Depois das indignações antifascistas nas redes sociais do fim de semana transacto terem ficado muito aquém do esperado por dispersão por outras causas indignantes como os incêndios, no fim de semana que se aproxima poder-se-á assistir a uma transição das atenções - e indignações - eleitorais da Áustria para a vizinha República Checa. Ao contrário do primeiro caso, neste segundo país que vai a votos no próximo fim de semana, o panorama partidário é mais repartido e não existe um grande partido fascista (FPÖ) que recolha 27% dos votos, daqueles onde apeteça malhar, para recuperar a inolvidável expressão de Augusto Santos Silva. O melhor que se pode arranjar para as franjas anti-sistema é um médio partido comunista (KSČM, que recolheu quase 15% dos votos nas últimas eleições), mas que são comunistas daqueles puros e duros como o pessoal do Avante! gosta, que nem levam a mal aquela invasãozinha de 1968; e ainda um menor partido de extrema-direita denominado SPD, que resulta de dissidências noutras formações, que se vai estrear em eleições e cujas sondagens (acima) atribuem um resultado abaixo de 10% mas seguramente com representação parlamentar. Como o exotismo parece impregnar a extrema-direita europeia moderna, com uma profusão (nunca devidamente realçada) de lésbicas e homossexuais entre os seus dirigentes, também aqui no SPD checo, formação nacionalista e mesmo xenófoba, se exercita o paradoxo de ser liderado por alguém de ascendência mista: checa e japonesa. Mas o aspecto mais interessante das eleições que se aproximam relaciona-se com o partido que tem liderado as sondagens, o ANO 2011, e o seu líder Andrej Babiš. Este último apresentar-se-á às eleições já depois de ter sido formalmente acusado de fraude na obtenção de subsídios comunitários, o que aconteceu no princípio deste mês. Para isso acontecer, no mês anterior, havia sido o parlamento checo a despojá-lo da imunidade parlamentar. E, para quem considerasse que tudo isto não passava de uma manobra de baixa política de última hora, constata-se que a investigação já datava de 2015 e que envolvia desde o princípio o próprio Organismo Europeu de Luta Antifraude. Se na imprensa internacional há quem compare Andrej Babiš a Sílvio Berlusconi ou a Donald Trump, prefiro recorrer a um outro exemplo mais doméstico, e constatar que a República Checa se arrisca a transformar-se num gigantesco concelho de Oeiras, elegendo um escroque ao jeito de Isaltino Morais para a dirigir. Estou para apreciar como será o volume de indignação das redes sociais a respeito do resultado das eleições checas, quais são as prioridades de quem se indigna: um aldrabão ou um fascista?
18 outubro 2017
17 outubro 2017
PELO PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DA OFENSIVA PARA A LIBERTAÇÃO DE MOSSUL
17 de Outubro de 2016. Ao raiar da aurora de há um ano começava finalmente o assalto para a conquista da cidade iraquiana de Mossul. O que se seguirá nos nove meses, até Julho de 2017, não terá sido uma paródia de guerra como a do Solnado, mas terá sido decerto uma paródia de cobertura informativa de uma guerra, à qual dediquei, de resto, dois postes troçando da falta de escrutínio e de profissionalismo dos meios de informação quanto ao que por lá se estava a passar: em Fevereiro e Junho deste ano. A ironia dos tempos modernos é que, ao contrário do que acontecia antigamente, a informação deixou de ser secreta, aparece aí totalmente disponível para os interessados. Uma consulta à Wikipedia mostra que os atacantes de Mossul dispunham de uma superioridade numérica sobre os defensores de 8 a 10 para 1. E, contando com o apoio aéreo dos países ocidentais aos iraquianos, o poder de fogo de cada um dos contendores acentuaria ainda mais a desproporção entre os beligerantes. Contudo, não me recordo de ouvir qualquer dos nossos especialistas mediáticos no tema acompanhar-me no cepticismo quanto ao muito fraco empenho que as forças atacantes estariam a pôr na operação que justificasse, ao menos, que toda essa superioridade humana e material não se concretizasse em resultados. O número de baixas