11 maio 2023

A BATALHA DE ATTU

(Republicação)
11 de Maio de 1943. A ilha de Attu é a mais ocidental e a mais remota das ilhas do arquipélago das Aleútas no Alaska, território dos Estados Unidos. Tem 893 km² mas um clima terrível e a sua população nunca foi além das poucas centenas de pessoas. Hoje é desabitada. Mas, em 7 de Junho de 1942, os japoneses haviam ali desembarcado para criar um ponto de fixação que pudessem posteriormente utilizar conforme a evolução da Segunda Guerra Mundial no Teatro de Operações do Pacífico. Poderiam usar a ilha para ameaçar os Estados Unidos continentais; poderiam também usá-la como uma cunha nas comunicações entre os norte-americanos e os seus aliados soviéticos, caso estes últimos viessem a entrar em guerra com o Japão. Mas há precisamente oitenta anos, menos de um ano depois da invasão e ocupação japonesas, os norte-americanos desembarcaram por sua vez na ilha, para desalojar os japoneses. A batalha durou 18 dias e, apesar de se estar em Maio, parte dos combates travaram-se em condições meteorológicas em que chegou a nevar, como se se tratasse da campanha da Rússia. Dada a desproporção dos efectivos (os 15.000 atacantes eram cinco vezes mais do que os 3.000 defensores), o desfecho da batalha nunca esteve em causa, apesar da ferocidade suicida da resistência japonesa. No final, os norte-americanos fizeram apenas 28 prisioneiros, o que representava apenas 1% da guarnição japonesa. O seu comandante, o coronel Yamasaki, morreu apropriadamente, liderando uma última carga suicida à baioneta sobre o inimigo. Entre as baixas sofridas por este último, foram mais as ocorridas por doenças e pelo frio (1.814) do que as causadas directamente pelos combates (1.697). Numa Guerra do Pacífico dominada pelas condições tropicais em que a esmagadora maioria dos combates foram travados, este episódio é uma curiosa e pouco conhecida excepção.

10 maio 2023

GRANDE BRANDÃO!

(Republicação)
No vídeo acima o orador barbudo é o aldrabão lusitano típico – basta ouvi-lo na introdução, tratando o Brandão por meu amigo, coisa que o desenrolar dos acontecimentos demonstrará à evidência que eles não são… E que resolve apostar tudo na atitude do Brandão, prevendo que ele seja portuguesinho e bem educado e não crie chatices sem necessidade, desmentindo-o à frente de todos:

– ...se algum problema houver com o advogado, o meu amigo (e esta maneira de tratar o interlocutor por amigo é todo um programa político....) está credenciado, está mandatado, para recorrer a qualquer advogado para o defender! É verdade ou é mentira, Brandão?
– É mentira!

E o verniz do artista estala todo logo ali… Para mim, o Brandão - que nem chega a aparecer nas imagens - devia fazer escola na política e no jornalismo em Portugal: fala quando deve, responde às perguntas, diz o que pensa e é conciso!!!

09 maio 2023

«SABE O QUE É O COLÉGIO MILITAR?»

Lembro-me muito bem deste serão televisivo de há cinquenta anos porque, sendo então aluno do Colégio Militar, tivemos todos direito a ver um programa a respeito da instituição que passou na RTP2. Éramos mais de 100 para um só televisor, mas a fascinação de muitos de se poderem ver a si próprios no pequeno ecrã superava isso tudo. O programa está hoje disponível no arquivo da RTP.

