30 junho 2008

O PROBLEMA DAS NATUREZAS DE CRISTO

Entre os anos de 412 e 444 da era cristã, já o Império Romano se habituara a contar com dois Imperadores, a Sé de Alexandria foi ocupada por uma personalidade muito interessante, um Patriarca* chamado Cirilo (378-444), combinando, como era frequente nesses tempos primordiais da Igreja, as facetas de um eminente teólogo com as de um político determinado. Entre as controvérsias teológicas em que se envolveu, a mais importante que desenvolveu foi com Teodoro (350-428), o Bispo de Mopsuestia (então uma grande cidade, hoje uma pequena povoação na Turquia oriental), que pertencia à geração anterior à sua, próxima de São João Crisóstomo (349-407), que fora o reverenciado Patriarca de Constantinopla.

Procurando sintetizar sem desvirtuar a tese mais controversa de Teodoro, para ele a redenção da Humanidade dependia da perfeição e da obediência de Cristo como homem. A identidade de Jesus com Deus consistia no acordo em amor entre a Sua vontade e a do Pai. Para Teodoro, essa união de Deus e homem em Cristo para que se formasse uma pessoa única de forma alguma queria destruir ou qualificar a dualidade permanente das duas naturezas unificadoras. Cirilo opunha-se a esta interpretação e, num comentário seu ao Evangelho de São João, criticou, embora sem nomear, os que consideravam Cristo como o exemplo supremo de inspiração profética e graça e assim falavam de duas naturezas distintas.
Estas divergências interpretativas, permaneciam circunscritas à teoria, quando na Corte Romana de Constantinopla, se escolheu Nestório (386-451), um monge sírio, discípulo de Teodoro, para Arcebispo da Cidade no ano de 428. Nestório também mostrava ter uma determinação semelhante à de Cirilo, e as potencialidades de conflito dos dois egos, numa época em que a proeminência relativa das respectivas Sés estava muito longe de estar estabelecida, era infinda. Foi o que aconteceu, embora a causa da divergência, para que a audiência a pudesse acompanhar, se concentrasse no emprego da expressão Mãe de Deus quando aplicada a Maria, aceite por Cirilo, condenada por Nestório, que preferia Mãe de Cristo.

No Concílio de Éfeso de 431, o bloco de bispos egípcios e ocidentais (incluindo o de Roma) por detrás de Cirilo conseguiu manobrar melhor do que o dos sírios e orientais por detrás de Nestório, acabando o Concílio com a excomunhão do último e da sua doutrina, conhecida por nestorianismo, que continuou a ser aceite entre as comunidades cristãs que ficavam para lá das fronteiras do Império Romano, (no actual Iraque). Estes problemas cristológicos ainda iriam provocar mais outras divisões no cristianismo, separando o mundo cultural que se exprimia em grego do que se exprimia em copta (no Egipto), os dois do que se exprimia em siríaco (Síria) e os três, mas já não por causa de Cristo, do Ocidente latino (1054).
O tempo, especialmente quando visto nesta perspectiva secular ou milenar – passaram-se quase 1600 anos… – parece ter aquela virtude de reduzir as confrontações teóricas mais acesas às suas devidas proporções. Hoje é apenas um círculo muito restrito o que se dedica ao aprofundamento das controvérsias cristológicas, que ainda consegue compreender o que separava as opiniões daqueles homens cujos debates levavam àquelas rupturas impiedosas e, sobretudo, há a tranquilidade de se saber que delas não resultam consequências de profundo impacto político para outros milhões de pessoas que nem as sequer conseguem acompanhar. O que não invalida que outros temas tenham sido empregues com o mesmo propósito.

O blogue Água Lisa tem estado a relatar em interessantes episódios (1,2,3,4 e 5) os trabalhos daquilo que se assemelha por demais a uma espécie de Concílio Comunista que se realizou há uns 40 anos. É verdade que se trata de um período 40 vezes mais curto do que o que nos separa da controvérsia de Éfeso, mas a analogia é fortíssima, desde a disputa da ascendência relativa das dioceses (Moscovo versus Pequim) e sobretudo a dos seus titulares (a disputa que verdadeiramente interessava: quem mandava na igreja, Brejnev ou Mao?), até aos mesmos pretextos de interpretação dos textos teóricos que essa disputa assumiu formalmente, que, como dali se deduz, não serviram para nada….
Se a analogia se mantiver, então o que restar dos movimentos comunistas vai-se fragmentar ainda mais em função das linhas de fractura culturais que separam os diferentes países. As proclamações internacionalistas guardar-se-ão para as ocasiões solenes (Proletários de todos os países uni-vos!) assim como a Igreja continua a prometer-nos o Reino de Deus na Terra… Mas o mais engraçado é como aqueles escassos 40 anos transcorridos não deixaram de me fazer imaginar quantos séculos faltarão para que as obras consideradas imortais de Lenine (como Materialismo e Empiriocriticismo) venham a ser encaradas da mesma forma interrogativa com que hoje tratamos os Diálogos sobre a Trindade de Cirilo…

* O Chefe da comunidade cristã de Alexandria é conhecido também pelo título de Papa, prática que é muito provavelmente mais antiga do que a do seu homólogo de Roma. Aqui não o empreguei para não se prestar a confusões.