sofridas pelos atacantes no final da operação, um máximo de 1.500 mortos e de 7.000 feridos ao longo de nove meses, parece confirmar essa asserção que havia muita propaganda, mas pouca gente disposta a morrer por Mossul. Não fora assim e nove meses de encarniçados combates ter-se-iam transformado naturalmente num épico, uma espécie de Stalinegrado do Médio Oriente (cidade pela qual se combateu durante cinco meses e meio). Para sintetizar e simbolizar a atitude dos atacantes, que mais do que combatê-los, estiveram à espera que os seus inimigos se aborrecessem e se fossem embora, encontrei a fotografia acima. Evidentemente encenada, aos dois combatentes não parece faltar armamento, nem equipamento: duas armas para cada um (num dos casos um RPG), colete e estojo de primeiros socorros, a pose marcial e aguerrida acaba estragada pelo alçar da perna de um deles, deixando ver uma sapatilha, que estes guerreiros modernos devem ter uns pés sensíveis, a quem as tradicionais botas militares fazem muitas bolhas...
OS LOUROS DE CÉSAR (44)
Encontram-se frequentemente pelas redes sociais reacções como a adoptada por Homeopatix: diante da evidência, guardam uns últimos comentários sobre o acessório, convencidos que, fazendo-o, não se perceberá tanto a enormidade do desfecho. Esta história deixa, porém, um óbvio Post Scriptum por contar: o que terá acontecido a Abraracourcix quando Bonemime descobriu que ele lhe havia sovado o irmão...
16 outubro 2017
EVOCAÇÃO COMO SE FOSSE «AREIA NA GERINGONÇA»
Porque isto é um blogue, ainda se vai a tempo de, a pretexto dos resultados das últimas eleições autárquicas de dia 1, se invocar a vitória do PS em Almada e exibir em contraponto uma notícia do Verão Quente do PREC, a dar conta precisamente de um boicote a um comício desse mesmo partido em Almada, estava-se a 22 de Julho de 1975. «Marcelo Curto, do Secretariado do PS, começou a falar, mas não chegou ao fim do seu discurso». «Assobios contínuos e gritos de "abaixo a reacção" impediram (...) um comício do PS que estava a decorrer ao ar livre, junto da Sociedade Incrível Almadense.» «O comício dever-se-ia realizar no salão da Sociedade (...), mas em face dos acontecimentos do último fim de semana e de ameaças de boicote, aquela colectividade resolveu não ceder a sua sede, por recear (...) que resultassem prejuízos nas suas instalações». Percebe-se que, a bem do funcionamento da geringonça, o PS registe vitórias eleitorais como a que obteve em Almada com a atitude o mais descomprometida possível. Mas haverá uma franja muito limitada dos que ainda guardarão memória de como era o ambiente político de há 42 anos ali para as bandas de Almada e que quererão e se disporão a interpretar a risadinha de Inês de Medeiros abaixo de uma maneira (para eles) muito pessoal.
15 outubro 2017
AS INDIGNAÇÕES ANTIFASCISTAS EXIBEM-SE EM ESCALA SUPORTÁVEL E APENAS NOS PAÍSES CONVENIENTES
As eleições legislativas austríacas tiveram lugar hoje e os resultados vão-se saber daqui a um bocado. As últimas sondagens davam maioritariamente a vitória aos conservadores do ÖVP (~32%), mas a grande surpresa era o potencial segundo lugar que poderia ser alcançado pelo FPÖ de extrema-direita (~26%) que ultrapassaria o SPÖ (~24%), o outro partido histórico austríaco, de cariz social-democrata. As estimativas, como se percebe pelo gráfica acima, resultam das sondagens dos últimos 15 dias. E o que é que, nas redes sociais, a esquerda activamente preocupada, se tem falado nisso? Onde é que pararam os ultrajes pré-eleitorais equivalentes aos manifestados no princípio deste ano a respeito de Marine Le Pen (em França) ou de Geert Wilders (na Holanda)? Não dei por eles, o que é tanto mais estranho quanto a votação que aparece prevista para o FPÖ (26%) corresponde ao dobro da que foi alcançada pelo PVV na Holanda ou, mais recentemente, também pela que foi obtida pelo AfD na Alemanha. Ou seja, se há país europeu onde a extrema-direita tem uma posição das mais reforçadas é a Áustria. Mas nunca se fala nisso... nem sequer se admite uma piadita sobre as origens (austríacas) de Adolf Hitler.