A INUTILIDADE DE UMA CONSTITUIÇÃO

Republicação
9 de Maio de 1948. Há precisamente 75 anos entrava em vigor uma nova Constituição da República da Checoslováquia. O país tornara-se uma ditadura: os comunistas haviam procedido a um Golpe de Estado dois meses e meio antes (21 a 25 de Fevereiro de 1948), mas este novo documento, que viera a ser redigido compassadamente desde o final da Segunda Guerra Mundial para substituir a anterior Constituição (redigida em 1920), ainda não incorporara a nova correlação de forças e o novo poder incontestado dos comunistas. Mas também, aparentemente, não interessava nada: no final desse mês (30 de Maio), uma daquelas milagrosas listas unitárias totalmente controlada pelos comunistas (aqui chamava-se Frente Nacional) arrebanhava 89,2% dos votos e a unanimidade da representação parlamentar. 214 dos 300 eleitos eram comunistas enquanto nas eleições anteriores de 1946, eles só haviam conseguido 114, sem maioria absoluta. Por uma questão de decoro, durante os próximos doze anos (1948-1960), o regime comunista checoslovaco conseguiu conviver com uma Constituição de consensos mas anacrónica para a realidade do regime, até a substituir por uma outra (abaixo) que consagrava finalmente a Checoslováquia como a República Socialista em que se tornara. Uma constituição compatível não é algo de verdadeiramente indispensável para o verdadeiro revolucionário empenhado na construção de uma sociedade socialista (...ou uma ditadura comunista, depende da semântica). A Checoslováquia fica muito longe de Portugal, mas este exemplo checoslovaco não deve ter andado longe das cogitações de um pequeno punhado selecto de pessoas verdadeiramente instruídas que lideravam o nosso PREC, quando por cá se discutiu depois do 11 de Março de 1975 o âmbito das competências da Assembleia Constituinte que se elegeria em 25 de Abril daquele ano, cujos eleitos poderiam redigir a constituição que lhe aprouvesse, desde que assegurando que o poder executivo continuaria firmemente nas mãos do MFA (e da respectiva facção gonçalvista)...

08 maio 2023

A NEUTRALIDADE SUECA EXPLICADA PELO SEU MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS

8 de Maio de 1943. Este artigo, em que o ministro sueco dos Negócios Estrangeiros, Christian Günther, discorre acerca da neutralidade do seu país em plena Segunda Guerra Mundial e contém aquele segredo dos bons diplomatas profissionais quando o querem: é um texto repleto de palavras, que não dizem substantivamente nada. Günther era um dos dois únicos ministros independentes de um governo de unidade nacional que fora formado por causa da Segunda Guerra Mundial e a sua posição era a mediana entre os dilemas históricos da Suécia. De uma perspectiva abstracta, as simpatias culturais das pessoas da elite sueca, como Günther, iam para a Alemanha, na sua guerra contra a Rússia. Por outro lado, e na perspectiva da realpolitik, os aliados anglo-saxónicos da Rússia (e inimigos da Alemanha) pareciam-lhe os beligerantes que poderiam assegurar mais garantias de segurança à Suécia depois do conflito.

07 maio 2023

«JE SUIS CHARLIE»

(Republicação)
7 de Maio de 1973. Haviam decorrido apenas cinco anos depois dos memoráveis acontecimentos de Maio de 1968, mas uma das edições do princípio daquele mês do (hoje famoso) Charlie Hebdo (dos atentados de Janeiro de 2015) denunciava em capa os cuidados de muitos dos protagonistas dos acontecimentos em se fazerem agora esquecidos: «Maio de 68, que é que lhes aconteceu?»; «Há cinco anos o papa ocupava a Sorbonne», grita a criança inconvenientemente, enquanto o papa visado, engravatado, desabafa «Puto estúpido!». «Ser-se Charlie» é fazer-se humor à custa destas reviravoltas que também abundaram em Portugal nos anos imediatamente a seguir a 1973, mas que infelizmente não foram tratados por nós com tanto humor. Ainda em Maio, mas três anos depois, a 5 de Maio de 1976, depois das primeiras eleições legislativas portuguesas, o Comité Central do MES (que elegera zero deputados e recebera 31.000 votos nessas eleições) produzia um extenso comunicado onde o Diário de Lisboa destacava para título a passagem: "Democracia burguesa não tem viabilidade em Portugal". Ora, não é engraçado lembrar que o actual presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, militava e, salvo erro, integrava mesmo o Comité Central de tão presciente organização política? Às vezes dá gozo recordar estas coisas e ser-se um «petit con»...