29 junho 2008

O MARAVILHOSO EXÉRCITO SUÍÇO

Durante todo o Século XX, incluindo o período da Guerra-Fria, o dispositivo de defesa nacional da Suíça era considerado uma das grandes maravilhas do Mundo. Numa época em que os números eram importantes, a legislação impunha que todos os cidadãos suíços que estivessem em boas condições físicas e que tivessem entre 20 e 50 anos de idade fizessem parte das Forças Armadas suíças, o que fazia com que os seus efectivos atingissem uma ordem de grandeza desproporcionada para a dimensão demográfica do país (10 a 12% da população total).
Normalmente, o período de serviço militar inicial na Suíça era constituído por quatro meses de instrução, em quartel, na forma tradicional como o serviço militar era cumprido nos restantes países europeus, mas seguido de 12 anos nas forças principais da reserva, complementado por mais 18 anos nas reservas secundárias. O que diferenciava o serviço militar suíço dos restantes era o treino e a reciclagem que eram regularmente dadas às forças dos reservistas, incluindo uma semana anual onde era obrigatório que fossem cumpridos exercícios de campo.
Feito da forma tradicional, estas reservas teriam uns custos logísticos proibitivos, mas a solução suíça era uma solução que só teria cabimento na Suíça: era o próprio cidadão que se responsabilizava pela manutenção do seu fardamento, calçado e… armamento. O que quer dizer que qualquer cidadão suíço em idade militar possuía uma arma de guerra em casa (a actual é a SG 550, da imagem abaixo) juntamente com uma caixa de 50 munições reais... Recentemente, desde 2007, deixaram de se distribuir as munições…
Mas todos os países que se quiseram inspirar no exemplo suíço recuaram perante a perspectiva das consequências sociais causadas pelo facto de haver mais de 10% da população a andar legalmente armada – nomeadamente o impacto na taxa de homicídios com armas de fogo… Só Israel – que, afinal, não tinha grande escolha… – acabou por adoptar um sistema semelhante e os dois países compartilham imagens como a de baixo, onde um reservista (neste caso suíço) aguarda pacientemente o seu comboio na sala de espera da estação, de metralhadora a tiracolo…
Historicamente, durante as Guerras Mundiais e procurando preservar a sua neutralidade, a Suíça conseguiu com este dispositivo de defesa nacional responder com uma enorme prontidão tanto em 1914 como em 1940, mobilizando quase 500 000 homens num espaço de dias, a tempo de dissuadir qualquer dos beligerantes, França ou Alemanha, de utilizar o território suíço para atacar o inimigo. Mas, durante a Segunda Guerra Mundial, a Suíça acabou por ficar cercada por territórios controlados pelo Eixo e os alemães chegaram a conceber planos para invadir a Suíça...
Embora se adiantem razões militares para que Adolf Hitler não tenha chegado a accionar esses planos, é muito mais plausível que tenham sido razões de outra ordem (diplomática e económica) a preservar a neutralidade suíça. É que afinal, e apesar das aparências, o excepcional dispositivo de defesa suíço, afastava quase ¼ da população economicamente activa das suas actividades normais, o que só é sustentável pelo espaço de um par de semanas. Foi com essa fraqueza que Israel, mobilizado para se defender dos ataques árabes, se confrontou em Junho de 1967, e que o forçou a desencadear a Guerra dos Seis Dias...

28 junho 2008

SAIS DE FRUTOS

A propósito da Prova de História do 12º Ano, suspeito que, se tivesse havido nela alguns erros técnicos e factuais que pudessem ser explorados, então o PCP teria feito logo avançar o conhecido camarada Mário Nogueira do Sindicato (abaixo), municiado dos competentes relatórios que demonstrariam várias coisas, e concluiria - previsivelmente - quão perniciosas têm sido as políticas educativas de direita desta ministra e deste governo.
Mas não tendo sido assim, e tendo a referida prova elegido como um dos seus temas duas fases do período soviético (1917-91) da história da Rússia, parece que o incidente acabou por se ficar apenas por uma enorme má disposição dos camaradas intelectuais, como se pode ler aqui (em sóbrio) e ali (em ridículo). É que, quanto ao tema da história soviética, sabe-se bem como há um enorme fosso metodológico a separar os comunistas de todos os outros.
Mais concretamente, e para nos cingirmos ao período estalinista da Grande Purga da década de 1930, um dos focados na prova, quem o conhece sabe como ele sempre foi tratado com uma enorme plasticidade factual pelos próprios comunistas. Tornou-se simbólica a fotografia abaixo, onde Nikolai Yezhov, que foi o dirigente máximo do NKVD e um dos protagonistas da repressão, veio a desaparecer das fotografias oficiais.
Claro que um intelectual comunista experimentado como Vítor Dias não cairia na armadilha de se perder a atacar factualmente esses episódios da história russa destacados na prova, antes prefere refugiar-se em generalidades como classificá-la de prova (…) marcadamente orientada por critérios político-ideológicos muito parciais, rígidos e fechados. O engraçado é que, como opinião e como generalidade, nunca li melhor descrição do Avante!...

27 junho 2008

A ESTRUTURA SOCIOLÓGICA DA POPULARIDADE DE ANTÓNIO DE SPÍNOLA

Segundo uma teoria original que me foi explicada, uma parte dos erros políticos cometidos por António de Spínola depois do 25 de Abril deveram-se a uma percepção deficiente da sua parte quanto à popularidade que ele armazenara entre os portugueses (e entre os guineenses, acrescente-se) quando na Guiné. Enquanto comandou aquele Teatro de Operações, Spínola tornou-se conhecido (e também popular) por visitar as unidades no mato (acima), falando com os soldados, ouvindo as suas queixas e procedendo, de quando em vez, a medidas justiceiras de substituição de comandos com grande espavento.

Esta última medida não lhe granjeava grande popularidade junto do corpo de oficiais (como seria de esperar…), o que se veio a agravar ainda com o tratamento preferencial dado a um grupo de oficiais que lhe era próximo (depois conhecido pela designação de oficiais spinolistas…) para cujos critérios de admissão – dizia-se – se contava, para além dos naturais casos de mérito, com a frequência do Colégio Militar e/ou a origem da Arma de Cavalaria. Vir-lhe-iam depois a custar caro dentro do MFA, mas essas acusações de um favoritismo descarado eram questões corporativas a resolver entre os profissionais.
No que se referia aos amadores (i.e., os milicianos), com o tempo tornou-se evidente um padrão nas visitas de Spínola: entre a obrigatoriedade de falar com o Comandante da unidade, um Tenente-Coronel (no caso de um batalhão) ou um Capitão (no caso de uma companhia), e o desejo de cativar as bases (o Zé soldado), parecia nunca lhe sobrar tempo para mostrar interesse pelos outros graduados da unidade, tanto oficiais como sargentos, onde os milicianos normalmente costumavam estar em maioria. E eram esses os quadros que, depois de desmobilizados, estariam destinados a liderar a sociedade civil…