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O MSU «TORNA A ATACAR»
Edição do Diário de Lisboa de 15 de Outubro de 1977. Para aqueles que já se estivessem esquecido daquilo que era o MSU e do que eles haviam dito há dois meses, o grupo de amigos tornava a atacar, com a colaboração de sempre do vespertino pró-comunista. Se no Verão a «análise» fora sobre «a situação política», no Outono o mesmo exercício incidia agora sobre a «crise política». A situação descambara numa crise. Os factos viriam a provar que os analistas do MSU tinham razão. A crescente fragilidade manifestada pelo executivo socialista (minoritário) de Mário Soares farejava-se no ar. Nessa semana que então terminava - 15 de Outubro de 1977 foi um Sábado - o facto político assinalável fora a demissão de José Medeiros Ferreira, ministro dos Negócios Estrangeiros que, quiçá por causa do seu faro, abandonara o navio. Quanto ao resto do governo, tudo se irá precipitar na derrota da votação de uma moção de confiança que o próprio executivo apresentará na Assembleia da República daí por menos de dois meses (8 de Dezembro). Mas, nem mesmo a presciência a respeito do que não passariam dos incidentes normais da vida de uma democracia parlamentar normal pareciam ter a capacidade de temperar a linguagem de pau deste clube de intelectuais já nosso conhecido (Vitorino, Hasse Ferreira, Brandão de Brito ou Rui Namorado), clube que possui a virtude de, erigido em sigla a quem os jornais davam toda esta notoriedade, nunca ter tido a ousadia de submetê-la ao escrutínio do voto popular. Actualmente, o Daniel Oliveira ou a Raquel Varela não precisam de nenhuma sigla: fazem a festa sozinhos.
A Comissão Política Nacional do Movimento Socialista Unificado esteve reunida nos dias 8 e 9 do corrente, analisando a crise política e económica, o endurecimento e o reforço das posições dos partidos da direita a que chama «a desagregação do Governo do PS e do seu apoio partidário». Sobre estas questões, o Secretariado Nacional do MSU divulgou um comunicado onde, depois de sublinhar que a estratégia do Governo, de combater primordialmente combater o défice financeiro, nomeadamente da balança de pagamentos, não conduziu a qualquer recuperação económica significativa, antes se tendo agravado as dificuldades já existentes que os «pacotes» 1 e 2 não superaram, se acusa a política do FMI de «apontar para a deterioração das condições de vida dos trabalhadores», preconizando «o reforço da dependência face ao estrangeiro e do comprometimento da independência nacional através da contenção do desenvolvimento económico e da opção preferencial de saneamento financeiro».
Segundo o comunicado, com as tentativas de aniquilamento dos sectores público e nacionalizado, sob a égide do FMI, «o Governo PS reinstala o capitalismo de miséria e reconduz o País à dependência dos grandes exploradores nacionais e do imperialismo».
Para o MSU, «uma alternativa de direita ao actual Governo do PS, além de claramente contrária aos interesses dos trabalhadores, rompe definitiva e formalmente o compromisso eleitoral do PS e conduz inevitavelmente à agudização dos conflitos sociais e da repressão».