VÍDEOS QUE, OU NÃO SÃO PARA LEVAR A SÉRIO, OU ENTÃO SÃO UM CASO MUITO SÉRIO

Estes vídeos protagonizados por Yevgeny Prigozhin, o chefe do grupo Wagner, são tão surpreendentes, que, se são uma manobra de desinformação da Rússia, então suponho que seriam facilmente expostas como tal. Contudo, se as queixas que faz e, sobretudo, o método aberto como as expressa são mesmo genuínas, então isto é uma verdadeira hecatombe, a começar pela autoridade de Vladimir Putin. Se na Alemanha dos finais da Segunda Guerra Mundial, Heinrich Himmler - que também tinha uma espécie de exército particular, as Waffen SS - se pusesse a reclamar dos problemas de reabastecimento para as suas SS e anunciasse, com a mesma ostentação que acima Prigozhin exibe, que as recuava da frente de combate, alguém duvida do que é que lhe aconteceria?... Ou tudo isto é uma palhaçada encenada, ou então, para que Putin preserve a sua autoridade, terá que acontecer qualquer coisa a Yevgeny Prigozhin, e qualquer coisa mais ostensiva do que apenas cair de uma janela... Ao fim de quatorze meses e meio de guerra na Ucrânia, parece-me que as análises se ritualizaram, as audiências escolheram o seu clube e tornaram-se dormentes ao que de interessante acontece - que é bastante pouco, reconheça-se.

06 maio 2023

A MUDANÇA DA CAPITAL DO CAZAQUISTÃO

Por ordem do presidente cazaque Nursultan Nazarbaev, e porque o processo já fora previamente anunciado, procede-se à transferência efectiva da capital do Cazaquistão da cidade de Almaty para a cidade de Aqmola, rebaptizada de Astana. Como se percebe pelo mapa acima, a antiga capital dos tempos soviéticos (quando era conhecida à russa, por Alma-Ata), ficava localizada perigosamente próxima de fronteiras com outras antigas repúblicas soviéticas, uma exposição que é um paradoxo num país tão extenso, com 2.724.900 km². Este é um daqueles exemplos das pouco publicitadas alterações suscitadas pela desagregação da União Soviética.

05 maio 2023

A DESFAÇATEZ DE UM MIÚDO DE 73 ANOS QUE NUNCA DEIXOU DE SER FILHO DO PAI

«João Soares, um nome que reunia mais apoios no PS» - e daí? desde quanto é que o cargo de provedor da SCML resulta de uma eleição interna do PS? - «e não só» - porventura outros sítios onde também se gosta muito de João Soares, mas não certamente o gabinete da ministra do Trabalho... - «e que tinha sido apontado para suceder a Edmundo Martinho na provedoria da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML),» - apontado por quem? - «reagiu com um "duplo sentimento" – de "satisfação" e de "tristeza" – à tomada de posse da nova provedora da instituição, Ana Jorge». João Soares tem 73 anos mas ainda se comporta da mesma maneira que uma criança mimada amuada, como se fosse um eterno filho do pai, daquelas a quem não se pode dizer que não sem que ele faça uma birra. E haja quem lhe dê ressonância em tal infantilidade!

«PALAVRA» DE ECONOMISTA...

5 de Maio de 1983. Walter Marques, o então secretário de Estado adjunto e do Tesouro presta declarações à Anop em que, chamando a atenção para as dificuldades da situação financeira da economia portuguesa, se mostrava optimista quanto às perspectivas económicas para o ano seguinte. O governo de que ele fazia parte - o ministro da pasta era João Salgueiro - estava já então de saída, mas o que hoje se torna garantido assegurar é que ele estava redondamente enganado. Como se pode ver assinalado no gráfico acima, o ano de 1984 iria ser um dos anos de recessão económica, com a crise a «não abrandar» e a economia portuguesa a diminuir 1,3%. Olhando para trás, é possível concluir-se que, nestes outros tempos, era bem mais fácil ser-se político e economista, continuar a defender a reputação técnica construída à custa de um ou outro livro que se tivesse publicado, enquanto erros grosseiros deste género, porque facilmente esquecidos, acabavam por nem vir a ser sequer escrutinados. Felizmente que agora já não é assim: nem para os economistas em cargos políticos, nem para os economistas sem sequer essas responsabilidades.

04 maio 2023

A SAGA DO YOUTUBER QUE FOI AO PÚLPITO DO PARLAMENTO...