Numa eventual contagem de votos que tivesse havido logo em 1974, os votos de um antigo soldado e de um antigo graduado teriam o mesmo peso. Mas, nas manobras e contra-manobras de formação da opinião pública no Verão de 1974, a neutralidade, senão mesmo a hostilidade dos segundos em relação à figura de Spínola tornaram os apelos populistas deste, culminados no da manifestação da Maioria Silenciosa (abaixo) de 28 de Setembro, numa verdadeira exibição gratuita da sua impotência. Por essa altura, parecia que eram os comunistas que já tinham as massas populares devidamente enquadradas...
Mudando de assunto, vai para aí uma grande indignação depois de umas afirmações proferidas pelo Ministro da Agricultura Jaime Silva, a respeito das orientações ideológicas de alguns dirigentes de duas organizações de agricultores, a CNA (de extrema esquerda) e a CAP (da direita conservadora). Segundo o que se lê, parece que aquela constatação constituiu coisa grave e que a indignação do PCP e do PP é infinita. A coisa deve ter tido tal gravidade que a notícia que agora circula é que o próprio José Sócrates desautorizou Jaime Silva assumindo ele próprio a condução das negociações.

Muito menos amplificada mediaticamente, mas não menos indignada, parece ser a reacção do presidente do Conselho de Reitores das Universidades às afirmações do Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, a respeito da incapacidade dos reitores não conseguirem gerir as suas Universidades com as dotações orçamentais que lhes foram atribuídas para este ano. Neste caso, até ver e apesar da vontade manifestada pelos reitores, José Sócrates não mostrou qualquer vontade de assumir a condução das negociações. Considerando a interpretação que dei ao episódio histórico acima contado, parece-me que Sócrates faz mal.
Como outrora Spínola se terá esquecido do efeito multiplicador da sua popularidade e boa imagem junto dos quadros milicianos do seu exército, também Sócrates, que anda agora atrás de camionistas (acima), agricultores ou taxistas, não se deve esquecer desse mesmo efeito junto das elites do seu país. É que assim Jaime Silva parece sair desautorizado por dizer o óbvio e Teixeira dos Santos parece sair impune por proferir um paradoxo: se aqueles que são os nossos melhores quadros intelectuais se queixam que não conseguem gerir as suas instituições com aqueles orçamentos, então quem conseguirá?

Vozes anónimas sussurrarão sarcasticamente que para o conseguir o que é preciso mesmo é ser-se titular de um certo tipo de licenciatura, incluindo a indispensável cadeira de Inglês Técnico… É fácil de adivinhar a origem de tais comentários, mas recuperando Spínola e os pormenores ridículos, lembremo-nos da rapidez com que o monóculo e o pingalim (por causa deles Spínola era tratado original e simpaticamente pela alcunha de Caco Baldé* ou simplesmente Caco…) passaram de acessórios excêntricos para adereços ridículos

* Caco em alusão ao monóculo e Baldé trata-se de um apelido muito comum entre os fulas, etnia guineense que apoiara quase unanimemente os portugueses.

26 junho 2008

A FALSA “PROFUNDIDADE ESTRATÉGICA” JAPONESA

Tradicionalmente o conceito de Profundidade Estratégica esteve associado à geografia física. O país ideal para a exemplificar, porque era a potência que mais a tinha, era a Rússia. Fora na Rússia profunda que o Grande Exército de Napoleão se desagregara em 1812. Era a propósito da Rússia, na sequência desse acontecimento e enquadrando esse mesmo conceito de Profundidade Estratégica que o Barão Jomini, reputado estratega teórico do Século XIX, escrevera que a Rússia é um país onde é muito fácil entrar, mas de onde é muito difícil sair...
No Século XX, o mesmo conceito voltou a ser utilizado distinguindo o que, na Segunda Guerra Mundial, a União Soviética tinha mas a França não tinha: a mesma Profundidade Estratégica que permitia aos primeiros continuar a recuar e resistir, mesmo depois das amplas manobras envolventes da blitzkrieg do inimigo que levavam ao aprisionamento de centenas de milhares de soldados seus (acima). Do outro lado do Mundo, também o Japão se esgotava na China, sem capacidade de obter uma satisfação política para a sua invasão.

Contudo, na Segunda Guerra Mundial o Japão tentou aplicar um outro tipo de profundidade estratégica, esta dependente dos comportamentos e não das condicionantes geográficas, tal qual veio a ser implementada no Pacífico nos anos de 1941-45, num local onde a superioridade naval dos Estados Unidos colocaria os nipónicos em desvantagem. O método consistiu em fazer com que as guarnições japonesas que ocupavam as ilhas do Pacífico disputassem as posições onde se encontrassem estacionadas até ao fim, sem cuidar de qual fosse o seu valor militar.
No primeiro atol onde desembarcaram, Tarawa (acima), em Novembro de 1943, os norte-americanos sofreram um milhar de mortos entre os 15 500 fuzileiros que haviam desembarcado enquanto 97% dos 4 800 homens da guarnição japonesa haviam morrido e os prisioneiros japoneses tinham sido todos feridos. No atol seguinte, Kwajalein, em Fevereiro de 1944 os norte-americanos incorporaram os ensinamentos da experiência anterior, triplicando o volume de fogo que precedeu o desembarque do contingente de 41 500 fuzileiros.

