone em punho, das bancadas para o relvado onde se disputava a revolução.

A sua reportagem mais conhecida foi a de 11 de Março de 75, quando ele ia a passar – com uma equipa de reportagem completa, presume-se - junto ao aeroporto, por acaso, e se tornou repórter do ataque desencadeado pela unidade de pára-quedistas ao RAL 1.

As filmagens feitas, do diálogo travado entre os comandantes das duas forças, entre a autoconfiança demonstrada por Diniz de Almeida (do RAL 1) e os murmúrios titubeantes do oficial pára-quedista podem servir, ainda hoje, de resumo da história visível de todo o golpe. E puderam, na altura, servir de argumento psicológico demonstrativo de que lado estaria a razão.

Uma outra reportagem sua, menos conhecida, foi enviada de Luanda, em pleno Verão de 75, quando os três movimentos nacionalistas disputavam à bala a posse da cidade. A reportagem começa subitamente (Adelino Gomes começa por explicar que ia a passar por ali por acaso…) com um Unimog* com tropas portuguesas a imobilizar-se à frente de um edifício que estas começam a atacar a tiro e à bazucada enquanto nos explicam que naquele prédio está uma das sedes do MPLA.

Segue-se a retirada das tropas portuguesas e a evacuação dos feridos do lado do MPLA, com um comportamento pacífico destes, enaltecido pelo comentador, enquanto ficamos com a sensação que há no exército português um esquadrão de facínoras (as tropas eram dos comandos, esclarece Adelino Gomes) que, facciosos, embirram com o MPLA.

A história completa do incidente soube-a depois, muitos anos passados, num livro chamado A Vertigem da Descolonização, do General Gonçalves Ribeiro. Os comandos estavam a cumprir ordens superiores e o incidente começara pela morte de um militar português, abatido a tiro por um militante oriundo daquela sede do MPLA, numa das barreiras que eles haviam montado por Luanda.

As autoridades portuguesas haviam feito um ultimato e exigido ao MPLA a entrega do responsável pela morte do militar português. A motivação dos militares portugueses também é compreensível: embora não estivessem dispostos a envolver-se numa outra guerra (esta civil), também queriam punir severamente quem os ousasse enfrentar, para sua própria salvaguarda.

A hora a que expirava o ultimato dos portugueses havia passado há pouco quando as tropas apareceram e desencadearam os acontecimentos da reportagem. Também aqui, Adelino Gomes estava lá por acaso.

A última reportagem por acaso de Adelino Gomes para a RTP data do Outono de 75 e passa-se em Timor. É preciosa porque capta os instantes em que as forças indonésias (nomeadamente navais) irrompem decididamente pelo território e águas territoriais de Timor-Leste.

Os comentários de Adelino Gomes ao longo da reportagem, condenatórios da Indonésia e abonatórios da Fretilin, parecem orientar a descrição da situação para o esquecimento de que esta havia, previamente, proclamado a independência unilateral de Portugal – um episódio, hoje, convenientemente esquecido por todos.

Já se passaram mais de trinta anos sobre estes três episódios. Entretanto, Adelino Gomes teve outros cargos, certamente por mérito seu, nomeadamente o de dirigente do sindicato dos jornalistas.

Recentemente ouviu-o filosófico, num programa “Prós e Contras” da RTP1, sobre um tema que não me ficou. Noutras oportunidades, qual Fénix, reaparece como redactor dos in memoriam das figuras gradas da esquerda revolucionária do PREC.

Só que, ainda recentemente, num programa de televisão, Adelino Gomes continuou a manter a versão da casualidade do seu aparecimento em cena – no caso a do 11 de Março - perante os sorrisos irónicos dos outros convidados do programa.

O distanciamento temporal, a sabedoria e a filosofia podiam levá-lo a reconhecer sem demérito seu que, pelo menos nestes três casos, nunca esteve lá por acaso nem aquilo eram reportagens de jornalismo.

* Viatura todo o terreno usada pelo exército português.

O HERDEIRO DE FIDEL

Sempre houve algo, especialmente da parte da esquerda europeia, na forma de apreciar a denominada revolução cubana como um acontecimento verdadeiramente pitoresco que impediu que fosse levada cabalmente a sério e julgada com a necessária equidade pelas suas realizações mas também pelos seus desmandos.

O tempo vai passando, Fidel Castro envelhecendo, Cuba perdendo o seu papel de país estrela na resistência ao imperialismo ianque (a favor da Venezuela de Chavez) e a malta, do costume, pretendendo que “¡¡No pasa nada!!”

Quando a notícia do jornal se intitula “Fidel confirma irmão como sucessor” estão está-se a passar alguma coisa. É que o sucessor de Fidel (de 79 anos) é o irmão Raul (esse jovem de 74).

Quando aqui chegamos, se os boletins de saúde e as fichas clínicas se tornam mais importantes do que os posicionamentos ideológicos nas análises das possibilidades dos sucessores é sinal de que o regime compartilha com o líder as suas possibilidades de sobrevivência: prognóstico reservado.