A notícia foi dada originalmente pelo Observador (acima), que nela foi ao detalhe de precisar em que momento, num vídeo com meia-hora, o autor manda o primeiro-ministro para o c....... Aplauda-se o zelo informativo... A mesma notícia foi depois replicada nos outros sítios. As horas de publicação mostram a que ritmo se processou a mimetização: Correio da Manhã, SIC Notícias e TSF, duas horas depois; RTP quatro horas depois; CNN Portugal e Sábado, cinco horas depois; Expresso, sete horas depois. O que me impressionou nas sucessivas notícias, tendo lido muitas, mas não todas, já que elas se repetiam monotonamente, é que, para lá do nome do youtuber (Tiago Paiva) e do facto de ele ter sido convidado a visitar a Assembleia da República por um deputado da Iniciativa Liberal chamado Bernardo Blanco, nada esclarecem sobre a identidade e personalidade de quem profere os insultos, já que o insultado é conhecido de todos: António Costa. E não é que se descobre facilmente que o youtuber em questão é um daqueles imbecis que, de vez em quanto, alegram as manhãs dos fãs da Joana Marques no seu programa Extremamente Desagradável? É que nem mesmo a jornalista que escreveu a notícia para a Rádio Renascença deu por isso... Incompetências crassas desta espécie de jornalismo. Mas, ouçam-se as edições daquele programa de Joana Marques de 18 de Março de 2022 ou então a de 7 de Julho de 2020:

Descrito pelo próprio em palavras próprias, referindo-se a si na terceira pessoa: «O Tiago Paiva é um gajo que tem uma criatividade acima da média. Não tenho problema nenhum em dizer esta m.... Não me acho convencido por isto. (...) Eu, quando tenho um objectivo, não há nada que eu imagine na minha cabeça (...) que não consiga fazer, mano. É das coisas que me dá mais prazer, ....., é imaginá-la na minha cabeça e passá-la para a realidade. Quer seja, por exemplo, fazer o projecto da .........., que estou a fazer há oito meses, quer seja comer a tua prima, ou seja, eu consigo sempre aquilo que quero.»

Parece-me suficiente para apresentar o Youtuber em questão mas, quem quiser ouvir o resto dos programas aperceber-se-á ainda melhor que o cerne do problema não será como a Iniciativa Liberal agora o quer apresentar e o pedir desculpa pelo sucedido, o problema terá sido antes o que terá passado pela cabeça do deputado Bernardo Blanco ao convidar um cretino destes para ir ao parlamento, na inocência cândida de esperar que ele se portasse civilmente. Porque, em honestidade, e do ponto de vista do insultado e dos socialistas, eu suponho que será difícil alguém sentir-se verdadeiramente insultado por uma coisa destas, um adulto com um discurso de adolescente. A Iniciativa Liberal não tem por que pedir desculpa - a não ser pela ingenuidade de alguns membros da sua jovem bancada.

Adenda do dia seguinte: O Extremamente Desagradável de hoje é precisamente dedicado por uma terceira vez a Tiago Paiva e à sua visita à Assembleia da República. Ironicamente, o programa acaba a ouvirmos o protagonista, que fora convidado pela Iniciativa Liberal, a tecer rasgados elogios a André Ventura. Acho que eles mereceram...

O ACIDENTE DO SENHOR DIRECTOR

A edição de 4 de Maio de 1943 do Diário de Lisboa distinguia-se pelo destaque dado a um acontecimento inusitado, noticiado em primeira página, logo abaixo dos 63 navios mercantes aliados que os alemães reclamavam ter afundado no mês de Abril findo. Mas, sob o título do nome do director do jornal, é melhor deixarmos a notícia falar por si:

O nosso querido director sr. dr. Joaquim Manso foi, ontem, vítima dum acidente que, apesar de se ter revestido de certa gravidade, não assumiu, felizmente, consequências de maior. Ao passar na rua Nova do Almada, escorregou, caindo, desamparado, pelo que recebeu uma funda incisão na região superciliar. Foi imediatamente socorrido pelo sr. Calvet Cardoso e por outras pessoas, que o acompanharam ao posto da Cruz Vermelha, no Terreiro do Paço, onde o enfermeiro Nogueira lhe fez o primeiro curativo. O sr. dr. Joaquim Manso recolheu depois a casa, onde está entregue aos cuidados do srs. drs. Ernesto Roma e Ribeiro da Silva. O seu estado, como dissemos, não inspira cuidados, mas obriga-o a um certo repouso.
Durante a noite e o dia de hoje, tanto para casa do sr. dr. Joaquim Manso, como para o «Diário de Lisboa», centenas de pessoas, de todas as categorias sociais, telefonaram a saber do seu estado. Em virtude do seu elevado número, não nos é possível registar nomes, mas o sr. dr. Joaquim Manso e os seus redactores agradecem, profundamente sensibilizados, o interesse demonstrado.
Agradecemos também, a todos os nossos colegas da Imprensa o cuidado e carinho que lhes mereceu o nosso querido director.