As baixas mortais reduziram-se substancialmente para apenas 272 apesar da guarnição japonesa ter sido devidamente exterminada: 97% dos 8 700 defensores. Foi a vez dos japoneses aprenderem que de pouco valia disputarem os locais de desembarque aos norte-americanos, quando estes estavam protegidos por uma esmagadora superioridade de fogo naval. Em Iwo Jima (abaixo), um ano depois (Fevereiro de 1945), este novo método causou 6 000 mortos ao corpo expedicionário norte-americano de 110 000 homens.
Do outro lado, a arte do extermínio dos defensores (21 000) roçava agora os píncaros da perfeição: 99%. Apesar de tanto sucesso, em Okinawa, entre Março e Junho de 1945, até os norte-americanos já se mostravam preocupados com as taxas de sobrevivência dos seus inimigos, incluindo, pela primeira vez entre o contingente desembarcado, soldados nipo-americanos que os exortavam, através de altifalantes, a sobreviver. Os resultados foram uns espectaculares 7 400 prisioneiros entre os quase 100 000 defensores…

Por esta altura (o Verão de 1945) o Japão estava virtualmente derrotado porque, na realidade, se trata de uma potência sem profundidade estratégica: submetido a um apertadíssimo bloqueio naval por parte dos submarinos norte-americanos e consecutivamente atingido por colossais bombardeamentos convencionais, incapaz de se auto-sustentar quer em alimentos, quer em matérias-primas para a indústria, quer em recursos energéticos, as ilhas japonesas estariam sempre condenadas a definhar progressivamente (abaixo).

No entanto, o comportamento assumido durante a Guerra que acima vim descrevendo, além de ter convencido os japoneses*, convencera o próprio inimigo norte-americano que o Japão se dispunha a resistir até ao fim nem que fosse para se bater por vantagens marginais. Ou seja, aquela profundidade estratégica artificialmente concebida tornara-se, ela própria, um factor estratégico real. E é a contar com ele que do lado americano se crê que, para que o Japão aceite a derrota sem condições, há que proceder à invasão do arquipélago japonês.

O Japão é constituído por ilhas montanhosas, que eram terrenos pouco propícios ao exercício da superioridade material em blindados, artilharia e aviação por parte do Exército dos Estados Unidos. Assim, antecipava-se que depois do desembarque se multiplicariam os combates de infantaria e estimava-se em 500 000 o número de mortos norte-americanos até ao final dos combates. Ora isso era mais do que duplicar o custo em vidas americanas naquela Guerra que até aí havia se ficara pelos 290 000 mortos...
Embora a palavra bluff seja de genuína origem norte-americana, não deixa de ser um paradoxo que seja ela a que melhor definirá a pretensa profundidade estratégica japonesa no final da Guerra. Mas os norte-americanos acreditaram nela, acreditando que os japoneses estariam dispostos a suicidarem-se colectivamente por uma rendição honrosa. Não tendo havido um factor determinante, este foi certamente um factor muito importante para levar Harry Truman à decisão de empregar pela primeira vez a bomba atómica…

* Conforme anunciava a propaganda nipónica, para que o Japão se desse por vencido seria preciso aniquilar os 70 milhões de japoneses. Ora, concluía a mesma propaganda, nem mesmo os norte-americanos teriam meios para exterminar os 70 milhões de japoneses…

25 junho 2008

A ENTREVISTA

Ontem tive oportunidade de assistir a uma acesa discussão em directo na televisão (TVI) a que antecipadamente tinham atribuído o nome pomposo de entrevista. Como participantes estavam lá duas pessoas que pareciam já saber tudo o que havia para saber sobre os problemas da agricultura em Portugal e que, por isso, bem podiam ter aparecido no programa separadamente para que, com mais calma, eu conseguisse perceber o que cada um pensava sobre aquele complexo assunto.
Dos dois participantes, percebia-se muito melhor o que Constança Cunha e Sá achava de tudo aquilo do que aquilo que seria a opinião de Jaime Silva, o Ministro da Agricultura, que passou o tempo a fazer de totó e a tentar encaixar as suas opiniões nos 10 segundos que Constança lhe concedia, antes de o interromper e partir para outra. Confesso que já empreguei argumentos tão irracionais - as cores dos calções, por exemplo... - para escolher por quem torceria num combate de boxe como a opção que acabei por fazer naquela discussão...
Nem tudo estará bem na agricultura portuguesa e é obvio que o Ministro ia para ali para vender o seu peixe. Quem convida um Ministro para estas coisas já sabe ao que ele vai… Mesmo assim, ele era o menos convencido dos dois... Agora uma jornalista, como Constança Cunha e Sá, que quer fazer entrevistas com o detalhe técnico com que ontem o tentou fazer, tem de se saber preparar e não apenas decorar a matéria com cuspo e substituir por assertividade e petulância aquilo que era obviamente ignorância para rebater em substância as respostas de Jaime Silva…
No fim ficou a impressão de uma tremenda discussão, daquelas que, se fosse connosco e travada a uma mesa de café provocaria azia em relação à pessoa com quem estivemos a discutir. Onde quem não gostava do Ministro também não passou a gostar e onde quem não gostava da Constança Cunha e Sá – é o meu caso – também não passou a gostar, com a enorme diferença que, enquanto não houve oportunidade de se apreciar politicamente o desempenho de Jaime Silva, houve uma bela oportunidade de apreciar profissionalmente a jornalista…

ALEMANHA x TURQUIA – OS PAÍSES QUE ESTIVERAM EM GUERRA POR 74 DIAS

Participante e vencida na Primeira Guerra Mundial, a Turquia foi um dos raros países que, muito perto da acção, conseguiu escapar-se ao envolvimento na Segunda Guerra Mundial. A habilidade negocial do General Ismet Inönü, sucessor de Mustafá Kemal, permitiu-lhe assinar um Tratado de Assistência Mútua com a França e o Reino Unido em Outubro de 1939, mas também um Tratado de Amizade com a Alemanha em Junho de 1941… Foi assim que a Turquia se escapou por entre os pingos da chuva