NEGÓCIO FECHADO

Ainda há pouco ouvi dizer, na rádio, que os bilhetes para o jogo do Benfica em Barcelona estão a valer, no mercado negro, 500 a 600 Euros. Como prova, entrevistaram um dos candongueiros, que confirmou que pedia 600 Euros por um bilhete.

Julgo não serem precisos estudos aprofundados em economia para perceber o erro lógico grosseiro que subverte a magnífica caixa noticiosa radiofónica, numa TSF que cada vez nos habitua mais ao anuncia primeiro e pensa depois…

Na prática, existe a liberdade de estabelecermos qualquer preço por um produto ou um serviço que queiramos vender. Mas também existe a liberdade simétrica do comprador de fixar o preço pelo qual se dispõe a fazer a transacção.

Uns quererão puxar o preço para cima, os outros, para baixo. O valor de mercado (a cotação) será estabelecido pelo preço praticado nas transacções efectivas entre vendedores e compradores. Será esse o valor de referência.

Para efeitos jornalísticos uma coisa resulta clara: obtêm-se valores mais elevados se os perguntarmos aos vendedores e, de entre estes, há sempre uma grande probabilidade de encontrarmos um dos que ficam mais tempo à espera de vender os bilhetes, porque são dos que inflacionaram mais os preços que pedem… Torna a notícia muito melhor, mas quanto a rigor…

Eu desconfio que não exista uma cadeira de economia elementar nos cursos superiores de jornalismo mas, mesmo assim, não se podiam ter feito uns testes de despistagem prévios para eliminar os detentores de imbecilidade mais profunda?...

02 abril 2006

O AMBIENTADOR BRIZE

Tenho as minhas maiores reservas em relação à função desempenhada por estes ambientadores – atenção, eu disse ambientadores e não ambientalistas! – reticências essas que se exprimem tanto na forma como na substância.

A relação começou mal, com as campanhas publicitárias televisivas iniciais de lançamento do ambientador a mostrarem um boneco animado, pretensioso, que cantava um jingle irritante, com uma voz de convencido:

Olá, cá estou eu, o Brize contínuo,
Novo desodorizante…
E faço desaparecer,
O cheiro mais embirrante…

Resultava no final, que o mais embirrante do anúncio nem era o cheiro, mas sim o boneco… Mas ficou-me a expressão “Chegar como o Brize” ou “Chegada tipo Brize”, para designar os artolas que, mal acabados de chegar, procuram dar nas vistas a todo o custo, da maneira mais irritante possível.

Terá sido também por esta entrada em falso que os ambientadores iniciaram um processo de evolução? Não sei dizer, talvez não, talvez tudo tenha decorrido da evolução natural do produto.

Há ambientadores modernos nas mais variadas fragrâncias: marítima, floral (na imagem), pêssego, enfim tudo aquilo que a moderna química consegue reproduzir sem recorrer a uma molécula original do produto anunciado…

Mas o meu maior óbice aos ambientadores até é substantivo e não formal. Se existe uma fonte de produção de mau cheiro, por exemplo um esgoto exalando um cheiro fétido a merda, a melhor maneira de eliminar o mau cheiro continua a ser a eliminação da fonte.

Adicionando a contribuição de um ambientador à mistela que paira no ar, deixa de ser um cheiro de merda para ser um de fragrância floral (por exemplo) combinado com… cheiro de merda!

HUGH LAURIE

Gostaria de começar este poste por Rowan Atkinson. Atkinson produziu duas séries de TV de imenso sucesso: uma – Mr. Bean – dirigida ao povo, outra – Blackadder – dirigida às elites que, como ele, frequentaram Oxford ou Cambridge.

Esta segunda, desenrola-se em quatro momentos históricos distintos – Inglaterra pré-Tudor, período Isabelino, Regência do início do século XIX e 1ª Guerra Mundial – sendo os Blackadder uma dinastia (sempre Rowan Atkinson) que se perpetua e acompanha a evolução da História de Inglaterra.

Contudo, muito do sucesso desta série é da responsabilidade dos secundários de Atkinson – ao contrário do que acontece com Bean – como Tony Robinson, Stephen Fry ou Hugh Laurie.

No caso de Laurie, ele consegue atribuir um grau de acefalia aos personagens que representa que é dificilmente igualado. Na imagem acima, ele representa o príncipe-regente (à esquerda com Atkinson) mais tonto de que há memória na história inglesa.

É, por isso, com surpresa que o vejo, convincente, na nova série House, como Dr. House, a nova coqueluche intelectual do momento. É um médico brilhante, mas de trato muito difícil, a culminar os maus-tratos que a TVI presta ao telespectador passando a série à meia-noite e meia de quinta-feira. Ainda por cima, a série é servida logo aos pares, como antigamente acontecia na praça do peixe com as cavalas.

Mesmo assim, num certo círculo é anátema criticá-la. Tudo o que é intelectual com problemas de socialização a adora. Retirei de um quadro de um antigo oficial de artilharia uma citação que gostaria de adaptar: numa batalha, a artilharia confere dignidade ao que, de outro modo, seria uma rixa confusa.

Metamorfoseando-a, para certo tipo de apreciadores, a série House confere dignidade àquilo que, de outro modo, seria apenas uma mera demonstração de grosseria no trato social.