Ou seja, combatia-se ferozmente na Tunísia, mas a atenção da publicação repartia-se equitativamente entre aquela região de África e a «região superciliar» do sr. dr. Joaquim Manso - com vantagem para esta última no que concerne à reacção dos leitores e demais sociedade. Trinta e seis anos antes desta comoção que terá afectado sobremaneira a intelectualidade lisboeta, já em 1907, Eça de Queirós publicara um pequeno texto alusivo ao fenómeno sobre o que verdadeiramente incomodará os leitores de um jornal - no caso o pé «desmanchado» da Luisinha Carneiro (abaixo). O texto é bastante conhecido e regularmente citado, mas tem sempre outro gosto - embora menos valor literário - apreciar a exibição do mesmo ridículo, mas sem ser em ficção.

Ah, esta abominável influência da distância sobre o nosso imperfeito coração! Bem recordo uma noite em que, numa vila de Portugal, uma senhora lia, à luz do candeeiro, que dourava mais radiantemente os seus cabelos já dourados, um jornal da tarde. Em torno da mesa, outras senhoras costuravam. Espalhados pelas cadeiras e no divã, três ou quatro homens fumavam, na doce indolência do tépido serão de Maio. E pelas janelas abertas sobre o jardim entrava, com o sussurro das fontes, o aroma das roseiras. No jornal que o criado trouxera e ela nos lia, abundavam as calamidades. Era uma dessas semanas também em que pela violência da natureza e pela cólera dos homens se desencadeia o mal sobre a terra. Ela lia as catástrofes, lentamente, com a serenidade que tão bem convinha ao seu sereno e puro perfil latino. «Na ilha de Java, um terramoto destruíra vinte aldeias, matara duas mil pessoas …». As agulhas atentas picavam os estrofos ligeiros; o fumo dos cigarros rolava docemente na aragem mansa; e ninguém comentou, sequer se interessou pela imensa desventura de Java. Java é tão remota, tão vaga no mapa! Depois, mais perto, na Hungria, «um rio transbordara, destruindo vilas, searas, os homens e os gados…». Alguém murmurou, através de um lânguido bocejo: «Que desgraça!». A delicada senhora continuava, sem curiosidade, muito calma, aureolada pelo oiro da luz. Na Bélgica, numa greve desesperada de operários que as tropas tinham atacado, houvera entre os mortos quatro mulheres, duas criancinhas…
Então, aqui e além, na aconchegada sala, vozes já mais interessadas exclamaram brandamente: «Que horror!... Estas greves!... Pobre gente!...» De novo o bafo suave, vindo de entre as rosas, nos envolveu, enquanto a nossa loura amiga percorria o jornal atulhado de males. E ela mesma então teve um oh de dolorida surpresa. No sul da França, «junto à fronteira, um trem descarrilado causara três mortes, onze ferimentos…». Uma curta emoção, já sentida, já sincera, passou através de nós com aquela desgraça quase próxima, na fronteira da nossa península, num comboio que desce a Portugal, onde viajam portugueses… Todos lamentámos, com expressões já vivas, estendidos nas poltronas, gozando a nossa segurança.
A leitora, tão cheia da graça, virou a página do jornal doloroso e procurava noutra coluna, com um sorriso que lhe voltara, claro e sereno… E, de repente, solta um grito e leva as mãos à cabeça:
– Santo Deus!...
Todos nos erguemos num sobressalto. E ela, no seu espanto e terror, balbuciando:
– Foi a Luísa Carneiro, da Bela-Vista… Esta manhã! Desmanchou um pé!
Então a sala inteira se alvoroçou num tumulto de surpresa e desgosto.
As senhoras arremessaram a costura; os homens esqueceram charutos e poltronas; e todos se debruçaram, reliam a notícia no jornal amargo, se repastavam da dor que ela exalava!... A Luisinha Carneiro! Desmanchara um pé! Já um criado correra, furiosamente, para a Bela-Vista, buscar notícias por que ansiávamos. Sobre a mesa, aberto, batido da larga luz, o jornal parecia todo negro, com aquela notícia que o enchia todo, o enegrecia. Dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes e guerras, tudo desaparecera – era sombra ligeira e remota. Mas o pé desmanchado da Luísa Carneiro esmagava os nossos corações… Pudera! Todos nós conhecíamos a Luisinha – e ela morava adiante, no começo da Bela-Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava do muro dando à rua sombra e perfume.