Ingrata, a Turquia aproveitou o estertor do regime nazi para declarar guerra à Alemanha em 23 de Fevereiro de 1945, 74 dias antes da rendição alemã… Mas reconheça-se que nestas coisas de política externa não costuma haver moral, porque em 19 de Março desse mesmo ano de 1945, também ainda antes da rendição alemã, foi a União Soviética a denunciar o seu Tratado de Amizade com a Turquia, apresentando um conjunto de reivindicações territoriais nas regiões próximas (Kars, Ardahan) da fronteira comum…

Mas o que interessa é que jogo Alemanha x Turquia das meias-finais de hoje vai ser travado entre adversários que até não são muito inimigos. Claro que a partida se vai disputar num campo que estará inclinado para o lado onde estiver a baliza turca e que os jogadores turcos têm de ter imenso cuidado quando se movimentarem na sua grande área para que não se envolvam naquelas jogadas que são casuais para as selecções dos grandes países, mas grandes penalidades indiscutíveis para as outras…

É preciso não esquecer que a final do último Europeu teve todo o aspecto de um grande fiasco comercial: ninguém (ingleses, alemães, franceses, italianos…) está interessado em ver um jogo com duas selecções de dois países com pouco mais de 10 milhões de habitantes - Portugal x Grécia... Isso dá menos audiência, menos publicidade e menos receitas televisivas. Neste caso, e por acaso, a Turquia até tem muita gente, mas é gente pobre… É um caso transparente para se deduzir qual o vencedor conveniente para a organização.

Mas o que o futebol tem de atractivo é que, ao contrário de todo os outros espectáculos de televisão, este é em directo e não tem a encenação assegurada. Pode ser que tudo corra como o esperado. Pode ter de se fazer com que tudo corra como o esperado: validando o golo ilegal, invalidando o golo legal, criando oportunidades suplementares de marcar com livres e grandes penalidades, expulsando jogadores adversários*. Mas ainda não se conseguiu arranjar meios de que a bola se mova a gosto da organização…

Em suma, apesar de achar tudo aquilo uma gigantesca fraude, mesmo assim gosto de assistir a alguns jogos, mas apenas para vibrar quando tudo aquilo corre mal para a organização, apesar dos esforços. E hoje, correr mal, é a Turquia passar à Final…
* Para levar a selecção da Coreia do Sul até às meias-finais do Campeonato do Mundo 2002 (de que o páis era co-organizador) houve que fazer disso tudo sucessivamente contra as selecções de Portugal, da Itália e da Espanha…

24 junho 2008

STETTIN / SZCZENIN

From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic, an iron curtain has descended across the Continent*. (…)

Winston Churchill

Esta frase, que hoje se tornou praticamente imortal, encontrava-se originalmente perdida no meio de um interminável discurso que foi pronunciado por Winston Churchill em 5 de Março de 1946 numa Universidade do Missouri, por ocasião de uma graduação honoris causa que o estadista britânico ali recebeu. Em rigor, a Cortina de Ferro a que Churchill se refere naquele discurso não começava em Stettin, mas sim um pouco mais a Ocidente, em Lubeque, uma outra antiga cidade hanseática também do Báltico, a poucos quilómetros da qual passava então a linha divisória que depois viria a ser a fronteira entre as duas Alemanhas (acima).
Mas, ao referir-se naquelas circunstâncias à cidade de Stettin pelo seu nome alemão e não pelo nome polaco (Szczenin) que ela adquirira/recuperara no fim da Segunda Guerra Mundial (que terminara precisamente no ano anterior), Churchill também aflorava o problema do novo traçado das fronteiras germano-polacas que só fora aceite com muita relutância por si na Conferência de Yalta em Fevereiro de 1945. Naqueles anos, nas regiões orientais da Alemanha, em vez do traçado das fronteiras ter em conta a nacionalidade das populações, eram as populações que tinham de ter em conta o novo traçado das fronteiras…
Como se pode perceber pelo mapa acima (que pode ser ampliado), um exemplar usado pelos norte-americanos para estudar a questão do traçado que a nova fronteira germano-polaca poderia assumir, houve regiões onde apenas os seculares direitos históricos** poderiam justificar a sua posse pela Polónia: entre 90 a 100% da população considerara-se alemã no último recenseamento efectuado***. Mas os soviéticos conseguiram que fosse aceite a hipótese de traçado mais lesiva para a Alemanha: a fronteira que, seguindo inicialmente o traçado do Rio Óder, depois continuasse para Sul, ao longo do seu afluente da margem esquerda, o Rio Neisse.

Sobre o traçado dessa nova fronteira germano-polaca (ver mais abaixo), que passou a ser conhecida pelo nome de Fronteira Óder-Neisse, o caso da cidade de Stettin, aparece como uma espécie de cereja em cima do bolo do despotismo com a Alemanha foi tratada durante esses anos: se a fronteira seguisse escrupulosamente o Rio Óder, então Stettin, que se situa na sua margem esquerda, perto da foz, pertenceria naturalmente à Alemanha… Para a fazer polaca houve que forçar a fronteira a inflectir para Ocidente (ver acima) e é assim que aparece a nova cidade de Szczenin (abaixo) que, originalmente, tinha tanto de polaco quanto a ilha de Bornéu
Uma prova de como quase houve uma completa substituição de toda a sua população é a evolução do número de habitantes da cidade que se reduziu desde os 383 000 que lá existiam antes da Guerra (em 1939) até aos 26 000 que lá restavam depois da Polónia ter tomado posse da cidade (acima, em meados de 1945) e que ainda eram apenas 73 000 no ano em que Churchill a ela se referia no seu discurso (1946). Só no quinquénio de 1976-80 é que Szczenin voltou a atingir a população que tivera 40 anos antes!… E esta história do após-Guerra de Stettin/Szczenin é quase idêntica à de outras cidades polacas como Breslau/ Wrocław ou Danzig/ Gdańsk
Oficialmente a questão da fronteira Óder-Neisse está hoje assente, depois da assinatura do Tratado Germano-Polaco sobre as Fronteiras de 1990. Cinicamente, vale a pena recordar que também havia um Pacto de Não Agressão assinado pela Polónia e a Alemanha nazi em 1934, e que ele de nada serviu em Setembro de 1939... A verdade é que as Alemanhas (especialmente a Federal) conseguiram absorver os cerca de 12 milhões de refugiados de Leste e, numa situação de estagnação demográfica desde há 50 anos****, dificilmente precisarão seriamente de qualquer Lebensraum, o tal espaço vital que se tornou um dos melhores soundbites de Adolf Hitler…