O MSU considera igualmente que «uma solução política de tipo presidencialista, que passe eventualmente pelo papel determinante da instituição militar, ainda que aparentemente exequível é ilusória e abre o caminho a soluções autoritárias de direita».
O comunicado do MSU conclui com a afirmação de que «só defendendo o projecto constitucional e as conquistas populares do 25 de Abril, a prática da unidade de classe na luta sindical e a unificação política das forças genuinamente socialistas é que é possível oferecer uma frente de resistência à política da burguesia e construir no concreto uma alternativa de Poder político, económico e social que viabilize a transição para o socialismo, aspiração justa e actual da maioria do Povo Português».
OS LOUROS DE CÉSAR (43)
Um pormenor que cada vez se torna mais perceptível, mesmo à medida que as histórias de Astérix se tornam mais sofisticadas, é que Goscinny continuará a nem sempre planificar de antemão a evolução dos seus argumentos para que coubessem nas 44 pranchas canónicas para os álbuns de BD deste género. Já o havíamos assinalado com A Volta à Gália e também neste caso d'Os Louros de César é evidente a compressão do ritmo dos acontecimentos no final das histórias para que tudo possa acabar com o tradicional banquete na página 44. Resta o indispensável para que o argumento flua e alguns gags, a ironia do gajeiro negro e o instinto quase sobrenatural de Júlio César. Por falar nesse aspecto, a associação do seu pensamento dever-se-á ao facto dos franceses utilizarem frequentemente o funcho para condimentar o peixe grelhado.
14 outubro 2017
O MEU AMIGO PODE FAZER AS PERGUNTAS QUE QUISER...
Embora possa ser uma opinião minoritária, até há que admitir razões para que José Sócrates se tenha sentido incomodado com a pergunta que Vítor Gonçalves lhe endereça - Hoje, como é que o senhor vive, como é que o senhor paga as suas despesas? Descontada a exaltação, compreendo a resposta de José Sócrates (aos 0:12): - O que é que o senhor tem a ver com isso? O que eu já não compreendo é como toda aquela exaltação se esvai num minuto e de enfiada está a tratar o entrevistador por meu caro amigo (aos 1:22). Teria sido a ocasião mais propícia para que Vítor Gonçalves esclarecesse o seu entrevistado que era apenas um jornalista encarregue de o entrevistar. Responder-lhe qualquer coisa como: - Mas eu não sou seu amigo, estou aqui apenas para lhe fazer perguntas, algumas das quais já se percebeu que não gosta. É uma pena, mas compreende-se que tenha faltado a Vítor Gonçalves o espírito repentista para devolver a José Sócrates o distanciamento que ele impusera apenas um minuto antes. Afinal, Portugal é um país pequeno, não pode competir com outros países maiores que exibem entrevistadores com uma outra categoria. Mesmo assim, e observando o erro cometido com a referência à pensão (acima, aos 0:40, Gonçalves antecipou-se a Sócrates e deu a este último mais um bónus), creio que em Portugal há capacidade para encontrar entrevistadores mais qualificados do que Vítor Gonçalves...
QUANDO OS ADVOGADOS PRETOS DE WASHINGTON PASSARAM A SER IGUAIS AOS BRANCOS
14 de Outubro de 1958. Aquilo que equivalerá à Ordem dos Advogados do Distrito de Colúmbia (onde se situa a capital norte-americana de Washington) pronuncia-se favoravelmente quanto à aceitação de futuros membros de ascendência africana. O facto é tanto mais notável quanto mais de metade da população da cidade (à época, rondando as 750.000 pessoas) era de ascendência africana. E tanto mais notável também, porque o processo histórico de constituição dessa comunidade afro-americana de Washington a tornava distinta dos estados (esclavagistas) circundantes: o comércio de escravos fora proibido no Distrito desde 1850, e em 1861, quando da tomada de posse de Abraham Lincoln, entre 75 a 80% da população de ascendência africana da capital era composta por cidadãos livres. Nem mesmo essa génese distinta servira para atenuar as consequências da discriminação racial. Esta discriminação concreta para com os advogados negros na própria capital do país, que ainda se mantinha em vigor quase 100 anos depois da emancipação dos escravos promulgada por Lincoln, mostra à evidência o quanto a discriminação racial se perpetuava diante dos sucessivos presidentes que, depois dele, ocuparam a Casa Branca.