03 maio 2023

UMAS CALÇAS PARA O CARAÇAS

(Republicação)
A campanha pelos direitos civis dos negros norte-americanos tornou-se um exemplo de uma confrontação que foi vencida pelo poder daquilo que se veio depois a designar por softpower. Um dos momentos mais significativos dessa confrontação ocorreu em Maio de 1963 em Birmingham, uma cidade do estado do Alabama, no Sul profundo dos Estados Unidos. As marchas de protesto dos activistas perderam as batalhas travadas no terreno contra as forças da ordem locais para as vencerem junto da opinião pública por intermédio dos órgãos de informação que iam relatando o que estava a acontecer.
As imagens recolhidas no local por fotojornalistas como Charles Moore ou Bill Hudson eram não apenas chocantes como pareciam ser eloquentes quanto à repressão aplicada sobre os manifestantes. Ver os bombeiros (tradicionalmente conhecidos por soldados da paz) a usar o seu material como armamento de dispersão de manifestantes (acima) seria algo que a opinião pública norte-americana não parecia disposta a aceitar. Contudo, é engraçado como os detalhes das fotografias destas situações confusas se prestam a criar muitas dúvidas sobre a veracidade daquilo que a imagem geral pretende transmitir…
Tomemos o exemplo desta fotografia acima de Bill Hudson que recebeu o destaque do New York Times: o polícia, de óculos escuros e dentes cerrados, agarra o manifestante pela lapela do casaco enquanto incita o cão que ataca. Todavia, se prestarmos atenção à inclinação do corpo do manifestante parece que será ele que está a avançar e a provocar o contacto com o cão e não o contrário. Note-se como a sua perna esquerda está levantada como se ele se preparasse para dar uma joelhada (defensiva) no peito do cão. E note-se ainda como a sua mão esquerda agarra o pulso do braço do polícia que o está a agarrar...
Faça-se o contraste com esta outra fotografia desses mesmos acontecimentos, cujo tema é praticamente o mesmo (manifestantes, polícias e cães) embora o seu autor seja Charles Moore. A violência do momento não será tão ostensiva quanto acima mas será muito mais gratuita porque não foi provocada. Percebe-se que os manifestantes estariam a afastar-se ordeiramente e que o ataque do cão, a interpretar-se a expressão entre o surpreso e o embaraçado do polícia que o controlaria, foi intempestivo. O desgraçado, atacado à traição, olha para trás e lá deve pensar resignado: - Lá se foram umas calças para o caraças…

OS INCIDENTES NA UNIVERSIDADE DE LISBOA

3 de Maio de 1973. O relato que, no dia seguinte, o Diário de Lisboa fazia dos acontecimentos do que havia acontecido nas univesidades, apesar da censura que se sabia activa, não deixava dúvidas sobre a gravidade da agitação estudantil. Ao contrário das precedentes, as denominadas crises académicas de 1962 e de 1969, que são repetidamente evocadas na RTP, esta agitação que varria a universidade no princípio da década de 1970 era diferente, fomentada pelo MRPP maoista. Que, como qualquer organização maoista, precisava de idolatrar um grande timoneiro: era Arnaldo Matos. (Depois do 25 de Abril, Matos viria a revelar-se um advogado, rábula, espertalhão, capaz de proferir as maior enormidades radicais com a maior desfaçatez, um verdadeiro antepassado de André Ventura) O problema é que os maoistas nunca conseguiram infiltrar-se no mainstream social, portanto todas as acções de contestação desenvolvidas por eles - e a leitura da notícia acima não deixa quaisquer dúvidas sobre a seriedade dos incidentes ocorridos há cinquenta anos - acabaram por ser discreta e injustamente esquecidas. Creio ser de toda a justiça histórica evocá-los hoje, sobretudo se servir de contraponto a Alberto Martins a contar, pela enésima vez, a sua história de como pediu a palavra ao presidente e não lha deram!...

02 maio 2023

GREVE DE ARGUMENTISTAS EM HOLLYWOOD? RESOLVE-SE COM UM «WOOLY BULLY»...