* De Stettin no Báltico a Trieste no Adriático, uma Cortina de Ferro desceu sobre o continente (europeu).
** Que agora são negados aos sérvios a propósito do Kosovo.
*** Obviamente que se o recenseamento tivesse sido realizado por polacos, seria provável que os resultados fossem diferentes e aparecessem muito mais polacos, mas não a ponto de se tornarem maioritários. Aliás, os alemães ganharam os referendos populares realizados para a definição das fronteiras em 1919 e 1920.
**** Mesmo contando com o efeito da imigração, a população alemã passou apenas de 70 milhões em 1950 para 82 milhões em 2008.

23 junho 2008

TV NOSTALGIA – 32

Tive dúvidas sobre o título da dar a este poste, mas não as tenho em classificá-lo como uma demonstração de como se pode fazer uma investigação bem sucedida sobre um assunto bem trivial. O início da investigação foi uma série televisiva francesa para adolescentes que terá passado na nossa televisão por alturas de 1974-75. Tratava-se de uma série verdadeiramente kitsch, justamente esquecida, com a canção do genérico a ser cantada por Demis Roussos, a condizer... Chamava-se Le Jeune Fabre.
O que vim a descobrir sobre ela tornou-a muito mais interessante. A série havia sido realizada por uma senhora chamada Cécile Aubry, que no início da década de cinquenta havia sido uma estrela potencial – há quem a considere uma predecessora de Brigitte Bardot! – antes de abandonar a carreira de actriz. Vejam-na nesta fotografia abaixo como capa da Revista Life de Junho de 1950, com as suas bochechinhas de boneca, a fazer-nos lembrar, em mais bonito, Maria de Belém… De qualquer modo, prefiro a BB!
Como acontecera com Rita Hayworth antes dela, que casou com o Príncipe Aga Khan, Cécile também abdicou da sua carreira para casar com o seu príncipe das Arábias, neste caso o filho do Paxá de Marraquexe (cidade de Marrocos), e dedicou-se a escrever para crianças, mais tarde a adaptar os seus livros para televisão, acabando como realizadora de séries infantis. É ela que assina a realização duma série com um pónei de que aqui já falei, chamada Poly que a nossa televisão também transmitiu nos anos sessenta.
Como curiosidade e como se pode ler acima na capa do DVD, nas séries que escrevia e depois realizava, Cécile Aubry habituou-se a dar um lugar destacado de actor ao seu filho, Mehdi El Glaoui. E foi isso que pôde finalmente explicar algo que sempre me havia deixado intrigado na série Le Jeune Fabre. É que, apesar de ser uma série adocicadamente romântica, como era cunho da autora, a submissão ao estilo daquela época obrigava a que se mostrasse também sensível aos problemas sociais, como se pode aperceber pelo episódio abaixo (Um adolescente à procura de emprego).
Mas, por outro lado, mesmo socialmente sensível, sempre me pareceu demasiado precoce que na França de 1973 fosse possível que um jovem com um aspecto magrebino vincado* e com o improvável nome artístico de Mehdi pudesse aparecer como estrela de uma popular série juvenil de televisão, para aquilo que se sabia da tradicional tolerância francesa. Afinal, eram as relações familiares que ajudavam a explicar o fenómeno... Ainda havia de se passarem mais 25 anos para que a França viesse a ter um ídolo nacional incontestado de origem magrebina…

* Aspecto que não tem, por comparação, a actriz Isabelle Adjani, que tem uma idade muito aproximada à de Mehdi El Gloui, também uma carreira precoce, e cujo pai é argelino e a mãe alemã.

22 junho 2008

RAZÕES HISTÓRICAS PORQUE EXISTE UM IDIOMA INTERNACIONAL QUE NÃO SE DESTINA A SER COMPREENDIDO PELAS OUTRAS NACIONALIDADES

Segundo alguns, a causa mais longínqua terá estado numa expedição liderada por Francis Drake que, em 1587, ousou entrar de surpresa pelo porto andaluz de Cadiz e destruiu todos os preparativos navais que ali se faziam para invadir proximamente a Inglaterra (abaixo). Outros asseguram que terá sido a tentativa de invasão propriamente dita, fracassada em 1588, que terá gerado o fenómeno. A verdade é que, à conta daquela humilhação, todos os espanhóis dos finais do Século XVI, em uníssono, terão jurado vingança por eles e pelas próximas vinte gerações para assassinar continuamente o idioma daqueles que os haviam derrotado… E assim surgiu um novo idioma: o inglês de origem castelhana.
Ainda só passaram dezassete gerações depois daqueles acontecimentos e é essa explicação semi-mítica, semi-histórica, para que o idioma inglês, quando pronunciado por um espanhol, tenha aquela sonoridade típica, literalmente única no mundo, porque só eles se entendem entre eles sobre o que estão a dizer, usando uma língua que devia ser de comunicação com outros… O You Tube dá-nos acesso a preciosidades como José María Aznar, José Luis Zapatero e a melhor, a do saudoso Francisco Franco, mostrando como a causa é alheia a ideologias e regimes, todos os espanhóis lutam de forma gloriosa contra o idioma de Shakespeare – pronuncia-se Xeispir no original…