...A 9,98 O PAR
Agora que se aproxima o Outono será sempre boa ideia resguardá-los, necessariamente aos dois, que esta inventividade do marketing de adulterar os preços para os tornar mais atractivos tem vezes que resulta absurda. Qual o sentido de alguém se passear com um resguardado e outro desprotegido?...
13 outubro 2017
CENTENÁRIO DA SEXTA E ÚLTIMA APARIÇÃO DE FÁTIMA
Sábado, 13 de Outubro de 1917. Por uma última vez e dessa vez perante uma multidão que foi contabilizada em dezenas de milhares de pessoas, ter-se-á registado um fenómeno sobrenatural com o Sol. O que terá tornado o episódio ainda mais notório foi a presença entre a multidão de jornalistas propositadamente ali destacados para a cobertura do acontecimento - acima, a primeira página da edição de Segunda-Feira seguinte do matutino lisboeta O Século. Há tantas opiniões sobre Fátima que eu não sinto necessidade de ter alguma, presumo-me eclético a respeito do que aconteceu e aceito como plausível muito do que se diz sobre o assunto, tanto o que foi escrito pelo historiador passista Rui Ramos, como comentado pelo economista comunista Sérgio Ribeiro. Aqui, limito-me a assinalar o centenário do último acto dos eventos que têm hoje uma relevância social indiscutível.
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OS LOUROS DE CÉSAR (42)
Confesso que, desde que li esta história pela primeira vez, me intrigou a questão da permuta da coroa de louros pela coroa de funcho. Se haveria algum significado mais profundo na escolha do funcho como substituto do louro, para além das disponibilidades momentâneas da despensa do taberneiro. Segundo vim a descobrir muitos anos depois, já nesta era da internet, a coroa de funcho seria, para os romanos, um sucedâneo muito inferior à de louros, era atribuída aos melhores gladiadores.
12 outubro 2017
«MENINO DE OURO» MAS TAMBÉM DE OUTRAS DIVISAS...
Segundo o despacho de acusação do ministério público, que apareceu finalmente concluído depois de rebentar todos os prazos a que se comprometera (abaixo), o menino não era apenas de ouro mas seria também de euros, de dólares, não surpreenderia que fosse até de bitcoins, conhecida a predilecção de José Sócrates pela novas tecnologias - eu ainda não me esqueci do seu boneco do contrainformação a repetir incessantemente «Eu adoro tecnologia aos saltos!». Mas o que se tornará interessante nos dias que correm será ouvir a autora d'O Menino, a jornalista Eduarda Maio, para contraponto entre o que consta daquela sua biografia tão elogiosa de 2008 e esta outra biografia mais recente de 2017, que foi coordenada por Rosário Teixeira. A não ser que a Eduarda Maio se ande a fazer propositadamente pequenina, como tantos outros amigos do antigo primeiro-ministro, do tamanho da letra em que acima aparece redigido o panegírico que acompanhava a sua obra magna.
O CONSPIRADOR QUE TINHA UMA FORMA DEMASIADO INTELECTUAL DE SE EXPRIMIR
A aventura denomina-se O Daily Star e o protagonista é Lucky Luke. Mas a personagem mais interessante da história é John Fenweek, o merceeiro de Dead End City, um dos vilões pertencentes às forças vivas da sociedade civil que as denúncias do primeiro jornal da localidade vão incomodar. Ao contrário dos seus colegas de conspiração (o dono do saloon e o cangalheiro), Fenweek vem a revelar-se um verdadeiro intelectual - até usa óculos! - na forma como expõe as suas ideias, embora nem sempre da forma mais conseguida tendo em atenção a obtusidade do auditório. E tudo isto aconteceu antes (1984) do aparecimento das redes sociais... Nestas é que é pertinente, mas dá muito trabalho escrever o comentário: não percebi nada do que você escreveu, explique-se de forma a que nós entendamos.