Sempre que há uma greve de argumentistas de Hollywood, o acontecimento vem expor o quanto naquela sociedade americana não é assim tão importante mostrar a verdade, o quanto ela depende das cenografias e de quem as prepara para as exibir aos, e captar a atenção dos, auditórios. Terá uma importância, à escala social, do que significará para nós uma greve dos maquinistas da CP ou dos pilotos da TAP. Tem a mesmo importância, mas não a mesma seriedade. Comboios e aviões não vão a lado nenhum, o espaço televisivo continua lá, por preencher, que os auditórios não desligam a televisão. Contudo, desde há mais de 30 anos que, sempre que se regressa a este tema da greve dos argumentistas pelas Américas, me lembro da solução que foi aplicada para os vinte minutos finais de uma série de sucesso dos anos 1980, Moonlighting. por ocasião de uma dessas graves greves. Chegados ao ponto onde (aparentemente) se acabara o script, e derrubando a quarta parede (como acontecia frequentemente naquela série), esse tempo que a greve dos argumentistas tornara obrigatório preencher de qualquer outra maneira, acabou sendo ocupado por uma dos personagens da série (personificada pelo actor Curtis Armstrong) interpretando um sucesso musical que já na altura contaria uns 20 anos: Woolly Bully, que fora cantado originalmente pelos «Sam the Sham and the Pharaohs» Podem apreciar abaixo. Confesso que já não me lembro dos enredos de todos os outros episódios da série, mas este ficou-me na memória!

OS DOIS JOVENS REIS HACHEMITAS

2 de Maio de 1953. É o dia em que, por coincidência, Faiçal II (1935-1958), rei do Iraque (à esquerda), atinge a maioridade e assume as responsabilidades como monarca e o seu primo Hussein I (1935-1999), rei da Jordânia, assume também o trono por incapacidade de seu pai. Os dois primos, que têm a mesma idade e passaram por processos de formação académica muito semelhantes (modelo britânico), são reis de duas monarquias árabes não tradicionais, que haviam sido forjadas depois de 1918 a partir dos despojos do império Otomano. A família dos dois monarcas era (e é) conhecida pela denominação de hachemitas. E a instituição monárquica em qualquer dos dois países era muito periclitante. Apesar das aparências que a situação política no Iraque era mais estável que na Jordânia, foi Faiçal II que só sobreviveu cinco anos no trono do Iraque (foi assassinado num golpe de Estado) enquanto Hussein I sobreviveu a inúmeros golpes de Estado e tentativas de assassinato, para morrer precocemente aos 64 anos, mas de cancro. A Jordânia é, ainda hoje, uma monarquia.

01 maio 2023

«MISSION ACCOMPLISHED»

1 de Maio de 2003. Há vinte anos, George W. Bush foi ao porta-aviões USS Abraham Lincoln pronunciar um discurso que foi televisionado para todo um país (a gozar o feriado do dia do trabalhador) onde ele não proferiu a hoje famosa expressão «Mission Accomplished» - na verdade, deixou que a enorme faixa atrás de si, devidamente enquadrada pelas câmaras de televisão, transmitisse essa ideia por si. A Guerra do Iraque tinha acabado... mas não tinha bem acabado. Ou não tinha acabado... mas tinha acabado. Uma delas. Mas o que mais impressionou em todo o episódio não foi o erro de comunicação cometido pela equipa da Casa Branca - tantos erros do mesmo género houve anteriormente e tantos mais haverá. Impressionante foi a, inédita até aí, resistência manifestada pela equipa de assessores de W. Bush em assumir as suas responsabilidades: segundo eles, Bush não dissera aquilo (argumento numa primeira fase), um argumento rapidamente rebatido pela pergunta «o que é que estava então a fazer a expressão em cima da cabeça dele durante o discurso?»; depois, numa fase posterior, as culpas foram transferidas para a Marinha, já que, nessa segunda versão, fora a tripulação do Abraham Lincoln que promovera a afixação da famigerada faixa, pretendo assim fazer-nos crer que os detalhes da produção e supervisão de todo o espectáculo (o presidente aterrara num avião S-3, vestido de piloto e tudo, distribuíra autógrafos à tripulação), alguma vez tivessem escapado à Casa Branca. A exibição da faixa foi explorada pelos adversários políticos de Bush como mais uma demonstração do irrealismo de como as operações militares no estrangeiro foram montadas pela sua administração: a verdade é que o número de baixas americanas no Iraque foi muito superior após o discurso do que o fora até então... Mas o interessante do incidente tem a ver com um marco que foi franqueado no que concerne à comunicação política. Até aí existira uma regra não escrita que, nas Democracias, quando as justificações falhavam e não pegavam na opinião pública, eram deixadas cair. Só as ditaduras é que continuavam a insistir nas versões oficiais, mesmo que os factos entretanto conhecidos as tornassem desesperadamente inverosímeis - acontecia com a propaganda nazi ou com os comunicados soviéticos da TASS. Por aqui se descobriu que, sob a administração Bush, a mentira em defesa de uma causa ganhou uma nova latitude. Resta dizer que, depois de anos de um corrupio de acusações e de desculpas, ao terminar os seus mandatos em 2008, George W. Bush fez o óbvio, lamentando a presença da faixa.