UM BOM NÚMERO

Um bom número o do Público deste Domingo, com alguns textos de opinião muito interessantes. A começar pelo de Jorge Almeida Fernandes (P2, p. 8) sobre um livro a publicar proximamente na Polónia (Walesa e os Serviços de Segurança), onde se defende a tese que Lech Wałęsa, o antigo líder do Solidariedade e também antigo Presidente polaco, foi um informador remunerado dos Serviços de Segurança polacos da era comunista (SB) entre 1970 e 1976. Ao contrário do que costuma acontecer em assuntos assim sensíveis, aqui Almeida Fernandes assume as suas dúvidas quanto à veracidade da tese. Trata-se de um assunto que, não sendo muito importante, é bastante interessante.
Contrasta com um outro assunto que, como desconfio que iremos descobrir no futuro e apesar da ampla cobertura mediática actual, não é interessante, nem será importante: o resultado do referendo irlandês. É o assunto principal de uma entrevista a Vítor Martins, antigo Secretário de Estado da Integração Europeia (p.18) e, implicitamente, da tradicional crónica dominical de António Barreto (p. 45), intitulada Estado da União. Assim como se atribui a Luís XV a famosa afirmação Aprés Moi, le Déluge*, tenho notado em certos vultos da nossa esquerda, uma propensão para uma redacção traduzindo uma visão cada vez mais pessimista dos assuntos que abordam.
Na senda de Medina Carreira, que se especializou em escrever artigos sobre a nossa decadência económica e a nossa incompetência financeira que são capazes de nos deixar a chorar, mas incapazes de nos deixar uma pista do sítio onde poderemos encontrar lenços para secar as lágrimas, agora é vez de António Barreto, cada vez com mais frequência, parecer procurar no que escreve (acontece hoje) uma contundência que parece copiada da de Vasco Pulido Valente: isto é tudo uma merda e está-se mesmo a ver que não há solução possível… Há ali trechos em que, agora referindo-se à Europa, parece que Barreto apenas adaptou uma das suas anteriores descrições deprimentes de Portugal**!
E terminando numa outra questão deprimente, cite-se a intervenção do Provedor do Leitor, Joaquim Vieira, (p. 47), dedicada a uma queixa de Maria Teresa Horta a respeito do conteúdo de um artigo que a menciona no Inimigo Público. Independentemente da nobreza da causa feminista que abraçou e da liberdade da escritora ser como é, de há muito me intriga porque, sendo originalmente O Processo das Três Marias, se acaba sempre por ir dar àquela Maria*** de aspecto sombrio, cara amarrada, nenhum sorriso: um alvo ideal para os humoristas! Agora, ao tratar a piada como se uma notícia séria se tratasse (leia-se a carta que enviou ao Director do jornal), Maria Teresa Horta só adiciona o ridículo ao deprimente…

* Depois de Mim, o Dilúvio.
** (…) A cultura europeia é americana. O trabalho é imigrado. A produção é chinesa. O capital estrangeiro. A economia frágil. A ciência dependente. A tecnologia subalterna. A impotência manifesta. Os europeus não querem correr riscos, nem tratam da sua defesa. (…)
*** Da mesma maneira que me intriga como, havendo imensos Capitães de Abril, costuma dar sempre Vasco Lourenço.

21 junho 2008

O LEILÃO VIRTUAL DA “CARNE PARA CANHÃO”

O episódio que aqui pretendo narrar tem uma data precisa, 8 de Abril de 1945, quase no fim da Segunda Guerra Mundial, passou-se em Berlim no bunker que Adolf Hitler havia transformado no seu Quartel-General, e o narrador (e, ao mesmo tempo, interveniente) do que se passou chamava-se Gotthard Heinrici (abaixo), um nome que será desconhecido para a maioria dos leitores, talvez mesmo para aqueles que se considerem conhecedores dos assuntos da Segunda Guerra Mundial.
Heinrici foi um general alemão que atingiu o topo da carreira militar com a patente de coronel-general mas que nunca gozou das simpatias da hierarquia nazi durante a Guerra, nem, por outro lado, veio a gozar das simpatias dos autores ocidentais depois dela, para serem usados – agora no quadro da Guerra Fria – como exemplo dos generais alemães que se haviam mostrados competentes mas que não haviam sido nazis – como eram os casos de Erwin Rommel ou de Erich von Manstein.

Foi só em 1966, mais de 20 anos depois do fim da Segunda Guerra, que Cornelius Ryan no seu livro A Última Batalha, que relata a conquista de Berlim e os últimos dias de resistência do exército alemão, que a figura de Heinrici veio a ganhar alguma notoriedade. Aliás o episódio a que este poste se refere começou por ser escrito precisamente para esse livro. O coronel-general Heinrici era o comandante do Grupo de Exércitos alemães que defendia a Frente Leste dos Exércitos soviéticos.
Como se pode notar no mapa acima, essa Frente acompanhava praticamente o Rio Óder, e o objectivo da presença de Heinrici em Berlim era o de relatar a situação a Hitler, que estava acompanhado pelos mais altos dignitários militares do regime: Göring, Himmler, Dönitz, Keitel, Krebs, etc. Heinrici não estava preocupado de imediato com as ameaças ao seu Exército que se localizava a Norte: as enchentes causadas pelo degelo da Primavera mantinham um caudal forte no trecho mais a jusante do Rio Óder.

O seu outro Exército (IX), no Sul, é que já perdera essa protecção natural, o que tornava os rios atravessáveis em diversos locais para as unidades blindadas soviéticas. Era de esperar que a próxima ofensiva soviética se concentrasse brevemente naquele local (foi o que veio a acontecer) e não os ajudava nada que o Alto Comando ainda lhes retirasse as poucas unidades móveis em reserva (3 divisões blindadas) para as enviar para a Eslováquia e a Hungria, para o Grupo de Exércitos vizinho, comandado pelo General Schörner (abaixo)…
Escutar tudo aquilo era de mais para Adolf Hitler. Interrompeu Heinrici e, para além de uma elaboração sobre a decadência progressiva da infantaria do Exército Vermelho (composta por forçados recuperados dos campos de concentração e levados para a frente de combate à chicotada…), a opinião de Hitler era completamente diferente sobre quais seriam as intenções do inimigo: os soviéticos não iriam atacar na direcção de Berlim, já que se tratava de um objectivo desprovido de qualquer interesse estratégico…