11 outubro 2017
A EVOLUÇÃO DA CIVILIDADE DA RELAÇÃO ENTRE OS ESPECTADORES E AS EMISSORAS DE TELEVISÃO
Nestes tempos mais próximos em que, celebrando-se os 25 anos de emissões da SIC, se assinala também a inauguração das emissões de televisão privada em Portugal, permitam-me esta evocação acima da televisão a preto e branco de antanho, em que havia a cortesia de pedir desculpa ao espectadores pelas vicissitudes da programação.
Com as emissoras actuais, os incidentes são tão quotidianos como seriam as interrupções de outrora, seja agora pelo conteúdo comprovadamente imbecil das mensagens (acima), seja pela enormidade embaraçosa dos erros de ortografia praticados (abaixo), só que agora não parece valer a pena que alguém peça desculpa pelo sucedido.
As faltas que antigamente era atribuíveis à técnica, hoje deixaram de o poder ser. São pessoais e têm responsáveis, mas não é só isso: há também a arrogância implícita na atitude. E o preço paga-se. Nos raros casos em que as televisões se vêm obrigadas a prestar contas, como aconteceu no caso abaixo, em que o convidado Pedro Santana Lopes...
...se queixou em directo do tratamento displicente que lhe fora dispensado durante a entrevista que lhe estavam a fazer (acima), as explicações do director da estação Ricardo Costa (abaixo), para além da sua completa falta de substância (está a responder a alhos com bugalhos*), dirigiam-se a um ambiente de espectadores que lhe era hostil.
* O fulcro da questão é que a «reportagem» que interrompeu a entrevista de Santana Lopes foi uma reportagem totalmente falhada. Invocando a chegada de José Mourinho ao aeroporto para a interrupção, desta só se vê por alguns minutos imagens atabalhoadas do famoso treinador a entrar para uma viatura... Dispensando-se a SIC de pedir desculpa aos espectadores pelo fiasco, seria de bom tom pedi-las ao menos ao seu convidado a quem interrompera a entrevista por causa desse mesmo fiasco...
PAIRANDO SOBRE PREVISÕES PROFÉTICAS ou NEM SÓ O AMOR É FODIDO
Parafraseando Miguel Esteves Cardoso, não é apenas o amor que é fodido, uma boa memória em política também...
10 outubro 2017
«NÃO SERVIMOS PRETOS, MESMO QUE ESTEJAM BEM VESTIDOS E MESMO ATÉ QUE SEJAM MINISTROS...»
10 de Outubro de 1957. Três dias antes, dois clientes negros, apesar de impecavelmente vestidos, não foram devidamente atendidos num restaurante de Dover, a capital do pequeno estado norte-americano do Delaware. Nada haveria de notável em tal incidente se aquele cliente, a quem serviram o sumo de laranja só na condição de o levar, porque não o deixavam consumi-lo no local, restrito à frequência só de brancos, não fosse o ministro das Finanças do Gana. Esclareça-se que o Gana era então um país africano recente (tornara-se independente há apenas sete meses), mas não se pode deixar de compreender a reacção ofendida ao insulto de Komla Agbeli Gbedemah (assim se chamava o ministro), quando deixou no balcão o sumo, o troco, um comentário altaneiro sobre o estatuto social da clientela que ele via a ser atendida quando em comparação consigo, e finalmente a promessa de criar uma verdadeira tempestade diplomática por causa daquilo que acabara de acontecer. Cumpriu a promessa e beneficiou do momento, acertando em cheio nas virilhas da diplomacia americana que vivia então um momento intensamente pan-africano, pressionando todos os países com colónias africanas em conceder-lhes a independência o mais brevemente possível. Mas, se isso era a fachada da política externa dos Estados Unidos, em contraste e dentro de portas, o americano médio, neste caso o do Delaware (que fora um estado esclavagista até 1865), continuava com a sua prática de discriminação racial de sempre. O episódio tornou-se um escândalo muito inoportuno porque expunha toda a hipocrisia da atitude norte-americano em relação aos africanos e foi preciso mobilizar os bons ofícios do próprio presidente Eisenhower que convidou, há precisamente 60 anos, o ministro ofendido para um pequeno-almoço de desagravo na Casa Branca, consigo e com o vice-presidente Richard Nixon: sumo de laranja e também ovos com bacon. Isto era no tempo em que o presidente dos Estados Unidos, apesar de também passar muito do seu tempo a jogar golfe, ainda era útil nestas ocasiões porque tinha maneiras e sabia ser simpático...