A «OFENSIVA UCRANIANA»

A próxima «ofensiva ucraniana» (também conhecida por «ofensiva ucraniana da primavera») tem sido referida tantas vezes, desde há tanto tempo e com tanta ostentação que só se pode colocar a questão se o anúncio é mesmo para levar a sério. A propósito do acto de informar deliberadamente o inimigo a respeito das suas intenções, lembrei-me deste trecho de uma história de Lucky Luke.


O PRIMEIRO DE MAIO DE 1923

«Com a assistência de cerca de mil pessoas, realizou-se (...) o comício operário comemorativo do 1º de Maio.» Estas visitas ao passado daquilo que nos é sugerido que teria sido uma grande celebração, muito participada, da classe operária estão-se a tornar, repetidamente, um desapontamento. Os relatos dos contemporâneos de há cem anos contam-nos histórias muito diferentes da propaganda a que assistimos nos últimos quarenta. Em que a própria propaganda de então não encaixa com a propaganda proletária posterior: (o proletariado português) «afirma a sua repulsa pelos crimes da burguesia internacional e nomeadamente da reacção espanhola, do banditismo do fascismo italiano, do despotismo da América da falsa liberdade. Do mesmo modo, o proletariado português protesta veementemente contra as perseguições e encarceramentos que o governo russo vem exercendo contra aqueles que pretendem imprimir à revolução um carácter progressivo e libertário». Pois bem, ponham lá a Isabel Camarinha da CGTP a repetir a passagem acima destacada, a ver se ela não se engasga antes de chegar ao fim...

A GREVE DOS MINEIROS DE CARVÃO EM PLENA GUERRA

Um minuto depois da meia-noite de 1 de Maio de 1943, mais de 480.000 mineiros que trabalhavam nas minas americanas de carvão entraram em greve, quando o contrato colectivo de trabalho do sindicato (United Mine Workers) com as empresas mineiras expirou. O presidente Franklin Roosevelt, notificou o dirigente sindical, John L. Lewis, para que o trabalho fosse retomado até às 10 horas, tendo em conta a situação de guerra, mas essa ordem foi ignorada. Por causa disso, foi emitida de imediato uma ordem executiva presidencial dando poder ao executivo para que tomasse «posse imediata e na medida do necessário ou desejável, de todas e quaisquer minas produtoras de carvão em que tivesse ocorrido uma greve ou paralisação ou que a produção esteja ameaçada (...)». Quanto ao discurso (acima anunciado) que foi proferido por Roosevelt na rádio nacional no dia seguinte, foi uma descarada chantagem emocional para com os grevistas: «Vocês, mineiros, têm filhos no exército, na marinha e nos fuzileiros ... Eu gostaria de vos dizer aquilo que eles pensarão da greve nas minas de carvão...» Mas o que é notável, e qualificava os Estados Unidos numa categoria à parte entre os grande beligerantes da Segunda Guerra Mundial é o facto de este conflito laboral ser noticiado, como acima se constata, apesar do valor informativo do acontecimento para os inimigos. É impensável uma tal cobertura noticiosa a acontecimentos deste género em qualquer dos outros países em guerra, aliados ou inimigos dos Estados Unidos. Grandes greves de mineiros teriam sido abafadas no Reino Unido ou teriam sido reprimidas com a maior violência na Alemanha, na União Soviética ou no Japão.