Os russos iriam atacar na direcção da Saxónia, da cidade de Dresden, a fim de se reunirem no Danúbio aos exércitos soviéticos que atacavam Viena, efectuando uma gigantesca manobra de cerco. É por isso que não alterarei a minha decisão de enviar a Schörner essas 3 divisões blindadas. Ele é que vai precisar delas. Acessória e supletivamente, Hitler também tinha aproveitado a ocasião para promover Ferdinand Schörner (que era um dos seus generais favoritos) ao posto de Marechal-de-Campo…
Mas persistia o problema da falta de reservas que levara ali o general não-favorito… E foi naquele momento que começou o embaraçoso leilão. Primeiro foi Hermann Göring: - Meu Führer, envio-vos para a vossa batalha do Óder cem mil homens da minha Luftwaffe! Depois ripostou Heinrich Himmler: - Meu Führer, envio-vos para a vossa batalha vinte e cinco mil dos meus SS! E Karl Dönitz não lhes quis ficar atrás: - Meu Führer, envio-vos para a vossa batalha doze mil dos meus marinheiros!

Metódico, o Führer fez as contas: 100 000 + 25 000 + 12 000 = 137 000 homens, cerca de 12 divisões. - Eis as suas reservas, coronel-general Heinrici!. O presenteado ainda tentou argumentar que não bastam homens para fazer unidades combatentes: era preciso armamento, enquadramento e treino. A isso, Göring fingiu indignar-se com a pretensa insinuação às capacidades combatentes dos homens da sua Luftwaffe. E Heinrici acabou por calar-se, como o faria numa enfermaria de um hospício…
É evidente que à frente de combate acabaram por chegar apenas uma mísera fracção das dezenas de milhares de efectivos prometidos. É evidente que, mesmo esses, impreparados, foram os primeiros a fugir quando a ofensiva soviética começou – Heinrici guardou o saboroso prazer de o dizer pessoalmente a Göring… É difícil escolher o que terá sido mais penoso em toda aquela cena: se a própria existência do leilão, se o facto de aquilo que se leiloava afinal não existir, se o facto da causa pela qual se leiloava já não fazer qualquer sentido…

20 junho 2008

STRATEGIKON

Strategikon é um livro com 1400 anos que ainda hoje se vende. Trata-se de um Tratado Militar escrito nos finais do Século VI, cuja autoria foi atribuída ao Imperador romano Maurício (539-602). Depois de Vegécio e do seu Tratado de Ciência Militar, que fora escrito cerca de 200 anos antes, trata-se do primeiro livro daquele género que foi escrito por um romano que ainda hoje permanece interessante para os estudiosos. Entre as datas de aparecimento daqueles dois Tratados, a autoridade romana na Europa ocidental desaparecera, o último representante dessa autoridade fora deposto (476), um dos seus homólogos do Oriente, o Imperador Justiniano I (482-565), tentou e conseguiu, ainda que apenas parcialmente, vir a restaurá-la (mapa abaixo).
O Strategikon aparece assim enquadrado por uma fase em que o Império Romano está a regressar a uma atitude táctica globalmente defensiva. Depois da Arte da Guerra de Sun Tzu e de Arthashastra de Kautiliya (ambos do Século IV a.C., o primeiro chinês e o segundo indiano), contar-se-á como o terceiro livro mais importante que a Antiguidade* produziu sobre estratégia. O que o notabiliza em relação a outros textos é a atenção dispensada a análise detalhada de cada inimigo, conforme as características da geografia física das áreas de confronto, as suas tradições militares, o seu armamento favorito e os seus hábitos de combate, abandonando o axioma que as soluções tácticas são universalmente válidas.
Na época de Maurício (acima), o Império confrontava-se com a cavalaria germânica clássica dos visigodos (Espanha), lombardos e francos (Itália), a cavalaria ligeira ultra móvel dos povos das estepes, como os Avaros (Hungria e Roménia), formações mais irregulares, praticamente de guerrilha, como os eslavos (Balcãs), os árabes (Palestina e Síria), os turcos (Cáucaso) ou os berberes (Argélia e Tunísia), ou exércitos tão especializados quanto o seu, como era o caso do da Pérsia (Irão). Embora se deduza que era praticada há muito pelos seus antepassados, é só com o Strategikon que entre os romanos se reconhece teoricamente a existência de uma sociologia, de uma etnologia e de uma geografia de Guerra.
Na continuação do meu poste de ontem sobre Kliment Voroshilov, não resisto a fazer aqui um intervalo mais ligeiro para comparar a importância de Strategikon com a obra máxima do pensamento do distinto militar soviético, que se intitula A Defesa da URSS, escrita em 1937. Também escrita para ele e classificada da sua autoria como acontece com o Strategikon e Maurício, com quase 700 páginas, o livro contém artigos que logo a menção do título reconforta como A União do Exército Vermelho com o Povo, O Cavalo e o Automóvel, A Difamação Imperialista ou Por um Gado Maior, Por um Bom Cavalo!. A estupidez pode ser infinda, até a escolher temas sobre o que outros escreverão em nosso nome!
Na biografia de Maurício, além da reputação (imerecida?) de um dos maiores teóricos de estratégia da Antiguidade e da (merecida) de um excelente general e de um bom político, fica-lhe a mancha de não ter antecipado o erro político que veio a constituir a redução em cerca de 25% das remunerações dos militares, a insurreição que se lhe seguiu, e que lhe veio, aliás, a custar o trono e a vida em 602. Com a morte de Maurício, desapareceu a última chancelaria imperial romana que fazia coexistir o latim e o grego como línguas de trabalho. Ao renunciar ao primeiro idioma, a administração do seu sucessor anunciava também a renúncia a um objectivo estratégico e a toda uma Era da História da Europa…

* Embora formalmente se considere que a Antiguidade tenha terminado em 476 d.C., a ideologia subjacente à redacção deste Tratado, a da existência de um Império Romano universal, fá-lo pertencer inteiramente ao período da Antiguidade.