Quanto ao ministro Gbedemah, que acima vemos ao lado esquerdo do líder ganês Kwame Nkrumah durante o discurso que este último profere por ocasião das cerimónias da independência a 6 de Março de 1957, esclareça-se que a sua carreira política vai ser encurtada - terminou em 1961 - por um conflito de personalidade com Nkrumah, nomeadamente por causa do despesismo faraónico pelo qual este último ficou conhecido. Acho esta última nota estranhamente oportuna no dia em que Pedro Santana Lopes se apresta a concorrer à liderança do PSD... Isto é coisa para os militantes do partido reflectirem, mas preparemo-nos para assistir a algumas cambalhotas argumentativas muito divertidas a propósito das virtudes políticas da austeridade que a geringonça não podia deixar de cumprir...
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FÚRIA AZUL
O fenómeno, afinal, parece que não se cinge aos comunistas. Se estes últimos, mesmo depois de sair do partido, não conseguem que (a rigidez d)o partido saia de dentro deles, para aqueles que iniciaram a sua vida pública integrando e depois dirigindo claques de futebol, mesmo depois de abandonar as lides futebolísticas continuam a comportar-se como se por lá permanecessem. Esta ideia do porta-voz do CDS e antigo dirigente da claque Fúria Azul (e de Os Belenenses) de «subir a fasquia» e colocar o seu partido a «assumir-se como alternativa ao governo» não passaria pela "cabeça de um careca". (Comprovadamente, passa pela cabeça de quem foi dotado de uma generosa trunfa...) Parece um daqueles comentários que, dito convictamente, poderá entusiasmar a claque - o Belenenses vai ganhar por 5-0! - mas que, naturalmente, provoca o gozo de todos os outros assistentes que percebam um mínimo de futebol. Pobre João Almeida! A abstracção do que possa ser um discurso político inteligente estará muito para além dos limites da sua compreensão...
OS LOUROS DE CÉSAR (41)
Notável a cena abaixo, cinematográfica e do âmbito do género do terror humorístico, quase podemos imaginar a câmara a aproximar-se subtilmente dos "actores". Muito bem a tradução portuguesa a adicionar aquele retoque tipicamente nosso do emprego da expressão "olhinhos".
09 outubro 2017
UMA MARCA COM PASSADO E «PROMETIDA» PARA O FUTURO
No filme Blade Runner 2049 torna-se perceptível, numa determinada cena, que a viatura do detective protagonista é um Peugeot. Há uma maldição que está associada às marcas que foram promovidas na versão original do filme de 1982, muitas delas acabaram por falir nos anos subsequentes, mas nem foi propriamente nisso em que pensei quando reparei no nome da construtora francesa. A associação que fiz foi, confesso, um pouco mais rebuscada, ao lembrar-me que o último (e único) detective policial californiano que eu conheci que mostrava apreciar aquela mesma marca de automóveis fora o tenente Columbo, que conduzia um Peugeot 403 cabriolet em estado calamitoso.
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